Livro é livro. Nada é tão permanente.

Recebi há poucos dias alguns exemplares do livro Muitas peles, de Luiz Bras e publicado pela Terracota editora, com o apoio do Governo de São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura.

Trata-se de um livreto com crônicas publicadas na coluna Ruído Branco do jornal Rascunho. Aproveito, alias, para agradecer ao Luiz pelo envio desses exemplares.

São textos que questionam, debatem, provocam e deliram. Chutam o pau da barraca. Muito mais literatura de gênero, muito mais ficção científica que outra coisa qualquer.

Leitura agradável e que faz pensar. Gosto de livros que fazem pensar.

Retirei dele um excerto (com a devida vênia do autor – não solicitada, mas presumida) que, acho, tem tudo a ver conosco enquanto autores, com todos os autores, sejam eles candidatos ou já publicados. Trata do sonho de publicar, de se tornar imortal posto que o livro permanecerá por gerações. Foi escrito por Rodrigo Lacerda, escritor e editor.

“Arrisco dizer que para a maioria dos escritores, bons ou ruins, o livro realiza antes de tudo mais um sonho de imortalidade. Se ele será considerado uma obra-prima, isso é um segundo momento de concretização do sonho, mas a publicação é o primeiro passo crucial. E não me digam que postar seu romance num blog é a mesma coisa. A virtualidade não dá as mesmas garantias da sobrevivência material do texto. E contra a morte, contra o desaparecimento da matéria que sustenta a consciência individual, nada como a tinta preta sobre o papel branco. Livro é livro. Nada é tão permanente. O espetáculo teatral passa, os filmes de menos de 100 anos atrás hoje são verdadeiros trapos velhos, precisando ser remasterizados e fotochapados, para não falar dos registros musicais, que até pouco tempo arranhavam, chiavam e disparavam pipocos para todos os lados. Um livro, para o editor, é mais um; mas para o escritor, é o sumo de sua existência.

Então, quando lhe recusam um livro, o autor ouve a recusa como se o editor estivesse dizendo: “Não vou contribuir para a sua imortalidade, vou barrar a transcendência de sua passagem pela face da Terra; você, se depender de mim, permanecerá mortal e medíocre, com sua memória sendo definitivamente enterrada dentro de duas ou três gerações de seus filhos e netos, e todas elas juntas não serão mais que um espirro do carona no banco de trás do rolo compressor da História”.

Alguém aí tem alguma dúvida da veracidade dolorosa do que foi escrito acima? Aguardo comentários.

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12 Respostas to “Livro é livro. Nada é tão permanente.”

  1. Dalton Says:

    Pois eu discordo…

    Acho que é ainda pior que isso. ^^

    Abraços,

    Dalton

  2. Carlos E. Baptista Says:

    Ei, tô terminando de ler agora ,e achando sensacional, também! Além da fluidez do texto, da pertinência das reflexões, há ainda a erudição do autor! Falar em John Kennedy Toole e em Bill Watterson , com aquela propriedade, é pra poucos! Também acho que os que escrevem estão convocados a ser bárbaros!

  3. Afonso Luiz Pereira Says:

    Sábias palavras! De fato, Luiz Brás traduziu o sentimento dos que almejam a publicação, seja um gênio literário, seja o humilde escritor amador em luta constante para vir à luz. Antigamente, segundo a sapiência popular, o objetivo de um homem era plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. E a última façanha era bem mais difícil do que é hoje, uma vez que a autopublicação está mais a mão. Portanto, nos tempos que correm, se o dito ainda vale, podemos dizer que o objetivo de um homem é plantar uma árvore ( que consiga realmente vingar ), ter um filho ( de forma bem planejada ) e escrever um livro ( que não seja adquirido apenas por amigos e parentes ). Mas, nos final das contas, como bem frisou o cronista, livro é livro. A imortalidade fica, mesmo que para as gerações futuras de amigos e parentes.

  4. Luciano Says:

    De certo modo, baseado somente nesse trecho, acho que a problemática é um pouco mais complexa do que “papel ou digital”. Notoriedade imortaliza mais do que colocar as coisas num papel. O livro não é tão permanente quanto se julga (ainda que tenha algum poder de permanência material). Ele é um status, e é assim hoje graças à cultura do best-seller. Carl Orff transformou uma poesia medieval em música, e pela música ele se imortalizou, não por ter algo em papel. Música: uma coisa que se dissipa no espaço e se perde no tempo assim que é executada. E está aí, em meios digitais, correndo o planeta. Difundir é se imortalizar.

    Publicar é bom, mas ele é só mais um meio de se chegar aonde quer.

  5. Alvaro Domingues Says:

    Eu me lembro de uma tirinha do Dilbert: ele pergunta ao Dogberto por que ele resolvera ser Editor. A resposta do Dogberto foi:

    — Por que posso destruir a vida de uma pessoa, recusando trabalho de sua existência, com uma penada só.

  6. Cirilo S. Lemos Says:

    Coisa semelhante disse o grande Ariano Suassuna um tempo atrás, numa entrevista para o GloboNews, se não me engano.

  7. Parreira Says:

    Já tentaram “barrar a transcendência de sua (minha) passagem pela face da Terra” diversas vezes. Mas eu continuo sendo um grande caradepau!

  8. Chico Moreira Guedes Says:

    também gosto de livro que me faz pensar, mas tem que me deleitar/surpreender pela força ou beleza do texto em si.

    quanto à questão de ser ‘autor publicado’, como tradutor ‘amador’ (sobretudo no sentido do que ama) tenho uma relação mais ambígua com isso, porque há um forte prazer no fazer da tradução que independe de virar papel, pelo menos tem sido assim até agora.

    Já que vc é um óbvio magyarszarmazasú, te convido pra qualquer hora me honrar com uma visita numa brincadeira que chamo de HungriaMania (www.hungaromania.wordpress.com). abs

    ps: apareci aqui seguindo um RT de @ClaudioParreira

  9. Na web « Says:

    […] Livro é livro. Nada é tão permanente. […]

  10. Luiz Bras Says:

    Tibor, meu caro, a principal diretriz desse livro foi “denunciar ou embaralhar as certezas do senso comum”. Pretensioso pra caralho, rs! Pena que ficou de fora da coletânea um artigo recente de que gosto muito, intitulado “Nem sempre os grandes escritores são bons escritores” e publicado no Rascunho de fevereiro. Fica para a próxima.

  11. “Nada é tão permanente quanto o livro” - Escritores de Quinta Says:

    […] polêmico escritor e blogueiro Tibor Moricz publicou um comentário breve sobre o livro Muitas Peles, cujo autor, Luiz Bras, presenteou um exemplar a todos os felizardos que […]

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