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O grito do sol sobre a cabeça – lido e comentado

16/10/2012

Li os primeiros trabalhos de Brontops Baruq em várias edições do Projeto Portal capitaneado por Luis Braz. Foi aí que conheci a força desse contador de histórias. Causou-me tamanha boa impressão que o convidei para participar da coletânea Brinquedos Mortais. Considerei que não poderia abrir mão de um conto desse prosista surpreendente. Vê-lo lançar um livro não me causa admiração. Causaria se ele se demorasse com isso, se delongasse ou procrastinasse esse projeto.

Vale lembrar que Brontops Baruq foi o ganhador do prêmio Hydra com o conto História com desenho e diálogos, também incluído nessa coletânea.

O grito do sol sobre a cabeça reúne dezenove contos. Poderia comentá-los um a um, destacando os melhores, mas sinto que isso seria um desserviço. Não é caso para avaliações individuais — mesmo porque incorreria no risco de dar spoilers que estragariam a surpresa do leitor. Vou me ater ao conjunto da obra, discutindo-o como um corpo só, porque, apesar de multifacetado, há uma amalgama poderosa que os une numa só alma.

Brontops Baruq desfia um rosário de distopias. Mas não é um distópico ordinário, não. Ele foge à regra carregando-nos numa prosa elaborada, como engrenagens bem azeitadas, até quando não há mais escapatória. Só nos damos conta do fim quando não podemos mais escapar dele. A tessitura muito bem engendrada confere um raro prazer à leitura.

Na orelha do livro há o parecer de Caio Silveira Ramos e ele destaca a ferocidade do autor, o deslumbramento de sua obra, a perturbação e a sensação de estranhamento que provoca. Concordo. Mas quando sugere que Brontops não faz ficção científica senão de passagem apenas para corrompê-la, ignora o óbvio. A ficção científica é a alma da obra — embora desfilem também o insólito e o surreal. Destarte as metáforas, as referências, as críticas sociais — que existem em qualquer obra mais comprometida seja de que gênero for.

Brontops Baruq mostra que faz parte de uma escola onde qualidade de prosa e literatura de gênero convivem magnificamente bem. Demonstra que forma e conteúdo só melhoram, só engrandecem a literatura fantástica.

A sombra do sol sobre a cabeça

Editora: Terracota
Gênero: Contos fantásticos
Formato: 14 cm x 21 cm
Páginas: 166

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Capa da coletânea Brinquedos Mortais revelada.

22/03/2012

Brinquedos Mortais nasceu a partir do conto de Saint-Clair Stockler que, mesmo curto, me causou impacto. Enxerguei na mesma hora a possibilidade de ampliar o universo que aquele conto apenas permitia entrever e idealizei essa coletânea. A Editora Draco abraçou a proposta e pusemos, então, mãos a obra. Poderíamos tê-la aberta inteira para submissões, mas nos preocupamos prioritariamente com a qualidade literária e, para evitar longas buscas e exaustivas análises, achamos por bem convidar seis integrantes, certos de que não nos decepcionariam (e, de fato, não nos decepcionaram).

São eles: Ataíde Tartari, Braulio Tavares, Carlos Orsi Martinho, Lúcio Manfredi, Luiz Bras e Roberto de Sousa Causo.

As outras quatro vagas nós as deixamos para a disputa de contendores hábeis. E que vencessem os melhores. Foram muitas as submissões e algumas delas tão boas que nos causaram verdadeira dor deixá-las de fora.

Os quatro selecionados foram:  Brontops Baruq, João Beraldo, Pedro Vieira e Sid castro. Com as narrativas dos organizadores, a coletânea perfaz ao todo doze contos.

Sinopse oficial:

Brinquedos mortais, uma coletânea organizada por Saint-Clair Stockler e Tibor Moricz, reúne 12 autores que apresentam universos díspares e, ao mesmo tempo, convergentes, dialogando com o inusitado, o assustador, o cômico e o repulsivo. Burilam seus textos com cuidado cirúrgico, capricham na prosa para oferecer aos leitores uma excelente literatura de entretenimento.

Bonecos cheios de más intenções, brinquedos ameaçadores, jogos estranhos e perigosos. Narrativas onde a morte é uma constante e onde a vida em todas as suas formas está sempre por um fio.

Ataíde Tartari , Braulio Tavares, Brontops Baruq, Carlos Orsi Martinho, João Marcelo Beraldo, Lucio Manfredi, Nelson de Oliveira, Pedro Vieira, Roberto de Sousa Causo, Saint-Clair Stockler, Sid Castro e Tibor Moricz convidam os leitores a penetrar em mundos ameaçadores e a compartilhar essa fascinante e mortal experiência.

Breve sinopse de cada conto:

• Um FDP blindado (Ataíde Tartari)

Numa releitura de Dorian Gray, o conto narra a cabulosa história de Dagá, um rapaz protegido de todas as terríveis consequências de seus atos por um incrível artefato Hi-Tech.

• HAXAN (Braulio Tavares):

Num futuro próximo, um grupo de garotos se diverte praticando pequenas transgressões, fugindo das milícias armadas, e usando aparelhos de realidade virtual com fins educativos para brincadeiras violentas.

• Astronauta (Brontops Baruq)

“As câmeras de observação de raios-x já foram objetos de uso puramente militar. Hoje qualquer camelô vende uma de brinquedo tão boa quanto as usadas pelo Exército. Com estes binóculos, é possível acompanhar a rotina e os rituais de um estranho casal, que mora no edifício em frente. Dentro de alguns minutos, será chamada a polícia. Não é maldade, é apenas outra brincadeira.”

• Grande Panteão (Carlos Orsi):

Deuses ou brinquedos? No grande panteão, sacerdotes de todas as crenças e divindades preparam seus encantos para o festival, mas nem tudo que parece mágica realmente é: engrenagens, carvão e vapor criam os milagres a que milhares de peregrinos esperam assistir.

• Brinquedo perfeito (João Beraldo)

Explorar o espaço pode ser mais fácil do que lidar com uma adolescente. É o que descobre Thiago, viajante espacial e pai solteiro. Tentando se aproximar da filha, compra em uma de suas viagens o presente perfeito.

• Hipocampo (Lúcio Manfredi)

Um game, um cavalo marinho, labirintos intermináveis e mundos paralelos. Cuidado com suas escolhas. Elas podem mudar drasticamente o mundo à sua volta.

• Daimons (Luiz Bras)

Daimons (antiga palavra grega que significa espíritos) é sobre um grupo de brinquedos inteligentes conspirando contra a hegemonia humana. Os brinquedos querem tomar o poder e pra isso precisam da ajuda das crianças, que eles tentam manipular a seu favor. Nesse conto, os brinquedos agem como consciências más, sussurrando ordens no ouvido das crianças, torturando as mais desobedientes.

• Austenolatria (Pedro Vieira)

Em Austenolatria, o estranho fetiche de um professor de literatura inglesa pelas heroínas da obra de Jane Austen deixa de ser inofensivo quando provoca ciúmes em Elizabeth Bennet e seu seleto círculo de amizades.

• Um herói para Afrodite (Roberto de Sousa Causo)

Tudo começa quando Leandro Vieira adquire, por uma pechincha, uma estatueta, estranhamente erótica, de uma mulher de beleza estonteante. Uma brincadeira revela que a deusa representada na estátua o quer como seu herói. O preço a pagar é, porém, muito alto.

• O homúnculo (Saint-Clair Stockler) 

A mais perfeita engenharia genética. Homúnculos para o deleite, para o prazer de adquirentes perturbados pela rotina. Uma brincadeira que deixa de ser divertida para começar a ser dolorosa.

• O segredo do McGuffin (Sid Castro)

Nos sombrios módulos da mais antiga Estação Espacial do Universo, na gigantesca Central da Galáxia, o detetive Sol Spada enfrenta a sedução de uma sereia laureana, a ameaça de gangsteres alienígenas e a desconfiança de um policial robô de dúbia honestidade, enquanto busca o McGuffin, um artefato dos Primordiais que pode conter… o Segredo do Universo!

• Boneca Dendem, feliz quem a tem (Tibor Moricz)

A ânsia de sentir o plástico e os circuitos internos de seus corpos substituídos por carne e sangue, move um a um os bonecos de uma cidade inteira numa viagem ao passado na busca incansável dessa realização.

***

Fiquem ligados que o lançamento é breve, muito breve… 🙂



Portal 2001 – Lido e comentado.

14/09/2010

Ter recebido todos os cinco portais tem sido uma honra que devo a Nelson de Oliveira, a quem agradeço pela enorme generosidade.

Recentemente me inquiriram sobre os dois primeiros (Solaris e Neuromancer) e se eu os tinha lido e comentado aqui no blog. Até pensei que tinha e fui procurá-los. Com surpresa descobri que, embora os tenha lido, não os resenhei.

Fica para uma próxima encarnação, então.

Perguntaram-me também porque ainda não tinha publicado nenhum conto nos portais. Respondi que até ia publicar no Neuromancer, mas problemas financeiros súbitos me impediram. Depois acabei desistindo por optar em manter um comportamento único para todas as coletâneas pagas. Ou seja: se tenho que pagar, então não participo.

Isso não tem nada a ver com qualidade editorial ou literária. Nem se se trata de coletânea caça-níquel ou não. Apenas critério.

Quanto ao Portal 2001, recebi e o li quase numa só tacada (tá, uma tacada que demorou uns cinco dias… rs). Gostei bastante desse, talvez mais que dos demais. Ainda assim há contos que não conseguiram dialogar comigo, nada tiveram a me dizer. Assim, ignorarei a esses, não os comentando (Não significam que sejam ruins, embora alguns sejam, sim, eca!). Poupo o meu vernáculo e poupo a integridade intelectual do autor.

Vamos aos meus comentários:

A república do recurso infinito – Braulio Tavares.

Braulio Tavares é hoje uma unanimidade nacional (por mais que toda a unanimidade seja burra, segundo Nelson Rodrigues). Dono de uma verve excelente e admirável criatividade. Nesse conto ele consegue ser bastante desconcertante. A excelência levada à enésima potencia fragmenta a sociedade em compartimentos cada vez menores e burocraticamente controlados. Traz como resultado a opressividade do controle estatal sobre o indivíduo.

Arribação rubra – Roberto de Sousa Causo.

O conto é um prosseguimento de trabalhos anteriores, publicados desde o primeiro Portal. Shiroma é a protagonista, uma agente mortífera e arduamente treinada. Assassina, trata-se de uma ferramenta eficaz nas mãos de tutores inescrupulosos. Dessa vez vi uma personagem mais falível. Não tanto inatingível ou implacável. O autor revelou que por trás da carapaça de eficácia se esconde uma mulher frágil e com anseios bastante humanos. Shiroma mesmo sob um aparente fracasso, completa sua missão de forma bem sucedida. Gostei muito da ambientação e do cenário. Dos contos do Causo com essa protagonista, o melhor até agora.

A paz forçada – Mayrant Gallo.

Nesse conto, o autor explora um futuro próximo onde questões políticas aparentemente insolúveis entre países, são resolvidas com pulverizações continentais. Mostra um avanço científico e tecnológico irreal para daqui a 30 ou 40 anos. Narrativa fluida e até contagiante, porém superficial. Mostra uma nova ordem mundial geopolítica numa abordagem muito periférica.

Além do espelho – Claudio Parreira.

Bebum numa mesa de bar devaneia ou vive uma realidade que só ele é capaz de atingir. Homem desesperado pela perda da mulher a quem amava faz trato com figura misteriosa, fruto do entorpecimento de seus sentidos ou entidade fantástica. Realidade e fantasia se misturam de forma que somos incapazes de dizer qual delas domina o cenário.

Sentinela – Delfin.

Avanço científico e tecnológico permite ao homem criar clones de si mesmo, estéreis, porém. O que não se poderia supor é que essa criação se tornasse independente, reivindicando direitos que antes não possuía. O problema se torna tão emblemático que apenas a guerra poderá resolver. É quando soluções alternativas são elaboradas. Boa narrativa de viagem no tempo, linguagem consistente e boa solução, embora relativamente previsível.

Herdeiro dos ventos – Mustafá Ali Kanso.

Esse conto me surpreendeu. Bela e poética narrativa sobre a necessidade de ser livre nos atos e pensamentos, sem patrulhamento ideológico e sobre a prisão que os incompetentes, os invejosos, os frustrados e os amargos constroem ao redor daqueles que buscam a realização pessoal.

Uma carta para Guinevere – Mustafá Ali Kanso.

Homem em vias de realizar uma viagem espacial e se ausentar da Terra por séculos em voo subluminar redige a derradeira carta aos que ama. Poético como o anterior, mas não tão intenso nem tão deslumbrante.

Planetas invisíveis: Diana – Brontops Baruq.

Em fuga de crises sucessivas, povo encontra na miniaturização a solução para seus problemas até que o verdadeiro problema se torne a miniaturização. Cenário fascinante que mereceria um trabalho mais longo. Uma novela ou um romance. Criativo e admirável.

Rebobinados – Brontops Baruq.

Presidiário enviado em viagem de 1.800 anos junto a um maníaco sexual. Luta diuturna para manter a integridade física. Interessante (embora absurda) concepção de longevidade para que os protagonistas terminem a viagem ainda vivos. Bem conduzido e construído.

Prometeu acorrentado reboot – Sid Castro.

Nave terráquea encontra planeta gigante com fascinante estrutura de vida. Boa condução embora tenha sido bastante previsível. A complexidade científica apresentada escapa ao meu conhecimento.

Novo Início – Marcelo L. Bighetti.

Esse conto mexe com argumentos difíceis de deixar de lado, pelo menos para mim. Nazismo, ufologia e viagem no tempo. Trata-se por isso, de um trabalho com o condão de me prender na poltrona, logo nas primeiras linhas. Por outro lado, o autor comete alguns pecadilhos. Um deles é o de entregar o final do conto logo na quarta página, tirando qualquer surpresa do leitor. Outro se vê na aparente necessidade de enxugar o texto. Coisas ficaram mal explicadas, como, por exemplo, o que a descoberta de um disco voador com tripulantes moribundos tem a ver com uma passagem temporal (ou buraco de minhoca). O autor não explica como os cientistas chegaram às suas conclusões. Também ignora as inúmeras possibilidades de alteração de passado que redundariam em futuros os mais díspares e não apenas naquele que encerra o conto. Assim, embora o argumento seja fascinante, faltou a ele maiores explicações para que tivesse mais consistência. Como uma parede de tijolos sem argamassa. Qualquer esbarrão e vai tudo por terra.

Contato alpha 9 – Rodrigo Novaes de Almeida.

Esse conto me fez lembrar vagamente de O túnel do tempo pelo estilo de narrativa. Observadores externos assistem momentos históricos extraídos dos sonhos de humanos. Buscam por um artefato com o poder de destruir toda a galáxia. O conto traz coordenadas geográficas que tive a pachorra de verificar. Não são aleatórias (Que cada leitor faça a mesma verificação e descubra a que lugares representam). Segue um bom ritmo.

Neve e sanduiches, A gruta de Vênus, Eblon, Mãos de borracha – Maria Helena Bandeira.

Os quatro contos seguem os mesmos parâmetros dos trabalhos anteriores dessa autora. Com um pouco menos de hermetismo, talvez, mas ainda demonstram o desinteresse numa história linear, com começo, meio e fim, perfeitamente delineados. Isso não é ruim. A autora brinca com situações cotidianas em cenários alienígenas ou não, cenários bizarros ou fantásticos, mas cientificamente alterados indicando um tempo (ou realidade) além do nosso. Não são particularmente bons, mas também não são particularmente médios (ruins não são). Me deu aquele gosto de gostei/não gostei tanto. Na necessidade de classificar, opto então por um bom.

Primeiro de abril: Corpus Christi – Luiz Bras.

Cidade autoconsciente sofre ataques que visam penetrá-la, compreendê-la e, se possível, neutralizá-la. A história confusa, alegórica e aparentemente sem sentido me obrigou a erguer a suspensão de credulidade e passar a lê-la como um texto de fantasia.

Futuro do pretérito Ricardo Delfin.

Narrativa muito interessante, inteira no futuro do pretérito. Remete-nos a uma espécie de fast forward antecipando acontecimentos futuros dramáticos. Nada a ver com FC (pra mim), tem os dois pés no fantástico.

Gazeta marciana – Ricardo Delfin.

Notícias de uma Marte futurística onde o homem já a colonizou e nela construiu suas cidades. Ambiente curioso embora nada muito diferente daquilo que vivemos agora. A existência de uma civilização marciana nativa desloca o conto da FC para a fantasia, descaracterizando o cenário.

Amor perfeito – Rogers Silva.

Ode ao amor entre dois antagônicos pós-apocalipse permite inúmeras reflexões. Narrativa de orações extensas e que nos obriga a uma leitura atenta. O risco de se perder entre os dois narradores é grande. Texto muito bem trabalhado, embora eu creia que se prolongue demasiadamente, tornando-a cansativa.

Alterego – Lido e comentado.

02/09/2010

A coletânea Alterego (Terracota Editora), organizado por Octavio Cariello traz um conjunto de vinte contos heterogêneos; mainstream, com um pé ou dois no fantástico e os assumidamente de gênero.

Talvez seja a coletânea mais equilibrada que li até agora. A maioria dos contos se estabelece nos patamares de avaliação “Bom” e “Ruim”, dividindo oito indicações cada uma. Três “Médio” e um “Eca!” a completam.

No caso dessa coletânea me sinto na obrigação de esclarecer uma coisa. Quando avalio alguns contos com um “Ruim” eu o faço seguindo os mesmos parâmetros que utilizo nas leituras de contos fantásticos. Ora, existem aqui alguns contos realistas e eles se diferem dos de FC / Fantasia / Terror, abrindo mão do enredo elaborado em benefício maior ou menor da forma. Assim, mesmo não me sentindo confortável em julgá-los, não creio que deva abrir mão de meus critérios avaliativos só porque se trata de um gênero e não do outro.

Isso poderá parecer injusto para alguns.

Mas que não se aborreçam esses autores, considerando minhas avaliações como uma experiência transgênero. Alguns contos assumidamente de gênero em Alterego também não atingiram nível satisfatório de qualidade.

1- Claudio Brites – Território –

Funcionário do metrô de São Paulo revela personalidade assassina oculta por verniz social que o torna respeitado e admirado pelos outros. Conto curto, com bom desfecho.

2- Valdo Resende – Jennifer, mamãe, é estéril –

Mineiro recém-chegado à capital interessa-se por morena sedutora. Flerte segue até que a morena cede aos encantos de Luiz Geraldo. Narrativa bem conduzida guarda um final bom mesmo que relativamente previsível.

3- Renato Lacerda – Fuga –

Homem perturba-se com sonhos recorrentes. Perseguições que o afligem. Pouca intimidade com a linguagem e condução fraca leva o leitor ao final previsível e insosso.

4- Albano Martins Ribeiro – Todos os luxos o lixo –

Adonis / Argemiro. Personagem alterna duas personalidades, cada uma vivenciando uma realidade distinta, mesmo que na mesma maloca, na mesma favela e com a mesma mulher. Boa condução onde a alternância de um para outro se dá com segurança.

5- Mario Carneiro Jr – O salteador noturno –

Adolescente magrelo se transforma em super-herói e tenta salvar a vida de mocinhas indefesas. Mas a condição que o tornou poderoso acaba se voltando contra suas próprias convicções e as mocinhas indefesas se tornam suas vítimas. Embora a ideia não seja ruim (até começa bem), a condução vai fraquejando até morrer sufocada na última linha.

6- Weberson Santiago – Ao vivo e em cores –

Programa de fofocas de TV acaba revelando mais do que o protagonista poderia supor. Não me conectei à história desde o início, lendo-a com um distanciamento que impediu qualquer tipo de avaliação mais efetiva. Achei o conto fraco.

7- Luciano Marques – O incrível Mccoy –

Western fantástico onde fora da lei possui características extraordinárias. Fui surpreendido com esse conto. Ideia interessante, boa condução e final previsível mas competente.

8- Roger Cruz – Seven boys e o enforcado –

Garoto que utiliza caminho alternativo para a escola acaba, mais tarde, surpreendido com um homem enforcado numa árvore. Narrativa apática, sem sal e sem razão. Não me disse absolutamente nada.

9- Weber Sauerbrown – Alterego –

Interno de manicômio dá escapadas onde vive outra personalidade. Conceito recorrente. Condução irregular.

10- Marcela Godoy – O guardião –

Carcereiro convive consigo mesmo, suas memórias, verdades ocultas e medos. O reflexo de si mesmo trazido à tona e expulso de forma dolorosa. Narrativa consistente e bem controlada.

11- Pedro Reichert – Algo anda nestas ruas –

Personagem caminha pelas ruas da cidade de madrugada e vê cenário de morte e desolação. Tentativa fracassada de criar clima de terror. Linguagem pouco hábil, repleta de erros de construção, transforma o conto num sacrifício de leitura.

12- Felipe Castilho – Saindo do armário –

Paciente que pensa que é super-herói nas horas vagas é tratado por médico que pensa que é herói em tempo integral. Sem novidades.

13- Patrícia Vieira – As ilusões que a madrugada traz – 

Vigia de condomínio fechado esconde verdadeira identidade para cumprir com objetivos criminosos. Como narrativa, legal, como manual para um assassinato, sem chances. O protagonista não ficaria um único dia livre depois disso. Mas gostei.

14- Brontops Baruq – O xadrez das mariposas –

Protagonista entediado e aborrecido relata a rotina cotidiana de uma cidade repleta de superpoderosos cujos poderes são concedidos burocraticamente através de cartas oficiais enviadas pelo correio. Narrativa que não esconde ironia nem sarcasmo na crítica social que realiza.

15- Thiago Pedrosa – A esperança é azul –

Personagem autodestrutiva se refugia na fantasia de ser um super-herói, acabando por sê-lo em momento dramático da história. Embora seja até comovente nas cenas que protagoniza, a história é clichê e não consegue fisgar.

16- Bruna Brito – Velhos amigos –

Quatro amigos se reúnem num bar para um encontro depois de certo tempo sem se verem. Ao final revelam as suas identidades ao leitor o que causa certo surpreendimento. Mas, fora isso, a narrativa é arrastada.

17- Alex Lopes – Redenção do inocente –

Narrativa relata o surgimento de um novo super-herói e a formação, a posterior, de uma espécie de liga da justiça. História clichê, amparada em centenas de outras que seguiram o mesmo argumento. Final bobo.

18- Gian Danton – Intangível –

Personagens com poderes correm a tentar salvar a vida de outro que não consegue controlar seu poder de intangibilidade. Conto relativamente curto, bem trabalhado, que consegue manter o ritmo e a atenção do leitor.

19- Guilherme Beltrami – A rosa –

Homens extrovertidos e populares mudam completamente depois de se relacionarem com Rosa. História de amor e traição elevada à enésima potência da chatice.

20- Octavio Cariello – Labirinto –

Criminoso recluso, vivendo uma vida postiça para fugir da lei corre o risco de ser escorchado por travesti. Clichê e previsível até a última linha.

Cartas do fim do mundo. Lido e comentado.

30/07/2010

A coletânea Cartas do fim do mundo, organizada por Nelson de Oliveira e Claudio Brites e publicada pela Terracota Editora parte de uma premissa que considero excelente. Imagine que o mundo vai acabar no dia 31 de julho de 2013 (bem no dia do meu aniversário) e você decide escrever uma carta para alguém, seja familiar, amigo, conhecido, desconhecido ou para ninguém, apenas um relato solitário e histórico dos momentos angustiantes que precedem o fim.

Celeiro de ideias incríveis, o mote nos suscita argumentos variados.

Até preferia que autores reconhecidamente realistas mantivessem o foco no gênero em que se estabeleceram e consagraram. Não sei se a sugestão de adentrarem no terreno da FC foi objetiva ou subjetiva. Se houve uma sugestão direta ou se isso ficou no ar, meio que uma proposição vaga e não obrigatória.

O que aconteceu foi que autores chapinharam no inverossímil ao tentar acrescentar uma especulação científica qualquer às narrativas que, sem elas, evoluiriam muito bem. De qualquer maneira, os textos são bons. Aconselho aos leitores de gênero que ignorem sugestões de naves mães conduzindo um êxodo de humanos para planetas distantes em pleno ano 2013. Ou essas sugestões se ancoram numa realidade alternativa muito mal sugerida, ou são arroubo fantasioso, talvez motivado pela angústia provocada pelo fim do mundo iminente.

Há, claro, narrativas de FC genuína. E essas, escritas por quem entende do assunto, graças aos deuses.

Segue abaixo um por um dos contos, alguns com meus comentários:

1- Raimundo Carrero – Entre fogo e gelo – 31 de julho de 2013

Um desolado relato do que restou do mundo, entremeado das reminiscências do protagonista. Texto condoído que revela muito da insensibilidade humana diante do inevitável.

2- Marcio Souza – Ipanoré Cachoeira – 31 de julho de 2013

Lenda indígena explica o fim do mundo.

3- Braulio Tavares – Campina Grande – Agosto 2014

Presente e futuro (ou passado e futuro) ligados por um comunicador quântico. Fim do mundo anunciado, improrrogável e inevitável.

4- Moacyr Scliar – Porto Alegre – 10 de agosto de 2013

Conto que relata o fim do mundo para um e não para todos. Homem que crê em novo dilúvio universal refugia-se em local que acredita seguro. Mas o fim sempre nos encontra onde quer que nos escondamos.

5- Marcelino Freire – Sertânia – 31 di Julio di 2013

Homem do sertão narra o fim do próprio mundo onde o mundo acaba todos os dias. Marcelino insere uma viagem à lua perfeitamente dispensável. A realidade concreta de um homem habituado à luta diária pela sobrevivência  sequer cogita viagens espaciais.

6- Xico Sá – São Paulo – 31 de julho de 2013

Crônica cotidiana, reclamações e constatações. Fim do mundo aguardado com festividade e desdém num botequim.

7- Menalton Braff – Terra, 30 de junho de 2013

Distopia revela um planeta completamente esgotado. Humanidade regride às suas condições mais primitivas. Especulação inverossímil. Muito pouco tempo para que tal magnitude de degradação nos atingisse.

8- Luis Dill – Londres – 31 de julho de 2013

Droga psicotrópica nova demonstra poder muito acima das expectativas. Viagem no tempo e o fim do mundo explicado de maneira muito convincente.

9- Marne Lucio Guedes – Mundo – 31 de julho de 2013

Conto intenso. Homem liberto da fé a que se entregou avidamente ao tomar conhecimento do fim do mundo mergulha no vício e na degradação. Texto forte e muito bem trabalhado.

10 – Moacyr Godoy Moreira – São Paulo – 31 de julho de 2013

Criminoso em penitenciária se penitencia ao irmão pio. Alusão a êxodo humano em busca de novos planetas põe o conto em xeque. Inverossímil, embora pungente.

11 – Brontops Baruq – Metrópolis – 30 de julho de 2013

Já publicado num dos Portais. Conto cru, pragmático e pungente. Lamento ter sido alterado. Provavelmente uma exigência editorial que não esconde a sombra pútrida da censura, mesmo que razões internas tentem justificar.

12- Claudio Brites – Cidade desconhecida – 3 de agosto de 2013

Conto narrando um final de mundo que me faz lembrar vagamente de Blecaute de Marcelo Rubens Paiva e Escuridão de André Carneiro. Junte alguns gigantes e voilá! Uma narrativa enlouquecida do último homem (zumbi?) sobre a terra.

13 – Luiz Bras – São Paulo – 31 de julho de 2013

Homem do futuro envia carta a homem do passado. Pequeno detalhe: trata-se do mesmo homem. Fim do mundo prenuncia revolta de cupins, baratas e (trecho ilegível). Construa uma (trecho ilegível) ou morra dolorosamente.

14 – Fausto Fawcett – 31 de julho de 2013

Firma promotora de apocalipses mata o leitor desavisado com verborragia intensa e coordenada e deixa o senhor Armageddon em maus lençóis. Os pólos magnéticos continuam numa boa, os ventos solares também, mas acho que precisarei passar uma temporada numa câmara hiperbárica.

Brinquedos Mortais anuncia autores selecionados.

05/04/2010

Foram, desde o início do chamado de submissão até agora, mais de quatro meses. Tempo bastante para convidados e concorrentes prepararem seus trabalhos, exercitarem sua prosa e, com talento, ajudarem a construir uma boa coletânea.

Já estava mais que na hora de trazer a público os vencedores entre os candidatos às quatro vagas restantes, sendo que as outras oito já estavam reservadas aos autores Luiz Bras, Carlos Orsi, Lúcio Manfredi, Braulio Tavares, Roberto de Sousa Causo, Ataíde Tartari, Saint-Clair Stockler e Tibor Moricz.

Foram mais de 50 contos enviados. Muitos fragilíssimos, alguns razoáveis e alguns muito bons. Fazer a escolha final não foi fácil e fiquei pendente entre dois autores por bastante tempo, evitando decidir sem ter certeza absoluta de não estar cometendo alguma injustiça.

Os quatro escolhidos são:

1- Sid Castro com McGuffin.

2- João Beraldo com Brinquedo perfeito.

3- Brontops Baruq com Astronauta.

4- Pedro Vieira com Austenolatria.

Meu muito obrigado a todos os que mergulharam de cabeça nesse projeto, contribuindo com seus trabalhos, aprovados ou não.

Agora é tocar a bola para a frente, que as livrariam nos esperam.

Portal Fundação – Comentários 2ª parte.

12/01/2010

Animmalia – Giulia Moon e Roberto Melfra

Esse conto traz um cenário exótico, pra dizer o mínimo. Inusitado também. Animais objetos de estudo de uma empresa de entretenimento desenvolvem mais que simples respostas a alguns comandos pré-estabelecidos. Matam em defesa própria. Uma narrativa bem fluente e trama detetivesca divertida e bem conduzida.

Habeas mentem – Ricardo Delfin

Esse é, ao meu entender, o conto mais fraco desse Portal. Narrativa apressada, confusa e equivocada em alguns momentos.
O autor desse conto foi fagocitado pela idéia (parafraseando o Braulio Tavares) e esqueceu de que estava fazendo literatura. Apresentou-nos a ideia e esqueceu-se de contar a história.

Sob as sete luas de sirena – Luiz Roberto Guedes

Ótimo conto. Ficção científica e horror numa trama muito bem ambientada.

O guarda-mor, a urutu dourada e o disco voador – Martha Argel

Conto em ritmo de “causo”, dando uma explicação bastante criativa para a existência de OVNI’s em regiões rurais, praticando abduções. Narrativa bastante divertida. Um bom conto.

A pescaria – Maria Helena Bandeira

Cenário exuberante, mas um conto incompreensível.

Até acabar este cigarro – Maria Helena Bandeira

Vixe…

Parállaxis – Maria Helena Bandeira

Qual é…

Opções imperfeitas – Maria Helena Bandeira

Cartoon Network rules.

Sol velho – Maria Helena Bandeira

Um conto perturbador. Cenário inquietante, perspectiva assustadora. Gostei muito.

Deslocalidade – Marco Antonio de Araújo Bueno

Já tinha lido esse conto antes, creio que no blog do autor. Muito bom. Cenário distópico perturbador. Narrativa muito bem conduzida. O Marco é um artesão da palavra, só fico puto quanto ele resolve liberar seu lado lisérgico e extrapola na punhetação.

Eu? – Marco Antonio de Araújo Bueno

Cadê a FC? Todo o traço de ficção científica devia estar dentro do lápis vermelho. Como não achou o lápis, não achou o traço. Ficou só o blá-blá-blá.

O prelo – Marco Antonio de Araújo Bueno

Olha a punhetação, aí.

Índex – Rodrigo Novaes de Almeida

Muito chato. Parei de ler duas páginas antes do fim.

Corpo seco – Leandro Leite Leocádio

Cadê a FC? Ainda no traço do lápis vermelho que desapareceu. Corre que o Seco pega!

O cérebro – Leandro Leite Leocádio

Conto bastante interessante e com abordagem original. Passa pela FC de raspão. Gostei.

O homem que parava o tempo – Leandro Leite Leocádio

Poesia transformada em prosa (proposital). Pra mim, não funciona. Fica parecendo um texto cheio de rimas e ecos; falhas de estilo.

Sésamo, bananas e kung-fu – Brontops Baruq

Bem escrito, mas passei batido pela leitura. Não me fisgou.

(hipocampo) – Brontops Baruq

Bom exemplo de que rigor narrativo, precisão de estilo e atenção à forma não impedem o desenvolvimento de uma boa história.

(história com desenho e diálogos) – Brontops Baruq

O autor mostra que tem talento para causar perturbação. Drama familiar durante ataque alienígena em guerra contra a humanidade. Um ótimo conto em ritmo de diário ou de literatura apócrifa.