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Dieselpunk anuncia autores escolhidos.

04/05/2011

Foram lançadas, este ano, duas coletâneas que encarei com elevada seriedade e julguei importantes demais para ficar fora delas. Claro que sempre soube que as minhas chances ombreavam as mesmas de dezenas de outros candidatos e na escolha dos melhores eu poderia ser recusado.

Tratam-se das coletâneas Queer (Tarja editorial – organização de Cristina Lasaitis e Rober Pinheiro) e Dieselpunk (Editora Draco – organização de Gerson Lodi-Ribeiro).

A noveleta para a Dieselpunk ficou pronta primeiro (+ ou – duas semanas para escrevê-la), mesmo porque essa coletânea foi anunciada bem antes (já no último Fantasticon, extraoficialmente). Mas, por outro lado, o conto para a Queer foi o que menos me tomou tempo. Escrevi-o em meras duas horas, embora dar o primeiro passo tenha levado algumas semanas.

Ambos os trabalhos tem para mim uma grande importância porque dei a eles o que tinha de melhor. Tanto um quanto o outro passou pela leitura atenta de alguns leitores beta e ambos foram bastante elogiados. Enviei-os na certeza de estar concorrendo a uma vaga com boas chances de obtê-la.

Bem, fui recusado na Queer e isso me deixou chateado, como, claro, não poderia deixar de ser. Qualquer escritor com o mínimo de miolos na cabeça fica chateado quando é recusado para um projeto. Desejo à essa coletânea todo o sucesso do mundo e que seja precursora de outras tão inovadoras quanto ela.

Mas, por outro lado, fui aprovado para a Dieselpunk. E estou radiante com isso já que reputo a Gerson Lodi-Ribeiro umas das mais importantes cadeiras dentro da literatura de gênero nacional e ter um trabalho aprovado por ele significa muito para mim (significa muito para QUALQUER um).

Com bastante orgulho, dividirei espaço com:

– Antonio Luiz Costa – Ao perdedor, as baratas

– Cirilo Lemos – Auto do extermínio

– Sidemar castro – Cobra de fogo

– Octavio Aragão – O dia em que Virgulino cortou o rabo da cobra sem fim com o chuço excomungado

– Carlos Orsi Martinho – A fúria do escorpião azul

– Tibor Moricz – Grande G

– Hugo Vera – Impávido colosso

– Gerson Lodi-Ribeiro – País da aviação

– Jorge Candeias – Só a morte te resgata 

Com lançamento já programado para acontecer no próximo Fantasticon, antecipo-me bastante atarefado nessa data. Autógrafos para a Dieselpunk, autógrafos para O Peregrino. Para um autor não há nada melhor do que isso, ou há?

Parabéns à Editora Draco, parabéns ao organizador e parabéns a todos os escolhidos que figurarão nessa importante coletânea.

Fábulas do tempo e da eternidade tem segunda edição.

28/04/2010

Não é sempre que ouvimos falar numa segunda edição em nosso mercado editorial. Principalmente dentro da literatura de gênero, onde a esmagadora maioria dos autores amarga uma edição só e ainda minguada nas vendas.

Mas Cristina Lasaitis une, além do irrepreensível talento, a sorte de ter sido iluminada pela musa das prateleiras. Vendeu sua primeira edição e agora parte para uma segunda, onde alterações editoriais dão ao livro uma cara renovada e muito mais bonita.

Gostei muito dessa nova capa. Parabéns à Tarja Editorial e à Cristina. Vocês merecem.

De Bar em Bar entrevista Cristina Lasaitis

10/12/2009

Esperava aparecer numa praça. Arborizada como todas as praças devem ser. Bancos, pombos, eventualmente um chafariz, quem sabe uma estátua. Mas dei as caras numa rocha larga, vergastada, onde o líquen percorria inúmeras rachaduras.

Não havia pombos, nem árvores, nem bancos. Nada do lounge que estaria ao largo da praça, onde mais uma entrevista teria curso. Me vi mergulhado num cenário inóspito, recoberto por rochas de todas as dimensões, vegetação esparsa e rasteira. Nem frio nem quente, um estranho bafejar morno percorria o chão, enquanto uma brisa mais fria ventilava de cima.

Estava escuro. Não havia como saber se devido ao céu carrancudo, cheio de nuvens negras e vivas, sacudidas por relâmpagos, ou se a noite já havia se instalado para além delas. Esfreguei os braços, sentindo um súbito arrepio, e me vi com um manto grosso que me cobria até os pés. Um capuz tombado às costas. Senti-me um Franciscano.

Puxei a manga do manto e olhei para o relógio quântico. Discrepâncias eram a tônica, me disse o relojoeiro. Não há como controlar cem por cento a alteração da realidade, continuou. A energia é muito instável, as engrenagens muito sensíveis e a imponderabilidade muito presente. Ou abandona o artefato, ou se acostuma a ele.

Dei duas batidinhas no vidro, praguejei baixinho e, num suspiro, dei o primeiro passo em direção nenhuma, já que não sabia para onde ir. Havia um rumorejar nem próximo nem distante, mas que ia se acentuando na medida em que avançava. O bafejar morno que percorria o solo fazia mover o pó e fazia correr o musgo seco que se enrolava em meus pés enquanto caminhava. Puxei o capuz sobre a cabeça, cruzei os braços e ponderei em quais outras surpresas a “imponderabilidade” do relógio quântico me traria.

Não mais que vinte metros depois fui obrigado a parar. Um súbito despenhadeiro se precipitava e era dele que bramia um vento forte e quente. Era esse vento que se colava ao chão, percorrendo-o tépido.

Não havia outro lado. Pelo menos não visível. Era como se ali, exatamente ali, acabasse o mundo. E tudo o mais fosse apenas o vazio. Engoli em seco e observei ao redor. Um foco tênue de luz cintilava em movimentos nervosos, à minha esquerda, umas quatro dezenas de metros além. Virei-me naquela direção e avancei, cheio de cautela.

Fui dar numa construção rústica, meio pedra, meio madeira. A luz vinha de um candeeiro agitado pelo vento. Uma placa meio despregada, que batia irritantemente na parede, exibia uma escrita desconhecida.

Pensei em dar o fora, me esconder dentro do cenário rochoso o tempo necessário para apertar o botão do relógio e sumir dali, mas a minha preocupação com a Cris era grande. Talvez ela ainda não tivesse aparecido, talvez sim.

Era um bar, aquele lugar. Só podia ser. Nenhuma imponderabilidade impediria que os encontros se realizassem em bares. Onde quer que estes estivessem.

Abri a porta e entrei. Fiquei congelado na entrada, perplexo com a estranha frequência do lugar. Não sabia se homens ou mulheres. Se machos ou fêmeas. Figuras estranhas que lembravam humanoides na forma esguia do corpo, mas possuíam membros demais, cabeças demais, olhos demais – e de todos os tamanhos e formatos –, expressões indecifráveis, que ora poderiam ser de paz ora de animosidade.

Meus pés finalmente se despregaram do chão úmido – aquelas coisas pareciam desprender do corpo uma espécie de visco – e me arrastei como pude, tentando demonstrar tranquilidade, para uma mesa. Sentei-me diante dela, numa cadeira grudenta, dando graças por estar com aquele manto. Vasculhei o local discretamente atrás da Cris, mas, além daquelas coisas babentas, não havia mais ninguém.

Afundei a cabeça no peito, temendo que alguém – dá pra chamar de “alguém” as coisas que se arrastavam lá dentro? – me interpelasse, fosse para o que fosse. Não tive que esperar muito. Logo entrou no bar uma figura vestindo uma túnica parecida com a minha; capuz ocultando a cabeça. Olhou discretamente de um lado a outro, vacilou assustado diante dos estranhos, prendeu a atenção instantes a mais em minha pessoa e veio até mim. Sentou-se ao meu lado, aproximou-se e pude enxergar na semiobscuridade oferecida pelo capuz um olhar curioso e inquieto.

Era a Cris. Sorri aliviado.

— Quando você me disse que a entrevista ia ser num lounge, eu acreditei – disse ela num tom de crítica.

— Era pra ser – lamuriei –, mas esse relógio…

— Que lugar estranho é esse?  – ela perguntou.

— E eu sei? Quando cheguei estava de frente para uma pedra.

— Você teve sorte. Apareci diante de um precipício. Um passo adiante e… São amistosos?

— Não faço ideia. Tenho medo de tentar.

Ela, então, para meu espanto, ergueu um dos braços, acenando brevemente. O barman ou coisa parecida veio caminhando com suas três pernas, arrastando atrás de si uma cauda de visco que teimava em não desgrudar do corpo. Inclinou-se, não sei se solícito ou curioso para descobrir quem se escondia dentro dos mantos, e gorgolejou alguma coisa numa língua estranha. Cris manejou um troço no braço e alguns gorgolejos brotaram de lá, me fazendo arregalar os olhos.

— Existem relógios e relógios. O seu não dá pra confiar, o meu dá. Tradutor universal – explicou assim que a “coisa” se afastou.

— E o que você disse?

— Pedi dois drinques da casa. Como não sei o que bebem aqui, vamos arriscar.

— Alienígenas…

— Considerando que não se parecem mutantes nem sobreviventes de algum acidente inexplicável, eu diria que sim. Mas me custa a admitir. Você deveria saber com mais certeza.

— Esperava ser levado para algum lugar na Terra. Mas isso aqui… Bem… Isso aqui não é humano. O relojoeiro disse que…

— Não é pra ser uma entrevista? Cada segundo aqui me põe mais nervosa.

— Ah, tá. Vamos lá, então. Bem… Quer dizer… – olhei para o balcão. Apertavam-se, lá, trocando fluidos, não intencionalmente, uns três alienígenas. Bebiam uma coisa estranha, animados. Gorgolejavam e sacudiam as cabeças fazendo alguns olhos, não todos, saltarem das órbitas –… Quem é Cristina Lasaitis? Fale-me sobre a mulher e a escritora. Diga-me onde uma interfere na outra – se é que há alguma interferência.

— A Cris Lasaitis é uma pessoa de mente hiperativa, insaciavelmente curiosa, distraída, hiper(des)focada, sempre perseguindo pensamentos que a mantém em outros mundos na maior parte do tempo. Se interessa por tudo que esteja relacionado às ciências (exatas, biológicas e humanas), adora artes e culturas, é apaixonada por estilos e estéticas… Quer viajar, quer contar histórias e, quem sabe, intervir na forma das pessoas pensarem o mundo. Tem problemas com disciplina de trabalho. Gosta de comida japonesa. É dependente de cafeína. Aprecia a liberdade acima de todas as coisas, e… O que mais? A escritora só se aventura a escrever aquilo que considera interessante, útil e/ou relevante (ou seja, aquilo que gostaria de ler). Aliás, como pessoa, não gosta de falar demais. Não vejo razão para separar a mulher e a escritora – apesar de estar me descrevendo em terceira pessoa, me sinto mais confortável sendo uma pessoa só, rs. Detesto vida dupla.

Ela concluiu ao mesmo tempo em que o barman colocou sobre a mesa dois copos metálicos, largos e cheios de uma beberagem exótica. Afastou-se de nós, arrastando ainda o mesmo visco de antes. Fiquei enjoado.

— Vai beber isso? – perguntei de olho no líquido borbulhante, amarronzado e denso, de onde surgiam, vez ou outra, coisas estranhas na superfície.

Ela cheirou, torceu o nariz e empurrou o copo ligeiramente para frente.

— Bem que podiam ter trazido um vinho, ou qualquer outra coisa.

— Qualquer outra coisa, trouxeram. Você consegue distinguir, entre eles, alguma diferença de sexo?

— Não. Devem ser assexuados.

— Falando nisso, você acha que os escritores brasileiros de ficção de gênero são conservadores, não gostando, por exemplo, de trabalhar com temáticas sexuais em suas obras? E, caso ache, qual seria o motivo para essa atitude?

— Sou adepta daquilo que os transumanistas chamam de “pós-generismo”, ou seja, aquele “estado de coisas” onde o sexo das pessoas deixa de ser relevante no seu status social e os papéis de gênero tradicionais deixam de existir. Essa forma de pensar tem se tornado cada vez mais corriqueira nas obras de FC atuais, inclusive de autoria brasileira. Mas a palavra “sexo” se desdobra em dois significados: se você é homem ou mulher, ou o ato sexual em si…

Então ela parou. Uma coisa parecida com um dedo brotou no copo, fazendo movimentos erráticos. Parecia vivo.

– Bem, eu… Hmmm… Que droga é essa?

Então ignorou o inusitado da coisa e continuou:

—… Quanto ao sexo-ato, eu diria que já li autores brasileiros dos mais “pornochanchada” aos moços mais castos. Quanto ao sexo-status, não me recordo de ter lido algum autor brasileiro que tenha abordado a questão do feminismo ou dos papéis de gênero em suas obras – mas confesso que meu conhecimento da literatura brasileira de FC é um pouco limitado.
Sei que quero muito mergulhar na temática do sexo (como ato e status) para um futuro romance, que atualmente está em fase de pesquisa e roteirização.

— Tem quem pense que ficção científica é só entretenimento. Está distante de literatura. O que você acha?

— Dizia Oscar Wilde que toda arte é perfeitamente inútil. Concordo com ele uns 34%. A literatura é útil no sentido de que, às vezes, temos mais necessidade de uma boa história do que de comida. A ficção científica tem a utilidade do entretenimento, mas pode ser um pouco mais do que isso: também funciona como um laboratório de teorias, hipóteses, ideias, projetos…

Então Cris parou por momentos de novo. Não para olhar o copo onde o dedo ainda adejava, mas para dar uma mexida no próprio relógio.

— Arthur C. Clarke poderia ter sido um mero inventor e ter se consolado com o fato de que jamais veria as maravilhas tecnológicas que habitavam exclusivamente seus pensamentos. Mas como escritor propagou ideias “virais” de invenções além do nível técnico atual, porém perfeitamente viáveis (como o elevador espacial, ou a estação espacial de gravidade simulada por rotação), que seguem assombrando e influenciando as gerações que o sucedem, e que um dia poderão realizar parte desse futuro idealizado por ele.

Mais uns acertos no relógio, um franzir de cenho, um leve menear de cabeça, como se algo a estivesse aborrecendo.

— Outro que se refere muito ao potencial de geração de ideias da FC é o Michio Kaku, físico e escritor de divulgação científica. Seu livro mais recente, Physics of the Impossible, apresenta as tecnologias que estão sendo desenvolvidas atualmente e que até pouco tempo atrás eram matéria exclusiva da ficção científica.

— Seus primeiros escritos foram de ficção científica?

— A história que me levou a escrever um romance (que não cheguei a terminar, e está engavetado até o momento em que eu decidir que “dou conta”) era, sim, ficção científica.

— O que você tanto mexe nesse seu relógio?

— Ajustes… Os “caras” lá atrás finalmente se deram conta da gente.

— Como você “ouve” o que eles dizem?

— Implante neural. Ligado diretamente ao relógio. Mas não enfiaram nada em mim. É anímico. Se tirar o relógio do pulso, a ligação se encerra.

— Devem ser meio lerdos. Como foram se dar conta da gente só agora? Não nos serviram?

— Viram minha mão e… Peraí… Vou repetir o que estão dizendo nesse momento: “Cinco dedos, garanto!”, “Não pode ser, impressão sua”, “E sem visco, aquela mão não secreta visco”, “Pensando bem, reparei nos trajes estranhos”, “Não tocaram na sopa, quem em sã consciência e em domínio de suas faculdades mentais não beberia a sopa?”, “Tenho certeza de que foi o braço de um deles que falou comigo!”, “??”, “??”, “!!”, “São alienígenas!”, “Vá você e os inquira!”, “Eu, não!”, “Nem eu!”…

Ela respirou fundo, parou de repeti-los e – para minha surpresa e preocupação – continuou o raciocínio anterior, falando sobre o tema da entrevista:

— Claro, há uma cepa de chatos que se acham no direito de exclusividade – só o que eles produzem é legítimo, todo o resto é amadorismo. Então criam academias onde entronam a si mesmos, criam premiações para se autopremiarem, praticam uma incansável masturbação intelectual que não interessa a mais ninguém senão a eles próprios; e, como acontece na maior parte das instituições humanas, preferem a política da exclusão.

Falo dos caras que classificam tudo o que é ficção científica e fantasia como subliteratura, o que não é outra coisa senão preconceito e arrogância, muita arrogância!  Sou muito preocupada com o aspecto qualitativo das obras, e defendo que os livros devem ser ao mesmo tempo bem escritos e prazerosos de ler. Sei o trabalho que dá para escrever “da melhor forma possível”, e sempre estou aberta a críticas. Mas que não me venham dizer que o que escrevo é subliteratura! – continuou ela como se o dilema que se desenrolava junto ao balcão não nos dissesse respeito.

— Cris – eu a interrompi, sem conseguir mais conter meu nervosismo –, os “caras” lá atrás… Estou mais preocupado com eles, agora.

— É que certas coisas me deixam maluca.

— Sei, mas eles tão olhando com todos os olhos para cá.

— Esse seu relógio não funciona, não? Aperta esse botão.

— Estou apertando ele desde que você chegou. Tem uma bosta de timer, ele só destrava depois de certo tempo.

— “São humanoides”, “Mas parecem ter só uma cabeça, dois braços e duas pernas… aberrações”, “Será que são comestíveis?”.

Olhamos um para o outro, preocupados de repente. Comestíveis? A pergunta ainda repercutia em nossas cabeças quando eles se moveram devagar. Um deles se postou diante da porta, os outros dois vinham em avanço contínuo, porém cauteloso. Vimos bocas, várias delas. Surgiam nos lugares mais insuspeitos. Olhamos para trás e encontramos outra porta. Uma saída de emergência. Não titubeamos. Nos erguemos num salto e corremos para ela, que se abriu assim que a abalroamos.

Só que não havia uma saída de fato. Ou havia. Depende do ponto de vista. Nos vimos no precipício. Sem possibilidade de retorno. O impulso era demasiado para retrocessos.

Então caímos. Vertiginosamente. Ainda nos agarramos um ao outro, apavorados. Mesmo em completo pânico, vi surgir uma lua no fim do precipício. E o luar era magnífico. Foi quando rugiu o vento. Tão quente que fez arder nossa pele, mesmo protegida pelo manto. Tão forte e intenso que interrompeu nossa queda e nos fez alçar voo, para cima, para além das bordas do despenhadeiro, para o vento gelado que estrondeava no alto.

Foi quando o botão do relógio destravou.

Ainda vi os alienígenas alvoroçados, no solo, aguardando a chegada de duas novas refeições e a expressão incrédula e fascinada da Cris antes de apertar o botão.

Problemas no relógio quântico.

05/12/2009

Agora fiquei preocupado. Correr o risco de causar danos em escritores e editores… Bem… Dane-se. Convido as pessoas para serem entrevistadas e já vou logo avisando: “Caso ocorram discrepâncias que provoquem risco de morte, cada um é dono do próprio nariz e se vire como puder”.

Todos aceitaram sem reclamar. Talvez pelo espírito de aventura, talvez por acharem que essa história de “discrepância” é balela pra deixar a entrevista mais interessante, sei lá.

De qualquer forma, nenhum dos entrevistados aceitará um novo convite. Depois que a coisa acaba é que se dão conta de que era tudo verdade. É que se dão conta de que suas vidas estiveram por um fio. Ou por um mísero botão de relógio.

Acontece que convidei a Cristina Lasaitis para a próxima entrevista e ela, toda faceira, já foi perguntando quem vai ter que matar para a coisa rolar. Se ela soubesse que não é bem assim…

A Cristina é gata. E gatas a gente não coloca em risco.  A gente se coloca em risco por elas, nunca o contrário.

Então resolvi levar o relógio pra consertar. Não quero mais saber de discrepâncias. Chega de surpresas assustadoras, como o ataque dos zumbis na entrevista com o Xerxenesky ou a luta titânica de Godzilla e Megalon na do Erick Santos.

De agora em diante quero entrevistas calmas e pacíficas.

O relojoeiro disse que o relógio estaria pronto até terça-feira. Vou ficar no pé dele.