De Bar em Bar entrevista Charles Stross.

Charles Stross, 46 anos, é escritor de ficção científica em tempo integral e reside em Edimburgo, na Escócia. É autor de seis romances indicados ao prêmio Hugo, tendo vencido os prêmios de 2005 e 2010 na categoria melhor novela, e já teve suas obras traduzidas em mais de doze idiomas. Como muitos escritores, Stross teve uma variedade de carreiras, ocupações e trabalhos catastróficos no passado, desde farmacêutico (do qual desistiu depois da segunda autuação polícial) a programador em tempo integral numa bem sucedida empreitada "pontocom" (mas com um timing perfeito, tentou mudar de empregador justo quando a bolha estourou)

Chamas azuladas e faíscas explodiam ruidosamente. Encolhi-me, assustado e sem entender o que estava acontecendo. Devia estar em casa, descansando depois da entrevista com Ekaterina Sedia, mas me via envolto em fumaça, fogo, sirenes e gritos de alerta. Sem iniciativa para agir, atônito.

Então fui agarrado num dos braços e puxado com força para fora do nicho em que estava metido. Fui sendo arrastado por alguns metros ao mesmo tempo em que um grupo de homens tentava, com extintores de incêndio, debelar o fogo que ganhava força. Olhei para o homem que me arrastava e reconheci Charles Stross.

Se eu já estava atônito, fiquei ainda mais. Nossa entrevista não deveria acontecer antes de alguns dias de intervalo. Levantei-me dividindo minha atenção com ele e com meu relógio quântico, tentando adivinhar o que estava acontecendo. Provavelmente uma discrepância que me lançara em outra realidade alterada de maneira subsequente.

Ainda cutucava o relógio quando Charlie, exasperado, me chamou a atenção.

— Vamos ficar aqui brincando de cuco enquanto a nave se desintegra?

Claro que sentia um peixe fora d’água. Não sabia o que estava acontecendo, nem como fora parar ali.

— Não, claro que não – respondi sem nem saber ao certo como devia proceder.

Charlie não me deixou pensar por muito tempo. Voltou a me pegar pelo braço e a me conduzir por um curto corredor até uma porta que se abriu imediatamente à nossa aproximação. Do lado de fora a azáfama era igualmente grande. Um intenso corre-corre de homens e mulheres, todos vestindo macacões cinza chumbo, olhares de espanto, expressões de medo.

— O que está acontecendo? – perguntei.

— Aparentemente fomos arrancados, sem nenhuma graciosidade, do hiperespaço.

Eu o ia seguindo apressadamente, vendo os outros passarem por nós, às vezes trombando conosco. Subimos e descemos escadas, caminhamos por inúmeros corredores sendo, por vezes, sacudidos pelo que pareciam explosões próximas.

— Hiperespaço? – perguntei de novo, tentando entender.

Charlie olhou para mim como quem olha para um completo estranho.

— Viagem inaugural, lembra-se? Cargueiro Pegasus de primeira classe. Nível 2 na escala de Reymond & Clever. Com destino à constelação de Orion, ao sistema de Bellatrix. Vindos do conglomerado industrial de Io, a serviço da Corporação Amgen & Toyota. O que você andou bebendo?

— Fomos arrancados – continuou ele – de nossa viagem por um flare solar de grande magnitude. Ar-ran-ca-dos! Entende isso?

Parei de acompanhá-lo por alguns instantes. Havia em meio ao corredor uma abertura ampla, aparentemente envidraçada. Ao me aproximar e tocar a membrana que nos separava do espaço exterior foi que me lembrei de já ter visto aquela tecnologia antes, na entrevista com Calife.

Aproximei meu rosto do campo energético e vi uma coisa colossal e sinuosa. Era a nave cargueira onde estávamos. Ela se estendia a perder de vista, toda formada por blocos metálicos agrupados como um imenso Lego. Em vários lugares as junções explodiam, blocos se separavam uns dos outros, girando, batendo, abrindo suas paredes e despejando no espaço carga e gente. Vi vários focos de incêndio, intensos. Logo desapareciam no vácuo para serem substituídos por outros. As explosões iam se sucedendo.

Um grito de Charlie me trouxe novamente à realidade. Corri para alcançá-lo. O chão sob nossos pés estremecia com cada vez mais força. Comecei a ouvir gritos não muito distantes e, para meu terror, vi o segmento da nave onde eu estava há pouco, rachar e abrir ao meio, expulsando as pessoas que corriam por ali, jogando-as no espaço. Charlie me agarrou e me lançou para dentro de uma sala, fechando hermeticamente a porta atrás de nós.

Eu estava apavorado.

— Há a entrevista, mas não sei o que perguntar. Não estou preparado para isso. Não era para estar aqui – balbuciei confuso.

— Entrevista? Que besteira é essa?

A sala onde estávamos possuía uma série de casulos que se projetavam das paredes. Observei-os tentando adivinhar-lhes as funções. Arrisquei um palpite.

— Sistema de fuga?

— Bolhas de ejeção. Existem algumas centenas nessa gigantesca cidade flutuante. Mas a grande maioria já se perdeu, destruída pela desintegração da nave.

Então Charles parou e olhou fixamente para mim.

— Você não está brincando comigo, não é? Quero dizer, está querendo dizer mesmo de que não sabe o que esta acontecendo e nem sabe onde estamos? Você comentou sobre essa entrevista e tive uma sensação curiosa de que… Bem, perguntas foram feitas, lembro-me delas. Eu as respondi, não sem antes recusar algumas. Parece-me que isso aconteceu há centenas de anos. Como se essa lembrança ressurgisse do fundo, bem do fundo de minha memória.

— From Bar to Bar, entrevistas perigosas. Lembra-se? Entrevistei Ekaterina Sedia, depois era você, mas com um intervalo. Esse intervalo não ocorreu. Vim parar aqui de chofre.

— From Bar to Bar… – murmurou Charles, enquanto ia me empurrando para dentro de um dos casulos.

Cintas magnéticas prenderam-se ao meu corpo, imobilizando-me. Uma membrana energética igual a que vi na ampla área aberta surgiu, selando-me dentro do casulo. Ofeguei sentindo falta de ar; uma sensação mais psicológica que física. Vi Charles entrando em outro casulo, vi a membrana se fechando, isolando-o dentro dele. Vi o homem cutucando um painel (que existia dentro de onde eu estava) e então tudo começou a tremer.

Pensei que o segmento onde estávamos ia arrebentar, mas então nossos casulos foram sugados por um tubo e lançados logo depois no espaço exterior. Cruzamos destroços quase abalroando alguns. Distanciamos-nos da nave o suficiente para que eu descobrisse que ela era ainda maior do que eu supunha inicialmente. Fiquei estarrecido diante de toda a sua incrível magnitude. Corcoveando, retorcendo-se como uma cobra. Anelos sendo expelidos, segmentos sendo arrancados, explosões simultâneas destruindo uma incrível obra da engenharia humana.

Então nossos casulos giraram no espaço iniciando uma espécie de ignição, como se houvesse foguetes de cauda neles. Disparamos numa velocidade vertiginosa, distanciando-nos da imensa nave terrestre, rumo a um destino totalmente ignorado por mim.

——

Estava grogue quando despertei. Sentado, com as costas apoiadas numa rocha. Charles estava perto de seu casulo, remexia dentro dele em busca de alguma coisa.

— Ah, acordou. Já estava na hora – ele me disse sem se voltar em minha direção.

— Onde estamos?

— Um pequeno planeta rochoso alguns milhões de quilômetros distantes da Pegasus ou do que sobrou dela.

— Como viemos parar aqui?

— Este lado da galáxia está todo mapeado. Programei o destino mais próximo e os sistemas de sustentação de vida dos casulos fizeram o resto.

— Sustentação de vida?

— Você acha que chegaria vivo aqui com apenas 2 litros de oxigênio disponíveis? Foram seis dias de viagem! Você foi colocado para dormir e seu metabolismo reduzido a níveis mínimos.

— A Pegasus era dirigida por uma lagosta? – perguntei, ainda confuso.

— O quê?

Então foi como se abrissem uma comporta dentro de minha mente e todas as perguntas necessárias para conduzir a entrevista fluíssem com liberdade.

— Lagostas sonham com viagens através de buracos de minhoca? E será que devemos temer que um dia elas tenham um livro sobre “como servir a um homem”?

Charles estava debruçado sobre seu casulo e ergueu-se. Tinha nas mãos uma pequena sacola. Na outra carregava o que parecia um binóculo.

— Apetrechos de primeira necessidade – ele disse, vendo minha curiosidade – este binóculo, canivete, abridor de latas, primeiros socorros, comida desidratada, pastilhas de hortelã.

— Pastilhas de hortelã?

— Lagostas… Bem, vamos com calma, até onde sabemos elas são apenas crustáceos, criaturas com cara de inseto gigante que vivem no mar, quase sem nada de sistema nervoso. Eu as escolhi para a primeira parte de Accelerando depois de ler sobre uma experiência interessante…

Charles escolheu um trecho plano de terreno, afastou alguns pedriscos e sentou-se diante de mim. Largou a sacola e o binóculo de lado e apoiou o queixo nas mãos livres.

— Pelos últimos 400 anos, tem havido um debate entre dois lados filosoficamente opostos: os que propõem um dualismo mente/corpo (o pensamento de que nossa consciência é separada da nossa existência física, surgindo daí uma espécie de “alma”) e os materialistas que acreditam que a consciência é propriedade emergente da matéria. Nos últimos 60 anos o caminho parece estar apontando para os materialistas. Dois grandes avanços na ciência os ajudaram bastante: o desenvolvimento da teoria da computação, que admite a existência de grandes estruturas computacionais que podem emular umas às outras, desde que haja tempo e capacidade de memória suficientes, e o desenvolvimento da neurobiologia, que esboçou os mecanismos pelos quais os nervos funcionam, mostrando que estes são, de certa forma, estruturas computacionais. Outras pesquisas científicas falharam em provar a hipótese dualista: cérebros vivos analisados por ressonância magnética não dão sinais de terem almas se escondendo em seu interior.

Eu permaneci quieto, apenas ouvindo sua dissertação. Impossível impedir que meus olhos se perdessem na topografia alienígena, curiosos, observando a redondeza. Havia rochas de diversos tamanhos, uma paisagem quase marciana. Mas eu podia ver pequenas florescências intensamente rubras que nasciam aos pés de grande parte das rochas presentes. Pareciam nacos de carne abertos e expostos; flores estranhas.

— Como consequência – continuou ele –, mais recentemente há ideias a respeito de uploads mentais: se nossas mentes são essencialmente padrões de atividade mantidos por um neurocomputador, seria possível transferi-las de maneira intacta (e com continuidade plena de consciência) para um substrato diferente e possivelmente mais rápido e poderoso?

Charles fez uma pausa ao mesmo tempo em que senti um leve sopro em minha orelha esquerda. Olhei para o lado e dei um salto, assustado. Abriu-se uma fenda na rocha e de dentro dela foram expelidos diminutos esporos. Recuei dois passos, olhando com incredulidade a estranha manifestação. Charles riu de meu espanto.

— Isso que você vê não são rochas. Pelo menos não na sua maioria. A botânica aqui é exótica. Não vê as flores rentes ao chão, juntos dessas “rochas”? Mas são todas inofensivas. A não ser que você seja alérgico a pólen.

Dei um sorriso sem graça e preferi me manter de pé.

— Nos anos 1980 – ele continuou mais uma vez –, o professor de robótica da CMU (Carnegie Mellon University) Hans Moravec, planejou uma experiência mental. Sua ideia era a seguinte: você leva um paciente para cirurgia e abre seu crânio sob efeito de anestesia local, mantendo-o consciente. Um robô-cirurgião fantasticamente preciso então (a) identifica um único neurônio na superfície do neurocortex, (b) mapeia suas conexões com os neurônios vizinhos, (c) desenvolve um software que modele seu potencial de ação, (d) substitui seus terminais axônios e dendritos por aparelhos eletrônicos capazes de unir o modelo computacional do neurônio a todos os seus vizinhos, de modo que o computador assuma o trabalho de emular o estado interno do neurônio e trocar sinais com seus vizinhos e depois (e) remove o neurônio redundante. Repita o procedimento cem bilhões de vezes e no final você vai ter um crânio vazio forrado de eletrodos funcionando como se fossem nervos para um corpo e uma mente que, apesar de ter estado consciente o tempo todo, agora existe somente numa simulação de computador. Mas nós não vamos começar isso direto com os humanos, né?

Aproveitei a pausa dele para lançar o olhar com mais atenção ao horizonte, onde eu parecia ver alguma movimentação distante. Talvez ilusão de ótica, talvez não.

— É algo com que devamos nos preocupar? – perguntei, apontando o dedo para o norte.

Charles se ergueu, aproximou o binóculo dos olhos e soltou uma exclamação de assombro.

— Não é possível! – ele disse, numa voz tensa. Então empurrou o binóculo em minha direção.

Olhei para o horizonte e vi o que parecia ser uma massa humana se movendo. Vinham a pé ou conduzidos por máquinas que soltavam nuvens de vapor. Homens e mulheres com roupas estranhas, antigas. Alguns pareciam vestir armaduras bizarras, Vi duas formas humanoides, certamente mecânicas, movendo-se pesadamente. Um ou outro também nos observava com binóculos. Apontaram os dedos em nossa direção, excitados. Então Charles tocou no binóculo que eu mantinha diante dos olhos, forçando-me a apontá-los mais para cima, na direção do céu, bem acima da turba. Dois enormes zepelins apontavam seus narizes para nós.

— Steamers! – Charles exclamou com a mais viva perplexidade.

— Steamers? Aqui? Mas esse não é um planetoide rochoso, perdido nos confins do universo?

Charles olhou para meu relógio como se o responsabilizasse por tudo.

— Acho melhor nós nos movermos.

— Por quê? Podem ser nossa salvação. Estamos perdidos, não estamos?

— Mova-se. Se ficarmos vamos ser massacrados.

— Um candidato – Charles voltou à sua dissertação. A voz bem mais tensa, é verdade – muito melhor para fazer experiências de uploading mental é a chamada Pacific Spiny Lobster, panulirus interruptus. Este inseto super-crescido tem um jeito estranho de comer: ao invés de morder sua comida em pedacinhos, ele a engole por inteiro, e a mastiga usando uma espécie de moinho cheio de dentes dentro do seu estômago. Este moinho é controlado por um amontoado de nervos chamado stomatogastric ganglion, nervos muito grandes, fáceis de se estudar, e muito simples: o gerador padrão central que o controla tem apenas onze neurônios (e muito grandes). Essas conexões neurais foram mapeadas já nos anos 1970 e no final dos 1990 eu li um artigo no qual alguns pesquisadores verificaram o seu mapeamento, realizando a experiência de Moravec. E funcionou. (Em um neurônio, é verdade, mas já é um começo!).

Então ouvimos um estrondo. Olhamos para trás e vimos, ao longe, o que parecia ser um diminuto pontinho escuro se erguendo contra o céu e, numa parábola, ir aumentando de tamanho gradativamente. Vinha em nossa direção.

— Corra! – gritou Charles, me empurrando.

Corremos desviando-nos das “pedras” até chegarmos perto de uma suficientemente grande para nos ocultar. Paramos por uma fração de segundo e olhamos para trás. O projétil se aproximava rapidamente. Uma bola metálica que caiu a cerca de cinquenta jardas, rolou chocando-se contra vários obstáculos (destruindo algumas “plantas” e provocando fortes emanações de esporos) e foi parar não mais que 10 jardas de nós. De sua superfície abriram-se pequenas aberturas e delas se projetaram dezenas de agulhas metálicas. Charles me agarrou e jogou-se, junto comigo, detrás da pedra. Os dardos foram disparados e espalharam-se para todos os lados, algumas perfurando a rocha vários centímetros.

— Querem nos matar! – exclamei, assustado! – E eu que pensei que vieram da Terra para nos salvar.

— Terra? – inquiriu Charles. A Terra praticamente não existe mais, mergulhada numa terrível guerra entre as corporações que não aceitam mais a diplomacia política como forma de diálogo.

— Esses Steamers saíram de onde, então?

— Da fantasia louca desse seu relógio quântico. Eu e minha grande boca…

— Não creio que meu relógio esteja funcionando direito. Vim para cá sem pausas, num salto quântico imediato. Mau funcionamento, provavelmente.

— Ou alguém brincando com você.

— Alguém?

— Alguém com um relógio igual. Faz sentido, não faz?

Franzi o cenho, tentando acompanhar o raciocínio dele. Logo descartei a possibilidade, era absurdo que mais alguém possuísse um relógio quântico igual ao meu.

— Vamos ficar aqui até quando? – perguntei, preocupado com o avanço dos Steamers.

— Vou dar uma olhada rápida. A verdade é que não temos muito para onde fugir. Esse planeta é desolado, sem muitos lugares que possam servir de abrigo.

Charles levantou-se e pôs a cabeça para fora, espiando os inimigos. Soltou um grito de terror, levou ambas as mãos ao rosto e cambaleou para trás, em agonia. Envolvendo sua cabeça estava um… Parecia um… Eu diria que era um… Corselete cheio de rendas e pregas?

— Estão nos alvejando com clichês! – gritou aos brados, furioso.

— responda às perguntas. É o único jeito de escaparmos dessa enrascada.

— Claro que a questão de o que realmente seria possível fazer com um upload de lagosta continua sem resposta. Mas se você tiver pelo menos um, basta ligar mais um monte de neurônios, ensiná-los a falar e “perguntar” para eles – completou Charles, jogando a corselete ao chão. — Aqui não é mais seguro, vamos em frente.

Levantei-me e pus-me a segui-lo. À nossa frente se descortinava um cenário de poucas alterações. Podíamos ouvir gritos e risadas não muito longe.

— Se senciência não é uma meta evolucionária mandatória (como sugerido pelo filósofo alemão Thomas Metzinger e proposto por Peter Watts em Blindsight), e se a inteligência pode realmente existir sem que a espécie seja ciente disso (como enxames, etc.), pode-se dizer que nós somos na realidade a singularidade (em cada um de nossos cérebros, a matéria se transformou em pensamento)? – perguntei, apressado.

— Eu já não considero que a singularidade seja um conceito incrivelmente útil. Tem muita bagagem escatológica envolvida nela. Consciência é, indiscutivelmente, um fenômeno interessante, como Richard Dawkins demonstrou em The Extended Phenotype – nos dá a habilidade de nos desenvolver através de transferências horizontais de características desejáveis, encurtando o processo de incrementação que seria necessário pela evolução clássica. Mas se é um fenômeno estável ou desejável, quem sabe? Como espécie, temos menos de 200.000 anos de idade e já desencadeamos a sexta maior extinção em massa dos últimos 600 milhões de anos. Também estamos sob o risco de uma crise de falta de recursos seguida por uma queda de população. Isso não é sinal de características de sobrevivência!

Olhamos para cima e os zepelins estavam sobre nossas cabeças. Para nosso espanto, despejaram centenas de sombrinhas coloridas, abertas, que desciam como pequenos paraquedas, rodopiando. Outros disparos foram efetuados pela multidão que nos seguia. Dessa vez foram chapéus coco, cartolas, pince-nez (um deles me atingiu na testa, me provocando um pequeno corte). Charles apressava o passo, temendo ser atingido por mais um clichê. Certamente não sobreviveria a outra violência dessas.

— Portanto, se estamos vivendo num universo pós-singularidade, o estágio pós-humano (longevidade, etc), se vier a acontecer, não será um empecilho, já que um dos principais motores da evolução vem de vidas curtas individuais e do abastecimento constante de blank slates (cérebros novinhos de bebês)? – continuei a perguntar.

— Você está confundido o alto grau de mudança com “progresso”. Progresso sugere teleologia e uma meta. Mas evolução não é conduzida por metas. É um passeio de bêbado pelo espaço da adaptação, com uma parede do outro lado (extinção). Também não há garantias de que não haja limites para a ciência, nem limites para a quantidade de conhecimento que podemos acumular e aproveitar.

As sombrinhas caiam ao nosso redor. Era visível o esforço de Charles em não lhes dar maior atenção. Assim como às polainas, bengalas com castão de prata, monóculos, suspensórios e bigodes postiços.

Então fomos forçados, brutalmente, a parar. Diante de nós se abria um imenso despenhadeiro. Um precipício assustador com milhares de metros de altitude. Gotas de suor escorreram por nossas frontes. Vimos-nos sem saída, tendo que enfrentar os Steamers cara a cara, sem chances de sucesso.

— Mais alguma pergunta?

— Uma.

— Faça-a.

Batidas fortes no chão nos fizeram dar meia volta. Três robôs cheios de engrenagens, com quase três metros de altura, estancaram umas quinze jardas de nós. De seus flancos se destacaram canos de metralhadora. A multidão se aproximava.

— Freya Nakamichi-47, ou alguém de sua descendência, voltará para mais aventuras?

Uma rajada no chão, próximo a nós, nos fez retroceder alguns passos, aproximando-nos perigosamente do precipício. Uma nuvem de pó se ergueu.

— Sim! Tem um conto, Bit Rot, que vai sair na antologia Engineering Infinity de Jonathan Strahan em janeiro…

http://www.amazon.com/Engineering-Infinity-Jonathan-Strahan/dp/1907519521

…Também tenho planos para mais um romance passado no universo de Saturn’s Children (embora não seja sobre Freya, e provavelmente só seja publicado em 2013).

Então apertei o botão.

Nada aconteceu. Apertei de novo. Olhamo-nos um para o outro, angustiados. Voltei a apertar o botão outras vezes, mas não houve resultado. A entrevista não acabava, o perigo não se extinguia. Engoli em seco, mas não tive tempo de expressar minha preocupação. Outra rajada de metralhadora nos fez recuar ainda mais. O chão me faltou, procurei apoio e não o encontrei. Soltei um grito abafado de terror antes de me sentir solto no ar, prestes a sofrer uma queda livre. Vi Charles se voltando, vi-o esticando o braço, vi sua mão próxima e ao mesmo tempo tão distante.

Quando pensei que estava tudo acabado. Senti meu braço agarrado com força, meu corpo contido, balançando ainda, solto no ar. Respirei fundo tentando afugentar o medo e olhei para o meu salvador. Levei um susto terrível. Não era Charles Stross que me segurava com firmeza, era Jeff VanderMeer. Não era num planeta inóspito que eu estava, mas numa terra, a Terra, devastada pela guerra.

Acompanhe essa incrível aventura na próxima entrevista com Jeff VanderMeer.

—–

Luis Filipe Silva colaborou com essa entrevista.

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5 Respostas to “De Bar em Bar entrevista Charles Stross.”

  1. Tweets that mention De Bar em Bar entrevista Charles Stross. « -- Topsy.com Says:

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    […] Tibor Moricz Entrevista Charles Stross, em Português: Está disponível a entrevista de Moricz, agora em português, com o escritor inglês de new space opera, Charles Stross. Em https://esooutroblogue.wordpress.com/2011/02/02/de-bar-em-bar-entrevista-charles-stross/ […]

  3. DROPS | Tudo Says:

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  4. Drops | Tudo Says:

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  5. DROPS | Tudo Says:

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