Kaori, perfume de vampira – lido e comentado

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Li recentemente o livro Kaori e o Samurai sem braço. A experiência foi fascinante e o sense of wonder fez valer cada linha de leitura. Ao terminá-lo, vi que precisava corrigir um erro e ler as demais histórias da série para poder fazer um julgamento mais abrangente.

Descobri que devia ter lido primeiro este ao Kaori e o Samurai sem braço. Não são histórias complementares, independem um do outro, mas o sense of wonder do primeiro não se repetiu no “segundo”, ficando numa espécie de “meio do caminho”.

Se a ordem de leitura tivesse sido inversa, a fruição iria num crescendo, atingindo o nível máximo com o terceiro livro da série.

Mas isso não significa que Kaori, perfume de vampira seja ruim. Não é!

Giulia Moon conduz a história em dois arcos narrativos distintos. Um, no passado, época dos Xoguns. Outro, nos dias contemporâneos. Ambos os arcos se sustentam com competência e prendem a atenção do leitor de tal forma que se torna difícil abandonar a leitura.

Um dos arcos, porém, o que transcorre no passado, é mais fantástico, é mais fascinante. Foge do clichê, das conspirações cotidianas, da receita já bem mastigada e regurgitada dos cenários de ação dos thrillers contemporâneos que nos lembram um mash up — tudo junto e misturado — do mesmo e sempre mesmo, já tanto usado e abusado (que não acontecem na mesma medida na obra de Moon, mas que deixam entrever sua marca indelével mesmo sem serem tão exploradas).

Um detalhe que me chamou a atenção — nem dá pra dizer que é detalhe —, é que não existe uma história propriamente dita. Avançamos na leitura sem saber para que lado estamos indo, sem saber o que nos espera nas páginas seguintes. Não há um plot que nos faça antever cenários. Só nos é dado conta da trama quando já passamos por quase dois terços da história. Existem micro histórias, eventos aparentemente isolados que não dão mostra do que se oculta em suas entrelinhas.

Não sei dizer se isso é bom ou ruim.

A prosa de Giulia Moon é bastante boa para que deixemos isso de lado e avancemos na leitura, certos de que, em algum momento, as peças se encaixarão.

E elas se encaixam.

Os dois arcos narrativos se encontram e passam a correr numa só trilha. O Gran Finale finalmente se avizinha e temos a abertura do leque, onde os vilões se revelam e ocorre o esperado enfrentamento entre mocinhos e bandidos.

Particularmente, o final meio que me decepcionou. Não sei bem o que esperava, até posso admitir que Giulia Moon nos deu o melhor de si e concluiu a narrativa da maneira mais acertada, mas ficou um sabor indefinido que me roubou um pouco de satisfação.

A coisa funcionou da seguinte forma comigo: o arco narrativo que se passava na época do xogunato era, em termos de cenário e de ambientação — e também narrativamente —, muito melhor que o arco que se desenrolava nos dias atuais. Houve um desequilíbrio que prejudicou minha fruição plena. Quando a autora juntou tudo, trazendo os personagens do passado para o presente, senti como se ela traísse esses mesmos personagens e toda a aura fantástica que havia criado.

Mas essa visão é minha, bem particular. Certamente muitos discordarão dela.

Não há como negar que Giulia Moon é mestra. Não sei de ninguém — no cenário nacional — que a ombreie no gênero de terror. Os demais devem lê-la e aprender com ela.

Kaori, perfume de vampira é, em síntese, um livro bastante bom. Tropecei aqui e ali, considerei algumas escolhas equivocadas, alguns caminhos errôneos, mas a obra em si é plenamente recomendada.

***

Kaori, perfume de vampira – Giulia Moon

Editora: Giz Editorial
Gênero: Terror
Formato: 16 cm x 23 cm
Páginas: 371

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