E as boas resenhas não param!

Meu romance O Peregrino tem recebido avaliações muito boas dos leitores brasileiros. O bastante para me fazer acreditar que acertei a mão ao escrevê-lo. Foram, afinal, cerca de seis meses de trabalho, numa imersão total, que inclui desde os primeiros esboços do livro com o acompanhamento dos leitores beta até o período de finalização onde todos os apontamentos foram observados e corrigidos.

Alguns capítulos desapareceram inteiros, dando lugar a outros ou simplesmente jogados fora. Mexi e remexi muitas vezes e ainda fiz passar por mais duas leituras beta depois das duas primeiras e das correções necessárias que essas leituras apontaram.

Ou seja, O Peregrino deu bastante trabalho mas foi altamente recompensador. Além das resenhas positivas feitas por Cesar Silva, Daniel Borba e Álvaro Domingos, soma-se a elas, agora, a resenha feita por Larry Nolen, editor e crítico Norte-Americano.

Ele destaca, principalmente, a qualidade da minha prosa, comparando-a, em alguns aspectos, com a de Cormac McCarthy, coisa que obviamente me deixou bastante satisfeito.

Você pode lê-la no original, aqui. Ou pode ler o texto colado abaixo, em bom português:

OfBlog – Tibor Moricz, O Peregrino (The Pilgrim)

Uma escuridão imensa.  Silêncio.  Um nada absoluto.  Foi assim por um tempo desconhecido.  Até que se iniciou um rumorejar.  Como água correndo pelo leito de um rio.  De começo uma correnteza leve.  Depois uma enxurrada que sai arrastando tudo o que encontra pelo caminho.  Estava mergulhado nela, sendo arrastado.  Ora submergindo, indo até as profundezas mais densas, ora explodindo na superficie, procurando por ar.  A água corria por leitos impenetráveis.  Embora estivesse sendo conduzido violentamente para algum lugar, era-lhe impossível determinar o seu destino.  Era-lhe impossível determinar qualquer coisa, porquanto a escuridão ainda imperasse. (p. 9)

A passagem de abertura do romance do escritor brasileiro Tibor Moricz, O Peregrino: Em Busca das Crianças Perdidas (2011) chama a atenção pela rigidez. Ao longo do primeiro terço desse romance curto (196 páginas), a narrativa de Moricz está repleta de frases curtas e afiadas que ilustram a dureza da terra pela qual perambula o peregrino do título. Esta terra é uma visão do Velho Oeste americano no século 19, através dos olhos de um estrangeiro. A leitura foi interessante pelo tanto de estranheza que causou em alguns momentos.

A história que Moricz escreveu sobre o peregrino (seu nome, embora revelado na narrativa, vai permanecer em segredo para os poucos que desejem ler o livro em português) captura essa sensação de brutalidade e estranheza no mundo que tantas vezes inspira outros a vaguearem em direção a seu abraço implacável. Não é uma história simples; há alguns apartes e passos em falso que encontrei enquanto lia. Mas foi uma história que prendeu minha atenção ao longo da narrativa.

O que mais gostei em O Peregrino foi a prosa de Moricz. Ele usa passagens curtas e descritivas para expor a sua versão do oeste americano de uma maneira que, às vezes, me fez lembrar de Cormac McCarthy. Isso não quer dizer que suas histórias sejam parecidas, mas sim que suas narrativas compartilham uma brutalidade que chega a ser semelhante. A escuridão está presente o tempo todo neste romance, desde as primeiras linhas até o final. Em alguns pontos, há um pouco de luz, mas são momentos que servem apenas para enfatizar a desolação que encontrei em várias cenas.

Um problema que tive foi com os nomes. Talvez devido a ser um escritor estrangeiro (ao menos para mim), os nomes utilizados por Moricz para várias pessoas soaram um pouco fora — às vezes inadequados — de lugar. Mas, novamente, essa sensação de “fora de lugar” não prejudicou a narrativa, mas deu-lhe uma espécie de sensação estranha ou transposta, como se o Oeste americano não fosse aquele lugar onde mitos são criados, com o qual já estou acostumado, mas tivesse sido transformado em algo menos familiar e ligeiramente mais ameaçador. Esta qualidade fez de O Peregrino um trabalho imaginativo agradável, apesar de pequenas falhas, que chamará a atenção de quem quiser ler uma história ambientada no Oeste americano, com alguns elementos de steampunk acrescentados em boa dose.
Larry Nolen

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5 Respostas to “E as boas resenhas não param!”

  1. Tibor Moricz Says:

    Fazer comentário na próprio postagem é o fim dos tempos…rs… mas não resisti a tentação. Recentemente discuti aqui a importância da técnica, do estilo e da estética que muitos por aí consideram coisas secundárias numa narrativa (e consideram isso publicamente, sem constrangimentos).
    A avaliação crítica do Larry Nolen me mostra que toda a minha preocupação com o “contar-bem” além de “contar-uma-coisa-legal” está mais que bem fundamentada. É a boa escrita, fruto de evolução, interesse e estudo, que imortaliza um autor. Histórias boas (muitas vezes nem tão boas), sem, porém, cuidado estético, são cobertas pelo pó do tempo e seus autores completamente esquecidos.

  2. Alvaro Domingues Says:

    Há o contar uma história é há o contar bem. E eles não são excludente, mas complementares. Uma boa trama se beneficia muito de uma boa escrita. E vice versa: o falar bonito se beneficia muito se há algo muito interessante a ser dito.

  3. Osíris Reis Says:

    Parabéns, Tibor! Realmente é uma conquista e tanto.

    Mas eu entendi direito? O Nolen leu o livro em português???

  4. Arthur Duarte Says:

    Osíris, não é o primeiro livro que o Nolen lê em português. No blog dele já foram resenhados Os dias da Peste, do Fábio Fernandes e O Centésimo de Roma, do Max Mallmann, além do livro do Tibor. Esses são os que sei, não tenho ideia se ele já provou mais da nossa “culinária”, hehe. =)

    • Tibor Moricz Says:

      Ele ainda leu e resenhou Steampunk, histórias de um passado extraordinário (Tarja) e VaporPunk (Draco), embora tenha recebido vários outros livros cuja resenha preferiu não fazer.

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