Estilo, técnica e estética. Essas merdas!

“O homem voltou para o lado dele e viu a mulher vindo rápida na direção em que ele estava. Quando viu ela, pensou: ela está vindo na minha direção…”

— E então? Tá ficando legal, não tá?

— Mas e o monstro? Onde entra o monstro?

— Calma!

“Quando a mulher chegou do lado dele, os dois se viraram para o final do corredor e… Nossa!… uma coisa melada e escura estava escorregando pelo chão e fazendo barulhos esquisitos.”

— Taí o monstro!

— Uau!

“Os dois saíram correndo pelo corredor, um do lado do outro, porque estavam lado a lado. Olhavam um pro outro, apavorados, e pensavam que estavam quase mortos”.

— O monstro vai pegar eles?

— Ah, se não pegar, não tem graça.

— Puxa, você escreve bem pra caralho!

— Escrevo mesmo, né? Mas olha essa parte, agora.

“No fim do corredor tinha uma porta fechada. Eles estavam sem a chave então ficaram chutando a porta com os pés e dando murros com as mãos com a esperança de que um homem ou uma mulher ou alguém, qualquer um do outro lado ouvisse a barulheira”

— Cara. Que tensão! Você tem jeito, você é bom nisso.

“A gosma chegou até o pé deles e grudou na sola, corroendo ele como um ácido que queima tudo no que toca. A mulher gritou primeiro e começou a pular pra todos os lados, chacoalhando os pés, dando chutes na gosma. Ela, melequenta, ia comendo tudo, até os joelhos dela que deixavam jorrar litros e mais litros de sangue…”

— Putz… dá pra ver a cena, é de cinema isso! Dá pra fazer um filme!

— Eu sei! Quando escrevo já vou vendo a cena. Escrevo pra virar filme mesmo. E tem gente que reclama, que diz que eu e meus chapas escrevemos mal.

— Jura? Não acredito!

— Pois é! Vem falar de estilo, técnica, estética… essas merdas.

— Cara, história boa é história que emociona a gente. A sua história é do tri-caralho! Ela tá perfeita! Não tem problema nenhum!

— E eu não sei disso? Mas tenho sorte. Publico meus contos numas coletâneas da porra que tão lançando. Tá certo que pago uma grana, mas é pouco. Se eu fosse ruim mesmo acha que iam me publicar mesmo pagando? E tem mais: tem editor que defende a gente, que diz que essas merdas de estilo são bobagens. Que história boa é a história que laça o leitor. Estética é coisa pra cuzão que não sabe escrever bem e se pega nessas merdas pra defender o seu lado. É crítico que não sabe escrever, que tem inveja da gente. Então esses bostas vêm dando paulada no nosso trabalho.

— Cê tá certo. É isso mesmo. Crítico é tudo bostão. Gente incompetente que morre de inveja de quem é estrela escrevendo. Crítico é aquele ser que, de repente, esqueceu o que é se divertir com uma boa leitura, passar horas acompanhando os personagens e se emocionando.

— É isso aí. Por isso continuo escrevendo do jeito que eu escrevo. Sei que sou foda e sei que quando me criticam, estão só destilando veneno. Nem ligo. Tô cagando.

— Continua aí, quero ver como eles morrem!

— “A mulher derreteu toda, a cabeça explodiu miolo nas parede, o sangue dela todo vermelho em cima das coisa gosmenta. O homem chorava lágrimas de seus olhos avermelhados de medo e terror. Apertava o corpo, da cabeça aos pés (incluindo as pernas), na porta. A gosma levantou como se tivesse pernas (mas não tinha) e foi se xegando devagar, borbulhando…

— Ei, “xegando” não é com “ch”?

— Ah, vá se foder você também!

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14 Respostas to “Estilo, técnica e estética. Essas merdas!”

  1. Alvaro Domingues Says:

    Excelente!

  2. Marcelo Bighetti Says:

    O pior é que tem um bando de gente assim…

  3. Carlos Patati Says:

    Ah!Ah! Ótimo!! O diacho é que a situação requer não só autores mais humildes, como editores que se importem mais com o que publicam, ou ao menos com o texto no qual trabalham…

  4. Simone Saueressig Says:

    Deus, se eu estivesse aí te dava um beijaço daqueles (olha só que sujeito de sorte você é!)! Crítica da crítica da crítica! Deu para rir e depois para chorar. Excelente!

  5. Davi M Gonzales Says:

    Muito legal mesmo Tibor.
    “Basta dizer apenas: é certo que alguém possivelmente poderia escrever palavras assim”

  6. Hugo Vera Says:

    Show!😉

  7. Antonio Luiz M. C. Costa Says:

    Imagine um dono de restaurante que escreva no Twitter: “Permita-se beber uma caipirinha, degustar uma moqueca sem criticar o sabor e o preparo. Ou ao menos façam melhor e provem que conseguem. Ficam ligados à qualidade dos ingredientes e esquecem do que realmente importa que é a diversão. Libertem-se…”.

    Alguém se atreveria a comer num lugar assim?

    • Tibor Moricz Says:

      Pior quando essa “cozinheira” em questão nem sabe juntar ingredientes. Mete as mãos pelos pés; sal demais, pimenta demais e paladar de menos. Desse restaurante fico bem distante.

  8. Daniel Borba Says:

    Excelente, Tibor! Mas vem cá, o cara consertou “xegando”? Ou deixou com “x” mesmo?rs

  9. Clinton Davisson Says:

    Caraca! Genial!

  10. Flávio Medeiros Says:

    Uma pérola, Tibor. A gente ouve ou lê isso todo dia. A que mais adoro é a de que os críticos “têm inveja da gente”. Sempre me faz pensar nos motivos que tenho para ter inveja desses ignóbeis, o que não me toma muito tempo. Rs*

  11. João Ventura Says:

    Eheheh! Ainda estou rindo…😛

  12. Osíris Reis Says:

    Do baralho, Tibor, do baralho!!! Um conto que resume direitinho os pepinos que vivemos.

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