O voo de Icarus – Lido e comentado

Autor: Estevan Lutz
Editora: Novo Século (Selo Novos Talentos da Literatura Brasileira)
Páginas: 239
Edição: 2010

***

Num futuro distante, na cidade marítima de Agartha, a vida do jovem Icarus oscila entre dois vícios: a realidade virtual e uma droga alucinógena denominada Nirvana. Para ver-se livre dos efeitos nocivos dos seus vícios, aceita se submeter a um tratamento inovador.

A inoculação de um medicamento chamado Sinaptek, baseado em nanorobôs que atuam no cérebro, promete pôr um fim aos seus problemas. Mas ao ingerir acidentalmente uma dose de Nirvana (proibida para não prejudicar o tratamento a que se submete), o jovem se vê arremessado numa outra realidade muito distante de todas as que já teve oportunidade de conhecer.

Estevan Lutz conta a história de um homem que se vê projetado para fora do próprio corpo, numa espécie de desdobramento ou viagem astral. A premissa é bastante interessante e possibilita um leque de abordagens: a chance de construir cenários fantásticos, de fazer o protagonista viver situações surreais, de criar conflitos sobrenaturais, de amalgamar real e supra-real numa coisa só.

O autor se esforça nesse sentido e consegue obter resultados satisfatórios nas viagens fantásticas de Icarus, embora tenha se limitado demais diante das inúmeras possibilidades a serem exploradas e na complexidade que poderia acrescentar à trama.

O romance prima pela reflexão, sendo quase todo introspectivo. O jovem Icarus vive questionamentos constantes. O tom muitas vezes filosófico arrasta a trama e deixa claro que se o leitor está em busca de ação, vai perder tempo.

Não há pontos de tensão nem conflitos durante quase toda a narrativa. Cria-se uma perseguição ao final da obra, mas ela termina de forma apática, previsível e decepcionante. O protagonista e os coadjuvantes são rasos, não houve uma preocupação maior em construí-los solidamente. A opção exagerada pela reflexão e pela introversão roubou de O voo de Icarus a possibilidade de desdobrar-se a si mesmo.

A construção empolada prejudicou a leitura. A pompa desnecessária (em contraponto à clareza e a objetividade) dificultou a imersão na narrativa e acrescentou uma superficialidade à obra difícil de ignorar.

***

Exemplos:

“Com os punhos cerrados sobre o balcão, quase investi contra Lourdes por meio do emprego de adjetivos antissociais”.
Pag. 177

Isso tudo pra dizer que quase mandou a Lourdes tomar no rabo.

“Minha reação se restringiu a uma emanação criogênica que chegou a paralisar minha estrutura óssea”.
Pag. 191

E isso tudo pra dizer que estava gelado de medo.

Vários outros exemplos se repetem ao longo da narrativa. Deixou a impressão que os personagens da obra são todos sábios eruditos no púlpito.

***

A leitura sem nuanças nem emoções mais fortes, aliada a linguagem afetada (tentativa fracassada de eruditismo. Não custa repetir que a melhor prosa é a mais simples, não tentem complicar), derrubou qualquer possibilidade de uma avaliação positiva. Mas em se tratando de primeira obra de autor ainda inexperiente, é aconselhável dar alguns descontos.

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5 Respostas to “O voo de Icarus – Lido e comentado”

  1. Horacio Corral Says:

    Médio? Tá bondoso, Tibor. rs

  2. Estevan Lutz Says:

    Olá, Tibor! Obrigado pela resenha! De fato, a concepção da estória visou a introspeção. Seria como uma oposição ao filme “Matrix”, que visou a ação. Optei por construir alguns personagens “eruditos” pelo fato da maior parte da trama se passar num âmbito elitizado, que acabou envolvendo alguns personagens mais “exóticos”, mas alguns leitores podem achar isso realmente exagerado. Concordo com os trechos onde você citou exemplos de linguagem empolada, entretanto, não usaria aquela sugestão “…tomar no rabo”. No mais, sua resenha foi muito construtiva para mim, pois colho todas as opiniões para melhorar meus futuros textos.
    Pelo comentário que Horácio Corral deixo aí, percebi que ele também leu o livro, e gostaria que também emitisse uma opinão particular. Pode me contatar pelo Facebook, será um prazer trocar algumas ideias.
    Abraços!

    • Jauch Says:

      Olá Estevan,

      Como leitor do blog, mesmo não tendo tido a oportunidade de ler seu livro, gostaria apenas de dizer que fiquei bastante feliz com a forma/conteúdo do seu comentário.

      É raro encontrar um autor que diante de uma crítica menos positiva consiga manter uma postura digna. Infelizmente, muitos autores confundem a crítica à obra ou ao trabalho de produção da mesma com um ataque pessoal.

      Meus votos de sucesso com seus trabalhos!

      • Estevan Lutz Says:

        Olá, Jauch! Primeiramente, obrigado!
        Como você mesmo citou, muitos escritores (principalmente os iniciantes), tem o costume de levar as críticas de seus livros para o lado pessoal. Felizmente, não é meu caso. Eu não sou o meu livro! Meu livro é apenas uma expressão minha, vinda num certo momento.
        Obviamente, um livro nunca agradará a todos. Os leitores tem gostos e estilos pré-definidos.
        O importante, para o autor, é tentar tirar algum proveito de todos os comentários que chegarem ao seu alcance.
        Uma coisa eu afirmo, NÃO EXISTEM LEITORES MAIS CRITERIOSOS. EXISTEM LEITORES COM CRITÉRIOS DIFERENTES!
        O próprio Tibor sabe disso, pois já teve publicações que foram criticadas e até detestadas por alguns leitores. Mas, através dele, reconheci alguns pontos que podem ser melhorados. Coisa que dezenas de outros resenhistas (muitos que adoraram o livro) não citaram, pois nem se incomodaram com essas partes.
        Como já citei, cabe ao escritor traçar um equilíbrio entre todos os comentários recebidos, para amadurecer sua escrita. Se eu adaptasse minha escrita unicamente aos moldes do Tibor ou de outro resenhista (por exemplo, o Antônio Luiz, que já deixou aí sua gracinha), continuaríamos tendo leitores insatisfeitos.
        Um grande abraço!

  3. Antonio Luiz Says:

    O José Simão diria que tucanaram a literatura.

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