O grito do sol sobre a cabeça – lido e comentado

Li os primeiros trabalhos de Brontops Baruq em várias edições do Projeto Portal capitaneado por Luis Braz. Foi aí que conheci a força desse contador de histórias. Causou-me tamanha boa impressão que o convidei para participar da coletânea Brinquedos Mortais. Considerei que não poderia abrir mão de um conto desse prosista surpreendente. Vê-lo lançar um livro não me causa admiração. Causaria se ele se demorasse com isso, se delongasse ou procrastinasse esse projeto.

Vale lembrar que Brontops Baruq foi o ganhador do prêmio Hydra com o conto História com desenho e diálogos, também incluído nessa coletânea.

O grito do sol sobre a cabeça reúne dezenove contos. Poderia comentá-los um a um, destacando os melhores, mas sinto que isso seria um desserviço. Não é caso para avaliações individuais — mesmo porque incorreria no risco de dar spoilers que estragariam a surpresa do leitor. Vou me ater ao conjunto da obra, discutindo-o como um corpo só, porque, apesar de multifacetado, há uma amalgama poderosa que os une numa só alma.

Brontops Baruq desfia um rosário de distopias. Mas não é um distópico ordinário, não. Ele foge à regra carregando-nos numa prosa elaborada, como engrenagens bem azeitadas, até quando não há mais escapatória. Só nos damos conta do fim quando não podemos mais escapar dele. A tessitura muito bem engendrada confere um raro prazer à leitura.

Na orelha do livro há o parecer de Caio Silveira Ramos e ele destaca a ferocidade do autor, o deslumbramento de sua obra, a perturbação e a sensação de estranhamento que provoca. Concordo. Mas quando sugere que Brontops não faz ficção científica senão de passagem apenas para corrompê-la, ignora o óbvio. A ficção científica é a alma da obra — embora desfilem também o insólito e o surreal. Destarte as metáforas, as referências, as críticas sociais — que existem em qualquer obra mais comprometida seja de que gênero for.

Brontops Baruq mostra que faz parte de uma escola onde qualidade de prosa e literatura de gênero convivem magnificamente bem. Demonstra que forma e conteúdo só melhoram, só engrandecem a literatura fantástica.

A sombra do sol sobre a cabeça

Editora: Terracota
Gênero: Contos fantásticos
Formato: 14 cm x 21 cm
Páginas: 166

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8 Respostas to “O grito do sol sobre a cabeça – lido e comentado”

  1. O grito do sol sobre a cabeça – lido e comentado | Ficção científica literária | Scoop.it Says:

    […] Li os primeiros trabalhos de Brontops Baruq em várias edições do Projeto Portal capitaneado por Luis Braz. Foi aí que conheci a força desse contador de histórias. Causou-me tamanha boa impressão que o convidei para participar da coletânea Brinquedos Mortais. Considerei que não poderia abrir mão de um conto desse prosista surpreendente. Vê-lo lançar um livro não me causa admiração.  […]

  2. Caio Silveira Ramos Says:

    Quem me dera perceber o óbvio de O grito do sol sobre a cabeça… Um parecer? Ah! Quem me dera… Sou simplesmente um daltônico e astigmático fazedor de orelhas. E ainda assim, óbvio, graças à generosidade do autor.
    Caio

  3. Caio Silveira Ramos Says:

    Minha resposta não é “magoenta”, muito pelo contrário: só quero mostrar que não se trata de um parecer formal, uma crítica literária, mas apenas um convite à leitura de “O grito…”. Não estou preocupado com a minha orelha, se ela está boa ou ruim, e nem se isso ou aquilo pega mal ou bem: só me interessa divulgar o livro do Brontops que é, sem trocadilhos, fantástico. Só para isso serve minha orelha, nada mais.

  4. O grito do sol sobre a cabeça – contos « Pausa para os nossos comerciais!!! Says:

    […] Resenha de Tibor Moricz – https://esooutroblogue.wordpress.com/2012/10/16/o-grito-do-sol-sobre-a-cabeca-lido-e-comentado/ […]

  5. O grito do sol sobre a cabeça – contos « Pausa para os nossos comerciais!!! Says:

    […] Resenha de Tibor Moricz – https://esooutroblogue.wordpress.com/2012/10/16/o-grito-do-sol-sobre-a-cabeca-lido-e-comentado/ […]

  6. Faces de Brontops Baruq em “O Grito do Sol Sobre a Cabeça” | Terracota Says:

    […] E o que Tibor Moricz achou, aqui. […]

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