Só a antropofagia nos unirá?

Braulio Tavares está lançando uma coletânea de FC chamada Páginas do Futuro pela editora Casa da Palavra (Leiam matéria em O Globo, aqui) e responde a uma entrevista onde declara que a literatura fantástica brasileira precisa de um movimento antropofágico que a faça cortar o cordão umbilical que a prende às referências anglo-saxônicas.

Tal proposta já havia sido feita há alguns anos por Ivan Carlos Regina e, ao que parece, ainda não foi colocada em prática (com digníssimas exceções).

Vocês, meus queridos leitores, acreditam que esse rompimento com as referências externas e um mergulho no caudal de matéria bruta que nossa geografia, história e mitologia oferecem é absolutamente obrigatório? Podemos sobreviver sem isso? A literatura de Ficção Científica e Fantasia brasileira se tornaria mais rica, mais exuberante ou mais inteligente se explorasse cenários e personagens tipicamente brasileiros?

Ou boa literatura independe de cenário e ambientação e tudo isso é uma condenável xenofobia?

Diga o que pensam, exponham suas opiniões.

***

Minha opinião:

Uma boa história independe de território. Se o cenário são as matas amazônicas, ou as estepes turcas, ou o deserto de Nevada, pouco ou nenhuma importância tem. O argumento está acima de localização geográfica ou cultural. Ninguém está obrigado a escrever suas histórias se utilizando obrigatoriamente de cenários brasileiros, de personagens brasileiros. Também não acho que todas as histórias precisam ser ambientadas fora de nosso país. O argumento é que define isso. Sempre o argumento.


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72 Respostas to “Só a antropofagia nos unirá?”

  1. Eric Musashi Says:

    Também acho que o argumento é o mais importante, mas acho que não condiz um esforço que tanto se vê em trazer nomes e ambientações que buscam soar como os autores clássicos (sobretudo Tolkien). Devemos buscar novos horizontes, pois não vejo sentido em fazer o mais do mesmo, recontar velhos dramas com roupagem nova.

  2. Alexandre Heredia Says:

    O maior problema da literatura fantástica no Brasil não está apenas na temática (seja ela qual for) ou na origem geográfica dos personagens. O maior problema ainda é uma imaturidade linguística, uma “babação de ovo” generalizada, que torna os textos caretas e sem personalidade, além de descartáveis e esquecíveis. O objetivo da maioria dos novos escritores de gênero é “entrar no meio”, e não transgredi-lo. Enquanto “corrermos atrás” do mercado ele sempre estará à nossa frente.

    • Clinton Davisson Says:

      eu ia dizer alguma coisa, mas o Alexandre Heredia falou tudo que eu queria na frente. Vou assinar em baixo então.

      Vejo muita preocupação em ser aceito e não em transgredir. Síndrome de vira-latas literário…rs

  3. Ana Lúcia Merege Says:

    Honestamente, eu acho sim que temos muito a explorar por aqui, mas, como moradora de grande cidade e descendente de imigrantes pelos dois lados, sinto-me muito mais próxima dos clássicos europeus que li desde a infância do que dos mitos brasileiros. Tenho explorado o nosso folclore e as nossas paisagens em alguns contos (como o que saiu em Dimensões BR e o que sairá em Fadas e Duendes – eu Acredito, além do livro infantil que estou escrevendo). Mas os cenários europeus em geral me atraem mais.

    Agora, o que é curioso é que independente da ambientação alguns de nós têm um jeito brasileiro, peculiar, de escrever. Já me disseram que a miscigenação de elfos e humanos em O Castelo das Águias é feita “à brasileira” e perceberam a brasilidade no saltimbanco Cyprien de O Jogo do Equilíbrio.

    Enfim, acho que o importante é encontrarmos nossa voz como escritores e contar boas histórias. Não é forcejarmos por trabalhar em cenários, ambientes que de repente não nos falam à imaginação.

  4. Bruno Cobbi Says:

    Já subi em outros caixotes pra repetir isso, mas gosto tanto da idéia que não me canso nunca:

    A boa ficção é sobre pessoas e o mundo onde elas vivem.

    Boa ficção científica é só uma dessas cambalhotas.

    Entretanto, esse é o blogue do Tibor — o Thunderdome da FC nacional — não se sobe nesse ringue de wrestling se não for pra usar máscara, colante colorido e arriscar uma bela manobra.

    Então arrisco dizer que essa segunda relação fundamental sobre “o mundo onde elas vivem” é que desperta esse saci aí em cima, na figura.

    E todo cuidado é pouco quando se trata de sacis.

  5. Saint-Clair Stockler Says:

    Mas está havendo uma confusão aí: ser antropofágico não significa voltar as costas às literaturas de FC anglo-saxãs (ou quaisquer outras), muito pelo contrário! É ir lá, pegar tudo que os yankees e todos os outros produziram, fazer uma mistureba e deixá-la com a nossa cara gorda mulata de índio português, corrupta e de Terceiro Mundo .

    Os contos de FC brasileira que leio em geral têm cara de serem escritos por americanos porque o futuro é a cara do futuro “certinho” de um país de língua inglesa (“certinho” mesmo quando esse futuro é distópico). Mas as coisas não seriam diferentes aqui? Naves que funcionam mal porque o PT (sim, o PT vai continuar existindo no Brasil no futuro) superfaturou a licitação e as peças são de péssima qualidade; salários baixos; robôs de segunda categoria made in Angola porque os vendidos pela Honda têm preços tão altos graças aos impostos embutidos que só gente como o Eike Batista IV ou o José Sarney VII (cérebros velhos em corpos novos) podem comprá-los; analfabetismo funcional e crença em IAs mães-de-santo que aconselhariam os colonizadores de Marte (a ONU deu um pedacinho de terra lá no planeta vermelho ao Brasil pra gente não ficar de fora da festa); contrabando de armas laser para os traficantes de nanodrogas da Favela da Rocinha. Isso, sim, é antropofagia…

  6. Saint-Clair Stockler Says:

    Sugestão de um bom exercício para tentar imaginar uma literatura brasileira de FC “antropofágica”: Pegar O jogo do exterminador e tentar imaginar como ele seria se Ender fosse brasileiro e se todo aquele aparato tecno-militar que sustenta a história fosse do Brasil. O final seria o mesmo? Acho que não…

    (A minha sugestão: ou perderíamos a guerra com os insecta. Desculpe-me nova tradução do livro, não gosto do termo “abelhudo”) ou nos aliaríamos corruptamente a eles de alguma maneira)

    • Roberto Causo Says:

      É bico… Além da incompetência militar, Ender enfrentaria também a corrupção política. Sua família, ao invés de dá-lo por perdido, passaria a infernizá-lo pedindo que ele intermediasse privilégios. E depois de destruir os abelhudos, ele seria exilado não por ter se tornado uma figura perigosa demais no mundo do pós-guerra, mas como castigo por ter abreviado o conflito, quando os donos dos esquemas esperavam lucrar com ele por mais uma geração.

      • Antonio Luiz Says:

        Claro, como se não houvesse corrupção massiva nos EUA e na Europa e seus complexos industrial-militares não lucrassem horrores com as guerras no Oriente Médio, não é? É só pesquisar um pouco sobre Halliburton (do ex-vice Dick Cheney), Blackwater, Xe etc.

      • Roberto Causo Says:

        Tudo isso e muito mais, Antonio. A diferença, eu imagino, é que o brasileiro é mais ciente da corrupção do Estado — não sei se isso nos torna mais esclarecidos ou não, mas ela provavelmente constaria de uma versão brasuca do romance. É um dos itens da FC antropofágica de Ivan Carlos Regina: a iconoclastia brasileira.

  7. André Vianco Says:

    Sou totalmente a favor de explorar a brasilidade via cenários, folclore e os tipos que temos aqui. Tudo bem que de forma alguma é uma obrigação ancorar nossas histórias no Brasil, os universos estão ai para serem descobertos, inventados e contados. O que enche o saco são as emulações de cenários lançados por inúmeros tolkienzinhos, potterzinhos, crepusculinhos que se seguem as ondas, piorados e sem imaginação. O que falta não é uma pitada de ousadia aos escritores brasileiros, o que falta é um copo inteiro.

  8. Saint-Clair Stockler Says:

    Essa coisa de “antropofagia” também nas ficções de gênero (e não só na “mainstream”) me empolga. Estou assistindo American Horror Story e fico imaginando como seria uma Brazilian Horror Story. Bem diferente, por certo. Primeiro: não temos uma tradição vitoriana de histórias de fantasma/horror, coisa que a cultura anglo-americana tem de sobra. Segundo (e o mais triste) não temos casas imensas com porão e sótão! Quando leio um autor de “terror” brasileiro, sua voz me soa falsa porque ele escreve achando que é o Stephen King ou o Clive Baker!? Não há esse trabalho reflexivo anterior à construção do enredo, tipo: “OK. Não dá pra contar uma história de fantasmas numa casa de 4 cômodos. Ao menos, não como Stephen King faria… O que posso fazer então para adequar uma história desse tipo à minha realidade tropical?”. Isso de que estou falando pode ser usado pra praticamente qualquer gênero: histórias de vampiros, anjos, robôs, etc. Escrevi um conto de vampiros alguns anos atrás (inédito) e a primeira coisa que fiz foi justamente adequar o personagem à realidade brasileira. Cito dois exemplos. Primeiro: o vampiro brasileiro (que não se chama Bento Carneiro, ahahaha) tem de dormir mais porque aqui o dia dura mais; segundo: construí sua personalidade para que ele parecesse um tijucano, um malandro brasileiro classe-média que tem tesão na empregada evangélica e se irrita com a mulher torrando o cartão de crédito e com o filho fumando maconha no playground.

    O que fode tudo é essa galera brasileira querendo inventar casas imensas com porão e sótão em seus contos! =/

    • André Vianco Says:

      Repetindo o Clinton, esses dias escrevi um post no meu blog falando justamente disse, salvei como rascunho para postar depois, adicionar algumas coisas e tal. Mas falava desse incômodo de emular até os ambientes tipicamente norte-americanos. É uma armadilha fácil de apanhar o escritor novato de fantasia e terror porque o que tínhamos aqui era só literatura e cinema norte-americano e europeu mostrando essas coisas. Eu mesmo, em “O Senhor da Chuva” criei uma fazenda totalmente a lá Kansas, com celeiro invés de galpão, milharal, sobrenomes estrangeiros e tal e coisa. hehehehe. Antropofagia requer amadurecimento de escritor e contador de histórias e principalmente de observação.

    • Zeugmar Says:

      Saint-Clair Stockler:
      Falando em contos de terror “brasileiros”, a gente pode se lembrar do Zé do Caixão. Qdo assisti ao “A meia noite, levarei sua alma” (1969), pensei que seria uma bobagem risível no estilo Troma. Com o decorrer do filme, fui me lembrando das histórias que os velhos caipiras contavam pra botar medo nas crianças. Achei muito bom.

      Não sei se aceitaria tão facilmente uma transcrição literária.

  9. Braulio Tavares Says:

    Tibor, antes de entrar no debate quero deixar um registro. Na entrevista ao Globo (por telefone), eu disse à jornalista que essa atitude antropofágica vem, pelo menos, desde que Ivan Carlos Regina publicou nos anos 1980 o “Manifesto Antropofágico da FC Brasileira”. Esta informação não apareceu na matéria final, o que lamento.

  10. Renato G. O. Cunha Says:

    Para mim, esses movimentos “antropofágicos” morreram na semana de 22 e são inúteis em um mundo globalizado. Os ecos que ainda nos chegam, lembram-me muito Policarpo Quaresma: Alguém ainda vai sugerir que os livros sejam escritos em Tupy-Guaraní. O bom escritor pode ambientar suas estórias no lugar, tempo, que desejar, falando quer de lobisomens, quer de mapinguarí. Quer de trolls, quer de sací-pererê. Ambientando a narrativa quer em Paris do sec XIX ou em Cambará do Sul em 2245. O público é que vai escolher o que deseja e quaisquer patrulhas nesse sentido são ineficazes e tolas. As influências que cada um tem ou teve é assunto exclusivo do autor e de seu público.

  11. Alex de Souza Says:

    Não acho que ‘cortar o cordão umbilical que a prende às referências anglo-saxônicas’ se resuma a ambientar histórias em cenários nacionais e dar um ‘mergulho no caudal de matéria bruta que nossa geografia, história e mitologia oferecem’. Tendo a concordar mais com a visão do Heredia e, principalmente, com a de Stockler.

    Mas, levando por esse lado, vejo dois exemplos que talvez me contradigam. Seu primeiro livro, ‘síndrome de cérbero’, em sua ambientação de subúrbio norte-americano, tem uma narrativa interessante, mas que perde muito de sua força justamente por esse elemento. Dá a impressão que é apenas mais um no extenso lodaçal de literatura sobre viagens do tempo. A mesma sensação não se repete nos contos da Lasaitis no universo ficcional de ‘assassinando o tempo’, em que a tal ‘cor local’ torna a história mais palatável ao leitor brasileiro sem necessariamente haver essa diluição.

  12. Alex de Souza Says:

    Se a antropofagia morreu em 22, o que foi o tropicalismo, por ogum?

  13. Bianca Sousa Says:

    Eu sou totalmente a favor de usar o Brasil nas nossas composições! Afinal, quando se escreve, você conta algo. Passa adiante. Vamos registrar nosso país na história da humanidade. Por que não?!

  14. will Says:

    Acredito que a questão do antropofágismo, principalmente no que se refere à utilização de recursos nacionais ( mitologia, geografia, etc.)não é diretamente vinculada com a qualidade do texto ou do autor, ou com sua “falta” de utilidade em um mundo globalizado, nem mesmo a com a ousadia necessária ou não a estes autores. Apenas passa-me pela cabeça a possibilidade de que a necessidade de um antropofágismo literário possa estar muito mais relacionada com os leitores do que com os autores. Digo, escritores com um “jeito” mais assumidamente brasileiro podem ser uma carência da literatura não só de gênero, mas nacional. Isso se evidencia quando identificamo-nos mais com historias estrangeiras, meramente porque estamos mais acostumados com os cenários além mar, do que com as nossas próprias. Muitos autores – novos e não tão novos assim – “copiam” os sucessos internacionais justamente por acreditarem, possivelmente por experiência própria, que Tom Sayer é melhor do que Menino Maluquinho. Claro, existe uma grande diferença entre eles, qui-ça até de ordem qualitativa mesmo, mas, para uma criança (que e o publico alvo no fim das contas) é mais fácil se relacionar com um sistema econômico e social por vezes bem diverso do seu ou com um garoto que podia ser seu vizinho, jogando bola com uma panela presa na cabeça? Em minha opinião a falta dessa “brasilidade” é, dentre outras coisas, falta de opção, tanto do leitor, por falta de material, quanto do autor, por não ter tido essas referências em sua formação. Não defendo que se devam fazer patrulhas ou censuras aos autores nacionais que preferem mitos e regiões distantes para seus textos, mas não consigo fugir à hipótese de que talvez seja necessário que pessoas de outros países – ditos mais desenvolvidos – tenham de vir aqui à exemplo da época da colonização do Brasil desenhar nossos mapas e histórias já que não havia aqui gente disposta, ou talvez competente, o suficiente para fazê-lo. Cabe, enfim, aos escritores nacionais decidirem por quanto tempo ainda desejam usar suas casacas européias nas praias do Brasil.

  15. Lidia Zuin Says:

    Uma coisa que me incomoda, como contista e escritora iniciante, é que algumas chamadas para coletâneas inevitavelmente nos forçam a escrever histórias em território nacional ou lusitano. Eu sempre tive essa dúvida, se realmente vale a pena você estipular onde é correto ambientar ou não uma história – mesmo que isso seja apenas uma questão da linha editorial da publicação. Já tive um conto recusado porque ele não se passava no Brasil ou em Portugal, por exemplo (sem mágoas quanto a isso, só um comentário). Na verdade, não se passava em lugar nenhum.

    Então, como a Ana Merege disse, às vezes nos sentimos mais acostumados com o estrangeiro e, por outro lado, como o Saint-Clair comentou, podemos trazer algo lá de fora e adaptar aos moldes brasileiros. Porém, a nossa tradição tropicalista acaba zumbindo nos nossos ouvidos e pedindo por algo militante, mesmo na ficção científica ou fantasia. Percebam até mesmo que a sugestão de uma ficção científica brasileira dada por um de vocês era justamente abordar a questão política brasileira.

    Por outro lado, há essas coletâneas de cunho nacional e folclórico que, invariavelmente, estão tentando ganhar espaço no mercado e também as graças do fomento estatal. Então fica essa coisa meio forçada, sabe? Desde você limitar o cenário onde as histórias podem se passar, para poderem fazer parte de uma antologia, até você criar uma coletânea que “só serve pra ganhar dinheiro”, vulgar e superficialmente dizendo. E também essa paranóia partidarista de que as histórias nacionais sejam “obrigatoriamente” políticas. Não sei se estou falando besteira, mas é uma sensação que me fica, num primeiro momento.

    • Antonio Luiz Says:

      Quando uma antologia é temática, ela necessariamente impõe diretrizes à liberdade do autor, inclusive quanto a ambientação. Se o tema de uma antologia é “Brasil Fantástico”, como é o caso de uma da Editora Draco que está em aberto, é lógico que as histórias têm que ser localizadas no Brasil.

      Por outro lado, a antologia “Meu Amor é um Mito”, da mesma editora, que fecha hoje, exigiu que os contos versassem sobre as mitologias grega, nórdica ou celta, o que exclui uma temática brasileira (mitos nagô, folclóricos ou indígenas, por exemplo). E a antologia “Excalibur” exige, obviamente, que os contos sejam sobre o universo do Rei Artur e seus cavaleiros. Acho que tem espaço suficiente para quem prefere não escrever sobre o Brasil.

      • Lidia Zuin Says:

        Eu sei, Antonio… Só que a minha dúvida é se realmente essa limitação temática de ambientações no Brasil é algo espontâneo, algo que visa ao fomento do governo, se é patriotismo barato ou se é “coisa pra gringo ver”. Porque mesmo quando as coletâneas não têm essa delimitação, há quem escreva suas histórias no Brasil por n motivos.

        Quando eu conheci o Sterling e estávamos conversando justamente sobre esse tema, lembro de ele ter citado uma escritora mexicana de cyberpunk que tinha as histórias dela se passando na capital do país… e ele comentou algo como: “Eu não quero ler uma mexicana escrevendo sobre o México”. Mas aí vai de cada um… porque não deixa de ser interessante ver um nativo falando do seu próprio contexto, só que essa constatação põe em dúvida se realmente os gringos estão querendo ler brasileiros falando do Brasil ou simplesmente brasileiros escrevendo bem, independentemente do cenário.

  16. Antonio Luiz Says:

    Acho que um autor brasileiro deveria, na maioria das vezes, preferir cenários e temas nacionais – ou, mesmo que sejam de ficção científica e fantasia, inspirados na realidade nacional – não para ser “patriota” e sim a bem da qualidade do seu próprio trabalho. É escrevendo sobre o que realmente se conhece de perto que se tem mais chances de dar autenticidade a uma história, ter sacadas originais e dizer algo de relevante. Quando se tenta escrever sobre uma realidade distante, da qual não se tem conhecimento íntimo, o resultado geralmente é uma salada de clichês.

    Um exemplo é o próprio “Síndrome de Cérbero” do Tibor Moricz, como bem apontou o Alex de Souza. O cenário ambientado nos EUA é um ponto fraco do livro, porque é inautêntico. O livro descreve um lugar que não existe, nem poderia existir, porque tem a cara do estereótipo cinematográfico de uma cidadezinha de Meio-Oeste, mas é localizada da Nova Inglaterra e é dominada pela Ku-Klux-Klan como só poderia acontecer a uma cidade do “Sul Profundo” dos velhos tempos.

    E foi o argumento que definiu isso? De jeito nenhum. Não há nenhuma razão forte para que uma história de viagem no tempo precise ser ambientada numa versão imaginária dos EUA que pouco tem a ver com sua realidade política e histórica. Foi uma escolha do autor – neste caso, na minha opinião, uma má escolha.

    • Tibor Moricz Says:

      Em nenhum momento em Síndrome de Cérbero, digo que a Klan “domina” a cidade onde a trama acontece. Muito pelo contrário. Existe uma preocupação excessiva por parte de um dos protagonistas para que as ações da Klan sejam disfarçadas porque elas poderiam prejudicar suas imagens, principalmente políticas.
      Seu comentário também dá a impressão de que a presença da Klan na nova Inglaterra é uma espécie de absurdo, quando sabemos que não é. Em cerca de 1930 havia mais de 15 mil membros da Klan em Connecticut. Essa quantidade foi diminuindo gradativamente a partir disso, mas a Klan sempre manteve lá várias células. E, na minha história, o que existe é apenas uma célula da Klan. Ou seja, argumento perfeitamente verossímil.
      Talvez eu tenha dado contornos políticos mais dramáticos do que os que existiriam na realidade, mas devo isso a uma licença poética e literária em nome da dramatização. De qualquer maneira, não houve nenhum exagero.
      Poderia ter ambientado a trama no Brasil? Procurado um argumento nacionalizado que desse à história o mesmo grau de dramatização? Com certeza que sim. Mas não quis fazer isso. Os resultados não seriam melhores do que foram em termos de construção de personagem, que foi naquilo em que mais me preocupei.
      Em Síndrome de Cérbero foquei todos os meus esforços na construção do personagem principal, em lhe atribuir múltiplas camadas, em criar conflitos, em lhe dar estofo.
      De qualquer maneira, reescrevi Síndrome de Cérbero melhorando muitas passagens e alterando outras tantas com olhos a uma republicação. Mantive, porém, a célula da Klan em Connecticut já que isso é perfeitamente admissível. Se alterasse o cenário levando a história para o Mississipi, estaria então repetindo um dos maiores e mais exaustivamente copiados clichês.
      Não tenho nada contra eles, mas tento evitar os mais escancarados.

  17. Alvaro Domingues (Pai Nerd) Says:

    Pontos a ponderar:

    Antropofagia consiste em mastigar e deglutir a influência estrangeira com digamos “dentes brasileiros”. É fazer beiço de botucudo com um CD. Colocar o curupira numa nave espacial com traje de astronauta, dando dor de cabeça ao engenheiro do traje.

    Não é infantilmente transformar o Dia das Bruxas em dia do Saci, ou escrever contos apropriando-se da mitologia indígena sem entendê-la. Nem achar que os mitos brasileiros só estão na floresta. Nem trocar o Diabo pelo Exu.

    Nós que moramos em São Paulo ou outro grande centro pensamos e vivemos urbanamente. Nossas raízes não são indígenas, já que eliminamos (quase) todos eles. Podemos até ter um lado africano, mas nossas raízes são europeias. Viemos com colonizadores e imigrantes de vários países e criamos nossa cultura no meio desta misturança.

    Vamos colocar três exemplos:
    O próprio Braulio Tavares com sua Fantasia Ibérica (não tivemos Idade Média, mas Portugal teve).

    Roberto Causo, com o índio Tajarê (que realmente penetra em duas mitologias, a indígena e a nórdica, criando uma saga realmente “antropofágica”) e faz o excelente Selva Brasil, que trata de uma problemática bem sentida pelos brasileiros.

    E Cristina Lasaitis, que não está preocupada (aparentemente) em resgatar nada, mas faz uma prosa genuinamente brasileira.

    Não importa em que “onda” eles estão ou se conseguiram deglutir ou engasgaram com a influência estrangeira, o que importa é que escrevem muito bem.

  18. Daniel Borba Says:

    Tem como a gente gostar dos dois? Apreciar um bom texto, independentemente de onde seja ambientado e de quais elementos o autor escolheu para basear sua história?

    Eu acho que é importante a FC nacional se estabelecer com sua própria identidade, mas não vejo mal nenhum numa história escrita por um brasileiro que seja passada em outro país, buscando referências de fora.

    • João Beraldo Says:

      Concordo. Acho que é muito fácil (e comum) isso virar xenofobia. Extremismo é ruim, não importa de que.

      Eu lembro um ano ou mais atrás ter perguntando numa lista sobre o assunto a opinião dos membros sobre qual história eu deveria focar primeiro, sendo uma delas com foco em cultura africana. Mais de uma pessoa reagiu num nível ufanista xenofóbico impressionante.

      Não escrever mais um Senhor dos Anéis é diferente de escrever sobre saci e mula sem cabeça.

  19. João Beraldo Says:

    Mas o que define o conto ser brasileiro? Não acho que é só se passar no Brasil. Óbvio que é mais fácil reconhecer a ‘brasilidade’ se sua história falar em Rio de Janeiro, São Paulo, mencionar bandas populares ou coisas do gênero, mesmo que a história se passem em 2112 numa colônia em Zeta Reticuli chamada “Nova Rocinha”

    O importante, então, não é a inspiração na vida do brasileiro (e, portanto, como disseram alguns de vocês, nas experiências próprias do escritor?). Se eu escrever uma história de fantasia em mundo próprio em que os personagens são malandros se virando para sobreviver em a um reino corrupto influenciado por um grande império vizinho, lidando com a dificuldade de simplesmente sobreviver, isso tem “brasilidade”? Tá me parecendo que sim, mesmo que eu não tenha nenhum Capitão Barbosa no enredo ou menção sobre samba, saci e mulatas.

  20. Alexandre Heredia Says:

    Eu acho que a discussão está se perdendo num pântano panfletário e ufanista. A questão aqui não é de cenários ou personagens ou mitos brasileiros, mas de personalidade, de identidade.

    Meu primeiro romance, o Legado de Bathory, se passa em Budapeste em 1938. Nunca cheguei nem perto de Budapeste. E nasci em 74. A questão não é essa.

    A questão é romper com esse provincianismo literário e buscar uma identidade para a produção de FC&F no Brasil. Encontrar um estilo, ou estilos, e sair de uma vez debaixo da asa do que é feito lá fora. E para tanto o que falta é coragem. Mais ousadia e menos babação de ovo.

    Não busquem o “Stephen King brasileiro” ou o “Harry Potter nacional”. Quebrem estereótipos. Saíam da sombra da rainha.

    Só assim encontraremos quem somos nesse cânone.

  21. Alê Camargo Says:

    Muito interessante essa discussão, e oportuna.

    Acho que o que importa é a história que queremos contar, e não aonde ela se passa, ou quais são os nomes dos personagens.

    Não importa se escrevemos sobre a Roma Antiga, ou a Europa medieval. Nossas histórias serão brasileiras, porque nós somos brasileiros. Aliás, é da própria natureza do “bicho escrever” que podemos contar não apenas histórias sobre nosso dia-a-dia, e sobre as coisas que conhecemos diretamente, mas sobre o que bem quisermos. Se assim não fosse, Sergio Leone nunca teria feito westerns, e tio Tolkien jamais teria escrito histórias passadas fora do Reino Unido.

    Dito isso, me incomoda muito ver o preconceito de muita gente contra as histórias sobre nosso folclore. Não tenho absolutamente nada contra uma história sobre sacis, por exemplo. Na verdade, tenho algumas idéias envolvendo folclore que pretendo desenvolver em breve.

    No final das contas, acredito que o que devemos buscar é: o material nos importa? Temos paixão pelo que escrevemos? Se nossas histórias forem sinceras, é irrelevante se elas são em Marte ou em Patos de Minas.

  22. Bruno Cobbi Says:

    A cruzada por estilo, por identidade, vai muuuuuito além do gênero.

    Recentemente, o Xerxenesky levantou uma bola parecida no blog do Instituto Moreira Sales. A briga era igual, só que diferente: Classicistas VS. Contemporâneos e pergunta que esgasga nem se trata de escrever.

    “Por que ler o que está sendo lançado hoje em dia? Há tantos livros incríveis que foram publicados quinhentos anos atrás! Não tenho tempo de ler todos os livros do mundo, então preciso escolher bem. Não é melhor buscar os clássicos, que têm mais chances de serem bons, do que me arriscar com livros contemporâneos desconhecidos?”

    Sobra para quem quiser essa angústia.

    • Eduardo Jauch Says:

      Se o argumento do “há livros demais para ler e blá blá blá…” não fosse mais do que uma piada e as pessoas realmente pensassem assim (o que, ainda bem, não fazem), ESCREVER enquanto arte simplesmente desapareceria.
      Além disso, não se pode jogar sempre pelo seguro, sob risco de viver no passado…😉

      • Bruno Cobbi Says:

        Sim, Eduardo.

        Isso é parte do argumento que o Xerxesnesky defende por lá (aliás, ele piruliteia bem no final aberto), mas o que o trajeto discursivo dele, por lá, nos trás aqui.

        Quando o louco da platéia disser “Não vou ler o escritor brasileiro X só porque ele tem brasilidade”. E adicionar: “ter brasilidade não é um valor em si” qual é o livro que vai nos socorrer na prateleira?

  23. Eduardo Jauch Says:

    Vi muitos “escritores” respondendo aqui. Eu, que escrevo, mas não sou escritor, vou dar minha opinião sobre o assunto, do ponto de vista de leitor.
    .
    1. Se a história é ambientada em um lugar que teoricamente existe (ainda que seja uma história de fantasia), prefiro que o autor conheça, pessoalmente e intimamente, o lugar. Se assim não for, as chances de ler serão mínimas.
    2. Se a história se passa em um lugar completamente fantástico sem nenhum tipo de referência física com um espaço real, mas é baseada em alguma idéia ou mitologia, prefiro que o autor conheça, pessoalmente e intimamente, tais elementos. Se assim não for, as chances de ler serão mínimas.
    .
    Por isso, como leitor, se for para ler um livro escrito por um brasileiro que vive no Brasil, prefiro que seja um livro calcado na realidade brasileira.
    Aqui talvez haja uma questão de “identificação”. Eu adorava as histórias da coleção vaga-lume, mais do que as dos “Hardy Boys”. Eu gostava mais das histórias da turma da Mônica do que das do tipo patinhas. Eu lia tudo, mas se tivesse que escolher entre um e outro, ficava com as histórias “nacionais”. Elas naturalmente se passavam no Brasil. O material de estudo para os autores encontrava-se em todo o lado, até no ar que respiravam.
    .
    O autor, na minha opinião, tem todo o direito de escrever as histórias da forma como quiserem, onde quiserem, ambeintadas onde quer que seja.
    .
    Mas, se por um lado, quanto mais distante da realidade do autor, mais a obra vai sofrer em termos de qualidade, quando comparada com uma obra semelhante escrita por um autor com habilidade semelhante mas que está mais próximo de tal realidade, por outro há um mercado com imenso potencial, na minha opinião, e que ainda não está bem explorado, simplesmente porque, como foi dito aqui, há gente demais querendo viver como escritor americano, achando que para isso tem que escrever como um, e gente de menos escrevendo a sério.
    .
    Eu, enquanto leitor, sinto FALTA de ler coisas ambientadas no Brasil, e que não cheirem à tradução de obras de terceira americanas…
    .
    Já há coisas, parece, mas para um país do tamanho do Brasil, são ainda numericamente insignificantes.
    .
    Por quê escrever uma história ambientada no Brasil?
    Por quê não??????
    .
    O.o

  24. Alvaro Domingues (Pai Nerd) Says:

    Quando li o Clube dos Imortais de Kizzy Yasitis, uma das coisas que me cativou é que ele coloca as ações em vários locais da cidade de São Paulo e eu tinha a impressão que poderia dar um encontrão com o vampiro Raul a qualquer momento.

    Por outro lado o que me encanta em Kaori é o uso dos mitos e lendas japoneses e de parte significativa do romance se situar no Japão Medieval.

  25. Abreu Says:

    Concordo com o que o Antônio Luiz falou.Se você realmente quer ter credibilidade em suas palavras e na sua história não adianta fazer uma história se passando nos Estados Unidos se você nunca esteve lá. Não basta consumir filmes e cultura americana durante sua vida toda para vc se sentir com propriedade de escrever sobre o modo de vida deles. Se eu fosse escrever uma história ambientada nos Estados Unidos antes de ter morado lá, ela seria diferente da história que eu escreveria após conhecer o país. Porque só tendo contato direto que você vai sacar a maneira como eles realmente vivem e como aquele país funciona.

    Boa parte dos escritores brasileiros que se aventura na área da ficção fantástica e da científica nunca saiu do Brasil e tem sérios problemas na conceituação de sua América, Europa ou Ásia ficcional. Não que isso atrapalhe ou diminua a qualidade do livro (a não ser que seja gritante), mas assim, se esses pequenos elementos fossem trabalhados de uma maneira adequada, seja conhecendo o país, seja ambientando no Brasil, você só tem a somar na qualidade geral do livro.

    Também não vejo problema com essa escolha de ambientar as coletâneas preferencialmente em solo e realidade brasileira (e olha que eu mesmo já tive birra com isso). Hollywood não tem problemas em contar histórias europeias ou asiáticas em Nova York ou numa cidadezinha do interior. Pra que contar uma história que originalmente é na Suécia quando ela pode ser contada nos EUA sem perder nada da sua proposta original nem deturpar conceitos? Acho que o escritor brasileiro tem que levar isso em consideração. Principalmente porque o brasileiro e o Brasil não devem em nada a qualquer outro país ou povo do mundo.

  26. Renato G. O. Cunha Says:

    Essa é uma questão delicada e que dará panos para manga. Continuo acreditando que o que interessa é a imaginação e a boa narrativa. Porque tolher a criatividade de escolha de temas e assuntos? Que “autenticidade” é essa em que nossa realidade torna-se primordial, mormente quando escrevemos sobre “fantasia”? Se vou escrever um conto ambientado na História Naval, porque tenho que me deter na batalha do Riachuelo, e não escrever sobre as Guerras Napoleônicas? É uma questão de relevância e preferência pessoal. Ao público e crítica caberão julgar. Não a patrulha.

    Eu mesmo tenho vários contos ambientados no Brasil, mas escritos em formas que “lembram” autores estrangeiros que foram minhas influências. Nada mais antropofágico. Assim como outros que se passam no exército e marinha alemãs, ou ainda em Portugal, o que pode provocar a “patrulha” a me condenar como “imitador”.

    Quanto ao estilo, não acredito ser intencional de um escritor copiar estrangeiros. Ninguém pensa “vou escrever que nem o Stephen King e vou ficar rico”, ou , “Vou copiar Nathaniel Hawthorne e entrar para a Academia”. Influência é algo que se sofre, algo que permeia a escrita uma vez que permeou seu raciocínio através de suas leituras. E pelo que sei, a Ficção Científica, o Terror e o Mistério nunca foram abordados seriamente pelos considerados grandes escritores nacionais a não se como humor, como no caso do Coronel e o Lobisomem, ou Dona Flor. O próprio cinema que trata desses assuntos é preponderantemente americano, e o brasileiro, quando os aborda, é com humor depreciativo.

    Eu mesmo já ouvi comentários de amigos do tipo “Terror? você escreve bem, porque não tenta outro assunto? humor, por exemplo”.

    A verdade é que, no Brasil, ainda se considera o assunto literatura menor.

  27. Flávio Medeiros Jr. Says:

    Meninos, com essa coisa amorfa e mal definida chamada “globalização”, principalmente no que concerne à divulgtação cultural, as diferenças estão tendendo a se aglutinar. Qualquer proposta de compartimentalizar está na contra-mão da história (e da boa FC). É bobagem ficar implicando e reparando nas estampas ou bordados das roupinhas (sejam elas verde-amarelas ou stars’n’stripes), quando o que interessa é a essência que preenche a roupa. Eu já publiquei uma noveleta com uma nave brasileira comandada pelo Capitão Barbosa, e outra ambientada em Dallas, na Dealey Plaza, toda em torno da morte de Kennedy. Sinceramente, para mim são irmãs muito parecidas, quase gêmeas, ainda que em roupagens bem distintas. Digo mais: jamais estive no Texas, e com muito alívio li a crítica da Libby Ginway, cujo único “senão” ao meu texto foi um erro na grafia do nome do governador do Texas. Senhores escritores, vocês estão (pasmem!)na era da internet. A pesquisa nunca foi tão fácil, desde que feita com competência. Meu romance “Quintessência” termina com uma cena na Pont Neuf, em Paris, e quando escrevi eu nunca havia ido à França. Me baseei em fotos e mapas virtuais, e na entrevista a uma pessoa que morou em Paris. Um dos leitores/críticos manifestou que nunca havia lido uma cena em Paris tão bem escrita por alguém que não conhecia o lugar. Anos depois, de pé sobre a Pont Neuf, senti um orgulho danado, porque constatei que minha cena ficou, modéstia às favas, perfeita. É preciso enxergar mais longe, mais fundo. O ser humano é ser humano em qualquer parte do mundo (ou do universo), seja mulato, loiro, ruivo ou escamoso e cheio de tentáculos. E escrever é sobre humanidades. O resto é estofo.

    • Roberto Causo Says:

      Interessante esse conformismo com respeito à globalização — só se justifica se ela fosse universalmente positiva, o que não é. Se fosse, o mundo estaria em melhores condições. E se não é, cabe aí expressão de um senso crítico, que também se exercita na literatura, e que inclui enxergar diferenças, aspectos negativos da globalização e formas de resistência a esses aspectos negativos. E aquele mundo pós-Seattle (os protestos contra a globalização) que China Miéville disse que ajuda a modelar o New Weird?

      Ao mesmo tempo, produzir uma FC brasileira com uma cara mais brasileira é abertura, já que os exemplos são tão poucos — não é compartimentalização. É inovação, não é conservadorismo. E enfim, demonstra alguma independência de pensamento e senso crítico com relação ao país e o mundo.

      • Alvaro (Pai Nerd) Domingues Says:

        Bom posicionamento, Causo.

      • Flávio Medeiros Jr. Says:

        Não se trata, de maneira alguma, de “conformismo”, Causo. É questão simplesmente de reconhecer uma realidade inexorável para se adaptar a ela, contornando suas partes negativas e se aproveitando das positivas, porque sim, há as duas coisas. Esse culto exacerbado às coisas chamadas “brasileiras” é como enfiar a cara no muro como se ele pudesse ser ignorado, em vez de enxergá-lo, assumi-lo, medir as próprias forças e contorná-lo. Se bem entendi, a preocupação geral é tornar a FCB visível, relevante e palatável no panorama global(izado). Ora, grupos se formam a partir de afinidades, não de diferenças. Enquanto a FCB insistir em exaltar ufanisticamente suas particularidades como se ESSE fosse seu ponto chave, vai ser sempre vista pelo mundo como um pé de página, ou como uma ilustração exótica em algum trabalho acadêmico. Por isso insisti na questão das “humanidades”. Esse é o ponto em comum na FC global. Esse é o ponto onde a literatura de gênero se aproxima, no aspecto positivo, do mainstream. Isso inspira respeito. Escritores como Stephen King e Richard Matheson não são reverenciados por seus pares apenas por escreverem em inglês, mas porque são grandes criadores de personagens. Nós não temos no Brasil um hotel Overlook que fica ilhado pela neve no inverno, mas todo mundo compreende o drama de uma mulher e uma criança que veem o seu marido/pai enlouquecendo sem possibilidade de socorro. A história de Scott Carey, o incrível homem que encolheu, seria equivalente a alguma noveleta mediana de nossas mútliplas coletâneas contemporâneas de FCB, se não fosse seu pavor diante da iminência do total desaparecimento, se não fosse sua impotência diante da perda de seu lugar de “macho alfa” na sociedade e na família. Eu diria mais: Phillip K. Dick não seria o mesmo sem seus personagens. “Matadouro 5”, de Vonnegut, não funcionaria sem a complexidade psicológica de seu protagonista, e por causa dele funciona bem, mesmo que você não conheça Bremen. É preciso dar ao leitor algo com que se identificar, antes de levá-lo a estranhar. O problema dessa obstinação pela brasilidade é que nossos jovens escritores podem se preocupar mais da conta em descrever nossas terras cheias de araras, palmeiras e sabiás, e isso é um desvio. É preciso primeiro ser escritor. Period. E só em segundo lugar, ser escritor de FCB. Uma vez que uma obra adquira solidez pelas semelhanças, em seus personagens e em seu enredo, aí sim, chega a hora de mostrar as diferenças, e aí sim o tempero brasileiro faz a diferença. Meu medo é apenas de que, num meio onde parece haver um consenso acerca da imaturidade e juventude de nossos escritores, essa postura brasilianista esteja contribuindo para colocar o carro na frente dos bois.

      • Roberto Causo Says:

        Quer dizer que você já enxerga essa tendência perniciosa, Flávio?

        Eu tenho a impressão que essas expressões do tipo “ufanismo”, “extremismo”, “postura brasilianista”, “nacionalismo”, “patrulhas”, estereótipos culturais, etc., saem quase que automaticamente de uma sacola pré-existente, que pouco tem a ver com esta discussão.

        Uma coisa que se pode dizer é que paradigmas coexistem. A tentativa de firmar um paradigma — a partir da percepção de que ele seria útil ou de que a sua ausência é problemática — não significa o desejo de anular ou deslocar outros. Ao contrário, uma literatura é tão mais interessante quanto mais diversificada e mais significativa for.

        Estou sentindo muita postura muito defensiva nesta discussão, o que impede as pessoas de avaliar a proposta, ao invés de justificarem seus programas pessoais.

        Por isso eu não vou falar dos meus escritos, mas sugerir que dêem uma olhada nas minhas antologias “Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica” e “As Melhores Novelas Brasileiras de Ficção Científica”. Há textos nelas que tratam do Brasil e da cultura brasileira, e outros que passam longe ou que precisariam de uma crítica mais profunda para se enxergar o aspecto brasileiro neles — como “A Morte do Cometa”, de Jorge Luiz Calife, e “Mestre-de-Armas”, de Braulio Tavares (ambientados no espaço); e “O 31.º Peregrino”, de Rubens Teixeira Scavone (ambientado na Inglaterra do século XIV).

    • Flávio Medeiros Jr. Says:

      Se eu “já” enxergo??? Bem, já. Na verdade, desde que li minha primeira coletânea de FCB, e alguns livros solo. Se não me manifesto mais sobre o assunto, é porque Andrômeda fica longe, e não consigo participar mais frequentemente das brigas de taverna.

      “Ufanismo”, “extremismo”, “postura brasilianista”, “nacionalismo”, são palavras comuns em qualquer dicionário, que saltam para fora quando se observa essa tendência em algum participante desse tipo de discussão. Não são agradáveis para todos, mas acabam sendo inevitáveis. Em “patrulhas” não falei, só fico espiando de baixo da tampa do bueiro, como uma boa tartaruga ninja. Mas discordo; como falei, penso que sejam termos inevitáveis dado o rumo tomado pela discussão, ainda que, como já disse, sejam elementos praticamente irrisórios diante do que realmente importa.

      Concordo inteiramente sobre os paradigmas. Extremos (para qualquer lado) são prejudiciais. O que não nos exime da obrigação de tentar enxergar a verdadeira essência da coisa.

      Já citei escritos meus, uns com mais “brasilidade”, outros com praticamente nenhuma, mas deixe que eu fale sobre os seus: em “Selva Brasil” acho que você concretizou um exemplo do que eu falei como sendo o caminho que considero importante: um personagem com densidade psicológica (que imagino que tenha sido fácil de elaborar, sendo uma espécie de alter ego seu…rs*), que segura bem as pontas de um enredo com elementos bem colocados de FC, em um cenário que poderia até ser outro bem distinto, mas que foi uma boa exploração do ambiente da selva brasileira, com certeza algo que enriqueceu demais o texto… mas que teria sido inócuo sem o que eu destaquei antes, a “alma” da prosa.

      Não sei se estou conseguindo me fazer entender, mas fico satisfeito porque acho que o Tibor deve estar feliz como pinto no lixo…rs*

      • Alvaro (Pai Nerd) Says:

        Sempre me lembro de uma entrevista do Milor Fernandes que criou duas coisas: a Turma do Pererê e o Menino Maluquinho. Ele disse que o Menino Maluquinho era um sucesso por que falava diretamente para um menino de classe média urbana, coisa que ele não conseguiu coma turma do Pererê. Onças, matutos e índios estavam longe desta realidade. Certa vez ele fez uma história para Turma do Pererê que ironizava a influência americana. O índio fazia aniversário e todos os personagens compram presentes americanizados para dar ao amigo, para horror do Saci, que convence todos eles em trocar os presentes. Quando vão à festa o amigo os recebe vestido de apache.

      • Flávio Medeiros Jr. Says:

        Alvaro, você certamente está falando do Ziraldo, não do Millôr. Eu era fã de carteirinha da Turma do Pererê, mas seu exemplo ficou perfeito: ela jamais faria sucesso lá fora como fez aqui, porque aqui tem uma conexão direta com o leitor brasileiro, lá fora não tem nenhuma. Não são personagens “universais”, como Peanuts ou Calvin & Hobbes. Ou seja, dá para a FCB ganhar espaço lá fora? Acredito que sim! Mas além das particularidades, vai ter que achar um ponto de conexão, de familiaridade com a mentalidade ou cultura deles (hoje, diria-se “globalizada”). Senão, será sempre “exótica”.

      • Roberto de Sousa Causo Says:

        Considerando o quanto o projeto de maior brasilidade na FC é minoritário (e provavelmente sempre será), é estranho que você enxergue nele algo tão pernicioso e disseminado.

        Quanto a “Selva Brasil”, não sei se isso altera alguma coisa, mas, assim como “Terra Verde” e “O Par”, essa novela foi concebida em 1991, no meu começo de carreira e quando a polêmica do Movimento Antropofágico da FCB ainda esta quente, e eu buscava criar as minhas próprias estratégias para os ideais do movimento. Se você ler qualquer coisa de Ivan Carlos Regina, vai ver que nossas estratégias são bem diferenes.

        Então eu diria que essas coisas são orgânicas — a proposta do escritor e a proposta do escritor brasileiro de FC, o que torna problemática essa hierarquia de “primeiro escritor”, “depois escritor de FCB”.

        Me parece que essa terminologia que envolve “semelhanças”, “identificação”, “contexto globalizado”, etc., fazem parte da retórica da Terceira Onda. E em termos de colocar o carro na frente dos bois (metáfora bem brasileira, a propósito), esse desejo de projeção global parece mais deslocado e improvável — à luz do argumento de que é preciso primeiro ser um escritor competente ou verdadeiro. Mas eu não diria que se trata de um projeto pernicioso.

        Já publiquei em dez países, e nunca me pediram para disfarçar os elementos brasileiros das minhas histórias — ao contrário, me foi dito mais de uma vez que fazer apenas o que os americanos fazem é perda de tempo: pra isso eles já têm os americanos escrevendo. De qualquer modo, essas publicações internacionais já fizeram o que podiam fazer por minha carreira. Agora eu fico na expectativa do que Jacques Barcia, Fábio Fernandes e Eduardo Spohr farão com as carreiras internacionais deles.

        Novamente, paradigmas (e projetos literários) coexistem.

      • Flávio Medeiros Jr. Says:

        Bem, como bom brasileiro (talvez por isso use metáforas brasileiras…), não desisto nunca. Por ora, porém, espero que aqueles que acompanharam a conversa tenham compreendido pelo menos a essência do que eu realmente quis destacar. E assim vamos tocando, e as gerações futuras escreverão odes (brasileiro escreve ode????) a nossas batalhas contra moinhos de vento (que existem em quantidade na Holanda, mas que Don Quixote combateu na Espanha). Hugs!

      • Roberto de Sousa Causo Says:

        Bem, acho que vou continuar atacando esses moinhos de vento, por força do hábito.

        Alguns links para o lugar possível do Terceiro Mundo no cenário da FC internacional (tudo em inglês, provavelmente porque nós mesmos não temos discutido tanto a questão):

        Larry Nolan, em artigo (“Norman Spinrad and the latest kerfluffle about international SF, with positive remedies”) que reage a um ensaio de Norman Spinrad:

        http://ofblog.blogspot.com/2010/03/norman-spinrad-and-latest-kerfluffle.html

        E aqui, artigo (‘New world order ahead: The developing world is the setting for science fiction’s best new novels”) de Jonathan Wright:
        http://www.independent.co.uk/arts-entertainment/books/features/new-world-order-ahead-the-developing-world-is-the-setting-for-science-fictions-best-new-novels-2270569.html

        A linha de abertura: “The future won’t happen in London, New York or Tokyo; it will happen in Mumbai, Rio and Lagos.”

        A certa altura, Wright cita Geoff Ryman, a respeito da novidade que é a presença do Terceiro Mundo na FC anglo-americana, quando Ryman pergunta então “por que não ler histórias de FC indiana, nigeriana, brasileira ao invés?”

        Lá em 1988, o Movimento Antropofágido da FC Brasileira já perguntava a mesma coisa, buscando um ponto de vista terceiro-mundista para a FC — hoje, um ponto de vista de países em desenvolvimento ou de culturas emergentes, na terminologia de Wright.

        Parte disso vai muito além do que “caracteriza a brasilidade”, estereótipos culturais, etc., porque pede na verdade não o típico, a expresão de um caráter nacional, etc., mas um posicionamento sobre os limites ideológicos de uma FC dominante — primeiro-mundista. Ou seja, pede a escrita uma FC que questione esses limites, a partir de um local de produção diferente do Primeiro Mundo. É o que na teoria literária se chama de enfoque “pós-colonial” — presente, por exemplo, no Manifesto de Ivan Carlos Regina, que expunha os clichês da FC americana. A brasilianista M. Elizabeth Ginway também enxerga postura pós-colonial em certos textos tupinipunks brasucas (no seu livro “Ficção Científica Brasileira”). O tupinipunk, aliás, se aproxima muito do que Regina imaginou com o MAFCB.

        Existe uma FCB que já abriu caminhos e está aí pra ser conferida e investigada pelos novos (e velhos) escritores brasileiros de FC (o Tibor inclusive republicou o Manifesto neste blogue). Talvez inspire, talvez cause repulsa maior, mas pode sustentar melhor a discussão.

  28. Davi M Gonzales Says:

    Não me preocupo muito com patrulhamento ou ficção nacional com cara de Harry Potter. Vejo apenas como uma oportunidade desperdiçada: a ficção estrangeira, cansada de se repetir, busca por novas ambientações. O Brasil e a América do Sul, com todo seu exotismo, deverão ser a bola de vez. E eles precisarão esforçar-se para escrever best sellers em nosso ambiente (quem assistiu “fast five” deve ter percebido a dificuldade…). Enquanto isso, nós que já vivemos essa realidade e a conhecemos, muitas vezes como a palma da mão, deixamos a oportunidade de lado.

  29. shirukaya Says:

    O Antonio disse algo pertinente: nao adianta querer usar um cenario sobre o qual nao se sabe falar; isso culmina em cliches q empobrecem a obra.
    No mais, acredito q antropofagia no caso tem mais a ver com se “consumir” e valorizar, coisa q realmente nao costumamos fazer. Lemos o autor contemporaneo da Europa/America/Asia, mas nao damos uma chace aos Brazucas. Inclusive, vi uma conversa q de certa forma justifica essa minha ponderação. Esti9ve numa livraria em SP um tempo desses e dois caras conversavam entre si. Um deles sugeriu q ele levasse o livro do autor X, em tom de pirraça. O outro disse “deus me livre, é nacional, já sei q é ruim”.
    Enfim, triste q se pense assim ainda.😦

  30. Angelo Tiago de Miranda Says:

    Concordo com o André Vianco, o Daniel Borba e o Renato G. Cunha. Acredito que independentemente do autor utilizar elementos brasileiros ou não em sua narrativa, o que vale é o resultado final da sua história. Se ela ficou envolvente e dá prazer de lê-la, isso é mais relevante do que a preocupação de se há ou não elementos tupiniquins na história.
    Será que outros autores não-brasileiros também levam tão a sério essa ideia de que as suas histórias devem conter elementos dos seus países ou o que vale mesmo é o que a sua imaginação trouxe e que caiu muito bem numa narrativa?

  31. Ataide Tartari Says:

    Vou rimar brasilidade com maturidade. Acho que a vontade de escrever refletindo sobre nossas próprias vidas e sobre aquilo que nos cerca é coisa que só vem com a maturidade. Ao menos foi assim comigo. Quando tinha vinte anos, achava que a realidade ao meu redor era um porre, um saco; o que povoava meu imaginário e minhas ilusões era aquilo que conhecia por livros e filmes estrangeiros.

  32. Simone Saueressig Says:

    Depois de praticamente um ano de ausência (muito trabalho, graças a Deus), não deu para resistir a essa discussão. Então, vou meter a colher. Mas vou dividir a mensagem, senão vai ficar enorme.
    A Ana Lúcia Merege disse uma coisa bem interessante que expõe um ponto importantíssimo: “como moradora de grande cidade e descendente de imigrantes pelos dois lados, sinto-me muito mais próxima dos clássicos europeus que li desde a infância do que dos mitos brasileiros.” Mas o problema não é que a gente está mais próximo dos clássicos europeus por morar em cidades grandes ou ser descendente de imigrantes. A gente está mais próximo dos clássicos (e dos não clássicos, ou os ainda-não clássicos) europeus (ou norte-americanos), porque é o que mais há. Se vamos contar uma histórias para crianças, vamos começar no típico “Chapeuzinho Vermelho”, “Três Porquinhos” e provavelmente só quando terminar o nosso repertório é que vamos lembrar que tem a mula-sem-cabeça, que por outro lado não possui uma narrativa, tem uma espécie de crônica dizendo que ela é, e o que faz. As pessoas – que não estão ligadas na presente discussão – entram em uma livraria para comprar um livro para seu aniversariante infantil ou adolescente e, se já não vierem com o pedido definido, pedirão o que veem. E o que elas veem é uma produção massiva estrangeira. Que estamos escrevendo e editando livros brasileiros na área com “cara” brasileira, é verdade, mas pelo menos por aqui, há 40km de Porto Alegre, para ver esses livros é preciso acessar à internet, porque na livraria não chega. Não vou entrar na discussão da distribuição da produção nacional, mas qualquer um que escreva e participe de antologias ou tenha livros por uma editora, sabe da dificuldade nessa área.
    E antes que alguém venha me dizer que é só comprar pela rede, discordo: a rede tem uma visibilidade reduzida (não venham me comparar uma mostragem do Submarino, por exemplo, com uma estante de livraria, onde eu posso tirar o livro da estante, ver seu tamanho, abrir em qualquer parte que quiser e ler o texto em qualquer altura. A internet derrubou muitas fronteiras de distância, mas tem coisas que ela não consegue reproduzir) e a entrega é demorada (e tampouco compara a pegar o livro na estante e levar para casa).

  33. Simone Saueressig Says:

    A Lídia Zuin comentou: “Quando eu conheci o Sterling e estávamos conversando justamente sobre esse tema, lembro de ele ter citado uma escritora mexicana de cyberpunk que tinha as histórias dela se passando na capital do país… e ele comentou algo como: “Eu não quero ler uma mexicana escrevendo sobre o México”. Desculpe Lídia, eu não posso concordar com vocês, mesmo que seu interlocutor fosse o Shakespeare. Se vocês não querem ler uma mexicana escrevendo sobre o México, vão querer ler quem, escrevendo sobre o México? Um alemão? Um inglês? Um brasileiro? Não que as visões destes outros autores não seja interessante, até pelas suas incompreensões sobre o país e cultura sobre os quais estão escrevendo, mas com certeza não serão mais autênticas. Então, o que na verdade você está nos dizendo, é que não te interessa o México mais autêntico possível, te interessa uma releitura do México e que a autenticidade não conta muito, porque o que mais conta é a identificação do leitor com o texto, com os conceitos e pré-conceitos do autor (eu poderia ter escrito “preconceitos”, mas tenho certeza de que seria mal interpretada). Eu acho que ler é uma experiência através da qual a gente pode abrir os horizontes. Para isso, uma releitura não me serve, a voz de um estrangeiro é pouca. O que não significa que, enquanto simplesmente leitura sem maiores compromissos, eu não seja capaz de desfrutar da ótica forasteira.

    • Lidia Zuin Says:

      Oi, Simone. Acho que você me entendeu errado. Na verdade, eu só comentei o que o Sterling disse e aí acrescentei que “vai de cada um… porque não deixa de ser interessante ver um nativo falando do seu próprio contexto”. Por outro lado, é importante pegar isso que o Sterling disse e pensar no que alguns gringos podem estar achando… se eles realmente querem ler brasileiros falando de Brasil ou não, porque as editoras certamente estão produzindo conteúdo para que estrangeiros também queiram ler/traduzir, não é? E o próprio Sterling vive divulgando Steampunk brasileiro no blog dele na Wired…

      Desculpe se ficou ambíguo o meu comentário, mas eu não quis dizer que acho desinteressante ler um nativo falando de sua própria cultura e país… acho interessante sim, desde que não seja uma coisa forçada.

      • Simone Saueressig Says:

        Oi Lídia. Pois é, é o problema de tirar as coisas do contexto, desculpe. Acho que te entendi errado mesmo. Em todo o caso, achei muito pertinente a tua observação sobre as editoras estarem “forçando” a barra. E o César Silva acabou de comentar, via e-mail que muitas estão “torrando” temas, porque não estão visando a qualidade dos textos – o que vem de encontro ao que comentavas mais adiante.

  34. Simone Saueressig Says:

    “Não importa se escrevemos sobre a Roma Antiga, ou a Europa medieval. Nossas histórias serão brasileiras, porque nós somos brasileiros.” disse o Alê Camargo. Eu concordo com ressalvas. Já li muito texto brasileiro passado em um espaço alternativo, que sofre influências estrangeiras muito claras e que chama a atenção por ser um texto de um brasileiro que não parece ser brasileiro. Só para citar um exemplo “O conto da Rainha de Inverno”, do Elsen Pontual.

  35. Simone Saueressig Says:

    “Eu, enquanto leitor, sinto FALTA de ler coisas ambientadas no Brasil, e que não cheirem à tradução de obras de terceira americanas…” disse o Eduardo Jauch. E este realmente é o ponto relevante: as pessoas sentem falta de textos com a cara do Brasil. “Então”, se perguntarão muitos, “por que o público brasileiro não consome mais fantasia e FC nacionais?” Por muitas razões. Distribuição é uma. Outra razão, que para mim é fundamental, é o desconhecimento. Se eu tenho 50 reais para gastar em um livro e tiver na estante um livro de um desconhecido brasileiro que custe 35 e um de um autor conhecido estrangeiro que custe 40, ou de um autor que já vem com a legenda “Vendeu 50.000 exemplares no Reino Unido”, adivinha qual é o livro que tem mais chance de ser comprado? Por mais falta que a gente sinta de um livro ambientado no Brasil, sempre haverá uma tendência a investir em um livro que tenha uma mínima referência de qualidade. E por enquanto a FC brasileira precisa andar um bocado para SER referência de qualidade.
    Por último, devo dizer que concordo com o Vianco: “O que falta não é uma pitada de ousadia aos escritores brasileiros, o que falta é um copo inteiro.” A gente sempre está atrás da onda. Se a onda é vampiros, escrevemos sobre vampiros (menos um grupo de autores dos anos 90 e início dos 2000, que escrevia sobre vampiros brasileiros e portugueses antes do “boom” atual). Se a onda são meninos feiticeiros, dê-lhe meninos feiticeiros. Fantasia medieval, idem. Tem os que olharam para outras facetas do Fantástico, para outros personagens, como o Spohr e se deram bem, mas muita gente se limita a olhar só diretamente em frente. Quem quiser estar adiante do seu tempo tem que inovar. Tem procurar novas possibilidades e não ficar repetindo o que já existe. Fazem anos que eu escolhi o folclore brasileiro como tema de fundo da minha fantasia. E eu acho que ela é um continente de possibilidades que só agora está sendo descoberto. Faço votos que a tendência siga assim, embora eu concorde com a Lídia Zuin quando ela diz que parece uma coisa forçada. Parece porque em certa medida é: as editoras alternativas estão querendo abrir caminho nesse filão através de suas antologias, ela tem razão. Melhor seria se esse movimento partisse dos próprios autores e leitores. Mas, quem sabe?, tomara que dê muito certo.

  36. Renato G. O. Cunha Says:

    Há uma coisa curiosa no brasileiro. Ele acha sempre que “devemos valorizar o que é nosso”. Eu mesmo nos anos 70, na Universidade, debatia fortemente esse conceito com os colegas. “Pera lá!” dizia eu. Eu NÃO gosto de Gonzaguinha. NÃO gosto de Elis Regina. Gosto APENAS de alguma coisa do Chico. Porque raios eu vou ouvir? Eu TENHO o direito de NÃO ouvir!
    Ah! era um “Deus nos Acuda!” Chamavam-me de “vendido ao ouro yankee”, “reacionário”, e só não mais faziam, porque eu era da equipe de Karatê da Universidade e isso os forçava a ter mais respeito.
    Porém, sempre pensei nessa adoração de nossos conterrâneos pelos nossos cantores e compositores.
    Nos EUA, cansei de conhecer americanos que NÃO gostavam de Frank Sinatra. NÃO gostavam de Miles Davis. Ouviam música do A-HA e do ABBA , e ninguém os questionava por isso. Não corriam o risco de serem xingados de anti-americanos ou de traidores da pátria. Era uma mera questão de gosto pessoal. (como exercício prático sobre o assunto, convido-os a dizer a alguém que NÃO gosta de Caetano).
    E com a literatura de Ficção/Terror, alvo desse blog, me parece estar havendo o mesmo. Existe uma tentativa de se valorizar demais os elementos culturais brasileiros puros (se é que os temos,pois somos um país de imigrantes).
    Essa questão é natural. Ocorreu com o Cinema Novo, que fazia filmes que ninguém assistia, numa radical, xenófoba e imatura tentativa de se hiper-valorizar a cultura nacional, apesar de endeusada pelos críticos.
    Faz parte das dores do crescimento.
    Hoje, o próprio cinema brasileiro amadureceu, e busca incessantemente a qualidade acima de tudo, e não apenas uma temática panfletária. Não levanta mais bandeiras do tipo “O Cinema é Nosso”
    E acho que o mesmo deve se dar com esse gênero, que está engatinhando no país. Somos os primeiros. Não temos distribuição para nossos escritos, lutamos para encontrar editoras competentes, sofremos preconceitos dos mais diversos e até mesmo por sermos brasileiros. Mas o cinema nacional não os sofreu? Não os sofre ainda? Mas o público, esse juiz imparcial, está entendendo isso. Já começa a preterir algumas obras americanas em função de um Tropa de Elite.
    Na literatura, a coisa já está mudando. Querem ver? 1808, As Barbas do Imperador, 1822, todos do Bueno. Preenchem com classe os temas mais nacionais possíveis, onde haviam lacunas. E são sucessos retumbantes.A chave do segredo? QUALIDADE.

    Dou mais um exemplo: Já leram “O Xangô de Baker Street”? É um tema tipicamente britânico, que o Jô Soares canibalizou, digeriu, e escreveu de forma brasileiríssima e interessantíssima.

    Portanto, antes de discriminarmos estilos e temas que vem de fora, aprimoremos o nosso. E teremos sucesso.

  37. Alvaro (Pai Nerd) Says:

    Finalmente o Tibor teve um pouco de polêmica (infelizmente, pra ele, sem nenhum arranca rabo significativo). A Síndrome do Capitão Barbosa ainda ronda alguns escritores e a Síndrome do Grupo da Anta ronda outros (aliás, o adjetivo anta veio daí). Nem tanto ao céu nem tanto a terra. Não rejeitemos o Barbosa (que aliás virou Capitão em Os Piratas do Caribe). E naõ sejamos antas a ponto de negar a influência que temos de fora (para o bem e para o mal).

    • Tibor Moricz Says:

      Eu não esperava “arranca rabos” mesmo, Alvaro. As polêmicas a que me refiro são exatamente como essa que consegui criar com essa postagem. E pretendo criar outras.

  38. Ricardo Amaral Bueno Says:

    Olá…Como leitor sem pretensão de ser escritor, peço humildemente que deixem por nossa conta a decisão de escolher quem ler. Façam a sua parte bem feita e faremos a nossa.

  39. Jim Anotsu Says:

    Bem,

    acho que para as pessoas da minha idade, ou que tiveram o mesmo tipo de crescimento que eu, esse é um assunto complicado.

    Primeiro, nós já nascemos num mundo composto de confluências, onde tudo se mescla a tudo, onde a técnica do sample já é parte da nossa mentalidade – e pensamos que tudo nos pertence, quando a cultura do outro passa a ser nossa também, ainda que não estejamos inseridos nela. Quando temos um mundo em que Eminem usa recortes de Paul Rodgers para compor “Beautiful”, fica difícil traçar “fronteiras e limiares” – para roubar algo do Walter Benjamim.

    Lembro de uma entrevista do China Mielville em que ele diz que ” Folklore and mythology is very important, but not as an influence so much as as a pantry to raid.” E acho que é mais ou menos assim que funciona hoje em dia. Em que a cultura pop se desenvolveu com uma velocidade tão espantosa que estraçalhou qualquer limite entre o que é meu e o que é de outro. Isso pode ser visto no mundo da moda, por exemplo, em que a evolução de uma coisa vai acontecendo em várias partes do mundo. Christian Dior pode ter criado o termo cocktail dress, mas esse modelo de roupa foi sendo mudado em várias partes do mundo.

    Eu olho isso quando penso no meu próprio trabalho. Eu gostaria de poder ambientar “Annabel & Sarah” em sei lá, BH, mas, pelo uso que faço de referências, isso não casa. Não tivemos um movimento Noir ou beatnick. Então não temos aqui dois personagens icônicos como Sam Spade e Continental Op (Op Spade em Annabel e Sarah), ou Dean Chinaski (Dean Moriarty em On The Road). Logo, em determinados momentos, por escolha conscientes, somos obrigados a fazer essa “raid” que China Mieville comenta. Eu acredito que hoje, o autor tem o poder de ambientar sua narrativa onde e como quiser.

    Acho que está na hora de os autores aprenderem a lidar com um mundo novo. E saibam que, mesmo que a história seja aqui, na China, nos EUA ou até mesmo em Samoa, o importante deve ser a história e as escolhas conscientes, as ferramentas usadas. Porque se forçar demais, a fantasia nacional vai ser uma tentativa de gênero que apenas os mais aficcionados do gênero terão acesso.

    Ah, sei lá, acho que é isso.

  40. Renato G. O. Cunha Says:

    Acho que Ricardo e o Jim disseram tudo.

  41. Bruno Cobbi Says:

    Não pude deixar de lembrar da discussão por aqui.

  42. Tupi or not Tupi ou a antropofagia na FC - Escritores de Quinta Says:

    […] outro chute levantando um novamente a bola, que nos pés de Roberto Causo e do próprio Moritz voltou a pingar no meio […]

  43. O perigo de uma única história - Escritores de Quinta Says:

    […] voltou à tona da patota com uma entrevista do Bráulio no Jornal O Globo, seguiu numa cambalhota pelo blog do Tibor e seguiu capotando pela coluna do Causo n’O Bule, pelo blog do Pai Nerd (que também é […]

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