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2010: O ano em que fizemos contato.

20/12/2010

Futuro virou passado e vivemos no mundo sonhado há 50 anos

Crônica de fim de ano de Jorge Luiz Calife para o Diário do Vale.

Dezembro chegou e dentro de algumas semanas, precisamente daqui a 14 dias, o ano de 2010, símbolo do futuro para uma geração, vai entrar para a história e virar passado. Em 1984 a MGM fez um filme imaginando o mundo de 2010 a partir de um romance de Arthur C. Clarke. Chamava-se “2010: O ano em que faremos contato” e acertou em algumas coisas e errou em outras. O tema do filme era o contato com uma nova forma de vida, diferente da nossa, o que, em parte, acabou acontecendo mesmo em 2010. A Nasa ainda está festejando a descoberta de uma bactéria, a GEFAJ-1 que redefiniu o conceito de vida no mês passado. Não foi encontrada no espaço e sim num lago da Califórnia mas é uma coisa tão alienígena quanto os europeanos do filme.

Eu nunca vou esquecer desse filme, porque marcou a minha estréia apoteótica na profissão de jornalista. Clarke dizia que tinha escrito 2010 por causa de um palpite que dei para ele numa correspondência, daí que a Metro me convidou para assistir ao filme, na cabine de imprensa lá na Cinelandia, no Rio de Janeiro. Flavio Pinheiro, que era o editor da revista Veja no Rio, me ligou na véspera e me convidou para escrever um comentário sobre o filme. Sairia num box, embaixo da crítica.

Daí que eu sentei ao lado do crítico de cinema da Veja, que trouxera a namorada para ver o filme com ele. A projeção começa e uns quinze minutos depois escuto um ruído estranho, que não fazia parte da trilha sonora do David Shire. Era o rapaz da Veja, dormindo entre eu e a namorada. Quando o filme acabou tomamos um taxi para a redação da Veja, que ficava ali em Botafogo e o sujeito começou a me fazer perguntas sobre o filme, que ele não vira. Ele nem ao menos se dera ao trabalho de ler o release e não sabia o nome do diretor. Quando chegamos a redação ele começou a pedir ao editor para deixar ele escrever sobre outro filme. E o Flavio insistia: “Não você foi ver o 2010, tem que escrever sobre o 2010”. E o cara desesperado me perguntando como era o nome do ator e do diretor.

E o editor acabou jogando no lixo a crítica dele, e colocando o meu comentário em uma página inteira da Veja. Eu tinha acabado de sair da faculdade de jornalismo, e aquela foi uma estréia e tanto. O fato é que uma boa parte do futuro sonhado por Stanley Kubrick e Arthur C.Clarke já virou realidade e as pessoas nem ligam. É o caso das videopranchetas que os astronautas de “2001” usam em uma sequencia do filme de 1968. Hoje elas existem e se chamam iPads. Os cockpits eletrônicos, cheios de telas de cristal líquido da nave espacial do filme estão presentes em qualquer Airbus desses de linha. E a estação espacial internacional orbita a Terra com uma tripulação de americanos, russos e japoneses, como imaginava a ficção.

Semana passada eu estava num ônibus, vindo de Pinheiral para Volta Redonda, que não é uma situação propícia para se pensar no futuro. Uma mocinha senta ao meu lado e tira da bolsa um telefone celular. Aperta uma tecla e a telinha de cristal exibe um calendário onde ela confere e marca datas importantes. Depois ela joga na tela sua agenda pessoal e em seguida manda uma mensagem para uma página do Twitter. E tudo isso com uma caixinha do tamanho daqueles comunicadores de Jornada nas Estrelas. Que nunca tiveram a metade das funções dos nossos telefones celulares. Neste dezembro de 2010 os emissários eletrônicos da humanidade já invadiram o espaço interestelar. Neste momento a sonda espacial Voyager 1 já cruzou a heliopausa, o ponto em que termina o nosso sistema solar e está viajando para as estrelas.

A bordo da Voyager há um disco de ouro com imagens e sons da Terra. Destinadas a serem ouvidos por alguma civilização inteligente que intercepte a nave em sua jornada pelas estrelas.

2010 já é passado, mas um futuro surpreendente se abre diante de nós. Enquanto termino esta crônica está chegando nas livrarias o meu novo romance de ficção científica, “Angela entre dois mundos” que imagina a vida no ano de 2400. Num mundo transformado por uma mudança climática global. Afinal, pensar em 2010 agora é pensar no passado. E se o futuro do passado já virou realidade, temos que pensar no futuro do futuro.

Essas duas fotos de cima mostram cenas do filme 2001, uma odisséia no espaço, onde aparece a Newspad, segundo a concepção de Arthur Clarke. É possível ver, apesar de borrado, o logotipo da IBM no canto inferior direito dos tablets.

Um cartaz publicitário do filme mostra astronautas e um deles observando um Newspad.


Pedro Moreno

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