De Bar em Bar entrevista Mark Charan Newton.

Mark Charan Newton nasceu em 1981 e formou-se em Ciências Ambientais. Depois de trabalhar vendendo livros, passou a ocupar funções editoriais em publicações voltadas a filmes e ficção na mídia, e posteriormente Fc e fantasia. Sua primeira publicação numa grande editora foi Nights of Villjamur, pela Tor UK (Pan Macmillan) e Spectra (Random House) nos EUA. A respeito da continuação, City of Ruin, China Miéville disse: "Newton usa muita paixão e comprometimento para mesclar criações vívidas e estranhas com preocupações fortes e reais."Mark atualmente mora e trabalha em Nottingham. Visite seu site: http://www.markcnewton.com

Quando o torvelinho provocado pela mudança de realidade terminou, encontrei-me numa espécie de descampado com mata esparsa e rasteira, além de algumas árvores mais próximas, com ramos distorcidos e nenhuma folhagem. Noite escura e brumosa, fria, ventos súbitos faziam rodopiar uma garoa forte.

Olhei para mim mesmo e me surpreendi. Estava vestindo um longo casaco, calças de brim folgadas e gastas, botas, chapéu e o mais surpreendente: um cinturão com dois revólveres nos coldres.

Levei as mãos em concha para os lábios e soprei ar quente nelas, tentando aquecê-las um pouco. Ao lado, uma estrada barrenta marcada por sulcos profundos que me fizeram pensar em rodas de carroças. Suspirei e fui em frente, me desviando das poças, torcendo para descobrir alguma coisa; talvez uma cidade, talvez um povoado.

Não andei mais que cinquenta metros e então parei surpreso com a visão que se oferecia a mim. Havia uma ravina e, descendo os olhos por ela, apesar da garoa e da bruma, vi o que pareciam ser inúmeras casas. O terreno recoberto por outeiros exibia uma cidade bizarra. Casas de todos os tipos e tamanhos. Prédios com poucos andares… Todos ocupando lugares ora mais altos, ora mais baixos e ziguezagueados por ruas e vielas estreitas que subiam e desciam obedecendo ao terreno acidentado.

Ao final da ravina se erguia um promontório escarpado. Nele se espalhavam cavernas iluminadas, todas elas interligadas por corredores construídos com toras de madeira que formavam um mosaico intrincado de passagens.

Lamparinas, às centenas, nas casas e prédios, nas ruas e vielas. No escarpado também. Espalhadas pelos corredores e pelas cavernas. Todas juntas ofereciam uma iluminação baça, bruxuleante, que se agitava à menor aragem.

Levei as mãos ao rosto para retirar o excesso de água que uma lufada contrária de vento atirou contra mim. Antes de prosseguir vi um garoto. Alguns metros adiante, ao lado do caminho enlameado, olhando para mim com uma expressão vazia. Tentei imaginar quem era e o que fazia ali e, principalmente, se podia me ajudar, mas antes de qualquer coisa ele desapareceu como por encanto, deixando em seu lugar um vazio súbito, logo preenchido pela garoa.

Tentei não me preocupar com isso. Talvez uma visão, talvez um fantasma, talvez uma distorção qualquer de realidade. Voltei a olhar para a ravina e dei de ombros. Se era lá em baixo que Mark Charan Newton estava, então era para lá mesmo que eu iria.

Poças d’água se espalhavam e qualquer tentativa de evitá-las restava infrutífera. Escutei conversas abafadas. Entre várias construções cujos eirados acumulavam barro, vi um Saloom. Diante dele, sob a chuva, duas parelhas de cavalos agitavam as caudas com impaciência.

As ruas eram tão estreitas que para passar pelos cavalos eu teria que ou enxotá-los para o lado, ou passar por baixo deles. As casas de madeira, construídas umas grudadas nas outras, espremidas, fazendo retorcer suas extremidades, rachando a madeira. Janelas e portas fechadas, mas frestas nas paredes exibiam a tênue iluminação interior.

Subi ao eirado do Saloon, bati as botas no chão para me livrar de boa parte da lama e empurrei a porta vai-e-vem, entrando.

Não havia mais que uns doze homens lá dentro. Dois no balcão do bar e os outros sentados diante de mesas, ora jogando cartas, ora bebendo e jogando conversa fiada fora. Viraram-se assim que entrei, calaram-se e olharam para mim, avaliando-me, levemente surpresos. Depois voltaram à rotina, me ignorando.

Aproximei-me do balcão. O barman se aproximou ressabiado e perguntou-me o que queria beber. Enfiei uma das mãos no bolso do casaco e encontrei algumas moedas em meio a um monte de balas. Coloquei uma delas no balcão e pedi um uísque. O barman olhou da moeda para mim e depois para a moeda de novo. Entendi o recado. Juntei outra moeda a primeira e ele então me serviu a bebida. Peguei o copo e me virei para procurar quem em buscava. Mas Mark não estava lá.

Tomei a bebida de um gole só, como fazem os brutos. Soltei fogo pelas ventas, queimando até a alma por causa daquele uísque vagabundo.

— Você sabe onde posso encontrar Mark Charan Newton? – perguntei ao barman.

Pela segunda vez todas as vozes se calaram no saloom. Os homens voltaram-se na minha direção, olhares perplexos e assustados. O barman arregalou os olhos e quase deixou cair o copo que segurava. Depois se afastou, nervoso, para o outro lado do bar. O homem que estava ao meu lado se aproximou e falou comigo entredentes.

— Ninguém procura por ele. Nunca. Ninguém quer vê-lo. Ninguém quer encontrá-lo. Ninguém quer saber dele. Todos o temem. Ele não pode ser encontrado, jamais. Mas encontra quem ele quer e quando quer.

— Há uma entrevista agendada. Preciso encontrá-lo.

Os risos se alargaram no salão. Alguns homens engasgaram na bebida. O barman me lançou um olhar furtivo e sorriu disfarçadamente.

— Uma entrevista com o próprio demônio, é? – perguntou o homem, dando-me um cutucão nas costelas. – Vê-se que você é mesmo um forasteiro. Só um idiota completo sairia por aí procurando ele. Não é homem, entende? Não é uma criatura feita do barro divino. Não se trata de carne e ossos, mas de sombra e angústia. Consegue me entender?

— Acho que não estamos falando da mesma pessoa – eu disse meio confuso com aquela conversa. – Mark Charan Newton é um escritor.

— Hmmm… Para uns é isso, para outros é aquilo. Ele atrai as moscas para a sua teia com artifícios diferentes. Se para você ele é um escritor, tudo bem. Vá, saia e o procure. Mas faça uma boa oração antes e entregue sua alma para Deus. Para que ela não erre o caminho e acabe parando em um lugar amaldiçoado.

O homem se afastou de mim. Os demais voltaram aos seus afazeres.  Vi-me sem alternativas senão sair e ir em busca de quem viera entrevistar. Fosse homem ou fosse qualquer outra coisa. Eu conhecia muito bem o mecanismo de meu relógio quântico e sabia que jamais sairia daquele cenário até que lhe fizesse a última e derradeira pergunta. Já acostumado aos perigos que aqueles encontros provocavam, inflei o peito e mergulhei na noite brumosa de garoa intensa e ventos traiçoeiros.

Chapinhei por algumas vielas. Em alguns trechos eu podia tocar paredes opostas apenas esticando os braços. De repente escorreguei num declive, patinando na lama. Adernei para a esquerda tentando me equilibrar, mas não tive sucesso. Antes de cair sentado numa poça d’água, vi o mesmo menino na soleira de uma porta, encostado a ela, olhando-me com a mesma expressão vazia.

Quando me levantei ele já havia desaparecido. Praguejei a falta de sorte, sentindo parte do traseiro todo molhado. A outra parte fora protegida pelo casaco. O chapéu torto na minha cabeça. Quando fui arrumá-lo, um tiro o fez sair voando, aos rodopios. Soltei uma exclamação de assombro, com o coração aos saltos. Virei-me rápido e o vi.

Um homem parado a cerca de vinte metros. Protegido pela sombra que ele mesmo parecia produzir. Mesmo os candeeiros próximos não tinham força para iluminá-lo.

Agachei-me cautelosamente para apanhar o chapéu, sem tirar o homem de vista. Ele ainda se mantinha armado, apontando o revolver em minha direção. Não podia ser Mark Charan Newton. Ou podia?

— Você está me procurando? – ele perguntou, a voz gutural.

— Você é Mark Charan Newton? – inquiri, enquanto vestia o chapéu.

O homem pareceu refletir por poucos segundos, depois girou a arma na mão e a guardou no coldre num gesto rápido.

— Você tem perguntas e eu um trabalho a fazer. Podemos tentar resolver essas coisas simultaneamente, não?

— Como preferir – respondi, tentando imaginar o que ele queria dizer com um “trabalho a fazer”.

— Então, faça a primeira pergunta… E corra! – a voz dele pareceu soar de todos os lugares e de nenhum ao mesmo tempo já que sumira diante dos meus olhos.

Aparentemente a brincadeira de sumir era prática rotineira naquela cidade. Pigarreei, olhando para todos os lados, principalmente para cima, como se ele estivesse pairando sobre mim. Fiz a primeira pergunta.

— Numa entrevista antiga você disse que o New Weird está morto. Defina essa afirmativa melhor e explique-nos a relação entre seu trabalho e o universo weird uma vez que você reconhece a influência de China Miéville na sua produção.

Esperei para ouvir uma resposta. Mas ouvi apenas o estalar da madeira velha e o vento fazendo balançar as lamparinas. Por alguns segundos. Depois ouvi um disparo. O postigo de uma porta a minha direita fendeu-se, a madeira estilhaçando. Em seguida um segundo disparo roçou de leve o ombro do meu casaco. Um terceiro acertou entre as duas botas e um quarto fez meu chapéu girar na cabeça.

Entendi na hora o que ele quis dizer com “pergunte e corra”.

Disparei pelas ruelas, afundando o pé em poças e montes de lama, virei e revirei ruazinhas, procurando um canto para me esconder. Mas aonde ia, escutava o silvo das balas passando por mim, tão perto que por pouco não me arrancavam a pele. Tratava-se de um jogo e logo vi que ele não havia me atingido ainda porque queria antes se divertir. Num último esforço, lancei-me dentro de uma casa, mergulhando pela janela, destrocando o vidro. Caí rolando e recolhi-me junto à parede, próximo a uma lareira apagada, sem lenha nem achas queimadas. Observei a casa e tive a impressão de que nunca ninguém vivera lá antes.

A voz de Mark retumbou, como se transpirasse pelas paredes.

— O New Weird era – nos círculos editoriais – um movimento de um grupo de autores. Talvez tenha sido usado para definir seus trabalhos como notavelmente diferentes, mas eu acredito que surgiu para representar uma estética que naquela época só vendia para aqueles poucos autores. muitos anos atrás. Quando você menciona New Weird para editores eles preferencialmente não querem adquirir tal manuscrito – os mundos ou tecnologias são muito escandalosas. Editores estão a procura de coisas mais obviamente comerciais e conservadoras. Mas isso não quer dizer que o New Weird teve pouco impacto – Penso que começando a ver uma nova geração de autores que foram influenciados fortemente por Miéville.

Enquanto ele falava, saquei meu revólver e verifiquei o tambor. Não ia me entregar sem luta. Meus bolsos estavam cheios de balas. A única coisa que me preocupava era no que atirar já que não sabia onde ele estava.

— Penso que o que esse movimento ajudou a fazer foi definir um ramo taxonômico mais surreal e sombrio do que é, em linhas gerais, um gênero conservador – ele continuou. Trata-se do prosseguimento de uma linha que se estende de William Hope Hodgson a Meryyn Peake a M. John Harrison a China Miéville. Gosto de pensar que meu trabalho se situa naquele lado do gênero, o que é algo mais óbvio na medida em que mergulho em minhas séries, porque aqueles escritores são os tipos que me interessam mais.

Ele parou de responder ao mesmo tempo em que ouvi passos apressados contornando a casa pelo eirado. Tentei adivinhar mais ou menos a posição do incauto passante e, sem ligar a mínima se se tratava de morador ou de Mark Charan Newton, apontei o revolver para o lugar onde julguei que ele estava e puxei o gatilho, abrindo um buraco de meia polegada na parede. Não ouvi nenhum gemido. Rastejei até a janela e espiei. Nada lá fora senão mau tempo.

Não podia ficar escondido a vida toda, então fui até a porta e a abri de supetão, mantendo-me escondido atrás do batente. Depois de alguns instantes saí, segurando o revólver na altura de meus olhos, ambas as mãos firmes na coronha, apontando-o ora para um lado, ora para outro, pronto para disparar se fosse necessário.

Então vi uma sombra correndo acima dos telhados, saltando parapeitos, fazendo a madeira trepidar perigosamente. Sem pensar muito, apontei o revolver para a direção do vulto e puxei o gatilho. Escutei o ribombar dos passos pesados se distanciando. Tinha errado o tiro. Então me coloquei em perseguição do indivíduo, seguindo os ecos que chegavam até mim. A cada curva mais eu me embrenhava na floresta de casas espremidas umas nas outras, mais eu me sentia perdido e cansado.

Alguns tiros contrários, porém, me colocaram em alerta novamente. Um deles voltou a me arrancar o chapéu, que dessa vez desapareceu em meio à confusão de soleiras. Outro me tirou um pedaço da orelha esquerda. Dei um grito de dor e raiva, me atirando contra uma parede, protegido pela cobertura de uma das muitas varandas que proliferavam.

— Maldito! – gritei, sentindo o sangue escorrer pelo meu pescoço. – Miserável!

— Perguntas! Faça as perguntas – disse-me Mark.

Rilhei os dentes tentando ignorar a forte dor na orelha e tentei me concentrar na entrevista.

Nights of Villjamur é uma fantasia noir e se passa num tempo distante do nosso. Onde você buscou a inspiração para escrevê-lo e quanto tempo gastou nisso? Explique-nos de forma abrangente a filosofia – ou denúncia social – por trás da trilogia – no caso de você usar a literatura como um meio de reflexão política e social contemporânea.

Suspirei engolindo a dor e o desconforto. Muito mais irritado com o relógio quântico que me colocava em situações extremamente perigosas do que com Mark Charan Newton, que vivia uma aventura numa realidade paralela que aparentemente lhe roubara a consciência.

— A gênese verdadeira da série veio da leitura de um escritor britânico de ficção científica pouco conhecido chamado Michael Coney. Seu romance Hello Summer terminou mais ou menos com uma cultura de se refugiar em si mesmo, e pensei: “E se isso foi só o início das coisas?” Isso me inspirou a criar a cidade para onde as pessoas se dirigem, em fuga, em face das extremas condições do tempo…

Escutava a resposta tentando adivinhar de onde vinha. À minha esquerda ou à minha direita. Talvez do outro lado da rua. Ou ainda de um dos telhados. Um estalido mínimo atrás de mim me fez saltar num giro de 180 graus. Arma apontada, dedo no gatilho, tremendo, quase disparando. Felizmente me contive. Era o garoto. Os mesmos olhos inexpressivos, mesma expressão combalida, braços caídos ao lado do corpo, cabeça levemente inclinada para o lado. Lábios suavemente fechados.

— Mas que maldito fedelho… – comecei a protestar, quando ele simplesmente desapareceu diante de mim.

—… Este foi o ponto de partida, mas acima disso quis que isso fosse uma reflexão de nossa própria cultura, embora de maneira muito exagerada. Conforme a série continua fica mais óbvio que estou falando do mundo real. Eu queria escrever uma fantasia que se endereçasse às minorias com justiça (homossexuais conduzindo personagens que não são meros coadjuvantes)…

Um rangido me fez atirar contra o telhado acima de mim. Escutei uma exclamação divertida e passos apressados. Mark estava se deslocando sobre as casas, como um gato. Corri atrás, tentando segui-lo, mas era difícil ultrapassar a infinidade de obstáculos que aquela porcaria de povoado possuía. Ao virar uma esquina súbita, deparei-me com pedaços de madeira e caibros soltos. Tropecei e cai sobre o monturo, espalhando lixo para os lados. Ouvi uma risada não muito distante.

—… Faço isso porque acredito que literatura de fantasia pode ser poderosa – um escritor pode fazer, literalmente, tudo o que desejar. Para ser honesto, não importa o quanto alguma coisa é estranha, sempre fui inspirado por exemplos mundiais reais. O mundo real pode parecer muito estranho quando examinado de perto.

Tive a impressão de sentir certo acento irônico ao fim de sua resposta. Ele tinha razão. Escritores podiam fazer qualquer coisa. Até construir cenários imaginários e neles tentar matar os seus iguais. Mas ele não ia conseguir. Eu era mais esperto do que parecia. Rastejei para fora do entulho e me coloquei sentado contra uma parede. Nem podia esticar as pernas direito sem bater na parede oposta. Observei o tambor do revólver, joguei fora os cartuchos vazios e tirei algumas balas do bolso, completando-o. Respirei fundo procurando o equilíbrio necessário, praticando o “Chi-Kung”. Senti-me logo reequilibrado, com uma consciência do entorno que nenhum humano, pós-humano ou alienígena poderia ter.

Coloquei-me de pé, inteiramente compenetrado. Músculos retesados, dedos firmes na coronha do revólver. Então dei um passo rápido para trás e o disparo efetuado por Mark só acertou um pedaço de madeira solto no chão. Girei o corpo e escapei de um segundo disparo. O terceiro ia direto para a minha testa, mas eu não estava mais lá quando o projétil passou.

— Ora vejam! – exclamou ele com visível admiração. – um oponente à altura, finalmente.

Não me dei ao trabalho de lhe responder, girei o pulso sem mudar minha posição e puxei o gatilho fazendo o projétil passar tão perto de minha orelha sã que pude lhe sentir o calor. A bala transpassou tábuas molhadas e acertou o alvo. Ouvi um grito de dor e surpresa, seguido por um manquitolar apressado, em fuga.

— Seu primeiro romance foi Reef. Antes de publicá-lo, qual era sua atuação dentro do fandom britânico? Você costumava escrever e publicar contos na internet ou em antologias? Quem era, literariamente, Mark Charan Newton ontem e quem será ele amanhã?

Fiz a pergunta retomando o caminho pela via principal que muito pouco se distinguia das vicinais. Minha percepção ia além do físico, perpassando o metafísico. Eu conseguia ouvi-lo respirar. Conseguia ouvir o gotejar de sangue que lhe caia pela perna ferida. Sabia exatamente onde ele estava. Era só uma questão de poucos minutos para eu mesmo lhe responder quem ele seria amanhã: Um cadáver.

— Eu trabalhei como editor para a editora Solaris e antes disso eu trabalhei com venda de livros (Eu cuidava do setor de Fantasia e FC na loja!). Esses trabalhos foram muito divertidos e consegui ir a convenções e conversar com autores que eu admirava muito. Eu era um fã do gênero – um geek – e foi uma época maravilhosa…

As palavras dele eram forçadas, recortadas por ofegos. Estava mais do que ferido. Estava assustado. Muito assustado.

—… Nunca tendi a escrever muitos contos, eu prefiro a amplitude dos romances, assim, eu ia simplesmente para casa após meu trabalho editorial a cada noite e escrevia minhas próprias coisas. Consegui um agente ainda jovem, com 23 anos de idade. Poucos anos antes de tirar a sorte grande.

Saquei o outro revolver e andei com passadas calculadas, mantendo-os firmes nas mãos, como se estivesse prestes a puxar o gatilho. Podia ouvi-lo se distanciar de mim na mesma medida em que eu avançava. Ele arrastava uma das pernas, a esquerda para ser mais preciso, e não conseguia mais percorrer os telhados com a rapidez e a precisão com que o fazia antes. Logo me vi ao lado do Saloon, misteriosamente silencioso. Os cavalos que estavam amarrados à sua frente também não estavam lá. Ignorei Mark por alguns instantes e me desloquei até a porta vai e vem. Dei uma espiada para dentro e não estranhei ao descobrir que não havia mesas, nem bebidas. Nem gente, nem nada que lembrasse que o lugar fora freqüentado nos últimos 10 anos. Tratava-se de uma cidade fantasma, claro. Habitado por espectros. Talvez Mark fosse mais um deles. Não. Claro que não. Espectros não se feriam nem sangravam.

— Uma das brincadeiras mais comuns no Mercado editorial – pelo menos no Brasil –, diz que os editores estão cansados de trilogias e que pedem aos escritores que enterrem qualquer projeto como esse. Sabemos que sempre há um fundo de verdade em qualquer brincadeira. Apesar de ter escrito e conseguido publicar uma, você não acha que existem projetos de trilogias em excesso (herança de Tolkien) e muito pouca qualidade? Não concorda que novos escritores deveriam preocupar-se com projetos menores e só desenvolver os maiores depois de obter a experiência necessária para isso?

Não esperei que ele fosse responder à minha pergunta com rapidez. Achei que ele ia querer manter o silêncio numa tentativa vã de impedir que eu o localizasse pelo som de sua voz. Mas a prática do “Chi-Kung” me permitia perceber o mundo com uma clareza e uma percepção que fugiam a compreensão dos não iniciados. Mas ele me surpreendeu, dando-me a resposta quase imediatamente ao final da pergunta.

— É difícil dizer. Alguns dos mais bem sucedidos livros de fantasia nos EUA e na Inglaterra são series. Steven Erikson é um dos mais populares na Inglaterra e sua serie já chegou ao décimo livro. Mas eu não pensaria que essas séries são ruins. É uma arte muito difícil escrever um determinado número de romances conectados já que tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. tantas coisas para. Algumas histórias, de fato, requerem muitos romances para serem contados. Eu propus uma série com uma proposta diferente em mente: eu queria que cada romance fosse autônomo e a história – até certo posto – auto contida. Penso que consegui isso nos livros dois e três. É um desafio para mim. Não quero sentir como se tivesse lesado meus leitores. Cada romance deverá deixar o leitor satisfeito.

Posicionei-me no meio da rua. Ao fim dela, após subidas e descidas, após outeiros, elevava-se a escarpa. Nela as cavernas, inúmeras, interligadas por corredores e iluminadas por candeeiros cuja luz pouco ou nada significava. Orlando a rua, casas e pequenas construções de um ou dois andares, amontoadas umas nas outras, vergastadas pela chuva que começava a piorar. O vento ululava fazendo vibrar o povoado.

Ergui lentamente ambos os revólveres, apontando-os para um mesmo local, à minha esquerda, cerca de quarenta metros de distância, sobre um telhado inclinado; oculto atrás de um parapeito de madeira velha e rachada. Lá estava Mark, a perna ferida pulsando em ondas de dor.

— Contos, noveletas, grandes romances, séries, são todas – continuou ele, num timbre próximo ao alívio, como se sentisse que a entrevista estava no final – formas artísticas diferentes, e no meu conhecimento, todos os escritores tem preferências diferentes. Não sei o quão bom escritor de contos eu seria, embora eu admire a disciplina da forma. Eu não acho que alguém poderia afirmar que qualquer uma destas formas é melhor do que outra. Existem bons e maus contos, assim como há boas e más trilogias. Escrever muitos contos pode fazê-lo um bom escritor de contos, mas isso não necessariamente o faria um bom romancista, e vice-versa.

Assim que a sua última palavra foi proferida, puxei ambos os gatilhos. As detonações ocorreram simultaneamente e foram encontrar o alvo sem a mínima chance de erro. Ouvi um grunhido, um corpo rolar e logo cair do telhado, de costas na rua enlameada. Estendido, imóvel. Aproximei-me dele, observei-o atentamente. O chapéu a recobrir-lhe o rosto. Após alguns instantes ele se moveu. A cabeça girou, os olhos embaciados me procuraram e ele balbuciou alguma coisa que não entendi. Agachei-me para poder ouvi-lo melhor. Aproximei meu ouvido de sua boca.

— “Chi-Kung” – ele sussurrou. – você se acha esperto, mas esse não é o seu território… É o meu. Morra seu maldito!

Então ouvi um engatilhar. Ergui a cabeça e vi o menino bem diante de mim. Exibia um sorriso cheio de dentes, expressão de demoníaca satisfação. Um revólver nas mãos, apontado diretamente para a minha testa. Mark Charan Newton ainda me agarrou pela garganta, mão preênsil, me esganando com uma força que me deixou atônito.

Corri uma das mãos para o botão do relógio, apertando-o, ao mesmo tempo em que ouvi o disparo. Uma língua de fogo me atingiu arremessando-me para a mais absoluta inconsciência.

Despertei em casa, caído na sala, horas mais tarde. Ainda sou acometido por terríveis enxaquecas. Minha testa tem uma marca circular tênue e enegrecida. Arrepio-me só em pensar que poderia ter me atrasado um segundinho a mais em apertar o botão do relógio. Dessa vez escapei por muito pouco.

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2 Respostas to “De Bar em Bar entrevista Mark Charan Newton.”

  1. anonimous Says:

    Apesar da “Noite escura e brumosa”, o personagem consegue enxergar “algumas árvores mais distantes, com ramos distorcidos e nenhuma folhagem”. Mesmo elas estando mais distantes! Ainda bem, caso o contrário, não teríamos a entrevista.

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