Posts Tagged ‘Crítica literária’

Estilo, técnica e estética. Essas merdas!

25/04/2011

“O homem voltou para o lado dele e viu a mulher vindo rápida na direção em que ele estava. Quando viu ela, pensou: ela está vindo na minha direção…”

— E então? Tá ficando legal, não tá?

— Mas e o monstro? Onde entra o monstro?

— Calma!

“Quando a mulher chegou do lado dele, os dois se viraram para o final do corredor e… Nossa!… uma coisa melada e escura estava escorregando pelo chão e fazendo barulhos esquisitos.”

— Taí o monstro!

— Uau!

“Os dois saíram correndo pelo corredor, um do lado do outro, porque estavam lado a lado. Olhavam um pro outro, apavorados, e pensavam que estavam quase mortos”.

— O monstro vai pegar eles?

— Ah, se não pegar, não tem graça.

— Puxa, você escreve bem pra caralho!

— Escrevo mesmo, né? Mas olha essa parte, agora.

“No fim do corredor tinha uma porta fechada. Eles estavam sem a chave então ficaram chutando a porta com os pés e dando murros com as mãos com a esperança de que um homem ou uma mulher ou alguém, qualquer um do outro lado ouvisse a barulheira”

— Cara. Que tensão! Você tem jeito, você é bom nisso.

“A gosma chegou até o pé deles e grudou na sola, corroendo ele como um ácido que queima tudo no que toca. A mulher gritou primeiro e começou a pular pra todos os lados, chacoalhando os pés, dando chutes na gosma. Ela, melequenta, ia comendo tudo, até os joelhos dela que deixavam jorrar litros e mais litros de sangue…”

— Putz… dá pra ver a cena, é de cinema isso! Dá pra fazer um filme!

— Eu sei! Quando escrevo já vou vendo a cena. Escrevo pra virar filme mesmo. E tem gente que reclama, que diz que eu e meus chapas escrevemos mal.

— Jura? Não acredito!

— Pois é! Vem falar de estilo, técnica, estética… essas merdas.

— Cara, história boa é história que emociona a gente. A sua história é do tri-caralho! Ela tá perfeita! Não tem problema nenhum!

— E eu não sei disso? Mas tenho sorte. Publico meus contos numas coletâneas da porra que tão lançando. Tá certo que pago uma grana, mas é pouco. Se eu fosse ruim mesmo acha que iam me publicar mesmo pagando? E tem mais: tem editor que defende a gente, que diz que essas merdas de estilo são bobagens. Que história boa é a história que laça o leitor. Estética é coisa pra cuzão que não sabe escrever bem e se pega nessas merdas pra defender o seu lado. É crítico que não sabe escrever, que tem inveja da gente. Então esses bostas vêm dando paulada no nosso trabalho.

— Cê tá certo. É isso mesmo. Crítico é tudo bostão. Gente incompetente que morre de inveja de quem é estrela escrevendo. Crítico é aquele ser que, de repente, esqueceu o que é se divertir com uma boa leitura, passar horas acompanhando os personagens e se emocionando.

— É isso aí. Por isso continuo escrevendo do jeito que eu escrevo. Sei que sou foda e sei que quando me criticam, estão só destilando veneno. Nem ligo. Tô cagando.

— Continua aí, quero ver como eles morrem!

— “A mulher derreteu toda, a cabeça explodiu miolo nas parede, o sangue dela todo vermelho em cima das coisa gosmenta. O homem chorava lágrimas de seus olhos avermelhados de medo e terror. Apertava o corpo, da cabeça aos pés (incluindo as pernas), na porta. A gosma levantou como se tivesse pernas (mas não tinha) e foi se xegando devagar, borbulhando…

— Ei, “xegando” não é com “ch”?

— Ah, vá se foder você também!

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O Peregrino, em busca das crianças perdidas dá a cara a tapa.

25/03/2011

Meses atrás tive uma ideia que julguei interessante: reunir um grupo de resenhistas para ler e avaliar O Peregrino, em busca das crianças perdidas, com o intuito de divulgar suas impressões antes da distribuição oficial do livro.

Mas a proposta era de que essas resenhas só fossem publicadas se o livro de fato merecesse elogios. Pode parecer estranho, mas minha intenção era/é a de usar as resenhas como ferramenta de marketing. Isso não significa que se o livro não causar boa impressão, eles deixarão de resenhá-lo. Vão. Mas publicarão a crítica, nesse caso, só depois do lançamento.

Nunca pedi a ninguém que me fizesse resenhas positivas na base da amizade e nunca vou pedir. Não me presto a canastrices.

Assim sendo, os resenhistas/críticos aceitaram a missão e trataram de ler o original em PDF que lhes enviei e logo vocês terão a oportunidade de saber o que pensam a respeito de O Peregrino, em busca das crianças perdidas.

Quem são eles? Ficarão sabendo na semana que vem.

Cada resenha será postada no blog de domínio do resenhista contatado num dia diferente, começando na segunda-feira, dia 28 de março.

Encontraremos-nos lá.

O crítico literário, esse ser incompreendido.

09/02/2011

Escrever  críticas não é para qualquer um. É necessário que se tenha capacidade técnica, conhecimento teórico e tempo livre para se dedicar a essa prática (quando o fazem pelo gosto de fazer).

Não há exagero se dissermos que o crítico precisa ter também ouvidos moucos e olhos cobertos por catarata para fazer de conta que não escuta e nem lê as besteiras – às vezes nem tanto – que se comentam à custa de sua crítica.

Impressiona a incapacidade dos detratores de ler atentamente e se ater com profundidade àquilo que foi dito. Escapa-lhes, talvez propositadamente, a argúcia e o bom senso. Dentro de um texto com algumas dezenas de linhas, seus olhos só conseguem esbarrar nas críticas e passam longe dos elogios, como se eles sequer existissem.

Um bom exemplo é a resenha que Roberto de Sousa Causo fez do livro Neon Azul de Eric Novello (Editora Draco – 2010).

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4930567-EI6622,00-Perdidos+na+noite.html

Poderia estar me referindo a outras, feitas por tantos outros críticos, já que o problema é universal. Cansei de ver Antonio Luiz Monteiro da Costa (Carta Capital) ser agredido verbalmente por pessoas que não concordavam com ele.

No caso em pauta, surpreende-me que uma resenha tão boa, que considerou a obra bem acima da média, pudesse ter sido desqualificada por comentaristas em redes virtuais que acusaram o crítico de má vontade, de eventual indisposição com o autor e outros que tais.

Incapazes, todos eles, de lerem e avaliarem a crítica com equilíbrio?

Segundo Saint-Clair Stockler, cujas opiniões respeito muito, tratou-se de: “uma das críticas mais respeitosas que já li. Ele cumpriu bem o papel de um crítico: destacou pontos elogiáveis e pontos falhos. Isso é que é fazer crítica”.

Eu, pessoalmente, fiquei com excelente impressão da obra ao terminar de ler a matéria de Roberto de Sousa Causo e minha vontade em lê-la só aumentou.

Destaco duas passagens emblemáticas da resenha e que fundamentam todos os meus argumentos:

1- “A necessidade de manter um tom melancólico deixa o texto um pouco apático”

2- “Esse tipo de reflexão só pode ser provocado por um livro como este – sublinhado pela ótima capa e tratamento gráfico de Erick Sama -, que chega tão próximo de ser um trabalho excepcional”.

… um pouco apático.” soou bem mais forte aos detratores que “… tão próximo de ser um trabalho excepcional.” (considerando que podemos contar nos dedos de uma só mão – mui provavelmente – os trabalhos excepcionais em FC&F já publicados no Brasil).

Para estar próximo de “excepcional”, precisa estar, no mínimo, dentro da categoria de “ótimo”. Ou seja, na ponta da pirâmide. E, mesmo assim, reclamam.

Ô gente mais sem noção.

——

Baseado na crítica, o livro está recomendadíssimo. Encontrem-no em:
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=22163961&sid=8737202901321491611721318&k5=2E5C2881&uid=

 

Crítico literário, eu? Não, mesmo!

30/08/2010

Antes que se estabeleça uma situação inexistente e eu seja definitivamente rotulado como crítico literário, lanço-me, de armas em punho, na tentativa de uma defesa desesperada.

Vem surgindo aqui e ali comentários me apontando como crítico, coisa que não sou e nunca fui. Desde o início do É só outro blogue deixei claro que faria comentários às leituras realizadas, sem, contudo, classificá-las especificamente como resenhas críticas.

Entendo que para ser um crítico seja necessária uma bagagem que não possuo tal como conhecimentos em teoria literária, por exemplo.

Desde o início me comprometi a realizar leituras com o intuito de, talvez com um pouco mais de profundidade do que um leitor comum faria (já que também sou escritor), apontar o que considero bom ou ruim numa escala de valores baseada nos triviais “gostei”, “não gostei”.

Com franqueza. Essa também foi uma promessa. Dizer o que acho com a premissa de não mentir a mim mesmo.

Poderão argumentar, e não sem razão, que isso já é o suficiente para me classificar como crítico. Tenha eu conhecimento profundo da matéria ou não. Mas me sinto desconfortável com o rótulo. Prefiro ser visto como um comentador honesto e sem medo de ferir possíveis suscetibilidades.

Igualmente consciente de possuir um telhado de vidro; preparado para absorver críticas ao meu trabalho, sem reações imaturas como se vê em larga escala por aí. E no aguardo de que as críticas sejam, claro, fundamentadas e não resultado de vingança ou revanchismo (o que também se vê fácil por aí).

Assim, deixemos o título para o Antonio Luiz M. C. Costa, o único crítico literário voltado à literatura de gênero que conheço e respeito.

Crítica literária é coisa para especialistas. Sou só um curioso.

De Bar em Bar entrevista Larry Nolen

18/08/2010

Larry Nolen é professor de Inglês e História e leciona por mais de 10 anos no Tenessee e na Florida tanto em escolas particulares e públicas. Fascinado com línguas desde muito cedo, ele devota muito do seu tempo a ler e traduzir entrevistas e artigos do espanhol para o inglês, com sua primeira tradução publicada marcada para ser lançada em novembro de 2010. Larry tem uma fascinação doentia por esquilos e sonha em um dia organizar uma antologia sobre esquilos e ficção cientifica. Seu blogue pode ser encontrado no endereço ofblog.blogspot.com. Ele foi nomeado editor da série da "Best American Fantasy" em janeiro, começando com BAF 4

Estávamos rodeados pela mata. Árvores frondosas, arbustos, grama. Muitas borboletas. O céu azul era filtrado pela alta ramagem, deixando passar raios entrecortados de luz. E esquilos. Muitos deles. Subindo e descendo das árvores, correndo pelo chão, se enroscando em nossas pernas. Sorriamos. Era uma visão encantadora. O ar rescendia ao perfume de flores. Víamos animais selvagens como gamos e muitos pássaros, canoros, observando-nos como nós os observávamos. Sem sustos nem medos tolos e desnecessários.

Devo salientar que não esperava um cenário maravilhoso como esse quando apertei o botão do relógio quântico, pronto para mais uma entrevista. Sabia da adoração de Larry Nolen por esquilos e até acreditei que nos encontraríamos com eles. Só me preocupava em como esses roedores poderiam se apresentar. Temia que viessem mortos-vivos, dentes enormes e pontiagudos, com fome de miolos.

Há tempos abandonei qualquer expectativa por uma entrevista pacífica e sem grandes riscos à vida.

Olhamo-nos, embevecidos. Meu entrevistado estava em estado de graça, quase vivendo uma epifania. Esquilos são animaizinhos extremamente ariscos. Ele jamais poderia imaginar vários deles subindo por nossas pernas, festivos, como se fôssemos iguais.

E foi com igual estupor que vimos um deles, maior, do tamanho de um gato adulto, arriscar-se bem mais. Trepou nas calças de Larry Nolen, agarrou-se à sua camisa e empoleirou-se em seu ombro. O animal sorria. Com olhos esbugalhados nos fitava alternadamente. Então abriu a boca e, para nossa surpresa, falou:

— Não acham que já está na hora de acordarem dessa ilusão estúpida e retornarem à realidade?

Como num passe de mágica vimos tudo ao nosso redor ir desmoronando em partes cada vez menores, pixeis que iam desmanchando até restar nada mais que uma sala rodeada de projetores holográficos.

O esquilo nos ombros de Larry continuava lá. Expressão irônica. Aguardou alguns instantes até que nos recuperássemos do espanto e então desceu, num salto preciso. Olhou-nos de volta e fez sinal para que o acompanhássemos.

— Esquilos falantes – murmurei, perplexo.

— Esquilos falantes e tecnológicos – Larry completou com um franzir de cenho.

O esquilo disparou de encontro a uma parede, desaparecendo por ela diante de nossos olhos. Avançamos e a tocamos. Era rígida, sólida, metálica.

— Mas que diabos… – começou a protestar Larry.

Antes que terminasse, o esquilo retornou com expressão irritada.

— esqueci que vocês são tão grandes quanto o cérebro minúsculo que possuem. É metal amorfo e nós somos pequenos. Se usassem ou pouco mais a cabeça, saberiam que teriam que se agachar.

Experimentei a parede com a ponta do pé direito e ele, para meu espanto, atravessou. Larry tateou, descobrindo exatamente a altura da passagem e num sorriso forçado, ajoelhou-se, engatinhando para fora da sala. Eu o imitei.

Encontramo-nos num corredor. Embora os esquilos fossem pequenos – mas não tão pequenos quanto poderíamos imaginar – os ambientes ali eram razoavelmente grandes.

— Esperávamos vocês. Adaptamos algumas coisas – disse o roedor como se antecipasse nossas inquietações. – meu nome é Bel’n’tirk e esta é a nave espacial Derk’n’bork, categoria oito. Construída para resgatar e conduzir alguns escolhidos a paragem segura.

Eu e Larry nos olhamos, espantados.

— Mas para onde esse relógio maluco nos trouxe? – ele me perguntou.

— Não faço a menor idéia – respondi enquanto via o esquilo disparar pelo corredor, deixando-nos para trás.

— É uma entrevista. Faça a primeira pergunta.

— Quando você diz — com razão — que o público que não fala inglês espera e possivelmente requer dos autores locais que eles sejam mais fiéis aos padrões velados da FC, você quer dizer que a FC inglesa — mais apta a subverter ou desafiar esses padrões — está evoluindo ou já chegou ao seu limite? Em outras palavras, é possível que ela esteja evoluindo de maneira “divergente” de si mesma? – guardei o papel que consultei em busca das perguntas no bolso de onde o tinha tirado e acelerei o passo. Logo perderíamos Bel’n’tirk de vista se ficássemos parados.

Outros esquilos corriam pelos corredores. Muitos carregando blocos de notas, comunicadores, canetas e um sem número de coisas que não podíamos identificar. Passavam por nós como se nem estivéssemos lá.

— Em minha opinião, o problema de se definir rigidamente um termo é que, quando isso é feito, o termo passa a ser usado de maneira diferente. A FC hoje, seja nos EUA, Grã-Bretanha ou Brasil, por exemplo, difere completamente em tendências, avanços tecnológicos — tanto reais quanto imaginários — e em como as pessoas e as sociedades são representadas. Se eu fosse obrigado, de alguma forma, a dar uma definição, diria que a FC é um tipo de narrativa fluida que corresponde às condições temporais e locais dos autores, modificando-se de acordo com as necessidades, a fim de retratar de maneira melhor as mudanças sociais, culturais e tecnológicas.

Assim que terminou de responder, a Espaçonave foi sacudida. Ouvimos um ranger intenso como se o metal de sua estrutura estivesse se rompendo. O chão tremeu e tivemos que nos apoiar nas paredes. Os esquilos ao nosso redor alarmaram-se e passaram a correr ainda mais rápidos.

Bel’n’tirk meteu-se noutra passagem. Agachamo-nos e entramos no que parecia um elevador. E era. Os controles ao rés do chão. O esquilo apertou dois botões e fomos arremessados ao teto, tamanha a velocidade com que aquele veículo se lançou para baixo. Bel’n’tirk riu de nossa situação e apontou os pés, onde botinhas magnéticas recém-acionadas o mantinham bem firme no chão.

— O que está acontecendo? – perguntou Larry, preocupado.

— Somos uma nave de resgate. Alguns nos acusam de seqüestro, mas não é o caso. Salvamos pessoas que são perseguidas. Mas só fazemos isso quando sua causa nos interessa. E a causa de vocês é bastante interessante.

— Que causa é esse? – perguntei, entre curioso e assustado.

Bel’n’tirk ia responder quando o elevador parou de chofre. Fomos arremessados ao chão, caímos sentados entre gemidos de dor e constrangimento. As portas não se abriram porque não se abriam. Tínhamos que atravessá-las. Engatinhamos para fora, já irritados com essa necessidade tão idiota (portas que abrem e fecham são extremamente confortáveis). Levantamos-nos, mas não inteiramente. Teto baixo. Obrigados a ficar recurvados. Vimo-nos na Ponte de Comando. Pelo menos doze esquilos ocupavam lugares diante de painéis multicoloridos de onde se projetavam imagens holográficas indistinguíveis. No centro do passadiço um esquilo maior que os demais, quase do tamanho de um cão, olhava-nos com indisfarçável curiosidade.

— Meu nome é Jorj’h’korg. Não imaginam a enorme satisfação que tenho em conhecê-los. E a esse maravilhoso relógio quântico, cuja tecnologia tanto nos fascina.

— “Nos fascina”? – questionei, já em defesa de meu relógio.

O esquilo capitão se moveu preguiçosamente sobre as patas traseiras, arrastando a imensa barriga em nossa direção. Parou diante de nós dois, avaliando-nos por inteiro, como se analisasse produtos que estivesse em vias de adquirir.

— Críticos literários… Ah, isso me deslumbra… – disse de súbito, erguendo as mãos teatralmente. Depois apontou o dedo para mim e completou: …E escritor, também… Hmmmm… Um crítico com telhado de vidro… fascinante. Querem matá-los – emendou, por fim, dando-nos as costas e se distanciando.

— Matar-nos? – perguntou, perplexo, Larry Nolen.

— Odeiam críticos, todos eles – grunhiu o capitão. – detestam quem lhes aponte os defeitos. Querem elogios, só isso. Mesmo não merecidos.

Larry Nolen olhou para mim. Olhei para ele.

— Eu meto o pau, mesmo, sem dó nem piedade – gracejei.

— Mas não critico ninguém… Quer dizer… Não faço isso… Só comento ou resenho os trabalhos que aprovo… Eu nunca…

— E acha que os demais tomam de que maneira o seu silêncio? – perguntou Jorj’h’korg, virando-se rapidamente e fazendo a barriga balançar perigosa e assustadoramente de um lado a outro.

Larry Nolen engoliu em seco.

— Mas, relaxem – o capitão continuou. – Vocês estão numa nave de resgate categoria oito. Na famosa Derk’n’bork. Salvos, podem acreditar. Nossos perseguidores podem nos atingir quantas vezes quiserem e não nos causarão danos maiores.

Como a não confirmar as palavras dele a nave voltou a ser sacudida. Ouvimos um estrondo próximo. Um dos painéis soltou chispas e fumaça. Uma descarga elétrica fez um dos esquilos da ponte soltar um guincho agudo e estridular enquanto estrebuchava. Caiu aparentemente morto, soltando fumaça pela boca. O capitão se aproximou dele, chutou-o displicentemente e sorriu, fingindo que nada acontecera.

— Estão numa entrevista, não é mesmo? Interessam-me demasiado as perguntas e as respostas. Continuem, por favor.

Temeroso de que nosso tempo naquela espaçonave fosse curto, atendi aos apelos do capitão. Gaguejei enquanto fazia a segunda pergunta. Larry Nolen gaguejou durante a resposta.

— Haveria algum benefício real em se traduzir trabalhos estrangeiros para o inglês de maneira regular? Quero dizer, tirando o fato de o autor ser diferente e estrangeiro, e supondo que os editores e o mercado não sejam uma barreira à tradução e publicação dessas histórias, será que a FC seria beneficiada com um fluxo constante de trabalhos que não fossem de língua inglesa, mas que, em sua essência, fossem inspirados nos modelos da FC inglesa e britânica?

— Certamente que sim. A qualquer momento em que haja uma livre troca de ideias, particularmente ideias que reflitam valores culturais e sociais diferentes, as chances de inovação na escrita, digamos, entre um autor americano e um argentino, ou um britânico e um japonês, crescem exponencialmente. Veja a explosão que acontece atualmente com o mangá. Este já não é um tipo de literatura japonesa, ou algo que os americanos adotaram por acaso. O mangá está se tornando uma literatura global, do tipo que gera mais e mais híbridos literários.

Larry Nolen respirou fundo, segurou-se na cadeira de Jorj’h’korg e continuou:

— O mesmo acontece com a FC. Recentemente, terminei de ler uma antologia curta de FC de Cingapura chamada Happiness at the End of the World (Felicidade no Fim do Mundo). Apesar de o inglês, juntamente com o mandarim, serem os idiomas dominantes em Cingapura, os valores culturais são muito diferentes, e isso no mínimo serve para abrir os olhos. Estando nesta parte do mundo, veja a explosão de popularidade da FC na China, Taiwan e Japão. Apesar desses mercados ainda não terem produzido muitos trabalhos que tenham sido traduzidos para o inglês, eu devo mencionar que a Haikasuru iniciou as atividades em 2009 e já realizou muitas boas traduções de FC japonesa. Pelo que tenho visto, eles tem reinventado muitos conceitos centrais da FC, entre eles o primeiro contato. Os japoneses às vezes parecem ser até mais xenófobos que os americanos nesse assunto, viagem no tempo — não tão voltada aos paradoxos e às alterações negativas do passado no caso dos japoneses — e tecnologia. Os americanos parecem ter sentimentos mais misturados em relação aos avanços tecnológicos, especialmente no que diz respeito a modificações no corpo humano, do que os japoneses ou chineses.

Jorj’h’korg, que todo o tempo parecia absorto em meu relógio, abanou as mãos, sorrindo.

— Inteligente pergunta, inteligente resposta – voltou-se então a um dos comandados e ordenou que passassem à dobra oito.

— Dobra oito? – perguntamos quase em uníssono, eu e Larry.

— Bah! Quando estavam se divertindo no Holodeck, já desenvolvíamos dobra sete. Manobras evasivas e fuga acelerada. A nave Derk’n’bork não consegue ir além da dobra oito. Os inimigos estão próximos, muito próximos.

A um gesto, um painel desceu do teto, desdobrando-se em múltiplas facetas, todas elas formando um único monitor. Tremularam na tela oito pontos luminosos que pareciam dançar.

— Estão a cinco milhões de quilômetros de nós. Suas armas conseguem nos atingir com metade da potência. Mas se aproximam. E cada metro mais próximos, a força de suas descargas aumenta consideravelmente.

— Nos disseram que esta espaçonave era a melhor de sua categoria. Você mesmo disse isso agorinha há pouco – protestei.

— Oh, mentirinhas inofensivas, embora ela seja boa. Só, infelizmente, não a mais rápida. Temos conforto, o Holodeck, um depósito de provisões invejável e algumas esquilinhas safadinhas, se podem me entender – disse com um piscar malicioso de olhos.

—E como pensa em nos salvar desse jeito? – perguntei, nervoso.

O capitão olhou para meu relógio com um sorriso franco. Juntou as mãos e tamborilou os dedos uns contra os outros.

— Podemos partir dessa realidade para outra. Uma fuga espetacular através dos multiversos. Claro que isso obrigaria que esse relógio saia desse pulso, o seu, e venha para esse aqui, o meu. Mas a vida é sempre o bem mais precioso, não é verdade?

Ponderei suas palavras. E logo cheguei à conclusão de que isso não poderia ser feito. A transferência de propriedade nos impediria de voltar à nossa própria realidade. E não havia nenhuma garantia de que aquele esquilo obeso fosse devolvê-lo para mim.

— Como a ficção, não necessariamente científica, feita em países
latinos como Brasil, Argentina e México é percebida nos grandes
centros de literatura de ficção? Há mesmo barreiras de língua? – perguntei à Larry Nolen de supetão.

O capitão da nave logo transferiu sua atenção à Larry, deixando meu relógio, por alguns intantes, em segundo plano. Eu tentava, claro, ganhar tempo e acelerar a entrevista para que pudessemos nos mandar dali em segurança.

— Há barreiras, claro, mas a fama parece acabar com elas. Veja o exemplo de Jorge Luis Borges. Passei todo o mês de julho escrevendo postagens diariamente sobre seus livros — lendo a maioria em espanhol ao invés de traduzidos para o inglês — ou sobre comentários que ele fez a respeito de outros autores. Levou 14 anos, desde a publicação de sua primeira história em 1947, numa revista de mistérios, até sua repentina explosão de popularidade nos EUA e em outros países em 1961, depois que ele dividiu um prêmio importante de ficção com Samuel Beckett. Em sete anos, Borges passou a atravessar os EUA dando palestras que atraíam milhares, tornou-se Professor Visitante em Harvard e várias outras universidades de prestígio, e suas histórias passaram a figurar em publicações como The New Yorker pouco depois de serem publicadas na Argentina. Levando em conta que isso aconteceu há mais de 40 anos, essa foi uma grande conquista para um escritor estrangeiro.

Olhei de relance para Jorj’h’korg. Estava absorto na resposta.

— Mas apesar de os EUA terem uma longa história de importar (e depois “emprestar” ideias) ficções da Europa, foi somente a partir dos anos 1950 que a literatura latino-americana se tornou tão popular nos EUA quanto no México e na América do Sul. Parece que houve um período mágico que perdurou até meados dos anos 1980 com o aparecimento de autores como Roberto Bolaño no final da década anterior, quando uma avalanche de escritores talentosos de toda a América Latina teve bom público nos EUA: Juan Rulfo, Alejo Carpentier, Carlos Fuentes, Gabriel García Márquez, Jorge Amado, Mario Vargas Llosa. Cada um destes foi traduzido nos EUA entre 1960 e 1975, e a América Latina passou a ser vista como uma boa fonte de literatura.

Enquanto Larry respondia, comecei a me mover para trás. Tentando não despertar suspeitas. O capitão queria meu relógio e eu desconfiava seriamente se a intenção primeira era mesmo escapar de perseguidores. Podia apostar que era tudo um embuste. Larry, atento, acompanhou meus movimentos.

— Ainda há muitos críticos que apontam a América Latina como um lugar onde se pode encontrar ótimos livros. A revista Time colocou o escritor chileno Alberto Fuguet como um dos “50 Latinos Mais Influentes” em 1999, por exemplo. O grupo do Manifesto Crack Mexicano, o grupo McOndoísta do Cone-Sul, e o infrarrealismo de Bolaño levaram a importantes projetos de tradução nos EUA. Apesar de Fuguet, Edmundo Paz Soldán, Jorge Volpi, e Ignacio Padilla — para citar alguns dos nomes mais proeminentes desses grupos — ainda não terem atingido o status de superstars do “El Boom”, eles são bem visíveis e seus trabalhos geralmente bem aceitos nos círculos literários americanos.

Aproximamo-nos da entrada do elevador. Todos os esquilos na Ponte de Comando estavam atentos em nós. Alguns já tinham se levantado das cadeiras. O capitão aproximara-se também, meio ressabiado.

— De volta à pergunta original a respeito das barreiras para escritores latino-americanos: na maioria dos gêneros literários, uma vez que se percebe que um autor tem talento, seu trabalho geralmente é reconhecido nos EUA. Mas na literatura de gênero, assim como FC ou fantasia, isso pode ser um problema, já que, tirando Borges, cujos trabalhos de ficção frequentemente tocavam — como ele menciona na introdução de El Aleph — no “fantástico”, não houve um escritor latino-americano de sucesso com trabalhos explicitamente de gênero. Tenha em mente que por enquanto estou deixando em aberto a questão de como definir “realismo mágico”, já que a semântica por trás dessa expressão já criou debates acalorados – concluiu Larry num pigarro.

Havia uma espécie de entendimento tácito. Como se eu e ele pudéssemos nos entender telepaticamente. Claro que o capitão barrigudo e a tripulação não estavam ali tentando salvar nossas pobres e mortais vidas. O interesse no relógio quântico era tão intenso, que foi impossível não reparar nisso.

Num átimo lançamo-nos para o elevador. Mergulhamos entrando nele de cabeça, não sem batê-las na parede metálica do outro lado, já que o espaço interno não era grande. Larry apertou os botões sem saber o que fazia. O elevador alçou vôo, disparando para cima e depois para o lado, fazendo-nos chacoalhar dentro dele como se estivéssemos numa batedeira.

— Para onde vamos?  — ele perguntou, confuso.

— E eu sei? – respondi, aparvalhado. – Esse caixote vai ter que nos deixar em algum lugar, qualquer hora.

— Querem o relógio, certo?

— Ficou óbvio demais.

— Esquilos miseráveis. Há mais uma pergunta, não há?

— Sim.

— Faça-a. Sei que só tendo todas elas respondidas poderemos sair da realidade paralela em que viemos parar.

Ia fazer a última pergunta quando o elevador parou de repente. Ficar lá dentro ou sair? A dúvida foi cruel. Mas preferimos sair e foi o que fizemos. Estávamos em um corredor. Alguns esquilos confusos nos viram enquanto sirenas tocavam alto anunciando a nossa fuga. Empurramos alguns roedores para o lado e saímos em disparada pelos corredores, sem destino. Podíamos ouvir gritos atrás de nós. Palavras de ordem pedindo nossa prisão. Ordenando nossa execução. “Mas o relógio não pode ser danificado!”, diziam.

— Que esquilos são esses? – Perguntei depois de uma curva, parando, tentando ganhar fôlego.

— Não são esquilos normais – Larry respondeu, parando ao meu lado, mãos apertando o baço. — Não são os nossos esquilos. Não podem ser.

Estiquei o pescoço na esquina em que estávamos para ver onde estavam os malditos. Vinham em turba, avançavam resolutos, pareciam carregar armas nas mãos.

— Há uma sala adiante – Disse Larry Nolen.

— Como sabe? – inquiri, sem conseguir divisar nada a não ser uma sólida parede.

— Há uma leve, quase imperceptível luminosidade que demarca o limite da entrada. Não pode vê-la? Observe, preste atenção.

Então vi. Ele estava certo.

— Não adianta muito. Estão próximos demais para conseguirmos cobrir essa distância sem sermos atingidos pelos disparos das armas.

— Ahá! – disse, então, Larry. E retirou dos bolsos um punhado de nozes. – esquilos são esquilos em qualquer lugar do mundo, sejam eles avançados cientifica e tecnologicamente, ou não!

— De onde vieram essas nozes?

— Você não disse alguns dias antes da entrevista, que preparasse algumas? Aqui estão!

E então ele as lançou no meio dos esquilos que imediatamente se alvoroçaram, abandonando a caçada e brigando entre si pelo alimento que quicava entre eles. Corremos com o resto de nossos fôlegos na direção da porta que fulgurava adiante. Larry Nolen agachou-se lépido e passou escorregando para o outro lado, eu não fui tão rápido. Bati a cabeça na parece acima da porta e tombei de costas, atordoado. Larry Nolen me agarrou pelos pés e me puxou para dentro do Holodeck. Tínhamos voltado ao início de tudo.

Eu ainda tentava recobrar completamente a consciência enquanto ele arrastava um móvel pesado na direção da porta, posicionando-o de forma que os esquilos não pudessem passar. Suspirou aliviado ao fim da operação e sentou-se, costas no armário, enxugando o suor que lhe escorria pela testa.

— A última pergunta – insistiu, enquanto cutucava minhas pernas.

Balbuciei alguma coisa, enfiei a mão no bolso e retirei dele o papel com as perguntas. Tinha esquecido a última. Ia ler, mas vendo meu esforço e meu olhar atrapalhado, Larry Nolen pegou o papel e leu ele mesmo em voz alta.

— A vida de um resenhista nem sempre é muito fácil, principalmente
quando os autores dos livros resenhados estão cada vez mais vivos e
conectados. Quais os seus critérios — inclusive de avaliação — para que você se mantenha sempre fiel aos leitores que optaram por acompanhar suas críticas e resenhas? Você já teve problemas com alguma resenha ou autor específicos? Como consegue ler 500 ou mais livros por ano?

Ia começar a responder quando o móvel foi chacoalhado. Podíamos ouvir  gritos do outro lado. Sentei-me de encontro ao móvel também, apondo a ele o meu peso e força contrárias. Puxei as pernas e cruzei os braços nos joelhos. O relógio quântico bem diante do meu nariz. Em meio ao vozerio, ouvimos o capitão falar

—Amigos, amigos. Que bobagem! Saiam da frente, façam correr esse obstáculo e vamos beber! Vejam, tenho cerveja nictiana, aqui.

—Bem, tento não ler mais do que 3 ou 4 livros que tenham um enfoque ou gênero similares – iniciou Larry, ignorando os apelos do capitão. Dessa forma não esgoto a leitura. Quando escolho um livro para resenhar — que pode ser até mais ou menos ¼ dos livros que leio, primeiramente verifico se o livro tem algo de interessante para passar. Se tiver, passo a considerar o contexto; quando foi escrito? Para quem foi escrito? Existe alguma coisa que por ventura não conheça a respeito daquele tempo/cultura? Então vejo a mecânica da história.

Uma chacoalhada mais forte nos assustou. Ouvimos uma espécie de zumbido agudo e insistente. Olhamo-nos, sem entender o que faziam. De repente, bem diante de nossos olhos, entre nossos rostos que estavam voltados um para o outro, um raio azulado intenso brotou de dentro do móvel e começou a cortá-lo perpendicularmente. Engasgamos com o susto. Afobado, Larry deu continuidade à resposta.

— Qual o ponto de vista da narrativa? Quão forte é a prosa? Há algum tema que se possa identificar? Que tipo de caracterização é apresentada? Ela se encaixa na história? Há alguma trama? E se há, é fácil entendê-la? Os fatos acontecem num ritmo constante ou fica-se com a impressão de o autor ter perdido o controle? Depois disso, eu avalio se as coisas se encaixam e se o autor conseguiu fazer aquilo a que se propôs. Somente depois disso tudo é que eu considero escrever uma resenha do livro.

O móvel estava se partindo em dois.

— Se eu tive problemas com autores ou outras pessoas a respeito das minhas resenhas? Na verdade, não. Um dos motivos é que eu geralmente só escrevo resenhas de livros que tenham deixado uma forte impressão em mim, não tenho a tendência de escrever resenhas negativas (pelo menos se compararmos com a quantidade de trabalhos “blehh” que eu nem tive forças para mencionar). Eu já conversei via email com autores, mas por incrível que pareça, geralmente não sobre os trabalhos deles. Então, não, não tive conflitos que devam ser mencionados com autores. Em relação aos fãs, somente de vez em quando, mas já que eu consigo ser mais duro com aqueles que não me fornecem argumentos inteligentes, geralmente não tenho problemas com eles.

Ajeitamo-nos preocupados, vendo o laser ou o que quer que fosse aquilo, completando o curso de seu preciso corte. Logo o móvel estaria dividido em dois.

— Sobre como consigo ler 500 livros por ano? Bem, eu disse no meu blog alguns meses atrás que tenho uma equipe especialmente treinada de esquilos sérvios que fazem a maior parte do trabalho, lendo, revisando, além de cozinhar e fazer massagens eventuais. Mas a resposta mais “chata” é que sempre fui capaz de ler várias linhas ao mesmo tempo e compreender o texto totalmente. Processo palavras como se fossem imagens e faço isso umas 5 a 10 vezes mais rápido do que a maioria. Isso é o mais perto que consigo chegar de explicar a minha velocidade de leitura. Devo mencionar também que raramente leio mais do que 3 horas por dia e que a maioria dos livros que leio tem menos de 350 páginas. Então nada de ler 2 ou 3 livros por dia de Robert Jordan, George R. R. Martin ou Steven Erickson para mim!

O móvel se partiu, enfim, mesmo que ainda com partes justapostas. A força de dezenas ou centenas de esquilos anabolizados contra dois humanos cansados… Bem, o resultado não poderia ser mesmo diferente. Lançamo-nos para frente, assustados, nos afastando dos roedores que arrastavam as partes com destreza e extrema facilidade.

Instantes antes de apertar o botão do relógio, remetendo-nos à nossa realidade, eu ainda assisti a entrada dos animais. Esquilos ferozes, incluindo um imediato que julgávamos morto numa descarga elétrica e um capitão barrigudo consternado. Nas mãos, nenhuma cerveja nictiana.

Não seria dessa vez que o relógio quântico cairia em mãos inimigas.

Morte aos críticos literários!

23/03/2010

Existem escritores e críticos. Existem escritores críticos. Existem críticos escritores. Não dá para conceber um mercado literário sem um e sem o outro.

Sempre que lançamos um texto na virtualidade ou o publicamos em papel, esperamos por feedback. Todos, sem exceção. Mesmo os críticos escritores. Porque eles, embora tenham pleno domínio da teoria literária e da rotina crítica, como escritores padecem do mesmo mal que todos nós: ansiedade.

Ansiamos ser bem aceitos. Ansiamos pelos elogios. Ansiamos por comentários pontuais. Ansiamos em ser aprovados num mercado em franca competição.

Mas não ansiamos por críticas. Nenhum de nós. As detestamos. As tememos.

Os críticos têm o odioso hábito de revelar publicamente as falhas de nosso trabalho. O dom de erguer cirurgicamente a pele vistosa no ponto exato onde, por baixo, borbulha o que há de mais putrefato. Os críticos são pessoas detestáveis, monstruosas, falsas, dispostas a destruir nosso amor próprio. Críticos literários deveriam ser pendurados de cabeça para baixo em praça pública e apedrejados.

Mas só quando o alvo de suas críticas está voltado para o nosso trabalho.

Se o alvo for o trabalho de outrem, o crítico é o mais abalizado, pessoa equilibrada, harmoniosa, de bom senso e atenção arguta. Gentil pessoa injustamente apedrejada.

Coitados de nós. Enquanto não formos capazes de assumir nossos erros, admitir nossas limitações e lutar para melhorarmos, tomando por base justamente esses comentários críticos, seremos obrigados a assistir o fuzuê lamentável e constrangedor que assolou a rede nos últimos dias.

Precisamos enfiar uma coisa na cabeça: toda crítica, mesmo a mais ácida, tem algo a nos ensinar. É ela que nos faz enxergar os erros cometidos, se tivermos humildade suficiente para isso.

Morte aos críticos! Uma morte metafórica, claro, porque são imortais. Com o poder adquirido das Fênix, renascem sempre no texto seguinte.