Alô! É da polícia? Tem um leitor beta falando mal do meu trabalho!

Esse não é um assunto inédito no blog. Já estão todos cansados de conhecer a importância do leitor beta. O cara que vai ler seu original recém-saído do forno. Ler e meter o dedo se ele for bem cri-cri (tem gente que procura leitor beta para receber elogios ou para ver sua genialidade reconhecida de forma inconteste).

Por mais que reconheçamos nossa própria capacidade de avaliação, jamais seremos tão eficientes em nossos próprios textos como supomos ser nos textos dos outros. Não temos o necessário distanciamento, a necessária neutralidade. O que para nós parece ser um reflexo do paraíso, para outros é um lixão fedido.

Eu costumo entregar meus textos para pelo menos dois leitores beta. Três ou mais sempre que possível. É inevitável que comecem a apontar questões duvidosas, inverossimilhanças, erros de continuidade, problemas técnicos e estéticos, e também a manifestar opinião a respeito do plot, externando o que fariam se fossem eles a conduzir a narrativa. Bem, é para isso que eu recorro a eles, não é?

Mas e quando as sugestões de uns vão de encontro à sugestão de outros? Quando dão pareceres conflitantes a respeito do mesmo ponto?

Vou exemplificar utilizando exemplos próprios:

***

Leitor Beta 1 – Você repete demais as mesmas informações, trás à tona o âmago do conflito o tempo inteiro. É cansativo. Não precisa repetir desse jeito, o leitor não é burro. Sempre que tropeço nessas repetições, eu pulo o trecho todo, sigo adiante.

Leitor Beta 2 – Acho legal esse reforço que você dá ao drama, trazendo-o constantemente à baila. Faz-nos viver o conflito do personagem, torna-o mais humano.

***

Leitor Beta 1 – Me incomoda o excesso de frases curtas. A falta de fluidez que isso provoca no texto. Trabalhe melhor sua prosa, caraça.

Leitor Beta 2 – As frases curtas agregam força, dão impacto à narrativa. É o que você tem de melhor no seu estilo.

***

Leitor Beta 1 – Você é maluco? Matou a personagem principal, a melhor personalidade da trama, logo no segundo capítulo? Até onde você pretende chegar destruindo seu trabalho desse jeito?

Leitor Beta 2 – Ousadia. Matar sua melhor protagonista logo no começo me faz pensar o quanto você terá que se superar daqui pra frente. Interessante e perigoso, isso.

***

Leitor Beta 1 – A reviravolta na trama me deixou frustrado. Jamais que as coisas se dariam desse jeito na época em que você localiza a história. Científica e tecnologicamente, só alcançaríamos tal evolução dentro de uns cem anos, no mínimo. Quando me deparei com isso, tive vontade de jogar o livro contra a parede.

Leitor Beta 2 – A reviravolta foi surpreendente. E a margem de anos empregada, embora relativamente curta, não inviabiliza o argumento. Ciência para realizar isso nós já temos, talvez nos falte tecnologia. Mas nada que os 30 ou 40 anos abordados não resolvam.

***

Esses textos reproduzem em linhas gerais o que recebi dos leitores beta. As vezes quem mais criticava tecia elogios, as vezes quem mais elogiava tecia criticas. Houve equilíbrio nos comentários e me sinto agradecido que tenham se repetido pouco, apontando quase sempre problemas diferentes.

Mas o que pegou mesmo foram os antagonismos descritos acima. A questão é: como lidar com eles? Minha sugestão (e como os enfrentei) é de que precisamos dar peso maior à crítica do que ao elogio.

Textos curtos demais? Não os elimine, mas os diminua. Repetições demasiadas do elemento dramático chave? Faça cortes sem perder esse caráter dramático, sem descaracterizar o conflito. Pouca verossimilhança tecnológica? Não vá nem tanto ao céu, nem tanto a terra. Amplie a margem de anos sem, com isso, precisar efetuar mudanças drásticas no argumento. Matou um dos protagonistas (o mais forte) muito cedo? Tenha em mente que se isso não for suficientemente explicado e suplantado, você será cobrado mais tarde (talvez já tarde demais). Encare seus desafios e vença-os. A reviravolta não agradou um dos leitores beta? Paciência. É nessa reviravolta que se baseia toda a sua obra. Ela é a essência da obra. Alterá-la seria o mesmo que pegar o original e o jogar na lata do lixo.

Por mais que os leitores beta possam se contradizer, por mais que sejam chatos, irritantes, insistentes no seu erro quando você grita que não errou, que era pra ser assim mesmo (errado mesmo…rs), eles são necessários. Enxergam o que passa pelos seus olhos sem sua devida atenção. Veem o que você não quer ver, porque você não aceita a ideia de ter cometido erros.

Avalie as sugestões recebidas com o uso do bom senso. Guarde a paixão na gaveta, ela só vai te atrapalhar.

Escreveu um conto? Uma novela? Um romance? Procure esses miseráveis e entregue seu trabalho à avaliação deles. Alguns cobram pelo serviço mas existem os abnegados e sádicos que o fazem de coração aberto. Qual dos dois prestadores é melhor? Difícil dizer. Mas garanto que os melhores são os que NÃO SÃO SEUS CHAPAS, NÃO SÃO SEUS AMIGOS DE BAR, NÃO SÃO SEUS PARENTES, NEM AGREGADOS. São aqueles que QUEREM DE TODO JEITO ENCONTRAR UMA MERDA NO SEU TRABALHO SÓ PARA TE FAZER VER QUE VOCÊ NÃO É O GOSTOSO QUE PENSA SER.

Por que estou gritando? Porque tem gente que custa a entender essas coisas.

Ache essas pessoas e esteja preparado… você vai odiá-las.

Tags: , ,

24 Respostas to “Alô! É da polícia? Tem um leitor beta falando mal do meu trabalho!”

  1. Parreira Says:

    Nunca passei por um leitor beta. Pelas contradições que vc descreveu acima, será que ajudam ou atrapalham?

    • Tibor Moricz Says:

      As contradições fazem parte da coisa. São devido às diferenças de visão. O que para uns é problema, para outros é parte da solução.

  2. adriano siqueira Says:

    oi tibor… gostei da questão do leitor Beta. Uma pergunta que acho interessante… Você escolheria um leitor beta com experiência e idade acima do público que quer alcançar ou você pegaria um leitor Beta sem experiência mas que gosta de livros e tem a idade do público que quer alcançar?

    abraços

    • Tibor Moricz Says:

      Minha sugestão, Adriano, é que você entregue seus trabalhos para dois ou mais leitores beta e que entre eles estejam leitores comuns, aqueles que você quer alcançar. Mas nunca deixe de lado a leitura de um crítico experiente e feroz. É ele que vai te dizer onde seu texto está bom e onde está ruim. Isso se você tiver pretensões em melhorar a sua prosa, por exemplo. Se a ideia é apenas agradar o público final, sem se esmerar na prosa, pra quê leitor beta, né?🙂

  3. Saint-Clair Stockler Says:

    Você esqueceu de mencionar que eu, Saint-Clair Stockler, sou seu leitor beta especial. Mas tudo bem, entendo a razão, “aquelas” más linguas estão sempre aí, espreitando, pra falar mal da gente no Twitter e no Facebook, né?😀

  4. Claudio Says:

    Acho que o leitor beta é fundamental. Um tiro no pé entregar o livro pra editora e confiar só na opinião dela. Fora que salva o editor de obviedades, ou mesmo terrorismo literário. Eu concordo com uma quantidade ímpar, 3 ou 5, pra poder ter desempate. E o escritor, que sabe o que quer, deve tentar ver o que serve ou não. Mas sempre respeite a opinião de quem se debruçou sobre o seu trabalho e se você não conhece ninguém erudito (porque é necessária uma visão crítica além do gostei e não gostei) que seja imparcial, bem, pague pelo serviço. E, claro, vá se preparando que mesmo diante do aval dos seus betas, do aval da editora, seu livro pode não receber aval de um leitor se quer, porque a leitura é esse campo aberto que a gente nunca sabe onde o raio vai cair.

  5. Giulia Moon Says:

    Eu só tenho a agradecer aos meus leitores beta. Eles são uma barreira que protege e deixa o seu filhote, o livro recém-criado, cheio de anticorpos pra sair pelo mundo sem medo de ser feliz. Quanto à questão de contradições, eu trabalho com 3 leitores beta e nunca entraram em contradição. A minha fórmula pessoal é: alguém que seja um leitor culto, antenado e detalhista + dois leitores que escrevam – e bem. E que sejam autores que você mesmo admira o estilo, a criatividade, a ousadia. Não é todo mundo que tem a sorte de contar com o tempo e a boa vontade de leitores assim. Eu, felizmente, tenho. Mas, no final das contas, o maior leitor beta é você mesmo, o autor, que depois de deixar o livro esfriando um pouco nas mãos dos betas, retoma a leitura com outros olhos e consegue enxergar com a frieza e imparcialidade que havia perdido no calor da escrita. Você vai analisar os pareceres e julgar se estão certos ou não. E vai encontrar outros pontos ainda não abordados a melhorar. E aí nasce o seu livro, imperfeito, pois nada é perfeito, mas bem mais preparado para ser lido pelos leitores.
    É isso aí, Tibor. Beigiunhos gelados desta titia vamp!😉

  6. Daniel Moricz Says:

    Sou parente e não sou profissional no assunto. Ainda assim, consegui me identificar em 2 situações… bem claramente! (risos)
    Vai ver que o que você disse é verdade, talvez minhas contribuições tenham sido mesmo valiosas. Ou então eu sou um bosta de um parente. Ou as 2 coisas🙂
    Anyway, tenho certeza que o livro será bem sucedido. A história é boa! (Olha eu tentando ser um parente melhor)

    • Tibor Moricz Says:

      Eu explicando (gritando) pra todo mundo que parente não vale, e vem você e me entrega desse jeito? Mas aviso a galera que meu sobrinho pediu para ler o livro…rs… não fui eu que o convidei para a leitura crítica, não, tá? hahaha…

  7. Renato G. O. Cunha Says:

    É , Tibor. Crítica é fogo! Apesar de haver publicado apenas um livro e duas coletâneas, alguns de meus contos foram lidos antes por vários amigos escolhidos a dedo: alguns amigos puxa-sacos, outros que me deviam dinheiro e favores (eh, eh, eh,) e ainda alguns irmãos. Assim, achei, me pouparia de dissabores. Mas qual o que! Alguns deles, ingratos e maus amigos, criticaram algumas passagens e sugeriram ,veja que horror, algumas modificações no texto, algumas das quais eu, com muita má vontade, acatei. E, visto que vc gostou do produto final (apesar de algumas cacetadas também), não me arrependi muito.

    E é com um misto de alívio mesquinho e perversa alegria, que vejo que vc também as toma de vez em quando.

    Mas quem agrada a todos?

    Se algum dia vc quiser diversificar seu grupo ou precisar de mais algum leitor beta, pode contar comigo.

    ABÇs

    Renato G. Cunha

  8. jggouvea Says:

    Eu devia ter submetido o meu primeiro romance a leitores beta. Não o fiz: hoje enxergo as falhas gritantes dele e fico constrangido.

  9. Zeca Jas Says:

    Acho que você deveria ignorar o leitor beta que não sabe a diferença entre “trás” e “traz”.

  10. Alvaro (Pai Nerd) Domingues Says:

    Gostei da sua postura em relação as críticas que recebeu dos leitores beta. Quanto a matar um personagem forte logo de início tenho dois exemplos (atenção, spoiler!): um é do Hitchcock em Psicose. O segundo é em Um Cântico para São Leibowitz, onde no final do primeiro terço da obra o personagem que tinha tudo para se tornar um herói morre com um flechada na testa. Se eu mato alguém assim logo de cara fica subvertido a lógica da trama e tudo pode ser esperado. A trama tem que ter qualidade para que isso se justifique, o que ocorre nas duas obras. Um grande desafio!

  11. Estevan Lutz Says:

    Certa vez, já deixei aqui neste blogue a seguinte frase: NÃO EXISTEM LEITORES MAIS CRITERIOSOS. EXISTEM LEITORES QUE ADOTAM CRITÉRIOS DIFERENTES!

    • Tibor Moricz Says:

      Tá bom. Só não precisa gritar. Aqui ninguém é surdo🙂
      (tá bom, nada! Claro que existem leitores mais criteriosos! Que ideia…)
      Dizer que não existem leitores mais criteriosos e sim critérios de avaliação diferenciados é uma forma confortável de enfrentar uma crítica negativa. Compartimentaliza-se as críticas, nivelando-as, e se aproveita exclusivamente daquela cujos “critérios” lhe são mais favoráveis.

      • Estevan Lutz Says:

        Desculpe, mas aprendi a ser assim sendo leitor desse blog…rss.
        Mas, Tibor, quando você busca feedbacks por leitores beta e percebe que há mais leitores dando opinião positiva do que leitores dando opinião negativa, ou mesmo um leitor conflitando o ponto de vista de outro, você retrabalha seu texto para satisfazer aquele leitor que não gostou?

      • Tibor Moricz Says:

        Aprendi a dar mais atenção às criticas negativas do que às positivas. Assim, vou retrabalhar o texto tentando suprimir aquilo que pareceu negativo a um leitor específico sem, contudo, descaracterizar o que a narrativa tem de bom para os demais. É possível fazer isso. Se atentar firme às criticas ruins, verá que não são destituídas de razão. São elas, afinal que o ajudam a afinar o seu trabalho.
        Se um leitor “A” achou determinado trecho devagar, maçante, e um leitor “B” achou o mesmo texto bom, com descrições ricas que ajudam a compor melhor o cenário, vou dar uma mexidinha deixando a narrativa mais rápida, menos pausada. Sei que fazendo assim não estarei agradando a um leitor só, denominado de “A”, mas a centenas, quiçá milhares de leitores que pensarão exatamente como ele.

      • Estevan Lutz Says:

        De acordo!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: