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De como um desabafo se transformou num pródigo debate, OU como o fandom e o mercado ainda rendem animadas discussões.

03/05/2012

Aborrecido depois de um longo bate-papo com o Ivo Heinz no Facebook, fiz um desabafo a respeito do fandom. Minha opinião a respeito dessa entidade não é nova, mas não consigo me controlar e acabo externando minhas mais profundas emoções a esse respeito de tempos em tempos.

Gente, na boa. FC brasileira não é lida nem pelo fandom. O nicho, que deveria prestigiar a nossa FC, lê os estrangeiros mas não lê o que a gente faz aqui dentro. Esse nicho, esse fandom, é uma merda. Não presta pra porra nenhuma”.

Não pensei que essa reclamação mal educada pudesse resultar na troca de ideias que resultou. Sinal claro de que existe vida inteligente no fandom.

Posto isso aqui porque muita gente que conheço não tem página no Facebook ou frequenta aquele espaço muito raramente. Ah, e também porque o blog andava muito paradinho, o coitado.

Há salvação para a literatura de FC no Brasil?

***

Rauda Graco To ligado faz tempo!

Tibor Moricz Tem autor brasileiro competentíssimo contando nos dedos o número de autores que o leram (e não estou falando de mim, que também conto nos dedos esses leitores).

Rauda Graco Eu li seu livro e nem to a fim de entrar nesse fandom tão mal falado. Tento me manter longe. Quando der na ideia publicar os meus materiais também tentarei me descolar dessa amarra sinistra que é o tal gênero que acredito, mais fecha que abre caminho. sei lá, to bebendo uma, desconsidere as besteiras. Hehehhehe

Tibor Moricz Pô, preciso beber uma também… rs

Cirilo S. Lemos Por isso que essa coisa de fandom precisa ser superada.

Tibor Moricz Mas as editoras menores publicam especificamente para ele. Não têm alcance pra fugir do nicho. Aí a coisa fica difícil. Então você não é lido e ainda escuta que seu livro é ruim (porque não vende – essa é a lógica cruel de mercado).

Cirilo S. Lemos A luta é essa. Aumentar o alcance dos livros se enfiando em cada espaço que aparecer, por menor que seja. É difícil, eu sei. :/

Marcelo Jacinto Ribeiro Tibor, Tibor, porque tanto amargor em seu coração ?

Marcelo Jacinto Ribeiro mas que vc tá certo tá, sejamos claros e sinceros…

Tibor Moricz Tive um papo agorinha mesmo com o Ivo Heinz e esse papo me deixou puto.

Horacio Corral Depois de muito lutar fazendo eventos com a Opelf, tanto eu quanto a Janaina, percebemos, de maneira irrefutável, que o problema era a ausência de leitores. As primeiras perguntas da segunda mesa-redonda sobre FC na Livraria Cultura foram nesse sentido e o próprio Gerson Lodi-Ribeiro, concluiu, ao vivo e em cores (também tenho isso gravado em vídeo), que ele, e os outros escritores de FC, escreviam/produziam obras para si mesmo e que eles mesmos se liam, pois ninguém, efetivamente, lia suas obras. As ações da Opelf, prévias à sua extinção, foram focadas na formação de leitores, porque o resto, no geral, era mera vaidade e um brincadeira de alguns egos com o espelho e o que lá era refletido. O meu incluso. Uma vez que tomamos essa direção. A Opelf acabou. É curiosíssimo ver escritores que se autorrotulam de underground, alternativos e/ou independentes e se orgulham disso como se eles fizessem parte de alguma resistência contra um mainstream que sequer existe no Brasil. Não temos nenhum Asimov, nenhum Tolkien. Dito isso, essa atitude, significa na imensa maioria dos casos, que ninguém tem interesse suficiente em sua obra como para investir nela e não que você é bom mas não te reconhecem. Mas a atitude na muda e mina, e complica, ainda mais o trato com editores e editoras. Você tem alguma sugestão de remédio, terapia ou processo revolucionário para mudar isso, Tibor?

Eduardo Jauch Hum… Isso é preocupante… FC & Fantasia São meus gêneros preferidos e tenho trabalhado em um conjunto de histórias de FC ambientadas em um futuro não muito distante. Ou distante, sei lá. Mas então, quer dizer que eu tenho que escrever em Inglês se quiser ser lido??? O.o

Ademir Pascale Faço o possível para divulgar autores nacionais em minhas entrevistas que já somam duzentas (a entrevista de nº duzentos foi com Octavio Aragão http://www.cranik.com/entrevista200.html). Mas senti o mesmo que você está sentindo quando vi você entrevistando e divulgando o trabalho de muitos autores internacionais. É legal saber o que eles pensam, mas perco meu tempo com meus colegas brasileiros, pois estes sim precisam de espaço 😉 Minha estante está lotada de livros e hqs nacionais. Mas tem muitos autores que gostam de colecionar livros estrangeiros apenas para ter um nome diferente e bonito na estante. Não vejo diferença no trabalho do autores nacionais para os internacionais. Alguns são diferentes, como Edgar Allan Poe que não era apenas um escritor, mas sim um gênio. Este sim merece ser reverenciado. Mas tem muitos autores nacionais bons completamente esquecidos, como André Carneiro. Um autor que tem muito para ensinar. Mas se você perguntar para um destes novos leitores quem é André Carneiro, ninguém saberá.

Tibor Moricz Caraca, que preparação longa para esse pergunta, Horacio Corral… Isso é uma entrevista? Vou pensar na sua pergunta e a respondo oportunamente.

Horacio Corral Eu queria dar mais contexto ao que você falou. A pergunta é ‘quase’ retórica. Você sabe disso. Mas é tentando respondê-la que poderemos sair da situação atual para outra diferente, espero eu, melhor.

Ivo Heinz Pois é, num papo virtual hoje com o Tibor Moricz, descobri que estávamos com a mesma ideia (ruim), de que a FCB não está tendo o “sucesso” que alguns julgam ter.

Vamos lá:

1) EU li e comentei o “Guardiã da Memória”, do Gerson Lodi-Ribeiro, e já perguntei uma vez e não tive resposta, quem mais leu??? E não estou falando de um autor iniciante, não, mas de alguém com um nome respeitável na FCB.

2) Tô vendo um monte de coletâneas e mais coletâneas, tô lendo sobre um monte de gente (aqui no Facebook e no Orkut) dizer que está escrevendo e tals…. mas vejo poucos falando do que, necessariamente, estão lendo.

3) Quem é que leu e comentou obras estrangeiras, então??? Quem é que leu “Rei Rato” e “A Separação”?? Será que só eu ????? Porra gente, são APENAS autores como China Miéville e Jeff Vandermeer, precisa falar mais?????

3) Editoras são entes empresariais, digamos assim, precisam de dinheiro pra continuar vivendo, bem como seus editores, que tem suas contas pra pagar… livro que não vende é prejuízo e tempo desperdiçado.

Véi, na boa…. Tio Ivo já viu este filme antes com a Segunda Onda da FCB….. reconheço que vocês que chegaram agora tem (na MINHA opinião) um maior pique e mais talento em potencial, sem contar que são bem mais abertos e iconoclastas (tomem isso como um elogio).

Mas…….. não estou vendo isso se converter em suce$$o de nenhuma editora, saber que tem livro que foi publicado e vendeu menos de 50 exemplares é decepcionante, até edição “de autor” (as famosas encomendadas) chegam a fazer mais do que isso.

E, vou falar DE NOVO: os iPads xing-Ling estão chegando cada vez mais baratos, a pirataria vai cair matando, como já aconteceu com a música e os filmes, estou profissionalmente envolvido com EaD (ensino à distância) num grande grupo educacional, só a ponta do iceberg já é de meter medo…… a revolução será enorme.

Ou seja, em muito pouco tempo livros DE PAPEL serão um luxo para pouquíssimos, como o são os discos de vinil…. vai lá na Galeria do Rock ver quanto custa cada um e depois me diz quantos são vendidos, OK?????

E fico triste, pois queria estar errado, mas ler as opiniões do Tibor e do Horacio Corral me fazem ver que não podemos tapar o sol com a peneira.

O futuro é digital, como fazer o povo quebrar o paradigma existente hoje de que “tá na internet, é grátis” serão outros 500, mas quem conseguir vai ganhar dinheiro…. aos outros vai sobrar só o “escrever por hobby”.

Século XXI, tão belo, tão cheio de potencial, tão vigoroso…. e tão perigoso !!!!!

Gerson Lodi-Ribeiro Às vezes tenho a impressão de que ninguém mais tem tempo de ler, estão todos escrevendo… 🙂

Horacio Corral Eu concordo contigo, Ivo Heinz, embora não tenha tido a mesma sorte que você de presenciar e participar da segunda onda de autores de FC. Eu sinto, e a lógica também indica isso, que teremos um cisma, uma separação, muito em breve, entre as editoras e produtores de conteúdo que não abrem mão de travar os arquivos (vide DRM) e aqueles que vão trabalhar, e encarar, o mercado sem esse tipo de ferramenta. Ao longo prazo, todas as empresas precisam: oferecer melhores serviços, melhores preços e satisfazer seus clientes. Elas irão se adaptar, serão flexíveis, serão inteligentes, assertivas e colaborativas, ou irão morrer. Há imensos mausoléus e túmulos da indústria da música para provar, ou indicar ao menos, a natureza desta transição. Embora pareça algo um tanto alheio, eu vejo casos visíveis entre editoras que todos nos conhecemos.Editoras que não deram valor ao seu público e o encararam com profissionalismo, editoras que não se atualizaram e ainda relutam em fazê-lo. Não falarei daqueles que na minha percepção erram, eles sabem que erram, falarei de quem acerta e de quem lidera, ou tenta fazê-lo. Para mim, a Editora Draco ocupa esse espaço. Um exemplo contextualizado com a mensagem do Ivo é possível aqui. Atualmente atuo como Diretor de Merchandising no Submarino Digital Club, entre as tarefas que desempenho esta a de selecionar títulos para a livraria e outros destaques. A única editora que publica, com seriedade, autores nacionais que posso listar lá é a Draco. Observem que o processo de criar um e-book, não é complexo nem custoso, muito pelo contrário, é mais barato. Sua distribuição pode ser feita por terceiros. Ou seja, a editora ocupa-se com aquilo que efetivamente deveria se ocupar, o que concerne ao: editorial. Tem empresas, e editoras, que precisam mudar de atitude ou vão perder o trem, e lamentavelmente, não vai passar outro tão cedo. Deixo uma dica aos senhores, em setembro, chegam praticamente todas as grandes distribuidoras de e-books do mundo ao Brasil. O “inverno” vai chegar para quem não estiver preparado.

Gabriel Boz Esses comentários me causaram um flashback de 10 anos atrás, em trocas de email na lista do CLFC…era a mesma discussão e de lá pra cá nada mudou, nossa FC não é e dificilmente vai ser mainstream, muitos acham que nem deve ser, outros que deve ser mais brasileira para se aproximar dos leitores ( funcionou???) ou mais gringa, inspirada nos mestres ( aí somos macacos de imitação)…escrever é um ofício solitário, egoísta, mas o Fandom acha que somos todos parte da FCB, de alguma onda, de algum grupo, de algum gênero, e se criticam e se elogiam, e se armam em grupos, amizades e não saem do lugar. Todos os problemas se resolvem respondendo uma simples pergunta: você escreve porque? Eu já me respondi essa pergunta algumas vezes, mas até achar a resposta certa, tenho pensado muito e escrito pouco!

Pablo Grilo Estou mirando no mercado americano da Amazon. Almejo ser algo parecido com Amanda Hoking.

Tibor Moricz ‎Horacio Corral, é muito difícil tentar fazer prognósticos de como o mercado de leitores poderia ser expandindo para abrigar a ficção científica. Acredito que não temos história no gênero, não temos um background que nos ofereça alguma comodidade em explorá-lo com o mínimo de certeza de sucesso (mesmo que relativo).
Posso só palpitar, levantar a bola.

Acredito que para fazer a FC “despertar” aos poucos, ser aceita lentamente na rotina dos leitores menos afeitos a ela (muitos por pura ignorância), seria necessário um processo de gradativa inserção. Começar com obras de FC soft, humanista, com enredos delirantes, ritmos fortes, com suspense, aventura, ação… bastante entretenimento, sem grandes voos literários (querer fazer parte do mainstream é uma bobagem, mas não descarto o processo de aproximação, absorvendo por osmose muito do que a literatura realista tem de melhor).

Obras aparentemente despretensiosas tem o condão de capturar leitores. A descoberta do gênero vai acontecendo devagar; os leitores “se dando conta” de que aquilo que estão lendo é FC. É como acostumar os jovens com Harry Potter primeiro para depois lhes dar Mark Twain.

Também defendo a criação de capas que não escancarem o gênero de imediato, que não exibam foguetes, homenzinhos de marte, planetas, anãs brancas. Se eu defendo uma inserção lenta e gradual, estaria sendo contraditório se apoiasse as capas escandalosamente autoexplicativas.

Um mercado que torce o nariz para o gênero, sequer chegará a pegar nas mãos um livro de capa tão ostensiva.

Claro que é necessária divulgação na mídia, junto a formadores de opinião. Um trabalho lendo, gradual e cuidadoso. O mercado tem potencial para um Best Seller de FC, sem que o leitor desconfie que tem uma FC nas mãos. Tudo um conjunto de ações.

Não sei se eu disse alguma coisa a ver, ou não. Talvez tenha dito um monte de bobagens.

Horacio Corral Eu acho, sincera e honestamente, que você deu uma das melhores respostas sobre isso até o momento,Tibor Moricz. Tanto que vou ‘invocar’ o Roberto De Sousa Causo e pedir a opinião dele. Afinal, eu considero vocês dois grandes observadores, e contribuidores, do que acontece na literatura de gênero brasileira. Ao ler sua resposta, inevitavelmente, lembrei do filme Vanilla Sky, que não chegou aos cinemas com um rótulo de Ficção Científica. Sequer foi mencionado em muitas das resenhas e críticas das diversas mídias. Muita gente mesmo depois de ver o filme não o considerava FC, isso não impediu que eles adorassem o filme de paixão e comentassem com seus amigos e pedissem para eles também vê-lo.

Pablo Grilo Inception por exemplo é FC e ninguém se ligou nisso, pelo contrário, viu um bom filme com elementos de psicologia e outras coisas.

Miguel Ángel Fernández Delgado Hola, Tibor, si te sirve de consuelo, lo mismo sucede en todos los países latinoamericanos

Oscar Mendes Filho O que arrasta a LitFan para o limbo é a panelinha que fica lambendo um o rabo do outro, empurrando lixo para os leitores que, enganados, deixam de lado os autores nacionais diante do trauma que tiveram. Uma vez que perderam seu tempo lendo porcaria irão atrás de autores cuja mídia “endeusa” mais e deixam de lado os escritores nacionais, inclusive os que não fazem parte da panela, mas que são encaixotados dentro do mesmo pacote de porcaria.

Cirilo S. Lemos Também acho que não escancarar rótulos é uma boa.

Miguel Ángel Fernández Delgado Hay que mostrar más interés por nuestros autores, porque si no, vienen los investigadores extranjeros a decirle al mundo que nos descubrieron y, entonces sí, algunos investigadores y lectores nacionales comienzan a leernos. Creo que es un problema de marketing y malinchismo

Horacio Corral A literatura é o que ela é, há obras que não se encaixam nos tipos de narrativas que a academia criou. Vejam o exemplo de O Cheiro do Ralo – Lourenço Mutarelli, é uma obra ‘estranha’. Os rótulos servem ao propósito de catalogar e compreender as obras e, hoje em dia, principalmente, vendê-las. Tem sub-sub-gêneros que literariamente não fazem sentido mas comercialmente são ‘necessários’.

Hugo Vera Tendo em vista os interessantes comentários feitos acima queria muito saber também a opinião dos editores sobre isso… Afinal, talvez mais que os escritores, os editores são os caras mais interessados em ganhar dinheiro com isso. Afinal, se supostamente ninguém lê, eles estão publicando para quem? Quem está comprando os livros? Eles estão se sustentando (e lucrando) com as vendas a ponto de valer a pena continuar com a empreitada? Com a palavra, os editores…

Horacio Corral Por favor, cuentamos, Miguel. En Mexico, ustedes también tienen ese problema de que todos son escritores pero nadie es lector? Otra curiosidad mía es, como son las narrativas? Son más nacionales y regionales como un Selva Brasil de Roberto De Sousa Causo o son obras abiertamente inspiradas en los autores extranjeros como William Gibson y Isaac Asimov? En el Brasil, y por lo que sé, en Argentina también, el primer problema é gravísimo.

Roberto De Sousa Causo O fandom é uma instituição importante, mas a história sugere que no Brasil ele nunca funcionou como um mercado minimamente substancial para a FC nativa. Por ser inerentemente anárquico, tentativas de esterçá-lo na direção de um ou outro interesse especial redundam na formação de feudos que rapidamente degeneram em guerrilha fratricida. O papel do fandom não é esse, mas o de manter e difundir discussões especializadas e de fomentar instituições críticas, editoriais e de formação de autores que não estão disponíveis fora-fandom. A comunidade Ficção Científica no Orkut tem 6.700 membros inscritos — fãs ativos, já que se reuniram mesmo que virtualmente, para discutir o assunto. Se um terço deles comprasse dez livros novos de FC por ano (o que não é nada) não haveria editor da área em dificuldade. Claramente, há um funil aí, no qual a literatura é minoritária, e dentro dela, o autor brasileiro mais ainda.

Roberto De Sousa Causo Em 1940, Jerry K. Westerfield, então editor de “Amazing Stories”, escreveu que, “dos 500 mil leitores da ficção científica, apenas cerca de 5 mil deles são fãs. Mas esses 5 mil fazem todo o barulho e soltam todos os fogos de artifício”. Isso foi lá na era das revistas pulp, mas no Brasil de hoje é mais ou menos essa a equação, mas numa escala menor. Naquela época, esses 5 mil provavelmente compravam todas as revistas (livros de FC ainda eram raros) e todos os fanzines, mas mesmo assim as revistas de tiragem média de 150 mil exemplares só podiam contar com eles como multiplicadores de interesse, não como mercado principal. Mas eles não tinham que enfrentar a concorrência de uma FC mais sofisticada e de maiores credenciais, que é o que toda FC não-anglófona tem de encarar.

Roberto De Sousa Causo A ideia de conquistar um público não previamente interessado em FC é interessante como um princípio e como um conceito geral a que toda a literatura de gênero deveria almejar, sem o velho ranço de que, ao fazê-lo, deixaria de ser de gênero. Mas isso é muito difícil de visualizar — e de realizar — coletivamente. Assim como o velho argumento de que o que falta à FC brasileira é marketing, não mencionando que falta antes dinheiro para encomendar esse marketing. Por isso é bom sempre lembrar que, como na equação de Westerfield, entre o fã de FC e o leitor comum, há ainda o leitor de FC que não é um fã ativo. Se o fandom brasileiro são 500 fãs que fazem todo o barulho e soltam todos os fogos, talvez haja 5 mil ou 50 mil leitores potenciais já interessados no gênero. Eles certamente são mais fáceis de abordar. Mas, novamente, há aquela histórica desconfiança do público em geral quanto à capacidade do escritor brasileiro de escrever literatura de gênero — seja ela FC, fantasia ou ficção de detetive, ficção militar ou outra.

Roberto De Sousa Causo Enfim, a história da FC no Brasil também nos lembra que o gênero teve efervescência e mercado (embora nenhuma respeitabilidade critica) entre 1960 e meados de 1980 — e depois disso foi morto pelos diversos planos econômicos. De lá pra cá a cultura empresarial das editoras assumiu o bordão de que “ficção científica não vende”, ou passou a se focar em outros nichos — autoajuda, ficção urbana pós-modernista, divulgação histórica, e finalmente, a onda que todos surfam agora, a literatura jovem-adulta. Isso quer dizer que a FC como ramo editorial está renascendo hoje, num contexto em que a maioria dos leitores não teve acesso ao estado da arte, no exterior. Eles precisam ser reeducados nos caminhos que o gênero percorreu, e isso, novamente, demanda investimento, tempo e esforço. O fandom, até certo ponto, por promover aqui e ali conceitos como New Weird, New Space Opera, FC feminista, Queer e outros, dá pequenos passos nesse sentido, e muitas vezes indica direções às pequenas editoras associadas a ele. Então ele tem importância, mesmo que não possa garantir um mercado para os autores locais.

Roberto De Sousa Causo Fixar a FC como gênero viável aos autores brasileiros é o grande desafio de todas as gerações, de todas as ondas. Como fazer isso não cabe a nenhum de nós dizer — cada autor percorre o seu caminho. Eu apenas acho que só imitar o estado da arte da FC anglo-americana, sem igualá-lo e adaptá-lo, é insuficiente.

Estevan Lutz Tibor, concordo com sua última postagem. Tanto que foi isso que eu fiz questão de fazer em O Voo de Icarus. E estou atingido públicos que não são fãs de ficção científica e acabaram gostando muito do tema do livro.

Ivo Heinz Pois é, mas e autores como Eduardo Spohr e André Vianco?

Focando em seu público e trabalhando bastante, eles conseguiram visibilidade.
O que eu vejo neles é que estão à parte das picuinhas do fandom, não ficam debatendo os assuntos intermináveis como “Movimento Antropofágico” e foram à luta.

Outro divisor de águas pra mim foi a pesquisa do Nelson de Oliveira (aka Luiz Bras), isso mostrou que muita gente mais nova conhece o que já foi feito, haja visto a influência e votação que o Gerson Lodi-RibeiroOctavio Aragão e Fábio Fernandes tiveram, e foi uma votação “secreta”, a divulgação dos resultados deve ter pego muita gente desprevenida (só Tio Ivo acertou os 3 primeiros, hehehehehe).

Na boa, FC NÃO VENDE AQUI. Olhem os números e tirem as conclusões.
Falta investimento em marketing? muito provavelmente.
Falta maior aceitação pelo mercado? talvez
Falta maior inserção nos círculos acadêmicos? Bem, já tem Rodolfo Londero, A dri Amaral, Fábio Fernandes, Octavio Aragão, etc…. em Universidades de ponta e discutindo seriamente, então acho que esse front já está “em batalha”.

Ou, rememorando uma pergunta que eu fiz num evento do Invisibilidades do Itaú Cultural, uns 7 anos atrás….

SERÁ QUE O TAMANHO DO REAL MERCADO DE FCB É ESSE MESMO QUE ESTAMOS VENDO???????

Ivo Heinz ‎Horacio Corral, quanto ao Cisma, eu acho que nada mais é que muita gente disputando um espaço muito pequeno, para piorar ainda tem a ENORME questão dos egos…..

Horacio Corral Vou ressaltar, ou melhor, parafrasear, um comentário da época. Que o nome do evento do Itaú Cultura fosse INVISIBILIDADES era significativo, provocativo e simbólico demais. Alguns se divertiam fazendo alusões aos escritores e demais participantes, que eram, literalmente, invisíveis para o público geral. Afinal, ninguém sabia que eles existiam. Por quanto tempo isso será uma condição comum, ou se isso irá mudar, é difícil dizer. Mas vale lembrar que mesmo entre os escritores mainstream é difícil ver conhecidos do grande público. A literatura no Brasil ainda é, na mente da população, algo de elite e de privilegiados. Criadores, e autores, como Douglas Mct e JM Trevisan são mais conhecidos do que a maioria dos autores da segunda onda, e da dita terceira também, e não por suas obras literárias, mas por suas contribuições em outras mídias como HQs e games. Eu enxergo como um dos ‘problemas’ a mídia LIVRO, pois no Brasil ela é uma das que mais sofre na comercialização e com a ausência de profissionais e plataformas adequadas. Por exemplo, se todas as obras do Gerson Lodi-Ribeiro ou Roberto De Sousa Causo fossem games, digamos de iPhone/iPad (iOS), estaríamos falando de outras questões como rentabilidade ou qualidade mas, certamente, a falta de público não seria uma das preocupações.

Miguel Ángel Fernández Delgado Hola, Horacio, también hay muchos autores y pocos lectores. El índice de lectura, en general, es bajísimo. Los autores de más prestigio prefieren publicar en otros países, como España, aunque sólo pocos lo logran. La mayoría busca darse a conocer y ganar dinero participando en concursos o dando talleres y conferencias. En cuanto a los temas, hasta la década de 1960 comenzaron a publicarse propuestas de cuestiones claramente mexicanas, porque antes trataban de imitar más a los autores extranjeros, aunque siempre han buscado incluir ingredientes mexicanos. Por ejemplo, hay una novela de fines de 1950 (Palamás, Echevete y yo, o el lago asfaltado de Diego Cañedo) que está dedicada a H. G. Wells, y trata sobre unos viajeros en el tiempo que se desplazan al pasado para conocer en vivo los sacrificios humanos que hacían los aztecas

Pablo Grilo É estranho que todo mundo aqui saiba o que o “povo brasileiro” pensa da literatura especulativa nacional ou o querem consumir de livros. Eu vejo que essa entidade “povo” é tão volátil e praticamente impossível de se rotular ou de saber o que todos querem, já que são formados por pessoas totalmente diferentes entre si e que vieram de classes sociais distintas. Quer propor uma FC diferente através de uma experiência pessoal? Escreva algo assim pra um nicho específico. Só não recrimine quem pensa diferente e escreva literatura especulativa de forma mais comercial.

Cirilo S. Lemos Só há duas opções: desistir ou persistir.

Tibor Moricz Persistir sempre. Mesmo que sem nenhuma (ou quase nenhuma) esperança.

***

Se quiserem acompanhar a discussão na origem, sigam esse link:
https://www.facebook.com/tibor.moricz/posts/10150785785527295

Leiam, analisem, discutam entre si, opinem.

De Bar em Bar entrevista Mark Charan Newton.

03/11/2010

Mark Charan Newton nasceu em 1981 e formou-se em Ciências Ambientais. Depois de trabalhar vendendo livros, passou a ocupar funções editoriais em publicações voltadas a filmes e ficção na mídia, e posteriormente Fc e fantasia. Sua primeira publicação numa grande editora foi Nights of Villjamur, pela Tor UK (Pan Macmillan) e Spectra (Random House) nos EUA. A respeito da continuação, City of Ruin, China Miéville disse: "Newton usa muita paixão e comprometimento para mesclar criações vívidas e estranhas com preocupações fortes e reais."Mark atualmente mora e trabalha em Nottingham. Visite seu site: http://www.markcnewton.com

Quando o torvelinho provocado pela mudança de realidade terminou, encontrei-me numa espécie de descampado com mata esparsa e rasteira, além de algumas árvores mais próximas, com ramos distorcidos e nenhuma folhagem. Noite escura e brumosa, fria, ventos súbitos faziam rodopiar uma garoa forte.

Olhei para mim mesmo e me surpreendi. Estava vestindo um longo casaco, calças de brim folgadas e gastas, botas, chapéu e o mais surpreendente: um cinturão com dois revólveres nos coldres.

Levei as mãos em concha para os lábios e soprei ar quente nelas, tentando aquecê-las um pouco. Ao lado, uma estrada barrenta marcada por sulcos profundos que me fizeram pensar em rodas de carroças. Suspirei e fui em frente, me desviando das poças, torcendo para descobrir alguma coisa; talvez uma cidade, talvez um povoado.

Não andei mais que cinquenta metros e então parei surpreso com a visão que se oferecia a mim. Havia uma ravina e, descendo os olhos por ela, apesar da garoa e da bruma, vi o que pareciam ser inúmeras casas. O terreno recoberto por outeiros exibia uma cidade bizarra. Casas de todos os tipos e tamanhos. Prédios com poucos andares… Todos ocupando lugares ora mais altos, ora mais baixos e ziguezagueados por ruas e vielas estreitas que subiam e desciam obedecendo ao terreno acidentado.

Ao final da ravina se erguia um promontório escarpado. Nele se espalhavam cavernas iluminadas, todas elas interligadas por corredores construídos com toras de madeira que formavam um mosaico intrincado de passagens.

Lamparinas, às centenas, nas casas e prédios, nas ruas e vielas. No escarpado também. Espalhadas pelos corredores e pelas cavernas. Todas juntas ofereciam uma iluminação baça, bruxuleante, que se agitava à menor aragem.

Levei as mãos ao rosto para retirar o excesso de água que uma lufada contrária de vento atirou contra mim. Antes de prosseguir vi um garoto. Alguns metros adiante, ao lado do caminho enlameado, olhando para mim com uma expressão vazia. Tentei imaginar quem era e o que fazia ali e, principalmente, se podia me ajudar, mas antes de qualquer coisa ele desapareceu como por encanto, deixando em seu lugar um vazio súbito, logo preenchido pela garoa.

Tentei não me preocupar com isso. Talvez uma visão, talvez um fantasma, talvez uma distorção qualquer de realidade. Voltei a olhar para a ravina e dei de ombros. Se era lá em baixo que Mark Charan Newton estava, então era para lá mesmo que eu iria.

Poças d’água se espalhavam e qualquer tentativa de evitá-las restava infrutífera. Escutei conversas abafadas. Entre várias construções cujos eirados acumulavam barro, vi um Saloom. Diante dele, sob a chuva, duas parelhas de cavalos agitavam as caudas com impaciência.

As ruas eram tão estreitas que para passar pelos cavalos eu teria que ou enxotá-los para o lado, ou passar por baixo deles. As casas de madeira, construídas umas grudadas nas outras, espremidas, fazendo retorcer suas extremidades, rachando a madeira. Janelas e portas fechadas, mas frestas nas paredes exibiam a tênue iluminação interior.

Subi ao eirado do Saloon, bati as botas no chão para me livrar de boa parte da lama e empurrei a porta vai-e-vem, entrando.

Não havia mais que uns doze homens lá dentro. Dois no balcão do bar e os outros sentados diante de mesas, ora jogando cartas, ora bebendo e jogando conversa fiada fora. Viraram-se assim que entrei, calaram-se e olharam para mim, avaliando-me, levemente surpresos. Depois voltaram à rotina, me ignorando.

Aproximei-me do balcão. O barman se aproximou ressabiado e perguntou-me o que queria beber. Enfiei uma das mãos no bolso do casaco e encontrei algumas moedas em meio a um monte de balas. Coloquei uma delas no balcão e pedi um uísque. O barman olhou da moeda para mim e depois para a moeda de novo. Entendi o recado. Juntei outra moeda a primeira e ele então me serviu a bebida. Peguei o copo e me virei para procurar quem em buscava. Mas Mark não estava lá.

Tomei a bebida de um gole só, como fazem os brutos. Soltei fogo pelas ventas, queimando até a alma por causa daquele uísque vagabundo.

— Você sabe onde posso encontrar Mark Charan Newton? – perguntei ao barman.

Pela segunda vez todas as vozes se calaram no saloom. Os homens voltaram-se na minha direção, olhares perplexos e assustados. O barman arregalou os olhos e quase deixou cair o copo que segurava. Depois se afastou, nervoso, para o outro lado do bar. O homem que estava ao meu lado se aproximou e falou comigo entredentes.

— Ninguém procura por ele. Nunca. Ninguém quer vê-lo. Ninguém quer encontrá-lo. Ninguém quer saber dele. Todos o temem. Ele não pode ser encontrado, jamais. Mas encontra quem ele quer e quando quer.

— Há uma entrevista agendada. Preciso encontrá-lo.

Os risos se alargaram no salão. Alguns homens engasgaram na bebida. O barman me lançou um olhar furtivo e sorriu disfarçadamente.

— Uma entrevista com o próprio demônio, é? – perguntou o homem, dando-me um cutucão nas costelas. – Vê-se que você é mesmo um forasteiro. Só um idiota completo sairia por aí procurando ele. Não é homem, entende? Não é uma criatura feita do barro divino. Não se trata de carne e ossos, mas de sombra e angústia. Consegue me entender?

— Acho que não estamos falando da mesma pessoa – eu disse meio confuso com aquela conversa. – Mark Charan Newton é um escritor.

— Hmmm… Para uns é isso, para outros é aquilo. Ele atrai as moscas para a sua teia com artifícios diferentes. Se para você ele é um escritor, tudo bem. Vá, saia e o procure. Mas faça uma boa oração antes e entregue sua alma para Deus. Para que ela não erre o caminho e acabe parando em um lugar amaldiçoado.

O homem se afastou de mim. Os demais voltaram aos seus afazeres.  Vi-me sem alternativas senão sair e ir em busca de quem viera entrevistar. Fosse homem ou fosse qualquer outra coisa. Eu conhecia muito bem o mecanismo de meu relógio quântico e sabia que jamais sairia daquele cenário até que lhe fizesse a última e derradeira pergunta. Já acostumado aos perigos que aqueles encontros provocavam, inflei o peito e mergulhei na noite brumosa de garoa intensa e ventos traiçoeiros.

Chapinhei por algumas vielas. Em alguns trechos eu podia tocar paredes opostas apenas esticando os braços. De repente escorreguei num declive, patinando na lama. Adernei para a esquerda tentando me equilibrar, mas não tive sucesso. Antes de cair sentado numa poça d’água, vi o mesmo menino na soleira de uma porta, encostado a ela, olhando-me com a mesma expressão vazia.

Quando me levantei ele já havia desaparecido. Praguejei a falta de sorte, sentindo parte do traseiro todo molhado. A outra parte fora protegida pelo casaco. O chapéu torto na minha cabeça. Quando fui arrumá-lo, um tiro o fez sair voando, aos rodopios. Soltei uma exclamação de assombro, com o coração aos saltos. Virei-me rápido e o vi.

Um homem parado a cerca de vinte metros. Protegido pela sombra que ele mesmo parecia produzir. Mesmo os candeeiros próximos não tinham força para iluminá-lo.

Agachei-me cautelosamente para apanhar o chapéu, sem tirar o homem de vista. Ele ainda se mantinha armado, apontando o revolver em minha direção. Não podia ser Mark Charan Newton. Ou podia?

— Você está me procurando? – ele perguntou, a voz gutural.

— Você é Mark Charan Newton? – inquiri, enquanto vestia o chapéu.

O homem pareceu refletir por poucos segundos, depois girou a arma na mão e a guardou no coldre num gesto rápido.

— Você tem perguntas e eu um trabalho a fazer. Podemos tentar resolver essas coisas simultaneamente, não?

— Como preferir – respondi, tentando imaginar o que ele queria dizer com um “trabalho a fazer”.

— Então, faça a primeira pergunta… E corra! – a voz dele pareceu soar de todos os lugares e de nenhum ao mesmo tempo já que sumira diante dos meus olhos.

Aparentemente a brincadeira de sumir era prática rotineira naquela cidade. Pigarreei, olhando para todos os lados, principalmente para cima, como se ele estivesse pairando sobre mim. Fiz a primeira pergunta.

— Numa entrevista antiga você disse que o New Weird está morto. Defina essa afirmativa melhor e explique-nos a relação entre seu trabalho e o universo weird uma vez que você reconhece a influência de China Miéville na sua produção.

Esperei para ouvir uma resposta. Mas ouvi apenas o estalar da madeira velha e o vento fazendo balançar as lamparinas. Por alguns segundos. Depois ouvi um disparo. O postigo de uma porta a minha direita fendeu-se, a madeira estilhaçando. Em seguida um segundo disparo roçou de leve o ombro do meu casaco. Um terceiro acertou entre as duas botas e um quarto fez meu chapéu girar na cabeça.

Entendi na hora o que ele quis dizer com “pergunte e corra”.

Disparei pelas ruelas, afundando o pé em poças e montes de lama, virei e revirei ruazinhas, procurando um canto para me esconder. Mas aonde ia, escutava o silvo das balas passando por mim, tão perto que por pouco não me arrancavam a pele. Tratava-se de um jogo e logo vi que ele não havia me atingido ainda porque queria antes se divertir. Num último esforço, lancei-me dentro de uma casa, mergulhando pela janela, destrocando o vidro. Caí rolando e recolhi-me junto à parede, próximo a uma lareira apagada, sem lenha nem achas queimadas. Observei a casa e tive a impressão de que nunca ninguém vivera lá antes.

A voz de Mark retumbou, como se transpirasse pelas paredes.

— O New Weird era – nos círculos editoriais – um movimento de um grupo de autores. Talvez tenha sido usado para definir seus trabalhos como notavelmente diferentes, mas eu acredito que surgiu para representar uma estética que naquela época só vendia para aqueles poucos autores. muitos anos atrás. Quando você menciona New Weird para editores eles preferencialmente não querem adquirir tal manuscrito – os mundos ou tecnologias são muito escandalosas. Editores estão a procura de coisas mais obviamente comerciais e conservadoras. Mas isso não quer dizer que o New Weird teve pouco impacto – Penso que começando a ver uma nova geração de autores que foram influenciados fortemente por Miéville.

Enquanto ele falava, saquei meu revólver e verifiquei o tambor. Não ia me entregar sem luta. Meus bolsos estavam cheios de balas. A única coisa que me preocupava era no que atirar já que não sabia onde ele estava.

— Penso que o que esse movimento ajudou a fazer foi definir um ramo taxonômico mais surreal e sombrio do que é, em linhas gerais, um gênero conservador – ele continuou. Trata-se do prosseguimento de uma linha que se estende de William Hope Hodgson a Meryyn Peake a M. John Harrison a China Miéville. Gosto de pensar que meu trabalho se situa naquele lado do gênero, o que é algo mais óbvio na medida em que mergulho em minhas séries, porque aqueles escritores são os tipos que me interessam mais.

Ele parou de responder ao mesmo tempo em que ouvi passos apressados contornando a casa pelo eirado. Tentei adivinhar mais ou menos a posição do incauto passante e, sem ligar a mínima se se tratava de morador ou de Mark Charan Newton, apontei o revolver para o lugar onde julguei que ele estava e puxei o gatilho, abrindo um buraco de meia polegada na parede. Não ouvi nenhum gemido. Rastejei até a janela e espiei. Nada lá fora senão mau tempo.

Não podia ficar escondido a vida toda, então fui até a porta e a abri de supetão, mantendo-me escondido atrás do batente. Depois de alguns instantes saí, segurando o revólver na altura de meus olhos, ambas as mãos firmes na coronha, apontando-o ora para um lado, ora para outro, pronto para disparar se fosse necessário.

Então vi uma sombra correndo acima dos telhados, saltando parapeitos, fazendo a madeira trepidar perigosamente. Sem pensar muito, apontei o revolver para a direção do vulto e puxei o gatilho. Escutei o ribombar dos passos pesados se distanciando. Tinha errado o tiro. Então me coloquei em perseguição do indivíduo, seguindo os ecos que chegavam até mim. A cada curva mais eu me embrenhava na floresta de casas espremidas umas nas outras, mais eu me sentia perdido e cansado.

Alguns tiros contrários, porém, me colocaram em alerta novamente. Um deles voltou a me arrancar o chapéu, que dessa vez desapareceu em meio à confusão de soleiras. Outro me tirou um pedaço da orelha esquerda. Dei um grito de dor e raiva, me atirando contra uma parede, protegido pela cobertura de uma das muitas varandas que proliferavam.

— Maldito! – gritei, sentindo o sangue escorrer pelo meu pescoço. – Miserável!

— Perguntas! Faça as perguntas – disse-me Mark.

Rilhei os dentes tentando ignorar a forte dor na orelha e tentei me concentrar na entrevista.

Nights of Villjamur é uma fantasia noir e se passa num tempo distante do nosso. Onde você buscou a inspiração para escrevê-lo e quanto tempo gastou nisso? Explique-nos de forma abrangente a filosofia – ou denúncia social – por trás da trilogia – no caso de você usar a literatura como um meio de reflexão política e social contemporânea.

Suspirei engolindo a dor e o desconforto. Muito mais irritado com o relógio quântico que me colocava em situações extremamente perigosas do que com Mark Charan Newton, que vivia uma aventura numa realidade paralela que aparentemente lhe roubara a consciência.

— A gênese verdadeira da série veio da leitura de um escritor britânico de ficção científica pouco conhecido chamado Michael Coney. Seu romance Hello Summer terminou mais ou menos com uma cultura de se refugiar em si mesmo, e pensei: “E se isso foi só o início das coisas?” Isso me inspirou a criar a cidade para onde as pessoas se dirigem, em fuga, em face das extremas condições do tempo…

Escutava a resposta tentando adivinhar de onde vinha. À minha esquerda ou à minha direita. Talvez do outro lado da rua. Ou ainda de um dos telhados. Um estalido mínimo atrás de mim me fez saltar num giro de 180 graus. Arma apontada, dedo no gatilho, tremendo, quase disparando. Felizmente me contive. Era o garoto. Os mesmos olhos inexpressivos, mesma expressão combalida, braços caídos ao lado do corpo, cabeça levemente inclinada para o lado. Lábios suavemente fechados.

— Mas que maldito fedelho… – comecei a protestar, quando ele simplesmente desapareceu diante de mim.

—… Este foi o ponto de partida, mas acima disso quis que isso fosse uma reflexão de nossa própria cultura, embora de maneira muito exagerada. Conforme a série continua fica mais óbvio que estou falando do mundo real. Eu queria escrever uma fantasia que se endereçasse às minorias com justiça (homossexuais conduzindo personagens que não são meros coadjuvantes)…

Um rangido me fez atirar contra o telhado acima de mim. Escutei uma exclamação divertida e passos apressados. Mark estava se deslocando sobre as casas, como um gato. Corri atrás, tentando segui-lo, mas era difícil ultrapassar a infinidade de obstáculos que aquela porcaria de povoado possuía. Ao virar uma esquina súbita, deparei-me com pedaços de madeira e caibros soltos. Tropecei e cai sobre o monturo, espalhando lixo para os lados. Ouvi uma risada não muito distante.

—… Faço isso porque acredito que literatura de fantasia pode ser poderosa – um escritor pode fazer, literalmente, tudo o que desejar. Para ser honesto, não importa o quanto alguma coisa é estranha, sempre fui inspirado por exemplos mundiais reais. O mundo real pode parecer muito estranho quando examinado de perto.

Tive a impressão de sentir certo acento irônico ao fim de sua resposta. Ele tinha razão. Escritores podiam fazer qualquer coisa. Até construir cenários imaginários e neles tentar matar os seus iguais. Mas ele não ia conseguir. Eu era mais esperto do que parecia. Rastejei para fora do entulho e me coloquei sentado contra uma parede. Nem podia esticar as pernas direito sem bater na parede oposta. Observei o tambor do revólver, joguei fora os cartuchos vazios e tirei algumas balas do bolso, completando-o. Respirei fundo procurando o equilíbrio necessário, praticando o “Chi-Kung”. Senti-me logo reequilibrado, com uma consciência do entorno que nenhum humano, pós-humano ou alienígena poderia ter.

Coloquei-me de pé, inteiramente compenetrado. Músculos retesados, dedos firmes na coronha do revólver. Então dei um passo rápido para trás e o disparo efetuado por Mark só acertou um pedaço de madeira solto no chão. Girei o corpo e escapei de um segundo disparo. O terceiro ia direto para a minha testa, mas eu não estava mais lá quando o projétil passou.

— Ora vejam! – exclamou ele com visível admiração. – um oponente à altura, finalmente.

Não me dei ao trabalho de lhe responder, girei o pulso sem mudar minha posição e puxei o gatilho fazendo o projétil passar tão perto de minha orelha sã que pude lhe sentir o calor. A bala transpassou tábuas molhadas e acertou o alvo. Ouvi um grito de dor e surpresa, seguido por um manquitolar apressado, em fuga.

— Seu primeiro romance foi Reef. Antes de publicá-lo, qual era sua atuação dentro do fandom britânico? Você costumava escrever e publicar contos na internet ou em antologias? Quem era, literariamente, Mark Charan Newton ontem e quem será ele amanhã?

Fiz a pergunta retomando o caminho pela via principal que muito pouco se distinguia das vicinais. Minha percepção ia além do físico, perpassando o metafísico. Eu conseguia ouvi-lo respirar. Conseguia ouvir o gotejar de sangue que lhe caia pela perna ferida. Sabia exatamente onde ele estava. Era só uma questão de poucos minutos para eu mesmo lhe responder quem ele seria amanhã: Um cadáver.

— Eu trabalhei como editor para a editora Solaris e antes disso eu trabalhei com venda de livros (Eu cuidava do setor de Fantasia e FC na loja!). Esses trabalhos foram muito divertidos e consegui ir a convenções e conversar com autores que eu admirava muito. Eu era um fã do gênero – um geek – e foi uma época maravilhosa…

As palavras dele eram forçadas, recortadas por ofegos. Estava mais do que ferido. Estava assustado. Muito assustado.

—… Nunca tendi a escrever muitos contos, eu prefiro a amplitude dos romances, assim, eu ia simplesmente para casa após meu trabalho editorial a cada noite e escrevia minhas próprias coisas. Consegui um agente ainda jovem, com 23 anos de idade. Poucos anos antes de tirar a sorte grande.

Saquei o outro revolver e andei com passadas calculadas, mantendo-os firmes nas mãos, como se estivesse prestes a puxar o gatilho. Podia ouvi-lo se distanciar de mim na mesma medida em que eu avançava. Ele arrastava uma das pernas, a esquerda para ser mais preciso, e não conseguia mais percorrer os telhados com a rapidez e a precisão com que o fazia antes. Logo me vi ao lado do Saloon, misteriosamente silencioso. Os cavalos que estavam amarrados à sua frente também não estavam lá. Ignorei Mark por alguns instantes e me desloquei até a porta vai e vem. Dei uma espiada para dentro e não estranhei ao descobrir que não havia mesas, nem bebidas. Nem gente, nem nada que lembrasse que o lugar fora freqüentado nos últimos 10 anos. Tratava-se de uma cidade fantasma, claro. Habitado por espectros. Talvez Mark fosse mais um deles. Não. Claro que não. Espectros não se feriam nem sangravam.

— Uma das brincadeiras mais comuns no Mercado editorial – pelo menos no Brasil –, diz que os editores estão cansados de trilogias e que pedem aos escritores que enterrem qualquer projeto como esse. Sabemos que sempre há um fundo de verdade em qualquer brincadeira. Apesar de ter escrito e conseguido publicar uma, você não acha que existem projetos de trilogias em excesso (herança de Tolkien) e muito pouca qualidade? Não concorda que novos escritores deveriam preocupar-se com projetos menores e só desenvolver os maiores depois de obter a experiência necessária para isso?

Não esperei que ele fosse responder à minha pergunta com rapidez. Achei que ele ia querer manter o silêncio numa tentativa vã de impedir que eu o localizasse pelo som de sua voz. Mas a prática do “Chi-Kung” me permitia perceber o mundo com uma clareza e uma percepção que fugiam a compreensão dos não iniciados. Mas ele me surpreendeu, dando-me a resposta quase imediatamente ao final da pergunta.

— É difícil dizer. Alguns dos mais bem sucedidos livros de fantasia nos EUA e na Inglaterra são series. Steven Erikson é um dos mais populares na Inglaterra e sua serie já chegou ao décimo livro. Mas eu não pensaria que essas séries são ruins. É uma arte muito difícil escrever um determinado número de romances conectados já que tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. tantas coisas para. Algumas histórias, de fato, requerem muitos romances para serem contados. Eu propus uma série com uma proposta diferente em mente: eu queria que cada romance fosse autônomo e a história – até certo posto – auto contida. Penso que consegui isso nos livros dois e três. É um desafio para mim. Não quero sentir como se tivesse lesado meus leitores. Cada romance deverá deixar o leitor satisfeito.

Posicionei-me no meio da rua. Ao fim dela, após subidas e descidas, após outeiros, elevava-se a escarpa. Nela as cavernas, inúmeras, interligadas por corredores e iluminadas por candeeiros cuja luz pouco ou nada significava. Orlando a rua, casas e pequenas construções de um ou dois andares, amontoadas umas nas outras, vergastadas pela chuva que começava a piorar. O vento ululava fazendo vibrar o povoado.

Ergui lentamente ambos os revólveres, apontando-os para um mesmo local, à minha esquerda, cerca de quarenta metros de distância, sobre um telhado inclinado; oculto atrás de um parapeito de madeira velha e rachada. Lá estava Mark, a perna ferida pulsando em ondas de dor.

— Contos, noveletas, grandes romances, séries, são todas – continuou ele, num timbre próximo ao alívio, como se sentisse que a entrevista estava no final – formas artísticas diferentes, e no meu conhecimento, todos os escritores tem preferências diferentes. Não sei o quão bom escritor de contos eu seria, embora eu admire a disciplina da forma. Eu não acho que alguém poderia afirmar que qualquer uma destas formas é melhor do que outra. Existem bons e maus contos, assim como há boas e más trilogias. Escrever muitos contos pode fazê-lo um bom escritor de contos, mas isso não necessariamente o faria um bom romancista, e vice-versa.

Assim que a sua última palavra foi proferida, puxei ambos os gatilhos. As detonações ocorreram simultaneamente e foram encontrar o alvo sem a mínima chance de erro. Ouvi um grunhido, um corpo rolar e logo cair do telhado, de costas na rua enlameada. Estendido, imóvel. Aproximei-me dele, observei-o atentamente. O chapéu a recobrir-lhe o rosto. Após alguns instantes ele se moveu. A cabeça girou, os olhos embaciados me procuraram e ele balbuciou alguma coisa que não entendi. Agachei-me para poder ouvi-lo melhor. Aproximei meu ouvido de sua boca.

— “Chi-Kung” – ele sussurrou. – você se acha esperto, mas esse não é o seu território… É o meu. Morra seu maldito!

Então ouvi um engatilhar. Ergui a cabeça e vi o menino bem diante de mim. Exibia um sorriso cheio de dentes, expressão de demoníaca satisfação. Um revólver nas mãos, apontado diretamente para a minha testa. Mark Charan Newton ainda me agarrou pela garganta, mão preênsil, me esganando com uma força que me deixou atônito.

Corri uma das mãos para o botão do relógio, apertando-o, ao mesmo tempo em que ouvi o disparo. Uma língua de fogo me atingiu arremessando-me para a mais absoluta inconsciência.

Despertei em casa, caído na sala, horas mais tarde. Ainda sou acometido por terríveis enxaquecas. Minha testa tem uma marca circular tênue e enegrecida. Arrepio-me só em pensar que poderia ter me atrasado um segundinho a mais em apertar o botão do relógio. Dessa vez escapei por muito pouco.


Pedro Moreno

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