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Já saíram as primeiras provas de O Peregrino.

04/03/2011

Saíram ontem a noite as primeiras imagens das provas de O Peregrino. Fico muito satisfeito em ver o meu bebê prestes a vir ao mundo. É uma emoção sempre intensa, mesmo quando já publicamos outros livros.

O Peregrino é, com certeza, o livro mais bem trabalhado até agora, sem os problemas de revisão do primeiro (Síndrome de Cérbero – 2007), sem os problemas (depois corrigidos, mas aí a imagem já tinha ido pro beleléu) de desmantelamento (sou conhecido como o autor de Fome, o livro que veio em fascículos) do segundo (Fome – 2008).

Trata-se de uma obra feita com capricho nos mínimos detalhes, da trama ao acabamento e editoração.

Já se encontra em pré-venda e pode ser encomendado nas livrarias virtuais. E logo, poderá ser encontrado numa livraria perto da sua casa.

Visitem o link abaixo e vejam outras imagens de O Peregrino além de provas e impressões de outros livros da Editora Draco, como O Baronato de Shoah de José Roberto Vieira, O castelo das águias de Ana Lúcia Merege e Crônicas de Atlântida, o tabuleiro dos deuses de Antonio Luiz M. C. Costa.

https://picasaweb.google.com/ericksama/MesaDoEditor03032911#

De Bar em Bar entrevista Antonio Luiz Costa

29/04/2010

Das vezes anteriores a transferência sempre se mostrou suave, quase imperceptível. Dessa vez me senti sendo arrastado por um longo corredor, escuro e frio. Foi uma experiência assombrosa. Quando dei por mim, estava de joelhos, ombros levemente recurvados, como se tivesse um fardo nas costas.

Ergui pouco a pouco a cabeça, tentando abarcar o local.

Fiquei uns segundos desnorteado, olhar voltado para cima, absorto na arquitetura estonteante do prédio. Teto abobadado, sustentado por colunas grossas.

Observei, boquiaberto, a estrutura gigantesca e admirável que me cercava. Vitrais e rosáceas belíssimas. À frente, a nave central se estendia por muitos metros, entremeada por compridos bancos de madeira com genuflexórios. Naves laterais exibiam imagens de santos católicos, grandes esculturas esculpidas com esmero. Ao final da nave central um grande, enorme, portal de madeira esculpida, trabalho rústico de incrível precisão. Nas paredes, nichos exibiam pequenas estatuetas. Entalhes rigorosos recortavam a pedra mostrando detalhes angelicais. A visão era incrível.

Estava numa igreja, disso não tinha a menor dúvida. E não estava só.

Sentado mais à frente, encolhido atrás do púlpito, pernas recolhidas, agarrado a uma bíblia de capa dura e letras douradas, estava o Antonio. Olhava para mim com um misto de alívio e preocupação. Gotas de suor porejavam sua fronte. Nunca o imaginei religioso. E disse isso.

— E não sou – respondeu-me ele, olhando para o livro grosso com algum desconforto – mas, pelo sim, pelo não.

Aproximei-me dele ainda de joelhos. Observava ao redor com atenção. Várias outras entrevistas já tinham me preparado para esperar sempre o pior. Ver o Antonio encolhido, cara de assustado e agarrado a uma Bíblia era no mínimo preocupante.

— Está acontecendo alguma coisa? – perguntei, certo de que a resposta seria afirmativa.

— Coisas estranhas, desde que cheguei. Eventos… Não saberia descrevê-los à luz da razão.

— Não é um bar – constatei – uma igreja. Bela. Creio que barroco mineiro.

Antonio olhou para mim com um franzir de cenho. Fez um esgar de desaprovação e, abanando a cabeça, negou minha avaliação.

— Esta, não. Esta é gótica. Gótica! Veja os detalhes. Veja a arquitetura. Veja as rosáceas e as pilastras. Veja a abóbada. Veja os ricos entalhes na pedra.

Pela primeira vez desde que chegara, vi o Antonio recuperar alguma cor. Apesar disso, não largava a Bíblia.

— Que eventos estranhos são esses que você mencionou?

— Coisas a Stephen King. Improbabilidades. Alucinações. Cansaço mental, esgotamento intelectual. Coisas… Estranhas. Ruídos, vozes, risadas, lamúrias, estalos.

— Igreja antiga. Estes lugares costumam pregar peças. O vento, talvez.

Ele se agarrou mais à Bíblia, negando veementemente com a cabeça.

— Improbabilidades. Prefiro essa definição. Parece-me mais… Racional, embora esteja bastante longe de qualquer demonstração de bom senso crer nisso.

— Tenho algumas perguntas. Se não se incomodar, poderemos começar.

— Claro. Para que isso acabe logo.

— Quando se fala em crítica literária dentro da literatura de gênero, logo se pensa em você. Mas como você lida com a crítica que é feita aos seus critérios e aos seus trabalhos?

Antonio olhou ao redor, atento, antes de responder.

— Quando a crítica ao meu trabalho é num contexto de comunidade de literatura ou grupo de discussão, quero discutir os critérios – suponho que essa é a função desses fóruns. Mas fora disso, tomo conhecimento e só. É direito de qualquer um opinar sobre minhas críticas e meus textos, enquanto não me fizerem ataques pessoais ou tentarem me censurar.

Ouvi alguns barulhos estranhos. Portas batendo, talvez. Tenho certeza de que alguém riu, não muito longe dali.

— É noite – disse o Antonio.

Olhei para os vitrais e vi alguma luz, mesmo que esmaecida, penetrando por eles.

— Não se iluda. Essa luz tem um foco distinto. Difere da luz solar na intensidade. Conflita na direção. Não é dia. É noite.

— Nem tardezinha?

— Qual é a segunda pergunta?

— Você está prestes a lançar a antologia Eclipse ao pôr do Sol e outros contos fantásticos. Será sua primeira obra profissional — se eu estiver enganado, me corrija. Quantos contos ele contém, em que período os escreveu e como você vê o atual cenário da literatura de gênero nacional?

Antonio abraçou-se à Bíblia, sentou-se melhor, desencostando-se do púlpito o suficiente para meter a mão dentro dele, na parte de baixo, atrás de uma cortina pregueada. Apalpou um pouco e trouxe de dentro uma garrafa de vinho. Depois tirou de lá um pote com hóstias. Voltou a se encostar.

— Para que a entrevista não fique longe do contexto que lhe foi criado. Descobri isso antes de você surgir e antes de… Antes das coisas começarem a acontecer.

Agradeci. A garrafa estava bem arrolhada. E a ideia de comer hóstias como se fossem amendoins não me agradou. Antonio não se deu por achado e começou a abri-la. Como não tinha um saca-rolhas, empurrou-a para dentro da garrafa com algum esforço. Bebeu um gole generoso, arrotou acanhado e disfarçadamente e voltou a beber mais um gole. Apanhou um punhado de hóstias e as enfiou na boca. Começou a responder enquanto as mastigava.

— Obra profissional? Só no sentido de receber uns trocados como direitos autorais, mas acho só se pode falar em profissionalização em literatura quando realmente se vive principalmente disso e essa perspectiva, para mim, é distante. Como suponho que também seja para quase todos os autores de ficção especulativa, com uma ou outra exceção. Até onde sei, o único profissional brasileiro nesse gênero, no momento, é o André Vianco.

Ele parou, engoliu a massa que tinha na boca e silenciou por alguns momentos. Os suficientes para ouvirmos, ambos, a gargalhada que ecoou pela nave principal. Espichamos os pescoços para espiar, mas não havia ninguém, lá.

— Esse livro terá seis contos de fantasia – continuou ele –, escritos de dezembro de 2007 a maio de 2009, incluindo A Nascente na Serra, que chegou a sair na Kaliopes e é representativo do teor da antologia. Também os outros contos têm sabor exótico. Não buscam se identificar com a linguagem e os problemas quotidianos do leitor médio — como, digamos, o A Casa ou Caminho do Poço das Lágrimas do Vianco —, mas convidá-lo a se aventurar em territórios estranhos, pôr-se em contato com gente que vive em outros tempos e outras terras e fala com outros sotaques, inclusive alguns grandes poetas e escritores. Nada de ônibus de excursão: é mochila nas costas e pé na estrada. Como turismo de aventura, tem suas dificuldades, mas também seus prazeres únicos, inclusive o de envolver-se sentimentalmente e sexualmente com os estranhos encontrados pelo caminho, o que acontece mais do que uma vez. Ou duas.

Ouvimos um crepitar. Madeira estalando, parecia. As paredes estremeceram. Podia jurar que vi uma das estátuas numa nave lateral, mover as mãos.

— Para a literatura de gênero em geral — ele continuou mais uma vez —, o Brasil me parece estar em um momento que se não chega a ser bom, ao menos é melhor do que qualquer outro que eu tenha vivido.  Primeiro, desenvolve-se há alguns anos a cultura da internet, que permitiu a fãs terem mais contato entre si e escritores amadores mostrarem seus trabalhos e receber alguma espécie de retorno de leitores que os incentive a produzir e, em alguns casos, a se aperfeiçoar. Segundo, surgiram novas tecnologias de impressão que permitem editar pequenas tiragens sem tornar proibitivo o preço do exemplar, o que torna o risco de publicar iniciantes, mais aceitável para pequenas editoras. Terceiro, mas não menos importante; vivemos um período de relativa estabilidade e prosperidade econômica, que incentiva essas pequenas apostas e investimentos, tanto por parte do editor quanto do autor e do leitor. É importante que também este tenha alguns trocados sobrando e um pouco de lazer e tranquilidade para ter prazer com leituras que não vão lhe proporcionar nada de imediatamente útil, em vez de estar preocupado apenas com conseguir emprego, com fazer o salário durar até o fim do mês ou com ler algo que o ajude a conseguir um aumento ou uma promoção.

Não era impressão. A estatua tinha mesmo se mexido. Apontei a improbabilidade para o Antonio que se aferrou na Bíblia, arregalando os olhos.

— Eu disse, não disse?

— Essa Igreja é mal assombrada – murmurei.

— Fantasmas não existem. O que estamos vendo são improbabilidades.

Eu ia apresentar a próxima pergunta, mas o Antonio fez sinal de que ainda não tinha terminado.

— O resultado é um mini-boom de edições e publicações. Há alguns anos, era relativamente fácil não só saber de tudo que foi publicado em ficção científica e fantasia durante o ano, como ler tudo, caso se quisesse. Agora já não é assim. Ao tentar levantar tudo que se publicou em 2010, a Ana Cristina contou, se não me engano, pouco menos de 80 livros impressos. Um a cada quatro ou cinco dias, em média, e sem contar as publicações de internet, não necessariamente menos importantes. Claro, são de qualidade muito variável. Algumas se comparam bem a produções profissionais do gênero do mercado anglo-saxônico, pelo menos segundo o crítico estadunidense Larry Nolen, outras são de se chorar de vergonha alheia ou de morrer de rir, conforme o momento e o temperamento do freguês. Por isso, em minha opinião, já passou o tempo de tentar incentivar todo mundo que tenta escrever alguma coisa, passar a mão na cabeça e fazer só críticas de cortesia. É preciso escolher o que é bom e o que não é, orientar os leitores sobre o que vale a pena comprar e ler, o que se pode esperar desta ou daquela vertente da ficção especulativa brasileira. A proliferação já é suficiente, é hora da seleção entrar em ação e dos menos aptos saírem de cena ou evoluírem. É verdade que mesmo dentro dos gêneros existe um nicho para uma literatura mais popular e outra mais elaborada, ou mesmo experimental; que escritores menos brilhantes, mas de consumo rápido, ajudam as editoras a sobreviver e editar coisas melhores e menos comerciais, que leva mais tempo para dar retorno. Mas também o texto mais voltado a leitores inexperientes e preguiçosos precisa melhorar tecnicamente. Noventa por cento de tudo pode ser lixo, mas não precisa ser lixo tóxico.

— Agora – Antonio fez novo sinal de que ia continuar – é bom lembrar que também enfrentamos um momento de incerteza, que é a transição do livro impresso para o livro eletrônico. Em minha opinião, é iminente, coisa de poucos anos, e irreversível. Quem acredita que o papel reinará para sempre está errado, mesmo que se chame Umberto Eco. O livro de papel sobreviverá apenas como um pequeno nicho de mercado, como o LP ao lado da música digital. Mesmo quem quiser possuir algumas obras de luxo e prestígio em papel, fará a maior parte das suas leituras – principalmente as mais descartáveis, e nisso se inclui a maior parte da literatura de gênero – em forma eletrônica. Mas ninguém pode ainda prever com segurança o que isso significará para o mercado e para o escritor, se criará uma riqueza cultural sem precedentes ou tornará ainda mais difícil a vida de quem sonha em ser escritor profissional. Estou do lado dos otimistas, mas é apenas um palpite.

Ele parou, tomou fôlego e outro generoso gole de vinho. Pude reparar em suas pupilas que dilatavam ligeiramente e em sua pele que perdia a palidez inicial, se tornando mais rosada. Ele ia, devagarzinho, adquirindo um humor melhor. Já até havia deixado a Bíblia de lado, embora não tão longe que não pudesse voltar a agarrá-la.

Ia fazer a terceira pergunta quando sentimos o chão tremer. Como se houvesse ocorrido um abalo sísmico. As paredes soltaram pequenas nuvens de caliça, as pilastras rangeram, o teto pareceu se mover quase imperceptivelmente, provocando pequeníssimas fissuras no reboco. Olhamo-nos preocupados; agarrei-me ao chão e ele ao púlpito, temerosos do pior. Mas assim como o abalo começou, terminou.

Não resisti ao apelo e tomei a garrafa de vinho das mãos do Antonio. Bebi primeiro devagar e depois em grandes goladas. O efeito foi quase imediato. Seguido ao calor que me aflorou à pele, meus nervos se acalmaram.

— Você é um critico e resenhista empedernido. Temido pelos autores. Para você, quais as virtudes de um escritor. Quais aquelas que ele não pode abrir mão, quais aquelas que você ainda faz vistas grossas dentro de um contexto maior. Para você, o que um escritor que se pretende bom precisa ter e fazer?

A resposta precisou esperar. Um súbito vento uivou dentro do recinto, nos surpreendendo. Vimos sombras se agitando além dos vitrais e percebemos que algumas paredes pareciam inchar como se ganhassem vida própria.

— Improbabilidades.

— Preferia dizer que são possibilidades.

— Se vemos, embora não cremos, são improbabilidades.

Apontei o relógio quântico para o Antônio e sorri meio sem jeito.

— Com esse aparato, qualquer improbabilidade se torna em intensa possibilidade.

O Antonio engoliu em seco, levou a mão de volta à Bíblia e a trouxe mais para perto dele.

— A importância de cada apoio do tripé varia conforme o texto, mas a maneira mais trivial de falhar é na linguagem. É preciso que a escrita seja legível. Não adianta anunciar que uma trilha vai passar por lugares interessantes se ela for intransitável. Não é só saber ortografia e regras gramaticais básicas: há várias outras maneiras de deixar um texto ilegível. Por exemplo, complicar a sintaxe de maneira a não se fazer entender. Encher o texto de adjetivos, advérbios e juízos de valor cansativos e óbvios. Tentar aparentar uma falsa cultura usando palavras que se acabou de garimpar do fundo do dicionário e nada têm a ver com a época ou o contexto. Alinhavar frases vagas e desconexas, sem sequência lógica e, nos piores casos, intercaladas por reticências. O uso criativo e original da linguagem é a marca do bom escritor, mas é preciso saber o que se está fazendo e por quê.

Fez uma pausa, bebeu um gole pequeno do vinho e enfiou mais um punhado de hóstias na boca.

— Para que o pé da realidade se sustente, é preciso que a ficção seja consistente e verossímil dentro de suas próprias regras e fiel aos aspectos mais importantes de como as coisas são e como as pessoas agem e pensam no mundo que se quer descrever. Num conto medieval sério, não se faz o lanceiro consultar o relógio de pulso, a rainha tomar sol de biquíni, marinheiros usarem coturnos, duques preencherem livros-caixa, plebeus chamarem o rei de “você” ou guerreiros temíveis se tratarem com piadinhas de mesa de RPG. No Uruguai, não pode haver pessoas escalando montanhas. Num romance policial, é preciso saber como a polícia funciona e se organiza, na teoria e na prática. Numa organização que se quer séria e secreta, os membros não são incentivados a passear pelas ruas de São Paulo com um Lincoln Continental vermelho.

Nessa hora ouvimos um uivo. E não provocado pelo vento que já havia parado. As pilastras se agitaram e soltaram pedaços de pedra que se espatifavam no chão. As estátuas religiosas estalaram e se moveram. O grande portal de entrada foi abalado por vigorosa sacudidela que quase a arrancou das poderosas dobradiças. Das paredes surgiram concavidades extensas. De suas formas inicialmente inexatas se formaram mãos e cabeças, como se corpos tentassem penetrar no salão vencendo a resistência dos tijolos e como se a grossa parede fosse feita de mero tecido.

A garrafa de vinho foi de uma mão para outra, seguidas vezes. O último gole, o derradeiro, que secou a garrafa, coube ao Antonio. Uma pequena baba rosada escorreu de sua boca. Ele a recolheu com a língua. Não ia desperdiçar nem a menor quantidade daquele excelente vinho.

— É o inferno, isso aqui – murmurou ele.

Apalpei o relógio só para constatar que o botão estava travado. O que quer que tivéssemos que enfrentar, o faríamos inevitavelmente.

— Pode-se inventar um universo imaginário – recomeçou o Antonio –, mas criar um mundo secundário interessante e com profundidade, que não pareça uma colagem de clichês, dá ainda mais trabalho do que uma pesquisa histórica e geográfica e não dispensa o autor de ser coerente e convincente. Os processos da realidade alternativa podem não ser os da nossa, mas precisam imitá-la no sentido aristotélico da palavra: parecer naturais, não forçados. Há fãs e autores que acham que, quando se trata de fantasia ou ficção científica, o leitor tem a obrigação de engolir qualquer coisa. Nada disso. Quanto mas alto se voa na fantasia, mais cuidado é preciso para não deixar o leitor cair. Basta uma solução ilógica, uma atitude absurda, um sentimento piegas para estragar o caldo. Enredos realistas são mais robustos: se o leitor sente que a maior parte da história está de acordo com suas expectativas da realidade, perdoa mais facilmente pequenas inconsistências.

O que temíamos finalmente aconteceu. Depois de várias sacudidas, o grande portão de entrada cedeu. Abriu-se num rangido longo e assustador. Uma onda de energia desconhecida varreu os bancos de madeira, lançando-os para os lados como se fossem de papel.

Vimos sombras, formas difusas recortadas por uma luz avermelhada que brotava de trás deles, vinda de ponto inexato. Começaram a avançar em passos aparentemente trôpegos. Só tivemos uma idéia mais exata do que vinha em nossa direção, quando os primeiros seres adentraram a nave principal.

Levantamo-nos e recuamos alguns passos.

Eram humanóides recurvados, andrajosos, retorcidos, purulentos e leprosos. Vinham como uma onda. Olhares fixos no Antonio. Poucos foram os que me fitaram.

— Quanto ao “pé” da imaginação – Antonio se agarrou mais firmemente à Bíblia e também, nesse momento, à garrafa vazia de vinho –, uma ficção banal não merece ser lida, mesmo que seja fluente e pareça verossímil. É preciso mergulhar além da superfície do senso comum e surpreender o leitor com algo interessante ou intrigante, algo que ele não sabia; algo que o faça pensar. No mínimo, algo que ele não sabia que queria ler. Pode-se escrever sobre o quotidiano de pontos de vista inusitados, ou refletir sobre os segredos das ações e motivos de pessoas comuns, como faz a boa literatura realista. Ou se pode criar situações fantásticas, mostrar como as coisas poderiam ser diferentes e criar metáforas provocantes, como faz a literatura especulativa. O erro mais comum dos que tentam o fantástico é banalizá-lo com situações gastas e personagens estereotipados. Ou, pior, com posturas e ambições triviais e rotineiras, geralmente as da juventude urbana de classe média, sem ter nada a questionar, nada a dizer de novo, nada além da superfície e das aparências. É muito difícil sugerir fórmulas, mas é fácil perceber quando se fracassou nesse aspecto, o mais importante para entusiasmar o leitor e criar um clássico – ou mesmo um best-seller.

Ele pareceu terminar. Sua voz já estava meio trêmula. Seu olhar em nenhum momento abandonou o avanço da horda. Foi com um desconforto enorme que nós dois nos demos conta de um fato perturbador. Liderando o grupamento de desvalidos horrorosos vinha um ser que, embora também exibisse a decadência dos demais, patenteava de maneira bastante flagrante uma altivez que os outros não possuíam. Seu rosto era familiar, embora as maçãs fossem proeminentes, dentes e orelhas pontiagudas, nariz largo, olhos rutilantes, mãos com unhas em garra, corpo encurvado para frente, pernas peludas semi cobertas por calças rasgadas. Um misto de lobisomem com vampiro. E se aproximava da gente num ritmo mais rápido, mais decidido, mais feroz.

O líder fez sinal à turba e eles pararam. Moviam-se no mesmo lugar como minhocas nervosas, chacoalhando o corpo sem parar. Pedaços de carne e pele iam sendo derrubados aqui e ali.

— Viemos buscá-lo, seu miserável que não respeita nosso trabalho! Daremos-lhe uma lição que jamais esquecerá.

Recuamos. Não havia muito que fazer. Não tínhamos escapatória às nossas costas, embora tivéssemos observado duas torres laterais que deveriam levar aos campanários. Mas de lá, iríamos para onde? Saltaríamos no vazio? Apertei o botão do relógio. Tecnicamente a entrevista estava encerrada. Deveria ter funcionado, mas não funcionou.

— Sou um crítico. Esse é meu trabalho. Deveriam agradecer.

Admirei a coragem do homem, mesmo sabendo que boa parte dela provinha do vinho que rebuliçava em suas veias. Veio da multidão um riso uniforme e pestilento que encheu o ar dum cheiro podre de morte. A um sinal do líder, os cadáveres ambulantes reiniciaram sua caminhada.

Olhamo-nos um ao outro, engolimos em seco. Antonio instigou-me a apertar o botão, coisa que já vinha fazendo repetidas vezes, sem nenhum sucesso.

Foi quando brotou da abóbada uma luz vermelha intensa. Ela abriu um buraco em meio aos andrajosos, fazendo crepitar alguns corpos e desintegrando esses num piscar de olhos. Os demais de afastaram, aterrorizados.

Era Lilith, em pessoa, que surgia. Deixamo-nos ficar boquiabertos, incertos se ela vinha em nosso auxílio ou também para nos trucidar. Olhou para o Antonio com uma expressão facínora e lhe apontou um dedo. Não chegou a lhe dizer nada, mesmo que tivesse tentado. Outra luz, branca dessa vez e intensa como a primeira, surgiu da abóbada fazendo-a tombar morta no meio do salão.

Era Jesus Cristo. Recobria-o uma luz dourada. Os andrajosos lamuriaram-se, encolhendo os corpos em total submissão. Quando achávamos que um final totalmente Deus ex-machina tinha se formado em nosso auxílio, nova luz surgiu, lançando Jesus mortalmente ferido ao chão.

Sobre ele, regozijante, estava Metatron. Uma lança cristalina e ensangüentada nas mãos. Olhou-nos a todos com indisfarçável desdém. Esse não viera nem para salvar, nem para destruir. Aparentemente só exibia sua inegável superioridade e isso o exultava. Foi quando outra luz, essa mais intensa do que todas as anteriores juntas, surgiu.

Em meio à névoa que se formou e ao grito aterrorizado de Metraton, que teve a cabeça fendida por um tapaço gigantesco, surgiu o imponderável.

Ana Cristina Rodrigues.

Ela lançou um olhar confuso para todos os lados. Quando nos reconheceu, perplexos e atônitos, atrás do púlpito, arregalou os olhos e bradou:

— Ah, não! Vocês não vão me fazer pagar esse mico. Ah, não…

Antes que a situação se tornasse ainda mais bizarra do que estava, e sentindo que finalmente o botão do relógio destravara, eu o apertei.


Pedro Moreno

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