De como um desabafo se transformou num pródigo debate, OU como o fandom e o mercado ainda rendem animadas discussões.

Aborrecido depois de um longo bate-papo com o Ivo Heinz no Facebook, fiz um desabafo a respeito do fandom. Minha opinião a respeito dessa entidade não é nova, mas não consigo me controlar e acabo externando minhas mais profundas emoções a esse respeito de tempos em tempos.

Gente, na boa. FC brasileira não é lida nem pelo fandom. O nicho, que deveria prestigiar a nossa FC, lê os estrangeiros mas não lê o que a gente faz aqui dentro. Esse nicho, esse fandom, é uma merda. Não presta pra porra nenhuma”.

Não pensei que essa reclamação mal educada pudesse resultar na troca de ideias que resultou. Sinal claro de que existe vida inteligente no fandom.

Posto isso aqui porque muita gente que conheço não tem página no Facebook ou frequenta aquele espaço muito raramente. Ah, e também porque o blog andava muito paradinho, o coitado.

Há salvação para a literatura de FC no Brasil?

***

Rauda Graco To ligado faz tempo!

Tibor Moricz Tem autor brasileiro competentíssimo contando nos dedos o número de autores que o leram (e não estou falando de mim, que também conto nos dedos esses leitores).

Rauda Graco Eu li seu livro e nem to a fim de entrar nesse fandom tão mal falado. Tento me manter longe. Quando der na ideia publicar os meus materiais também tentarei me descolar dessa amarra sinistra que é o tal gênero que acredito, mais fecha que abre caminho. sei lá, to bebendo uma, desconsidere as besteiras. Hehehhehe

Tibor Moricz Pô, preciso beber uma também… rs

Cirilo S. Lemos Por isso que essa coisa de fandom precisa ser superada.

Tibor Moricz Mas as editoras menores publicam especificamente para ele. Não têm alcance pra fugir do nicho. Aí a coisa fica difícil. Então você não é lido e ainda escuta que seu livro é ruim (porque não vende – essa é a lógica cruel de mercado).

Cirilo S. Lemos A luta é essa. Aumentar o alcance dos livros se enfiando em cada espaço que aparecer, por menor que seja. É difícil, eu sei.:/

Marcelo Jacinto Ribeiro Tibor, Tibor, porque tanto amargor em seu coração ?

Marcelo Jacinto Ribeiro mas que vc tá certo tá, sejamos claros e sinceros…

Tibor Moricz Tive um papo agorinha mesmo com o Ivo Heinz e esse papo me deixou puto.

Horacio Corral Depois de muito lutar fazendo eventos com a Opelf, tanto eu quanto a Janaina, percebemos, de maneira irrefutável, que o problema era a ausência de leitores. As primeiras perguntas da segunda mesa-redonda sobre FC na Livraria Cultura foram nesse sentido e o próprio Gerson Lodi-Ribeiro, concluiu, ao vivo e em cores (também tenho isso gravado em vídeo), que ele, e os outros escritores de FC, escreviam/produziam obras para si mesmo e que eles mesmos se liam, pois ninguém, efetivamente, lia suas obras. As ações da Opelf, prévias à sua extinção, foram focadas na formação de leitores, porque o resto, no geral, era mera vaidade e um brincadeira de alguns egos com o espelho e o que lá era refletido. O meu incluso. Uma vez que tomamos essa direção. A Opelf acabou. É curiosíssimo ver escritores que se autorrotulam de underground, alternativos e/ou independentes e se orgulham disso como se eles fizessem parte de alguma resistência contra um mainstream que sequer existe no Brasil. Não temos nenhum Asimov, nenhum Tolkien. Dito isso, essa atitude, significa na imensa maioria dos casos, que ninguém tem interesse suficiente em sua obra como para investir nela e não que você é bom mas não te reconhecem. Mas a atitude na muda e mina, e complica, ainda mais o trato com editores e editoras. Você tem alguma sugestão de remédio, terapia ou processo revolucionário para mudar isso, Tibor?

Eduardo Jauch Hum… Isso é preocupante… FC & Fantasia São meus gêneros preferidos e tenho trabalhado em um conjunto de histórias de FC ambientadas em um futuro não muito distante. Ou distante, sei lá. Mas então, quer dizer que eu tenho que escrever em Inglês se quiser ser lido??? O.o

Ademir Pascale Faço o possível para divulgar autores nacionais em minhas entrevistas que já somam duzentas (a entrevista de nº duzentos foi com Octavio Aragão http://www.cranik.com/entrevista200.html). Mas senti o mesmo que você está sentindo quando vi você entrevistando e divulgando o trabalho de muitos autores internacionais. É legal saber o que eles pensam, mas perco meu tempo com meus colegas brasileiros, pois estes sim precisam de espaço😉 Minha estante está lotada de livros e hqs nacionais. Mas tem muitos autores que gostam de colecionar livros estrangeiros apenas para ter um nome diferente e bonito na estante. Não vejo diferença no trabalho do autores nacionais para os internacionais. Alguns são diferentes, como Edgar Allan Poe que não era apenas um escritor, mas sim um gênio. Este sim merece ser reverenciado. Mas tem muitos autores nacionais bons completamente esquecidos, como André Carneiro. Um autor que tem muito para ensinar. Mas se você perguntar para um destes novos leitores quem é André Carneiro, ninguém saberá.

Tibor Moricz Caraca, que preparação longa para esse pergunta, Horacio Corral… Isso é uma entrevista? Vou pensar na sua pergunta e a respondo oportunamente.

Horacio Corral Eu queria dar mais contexto ao que você falou. A pergunta é ‘quase’ retórica. Você sabe disso. Mas é tentando respondê-la que poderemos sair da situação atual para outra diferente, espero eu, melhor.

Ivo Heinz Pois é, num papo virtual hoje com o Tibor Moricz, descobri que estávamos com a mesma ideia (ruim), de que a FCB não está tendo o “sucesso” que alguns julgam ter.

Vamos lá:

1) EU li e comentei o “Guardiã da Memória”, do Gerson Lodi-Ribeiro, e já perguntei uma vez e não tive resposta, quem mais leu??? E não estou falando de um autor iniciante, não, mas de alguém com um nome respeitável na FCB.

2) Tô vendo um monte de coletâneas e mais coletâneas, tô lendo sobre um monte de gente (aqui no Facebook e no Orkut) dizer que está escrevendo e tals…. mas vejo poucos falando do que, necessariamente, estão lendo.

3) Quem é que leu e comentou obras estrangeiras, então??? Quem é que leu “Rei Rato” e “A Separação”?? Será que só eu ????? Porra gente, são APENAS autores como China Miéville e Jeff Vandermeer, precisa falar mais?????

3) Editoras são entes empresariais, digamos assim, precisam de dinheiro pra continuar vivendo, bem como seus editores, que tem suas contas pra pagar… livro que não vende é prejuízo e tempo desperdiçado.

Véi, na boa…. Tio Ivo já viu este filme antes com a Segunda Onda da FCB….. reconheço que vocês que chegaram agora tem (na MINHA opinião) um maior pique e mais talento em potencial, sem contar que são bem mais abertos e iconoclastas (tomem isso como um elogio).

Mas…….. não estou vendo isso se converter em suce$$o de nenhuma editora, saber que tem livro que foi publicado e vendeu menos de 50 exemplares é decepcionante, até edição “de autor” (as famosas encomendadas) chegam a fazer mais do que isso.

E, vou falar DE NOVO: os iPads xing-Ling estão chegando cada vez mais baratos, a pirataria vai cair matando, como já aconteceu com a música e os filmes, estou profissionalmente envolvido com EaD (ensino à distância) num grande grupo educacional, só a ponta do iceberg já é de meter medo…… a revolução será enorme.

Ou seja, em muito pouco tempo livros DE PAPEL serão um luxo para pouquíssimos, como o são os discos de vinil…. vai lá na Galeria do Rock ver quanto custa cada um e depois me diz quantos são vendidos, OK?????

E fico triste, pois queria estar errado, mas ler as opiniões do Tibor e do Horacio Corral me fazem ver que não podemos tapar o sol com a peneira.

O futuro é digital, como fazer o povo quebrar o paradigma existente hoje de que “tá na internet, é grátis” serão outros 500, mas quem conseguir vai ganhar dinheiro…. aos outros vai sobrar só o “escrever por hobby”.

Século XXI, tão belo, tão cheio de potencial, tão vigoroso…. e tão perigoso !!!!!

Gerson Lodi-Ribeiro Às vezes tenho a impressão de que ninguém mais tem tempo de ler, estão todos escrevendo…🙂

Horacio Corral Eu concordo contigo, Ivo Heinz, embora não tenha tido a mesma sorte que você de presenciar e participar da segunda onda de autores de FC. Eu sinto, e a lógica também indica isso, que teremos um cisma, uma separação, muito em breve, entre as editoras e produtores de conteúdo que não abrem mão de travar os arquivos (vide DRM) e aqueles que vão trabalhar, e encarar, o mercado sem esse tipo de ferramenta. Ao longo prazo, todas as empresas precisam: oferecer melhores serviços, melhores preços e satisfazer seus clientes. Elas irão se adaptar, serão flexíveis, serão inteligentes, assertivas e colaborativas, ou irão morrer. Há imensos mausoléus e túmulos da indústria da música para provar, ou indicar ao menos, a natureza desta transição. Embora pareça algo um tanto alheio, eu vejo casos visíveis entre editoras que todos nos conhecemos.Editoras que não deram valor ao seu público e o encararam com profissionalismo, editoras que não se atualizaram e ainda relutam em fazê-lo. Não falarei daqueles que na minha percepção erram, eles sabem que erram, falarei de quem acerta e de quem lidera, ou tenta fazê-lo. Para mim, a Editora Draco ocupa esse espaço. Um exemplo contextualizado com a mensagem do Ivo é possível aqui. Atualmente atuo como Diretor de Merchandising no Submarino Digital Club, entre as tarefas que desempenho esta a de selecionar títulos para a livraria e outros destaques. A única editora que publica, com seriedade, autores nacionais que posso listar lá é a Draco. Observem que o processo de criar um e-book, não é complexo nem custoso, muito pelo contrário, é mais barato. Sua distribuição pode ser feita por terceiros. Ou seja, a editora ocupa-se com aquilo que efetivamente deveria se ocupar, o que concerne ao: editorial. Tem empresas, e editoras, que precisam mudar de atitude ou vão perder o trem, e lamentavelmente, não vai passar outro tão cedo. Deixo uma dica aos senhores, em setembro, chegam praticamente todas as grandes distribuidoras de e-books do mundo ao Brasil. O “inverno” vai chegar para quem não estiver preparado.

Gabriel Boz Esses comentários me causaram um flashback de 10 anos atrás, em trocas de email na lista do CLFC…era a mesma discussão e de lá pra cá nada mudou, nossa FC não é e dificilmente vai ser mainstream, muitos acham que nem deve ser, outros que deve ser mais brasileira para se aproximar dos leitores ( funcionou???) ou mais gringa, inspirada nos mestres ( aí somos macacos de imitação)…escrever é um ofício solitário, egoísta, mas o Fandom acha que somos todos parte da FCB, de alguma onda, de algum grupo, de algum gênero, e se criticam e se elogiam, e se armam em grupos, amizades e não saem do lugar. Todos os problemas se resolvem respondendo uma simples pergunta: você escreve porque? Eu já me respondi essa pergunta algumas vezes, mas até achar a resposta certa, tenho pensado muito e escrito pouco!

Pablo Grilo Estou mirando no mercado americano da Amazon. Almejo ser algo parecido com Amanda Hoking.

Tibor Moricz ‎Horacio Corral, é muito difícil tentar fazer prognósticos de como o mercado de leitores poderia ser expandindo para abrigar a ficção científica. Acredito que não temos história no gênero, não temos um background que nos ofereça alguma comodidade em explorá-lo com o mínimo de certeza de sucesso (mesmo que relativo).
Posso só palpitar, levantar a bola.

Acredito que para fazer a FC “despertar” aos poucos, ser aceita lentamente na rotina dos leitores menos afeitos a ela (muitos por pura ignorância), seria necessário um processo de gradativa inserção. Começar com obras de FC soft, humanista, com enredos delirantes, ritmos fortes, com suspense, aventura, ação… bastante entretenimento, sem grandes voos literários (querer fazer parte do mainstream é uma bobagem, mas não descarto o processo de aproximação, absorvendo por osmose muito do que a literatura realista tem de melhor).

Obras aparentemente despretensiosas tem o condão de capturar leitores. A descoberta do gênero vai acontecendo devagar; os leitores “se dando conta” de que aquilo que estão lendo é FC. É como acostumar os jovens com Harry Potter primeiro para depois lhes dar Mark Twain.

Também defendo a criação de capas que não escancarem o gênero de imediato, que não exibam foguetes, homenzinhos de marte, planetas, anãs brancas. Se eu defendo uma inserção lenta e gradual, estaria sendo contraditório se apoiasse as capas escandalosamente autoexplicativas.

Um mercado que torce o nariz para o gênero, sequer chegará a pegar nas mãos um livro de capa tão ostensiva.

Claro que é necessária divulgação na mídia, junto a formadores de opinião. Um trabalho lendo, gradual e cuidadoso. O mercado tem potencial para um Best Seller de FC, sem que o leitor desconfie que tem uma FC nas mãos. Tudo um conjunto de ações.

Não sei se eu disse alguma coisa a ver, ou não. Talvez tenha dito um monte de bobagens.

Horacio Corral Eu acho, sincera e honestamente, que você deu uma das melhores respostas sobre isso até o momento,Tibor Moricz. Tanto que vou ‘invocar’ o Roberto De Sousa Causo e pedir a opinião dele. Afinal, eu considero vocês dois grandes observadores, e contribuidores, do que acontece na literatura de gênero brasileira. Ao ler sua resposta, inevitavelmente, lembrei do filme Vanilla Sky, que não chegou aos cinemas com um rótulo de Ficção Científica. Sequer foi mencionado em muitas das resenhas e críticas das diversas mídias. Muita gente mesmo depois de ver o filme não o considerava FC, isso não impediu que eles adorassem o filme de paixão e comentassem com seus amigos e pedissem para eles também vê-lo.

Pablo Grilo Inception por exemplo é FC e ninguém se ligou nisso, pelo contrário, viu um bom filme com elementos de psicologia e outras coisas.

Miguel Ángel Fernández Delgado Hola, Tibor, si te sirve de consuelo, lo mismo sucede en todos los países latinoamericanos

Oscar Mendes Filho O que arrasta a LitFan para o limbo é a panelinha que fica lambendo um o rabo do outro, empurrando lixo para os leitores que, enganados, deixam de lado os autores nacionais diante do trauma que tiveram. Uma vez que perderam seu tempo lendo porcaria irão atrás de autores cuja mídia “endeusa” mais e deixam de lado os escritores nacionais, inclusive os que não fazem parte da panela, mas que são encaixotados dentro do mesmo pacote de porcaria.

Cirilo S. Lemos Também acho que não escancarar rótulos é uma boa.

Miguel Ángel Fernández Delgado Hay que mostrar más interés por nuestros autores, porque si no, vienen los investigadores extranjeros a decirle al mundo que nos descubrieron y, entonces sí, algunos investigadores y lectores nacionales comienzan a leernos. Creo que es un problema de marketing y malinchismo

Horacio Corral A literatura é o que ela é, há obras que não se encaixam nos tipos de narrativas que a academia criou. Vejam o exemplo de O Cheiro do Ralo – Lourenço Mutarelli, é uma obra ‘estranha’. Os rótulos servem ao propósito de catalogar e compreender as obras e, hoje em dia, principalmente, vendê-las. Tem sub-sub-gêneros que literariamente não fazem sentido mas comercialmente são ‘necessários’.

Hugo Vera Tendo em vista os interessantes comentários feitos acima queria muito saber também a opinião dos editores sobre isso… Afinal, talvez mais que os escritores, os editores são os caras mais interessados em ganhar dinheiro com isso. Afinal, se supostamente ninguém lê, eles estão publicando para quem? Quem está comprando os livros? Eles estão se sustentando (e lucrando) com as vendas a ponto de valer a pena continuar com a empreitada? Com a palavra, os editores…

Horacio Corral Por favor, cuentamos, Miguel. En Mexico, ustedes también tienen ese problema de que todos son escritores pero nadie es lector? Otra curiosidad mía es, como son las narrativas? Son más nacionales y regionales como un Selva Brasil de Roberto De Sousa Causo o son obras abiertamente inspiradas en los autores extranjeros como William Gibson y Isaac Asimov? En el Brasil, y por lo que sé, en Argentina también, el primer problema é gravísimo.

Roberto De Sousa Causo O fandom é uma instituição importante, mas a história sugere que no Brasil ele nunca funcionou como um mercado minimamente substancial para a FC nativa. Por ser inerentemente anárquico, tentativas de esterçá-lo na direção de um ou outro interesse especial redundam na formação de feudos que rapidamente degeneram em guerrilha fratricida. O papel do fandom não é esse, mas o de manter e difundir discussões especializadas e de fomentar instituições críticas, editoriais e de formação de autores que não estão disponíveis fora-fandom. A comunidade Ficção Científica no Orkut tem 6.700 membros inscritos — fãs ativos, já que se reuniram mesmo que virtualmente, para discutir o assunto. Se um terço deles comprasse dez livros novos de FC por ano (o que não é nada) não haveria editor da área em dificuldade. Claramente, há um funil aí, no qual a literatura é minoritária, e dentro dela, o autor brasileiro mais ainda.

Roberto De Sousa Causo Em 1940, Jerry K. Westerfield, então editor de “Amazing Stories”, escreveu que, “dos 500 mil leitores da ficção científica, apenas cerca de 5 mil deles são fãs. Mas esses 5 mil fazem todo o barulho e soltam todos os fogos de artifício”. Isso foi lá na era das revistas pulp, mas no Brasil de hoje é mais ou menos essa a equação, mas numa escala menor. Naquela época, esses 5 mil provavelmente compravam todas as revistas (livros de FC ainda eram raros) e todos os fanzines, mas mesmo assim as revistas de tiragem média de 150 mil exemplares só podiam contar com eles como multiplicadores de interesse, não como mercado principal. Mas eles não tinham que enfrentar a concorrência de uma FC mais sofisticada e de maiores credenciais, que é o que toda FC não-anglófona tem de encarar.

Roberto De Sousa Causo A ideia de conquistar um público não previamente interessado em FC é interessante como um princípio e como um conceito geral a que toda a literatura de gênero deveria almejar, sem o velho ranço de que, ao fazê-lo, deixaria de ser de gênero. Mas isso é muito difícil de visualizar — e de realizar — coletivamente. Assim como o velho argumento de que o que falta à FC brasileira é marketing, não mencionando que falta antes dinheiro para encomendar esse marketing. Por isso é bom sempre lembrar que, como na equação de Westerfield, entre o fã de FC e o leitor comum, há ainda o leitor de FC que não é um fã ativo. Se o fandom brasileiro são 500 fãs que fazem todo o barulho e soltam todos os fogos, talvez haja 5 mil ou 50 mil leitores potenciais já interessados no gênero. Eles certamente são mais fáceis de abordar. Mas, novamente, há aquela histórica desconfiança do público em geral quanto à capacidade do escritor brasileiro de escrever literatura de gênero — seja ela FC, fantasia ou ficção de detetive, ficção militar ou outra.

Roberto De Sousa Causo Enfim, a história da FC no Brasil também nos lembra que o gênero teve efervescência e mercado (embora nenhuma respeitabilidade critica) entre 1960 e meados de 1980 — e depois disso foi morto pelos diversos planos econômicos. De lá pra cá a cultura empresarial das editoras assumiu o bordão de que “ficção científica não vende”, ou passou a se focar em outros nichos — autoajuda, ficção urbana pós-modernista, divulgação histórica, e finalmente, a onda que todos surfam agora, a literatura jovem-adulta. Isso quer dizer que a FC como ramo editorial está renascendo hoje, num contexto em que a maioria dos leitores não teve acesso ao estado da arte, no exterior. Eles precisam ser reeducados nos caminhos que o gênero percorreu, e isso, novamente, demanda investimento, tempo e esforço. O fandom, até certo ponto, por promover aqui e ali conceitos como New Weird, New Space Opera, FC feminista, Queer e outros, dá pequenos passos nesse sentido, e muitas vezes indica direções às pequenas editoras associadas a ele. Então ele tem importância, mesmo que não possa garantir um mercado para os autores locais.

Roberto De Sousa Causo Fixar a FC como gênero viável aos autores brasileiros é o grande desafio de todas as gerações, de todas as ondas. Como fazer isso não cabe a nenhum de nós dizer — cada autor percorre o seu caminho. Eu apenas acho que só imitar o estado da arte da FC anglo-americana, sem igualá-lo e adaptá-lo, é insuficiente.

Estevan Lutz Tibor, concordo com sua última postagem. Tanto que foi isso que eu fiz questão de fazer em O Voo de Icarus. E estou atingido públicos que não são fãs de ficção científica e acabaram gostando muito do tema do livro.

Ivo Heinz Pois é, mas e autores como Eduardo Spohr e André Vianco?

Focando em seu público e trabalhando bastante, eles conseguiram visibilidade.
O que eu vejo neles é que estão à parte das picuinhas do fandom, não ficam debatendo os assuntos intermináveis como “Movimento Antropofágico” e foram à luta.

Outro divisor de águas pra mim foi a pesquisa do Nelson de Oliveira (aka Luiz Bras), isso mostrou que muita gente mais nova conhece o que já foi feito, haja visto a influência e votação que o Gerson Lodi-RibeiroOctavio Aragão e Fábio Fernandes tiveram, e foi uma votação “secreta”, a divulgação dos resultados deve ter pego muita gente desprevenida (só Tio Ivo acertou os 3 primeiros, hehehehehe).

Na boa, FC NÃO VENDE AQUI. Olhem os números e tirem as conclusões.
Falta investimento em marketing? muito provavelmente.
Falta maior aceitação pelo mercado? talvez
Falta maior inserção nos círculos acadêmicos? Bem, já tem Rodolfo Londero, A dri Amaral, Fábio Fernandes, Octavio Aragão, etc…. em Universidades de ponta e discutindo seriamente, então acho que esse front já está “em batalha”.

Ou, rememorando uma pergunta que eu fiz num evento do Invisibilidades do Itaú Cultural, uns 7 anos atrás….

SERÁ QUE O TAMANHO DO REAL MERCADO DE FCB É ESSE MESMO QUE ESTAMOS VENDO???????

Ivo Heinz ‎Horacio Corral, quanto ao Cisma, eu acho que nada mais é que muita gente disputando um espaço muito pequeno, para piorar ainda tem a ENORME questão dos egos…..

Horacio Corral Vou ressaltar, ou melhor, parafrasear, um comentário da época. Que o nome do evento do Itaú Cultura fosse INVISIBILIDADES era significativo, provocativo e simbólico demais. Alguns se divertiam fazendo alusões aos escritores e demais participantes, que eram, literalmente, invisíveis para o público geral. Afinal, ninguém sabia que eles existiam. Por quanto tempo isso será uma condição comum, ou se isso irá mudar, é difícil dizer. Mas vale lembrar que mesmo entre os escritores mainstream é difícil ver conhecidos do grande público. A literatura no Brasil ainda é, na mente da população, algo de elite e de privilegiados. Criadores, e autores, como Douglas Mct e JM Trevisan são mais conhecidos do que a maioria dos autores da segunda onda, e da dita terceira também, e não por suas obras literárias, mas por suas contribuições em outras mídias como HQs e games. Eu enxergo como um dos ‘problemas’ a mídia LIVRO, pois no Brasil ela é uma das que mais sofre na comercialização e com a ausência de profissionais e plataformas adequadas. Por exemplo, se todas as obras do Gerson Lodi-Ribeiro ou Roberto De Sousa Causo fossem games, digamos de iPhone/iPad (iOS), estaríamos falando de outras questões como rentabilidade ou qualidade mas, certamente, a falta de público não seria uma das preocupações.

Miguel Ángel Fernández Delgado Hola, Horacio, también hay muchos autores y pocos lectores. El índice de lectura, en general, es bajísimo. Los autores de más prestigio prefieren publicar en otros países, como España, aunque sólo pocos lo logran. La mayoría busca darse a conocer y ganar dinero participando en concursos o dando talleres y conferencias. En cuanto a los temas, hasta la década de 1960 comenzaron a publicarse propuestas de cuestiones claramente mexicanas, porque antes trataban de imitar más a los autores extranjeros, aunque siempre han buscado incluir ingredientes mexicanos. Por ejemplo, hay una novela de fines de 1950 (Palamás, Echevete y yo, o el lago asfaltado de Diego Cañedo) que está dedicada a H. G. Wells, y trata sobre unos viajeros en el tiempo que se desplazan al pasado para conocer en vivo los sacrificios humanos que hacían los aztecas

Pablo Grilo É estranho que todo mundo aqui saiba o que o “povo brasileiro” pensa da literatura especulativa nacional ou o querem consumir de livros. Eu vejo que essa entidade “povo” é tão volátil e praticamente impossível de se rotular ou de saber o que todos querem, já que são formados por pessoas totalmente diferentes entre si e que vieram de classes sociais distintas. Quer propor uma FC diferente através de uma experiência pessoal? Escreva algo assim pra um nicho específico. Só não recrimine quem pensa diferente e escreva literatura especulativa de forma mais comercial.

Cirilo S. Lemos Só há duas opções: desistir ou persistir.

Tibor Moricz Persistir sempre. Mesmo que sem nenhuma (ou quase nenhuma) esperança.

***

Se quiserem acompanhar a discussão na origem, sigam esse link:
https://www.facebook.com/tibor.moricz/posts/10150785785527295

Leiam, analisem, discutam entre si, opinem.

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18 Respostas to “De como um desabafo se transformou num pródigo debate, OU como o fandom e o mercado ainda rendem animadas discussões.”

  1. baccioly Says:

    O papo é procedente, mas é um papo a se levar de forma desapaixonada e em busca mais de soluções do que de motivações, creio.

    Digo isso porque os motivos que vêm sendo elencados me parecem sempre ancorados na visão romântica da existência de um mercado que, de fato, talvez não exista.

    O grande público desconhece completamente a existência dos autores nacionais. Na verdade o grande público não está nem aí para Literatura de um modo geral e lê um livro a cada dois a cinco anos, dependendo do tempo que demora para sair mais um “Código da Vinci”.

    Talvez por ser uma pessoa de tecnologia eu acredite que uma solução possível seja arrebanhar digitalmente este público, pouco a pouco.

    Há poucas iniciativas digitais ligadas especificamente a Literatura Fantástica e que ofereçam mais do que um Orkut ou Facebook da vida oferecem. É importante, a meu ver, que iniciativas do tipo tenham como paradigma fundamental a gratuidade, o que é difícil de manter.

    A manutenção tecnológica de uma iniciativa digital para ajudar a solucionar o problema passa não só pelos custos, recursos e elemento humano necessário para a curadoria de conteúdo qualificado promocional que sirva de chamariz para um público cativo desta iniciativa.

    Em minha experiência o público (de um modo geral) não ajuda, não “curte”, não “compartilha” e não se preocupa com a Literatura Fantástica de uma maneira mais ampla. Creio também que talvez não devêssemos esperar isso deste público – mas seria ótimo se houvesse consciência de que gratuidade exige incentivo por parte de seu público.

    Sobra para autor e para editoras a atitude de preocupar e divulgar para os amigos e fãs quaisquer iniciativas que envolvam serviços gratuitos dedicados ao gênero… mas também não dá para contar com isso.

    De vez em quando dá a impressão que é uma questão cultural de querer tudo de graça sem fazer absolutamente nada em troca, mesmo que seja apenas dar um clique em algum botão.

    Não sei se é o caso, mas que seria muito bom poder contar pelo menos com autores e editoras já seria ótimo.

    Fazer a manutenção de uma iniciativa digital não é tarefa fácil, sobretudo quando se precisa responder pela decisão de fazer mecenato ou qualquer forma de investimento em uma iniciativa sem qualquer modelo de negócio envolvendo custos justamente para aquecer sua utilização.

    Tivesse eu, em toda reunião de diretoria, um número crescente de alcance de divulgação espontânea não estimulada para apresentar, muito provavelmente o aoLimiar.com.br (por exemplo), estaria muito maior do que está hoje.

    Em uma empresa a estagnação de uma iniciativa e o evidente desinteresse do público não justifica o investimento, uma vez que a prudente e conservadora percepção corporativa dos dados se baseia em resultados e não em esperança ou interesse pessoal.

    A apatia, o tédio e o desinteresse da comunidade de leitores, autores e editores não me deixa desconcertado ou decepcionado enfim… mas é um obstáculo difícil de transpor para um empreendedor solitário ou empresa bem intencionada interessada em ajudar a comunidade de Literatura Fantástica.

    Bruno Accioly
    dotweb.com.br
    aolimiar.com.br
    steampunk.com.br

    • Tibor Moricz Says:

      A discussão promovida se alicerçou mais propriamente no Fandom e não fora dele, Bruno. Existe um fandom, embora não pareça. E esse fandom não prestigia o literatura fantástica brasileira embora teça loas a ela. Dá pra entender uma porra dessas? O Mercado fora fandom é um pântano que ninguém conhece direito.

      • baccioly Says:

        Entendo como parte do mesmo fenômeno.
        Admitindo o Fandom como sendo aquele contingente de pessoas que supostamente “assina” sua iniciativa/obra, espera-se deste Fandom um dado comportamento. Mas ele inexiste.

        A meu ver, editoras e autores tem um poder muito grande, mas há sérias barreiras entre cada um dos autores (menos) e cada uma das editoras (mais) em promover o trabalho do resto da comunidade de Literatura Fantástica.

        Acaba que o fenômeno é perceptível em iniciativas como as que mencionei, onde não há sequer o ativismo digital esperado do entusiasta digital.

        As vendas de livros em papel é colossalmente maior que a venda via Internet hoje. Amanhã, talvez, devido a uma maior conveniência e uma experiência de uso mais adequada , é possível que alcancemos um maior contingente de consumidores e que o Fandom se sinta de alguma forma mais familiarizado ou compelido a prestigiar (de diferentes formas) a Literatura Fantástica.

      • Tibor Moricz Says:

        Entender o Fandom e o leitor extra-fandom como integrantes de um mesmo fenômeno e imersos num mesmo visgo é a mesma coisa que acreditar que o fandom não existe como nós o conhecemos ou como nós gostaríamos de conhecê-lo. Que é quimera. Uma entidade fantástica, fruto de nossa imaginação.🙂 Historicamente o fandom tem se manifestado ativo na discussão da literatura de gênero, mostra-se afeito a ela, demonstra possuir conhecimento globalizado desse gênero, mas não passa disso. Reclama a falta de leitores mas ele mesmo (desde que composto desses leitores) nada faz para ajudar a diminuir o problema. Acredito que quando tivermos migrado para a venda digital deixando o papel para trás nas estatísticas, o fandom terá mais acesso ao gênero, mas não necessariamente mais interesse do que tem agora em divulgá-lo e mesmo adquiri-lo.

  2. De como um desabafo se transformou num pródigo debate, OU como o fandom e o mercado ainda rendem animadas discussões. | Ficção científica literária | Scoop.it Says:

    […] background-position: 50% 0px ; background-color:#222222; background-repeat : no-repeat; } esooutroblogue.wordpress.com – Today, 9:37 […]

  3. Ivo Heinz Says:

    Pois é Tibor, chego à conclusão de que o fandom NÃO ajuda, pois não compra livros, portanto não gira o dinheiro pros autores.
    Mas por outro lado ele atrapalha, porque perdem tempo nas mesmas discussões de 20 e poucos anos atrás, as picuinhas, guerra de egos, ataques via pseudônimos, etc….
    Como eu escrevi acima, quem consegue fazer sucesso está FORA do fandom, será esse o caminho das pedras????

  4. baccioly Says:

    Na verdade comparei o Fandom aos assinantes de um serviço como o aoLimiar ou um grupo de Facebook.

    São um grupo declaradamente qualificado e interessado, “mas não passa disso”.

    É aí que reside a analogia, na apatia e falta de ação, como se cada integrante do Fandom (ou assinante de um serviço) em alguma medida não acreditasse em si mesmo ou na diferença que pode fazer.

    A solução tecnológica a qual me refiro passa por divulgação implícita pela compra ou discussão acerca da obra, ou seja, publicidade baseada em detecção de interesse, que é uma funcionalidade pouco explorada e que, potencialmente, poderia fazer a diferença no que se refere a transformar qualificação do Fandom (ou assinante) em ação involuntária daquele conjunto de indivíduos.

    Para que isso seja possível algumas questões complexas precisam ser dirimidas – dentre elas a falta de popularidade (difícil de entender) de iniciativas sem custo para o usuário final.

    Um bom começo seria pensar para além do Fandom – no caso os Autores e Editoras – que teriam estes sim um papel importante na mudança do quadro se pudessem fazer a diferença que impulsionassem modelos baseados em gratuidade, sobretudo através de divulgação para a base de fãs.

    Há um obstáculo corporativo também, já que é preciso investir recursos em um novo modelo tecnológico que atenda melhor a publicidade baseada em detecção de interesse e que, por sua vez, impulsione as vendas digitais (e até em papel, o que se mostra consequência nos EUA e Europa).

    O Fandom existe, não há dúvida… o que não existe é o Fandom tão ativista quanto se deseja. E é isto que sugiro poder ser modificado através de tecnologia.

  5. Marcello Branco Says:

    Nos anos 80 achava-se que os sócios do CLFC seriam uma “massa crítica” a sustentar o mercado editorial de FC no país. Com centenas de sócios, se cada um comprasse dois ou trÊs livros de FC por ano teríamos, ainda que modestamente, um mercado promissor para o gênero. Até o lendário editor Gumercindo Rocha Dorea acreditou e recriou sua importante coleção iniciada nos anos 1960. O resultado? Os sócios não compravam, e muito menos liam, a maioria dos livros lançados pelo GRD e outras editoras. Em parte como efeito disso o mercado sofreu uma profunda retração nos anos 1990. Não estou afirmando que o fandom foi responsável por isso, mas sim que uma crença equivocada nele prejudicou, em parte, ao menos a manutenção do pouco que existia. Brasileiro não gosta de ler brasileiro. Isso é histórico, não é de hoje. Prefere ler e endeusar estrangeiros, algumas vezes com razão, muitas outras vezes de forma equivocada e acrítica. Nesse sentido, não há novidade na falta de leitura dos dias de hoje a livros de autores nacionais em comparação com as décadas anteriores.

    • Ivo Heinz Says:

      Discordo um pouco Marcello.

      1) No caso mais específico, a Aleph conseguiu um bom resultado com os livros de Star Trek, porque se apoiava na Frota Estelar Brasileira, fazia até os lançamentos de novos títulos durantes as Convenções; hoje eu vejo algum paralelo nisso com a turma Steampunk, um dos movimentos dentro do fandom que consegue aglutinar gente e tem coletâneas específicas.

      2) Acho que está um pouco pior do que no “nosso tempo”, pois antigamente FC estrangeira vendia bem, seja a Hemus com o Asimov, a Nova Fronteira com Clarke e Frank Herbert.
      Mas hoje não vejo ninguém falando do “Rei Rato” (China Miéville) ou “A Separação” (Jeff Vandermeer), e são autores bem cotados lá fora, mais recentes; mesmo “Nevasca” (Neal Stephenson) eu quase não vi nada.
      Falei com o Richard Diegues (Tarja) e as vendas foram bem fracas, então nem o BOM autor estrangeiro o brasileiro está lendo, concorda?

  6. apgrilo Says:

    Continuo a ver pessoas definindo o público/povo como entidade e achando que entendem o que eles querem.
    Véi, na boa, deixem isso de lado, ninguém sabe o que o povo quer, nem ele mesmo, pois o povo é formado por pessoas diferentes, com gostos distintos e que vierem de locais/classes sociais variados. Não existe a fórmula de um best-seller, então desencanem.
    Foquem no debate, que é importante para que se discuta o fato de que autores brasileiros não são tão discutidos quanto deveriam pelo Fandom.
    Minha opinião? Deveríamos focar não só em escrever boas histórias, mas sim em debatê-las e a promovê-las com maior frequência.
    Uma saída? Talvez criar um blog do Fandom que discuta a literatura especulativa brasileira, indexando todas as resenhas que o pessoal faz.

    • baccioly Says:

      Se quiserem ajuda tecnológica o aoLimiar foi criado para isso – e para mais que isso.

      Se a comunidade achar a iniciativa relevante e procedente, ofereço o aoLimiar como plataforma tecnológica.

      • apgrilo Says:

        Eu pensei em criar um site que indexe TODAS as críticas feitas pelo pessoal a QUALQUER livro de literatura especulativa brasileira. O que acham da ideia?

  7. baccioly Says:

    O problema maior de um indexador é que ele acaba provocando duplicação de conteúdo (passível de punição pelo Google nos resultados de busca) e a balcanização da comunidade.

    O mais indicado, tecnologicamente – a meu ver – seria uma rede social temática, dedicada especificamente ao assunto.

    Independente disso, é possível sim desenvolver um indexador.

    Vejam que ainda assim vai se tratar de uma ferramenta e ferramentas só funcionam bem quando utilizadas. Nossa experiência com o aoLimiar nos indica que o leitor usa pouco e que quem poderia promover tanto a rede social temática quanto sensibilizar leitores são os próprios autores e editoras (estas últimas se romperem a barreira que as impede de falar/conviver com outras editoras).

    É bom lembrar que, fosse eu bioquímico, talvez pensasse em uma solução envolvendo biotecnologia. Como sou analista de sistemas acho tecnologia um bom caminho… mas é preciso entender que a tecnologia só é um bom caminho se utilizado.

    • apgrilo Says:

      Que não seja então um indexador, com a devida autorização do crítico da obra, colemos a texto da crítica e coloca-se o link da resenha original.

      • baccioly Says:

        É um bom caminho, e não força o sujeito a aderir à rede social para publicar ali sua publicação, artigo ou ensaio.

        Não é sensacional em termos de Otimização de Sistemas de Busca, mas é sim uma solução razoável.

        A empresa aqui implementa isso e coloca no ar em menos de um mês, mas o que vai fazer a diferença é a divulgação do indexador.

        É o que eu comentei há pouco no Facebook: “Talvez o que falte seja o tal do entrosamento, essa coisa que não se compra em loja mas que acontece quando um grupo de pessoas realmente interessado se reúne com gente bem intencionada para benefício mútuo e combinem uma campanha boca-a-boca usando suas respectivas redes sociais e seus respectivos potenciais de comunicação.”

  8. Afonso Luiz Pereira Says:

    Achei interessante o que o Ivo Heinz comentou sobre André Vianco e o Eduardo Sporh. Os dois conseguiram, cada um dentro de seu gênero, visibilidade. Tanto assim que figuraram na lista da Veja por um bom tempo e, então, mesmo o assinante “Leitor de Literatura Geral” passa os olhos por lá, fica intrigado e, quem sabe, não arrisca a ler os tais caras. Todos gostam de estar por dentro de assuntos do momento e, alguns, acabam tomando gosto. Isso, sem falar nas matérias especiais no espaço cultural da própria revista Veja. Eles chamaram atenção e não são do Fandom, embora os gêneros Fantasia e Terror são tão discriminados, ou mais até, em termos de literatura de gênero quanto FC no âmbito de quem lê literatura geral. E aí não se discute se os livros dos dois têm qualidade literária ou não, o fato é que eles chegaram numa esfera de notoriedade que nenhum autor de FC até agora chegou. Então, seria o caso, de fato, de saber o porquê deste sucesso. Será que o fandom mais atrapalha do que contribui?

    A FC, apesar da efervescência do mercado das editoras emergentes, no que diz respeito a números significativos de publicação, ficou mesmo, ao que parece, apenas no número expressivo de opções sem a contrapartida da vendagem, certo? Pelos menos é parte da reclamação que gerou a discussão no Facebook. Quer dizer… se publicou muita coisa, mas não se vendeu o tanto esperado. Não ocorreu um blockbuster de FC parecido com o “A Batalha do Apocalipse” sequer para chamar a atenção do público leigo para o gênero. E o interessante é que a comunidade de FC parece ser maior do que as suas primas Fantasia e Terror, ou está enganado? E o Vianco emplacou os seus vampiros antes mesmo da onda dos “purpurinados” da Stephenie Meyers ganharem o mundo. Então, algo aí não tá batendo mesmo.

    Bom, então não seria o caso apenas de cativar o público leigo para o consumo de literatura de Ficção Científica, mas muito sim, bater cabeça pra motivar o próprio púbico especializado (fandon) consumir o que é de seu gosto. A FC precisa de blockbuster pra chamar a atenção da mídia e a galera do Fandon, se deixar as picuinhas de lado, como se diz aí, pode ajudar.

  9. Marcello Branco Says:

    Mais ou menos Ivo. O fato é que o que chamamos de fandom é uma comunidade diferente da dos anos 80 e 90. O fandom cresceu e se multiplicou. Não de forma homogênea, mas fragmentada e segmentada. Em certo sentido isso já existia antes, mas se aprofundou. E nem é necessariamente ruim, pois valoriza sub-grupos dentro do contexto geral. O ruim é que perdeu-se um certo sentido de integração e identidade, tornando tudo difuso e meio turvo. Em parte é por isso que há uma percepção de que muitos livros estão sendo lançados e poucos os estão lendo. Isso é verdade mas é um fato que, como observei antes, sempre existiu. A novidade é que por causa de uma quantidade enorme de lançamentos e pela grande segmentação, fica difícil acompanhar tudo. Mesmo porque os interesses estão segmentados. Afora isso há o outro fato tradicional de que muita gente ainda torce o nariz para autores brasileiros. Mas o principal é, talvez, que o autor e as editoras precisam parar de pensar no público do fandom como seu publico leitor potencial. O leitor que pertender ao fandom sustenta publicações restritas ao fandom. Ora, isso é outro fato consolidado, ou ao menos era. Quem quer seguir uma carreira de autor profissional e uma editora com fins comerciais precisa conquistar leitores fora do fandom. Deve buscar o leitor em geral e/ou aquele que gosta de FC&F, mas não está vinculado socialmente ao fandom. O fandom é menos uma comunidade literária per si e mais uma subcultura que, entre outras atividades culturais, lê, escreve e publica livros. Assim sendo, deve-se refletir porque os livros de FC publicados no Brasil – e são muitos nestes anos 2000! – não repercutem fora dos muros do fandom. Esse é o verdadeiro desafio a ser enfrentado.

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