O crítico literário, esse ser incompreendido.

Escrever  críticas não é para qualquer um. É necessário que se tenha capacidade técnica, conhecimento teórico e tempo livre para se dedicar a essa prática (quando o fazem pelo gosto de fazer).

Não há exagero se dissermos que o crítico precisa ter também ouvidos moucos e olhos cobertos por catarata para fazer de conta que não escuta e nem lê as besteiras – às vezes nem tanto – que se comentam à custa de sua crítica.

Impressiona a incapacidade dos detratores de ler atentamente e se ater com profundidade àquilo que foi dito. Escapa-lhes, talvez propositadamente, a argúcia e o bom senso. Dentro de um texto com algumas dezenas de linhas, seus olhos só conseguem esbarrar nas críticas e passam longe dos elogios, como se eles sequer existissem.

Um bom exemplo é a resenha que Roberto de Sousa Causo fez do livro Neon Azul de Eric Novello (Editora Draco – 2010).

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4930567-EI6622,00-Perdidos+na+noite.html

Poderia estar me referindo a outras, feitas por tantos outros críticos, já que o problema é universal. Cansei de ver Antonio Luiz Monteiro da Costa (Carta Capital) ser agredido verbalmente por pessoas que não concordavam com ele.

No caso em pauta, surpreende-me que uma resenha tão boa, que considerou a obra bem acima da média, pudesse ter sido desqualificada por comentaristas em redes virtuais que acusaram o crítico de má vontade, de eventual indisposição com o autor e outros que tais.

Incapazes, todos eles, de lerem e avaliarem a crítica com equilíbrio?

Segundo Saint-Clair Stockler, cujas opiniões respeito muito, tratou-se de: “uma das críticas mais respeitosas que já li. Ele cumpriu bem o papel de um crítico: destacou pontos elogiáveis e pontos falhos. Isso é que é fazer crítica”.

Eu, pessoalmente, fiquei com excelente impressão da obra ao terminar de ler a matéria de Roberto de Sousa Causo e minha vontade em lê-la só aumentou.

Destaco duas passagens emblemáticas da resenha e que fundamentam todos os meus argumentos:

1- “A necessidade de manter um tom melancólico deixa o texto um pouco apático”

2- “Esse tipo de reflexão só pode ser provocado por um livro como este – sublinhado pela ótima capa e tratamento gráfico de Erick Sama -, que chega tão próximo de ser um trabalho excepcional”.

… um pouco apático.” soou bem mais forte aos detratores que “… tão próximo de ser um trabalho excepcional.” (considerando que podemos contar nos dedos de uma só mão – mui provavelmente – os trabalhos excepcionais em FC&F já publicados no Brasil).

Para estar próximo de “excepcional”, precisa estar, no mínimo, dentro da categoria de “ótimo”. Ou seja, na ponta da pirâmide. E, mesmo assim, reclamam.

Ô gente mais sem noção.

——

Baseado na crítica, o livro está recomendadíssimo. Encontrem-no em:
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=22163961&sid=8737202901321491611721318&k5=2E5C2881&uid=

 

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18 Respostas to “O crítico literário, esse ser incompreendido.”

  1. Eric Says:

    Se vale o meu comentário, mesmo que o Causo falasse mal do livro de uma ponta até a outra, considero um direito dele e de qualquer outro leitor. O meu problema com o texto, comuniquei a ele por e-mail quando tive oportunidade, foi com um parágrafo específico. Ele fez a gentileza de removê-lo, pelo que entendi. O que os outros disseram eu já não sei.

    Dito isso, se um autor publica um livro, ele sabe que receberá comentários positivos e negativos. Quando alguém publica uma resenha, a mesma regra é válida. Tenho certeza de que o Causo é aberto a comentários como autor e também o é como crítico. Cada opinião emitida sobre a opinião dele poderia gerar outras opiniões, como gerou a sua, e a sua está gerando a minha e assim por diante. É o caminho natural.

    Todas as resenhas que escrevi até hoje sobre livros nacionais levaram a respostas dos autores no meu e-mail. Alguns elogiando minhas críticas, outros criticando os meus elogios. Teve de tudo um pouco. Sinceramente, espero que seja assim sempre. Literatura e palavra final são ideias que nao combinam.

    Abraços,
    Eric.

  2. Jackson S de Jesus Says:

    Julgamos (indiscriminadamente) como respiramos (naturalmente).
    Excelente post e reflexão (acabei de respirar, rs)!

  3. Tweets that mention O crítico literário, esse ser incompreendido. « -- Topsy.com Says:

    […] This post was mentioned on Twitter by José Roberto Vieira, tmoricz. tmoricz said: O crítico literário, esse ser incompreendido. http://wp.me/pAp8d-Lw […]

  4. Arthur Says:

    Eu acho que o pessoal interpretou o “que chega tão próximo de ser um trabalho excepcional” em relação a capa do Erick, quando claramente não é isso. Ou talvez eu esteja sendo otimista mesmo e as pessoas andam muito acostumadas com receber apenas elogios…

  5. Daniel Borba Says:

    Bom, eu achei a crítica do Causo muito boa e também fiquei mais interessado no livro depois que a li.

  6. Mauro Says:

    Li em algum lugar que não existe critica boa ou má, critica é critica e ponto.
    O mesmo acontece com aqueles que convencionamos chamar de concorrentes. Há quem os olhe como inimigos há quem os olhe como a referencia ideal para crescer, para não cometer erros ou para corrigi-los, e quem sabe para se tornar a referencia no assunto.
    O critico muitas vezes faz o papel de mensageiro, o problema é que geralmente quem reclama é o sujeito que escreveu a mensagem (!!!). Vai entender o ser humano…

  7. Horacio Corral Says:

    A crítica, independente da arte, deveria ser feita por uma pessoa que a conheça bem, esta pessoa seria capaz de apontar as falhas, os acertos, as peculiaridades de uma tema ou artista, e mais do que isso, sua tarefa deveria ser: auxiliar o leitor/espectador na compreensão e apreciação da obra. Poderia se dizer que é alguém que coloca uma cereja no topo do seu sorvete e o torna ainda mais delicioso, a mudança é sútil, mas da ênfase para tudo o que vem abaixo da cereja, né?

  8. Saint-Clair Stockler Says:

    Lá vai o Saint-Clairzinho bater na mesma tecla (já que ninguém bate, né? bato eu): será que se a crítica tivesse sido assinada “Gerson-Lodi Ribeiro” ou “Braulio Tavares” – só pra citar 2 nomes aleatórios – “certas pessoas” (OK, ladies & glentemen, vocês sabem quem são) teriam esbravejado aos quatro ventos da internet?

    Tem gente que se o Causo escrever “Bom dia” no Twitter vai rosnar “Tá vendo?! Lá vem ele procurando criar polêmica! O que ele está querendo dizer com esse ‘Bom dia’, hein?”.

    Sei que o Eric entendeu a resenha do Causo (aliás, já sabia antes mesmo dele escrever ali em cima o seu comentário), como, aliás, não me espanta conhecendo-o como o conheço. Mas, lamentavelmente, “certas pessoas” adoram arranjar pretexto pra tacar pedra na Geni, quer dizer, no Causo.

    Acho que a “polêmica” – se de polêmica se trata, eu tenho um nome um pouquinho mais forte pra dizer que não digo em respeito aos presentes – é menos sobre a resenha do novo livro de um dos nossos mais promissores talentos do que sobre aquele que o resenhou.

    Sinceramente? Acho que nem o Eric nem o Causo mereciam passar por isso (mesmo que involuntariamente).

  9. Paulo Fodra Says:

    Eu li a mesma crítica que você e o Stockler. Também fiquei com mais vontade de ler o livro. Tem gente que precisa voltar às aulas de interpretação de texto. Pode ser também que as pessoas tenham se acostumado a chamar de ‘crítica’ aqueles releases publicitários que alguns jornais e revistas publicam hoje em dia…

  10. A Crítica da Crítica | Princípios da Incerteza Says:

    […] o texto completo aqui. // Esta entrada foi publicada em Livros, Resenhas e marcada com a tag Crítica literária, […]

  11. Roberto de Sousa Causo Says:

    Oi, gente. Agradeço os comentários (Saint-Clair, a Finisia se divertiu muito com os seus), e ao Tibor especialmente, por ter levantado a questão.

    Acho que essa síndrome de bicho-papão não vai embora porque ainda se pensa que eu seria um oponente da chamada Terceira Onda, quando na realidade eu falei contra uma das posturas iniciais de alguns proponentes da 3aO — a de que pra obter sucesso seria preciso nivelar por baixo, deixar de olhar para a FC&F literária e investir na identificação com o público jovem. Essa postura ainda circula por aí, agora mais velada, mas a idéia de nivelar por baixo caiu rapidamente por conta da postura dos editores jovens, que se mostraram preocupados com a qualidade. E os escritores seguem os editores.

    De fato, quanto mais o tempo passa e mais eu ganho experiência editorial, me parece que a maioria dos escritores da Segunda Onda está engessada, e a evolução da FC&F tupiniquim está mesmo nas mãos da 3aO.

    Mas o quanto os seus autores estão interessados em contribuir para a EVOLUÇÃO da FC&F? A tônica da maioria parece ser apenas participar do momento editorial. Para além disso, a questão que o surgimento de um projeto ambicioso como “Neon Azul” levanta é se o sistema de “amiguismo” atrelado à 3aO — o mesmo sistema que precisa do bicho papão pra reforçar a sua coesão de grupo — é capaz de reconhecer uma obra ou um projeto superior. Se a ênfase vai para o participativo, fica difícil admitir situações de maior superioridade e relevância entre os membros do sistema.

    Há alguns anos eu perguntei se uma literatura pode evoluir sem que se estabeleçam reputações literárias. Parece que a posição consensual que se configurou foi a de que “antes é preciso criar massa de manobra” e “presença de mercado”. Mas essa é uma conversa que ouvi pela primeira vez em 1986! De lá pra cá o contexto editorial mudou da água pro vinho, mas a mesma conversa persiste. Será que vamos ter que esperar até o século XXII pra começar a pensar a respeito de questões de valor literário e diálogo com a tradição do gênero? E pra quê evitá-las agora, só pra não perturbar os egos e as amizades do momento?

    Tá na hora de encarar: o amiguismo pode promover alguma coesão, mas também é sinônimo de amadorismo e falta de seriedade e postura literária. Ele é um atraso, uma bola de ferro no pé dos escritores mais ambiciosos e talentosos.

    Pra ir além do amiguismo e da postura meramente participativa, a crítica séria tem papel fundamental. Não em termos de eliminar o diletantismo, como já foi colocado, mas apontar obras e autores que se destacam. E nisso eu sou só mais uma voz crítica, e não o árbitro final. Ninguém precisa ter medo do bicho-papão.

    • Mauro Says:

      A maioria não parece estar interessada no momento editorial, a maioria está interessada mesmo no momento editorial. A ênfase para o participativo somente ressalta esse interesse. Dessa conduta surge o amiguismo que cobra massagem no ego e manutenção de amizades de momento. Editores seriamente engajados na qualidade dos textos também levam suas pedradas. Mas será que determinados trabalhos não são editados porque o mercado é fechado para os autores nacionais ou os autores nacionais não estão comprometidos com literatura de qualidade?
      Enquanto isso o leitor se afasta do escritor de FC&F brasileiro. O maior critico é o leitor, e esse geralmente não assina nenhuma coluna, simplesmente deixa de ler aquilo que não lhe agrada. Em outras palavras, ele é o árbitro final.

  12. Enio Myrddin Says:

    Por essas e outras eu reluto em chamar de crítica o que eu faço no meu blog
    Não tenho competência para tanto
    Sou só um leitor que gosta de dar seu parecer sobre as coisas que lê
    É uma opinião, não uma crítica…

  13. Antonio Luiz M. C. Costa Says:

    Discordo de que o tal sistema de “amiguismo” esteja particularmente atrelado à “terceira onda”.

    Acompanho o meio da fantasia e ficção científica há algum tempo e – sem entrar no mérito de quem é mais ou menos talentoso – tenho visto exatamente o mesmo comportamento na “segunda onda” e com os mesmos sintomas de hipersensibilidade do ego inflado, mesmo se esses autores são supostamente mais maduros e experientes.

  14. Anderson Moreira dos Anjos Says:

    Acho que com a popularização da literatura de FC/F no Brasil, seja por novos autores surgindo com ideias maravilhosas, seja pela galera mais antiga reinventando seu próprio jeito de escrever, alguns autores acabam se levando a sério demais, boa parte das vezes por culpa do “amiguismo”.

    Como leitor me sinto bombardeado, todos os dias pelo twitter, por avalanches de elogios proferidos por autores sobre a obra de seus amigos, quando não, o que vemos são várias picuinhas entre autores numa briga de egos sem noção.

    Acho que se a literatura de FC/F brasileira começar a criar panelas o que vamos ter é a volta daquele cenário de “literatura feita pra gente culta” que perdurou por tantos anos no Brasil e que tem grande parte da culpa por termos tão pouco costume de ler.

    • Tibor Moricz Says:

      As panelas sempre existiram, existem e sempre existirão. Isso é fato e não há nada que se possa fazer contra. Qualquer tentativa é lutar contra moinhos de vento. Espera-se, apenas, que haja intercâmbio entre as várias panelas para que alguns integrantes, os mais safos, consigam evoluir e se destacar entre a mediocridade geral.

  15. Arthur Says:

    Só não entendi uma coisa: o Roberto de Souza Causo acha que fazer liiteratura direcionada ao público juvenil é “nivelar por baixo” ou esse era literalmente o discurso inicial da Terceira Onda?

    • Roberto de Sousa Causo Says:

      Oi. Não se falou em uma prática de ltieratura juvenil, mas a de se fazer concessões a um público jovem que não estaria interessado em ciência e cuja familiaridade com o gênero viria mais do cinema, videogames e TV, do que da literatura. Propunha-se ainda um retorno ao “pulp”, como estratégia vitoriosa para alavancar o gênero, e, finalmente, que os autores da Segunda Onda teriam fracassado por não terem adotado as práticas propostas. É claro, esse discurso inicial foi de algumas pessoas que primeiro abraçaram o conceito de uma Terceira Onda. Não necessariamente o de todos os escritores identificados com a Terceira Onda.

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