Editora Novo Século. A hora de elogiar.

Tenho um amigo que certa vez disse uma daquelas frases que, embora curtas, são lapidares e inesquecíveis: “A Novo Século contrata revisores para piorar os livros que vai publicar”. Essa foi, durante muito tempo, a principal sensação que eu tinha quando estava com um livro da editora nas mãos: revisões péssimas, edições preparadas às pressas com o intuito (que em si não é um pecado, só quando é o único intuito) de ganhar dinheiro, capas horrorosas.

Mas se a gente fala mal (e a gente fala), chegou a hora de elogiar: de uns tempos para cá, silenciosamente, a Novo Século vem procurando deixar para trás essa incômoda impressão – que não é só minha, lhes garanto. E o vem fazendo de forma surpreendente: publicando obras de autores importantíssimos da literatura mainstream. Vou me ater a um só exemplo: acaba de sair a edição de um livro de Carson McCullers. Esta senhora – já morta, que pena – é, tão-somente, um dos três ou quatro autores americanos mais importantes dos últimos dois séculos. Quem pretende conhecer a riquíssima literatura das terras do Tio Sam e não leu ainda McCullers está na mesma situação do muçulmano que ora com a bunda virada para Meca. É como querer afirmar que se conhece a literatura brasileira e jamais ter lido Lygia Fagundes Telles ou Clarice Lispector.

Coração hipotecado, o livro recém-lançado, é a reunião póstuma de contos, poemas, entrevistas e pequenos ensaios da escritora nascida no Sul dos Estados Unidos e muitas vezes citada ao lado de nomes como os de William Faulkner (que sei que você já ouviu falar, se é que já não leu) e Eudora Welty (que sei que você nunca ouviu falar e muito menos leu; outra autora americana injustamente esquecida, se é que já foi conhecida, pelas editoras brasileiras). Esses autores, mais uns três ou quatro, fazem parte do que se convencionou chamar de “autores sulistas”. O Sul dos Estados Unidos, sabemos, historicamente é a parte mais atrasada do país e, portanto, a mais pobre – um prato cheio, ou melhor, um caldeirão fumegante e apetitoso que McCullers e os demais souberam aproveitar para dar forma às suas estupendas histórias. A pobreza é ruim para o estômago mas maravilhosa para a literatura…

Descobri que a Novo Século já havia publicado também um outro livro de Carson McCullers: A convidada do casamento, romance que teve uma edição anterior por aqui no século passado com o título de A sócia do casamento. Tanto O coração hipotecado quanto A convidada do casamento têm capas lindas, que não envergonhariam uma editora de maior porte. Não são ainda 100% perfeitas, a parte tipográfica da capa d’O coração hipotecado tem alguma coisa que não me agrada, mas não sou designer então me abstenho de me aprofundar no que desconheço.

Não li ainda nenhuma dessas obras mais “sérias” do catálogo da Novo Século e, por ora, não consigo evitar de sentir um friozinho na espinha: será que a tradução e a revisão estão adequadas? Será que não cagaram tudo? Tradicionalmente, as editoras brasileiras gastam muito dinheiro com capistas e praticamente nenhum com revisores. Uma vez que se tomou a inusitada decisão de publicá-la, a pobre McCullers não mereceria um tratamento desses!

Uma palavrinha sobre o site da editora: enquanto redigia este texto, fui dar uma pesquisada para ver se encontrava a lista de outros livros mainstream. O site é uma decepção: confuso, falho (não conseguir acessar o Catálogo da casa), e parece dar ênfase às obras de Fantasia pelas quais a editora é mais conhecida. Quanto à parte da ficção mainstream, nem consegui achar. Acredito que já está na hora da NS dar uma melhorada em seu site, já que ele é a sua principal vitrine para o público.

O lema da NS é: “Uma editora para todos” e agora ela também poderia dizer, com orgulho: “Uma editora para todos e para todos os gostos”. Isso é legal, isso é muito bom e nós leitores só temos a ganhar com sua decisão de também pensar em autores “clássicos” (não gosto de usar o termo, que parece cheirar a bolor, o que de maneira alguma condiz com a escrita deslumbrante e deliciosa de Carson McCullers). A Companhia das Letras e a Cosac & Naify deveriam se envergonhar, ou morrer de inveja, ou as duas coisas.

O coração hipotecado é uma boa opção de Natal para quem quer dar um livro inesquecível como presente. Fica a sugestão.

Matéria de Saint-Clair Stockler

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3 Respostas to “Editora Novo Século. A hora de elogiar.”

  1. Adriano Siqueira Says:

    muito legal a matéria Tibor
    Eu fiz algumas entrevistas com os autres no estande da Bienal do Livro quem quiser ver como era o estande passa no meu canal no youtube. http://www.youtube.com/user/adrianoss tem duas entrevistas com autores neste estande da Novo século.
    Espero que na próxima bienal eles coloquem booktrailer do lado de fora do estande pois é uma forma de mostrar os livros dos autores com mais eficiência já que a quantidade de autores que saem por lá é bem grande.
    Abração para você tibor e escreva sempre.
    Adriano Siqueira!

  2. Roberto de Sousa Causo Says:

    Sou grande fã de Carson McCullers, de quem ouvi falar primeiro na adolescência, por meio de várias adaptações da literatura dela para o cinema. Durante muito tempo a versão cinematográfica do seu romance “O Coração É um Caçador Solitário” foi meu filme favorito (o filme se chamou “Por que Tem que Ser assim?”). “O Coração É um Caçador Solitário”, livro de estréia da autora, publicado quando ela tinha 21 anos, ainda é o meu favorito.

  3. Marcelo Augusto Galvão Says:

    Não sabia desse lado mainstream da Novo Século. Já que o Saint-Clair mencionou autores sulistas, uma que admiro bastante é Flannery O’Connor, que já teve livros e contos publicados aqui pela Arx e Cosac.

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