Pare de ler e vá fazer algo mais interessante.

Fico surpreso e chocado com as pessoas que leem centenas de livros por ano, estabelecendo recordes sucessivos. São alienígenas. Imagino que quase não fazem outra coisa, mergulhados em páginas e mais páginas, vivendo outras realidades (para eles, talvez, menos mortas?), concebidas por terceiros.

Nada tenho contra a leitura, mas há tantas coisas mais interessantes a fazer, tantas coisas mais importantes, tantas mais enriquecedoras, que me parecem tolos os que evitam fazer essa mesma constatação.

Em vez de abrirem um livro, experimentem passear pelo bairro. Vejam as pessoas, com todas as suas características mais marcantes, suas idiossincrasias. Observem a vida como ela se apresenta aos seus olhos. Visitem amigos, apareçam na casa de parentes, socializem mais. Observem os pássaros, os animais, os insetos… o menor deles. São fascinantes.

Vão às praças e acompanhem o leve farfalhar das árvores, a brisa que movimenta as folhas secas. Brinquem com seus filhos, interajam com a esposa, com o marido ou com o parceiro. Conversem mais, distraiam-se com outras coisas.

Façam palavras cruzadas, leiam um gibi despretensioso (e não aquele que movimenta as rodas culturais de gênero), vejam TV com o senso crítico desligado. Sejam menos chatos. Tirem a bicicleta do sótão e vão pedalar. Empinem pipa, vão à sorveteria, tomem pingados com pão e manteiga, conversem sobre futebol, basquete ou o esporte que preferirem. Vão jogar videogame.

Vão pescar. Passear na orla da praia, levar o cachorro pra fazer xixi, correr e brincar com ele como se fossem novamente crianças. Façam bolas de linha e deixem os gatos malucos. Observem o céu, o Sol, as nuvens. De noite, contem estrelas e olhem fascinados para as constelações, todas elas, as que puderem encontrar e identificar.

Fechem o livro e o coloquem num ponto tão alto da estante que sintam preguiça de voltar a buscá-lo mais tarde.

Vão ao cinema, comam pipoca e tomem Coca-Cola, rindo à toa. Liguem para sua mãe ou para seu pai e combinem um final de semana diferente. Vão flertar, sintam-se bonitos e desejados, sorriam mais, riam mais, sejam espalhafatosos, esquisitos, diferentes. Façam mais sexo. Interiorizem-se, meditem.

Há tanta coisa fascinante acontecendo à sua volta, que fugir para outras realidades se torna uma bizarrice sem sentido. Quase uma patologia.

Mas não quero que parem de ler. Ler é importante. Muito importante. Só não permitam que isso se torne a grande razão da vida de vocês.

A vida é linda demais para a desperdiçarmos dessa maneira.

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7 Respostas to “Pare de ler e vá fazer algo mais interessante.”

  1. Mauro Says:

    Tudo que é em excesso é prejudicial. O ideal é buscar o caminho do meio. O problema é que o ambiente social empurra o ser humano numa ou outra direção e alguns costumes acabam virando válvula de escape. De toda forma, a reflexão é válida: a leitura é um ato prazeroso demais para ser trocado por obrigação em atingir metas. O mesmo acontece com a arte da escrita que ao se tornar necessidade em estar no mercado pode tirar o prazer de quem lê.

  2. Parreira Says:

    Eu jogo muuuuito videogame com a minha filha, entre outras coisas.

  3. Luciano Says:

    Foto bacana. Praça do Japão, em Curitiba.

  4. Daniel Borba Says:

    Muito bom! Eu adoro jogar videogame ou simplesmente assistir televisão com meu filho. E adoro sair para andar. Sem ter pra onde ir ou hora pra voltar pra casa. É… e adoro ler também. Quando dá…hehe… Abraço!

  5. Brontops Says:

    “Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: repetimos apenas o seu processo mental. Ocorre algo semelhante quando o estudante que está a aprender a escrever refaz com a pena as linhas traçadas a lápis pelo professor. Sendo assim, na leitura, o trabalho de pensar é-nos subtraído em grande parte. Isso explica o sensível alívio que experimentamos quando deixamos de nos ocupar com os nossos pensamentos para passar à leitura. Porém, enquanto lemos, a nossa cabeça, na realidade, não passa de uma arena dos pensamentos alheios. E quando estes se vão, o que resta? Essa é a razão pela qual quem lê muito e durante quase o dia inteiro, mas repousa nos intervalos, passando o tempo sem pensar, pouco a pouco perde a capacidade de pensar por si mesmo – como alguém que sempre cavalga e acaba por desaprender a caminhar. Tal é a situação de muitos eruditos: à força de ler, estupidificaram-se. Pois ler constantemente, retomando a leitura a cada instante livre, paralisa o espírito mais do que o trabalho manual contínuo, visto que, na execução deste último, é possível entregar-se aos seus próprios pensamentos.
    No entanto, como uma mola que, pela pressão constante acarretada por meio de um corpo estranho, acaba por perder a sua elasticidade, também o espírito perde a sua devido à imposição contínua de pensamentos alheios. E, do mesmo modo como uma alimentação excessiva causa indigestão e, consequentemente, prejudica o corpo inteiro, pode-se também sobrecarregar e sufocar o espírito com uma alimentação mental excessiva. Pois, quanto mais se lê, menos vestígios deixa no espírito aquilo que se leu: a mente transforma-se em algo semelhante a uma lousa, à qual encontram-se escritas muitas palavras, umas sobre as outras. Por isso, não se chega à ruminação ( ou melhor, o afluxo intenso e contínuo do conteúdo de novas leituras serve apenas para acelerar o esquecimento do que se leu anteriormente ): entretanto, apenas esta permite assimilar o que foi lido, do mesmo modo como os alimentos nos nutrem não porque os comemos, mas porque os digerimos. Se, ao contrário, lê-se continuadamente, sem mais tarde pensar a respeito do que se leu, o conteúdo da leitura não cria raízes e, na maioria das vezes, perde-se. Em geral, o processamento da alimentação mental não difere daquele da alimentação corporal: apenas a cinquentésima parte do que se consome chega a ser assimilada; o restante é eliminado por meio da evaporação, da respiração ou similares. A tudo isso soma-se o facto de que os pensamentos transportados para o papel não são nada além de uma pegada na areia: pode-se até ver o caminho percorrido; no entanto, para saber o que tal pessoa viu ao caminhar, é preciso usar os próprios olhos.”

    Arthur Schopenhauer, em ‘Da Leitura e dos Livros’

  6. Ricardo França Says:

    Muy interessante. Semprei achei que existissem várias formas de ler e certamente o efeito é diferente se dedicar a leituras informativas, de entretenimento ou críticas.

    A famosa leitura dinâmica ou diagonal só presta para captura de informação seca, quadros gerais e com visões com forte desvinculação da experiência.

    Por outro lado eu acho que para se curtir um livro bom mas volumoso não se pode ter o afã de querer lê-lo de uma só tacada. Quanto mais eu gosto do estilo do autor mais tendo a criar um ritmo “rallentando” para me embeber das imagens induzidas. A curtir as entrelinhas e tentar especular sobre os motivos e condicionamentos que levaram o autor a se expressar daquela forma.

    O equívoco do texto do A.S. (o de cima, não o Arn Sacknussen) é se apoiar apenas num dos estilos de leitura possíveis, o de leitura absorsiva (como se faz hoje com a TV). Eu sempre mantenho uma distância quando se tem opiniões demais postas no texto mas me absorvo nas descrições das para-realidades e atitudes. Isto também pode ser um hábito bom.

    Não podemos esquecer que a fuga imaginativa propiciada pela leitura pode também ser muito enriquecedora, pois é uma forma bastante sintética e rápida de mostrar experiências e visões de mundo distintas, e que se mantendo uma atitude nem crítica nem passiva pode nos proporcionar até mais amadurecimento do que interagir com todo tipo de gente e suas expectativas cegas e condicionadas.

    Mas nada substitui a experiência metabolizada. quer seja sobre a vivência própria ou alheia. Uma vez um li numa revista MAD a seguinte frase: “Aprende com os erros dos outros, porque você nunca vai viver o suficiente para cometê-los todos você mesmo”

  7. Daphne Says:

    Por toda a minha vida, percebi que realmente uma leitura pode influenciar e muito na personalidade de uma pessoa… De fato, viver imensamente a cada momento esvaziando-se de conteúdo alheio, finalmente encontramos o verdadeiro “eu” e todos os limites humanos são apresentados, além de ser visível o quanto cada um de nós somos únicos e temos pensamentos confusos, mas o que importa é transparecer aquilo que é simples e natural, sendo como um instinto…
    A teoria não pode substituir a prática. Teoria serve para lembrarmos, a prática para executarmos, vermos resultados, aprendermos com experiência real e não entrar em um mundo imaginário. De que vale saber de mais sem sentir o conteúdo? Sabedoria e experiência são alinhadas, não se limitam apenas ao conhecimento. O importante da leitura é tão somente adquirir mais conhecimento para não ser ignorante em devidas ocasiões onde somos “obrigados” a conhecer e interagir com a sociedade, mas não se compara a aventura vivida, mesmo tendo sido dolorosa.

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