Sagas Volume 1 – Lido e comentado

Li recentemente o volume 2 dessa coleção e agora termino a leitura do volume 1. Trata-se da Série Sagas organizada por Duda Falcão e Cesar Alcázar e editado pela Argonautas (2011). Esse volume de fantasia heroica é composto pelos seguintes autores: Cesar Alcázar, Duda Falcão, Georgette Silen e Rober Pinheiro. Formato de bolso, 12×18 e 140 páginas.

***

Lágrimas do anjo da morte – Cezar Alcázar

Guerreiro nórdico sobrevivente em terrível batalha recebe a visita da morte, ainda no campo de batalha, em meio aos cadáveres, que lhe oferece um trato em troca da vida. Narrativa firme e segura de Cesar Alcázar mostra a luta de um guerreiro que apesar de ansiar mais do que tudo abandonar a espada e as guerras, não consegue se livrar disso. Embora leve, o aprofundamento do personagem, que luta com conflitos internos, deixa o conto ainda melhor.
Encontrei a expressão “bucaneiro viking” e ela me pareceu deslocada, anacrônica. O termo bucaneiro começou a ser usado em princípio do século XV e os Viking atuavam nos séculos VIII ao XI. BOM

A cidade de Elan – Georgette Silen

Guerreira chega à cidadela para resgatar importante artefato. Rebeliões e reviravoltas marcam a narrativa. Esse é um conto que receberia um BOM se a autora não se deixasse perder em exageros, hipérboles elevadas à enésima potência, figuras de linguagem e construções estranhíssimas e até bizarras que em vez de agregarem peso dramático à trama só me fizeram rolar de rir enquanto lia.

“Um imponente corcel que resplandecia seu pelo em reflexos azulados ao luar”.

“… que aplacava a sede do solo árido”.

“… a lâmina refulgia como uma joia em prata”.

“A falta de uma brisa mesmo nesse ponto mais alto, criava concentrações de cheiros e sons presos numa bolha de pedras negras”.

“Mariposas sangrentas ao luar”.

“O sangue era algo que as pupilas desejavam ver correr entre as pedras”.

“Uma turba miscigenada em tipos e motivos bloqueava a passagem”.

“A voz rouca ecoou como um sino tangendo”.

“O resfolegar quente do cavalo negro refletiu suas palavras”.

“Imprecações misturavam-se ao cuspe expelido por bocas desenhadas em esgares diversos”.

“O ar denso eletrificou-se, gerando estática entre os corpos suados, ensebados”.

“Oco sonoro”.

“circulando em gravidade elíptica”. (em vez de órbita elíptica)

“As cabeças rugiram”.

“os passos rasgaram o chão em chiados roucos…”.

“faíscas surgiram do encontro como estrelas expulsas da noite”.

“Esguichando a vida entre jatos aleatórios”.

“contra a luz da lua que chorava prata”.

“olhos gritavam ameaças e lábios retorciam-se em satisfação”.

Esses exemplos são só uma pequena mostra da imensa colcha de estranhezas do conto. Uma pena já que a história “per si” tinha tudo pra ser boa. Mas não vai levar mais que um RUIM

A dama da casa de Wassir – Rober Pinheiro

Duas sociedades guerreiras buscam aliança através do casamento de seus herdeiros, mas para que a união se concretize, devem partir em busca de um artefato que jamais fora resgatado por nenhum outro guerreiro anteriormente. O conto mais bem escrito da coletânea, embora a profusão de nomes estranhos tenha me causado problemas na leitura. A confusão a que me vi, sem conseguir identificar de imediato quem era quem acabou por me fazer ligar a leitura no piloto automático e fui em frente ignorando esses detalhes.
Adianto que o que me foi uma dificuldade pode não ser para mais ninguém, então vou ignorar essa deficiência (que pode ser inteiramente minha) e julgar a obra pelo seu peso dramático e pela sua construção. Rober Pinheiro deu vida a heróis inteiramente humanos. Que cometem erros, que falham, que levam socos e ficam feridos (que morrem!). Isso é uma virtude que muitos autores do gênero desconhecem. BOM

Sem lembranças daquele inverno – Duda Falcão

Sem nenhuma dúvida, o pior conto do livro. Parei a leitura e a reiniciei várias vezes, querendo desistir e me impedindo disso. O conto da Georgette Silen ainda prendeu a minha atenção com o humor totalmente involuntário, mas esse trabalho de Duda Falcão nem isso teve. Narra a aventura de um herói em busca de uma gema, trabalho pelo qual será regiamente pago. Condução terrível, diálogos fracos, personagem estereotipado até a última gota de sangue (que o herói passou a história toda sem verter), passagem inverossímeis, fora descrições de personagem como:

“O homem de cabelos loiros” – “O herói dos cabelos loiros” – “O herói dos olhos azuis” – “O herói dos cabelos dourados”

Só faltava ainda encontrar coisas como: “O homem do peito largo” – “O homem das coxas grossas” – “O homem da força bruta” – “O homem do… Deixa pra lá”.

Graças aos deuses ele nos poupou disso.

Sem contar que Duda Falcão retornou com a expressão “cascos brasis” que parece ter sido cinzelada a fogo em sua memória. ECA!

***

Esse volume 1 da coleção Sagas foi até agora o mais fraco. Decepcionou-me e me mostrou, mais do que tudo, que narrativas épicas e fantasias heroicas não são o meu forte. Não as escrevo (jamais as escreverei) e lê-las me causa certo desconforto só vencido quando tenho pela frente uma narrativa primorosa ou próxima disso.

Ao conjunto um gentil MÉDIO

3 Respostas to “Sagas Volume 1 – Lido e comentado”

  1. Fernando F. Fasoli Says:

    Olá Tibor…. Bela análise critica dos textos. Toda crítica será sempre construtiva, se os autores sublimarem seus “egos”, esse sim, o verdadeiro demônio interior que todo escritor sempre deve enfrentar… Demônios exteriores que nós autores inventamos, reinventamos e abusamos deles com esteréotipos forçados só serão perpétuos em uma história ficcional se tiverem uma personalidade marcante e acima de tudo, se realçarmos suas características humanas… Excelente crítica construtiva. Parabéns.

  2. Cesar Alcázar Says:

    Olá, Tibor.

    É uma pena que o livro não tenha agradado muito. Mas, como disse antes, essas opiniões são importantes para o nosso desenvolvimento. A Argonautas ainda é jovem e tem muito o que aprender.

    Obrigado mais uma vez pela resenha.

    Lançaremos o Sagas Vol. 3 no Fantasticon 2011. Espero poder conhecê-lo pessoalmente por lá.

    Um abraço,

    Cesar Alcázar

  3. James Says:

    O desenho da capa é mito bonito.

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