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De Bar em Bar ENTREVISTA Antonio Xerxenesky

26/11/2009

Essa entrevista contém SPOILERS.

O Saloon estava quase vazio. Assim como toda Downtown. Os poucos que lá ficaram exibiam feições radiantes, como se seus sonhos mais importantes estivessem em vias de se realizar.

Muito mais mulheres que homens. Aquelas cujos maridos ainda capazes de montar e cavalgar seguiram o sujeito a quem chamavam de O Peregrino.

O homem que, acreditavam, resgataria todas as crianças, filhos de Downtown, sequestradas fazia anos. O homem que traria a alegria de volta para a cidade.

Sorriso de poucos dentes. Olhos cansados, mas com um brilho indisfarçável. Atrás do balcão, guardando garrafas de destilados e tonéis de cerveja quente. Olhar perdido para além das portas de vai-e-vem. Delaney se aboletara no Saloon, cuidava dele para o barman que partira junto com o grupo em direção de Middletown. Afogava-se no álcool, antevendo o gozo que a visão de sua filha, raptada em tenra idade, lhe daria quando voltasse à cidade.

Eu estava numa mesa distante poucos metros da entrada do Saloon. Respirava o ar quente e parado, batucando a madeira com os dedos da mão esquerda. Uma garrafa de uísque vagabundo na frente. Vez ou outra olhava para a janela empoeirada, buscando na rua sem movimento um galopar aguardado.

Olhei para o relógio. Xerxenesky estava atrasado. Imaginei a cara dele tentando atravessar a Garganta do Enlouquecido, aparvalhado. Ri baixinho e bebi um gole do uísque. Senti arder a garganta e lacrimejar os olhos. Estava sendo maldoso. Ele não conseguiria atravessá-la e jamais chegaria ao encontro. Decidi apertar um dos botões do relógio e abreviar a sua vinda, mas um resfolegar me chamou a atenção. Olhei para fora, através do vidro, e o vi desmontando com alguma dificuldade. O chapéu de abas largas cobria seu rosto, ensombrando-o quase a ponto de não poder reconhecê-lo. Mas era ele, sem nenhuma dúvida.

Entrou no Saloon batendo as botas no chão com força demais. Se queria chamar a atenção, conseguiu. Delaney olhou para ele com desconfiança, fez um esgar contido, relanceou o olhar para mim, outro estranho no Saloon, e colocou lentamente uma das mãos para baixo do balcão. Imagino que tenha ficado acariciando a coronha da sua Winchester.

Xerxenesky me viu, ergueu um pouco o chapéu, livrando o rosto daquele telhado imenso, e sorriu. Era um sorriso cansado.

— Pensei que jamais passaria pela Garganta do Enlouquecido – comentei enquanto ele se sentava e jogava o chapéu de lado. Seus cabelos estavam molhados pelo suor.

— Além de perder um tempão tentando montar, parei no que parecia um posto de trocas. Finnegan’s era o nome, se não me engano. Cena horrível… Um homem e uma mulher, ou coisas parecidas, baleados.

— Simbiontes. Meio humanos, meio máquinas. – expliquei.

— Vi engrenagens, fios e óleo derramado. Que cenário louco é esse para o qual você me trouxe?

— O Peregrino. Meu romance que será publicado ano que vem. Achei a escolha conveniente.

— Pensei que cavalgaria até Mavrak. Se bem que todas as cidades do meio oeste americano se parecem. Em que ano estamos?

— Mil oitocentos e setenta. Ou coisa parecida.

— Se eu pedir uma tequila añeja ao velhote lá no balcão, tenho chances?

Apontei a garrafa de uísque e balancei a cabeça negativamente. Xerxenesky fez uma careta. Delaney trouxe mais um copo após um sinal meu. Deu uma boa olhada na gente e voltou para trás do balcão, para o abraço de seu bourbon, para a segurança da sua Winchester e para o conforto de suas memórias.

— São todos velhos assim nesta cidade? – perguntou Xerxenesky com discrição.

— Todos – respondi enquanto via seu rosto avermelhar depois de um gole tímido de uísque. Ia tossir, mas aguentou firme.

— Beatriz Rezende disse, na leitura que fez para a Copa de Literatura, que seus zumbis em Areia nos dentes são uma besteirada que você mesmo desqualifica na narrativa. Você concorda com ela?

Xerxenesky aguardou alguns instantes, tentando possivelmente uma sobrevida depois de experimentar o uísque. Engoliu em seco duas vezes e respondeu com a voz em curioso falsete.

— Acho a Beatriz Resende uma das melhores críticas brasileiras, mas discordo bastante dela nesse quesito. Meus zumbis são sérios, seríssimos. Uso eles para um punhado de metáforas, gosto de tudo que zumbis podem representar, estando nesse lugar nenhum entre a vida e a morte, cavando seu próprio espaço, saindo esfomeados do túmulo. Podemos jogar muitas coisas que nos incomodam pra baixo da terra, mas elas retornam, ah se retornam! Não desqualifico meus zumbis, não os considero besteira. Ao mesmo tempo, rio deles. Como todos os bons comediantes, é uma piada séria, contada com o rosto impassível.
E não só os meus zumbis, os dos outros. O uso “sério” dos zumbis é uma constante, até quando o filme parece uma piada. Muitos elogiaram o drama edípico do Areia nos dentes. Oras, não tem algo similar na mãe dominadora de Fome animal do Peter Jackson? E zumbis políticos, então, nossa, não tem toda a carreira do Romero? Zumbis não são besteirada, não para pessoas que respeitam eles por tudo que podem significar.

— Daniel Galera deve ter ficado surpreso com o resultado do jogo na Copa. – comentei.

— Sou terrivelmente fã dele, por isso pedi para que ele escrevesse a orelha do Areia nos dentes. Considero Mãos de cavalo o melhor romance brasileiro dos últimos vários anos. Tenho certas restrições quanto ao Cordilheira, os conflitos da protagonista são expostos muito claramente, não há dramas subjacentes. Além disso, há alguns personagens inverossímeis. Não obstante, não sei se concordo com o resultado. Daniel Galera é um escritor mais experiente, e, na minha opinião, um tanto mais talentoso, não cai em erros de amadorismo como o Areia. Se tratando do Cordilheira, diria que um empate seria o melhor resultado. Fosse uma briga entre Areia nos dentes e Mãos de cavalo, uh, não gostaria de estar perto. Meu livro voltaria da luta com 34 tiros no peito.

— Zumbis e faroeste. George Romero e John Wayne. Uma mistura interessante. A ideia veio de estalo ou você a procurou antes de escrevê-la?

— Eu diria George Romero e Clint Eastwood. Eastwood é mais atormentado que o corajoso caubói americano John Wayne. A ideia não é muito original, veio de um jogo que adorava na infância, Alone in the Dark 3, um faroeste com zumbis. A dificuldade foi: como escrever um faroeste nos dias de hoje, no Brasil, e como dizer coisas significativas através dele, não ficar só na brincadeirinha.

Tomei um gole do meu uísque – sem engasgar, já que me acostumara com ele – e ponderei outra questão quando entrou no Saloon uma jovem faceira e muito distante do perfil de moradores da cidade. Xerxenesky olhou para ela, embaraçado. Enrubesceu um bocado, abriu a boca e permaneceu assim, enquanto ela foi até o balcão e disse qualquer coisa para Delaney.

— Você a reconhece? – perguntei.

— Vienna – sussurrou, como se temesse que ela pudesse ouvi-lo. Depois bebeu o resto do uísque que tinha no copo de uma só talagada, como se fosse água – você não disse que estamos num cenário de O Peregrino? Ela é de Areia nos dentes. O que ela está fazendo aqui?

Olhei para o relógio, dei umas batidinhas no vidro e franzi o cenho.

— Deve estar com defeito – disse.

— E olhe lá! – exclamou Xerxenesky logo depois.

Olhei. A porta vai-e-vem do Saloon abriu e entrou por ela um xerife. Mas não era Bogus, o velho delegado de Downtown, e sim um sujeito alto, pele clara e cabelos pretos, um bigode espesso e bem aparado, dois chumaços de pelos como sobrancelhas. Estava pálido, mãos trêmulas. Numa delas um Colt. Suava frio.

— É o delegado Thornton – disse Xerxenesky, perplexo.

— Delegado, quem? – eu estava ainda mais perplexo.

O homem virou-se em nossa direção, avançou resoluto até diante de nossa mesa e olhou acusadoramente para Xerxenesky.

— É tudo culpa sua! – afirmou entredentes. – A cidade está sendo invadida por coisas que se arrastam em andrajos, putrefatos, mortos-vivos. Trate de fazer alguma coisa!

— Isso é um truque desse relógio estranho, não é?  – perguntou Xerxenesky olhando para mim. Enquanto isso, o xerife Thornton foi até a entrada do Saloon e virou uma mesa diante da porta, bloqueando-a.

— Sei tanto quanto você – respondi.

Olhei para fora, pelo vidro, e nada vi. A rua crestada pelo Sol. O ar poeirento. Nenhuma viva alma que pudesse justificar o medo aparente do xerife nem a acusação feita contra Xerxenesky. Considerei o evento como uma discrepância quântica. Algo que deveria estudar em outra ocasião. No momento tinha coisas mais importantes para cuidar.

— Quando você escreve se preocupa de fato com a mensagem, com o que dizer, ou vai escrevendo e a mensagem surge, se surge, durante a construção da narrativa?

Xerxenesky olhou para mim, depois para o xerife, que tentava obstruir a entrada com uma segunda mesa. Vienna olhava tudo, assustada, e Delaney permanecia sorumbático atrás do balcão, ignorando a bagunça. Respirou fundo, deu uma espiada para fora e respondeu pausadamente, tentando manter a calma.

— Por mais brega e retrógrado que isso possa parecer, me preocupo muito com a mensagem. A forma é essencial, sem dúvida, mas estou cansado de livros que são só virtuosismo e demonstração de experimentalismo. Antigamente eu dizia que o importante era “como dizer”, já que só existem 5 ou 6 temas no mundo, e estamos condenados a nos repetir. Hoje penso diferente: as questões éticas, morais, políticas são inescapáveis. Pensemos nelas, portanto. Talvez não seja tão importante afirmar, talvez o ideal seja procurar fazer as perguntas certas.

— Você está armado? – perguntei de supetão.

— Armado? – ele balbuciou. Depois tateou no cinturão e trouxe de lá um Colt 45. Segurava-o entre o indicador e o polegar, como se tivesse algo nojento nas mãos.

— Bom. – comentei. Peguei também o meu e verifiquei o tambor. Estava carregado. Um gorgolejo estranho ia lentamente sobrepujando os arquejos assustados de Vienna, os suspiros saudosistas de Delaney e o arrastar de pés que o xerife Thornton provocava no empurra-empurra que ia promovendo. Xerxenesky manteve a arma suspensa entre os dedos, mas o olhar ergueu-se, arregalado, para a janela.

— Os Marlowes em peso estão aí para uma visita – balbuciou, assustado.

Virei-me e congelei. Corpos com as carnes se despregando, olhos pendurados nas órbitas, orelhas carcomidas, bocas se movimentando incessantes como se buscassem algo para comer. Uma comida qualquer que estivesse dentro do Saloon. Preferencialmente viva.

Foi um pega pra capar.

Nós nos erguemos num salto. O Colt do Xerxenesky caiu no chão e escorregou alguns metros. Ele foi buscá-lo, menos aterrorizado com a arma do que com as mandíbulas mastigantes que forçavam entrada no Saloon. O xerife Thornton gritava para Delaney ajudá-lo, mas esse, já embotado pelo álcool, nada mais fazia que cantarolar uma antiga canção de ninar. Estava entregue. Vienna alternava-se, ora olhando para as mesas viradas ora para o andar de cima, onde encontraria um último refúgio numa fuga desesperada.

Resolveu que ajudaria a si mesma e correu, subindo as escadas em busca de proteção num dos quartos.

Eu não tinha nenhuma intenção de me entregar numa refrega com zumbis e ficava socando o botão do relógio – que estava travado – sem parar. Xerxenesky apontava para o Xerife e para as mesas, pronto para disparar em qualquer coisa e a qualquer momento. Estávamos tensos e numa espécie de credulidade e incredulidade alternantes. Estávamos numa realidade alterada, mas não a que eu havia programado.

Por fim as mesas sucumbiram à pressão externa. Ao mesmo tempo em que o xerife Thornton caía no chão, soterrado por elas e por corpos rastejantes e em farrapos, Xerxenesky puxava o gatilho. Vários pingentes do lustre foram arrancados com o disparo, evidentemente sem nenhuma direção.

Dei dois tiros. Ambos em alvos certos, embora nenhum deles tenha surtido efeito. Só depois dos disparos que me lembrei de que deveria atirar na cabeça. Vimos Delaney ser subjugado. Caíram em cima, arranhando, mordendo, arrancando pedaços.

Agarrei Xerxenesky pelo braço e comecei a arrastá-lo para cima. Um dos mortos-vivos sorria para ele, que parecia aturdido, ou pelo medo, ou pela perplexidade.

— Samuel – articulou o nome com extrema dificuldade. E então apontou, ergueu o cão e puxou o gatilho. A cabeça do zumbi explodiu e o corpo desabou pesadamente, sem mais nenhuma motilidade.

— Viva! – exclamei, surpreso – Não foram os pingentes do lustre, desta vez.

Saímos em disparada enquanto a turba malevolente ia subindo a escadaria, deixando cair pedaços de si mesmos pelo caminho. Tentamos uma porta, mas estava trancada. Tentamos outra, também estava. Ia atirar na fechadura quando ela foi aberta. Vienna deixou que entrássemos. Passamos a chave e fomos até a janela. Talvez pulássemos para a rua, talvez fugíssemos por ali. Mas desistimos assim que vimos a cidade tomada por mortos-vivos. Formavam uma maré cuja ondulação parecia se perder no horizonte.

— Estamos fodidos – disse Xerxenesky.

— Aqui… – mostrou Vienna. – Papel e caneta. – E os entregou para Xerxenesky. Ele os tomou nas mãos e olhou para mim, confuso.

— Reescreva a história – continuou ela – Refaça-a. Detestei morrer daquele jeito. Foi muito i-di-o-ta! Jamais que Juan atiraria em mim. Nós nos amávamos. E o pai dele já era um pedaço de carne morta. Vamos! Reescreva e tudo isso acaba.

Dei as costas para eles e fui me refugiar num canto do quarto, sentado numa poltrona puída. Movi a coroa do relógio, reposicionei seus ponteiros, apertei os botões, todos eles. Estavam bloqueados, presos. Não funcionavam. A porta do quarto estava sendo socada. Batiam nela. Chutavam, arranhavam, mordiam a madeira. Pensei no que poderia estar errado, mas nada me vinha à mente.

“Reescreva e tudo isso acaba”. A frase retumbou pela minha cabeça.

— Você atiraria em seu pai? – perguntei pro Xerxenesky.

— O quê? – ele retornou, ainda com o papel e a caneta nas mãos.

— Na mesma situação, você atiraria no seu pai? Pense que ele não está mais vivo, é só um pedaço de carne ambulante, movido por uma estranha e antiga magia. Atiraria?

— Que interesse tem isso? Que pergunta mais idiota!

— A ficção está interferindo nesta realidade. Responda a questão, ou…

A porta veio abaixo. Entraram, gorgolejantes, ansiosos e famintos. Avançavam resolutos. Thornton e Delaney à frente. Levantei-me e gastei as balas do meu Colt nos primeiros. Todos derrubados. Na pouca distância, não havia como errar. Xerxenesky fez o mesmo. Os corpos caídos faziam obstáculo, mesmo assim facilmente transponível. Eu apertava o botão travado do relógio quântico, o Xerxenesky jogava neles o revólver descarregado. Vienna era agarrada e arrastada pra dentro da matilha, aos gritos.

— Atirava, merda! A-TI-RA-VA!

Tudo parou. Vienna de gritar – aliás, nos aparentou estar sorrindo nesse momento – e os zumbis de avançarem. Só eu e ele, olhando um para o outro, trêmulos e pálidos. Ergui o pulso e toquei no botão. Estava solto. Finalmente funcionando.

— Vienna filha da puta – reclamou Xerxenesky – Aperta isso, vai… – suplicou por fim.

Apertei.

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Raiva nos raios de sol.

25/11/2009

Quero agradecer a Não Editora pelo envio do livro Raiva nos raios de sol de Fernando Mantelli. Dei umas lidas esparsas, folhas soltas, e me parece que foi escrito para pessoas que não tem medo de coisas fortes.

Eu adoro coisas fortes.

Lerei e farei meu comentário muito em breve.

Aproveito para avisar que quinta-feira será publicada a entrevista realizada pelo De Bar em Bar com Antonio Xerxenesky. Quem gosta de zumbis, vai delirar. Quem não gosta, vai também.

E mais um lembrete, porque lembretes não fazem mal algum: Imaginários. Sábado. Shopping Market Place. Livraria Cultura. 16h. Avenida Doutor Chucri Zaidan, 902 – Lojas 222/223/224 – Fone: 11-3474-4033

Vá! Vá! Vá!

Areia nos dentes – Lido e comentado

03/09/2009

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Este livro já me causou inquietação logo no título. Como não deixar de se incomodar com a terrível sensação que a areia provoca nos dentes? Quem não os teve estalando na boca, não sabe o que digo.

Iniciei a leitura com as mais elevadas expectativas e não me arrependi.

A trama narra um conflito obscuro, alimentado por segredos de porão, entre duas famílias, os Capuleto e os Monteq… Não, peraí, não são essas famílias, não. Ah, os Marlowe e os Ramirez. Isso (Chega de Tequila, homem!). Quem conta é Juan Ramirez, descendente hipotético e testemunha auricular dos fatos.

Ambas as famílias se odeiam por motivos não revelados e se confrontam, guiados por várias mãos, revelando ser este romance um manifesto ao politeísmo.

Epa, politeísmo? Calma, vou explicar.

Há um trecho onde Deus é imaginado num cartaz de procura-se, vivo ou morto. Na figura do perseguido (inexistente), a imagem de Xerxenesky ficaria bem, que, nesse caso, seria o Deus maior. O leitor também se deparará com camadas narrativas onde se confunde a pessoa do narrador. Ora se trata de Juan Ramirez (Deus menor), o mexicano que conta a história de seus antepassados, ora se trata do próprio Xerxenesky (há um Deus acima dele? creio que sim) que é citado num momento como o autor que cria o autor (e também em diversos momentos narrativos onde fica evidente sua intrusão (ou de Juan Ramirez?), trazendo terminologias e situações futuras que jamais viriam das bocas dos personagens do livro).

Proposital? Claro que sim. Há um primor narrativo que não dá margem para outra dedução.  Várias mãos remam esse barco metalingüístico, sem que o ritmo seja quebrado.

Só um detalhe: em determinado momento, no solilóquio interior do xerife Thornton, ele usa a palavra “quilômetro”, quando deveria dizer “milha”.

Areia nos Dentes é um excelente entretenimento e traz, ainda, de brinde, um ataque de zumbis à nem tão pacata cidade de Mavrak. No bom estilo terror classe B, com mortos-vivos se arrastando pelas ruas, mordendo, arrancando pedaços, matando e transformando outros em iguais.

Uma vingança tão desproporcional que, por pouco, quase mais nada resta da cidade senão fragmentos ensangüentados. E os grandes segredos de porão misturados a eles.

Recomendadíssimo.

Ficção de Polpa volume 1 – comentários

21/08/2009

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Recebi, no começa desta semana, os três livros Ficções de Polpa, gentilmente me enviados pelo Rodrigo Rosp, não-editor da Não Editora. Recebi também o Areia nos Dentes, enviado pelo Antonio Xerxenesky. Agradeço muito a ambos pelas agradabilíssimas horas de leitura que estarão me proporcionando.

Terminei o Ficções de Polpa 1, ontem pela manhã. Que posso dizer?

Que foi uma agradabilíssima surpresa. É fato que esses autores, em sua grande maioria, foram (e são, aposto que sim) burilados pelo mainstream, produzindo obras com tal esmero técnico que causa admiração a alguém (eu) acostumado com textos mal ajambrados.

A julgar pelo que li, creio que os próximos volumes me surpreenderão da mesma maneira.

Parabéns ao Samir Machado de Machado pela organização.

Vamos aos comentários individualizados, conto a conto:

1- O Homem que criava fábulas – Samir Machado de Machado

Um conto inquietante. Muito bom.

2- Carne – Guilherme Smee

A idéia de explorar a história sob o ponto de vista do zumbi é interessante, mas a condução da trama deixa a desejar.

3- Linguista – Rodrigo Rosp

Um conto perturbador. Impactante. Muito bom.

4- Cosmologia – Marcelo Juchem

Esse conto é obsessivo e inquietante. Começou a coçar um dos meus ouvidos. Me apavorei. Muito bom.

5- Os internos – Gustavo Faraon

Passei a leitura sem sentir nada a não ser tédio. Não há emoções na narrativa, tudo transcorre de forma fria. Descrições exageradas, protagonista sem carisma.

6- Dias de fome, noite de cão – Sergio Napp

Um conto razoável, mas sem surpresas.

7- O homem dos ratos

Esquizofrênico e inverossímil. Impossível acreditar que Marta tivesse suportado a situação por tanto tempo.

8- Tempestade em Coney Island – Rafael Kasper

Um primor. Excelente conto, impressivo.

9- Ventre – Roberta Larini

Comecei a leitura sentindo cheiro de clichê no ar. A velha história do psicopata e do delegado eficiente. Mas é bem conduzida e o final me surpreendeu. Bom conto.

10- Funghi – Luciana Thomé

Que conto louco! Quantos cogumelos a autora tomou antes de escrevê-lo? Rsrs

11- Vãos – Alessandro Garcia

Envolvente história. Acho que poderia ter sido um pouquinho mais curta, sem prejuízos à estrutura. Condução narrativa excelente.

12- A meia-noite do fim do mundo – Fernando Mantelli

Um conto que destoa dos demais. De certa forma caminhou bem até as batidas na porta, quando Ana ouviu o que parecia ser seu filho morto a chamá-la. A mudança de rumo, trazendo Nyarlathotep estragou tudo. Uma pena.

13- Cabeça de arroz – Annie Piagetti Müller

Vou ficar sem comer arroz por um bom tempo. A autora quis tornar o conto nauseante e conseguiu. Apesar do sucesso, não gostei.

14- O fígado – Silvio Pilau

Destarte a originalidade, a condução infelizmente não é das melhores.

15- O desvio – Antonio Xerxenesky

Errou, Antônio! Eu sou o Diabo!
Um excelente conto cujo final não pode ser entrevisto até que se chegue à última e derradeira linha.

16- Quando eles chegaram – Rafael Bán Jacobsen

Lembra argumentos já largamente utilizados em ficção científica, mas é pungente e muito bem escrito. Chega a ser desesperador. Um ótimo conto.

A faixa bônus, com o conto O cão de caça de H.P. Lovecraft, dispensa comentários.

Ficção de Polpa

12/08/2009

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Fui surpreendido com um email do Antonio Xerxenesky me perguntando se há interesse na leitura dos três volumes já publicados do Ficção de Polpa, livros organizados por Samir Machado de Machado para a Não Editora.

Claro que sim, respondi. Mas para fazer seus “comentários”,  disse-me ele. Melhor ainda, repliquei. Só que prometi para mim mesmo ser honesto nos comentários, completei. De outro jeito não teria graça, ele emendou. Então estamos acertados, mande-me os livros. Ok. Vai um Areia nos Dentes de brinde. Jura? Isso mesmo. Mas quero um Fome. Ok, mando um. Combinados? Combinados!

Devo receber estes livros por esses dias. Fiquem atentos aos próximos capítulos desta emocionante pulp ficcion.