Reinventar a roda ou não reinventá-la, eis a questão.

Tem-se falado sempre nesse negócio de “reinventar a roda”. Trata-se de um termo que é sempre trazido à baila quando o assunto é discutir a literatura de gênero nacional em comparação com a estrangeira (mais especificamente a anglo-saxã). Usa-se normalmente quando surgem questões que tentam explicar porque um autor nacional não consegue nenhuma visibilidade lá fora ou porque esse mesmo autor nem deve tentar essa visibilidade.

“Quem vai conseguir ser notado lá fora se o que se faz aqui dentro é a reinvenção da roda?”

Ou seja, traduzindo:

“Se o que se faz aqui dentro é repetir a mesma fórmula consagrada lá fora, sem sequer extrapolá-la em originalidade?”.

Considero o raciocínio válido, mas chamo a atenção para uma coisa: não há absolutamente nada de errado em reinventar a roda, desde que se faça isso com qualidade. Histórias precisam ser boas, pouco importando se os temas abordados não são exatamente originais.

Se fôssemos todos obrigados a escrever com a mais absoluta originalidade, o gênero sequer existiria, ficando restrito a pouquíssimos; esses mesmos também limitados por eventuais arroubos de genialidade, que eclodiriam entre largos intervalos de tempo.

O que mais se faz em todo o mundo, é reinventar a roda. Mesmo os gênios a reinventam exaustivamente.

“Ah, mas então fica mais fácil tentar publicar lá fora, não fica?”

Não, não fica. E vou dizer por quê.

Deem-me uma só razão para um editor americano ou inglês publicar o SEU livro, se eles têm centenas de bons autores LÁ, reinventando a roda como você? Não se iluda achando que a sua história é megaultrasuperblast (talvez até seja). Existem inúmeras histórias megaultrasuperblast lá fora e, claro, vão escolher autores de casa e não estrangeiros cuja cultura destoa tanto da deles.

Só há uma chance: ser um sucesso de vendas aqui. E me refiro a SUCESSO DE VENDAS (com caixa alta mesmo), tendo centenas de milhares de livros vendidos. Um fenômeno. Ou ser muito amigo de alguém influente lá fora (mas isso vou deixar pra lá, não deve nem entrar nas estatísticas). Preferencialmente as duas coisas juntas, óbvio.

Claro que existem as exceções (não… no mercado anglo-saxão não existem exceções – e não vale citar Paulo Coelho), mas são elas que confirmam a regra.

Resumo da Ópera: continue escrevendo as suas histórias. Seja o mais original que puder, mas não se preocupe demasiadamente com isso. Tente escrever bem, bem mesmo, e deixe as discussões teóricas para os acadêmicos. Treine muito, aprenda muito. Esqueça que existe um mundo fora do seu mundo e você vai se descobrir bastante satisfeito com o que faz (e vai ter um monte de leitores aqui, satisfeitos com o que você faz – e alguns nem tanto, mas é assim que funcionam as coisas).

Vai que dá uma sorte e… Bem, não tente objetivamente, mas sempre deixe uma porta aberta para a improbabilidade.

Vai que você se torna uma das exceções, não é mesmo?

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12 Respostas to “Reinventar a roda ou não reinventá-la, eis a questão.”

  1. marcellogarciamarcello Says:

    Tibor, gostei muito do texto. Acrescento que funciona muito , também na minha área de fotografia
    Simples, objetivo e direto.

    grande abraço

    Marcello

  2. Roberto de Sousa Causo Says:

    Acho que você está certo em todas as reflexões deste artigo, Tibor. Mas quando ouvi editores americanos falarem sobre a raridade dos textos traduzidos no mercado ianque, eles disseram que a tradução é uma obra de arte, e os tradutores são tão bem remunerados que é como se o editor pagasse duas vezes pelo livro — e é claro, com o autor local eles pagam apenas uma vez, o sujeito está lá para promover o livro, e a editora americana controla os direitos subsidiários (cinema, TV, etc.).

    Em outros países, acostumados como nós a traduzir a maior parte da FC/F publicada no seu mercado, a situação é um pouco diferente, mas ainda assim acho que as suas reflexões continuam pertinentes.

    Não obstante, é preciso saudar as realizações de gente como Jaques Barcia, Estevão Ribeiro e Fábio Fernandes, que estão conseguindo publicar lá fora.

    • Tibor Moricz Says:

      Você tem todas as razões em citar O Jaques, o Estevão e o Fábio Fernandes. Eu me referia especificamente a romances e classificaria o Estevão como uma das exceções que validam a regra…🙂
      Publicar contos é relativamente mais fácil lá fora. Bom domínio do inglês (ou uma tradução competente) e uma história boa ajudam bastante. Não há custos maiores para a editora.

      • Christopher Kastensmidt Says:

        Concordo com Causo que a maior barreira seja na tradução. Escrever prosa em outro idioma não é mole (eu ainda não traduzo a minha ficção para português, e publico artigos acadêmicos toda hora na mesma).

        Na área de contos, a concorrência é muito grande. O editor procura qualquer fraqueza para o rejeitar logo, já que tem que ler centenas por mês e precisa filtrar. Quando alguém mandar uma tradução mal-feita, o conto vai ser rejeitado de cara. Pagar alguém para traduzir é pior ainda. Tem que encontrar alguém competente em traduzir prosa (vou chutar que 98% dos tradutores trabalham com não-ficção – documentos, contratos, livros técnicos, etc), e quando encontrar alguém competente para traduzir prosa o preço vai ser três ou quatro vezes o que o autor vai receber para a venda, na melhor hipótese.

        Para um romance, uma tradução razoável deve custar uns R$20.000. Então só para ser considerado o autor tem que pagar isso ou encontrar alguém que aceita ler o texto em português (difícil!). E mesmo lendo, será que o editor vai arriscar gastar no custo da tradução?

        Mas entra aqui o que você falou sobre sucesso de vendas, que é verdade. É a única segurança que o editor estrangeiro tem para justificar o custo de tradução. Para aceitar mais risco em um lugar, tem que baixar em outro.

        Jaques e Fábio têm sucesso porque são escritores/tradutores, e conseguem fazer as duas coisas com excelência. Infelizmente, para os escritores mortais, a trilha é outra.🙂

        Foi todo este pensamento que inspirou o Concurso Hydra: uma chance de ganhar uma tradução de graça para quem não consegue fazer uma por si. É uma gota no mar, mas…

  3. Cesar Alcázar Says:

    Uma boa oportunidade para quem quiser tentar uma publicação no exterior é o Concurso Hydra, organizado pelo Christopher Kastensmidt. Mas a concorrência vai ser grande!

    Abraços

  4. Alvaro Says:

    Algumas contatações válidas: todo mundi reinventa roda. Até autores consagrados “se reinventam”, ou seja reescrevem a mesma coisa com outras palavras (o exemplo mais flagrante é de Agatha Cristie, isso dito pelos seus próprios fãs).

    Se eu for um editor no exterior (ou aqui mesmo), não vou arriscar publicar um autor, a menos que tenha recebido algum premio importante ou vendido mais que a revista da Mônica (que aliás é sucesso no exterior).

    Você teve uma crítica de um acadêmicoa americano, o Roberto Causo eventualmente publica no exterior e o Estev~]ao Ribeirao, talvez por estar no lugar certo na hora certa, está em vias de publicar na Itália e André Carneirot eve seu livro traduzido até em Sueco. Parabéns aos quatro e a todos que conseguiram, de uma forma ou de outra, ter alguma repercursão no exterior. Porém, sera que isso vai representar alguma coisa no mercado interno? Piscina livre não é publicado no Brasil desde os anos 80.

    Se a maioria de nós sequer consegue uma edição de mais de 100 exemplares, e publicar no exterior não reflete necessárimaneto neste mercado, creio que a luta é aqui em primeiro lugar.

    E que se reinvente a roda. Como disse um colega de escrita, o fã sempre quer mais do mesmo. Conan Doyle que o diga.

    • Roberto de Sousa Causo Says:

      Uma listinha de autores brasileiros que publicaram FC e fantasia no exterior:

      * Coelho Netto: o romancer “Esfinge”, em Portugal.
      * Menotti del Picchia: o romance “A Filha do Inca”, na França.
      * André Carneiro: o romance “Piscina Livre” na Suécia; contos nos Estados Unidos, Inglaterra, França e mais sete países.
      * Clóvis Garcia: conto na Argentina.
      * Álvaro Malheiros: conto na Argentina.
      * Jerônymo Monteiro: conto nos Estados Unidos.
      * Walter Martins: conto na França.
      * Braulio Tavares: o romance “A Máquina Voadora” e as coletâneas “Espinha Dorsal da Memória” e “Mundo Fantasmo”, em Portugal; contos nos Estados Unidos, Canadá, Rússia, etc.
      * Marien Calixte: a coletânea “Alguma Coisa no Céu”, na Itália.
      * Gerson Lodi-Ribeiro: duas coletâneas e vários contos em Portugal; contos na França, Alemanha (revista digital) e Austrália.
      * Jorge Luiz Calife: contos na França e em Portugal.
      * Ivanir Calado: noveleta em Portugal.
      * José Carlos Neves: conto em Portugal.
      * Roberto Causo: a coletânea “A Dança das Sombras” em Portugal; contos na Alemanha (eletrônico), Argentina, Canadá, Finlândia, França, Grécia, República Tcheca e Rússia.
      * Finisia Fideli: contos em Portugal e Estados Unidos.
      * Jaques Barcia: conto em antologia da Inglaterra e em revistas eletrônicas internacionais.

      Sem mencionar aquelas figuras fronteiriças como Murilo Rubião e José J. Veiga.

      Me ainda parece que Carlos Orsi e Fábio Fernandes também tiveram publicações eletrônicas no exterior. Certamente, Carneiro, Lodi-Ribeiro e Tavares se beneficiaram no Brasil, da sua fama de publicados no exterior. Eles e outros autores poderiam ter uma presença maior lá fora, se estivessem focados nisso. Acho que atualmente apenas Barcia e Fernandes priorizam uma carreira internacional.

  5. kidkafka Says:

    Só lembrando que a roda foi surgiu em várias partes do mundo, inventadas por povos sem nenhuma ligação entre si, cada qual de acordo com sua necessidade. O raciocínio de que “este tema já foi abordado muitas vezes pela FC americana” não se sustenta quando pensamos que nenhum desses livros chegou ao público brasileiro, permanecendo a roda “não-inventada” por aqui. Se analisarmos, a falta de traduções permite que o autor nacional trabalhe sua própria visão de temas gastos lá fora, mas novos aqui. Quem vai achar o tema batido é o tal fandom, mas o alvo do escritor deve ir além desses nichos minúsculos e visar um público maior.

  6. Flávio Medeiros Jr. Says:

    Adaptando uma piada velha: o escritor morreu, e como todo bom escritor, foi direto pro inferno. Seguiu as placas até o “Inferno dos Escritores”, e o diabo recepcionista, para encurtar a prosa, se ofereceu para levá-lo para um tour. Passaram pelo salão dos escritores mainstream, e no meio tinha um enorme caldeirão frevente. Todos os escritores ficavam lá dentro, tentando sair, e eram empurrados de volta pelos tridentes de um batalhão de diabos. No salão seguinte, o dos poetas, havia o mesmo caldeirão, mas um número bem menor de guardas diabos, que só atuavam de vez em quando. No terceiro salão, o dos escritores de gênero, havia o caldeirão fervente cheio de escritores discutindo, e nenhum diabo vigiando. O recém-chegado perguntou a razão das diferenças, e o guia explicou: “Os escritores mainstream são muitos, o caldeirão fica lotado, e eles ficam o tempo todo tentando escapar, então precisamos de muitos guardas. Os poetas são mais sossegados, ficam lá declamando uns para os outros, e vez por outra um deles fica deprimido e tenta sair, por isso é bom ter alguns guardas por perto. Mas no caldeirão dos escritores de gênero é bem tranquilo, nem precisa de guardas, quando um deles tenta pular pra fora os outros puxam ele de volta.”
    Tum-tum-tchhhhh!

  7. Roberto de Sousa Causo Says:

    É verdade — Ataíde Tartari tem dois romances lançados nos States.

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