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Ave Caesar, morituri te salutant

12/12/2009

Bateu mais uma vez.

Não era uma ação mecânica simples. Nem era uma atitude fácil. Mas envolvia decisões consolidadas. Uma questão de princípios. Todos sabem que “princípio” é algo extremamente volátil; ao sabor de culturas, histórias ou geografias. Às vezes de acordo com vontades. Todas elas inerentes aos mandatários. Ou mais acima, aos decisórios, se preferirem.

Bateu mais uma vez.

Por definição um executor. Porque era ele que executava. Embora não demandasse mais que ação mecânica, requeria vigor, força e destreza. E uma boa dose de precisão. Erguer e abaixar, erguer e abaixar. Tantas vezes quantas necessárias até que o objeto da agressão se curvasse ao dominador. Ética ou moral não eram assuntos para serem discutidos. Mesmo porque ondulam não muito graciosamente à vontade das leis. Tirânicas? Nada disso. Antes, necessárias.

Bateu mais uma vez.

Tortura era uma palavra forte demais. Antes, correção. Ato de corrigir, consertar as coisas. Procurar um meio de reparar ações anteriores. Claro que o que está feito não tem reparação. Mas e a consciência de milhares de súditos? E aqueles que lotaram a arena e entre apupos escolheram um herói? A consciência de milhares na consciência de um só. Porque o Imperador, o Cesar, Ele, o Magnânimo, Senhor Absoluto, Deus, representa a todos.

Bateu de novo. E bateria mil vezes se necessário.

O indigno era um bandido. Maldito. Filho de um cão que desonrou a arena.

Quem se julgava ao desrespeitar a vontade da platéia? Onde pensava estar? No chiqueiro, lidando com porcos? Aprenderia a lição custasse o que custasse. Aprenderia após tantas batidas quantas necessárias. Até prostrá-lo ao chão. Até fazê-lo ver que não poderia, em nenhuma hipótese, matar um eleito pelo povo. Pois que o herói escolhido era o outro. O grande gladiador núbio.

E o senhor dos porcos ousara desrespeitar a escolha do povo, fincando no nigérrimo gladiador a espada. Fizera jorrar não o sangue de um só, mas o sangue de todos na areia escaldante. Vaias irromperam. Protestos abafaram a voz do Imperador que, impulsionado pela comoção pública, condenou o vencedor a mais uma luta. E com o pior de todos. Com o gladiador mais fraco, mais obtuso que existia. E perderia. Seria vencido, humilhado e morto diante de espectadores vingados.

Mas, antes, as pauladas que o enfraqueceriam a ponto de não conseguir mover as pernas. Bateu novamente. Bateu e bateu. E bateu muito até que o homem tombou trêmulo e sacudido por espasmos. Com dois outros soldados o carregou para fora. Arrastaram-no para o meio da arena. Milhares aplaudiram. O abobado, o tolo, o fraco e macilento oponente, tão subnutrido, tão esquálido que não tinha forças para erguer a própria espada… Mas a ergueu.

E com ela esfacelou o crânio do ímpio.

E ganhou status de gladiador eleito.

Até a próxima contenda… Quando foi honrosamente decapitado.

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Conto – Olho no olho.

31/10/2009

fechadura

A poltrona já não parecia tão confortável. Ele se remexia nela de um lado para outro. Apertava as costas contra o espaldar, afundava na almofada macia, esticava e retraía as pernas, agarrava com força os braços da mobília.

Incomodava-o a porta fechada diante dele. Incomodava-o ainda mais a fechadura. Pequena brecha para outro mundo. Observava-a, angustiado.

Tinha ânsias de se levantar e ir espionar. Mas impedia-o o recato. Que diriam – se soubessem – que andou espionando por fechaduras?

Tentava se distrair olhando para os quadros dependurados e para os finíssimos capilares que corriam pelas paredes, fendendo disfarçadamente a pintura. Naturezas mortas em tons sombrios. Presença discreta de alguma umidade no teto, junto às sancas. Tapete de arraiolo com algumas manchas indefiníveis. Piso de tacos, envelhecidos, muitos empenados favorecendo um tropeção.

Mas era para a fechadura que os olhos se voltavam a todo o momento. Para os segredos que escondiam do outro lado. Para os mistérios, para as fantasias, para as surpresas.

E afundava cada vez mais na poltrona, inquieto. As veias das mãos estavam dilatadas. Imaginava que também estavam assim as do pescoço. A jugular palpitando nervosa. O espírito cada vez mais indomável.

Voltou toda a atenção para os pés. Depois para os joelhos. Depois para a poltrona verde musgo que estremecia sob tanto frenesi de expectativa e ânsia mal controladas.

Não pode mais.

Levantou-se nervoso. Pequenas gotas de suor lhe porejavam a fronte. Inclinou-se devagar, olhar fixo na abertura que até este momento nada mais lhe oferecia à visão que uma semiobscuridade e além dela uma movimentação indefinida. Sinal claro de alguma atividade do outro lado.

Colou um olho na abertura e se sentiu aterrorizado ao se deparar com outro olho arregalado a observá-lo curioso.

Ambos os homens recuaram assustados para suas poltronas verde musgo. Recuperaram a respiração entrecortada pelo choque e logo repararam nos trincos. Metal polido adornando uma porta de madeira de lei com finíssimos entalhes. Abri-la seria tão simples, tão fácil.

O que existiria do outro lado?

E quem?

A ansiedade voltava a perturbá-los.

Conto – Beleza

10/10/2009

beleza

Olhou-se no espelho com renovada alegria. Lá estavam os seios firmes de outrora, a barriga lisa, o triângulo dourado do sexo. Mais acima os lábios vermelhos e carnudos lhe devolviam o sorriso de puro prazer. Passou as pontas dos dedos (as unhas cintilavam) sobre a pele macia. Os fios da cabeleira pareciam tecidos por habilíssima aranha. Sentiu um frêmito percorrer todo o corpo, como que em êxtase. A folhinha na parede dizia sábado. Com mal disfarçada irritação, lembrou-se que deveria devolver tudo à loja na segunda-feira.

Saint-Clair Stockler

Conto – O que vi na água.

03/10/2009

agua1

Só depois de abrir a boca e começar a falar, Alina sentada à minha frente, começar a dizer, enquanto ela contempla com olhar distante, como se não estivesse ali, a unha do pé, ao mesmo tempo em que baixo, muito baixo, vai cantando uma canção qualquer, quase inaudível, mas presente no espaço entre nós dois e, sentada na poltrona, puxa de repente uma perna, acaricia com mão lenta a perna puxada junto de si, enquanto seu olhar contempla talvez o dedão do pé esquerdo, ou não, talvez o olhar de Alina esteja voltado para dentro, para as vastidões de seu espaço interior, imensas planícies, lagos profundos, vales perdidos na sombra de um dia sem sol, cavernas úmidas onde a escuridão faz seu ninho, ao mesmo tempo em que canta para si, baixo, muito baixo, uma canção de ninar, sim, voltada para as vastidões de seu íntimo, a cabeça completamente pousada no espaldar da poltrona alta, quase ao mesmo tempo em que abro a boca e começo a falar, sem saber se Alina está prestando atenção em mim, em minhas palavras, ela que canta baixinho uma canção tênue, meneando devagar a cabeça bem-feita, recostada no espaldar macio da velha poltrona com o meu cheiro e o cheiro de Alina misturados, sim, quase simultaneamente ao início das minhas palavras que flutuam entre nós dois, no espaço vazio onde partículas de poeira mantêm-se suspensas, iluminadas pelo sol de fim de tarde que vara a persiana à direita de onde Alina senta-se enquanto canta a canção minúscula, quase no mesmo instante em que minhas palavras quebram o silêncio entre nós, trazendo-a de volta das vastidões desertas onde caminhava solitária, sim, quase simultaneamente, é que me dou conta de que jamais, para o nosso próprio bem, em nenhuma hipótese, poderei contar para Alina o que vi na água.

Saint-Clair Stockler

Franco atirador

26/09/2009

Franco atirador

Não era mais que um pontinho lá no horizonte. Movia-se lentamente em avanço gradual. Cocei o bigode, soltei um bocejo e re-arrumei as pernas, descruzando-as e voltando a cruzá-las noutra posição.

Minhas botas estavam sujas de terra. Um rasgo longitudinal numa delas deixava à mostra um pedaço da meia. Olhei para o céu e perscrutei as nuvens e através delas… Como se pudesse. Uma brisa suave soprava. Diante de mim o vale se descortinava em meio a ravinas e pouca vegetação. O pó na língua formava torrões que eu cuspia em pequenos intervalos.

Pensar em minha mãe foi simultâneo.

Era obrigatório pensar nela. Todos os dias e noites, sob o sol, sob a chuva ou sob o fogo inimigo. Era uma figura renitente que, teimosa, não me abandonava. Mesmo que a tivesse abandonado há tempos.

Minha mãe… Senhora imponente em sua suposta majestade. Isso. Toda mãe se sente majestade. Seu reino… O lar, seus súditos… Os filhos.

Era quase impossível não sentir o travo amargo na garganta. Quando fora? Quando? Quando fora que gritei-lhe na cara para que me deixasse seguir minha própria vida? Quando fora que, em meio a impropérios – que hoje lamento não terem sido mais virulentos -, enfiei-lhe o dedo na cara e disse alto e bom som, que eu era mais e melhor do que ela podia supor?

É… Quando?

Tem também o quando ela reunia familiares e amigos e me fazia uma festa de aniversário surpresa… Mas a esses eventos preferia esquecer. Ocorriam sazonalmente, uma vez ao ano, discretamente camuflados entre um dia e outro.

Abanei a cabeça e estiquei o pescoço mais uma vez. O pontinho ao longe já se tornava distinguível. A pessoa caminhava de maneira cautelosa. Procurava abrigo em paredes e rochas. Carregava petrechos que o faziam avançar com dificuldade. O que o idiota estaria fazendo ali, sozinho neste mundão? Não era dos nossos. Posicionei o fuzil fazendo mira. A distância ainda era grande para arriscar. Lambi os beiços recolhendo mais uma porção de pó e o cuspi fora.

Lá vinha a minha mãe de novo.

Seu olhar arguto me atravessando a carne como uma faca afiada. Passinhos sempre curtos, mas fortes. Cada batida de pé como se quisesse fazer o mundo entender que estava ali, poderosa como nunca.

E estava.

Sempre acima de nós. Mesmo sendo de estatura media, mesmo tendo que erguer o olhar para nos encarar. Eu e meu irmão, que já não era, mas um dia foi. Não a sete palmos de fundura, que estaria muito bom. Mas espalhado em fragmentos ensangüentados. Um obus dentro da trincheira. Sem tempo para fugir. Nem para pensar. Nem para um “ai”.

Ela era a responsável… A maldita.

Claro que era. Quem mais poderia ser? Ela fabricou o obus, ela iniciou a guerra, ela nos alistou, ela reuniu o inimigo, ela indicou a trincheira, ela deu as coordenadas, ela disparou e ela gargalhou a morte do próprio filho.

Maldita.

Descruzei as pernas e bati com as botas no chão, fazendo levantar uma pequena nuvem de poeira. Coloquei-me de joelhos e projetei o corpo para frente, procurando o breve defunto que caminhava no vale.

Lá estava ele. Talvez uns vinte anos de idade. Três a menos que eu. Aparelhado. Uma mochila larga às costas. Um fuzil pendurado no ombro, olhar perdido no caminho.

O destino o aguardava nas alturas.

Sentei sobre os calcanhares, abri o cantil e bebi um gole de água.

E a maldita voltou a me ocupar as lembranças. Como no dia em que enfiou o cabo de guarda-chuva na garganta do senhor Pickelton. Queria me defender, a idiota. Acabou por me colocar em maus lençóis. Ou quando teimou que Susan não era mulher para mim. E não era mesmo, mas jamais poderia ter se metido nisso. Ou quando disse a Joe, meu irmão despedaçado, que ele jamais iria se alistar no exército. Que era o caçula, o desprotegido, o incauto, o arrimo, o que deveria ser o modelo dentro de casa. Que não deveria seguir meus maus exemplos.

Claro que ele disse a ela pra não se meter.

E da vez quando papai, bêbado, começou a quebrar os móveis da sala. Ela, de certa forma, o ajudou. Pegou um vaso e o colocou pra dormir em meio aos cacos. Fora horrível, de uma agressividade desnecessária.

Eu e Joe assistimos a tudo, encolhidos num canto. Cabelos desgrenhados, marcas pelo corpo, sangue escapando pelos lábios. Atônitos após a surra que levamos dele, atônitos pela reação de mamãe. Atônitos por termos sido tão veementemente defendidos sem que pudéssemos nós mesmos demonstrar nossa força.

Tudo bem, éramos crianças. Mas crianças com opinião própria. Tínhamos braços e pernas. Tínhamos cérebro. Tínhamos vontade.

“Vão morrer, os dois!… Vão morrer”, ela gritou quando fomos chamados ao front. Os perdigotos espirraram em nossas faces. O rosto dela, sempre tão forte, tão vigoroso, desmoronava diante de nós. Vimos o veneno escorrer.

Ou teria sido medo?

Nunca pudemos voltar a vê-la. Morreu naquele mesmo verão. Falência múltipla dos órgãos. Metástase. Câncer de pâncreas não detectado até que fosse tarde demais. Morreu antes de Joe. Morreu depois de papai.

Jamais abri suas cartas. Pra quê? Pra ter que enfrentar sua sabedoria sempre indiscutível? Pra ter que engolir sem chances de resposta as suas súplicas, as suas recomendações?

Respirei fundo e levei meus pensamentos a Joe. Onde quer que estivesse. Talvez no inferno, junto de mamãe. Claro que ela estaria lá, se assim fosse. Muito provavelmente enfiando o cabo do guarda-chuva na garganta do diabo e colocando Joe em ainda piores lençóis.

Aprumei o corpo. Recolhi duas lágrimas teimosas e posicionei o fuzil. Mamãe… Ainda tínhamos assuntos a acertar. Conversas a tecer. Posições a discutir. Projetei o corpo para frente, inclinei a arma para baixo a procura do alvo.

Lá estava ele.

Agachado próximo a um arbusto. Ajoelhado de maneira bem característica. A arma empunhada, o cano erguido. Quase um reflexo meu. Um espelho bizarramente posicionado no vale, refletindo mais que a minha pessoa… Quase a minha alma.

Afrouxei o aperto no gatilho e sorri com alguma ansiedade. Pensei em Joe e em mamãe enfiando o guarda-chuva no diabo. Dei uma risadinha nervosa. Vamos aproveitar a chance, certo? É isso aí. Vamos aproveitar…

O estampido ecoou pelo vale, desaparecendo ao longe.

Mantive a posição. Arma nas mãos, cano apontado para baixo, dedo trêmulo diante do gatilho. Nos olhos a opacidade. Antes de cair do penhasco ainda consegui concatenar um breve pensamento. Alguma coisa a ver com mamãe.

Algo indistinto como um vago sorriso de boas vindas.

Conto – Não foi sua imaginação.

12/09/2009

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Joguei o papel amassado dentro do cesto. Era mais um na montanha de textos mal concebidos. Larguei o lápis sobre a mesa, respirei fundo e coloquei as mãos sobre o rosto soltando o ar num grunhido insatisfeito. Há horas que tentava escrever umas poucas linhas sobre minha última experiência; um pouco mais que um vislumbre. Talvez por isso tão difícil de escrever. Como relatar um acontecimento que não vimos de fato, ou que pensamos não ter visto? Dizer que “sentimos” não parece satisfazer. Não. Não dá para dizer que foi “uma sensação”. É necessário dar firme embasamento. Fazer ver que se trata de um fato e não de suposição.

Arregalei os olhos fitando a nova folha de papel que, vazia, dava ares de zombaria. Peguei o lápis, molhei a ponta e coloquei-a no início da primeira linha. É. Quer dizer, acho que é. Eu estava… Andando. Caminhando pela rua quando ouvi um barulho. Uma espécie de estalido. Um “Crack” indistinto. Uma onomatopéia mais próxima de um galho arrebentando. Tirei o lápis do papel, voltei a molhar a ponta. Observei as poucas linhas com a impressão de que ia amassar tudo de novo. De quantas folhas precisaria? Procurei o relógio sobre a cômoda. Os dígitos piscavam um 23h30.

Ainda havia tempo. Mas não sei se papel suficiente. Fiz correr o bloco, tentando adivinhar quantas folhas restavam. Talvez umas doze. Todas pautadas, só frente. Olhei de novo a primeira linha. “… Ouvi um barulho…”. Isso, aí me virei. Afinal foi um susto. Quem não se assustaria ao ouvir uma coisa parecida numa madrugada abafada, rua vazia?

Engoli em seco. Estava com sede. Minha mente me conduziu até a cozinha. Abri a geladeira e bebi água direto da garrafa. Ô maldita preguiça. A sede que fosse ao inferno. Eu tinha que escrever. Precisava escrever. Um maldito folhetim, uma historinha sem eira nem beira, utilizada para cobrir calhaus nos recônditos d’um jornaleco de quinta categoria.

Mas a história era real. Nada de falso ou inventado. Aconteceu de verdade. Eu estava lá, bêbado, molhado até os tornozelos com conhaque de gengibre, roupas em completo desalinho, rodopiando minha existência pela calçada, tropeçando nos próprios pés, vasculhando a memória, o passado, o infinito, vasculhando a merda dos bolsos, atrás das chaves de casa que só mais tarde fui descobrir, estavam debaixo do carpete com as palavras tão idiotas: “Bem vindo”. Acordei com elas estampadas na cara. O sisal esburacando minha pele hirsuta. Que gilete que nada. Ali nem uma foice daria jeito.

Então estava andando. Que horas eram? Qualquer coisa entre a uma e as quatro da matina. As pernas trançando. Paredes encardidas e pichadas à volta; latas, papéis, preservativos usados, toda sorte de imundices jogadas ao chão, uma babel de sujeira, referências vindas dos quatro cantos do planeta, nacionais e importadas, prova incontestável da globalização.

Aí deu o estalo. Uma onomatopéia grotesca e assustadora. Eu estava bêbado, estava sim. O suficiente para reagir ao barulho com pouca agilidade. Meu cérebro processou e decodificou, traduziu em imagem o que só veria segundos depois. Mas como meu cérebro, embotado pelo álcool de péssima qualidade, estava errado… Não havia no mundo nem fora dele qualquer semiótica que bastasse para a interpretação.

Girei nos calcanhares da forma que pude, balancei sem equilíbrio para frente e para trás, procurei com as mãos um ponto qualquer de apoio – que não encontrei – e olhei para frente… Para aquilo.

Molhei os lábios, afastei a ponta do lápis do papel e sorri com certa satisfação. Voltei a ler o escrito nas poucas linhas e senti um ligeiro arrepio. A cabeça ainda doía. Sentia o estômago embrulhado, as pernas vacilantes formigavam, as danadas. Pensei na água dentro da geladeira e soltei um arroto malcheiroso. Franzi o cenho e esfreguei os lábios com a mão livre. Estava precisando descansar. Talvez dormir uns dois dias inteiros.

Quem em sã consciência não dirá que estive sob a influência maléfica do álcool? Ah, a maldita, dirão. Entupiu-se com aquela droga e depois ficou a ver coisas fantásticas para as quais a razão despreza explicações. Ébrio, fica a rir da credulidade dos leitores eventuais.

É… Quem não dirá?

Mas vi, vi sim senhor. Virei-me e ele estava lá. Parado por entre uma espécie de… Vórtice? Acho que sim. Um vórtice de matéria amorfa. Rodopiando como fiapos translúcidos do mais tênue tecido. Não, tecido não. Que coisa era aquela que girava em circunvoluções cada vez mais brandas até desaparecer? Algodão doce. Ou qualquer coisa parecida. Ectoplasma? Talvez.

Mas era homem. Ou coisa. Ou ambos.

Olhava para mim com uma espécie de curiosidade que se assemelhava à minha própria, descontando o baticumbum do meu coração. Rosto encovado, ensombreado, olhos grandes, pupilas dilatadas, boca rasgada num sorriso desconcertante, lábios finos e dentes pontiagudos e encurvados. Uma capa preta forrada de vermelho como dos filmes antigos sobre nosferatu.

Eu disse que foi rápido, quase um vislumbre, não foi?

Pois é.

Apareceu e desapareceu depois de segundos. “Crack”, fez novamente. Uma fumacinha de ectoplasma (?) voltou a rodopiar. Dessa vez mais rápido e também mais breve. No chão, próximo da aparição, um pequeno cartão balançava movido pelo rápido deslocamento de ar.

Claro que foi difícil. Meus pés pareciam pregados ao chão. Minha boca aberta deixava escapar um fio de baba altamente explosiva, meu coração ainda batia desordenado, meus olhos ficavam querendo dizer que tudo fora imaginação. Claro, só imaginação, sua besta. Você não viu nada, Está vendo agora? Não tem ninguém nem nada na sua frente! Foi um vapt-vupt ilusório, um detalhe folhetinesco só pra te dar subsídio para escrever tuas besteiras no dia seguinte. Incapacidade dos neurônios de processar o óbvio, movidos, é claro, pelos litros de álcool que ingeriu, desatino, loucura, fascinação pelo fantástico, desapego pela lógica e pelo raciocínio… Acorda seu animal irracional!

Movi os pés, arrastando-os pela calçada até o lugar onde o cartão repousava. Ignorei meus olhos e suas tentativas de me desacreditar. Abaixei, inclinando o corpo para frente, adernando perigosamente a estibordo, lancei âncora em águas rasas e estiquei o braço com dedos trêmulos.

Era um cartão de visita.

Virei e revirei. Uma linha no centro. Caslon Open Face corpo… Corpo… 12, acho. Guardei-o no bolso. Endireitei o corpo com enorme dificuldade, respirei fundo e girei nos calcanhares mais uma vez. Não dei quatro passadas até descarregar os torresminhos e as azeitonas que, buliçosos, se recusavam a ficar em meu estômago.

Depois foi a história do capacho e tal.

Larguei o lápis. Revisei o texto. Ia ter que reescrever com mais acuidade. Mas estava lá. Era isto mesmo. Não sabia o título. Tinha que dar um, não é mesmo? Pensei e pensei. Enfiei a mão no bolso, tateei até encontrar o cartão, o coloquei na mesa, diante de mim, ao lado do bloco. Fiquei olhando o que estava escrito. Parecia uma brincadeira de mal gosto, mas era isso mesmo: “NÃO FOI SUA IMAGINAÇÃO”. Resmunguei um “tão de sacanagem comigo” e concordei que por falta de coisa melhor, de idéia mais concreta, de referência mais plausível, isso ia servir.

E chega de conhaque por um bom tempo.

Conto – Pôr-do-Sol

05/09/2009

Teobaldo se encostou à janela e observou o entardecer. Uma infinidade de prédios brigando por espaço impedia-lhe a visão do horizonte, aonde o sol já ia mergulhando.  Lamentou (como lamentava quase todos os dias) a cada vez maior urbanização das metrópoles. O agigantamento desordenado que ia truncando as cidades, tornando a vida cada vez mais difícil e sufocante. Estava entre um suspiro e outro quando Maria se encostou a ele, procurando lá fora o que lhe atraia tanto a atenção. Ela permaneceu calada alguns instantes, esperando que ele se manifestasse. Mas Teobaldo estava melancólico e introspectivo.

— Alguma vizinha bonita no prédio ao lado? – perguntou com ironia, sem esconder uma pontinha de ciúme.

— O Sol. – respondeu Teobaldo, lacônico. O olhar perdido em lugar nenhum.

— Que tem o Sol? Cadê o Sol? – Maria espichou o pescoço para fora. Não viu nada.

— A questão é essa.

— Que questão? – Maria se afastou um tantinho, olhando para Teobaldo com indisfarçada curiosidade.

— O Sol está lá – disse Teobaldo apontando o dedo para um lugar em meio à maré de prédios que os circundavam – mas não o podemos ver. Só podemos supor sua presença pelos raios tênues que ainda emite. E o pôr-do-Sol é tão lindo… Pena que essa graça nos foi tirada.

— Você anda romântico… – brincou ela.

— Romântico, não. Saudosista. Há quanto tempo você não vê o Sol se pôr?

Maria coçou a cabeça, recuou alguns passos e se sentou na cama. Olhava para Teobaldo sem saber se deveria responder, dando continuidade àquele assunto tão estranho e fora de hora ou se deveria mudar a direção da conversa, indo para questões mais concretas, do dia-a-dia. Não estava acostumada a essas abstrações.

— Que tal subirmos no terraço do Prédio? O seu Jonas da portaria tem a chave… – propôs ela, acreditando que com isso deixaria Teobaldo mais animado.

— Esse prédio tem só oito andares, Maria. A grande maioria dos que nos cercam tem mais de quinze. Mas ainda não é essa a questão.

— Eu não estou entendendo você, Teobaldo. Dá pra esclarecer o que é que tá pegando? – Maria emburrou ligeiramente. Olhava para Teobaldo com impaciência.

— O Sol, o céu… As nuvens… É tudo isso que tá pegando.

— Você andou comendo alguma porcaria? Foi mexer naquele saquinho de salgadinho? Eu disse que aquilo tava velho, não era pra comer!

— Não estou brincando, Maria. Estou falando de transcendência. – a voz de Teobaldo não escondia a irritação.

— Agora pirou. – Maria se remexeu inquieta sobre a cama.

— Estou falando de humanidade. Humanismo. Estou falando de vida. De sentimentos. De comunhão. De Deus. Estou falando de alegrias, de amizades. O mundo está se fechando. Estamos nos esquecendo que as melhores coisas da vida são as mais simples. Um pôr-do-Sol que nos é roubado por dia nos faz envelhecer mais rápido. E nem nos damos conta disso. Só quando já é tarde demais.

— Vi um pôr-do-Sol ano passado, na praia. – Maria sorriu. Sua mente se encheu com o cenário que brotou da memória. – é mesmo muito bonito.

— E o nascer, Maria. O nascer é fantástico. – os olhos de Teobaldo brilharam ante a visão que lhe aflorou, trazida por lembranças de experiências vividas.

Maria colocou uma das mãos sobre a barriga ainda pouco saliente e concordou com um sorriso luminoso.

— Há um mundo hostil lá fora. Cada vez mais fechado sobre si mesmo. Os homens não sorriem mais. Andam apressados. Esbarram-se entre resmungos. E o Sol lá em cima, nos brindando com a beleza do nascente e poente. Bastando erguer os olhos…

— Quase isso, Teobaldo. Esqueceu-se dos prédios?

— É… Uma infinidade de janelas. Caras amarrotadas olhando para fora. O Sol escondido atrás disso tudo. – a expressão de Teobaldo era de inconformismo.

— E nós aqui. Discutindo o sexo dos anjos. É o tipo da conversa que deprime, que chateia, você não acha? – Maria franziu o cenho.

Teobaldo saiu da janela e foi se sentar ao lado dela. O semblante triste. Olhou para seu ventre, levou a mão até ele e o acariciou levemente.

— Deprime muito mais saber que há tantos lá fora que não dão nenhuma importância a isso. Ainda tenho a minha imaginação. Mesmo cercado por prédios, consigo “ver” o Sol se pôr. Posso “sentir” os raios tépidos. Posso “ver” o céu de cores mescladas, “sentir” a brisa de fim de tarde. As andorinhas dando rasantes antes de se recolherem.

— Bonito, isso, Teobaldo! Você é um poeta!

— Essas imagens me enchem de energia, Maria. Fazem-me sentir o mundo com uma percepção mais elevada.

— Há raios mais que tépidos se espraiando dentro de casa também. – Maria colocou a mão sobre a de Teobaldo, apertando-a contra sua barriga.

— Agora há. E haverá sempre. Porque acreditamos na vida e em Deus.

— E no pôr-do-Sol.

— E no pôr-do-Sol. – confirmou Teobaldo, inclinando-se para Maria e beijando-a carinhosamente nos lábios.

Conto – Filamentos iridescentes como numa chuva de néon

07/08/2009

Escrevi esse conto para participar do primeiro Prêmio Braulio Tavares 2007 promovido pela comunidade de Ficção Científica do Orkut. Não tinha grandes espectativas já que era um exercício de estilo e não acreditava que fosse agradar. Mas, para minha imensa surpresa, fui o vencedor com até larga vantagem sobre o segundo colocado.  Quem já leu, tem a oportunidade de ler novamente. Quem não leu, aproveite agora.

Filamentos iridescentes como numa chuva de néon

O cogumelo se formou lá longe, afastando a noite com uma radiação brilhante e maravilhosa. Apoiei a caixa no parapeito da janela, coloquei a mão na manivela e sorri. Milhões de filamentos iridescentes surgiram no céu, como numa chuva de néon. Meus lábios se entreabriram respirando o ar morno. Poucas janelas com luzes, madrugada avançada. O bafo quente chegou segundos antes da onda de choque. Minhas bochechas se retraíram e dei um ligeiro toque, um movimento circular sutil na manivela. A onda de choque bateu com vigor, arrastou pedras e vidros e depois retornou uma centena de metros. Furiosa, brigando com o tempo. Milésimos de segundo. Bateu de novo. Voltou. Bateu mais uma vez e retornou até que o cogumelo se retraísse sobre si mesmo, voltando ao momento crucial de sua detonação. A caixa e a manivela, obedientes, acatando minhas ordens. Um segundo a mais e… Lá estava ele de novo. O clarão ofuscante seguido pelo cogumelo. Noite se transformando em dia. Cidade adormecida, inerte, distante da destruição. A onda de choque se aproximando. Ao longe via telhados sendo arrastados… O pó da morte transformando matéria em energia. Apoiei a caixa no parapeito da janela, coloquei a mão na manivela e sorri. Milhões de filamentos iridescentes surgiram no céu, como numa chuva de néon. Madrugada avançada. A onda de choque bateu com vigor. Minha mão moveu-se um milímetro. Meu corpo voltou à posição inicial e a onda de choque retornou centenas de metros. Lá vinha ela arrancando postes. Ia e vinha ao meu sabor. Destruição e reconstrução intercaladas. Cabeças vazias, mergulhadas no sono. Casais notívagos perdidos entre beijos. Boêmios encantados com o fulgor da morte, sem saber que o fulgor era de morte. Guardas-noturnos embalados em cochilos rápidos, aspirando a radiação, sorvendo a morte que os sorvia num repente. E o cogumelo se retraiu numa bolha cada vez menor até nada mais restar senão o obus que bate no chão, vindo de uma queda astronômica. O cogumelo se formou lá longe, afastando a noite com uma radiação brilhante e maravilhosa. Apoiei a caixa no parapeito da janela, coloquei a mão na manivela e sorri. Milhões de filamentos iridescentes surgiram no céu, como numa chuva de néon. Restaurantes fechados, boates na faxina, prostitutas cansadas. Cães e gatos na labuta noturna da caça. Antenas de televisão captando o vazio. Chiados de interferência. A onda de choque, avassaladora, carregando em seu bojo tudo o que encontra pelo caminho. Corpos, carros, tijolos… Voando tresloucados. Violência terrível. E a caixa apoiada na janela. Minha mão na manivela, brincando de Deus, que vai e volta no tempo como se ele não existisse. A bomba, a explosão… Fogo de artifício que espoca lá longe, anunciando uma nova era. A caixa e a manivela. Vai e vem, cogumelo que cresce e retrai. Onda de choque que arrasa e retorna, recolocando tudo em seu devido lugar. Uma brincadeira curiosa. Não há gritos nem lamúrias. Se ainda fosse de dia… Seria possível me embevecer com a perplexidade. Alimentar-me com o terror. Mas era madrugada avançada. Pena. Apoiei a caixa no parapeito da janela e sorri. Milhões de filamentos iridescentes surgiram no céu, como numa chuva de néon. Afastei a mão da manivela e aguardei. Aquela era uma madrugada calma e sossegada. Ao longe a onda de choque fazendo erguer as saias da cidade. Impudente, violando sua sacra e duvidosa condição de virgem. Fragmentos do que era a civilização flutuavam numa gigantesca nuvem de detritos. Minhas bochechas se retraíram, meu corpo foi violentamente arremessado para trás, o prédio arrancado de suas fundações… A mão bem longe da manivela. Cansara da brincadeira. Aquela era uma noite recheada de estrelas… E de filamentos iridescentes como numa chuva de néon.

Conto – Gárgulas

04/08/2009

gargula-em-paris

Gárgulas são enfeites, disseram-me. Ostentam sua figura nos parapeitos, continuaram a dizer. Sob sol e chuva, ao sabor do tempo. Sempre lá, distantes dos olhares alheios dos passantes. Mas há em todas nós uma vontade soberana que pode vencer a pétrea imobilidade. Um ânimo que foi originalmente acrescido pelas mãos do escultor. Depois moldado e exacerbado sob os temporais. Em cada relâmpago, uma fagulha de vida.

Meus olhos antes mortiços, agora se tornam rubicundos. Esforço-me a níveis quase intoleráveis na tentativa de mover um único dedo de minha pata. Sinto estremecer as costas rígidas. A língua dardeja timidamente. Há um afã explosivo que me move os pensamentos. Não serei como as outras. Não permanecerei exposta pela eternidade, estátua concretada, sem vontade própria.

Ahhh… Suspiro trêmulo e gigante de emoção. Exulto em discordar daquelas que negaram esta possibilidade. Olho-as de esguelha, todas elas, estanques em suas posições seculares. Atônitas a perceberem minha recente mobilidade, mesmo que ainda frágil e insegura. Quase gritam para que não me exceda, para que mantenha a mesma disposição de sempre, recurvada sobre a borda do edifício, ameaçadora.

Mas ignoro-as. Estalo o pescoço, sentindo músculos ganharem vida. Minha boca crepita ligeiramente, deixando cair pequenos pedriscos, esses substituídos por carne tépida. Estou quase lá, a me mover em definitivo. A primeira de todas, fazendo história.

Ha-ha… Rio para que me ouçam. Ha-ha-ha… Continuo exultante de emoção. Ha-ha-haaaaaaaaaa…

Despedaço-me em múltiplos fragmentos no calçamento, deixando perplexos os passantes que se afastam assustados. Um fio de sangue escorre de minha boca incólume junto à cabeça, apesar do turbilhão da queda e do choque violento contra o solo.

Antes de perder em definitivo minhas capacidades de percepção há pouco adquiridas, percebo, lá no alto, risadas de escárnio.

Tolas, penso amargurada, tolas e acomodadas.