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Dedicado à ficção científica, o selo Pulsar, da Devir, alcança a marca de 10 títulos.

27/01/2011

Com a publicação do romance Angela entre dois Mundos, de Jorge Luiz Calife, em dezembro de 2010, o selo Pulsar da Devir chega à marca de dez livros publicados. É um reforço substancial à publicação de ficção científica no Brasil, com títulos particularmente significativos, como os multipremiados romances de Orson Scott Card, O Jogo do Exterminador e Orador dos Mortos; o quarto livro de contos de André Carneiro, Confissões do Inexplicável, a mais volumosa coletânea de FC brasileira já editada; Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica, a primeira antologia retrospectiva da história do gênero no Brasil, e um sucesso de vendas; Tempo Fechado, do escritor cyberpunk Bruce Sterling, romance que antecipou as mudanças climáticas globais; Trilogia Padrões de Contato, de Jorge Luiz Calife, reunindo pela primeira vez três romances clássicos da FC brasileira em um único volume; Anjos, Mutantes e Dragões, o primeiro livro de contos do destacado autor brasileiro de FC e fantasia, Ivanir Calado; e o quarto romance de Calife, Angela entre dois Mundos.

Os Dez Títulos da Pulsar:

1. O Jogo do Exterminador (Ender’s Game), Orson Scott Card
2. Confissões do Inexplicável, André Carneiro
3. Orador dos Mortos (Speaker for the Dead), Orson Scott Card
4. Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica, Roberto de Sousa Causo, ed.
5. Tempo Fechado (Heavy Weather), Bruce Sterling
6. Trilogia Padrões de Contato, Jorge Luiz Calife
7. Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica: Fronteiras, Roberto de Sousa Causo, ed.
8. Xenocídio (Xenocide), Orson Scott Card
9. Anjos, Mutantes e Dragões, Ivanir Calado
10. Angela entre dois Mundos, Jorge Luiz Calife

Os títulos da Pulsar contam com traduções de especialistas em ficção científica como Carlos Angelo e Sylvio Monteiro Deutsch, e artes de capa de artistas talentosos como Vagner Vargas e Felipe Campos. Para o futuro imediato, a Pulsar promete manter o alto nível e a ousadia editorial que a tem caracterizado até aqui.

Alguns dos Próximos Lançamentos do selo Pulsar:

O Último Teorema (The Last Theorem), de Arthur C. Clarke & Frederik Pohl. Um complexo romance de primeiro contato com inteligências alienígenas e de política internacional, é o último livro escrito por Clarke, o grande mestre da ficção científica, morto em 2008.

Os Filhos da Mente (Children of the Mind), de Orson Scott Card. Romance que fecha o primeiro ciclo de aventuras de Ender Wiggin, iniciado com o multipremiado (Prêmios Hugo e Nebula) O Jogo do Exterminador (Ender’s Game), um best-seller com mais de dois milhões de exemplares vendidos no mundo.

The Windup Girl (ainda sem título em português), de Paolo Bacigalupi. O romance ganhador dos Prêmios Hugo, Nebula e Locus de 2009, é um dos mais premiados livros de estréia de um autor de ficção científica, comparável apenas a Neuromancer (1984), de William Gibson.

A Cidade e as Estrelas (The City and the Stars), de Arthur C. Clarke, marcará o retorno às livrarias brasileiras deste que é o principal romance da melhor fase do mestre inglês da ficção científica, um dos grandes nomes do gênero no século 20 e autor de 2001: Uma Odisséia no Espaço.

Assembléia Estelar: Histórias de Ficção Científica Política, organizada pelo jornalista e cientista político Marcello Simão Branco, é a primeira antologia internacional com esse tema montada no Brasil. Com histórias de André Carneiro, Ataíde Tartari, Bruce Sterling (EUA), Carlos Orsi, Daniel Fresnot, Fernando Bonassi, Flávio Medeiros, Henrique Flory, Luís Filipe Silva (Portugal), Miguel Carqueija, Orson Scott Card (EUA), Roberto de Sousa Causo, Roberval Barcellos e Ursula K. Le Guin (EUA).

As Melhores Novelas Brasileiras de Ficção Científica, antologia organizada por Roberto de Sousa Causo, com novelas e noveletas clássicas da ficção científica nacional: “Zanzalá” (1928), de Afonso Schmidt; “A Escuridão” (1963), de André Carneiro; “O 31.º Peregrino” (1993), de Rubens Teixeira Scavone; e “A nós o Vosso Reino” (1998), de Finisia Fideli.

Trilhas do Tempo, de Jorge Luiz Calife. O segundo livro de contos de Calife, autor da Trilogia Padrões de Contato, o grande clássico da ficção científica hard brasileira.

Conheça os autores que, nos dez títulos do selo Pulsar, alargam os limites de como enxergamos a ficção científica nacional e internacional:

Afonso Schmidt
Jorge Luiz Calife
André Carneiro
Jerônymo Monteiro
Berilo Neves
Leonardo Nahoum
Braulio Tavares
Levy Menezes
Bruce Sterling
Lima Barreto
Cid Fernandez
Lygia Fagundes Telles
Domingos Carvalho da Silva
Machado de Assis
Finisia Fideli
Marien Calixte
Gastão Cruls
Orson Scott Card
Ivan Carlos Regina
Ricardo Teixeira
Ivanir Calado
Rubens Teixeira Scavone
Roberto de Sousa Causo

(Agora, cá pra nós, queridos leitores, colocarem “e outros” na capa foi uma pisada de bola homérica!! Desprestígio total aos demais autores. E tenho dito.)

Devir publica Angela entre dois mundos.

18/12/2010

Título: Angela entre dois Mundos
Autor: Jorge Luiz Calife
Editora: Devir Livraria
Arte de capa: Vagner Vargas
Número de páginas: 214
Formato: 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-7532-452-3

Jorge Luiz Calife ascendeu ao mapa da ficção científica mundial com o agradecimento de Arthur C. Clarke às suas sugestões para a continuação de 2001: Uma Odisséia no Espaço, tornadas concretas com o romance 2010: Uma Odisséia no Espaço II:
“Agradeço ao Sr. Jorge Luiz Calife, do Rio de Janeiro, por uma carta que me fez pensar seriamente numa possível continuação [de 2001: Uma Odisséia no Espaço].”
Isso abriu as portas também para que ele fosse publicado no Brasil com os três romances da trilogia “Padrões de Contato”, composta de Padrões de Contato, Horizonte de Eventos e Linha Terminal, relançados pela Devir em um único volume em 2009.
Calife apresenta agora um novo romance deste universo ficcional: Angela entre dois Mundos. Escrito ainda antes da trilogia original, o livro nos apresenta o começo da saga humana que se expandirá galáxia afora, conduzida pela superinteligência da Tríade, e a partir da perspectiva da bela e imortal Angela Duncan, a escolhida para nos servir de guia por uma jornada rumo ao desconhecido. É uma aventura de ficção científica hard vibrante e movimentada que pode ser lida por si mesma, de forma independente.
Nascida e criada nas luas geladas de Saturno, a jovem Angela visita a Terra do século XXV e encontra um mundo alterado pela mudança climática global, onde uma nova geração de humanos vive nas nuvens, nas conchas cibernéticas de suas residências aéreas, e uma inteligência galáctica misteriosa tenta mudar o destino dos humanos. É o planeta da corporação Norland, a empresa multiplanetária que tenta mudar a face do firmamento, com a criação de novos lares para os humanos através da engenharia planetária, num processo conhecido como terraformação, que já criou um novo mundo na Lua. Ao mesmo tempo, Angela conhece o amor e tem de lidar com o drama do aparente desaparecimento da mãe em uma missão nas profundezas do espaço, que levará a jovem à espiral fluorescente da galáxia Colar de Jóias, onde conhecerá parte do mistério sobre suas origens.

Repercussão:

“Um brasileiro imaginativo, bem informado e irreverente, capaz de lidar com a ficção científica tão bem quanto os melhores autores estrangeiros do gênero.”

— Miriam Paglia Costa, Veja.

“[A Trilogia Padrões de Contato] é um marco da sci fi brasileira e precursora do gênero new space opera.”
— Arnaldo Bloch, O Globo.

“Um dos méritos deste novo romance é que ele não se limita a reconstituir os eventos que precederam a Trilogia Padrões de Contato. Longe de uma perspectiva puramente romanesca, Jorge Luiz Calife amplifica aqui sua visão de uma galáxia dedicada a se tornar o crisol de múltiplas civilizações, ao mesmo tempo em que a relaciona aos problemas de nosso tempo. Angela entre dois Mundos implicitamente faz parte de uma história do futuro comparável àquelas de Robert Heinlein, Poul Anderson ou Olaf Stapledon. (…) No âmbito da ficção científica brasileira, é um dos raros autores capazes de apaixonar seus leitores conjugando ciência e filosofia.”
— Jean-Pierre Moumon, editor de Jorge Luiz Calife na revista francesa Antarès.

“Fiel à ficção científica hard de Arthur C. Clarke, Calife brinda o leitor de Angela Entre Dois Mundos com a narrativa da adolescência e do início da idade adulta de Angela Duncan, protagonista da Trilogia Padrões de Contato. Quem curtiu os enredos, tramas e ambientes futuristas da trilogia, vai querer saber o que fez a jovem Angela pré-Tríade se tornar quem é.”
— Gerson Lodi-Ribeiro, autor de Taikodom: Crônicas e Xochiquetzal.

Escrever ficção científica exige de um autor mais que facilidade de escrita. Neste caso é preciso criatividade, tanto na criação de personagens quanto desenvolvimento de diálogos, além de boa formação cultural. Jorge Luiz Calife dispõe de tudo isso… Num estilo refinado, com inegável influência de Arthur C. Clarke… Calife tem tudo para se transformar no grande autor desse gênero no Brasil. Seu conhecimento de ciência, como um dos principais autores de divulgação, dá a ele credenciais mais que suficientes…”
— Ulisses Capozzoli, editor da Scientific American Brasil.

“Se o relançamento da trilogia em 2009 tornou possível a reavaliação histórica e a importância surpreendentemente atual da obra neste início de século XXI, Angela entre dois Mundos nos ajuda a compreender melhor as motivações iniciais de Calife para a criação do universo ficcional mais elaborado e significativo da história recente de nossa FC. Coloca em primeiro plano, a gestação das primeiras ideias, através da figura bela e precoce de Angela Duncan, uma das personagens mais marcantes da ficção científica brasileira.”
— Marcello Simão Branco, co-autor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica.

De Bar em Bar entrevista Jorge Luis Calife.

25/03/2010

Caminhei pelo corredor tomando o maior cuidado em não tropeçar em velhas quinquilharias largadas pelo caminho. Tomava especial cuidado com alguns alienígenas caídos no chão. Pernas e braços estendidos. Alguns com a garganta cortada. Outros plenamente bêbados, ainda balbuciantes, contorcidos e entrelaçados em várias pernas e braços, alguns indistinguíveis dos outros.

As paredes circundantes eram circulares e deviam possuir cerca de quatro metros de diâmetro. Abriam-se, aqui e ali, corredores que levavam a lugares desconhecidos e cuja extensão era difícil calcular devido à obscuridade em que mergulhavam após poucos metros.

Alguns olhares inamistosos me acompanhavam, vindos de seres ainda não completamente entorpecidos. Havia vários deles, de todas as espécies, de todas as raças e conformações físicas.

Depois de uma dezena de metros me desviando de obstáculos me deparei com uma porta estanque. Fechada hermeticamente. Analisei-a tentando adivinhar como a faria se abrir, quando, num átimo, ela zuniu e se desgarrou da parede metálica, deslizando ruidosamente até ficar completamente aberta. Do outro lado, dois aliens com cerca de dois metros de altura amparavam-se, trôpegos, tentando sair.

Dei-lhes passagem.

Adiantei-me e a porta se fechou noutro zumbido metálico, cravando-se na parede de tal forma que me parecia estar escavando-a pouco a pouco. Estava uma balbúrdia. Mesas de plexiglas, balcão circular de onde alguns garçons deslizavam carregando garrafas multicores. Aliens trotavam indo e vindo, alguns altercavam, outros trocavam insultos, um ostentava abertamente uma espada longa, de lâmina estreita e aparentemente afiadíssima. Agitava-a nervosamente, pronto a decepar membros de quem ousasse enfrentá-lo.

Chamou-me atenção a extremidade oposta daquele amplo salão. Não havia paredes, mas uma abertura larga de onde se podia ver a imensidão do espaço. Sentado com um copo diante de si, completamente alheio a qualquer distúrbio, estava Jorge Luis Calife. Mergulhado no ato de contemplação. Aproximei-me driblando alguns contendores e me sentei diante dele, igualmente fascinado pela paisagem.

Além de uma miríade de sóis distantes, um mais próximo deixava uma cauda atrás de si como se fosse um cometa. Próximo dele um buraco negro o sugava com todas as forças, drenando sua energia com voracidade.

— Não é incrível? – balbuciou Calife, sem tirar os olhos da cena.

— Sim – respondi.

—Gostei. Amei. Lugar melhor não poderia existir para essa entrevista – disse, virando-se para mim e bebendo um pouco do que tinha no copo.

— Onde estamos? – perguntei.

— Numa velha estação orbital. Quando atingiu seu tempo de vida útil, consideraram-na como sucata e a atiraram ao espaço. Ficou vagando sem rumo até ser encontrada por piratas espaciais. Tomaram-na e fizeram alguns reparos necessários. Acabou transformada num grande depósito de carga roubada e contrabando. Ah, e fizeram esse bar. Um bom bar. Frequência estranha, mas com uma vista maravilhosa.

— tempo de vida ainda mais curto, presumo – eu disse apontando com o queixo para o buraco negro adiante.

— Ela gravita o buraco, bastante próxima do horizonte de eventos. É um lugar difícil de abordar e nem todos tem coragem para isso. Dessa forma, trata-se de um reduto pirata quase inexpugnável. Mas um dia… Mergulhará. E com quem estiver por aqui.

Um garçom solícito deixou na mesa um copo. Não havia pedido nada, nem pretendia tomar nada. Mas um olhar de Calife me bastou para entender que deveria aceitar sem questionamentos.

— Cerveja nictiana. Um composto de ingredientes que você certamente não vai querer conhecer. Mas tem um sabor muito agradável e teor alcoólico de 60%.

Observei o líquido borbulhante e a cor levemente acanelada. Experimentei um pequeno gole e senti, além do álcool que me fez arder as papilas, um suave sabor de framboesa. Meus olhos avermelharam quase instantaneamente, coisa que fez Calife soltar um sorriso divertido.

— É esse o famoso relógio quântico? – ele me perguntou, olhando para o mecanismo em meu braço.

— Ele mesmo – respondi, levando instintivamente a mão até ele.

— trouxe-nos para um cenário que conheço como a palma das minhas mãos.

— melhor assim – respondi –, nos dá a impressão de que alguém está no controle da situação.

— Quais as perguntas? Essa cerveja tem o excepcional dom de tornar bêbado o mais resistente. Se demorarmos muito, logo não teremos condição nem de nos levantarmos.

— Seu trabalho é elogiado, mas existem críticos – não poucos – que o acusam de se acomodar nas eternas aventuras de suas heroínas, quando poderia diversificar suas abordagens e temas. O que você pensa a respeito?

Mais um gole, mais uma olhada longa para o espetáculo oferecido pelo buraco negro e Calife suspirou.

— Olha, o único livro que eu queria escrever se chama “Ângela entre dois mundos” que ainda não foi publicado. Os outros surgiram como consequência desse, para cumprir contratos com editoras. Quanto a explorar outros temas, já fiz isso num monte de contos, que estão saindo nessa coleção “Os melhores da FC” organizada pelo Causo. Quem quiser é só conferir lá.

Gritos irromperam atrás de nós. Alguém sacou uma arma, houve ameaças e apenas um disparo. Um corpo caiu pesadamente no chão. O autor do tiro foi até ele e o chutou um par de vezes. Depois voltou a se sentar. Guardou a arma displicentemente num coldre puído e silenciou, mergulhado numa bebida qualquer que não a cerveja nictiana.

— Como está sendo a recepção da Trilogia Padrões de Contato no mercado? Qual a perspectiva de lançamento de Ângela? – perguntei quando a voz me voltou.

— Eu fui contra a republicação de Padrões de Contato. O público para esse tipo de livro é tão pequeno que eu preferia investir tudo no livro inédito. Mas o Causo, que organiza as edições pela Devir, insistiu que tinha que republicar Padrões, que o livro inédito só depois dele. Resultado: já vai fazer um ano que saiu o livro e até agora me rendeu um salário mínimo de direito autoral. Pra ter esse resultado pífio eu preferia ter feito só o Ângela entre dois mundos. Agora vamos ver, se o Ângela sair esse ano terá valido a pena. As coisas seriam muito melhores se os editores ouvissem a opinião dos autores.

— Calife é mais conhecido por ter sido o inspirador de Arthur Clarke, ou pela sua produção literária? Como a relação com Clarke o ajudou como escritor?

Bem que ele tentou responder, mas um sujeito embriagado se sentou na mesma mesa em que estávamos. Olhou-nos com desprezo e soltou a língua, fazendo-a vibrar entre os lábios. Depois apontou o dedo para mim e fez sinal para que me erguesse. Não entendi nada. O Calife, na maior sem cerimônia, levantou-se e aplicou vigoroso sopapo no cara. Ele rodou na cadeira em que estava e tombou inerme. O evento provocou meio segundo de silêncio no bar e depois o vozerio voltou ao normal.

— Um cotleriano. São brigões por natureza – disse-me o Calife.

— O que ele queria comigo? – perguntei, preocupado.

— Com você, nada. O desafio era para mim. Ele só queria que você caísse fora. Olha, Tibor, as coisas aqui são resolvidas na porrada ou coisa pior, como deve ter notado. Então, se alguém se aproximar de você e você sentir que existem segundas intenções, parta para o ataque sem titubear. Leva a melhor quem for mais rápido.

— Vou tentar me lembrar disso – murmurei.

— Acho que ainda sou o cara que inspirou o Clarke a escrever 2010. Independente da amizade, eu acho que aprendi a escrever FC lendo os livros do Clarke. Acabei entendendo mais do universo dele do que ele mesmo. Quando saiu 2010 eu percebi que ele tinha cometido um erro na descrição da nave Discovery. Eu conheço aquela nave como a palma da minha mão. Falei com ele e o Clarke mandou uma mensagem urgente para o Peter Hyams, que tava fazendo o filme em Hollywood, dizendo que o Calife tinha achado um erro na cena da abordagem da nave. O Hyams corrigiu no filme. Essa correspondência dele com o diretor, me citando, saiu no livro The Odyssey File da Ballantine Books. Uma coisa eu garanto, se eu estivesse lá o Bowman tinha desarmado o anel cognitivo que tornou o Hal psicótico com meia dúzia de palavras. E o Frank não teria morrido.

Por alguns instantes fizemos silêncio. Não que nosso silêncio fosse fazer alguma diferença na balbúrdia do salão. Olhamos para fora, através do que parecia ser vidro, mas não era. O Calife pareceu captar minha curiosidade e aproximou o dedo do vão, fazendo surgir várias ondas concêntricas que iam se alargando levemente até desaparecer.

— Energia pura. Trata-se de um escudo energético. Parece melífluo, capaz de ser vencido com um pouco mais de força. Mas nem um disparo de uma arma de pulsos quânticos seria capaz de abrir um buraco nessa armadura. Por outro lado, se desfaz com uma rapidez impressionante assim que a moldura metálica que a contorna é destruída. Paradoxal, não é mesmo? Para quê um escudo de energia tão poderoso se a estrutura metálica dessa estação é tão frágil quando uma casca de ovo?

— Para quê manter um centro logístico como esse, armazenando muamba e butins, se o fim está tão próximo? – perguntei, reforçando o questionamento do Calife e me referindo, obviamente, ao buraco negro.

— Questões… Questões…

— Como você enxerga o mercado literário nacional atualmente. Como encara o fandom?

— As pessoas ficam falando que a FC brasileira é invisível; na verdade toda a literatura brasileira é invisível. As pessoas só leem livro de religião e autoajuda. Até os livros de FC estrangeiros só são publicados se virarem filmes. Eu traduzi o Eu Robô do Asimov para a Ediouro, a toque de caixa, porque fizeram um filme que só usava o título do livro do Asimov. A cultura brasileira atual é audiovisual. Se não virar filme ou game, o livro é ignorado. O fandom é que mantém a FC viva no Brasil. Se não fossem os fanzines, as convenções e reuniões, tudo seria esquecido. Eles prestam um trabalho inestimável.

— Voltando à primeira pergunta, Calife, nessas duas coletâneas recentes – os melhores contos brasileiros da ficção científica –, seus trabalhos são atuais? Porque as críticas que fazem a você não são quanto a sua produção anterior, mas quanto a atual. Dizem que você só escreve histórias com Ângela Duncan e outras beldades e desistiu de se aventurar por outras veredas, trazendo narrativas novas e surpreendentes aos leitores. Reclamam da sua passividade em se estabelecer num argumento só e não experimentar outras vertentes.

O Calife franziu o cenho. Apertou os olhos, olhando para mim com irritação. Pegou o copo ainda meio cheio, bebeu o restante da cerveja nictiana num gole só, se levantou sem tirar os olhos de mim e, num gesto rápido e inesperado, atirou o copo sobre a minha cabeça. Ela se estilhaçou na cara do sujeito armado que vinha assomando sobre mim, numa tentativa de ataque prontamente rechaçada.

Então o tempo fechou. O céu desabou, as paredes se estreitaram, os ânimos se exaltaram e tudo aconteceu numa sucessão tão rápida que mal posso descrever o que aconteceu.

Fui agarrado pelos ombros e jogado alguns metros distante. Caí sobre uma mesa que, embora firmemente atarraxada ao solo, quebrou uma das pernas e pendeu, me deixando tombar no chão sujo e gorduroso. Aliens pegajosos se atracaram em luta furiosa. Levantei-me sob uma saraivada de golpes, todos desferidos contra mim e contra todos que estivessem mais próximos. Vi o Calife girar um baixinho de duas cabeças sobre os ombros e arremessá-lo contra um grandão de uma cabeça só, mas com quatro braços tão grossos que pareciam troncos de uma sequoia. Peguei uma garrafa azul piscina e a brandi agitado de um lado ao outro. Ela arrebentou nas fuças de um dos garçons que tentava recolhê-la, como se fosse peça sagrada e preciosa. Fui atingido nas costas, na nuca e nos quadris. Chutes ou socos, não dava para ter certeza. Desferi um cruzado e quase quebrei a mão numa couraça óssea que fazia as vezes de cabeça num sujeitinho escroto que blasfemava e ria ao mesmo tempo em que socava sistematicamente o peito de outro cotleriano.

A briga teria durado muito mais se não fosse a súbita aparição de uma mulher lindíssima, com um corpo escultural. Golpes precisos de uma artista nata em artes marciais e logo estavam todos por terra, estatelados. Menos eu e o Calife que ostentávamos algumas equimoses, roupas rotas e expressões apalermadas.

A mulher se aproximou de mim e passou a mão delicadamente pelo meu rosto.

— É um homem interessante. Mas não é a você que estamos em busca, agora. Quem sabe em outra ocasião.

— Ângela – balbuciou Calife, tentando se aprumar.

— Querido – respondeu ela, apertando-o num abraço mais que afetuoso – saiamos daqui. Vamos lançar essa carcaça no buraco negro e é melhor estar longe.

O Calife se virou para mim. Uma expressão vívida de satisfação e orgulho.

— Não preciso do seu relógio para me mandar. Ângela Duncan vai cuidar de mim de agora em diante.

Vi-os saindo. Um pouco antes da porta se fechar, ele se virou para mim e deu a última resposta.

— Os dois contos que saíram em Os melhores contos brasileiros da ficção científica são, um da década de 1980 e outro da de 1990. Já o da antologia Gastronomia Fantástica foi escrito há três anos e o da Imaginários escrevi em 2008. Eu tenho a série de noveletas Os filhos de Medeia sobre a colonização de um planeta por bebês de proveta criados por robôs, que continua inédita assim como outras histórias. Tenho uma história sobre um ataque terrorista num Brasil do futuro que o Marcello Branco rejeitou para uma coletânea atual da Editora Devir. Pediu para que fosse melhorada. Um dia, quem sabe. Portanto, não me encham o saco com esse tipo de cobrança. Eu escrevo o que eu imagino; quem não gostar que leia o Causo, você, o Gerson, o Braulio. Há tantos autores disponíveis, porque eu tenho que escrever pra todos os gostos? Se ainda ganhasse bem pra isso, oras!

Então, depois do desabafo, voltou a sorrir. Ângela Duncan o abraçou pela cintura, carregando-o consigo. Ainda pude ouvi-la prometer que “trataria” bem dele.

Só, tendo um cenário de destruição ao meu redor e imaginando que em breve a estação orbital estaria mergulhando definitivamente dentro do buraco negro, apertei o botão de meu relógio quântico. Fui curar minhas feridas em casa.

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