Diga “não!” à dominação cultural imperialista.

Houve tempo em que a ficção científica que se escrevia no Brasil era toda eivada dos símbolos da literatura estrangeira e de tal forma contaminada por eles que não existia nem a mais tênue sombra de uma literatura identificada com a nossa realidade.

Isso fez surgir alguns insurgentes escritores brasileiros que, em busca de uma literatura de raiz, com personagens, cenários e ambientações tipicamente nacionais, procuraram romper com os asfixiantes clichês anglo-saxônicos.

Foi quando Ivan Carlos Regina, autor premiadíssimo da Segunda Onda da FC&F brasileira, escreveu o Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira (publicado no fanzine Somnium em 1988), pegando carona no famoso Manifesto Antropofágico escrito por Oswald de Andrade. O que era pra ser uma brincadeira acabou como símbolo de uma geração que buscava uma identidade própria, repudiando a mediocridade que permeava o cenário da literatura de gênero à época. Um movimento literário em sua essência.

Leiam esse manifesto e ponderem: mudou alguma coisa de lá para cá?

***

MANIFESTO ANTROPOFÁGICO

DA FICÇÃO CIENTÍFICA

BRASILEIRA


MOVIMENTO SUPERNOVA

O homem foi até as estrelas para se encontrar e só achou o vazio, vazio, vazio.

Descobriu que no interior de todos os sóis se esconde a noite, e com ela sua inimiga ancestral, a escuridão.

São seus companheiros de viagem a morte, a dor, o riso, o sexo, a miséria, a alegria, o amor, o tédio, a solidão, a desesperança, o cansaço e a preguiça.

No cruzar da existência uma pirâmide de objetos inúteis: um forno de microondas, uma garrafa plástica, um quilo de éter, uma blusa de náilon, uma lâmina de barbear. Objetos do dia a dia.

Não propomos a dialética do povo mas a estética do novo.

O homem odeia o deus e ama o robô. Seu destino é destruir a perfeição e criar a aberração.

O totem foi a primeira máquina do homem.

Queremos ser uma explosão da forma e uma revolução do conteúdo. A supernova no céu do convencional.

A alegria e a prova dos nove.

A tecnologia e, em ultima instância, a tentativa neurótica do homem em substituir todos os seus componentes humanos por artificiais, criando um mundo onde ele seja o menos possível responsável.

Um boitatá de olhos de césio espreita no planalto central do país.

Ao lidar somente com a máquina, a ficção científica transforma-se num gênero de cenários, um arremedo de vaudeville, estéril e inconsequente.

Não viemos criticar a função da máquina mas propor a estética do homem.

Precisamos deglutir urgentemente, após o Bispo Sardinha, a pistola de raios laser, o cientista maluco, o alienígena bonzinho, o herói invencível, a dobra espacial, o alienígena mauzinho, a mocinha com pernas perfeitas e cérebro de noz, o disco voador, que estão tão distantes da realidade brasileira quanto a mais longínqua das estrelas.

A ficção científica brasileira não existe.

A cópia do modelo estrangeiro cria crianças de olhos arregalados, velhinhos tarados por livros, escritores sem leitores, homens neuróticos, literaturas escapistas, absurdos livros que se resumem as capas e pobreza mental, colônias intelectuais, que procuram, num grotesco imitar, recriar o modus vivendi dos paises tecnologicamente desenvolvidos.

A ficção científica nacional não pode vir a reboque do resto do mundo. Ou atingimos sua qualidade ou desaparecemos.

A produção literária brasileira, no gênero de FC, à exceção de reduzido rol de obras, é de uma mediocridade horripilante.

Uma mula sem cabeça cospe fogo radioativo pelas ventas.

Emulamos tecnologias sem conhecê-las.

Um Saci Pererê matuta, com uma prótese de vanádio, masca mandioca, tritura paçoca e arrota urânio enriquecido.

A alegria e a prova dos nove.

O homem prova, todo dia, que não é merecedor da tecnologia.

Queremos despertar o iconoclasta que jaz em todo peito brasileiro.

Morte aos adoradores de máquinas.

Um caipora verde amarelo devora hambúrgueres, destrói satélites, deglute armas e destroça tecnologias.

Um índio descerá de uma estrela colorida brilhante.

SUPERNOVA

São Paulo, 1º ano após o desastre de Goiânia.

IVAN CARLOS REGINA

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7 Respostas to “Diga “não!” à dominação cultural imperialista.”

  1. Roberto de Sousa Causo Says:

    Uau. Que saudade das reuniões do CLFC de 1987 e 1988. Foi em uma delas que Ivan Carlos Regina leu trechos do seu “Manifesto Antropofágico” pela primeira vez. O movimento que ele lançou acabou sendo conhecido mais como “Movimento Antropofágico da Ficção Científica Brasileira”, do que “Movimento Supernova”. O manifesto foi publicado pela primeira vez no fanzine “Somnium” em 1988, e em 1993 teve divulgação nacional via “D.O.Leitura” (a famosa edição especial de ficção científica agitada por Silvio Alexandre). Também em 1993, apareceu na coletânea de Regina, “O Fruto Maduro da Civilização”.

    O manifesto gerou polêmica e muitas manifestações cretinas, como é inevitável. Mas foi o primeiro movimento conceitual — não editorial nem comunal — da história da FC brasileira, e a questão que ele promoveu, a da brasilidade e da renúncia aos clichês do gênero, vinculados a ideologias não necessariamente locais (especialmente quanto ao relacionamento com a ciência e a tecnologia), foi a Questão Literária da Primeira Onda.

    Eu já defendi em outras partes que o movimento teve um efeito sobre os autores do fandom, diminuindo a incidência daquela FC mais ingênua, durante a década de 1990, especialmente — mas em termos estéticos e intertextuais, quem realizou o programa de Regina foram os autores tupinipunks, todos ou quase todos sem contato com as idéias dele, especialmente Fausto Fawcett, Guilherme Kujawski e Ivanir Calado. Eles foram diretamente à fonte — o Modernismo de 22 e a antropofagia cultural.

    É bom que o manifesto volte a ser divulgado. Vamos ver que repercussão ele provoca, mais de vinte anos depois.

  2. Roberto de Sousa Causo Says:

    Ops. Onde se lê “foi a Questão Literária da Primeira Onda”, leia-se “foi a Questão Literária da Segunda Onda”.

    É que na hora eu estava escrevendo um artigo justamente sobre as questões literárias, ao longo da história da FC no Brasil. A principal questão literária da Primeira Onda foi “o debate sobre a legitimidade do gênero, entre 1957 até meados da década de 1970, um debate conduzido nas páginas dos prestigiosos cadernos de cultura da época, especialmente o ‘Suplemento Literário’ do O Estado de S. Paulo. Envolveu figuras de importância na cena literária da época, como Mário da Silva Brito, Antonio Olinto, João Camilo de Oliveira Torres, Laís Corrêa de Araújo e André Carneiro a favor dessa legitimidade, e Otto Maria Carpeaux, Wilson Martins, Alcântara Silveira e Muniz Sodré, contra.”

  3. Alvaro Domingues Says:

    Excelente lembrança. O Causo, como testemunha ocular e estudioso do tema, colocou-se muito bem.

    Ponderando: se mudou ou não? Mudou e não mudou. Estamos em outro momento histórico, mas algumas questões não foram superadas e ainda gritam embaixo de outras que vem surgindo.

    Um boitatá de olhos de césio [ainda] espreita no planalto central do país.

  4. Marcello Branco Says:

    Já disse ou escrevi em algum lugar que este texto do Ivan é a sua maior contribuição à FCB, mais do que qualquer dos seus contos de alta qualidade, reunidos especialmente em “O Fruto Maduro da Civilização”. O manifesto deveria ser incluído num livro de “melhores da FCB”, destes que o Causo vem organizando mesmo não sendo ficção em strictu sensu. É a peça intelectual provocadora e iconoclasta de maior impacto da história da FC brasileira.

  5. tecnocibernetico Says:

    !!!

  6. Tupi or not Tupi ou a antropofagia na FC - Escritores de Quinta Says:

    […] oManifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira, de Ivan Carlos Regina, pela mão de Tibor Moritz, que levantou a bola, e deixou o pessoal fazer algumas embaixadas. Porém a bola caiu no chão e […]

  7. A grande ousadia | Tudo Says:

    […] https://esooutroblogue.wordpress.com/2011/03/11/diga-nao-a-dominacao-cultural-imperialista. Veja também, no mesmo blog, uma entrevista com Regina: […]

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