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Saint-Clair Stockler fala de Dias estranhos.

25/01/2010

Conheço-o desde 2007. Desde então sei de Dias estranhos, o livro que escreveu e que ansiava publicar um dia, se tivesse sorte. Bem, ela chegou. Mas a sorte não faria nada sozinha se não tivesse em mãos uma antologia fantástica de indiscutível qualidade e um autor consciente disso.

Dias estranhos recebeu uma ótima resenha do jornal O Globo, caderno Prosa & Verso, no dia 15 de setembro de 2007. Isso não é para qualquer um. Será publicado esse ano pela Editora Draco. Clique na imagem para ler.

Saint-Clair:

“Dias estranhos é um livro de contos escritos num período de 13 anos. É isso mesmo: levei quase uma década e meia pra formar o livro. Sou devagar, porque não escrevo todos os dias. Escrevo apenas quando sinto vontade, quando acho que tenho uma boa idéia, nem que seja apenas uma imagem (que depois terá de ser trabalhada até surgir uma história). No entanto, agora com o livro “fechado”, olho e me surpreendo que apesar das várias técnicas que empreguei na feitura dos contos (e foram muitas), o livro tenha unidade, seja coeso e não um amontoado de coisas soltas sem equilíbrio, juntadas às pressas só pra fazer volume.

Só escrevo quando sinto uma força que não pode ser contrariada me forçando a escrever. Eu sou assim. Também fico “polindo” muito: troco palavras de lugar, reconstruo frases, corto ou acrescento adjetivos, advérbios, verbos. Gosto de pensar em mim como um artesão da palavra. Cada vez que releio um texto meu descubro coisas a mudar, a cortar, a acrescentar. É uma luta incessante, é como ser Sísifo. Escrevo porque gosto, porque a literatura representou pra mim uma via de escape de uma infância terrível; lendo, esquecia da minha realidade mas acabava – sem saber – aprendendo cada vez mais sobre mim e sobre tudo que me cercava. Um paradoxo, eu sei: fugindo, me encontrava. Mas a literatura é assim. Escrevo também porque produzir uma obra de arte é uma tentativa de parar o tempo, ou de tentar amenizar a sua força terrível. A gente morre, a obra – se dermos sorte – fica. É a única forma de imortalidade em que acredito.

A maior parte dos contos pertence ao gênero fantástico porque isso reflete a minha visão do mundo. Pra mim o mundo é cheio de coisas estranhas, de pessoas estranhas, de acontecimentos estranhos. Refuto com veemência a corrente “realista” da literatura brasileira. Mesmo quando algum conto meu não tem nada de exatamente fantástico, o fantástico está presente no viés com que o narrador mostra eventos e pessoas. Nesse sentido, sinto-me mais próximo dos homens e mulheres da Idade Média do que dos meus contemporâneos. Naquele período as pessoas viviam imersas na dimensão maravilhosa das coisas. O mundo era um mistério (reforçado, entre outros, por instrumentos como a Igreja), e podia ser belo embora frequentemente fosse terrível. Mas o mundo era, repito, um mistério a ser gozado e não uma equação a ser resolvida. Desde então o mundo se empobreceu muito. Acho que perdemos muito, nós sobreviventes dos séculos XX e XXI.

Sou essencialmente um contista, porque a forma curta me agrada demais. Posso, num livro, contar 20 histórias diferentes, ao passo que se fosse um romancista teria um livro de 300 páginas contando apenas uma única história. E mais: sou um contista barroco. O que quero dizer com isso? Só lendo um dos meus contos você entenderá. Nunca achei que a menor distância entre dois pontos fosse a linha reta. Mas sou, principalmente, um contista que acredita que um conto tem de ter uma história e não meramente ser um exercício de estilo. Perguntei a Elvira Vigna – que, além de ser minha amiga, é para mim um dos maiores escritores que o Brasil tem -, depois que ela leu os contos que formariam o Dias estranhos, se havia gostado. Elvira ficou um tempo calada e respondeu, naquele seu jeito direto, sem enfeites: “Gosto dos seus contos”. E depois acrescentou: “Você me lembra um buldogue. Você anda com o osso na boca pra cima e pra baixo, mas nunca o larga. Você nunca solta o osso”. O “osso” a que ela se referia era o enredo. Meus enredos nunca são lineares, mas também não há pontas soltas. No final tudo se encaixa.

Estou com 37 anos e esse é o meu primeiro livro. Tem gente que com 18 já publicou. Eu achava que não ia publicar nunca um livro só meu. Tem centenas de garotos e garotas com vários livros publicados e eu quase na meia-idade e nada. Mas não me incomodo. Me incomodaria mais se tivesse a certeza de que árvores estariam sendo abatidas para a publicação de um livro de merda. Não é o caso, apesar de ser suspeito em afirmá-lo. Não perderei noites de sono pensando nas pobres árvores que viraram Dias estranhos, porque tenho a certeza de que estou oferecendo um livro honesto e bem escrito aos leitores que vierem a se interessar por ele. Sou grato ao Espírito das árvores, e sei que ele não se sentirá ofendido comigo, mas tenho muita pena de gente como o José Sarney, a Zíbia Gasparetto ou a Fernanda Young.  É um livro belo, também. Erick Santos, o editor da Draco, me disse: “Seus contos são muito tristes”. Não sei bem se é tristeza, mas com certeza há um certo amargor, misturado com humor negro e com ironia. Eu olho o ser humano e não tenho ilusões quanto ao que nós somos. Nós somos muito ruins, não prestamos, somos mentirosos, mesquinhos, falsos, nos vendemos facilmente por 30 moedas – e mostro isso nos meus contos. Minha cunhada leu alguns deles e comentou chocada com o meu irmão: “Ele é um pervertido”. Não sei se há tristeza, mas sei que há certa beleza neles. Um dos segredos da vida é esse: há beleza em tudo o que existe, até mesmo nas coisas feias.

Uma nova antologia vem aí!

25/09/2009

Eu, Saint-Clair Stockler e Eric Novello nos unimos em torno de uma idéia.

Um dia chamou-se “Projeto 20”. Pretendia, por obviedade, reunir vinte autores de literatura fantástica numa antologia lusófona. Convites foram feitos. Muitos aceitos. Poucos recusados.

O tempo passou e os trabalhos de organização eram constantes. Mas a editora, até aquele momento comparte, fechou as portas a esse projeto. Meio que boiando em mar revolto, ficamos ao sabor das ondas, no aguardo de uma calmaria.

Nesse ínterim, alguns autores pularam fora. Imaginaram que a água que viam era sinal de naufrágio.

Mal se davam conta de que era a piscina que estávamos enchendo.

A tempestade foi embora, as águas pararam de se agitar e o que era “Projeto 20” ganhou novas feições, mais vigorosas, mais encorpadas. Recebeu novo nome. Ganhou novos e renomados autores, encontrou uma editora parceira e, finalmente, virá ao mercado em dois volumes finamente trabalhados num dedicado esforço editorial.

Os escritores assinaram contratos e receberão direitos autorais. Exatamente como deve ser.

Obrigado a todos os que permaneceram neste barco, agüentando o tranco durante a tormenta e aos demais que atenderam ao chamado, integrando este coletivo. São vocês que farão o nosso sucesso.

Gerson Lodi-Ribeiro, Giulia Moon, Jorge Luiz Calife, Ana Lúcia Merege, Carlos Orsi, Flávio Medeiros, Roberto de Sousa Causo, Osíris Reis, Martha Argel, Davi M. Gonzales, Richard Diegues, João Barreiros (Portugal), Saint-Clair Stockler, Jorge Candeias (Portugal), Alexandre Heredia, Eric Novello, Sacha Ramos (Portugal), Luís Filipe Silva (Portugal), Tibor Moricz, André Carneiro.

Braulio Tavares estava conosco até os últimos momentos. Infelizmente, foi vencido por um sótão. Mas não faltarão outras oportunidades.

Aguardem! Nos próximos dias revelaremos o nome dessa antologia, a editora e as capas.

Pulp Ficcion a Portuguesa

23/07/2009

Depois de vários meses de espera, após adiamentos variados, saiu, segunda-feira passada (dia 13) a primeira lista de contos aprovados para a antologia Pulp Ficcion a Portuguesa.

Organizada pela Editora Saída de Emergência, essa extenuante seleção galardoou, numa primeira etapa, vinte contos de onde sairão os dez que comporão essa antologia.

O conto Mundo Fatal, escrito em parceria entre eu e Jorge Luis Calife, foi selecionado. Isso ainda não é definitivo, mas termos sido escolhidos entre dezenas de outros, muitos bastante gabaritados, e estarmos perto de publicar em Portugal (pra mim isto será novidade), já nos dá muita alegria (embora não nos satisfaça completamente… rs).

Os dez contos escolhidos serão anunciados, provavelmente, no próximo dia 27, no site Efeitos Secundários, capitaneado pelo Luis Filipe Silva. Até lá não resta muita coisa a fazer senão cruzar os dedos e torcer.


Pedro Moreno

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