Valor Comercial x Valor Literário

Ontem retuitei os seguintes tuites da Madame borboleta (@mmeborboleta):

Madame Borboleta
Você acha que as editoras publicam literatura de qualidade? Te digo: Não. Publicam literatura que vende.

Madame Borboleta
A qualidade literária não tem absolutamente nada a ver com o mercado editorial. Qualidade é o último critério para publicação de uma obra.

Depois fiquei pensando sobre o assunto.

Valor literário e Valor comercial não são características excludentes. Sabemos todos que as editoras vivem de vender livros. Esse é seu negócio. Precisam comercializar muitos livros de Valor comercial para poder publicar alguns livros de Valor literário. O eventual lucro de uns para bancar o eventual prejuízo de outros.

Mas quem disse que um autor preocupado em escrever um bom plot não pode também elaborar a prosa para oferecer ao leitor uma mistura aprazível de qualidades?

Falando em literatura de gênero mais diretamente, atenção à estética e ao estilo não prejudica a fruição de uma boa e emocionante história.  Unir o útil e importante ao agradável e necessário é trabalho difícil mas vital para quem se preocupa com a própria imagem. Com a posteridade. As melhores histórias são aquelas cuja prosa também encanta. São as que sobrevivem na memória dos leitores. Não são descartáveis, não vão para o limbo.

Assim, diferenciar um do outro, separar o comercial do literário só é compreensível a autores que não dominam uma dessas ferramentas. E esses perdem muito. Uma boa história seja lá qual for o argumento, desde que se sustente, ganha peso se  estiver lastreada no esmero com a linguagem.

Não há nada mais terrível que enxergar uma boa ideia atrás de um monte de entulho, misturado em lixo narrativo.

Em que grupo de autores você está? Em que grupo de autores você quer estar?

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15 Respostas to “Valor Comercial x Valor Literário”

  1. João Beraldo Says:

    Me parece que a grande birra de muitos autores é que “literatura que vende” tende a não ser “literatura de qualidade”. O famoso “é ruim, mas vende pra cacete”, ou o “Michel Teló da literatura”, como alguém disse esses dias no CLFC.

    Quais são os elementos de uma “literatura que vende”?

    • Tibor Moricz Says:

      A literatura que vende é aquela que valoriza apenas a história, o enredo, o argumento. Rico em emoção, aventura, ação.

  2. Horacio Corral Says:

    Eu acho que vou pedir um empréstimo de 10 mil reais para a Madame Borboleta para poder publicar o primeiro livro da minha trilogia de fantasia épica medieval steampunk, tudo bem que ainda não comecei a escrever – mais isso é só um detalhe. Meu livro vai revolucionar o mercado editorial para sempre porque vai ter uma estrutura muito diferente, porque os personagens não se conhecem no começo do livro mas por causa de um monte de traições e assassinatos, e acidentes, que nem no Game of Thrones, a história vai unir eles de um jeito muito especial. Pode ser que não venda muito, nem todos os leitores vão conseguir entender meu livro, mas eu garanto que vai ser um bom livro de literatura, e não um LIXO COMERCIAL como Harry Potter. Eu pesquisei muito sobre sociedades secretas e história na Wikipedia e inclusive criei uma lingua para uma raça especial, que eu criei, que têm no meu livro e que eu chamo de e’lf’s, são imortais, muito bonitos e muito justos. O que vocês acham?

  3. Bruno Cobbi Says:

    Tibor,

    No sétimo encontro dos Escritores de Quinta em novembro passado, o tema era “Como viver de literatura?” e, coletivamente, o grupo acabou abordando de forma bacana esse assunto.

    Deixo aqui dois links:

    1. A apresentação que produzimos para conduzir a discussão.

    2. O videocast que o mestre Nelson de Oliveira gravou pra nós (ele não pode estar presente nessa edição) e que pomete a receita mágica para o bestseller.

    Quem quiser saber mais sobre o projeto, é só pesquisar no blog, no Facebook ou aparecer por lá no SESC Pinheiros, pra conhecer a galera e bater um papo de altíssimo nível, sempre na última quinta-feira de cada mês. O tema desse mês é Pirataria Cultural: ajuda ou atrapalha?”.

    • Horacio Corral Says:

      Deixando a ironia de lado. Muito legal, Bruno. Favoritei o video e a apresentação. Quero encontrar tempo para ir nos encontros. Parábens pela iniciativa, participação e a organização do evento!

  4. Mariana Albuquerque Says:

    Eu acho que a diferença entre “literatura comercial” e “literatura de arte” é a mesma de se considerar que um penico no meio do museu é arte ou não (pra mim não é, mas acho que o primeiro fez sentido). “Arte” para mim precisa ser capaz de levar uma mensagem para as pessoas. Se ela falha em levar a mensagem por ser desagradável ou incompreensível demais, e portanto é boicotada, o problema não é com o público, nem com o ‘sistema *insira seu palavrão preferido aqui*. É com o artista. Claro que um editor pode falhar em avaliar o que o público compraria, e que excesso de marketing vende até picolé para esquimó, mas aí tem o teste do tempo: será que uma obra consegue se manter sendo vista ou lida depois de décadas,séculos, milênios? Se uma obra não conseguiu ser popular no seu tempo (nem que de forma efêmera, já que nem toda mensagem é eterna), nem consegue passar pelo teste do tempo (notando que algumas vezes, só depois do artista morto o teste do tempo mostra que a arte dele valia alguma coisa… esses sim podem culpar o sistema lerdo), o valor dela é irrisório. Pode ter sido muito importante para o artista, mas é o barulho de uma árvore caindo quando ninguém está lá para ouvir, e alguns negam até sua existência.
    Claro, que nessa baderna toda ainda há outra categoria: a arte que você, como parte individual do público, não gosta. O problema é que não gostar de uma coisa, apesar de perfeitamente natural, tem um estigma de errado, ainda mais quando um grande número de outras pessoas discorda. Quem somos nós, meros indivíduos para discordarmos de uma maioria? Existem fatores biológicos e evolutivos que nos fazem nos sentir mal por isso, e é para nos livrarmos desse sentimento que desviamos o “errado” para o outro lado. Não somos nós que não gostamos de Paulo Coelho, ele é que é um escritor “ruim” e está enganando milhares (milhões? Já chegou no bilhão?) de pessoas.

    Sem hipocrisia, eu não gosto do livro do Paulo Coelho que li, mas ele é um bruta de um escritor, e fico feliz e orgulhosa por ele ser brasileiro. Ah, e odeio Machado de Assis também, que todos concordam que é outro bruta escritor, então, deve haver algo errado comigo. E não dou a mínima.

  5. Bruno Cobbi Says:

    Deixo aqui mais um trecho de uma leitura recente, Ulisses tavares, no Musa Rara:

    O que também não é nenhuma novidade: o primeiro poeta que colocou seu talento a serviço do processo de venda de produtos, serviços e ideias (sim, o nome disso hoje é o tal de marketing, aluno alienado!) foi o maior poeta latino, Virgílio. Há mais de 2 mil anos atrás, ele ficou 8 anos escrevendo os 4 volumes do imenso poema Geórgicas. E não porque quisesse. Era para ganhar a vida mesmo. O hiperpoema foi encomendado pelo imperador de Roma para convencer as pessoas a voltarem a trabalhar com prazer no campo, já que não cabia mais ninguém na cidade. Leiam e irão ver que o poema é quase um tratado de agricultura. Resumindo, propaganda pura e simples.

    Mais alguns exemplos de escritores que se renderam à publicidade na íntegra.

  6. Braulio Tavares Says:

    Acho que a discussão sobre best-sellers, do ponto de vista do autor brasileiro que quer vender bem, deveria excluir os livros estrangeiros. Estes já chegam aqui com o sucesso feito lá fora e as editoras ansiosas para investir neles aqui dentro. Tanto faz “O Nome da Rosa” quanto “Crepúsculo”, tanto faz Harry Potter quanto “Game of Thrones”. O best-seller estrangeiro é uma bola de neve que já vem rolando. Teríamos que examinar os best-sellers de autores brasileiros e perceber como cada um criou um público que (em vários casos) até então não existia.

  7. Armand Dias Says:

    Eu acho engraçado essas pessoas que se referem a determinados livros como: LIXO COMERCIAL. Essas pessoas não sabem, ou fingem não saber que esses supostos (ao ver delas) “lixos comerciais”, aumentaram o indíce de leitores e abriram grandes portas para que outros livros do gênero fossem lançados no mercado literário. Coisa que muitos outros já introduzidos nesse setor, não foram capazes de fazer!

    Falar que se tem uma idéia revolucionária é algo muito bom. Um escritor precisa de uma motivação e um acreditar, para botar o lápis no papel (ou os dedos no teclado). O complicado mesmo é de fato ter essa idéia! (achar que tem é uma coisa, ter é outra). Quem sonha alto e menospreza seus antecessores, a maior parte das vezes sofre uma queda grande.

    Quanto ao tema citado, ao meu ver todo livro tem um pouco dos dois. Tanto o valor comercial, quando o valor literário. Um não consegue viver sem o outro.

    • Armand Dias Says:

      Ressaltando: Não estou falando isso para o Horacio (por mais qie pareca que sim). Apenas usei o comentário dele, como base para o meu!

  8. Horacio Corral Says:

    Armand Dias. Talvez tenha comentado a sério, mas, apenas para esclarecer. Eu não penso nem concordo com nada do que escrevi com exceção de alguns elogios ao Tibor, Beraldo e Bruno Cobbi. O que eu fiz foi ironizar, imitando, esse personagem ‘tão brasileiro’ do autor iniciante.

    Concordo com o Braulio. Precisamos entender como os livros se desenvolvem no Brasil, tanto o seu impacto social e popular, quanto em termos de valor literário, quanto no aspecto comercial e de vendas. André Vianco é um bom exemplo a ser analizado. Pois conseguiu atingir, indiscutívelmente, dois desses elementos, o social e o comercial. Vale agora, tentar entender como isso ocorreu e quais foram as consequencias.

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