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Assembleia Estelar, lido e comentado.

13/06/2011

A coletânea Assembleia Estelar, organizada por Marcello Branco e publicada pela Editora Devir conta com 14 noveletas/contos, tem 408 páginas e seu tema está voltado à política e a tudo aquilo que a constitui e a complementa.

Comecei a leitura com grandes expectativas imaginando que o tema proposto exigiria trabalhos muito bem elaborados e necessariamente (não obrigatoriamente) hipnóticos. Não foi exatamente o que encontrei. Surpreendeu-me, sobretudo, encontrar trabalhos com pouquíssimas páginas quando uma das exigências era a de que as narrativas deveriam obedecer ao formato noveleta.

Ou faltaram trabalhos melhores e mais complexos, ou uma flexibilidade de última hora do organizador atingiu níveis estratosféricos.

Assembleia Estelar recebe um BOM pelo conjunto, embora não seja exatamente uma coletânea memorável.

A capa old-fashioned (autor: Vagner Vargas) repete o padrão apresentado por outros livros da Devir. Eu, particularmente, não gosto delas, embora reconheça a qualidade dos traços artísticos do capista. Já estava na hora da Devir se lembrar de que estamos no século XXI. Os anos 1960 ficaram para trás.

As escolhas recaíram sobre autores nacionais e estrangeiros, trazendo-nos trabalhos de Bruce Sterling, Ursula K. Le Guin e Orson Scott Card, além de Fernando Bonassi, André Carneiro, Ataíde Tartari, Henrique Flory, Daniel Fresnot, Luis Filipe Silva, Flávio Medeiros, Carlos Orsi, Miguel Carqueija, Roberto de Sousa Causo e Roberval Barcellos.

Vamos aos comentários.

• A queda de Roma antes da telenovela
Luis Filipe Silva

O que seria se cada votação de projeto de lei fosse transformada em espetáculo, transmitido em rede nacional de TV? Luis Filipe Silva fala de um futuro hipotético onde políticos perfeitamente integrados ao modus operandi da época lidam com um parlamentar cujas técnicas ainda obedecem às velhas fórmulas do século XX, nas quais os debates ainda se sobrepujam a mera análise estatística dos números. Não se trata de uma noveleta com ação e momentos de tirar o fôlego, trata-se de uma abordagem reflexiva que caminha paripasso para um final coerente. Se não arrebata, também não aborrece. MÉDIO

•Anauê
Roberval Barcellos

Trata-se de uma história alternativa onde, em 1980, o Brasil é governado por integralistas e tem a Alemanha nazista como aliada. Esperam por Hudolf Hess, que visitará o país. O autor traz à tona toda a sensação de indignidade e revolta que a política de extermínio de judeus provocou, explorando esse cenário em pleno território brasileiro. O conto começa bem, porém, na medida em que avança, vai descendo a ladeira. Há momentos inverossímeis, pouca habilidade nas cenas de ação (que são ingênuas) e um final apressado (e piegas) que foi decepcionante. RUIM

• Gabinete blindado
André Carneiro

Sabotadores se preparam para a ação enquanto uma das integrantes mergulha em reminiscências e reflexões. Poderia ser uma história bastante interessante se houvesse uma preocupação maior com a trama do que com a literariedade. Eu vivo reclamando a pouca preocupação do escritor brasileiro com a forma, mas também condeno os exageros. Nesse caso, André Carneiro chutou pra escanteio o enredo, apresentando-o de forma fragmentada, e valorizou excessivamente a qualidade técnica. Tratou-se de uma leitura arrastada e aborrecida. RUIM

•Trunfo de Campanha
Roberto de Sousa Causo

Essa noveleta fala de estratégias políticas que pretendem conferir a um único homem poder absoluto sobre o universo conhecido. Parece-se muito com um excerto, um trecho extraído de uma obra maior e mais completa — e isso a enfraquece. A preocupação em detalhar o cenário político desse universo força a narrativa a uma leitura cansativa. Não há pontos de tensão, não há ação (e quando há, não convence). Monocórdia da primeira à última linha parece ter sido escolhida para esse livro em virtude apenas do aprofundamento político que lhe é dada. O organizador ignorou qualquer necessidade de tensão. Final previsível e ingênuo. RUIM

• Diário do cerco de Nova Iorque
Daniel Fresnot

Escritor francês em visita à America do Norte assiste convulsão social onde Nova Iorque mergulha numa batalha contra o resto do país. Narrativa hipnótica, muito bem conduzida, ritmo excelente. O leitor se vê arrastado em meio à trama, ansioso pelo final. Destaque especialíssimo a Jack, o periquito. MUITO BOM

• Saara Gardens
Ataíde Tartari

Esse é o trabalho mais curto do livro. Narra tramas políticas que visam permitir a exploração do deserto do Saara num empreendimento imobiliário. Conhecido por seu estilo despojado, Ataíde Tartari explora alusões a empreiteiras e personalidades contemporâneas. O conto peca especialmente por ser muito curto. Não há desenvolvimento, não há aprofundamento, não há envolvimento. O subterrâneo e os bastidores políticos poderiam ter sido melhor explorados. Quando achamos que o conto está começando, ele termina. Sua absoluta despretensão também o enfraquece. RUIM

• Era de aquário
Miguel Carqueija

Embora seja também curto, esse conto tem um desenvolvimento mais equilibrado. Um senador se prepara para uma importante conferência numa universidade em meio a um cenário distópico e caótico, onde assassinatos e convulsões sociais são regra e não exceção. Boa condução e bom ritmo. Agradável leitura. BOM

• A evolução dos homens sem pernas
Fernando Bonassi

A história discorre com ironia e se revela uma metáfora para a ciranda evolutiva do Homem, que constrói o ambiente de acordo com as suas necessidades, até que suas necessidades sejam o ambiente que o cerca. Atraente sem ser apaixonante, o conto se descobre profético. BOM

•A pedra que canta
Henrique Flory

Uma criança doente se revela potencialmente perigosa quando tem implantado cirurgicamente um dispositivo que a permite enxergar pontos de tensão em estruturas. Será importantíssimo em uma missão de sabotagem que pretende destruir Buenos Aires. Trata-se de uma história bastante interessante, bem contada e com bom ritmo. BOM

• O dia antes da revolução
Ursula K. Le Guin

Noveleta em ritmo de reminiscências, onde a protagonista revive o passado às vésperas de uma revolução. Também como excerto, o trabalho acaba sendo linear demais, não oferecendo os pontos de tensão tão necessários para aprisionar a atenção durante a leitura. Muito bem escrito, porém. Mas basta isso? A mim, não. MÉDIO

•O grande rio
Flávio Medeiros Jr.

Trata-se, sem dúvida, do melhor trabalho dessa coletânea. O assassinato de John Kennedy é planejado muitos anos depois de sua eleição, num mundo mergulhado na guerra. Viagem no tempo, paradoxos e muita criatividade. ÓTIMO.

•O originista
Orson Scott Card

O estudo da origem e complexidade da linguagem na formação histórica do ser humano trabalhado com maestria por Card. A história está baseada na trilogia da Fundação de Asimov e os protagonistas trabalham nos subterrâneos pela formação da Segunda Fundação. Talvez uma das narrativas mais longas, mas nem por isso aborrecida. Card conduz muito bem a história conseguindo prender a atenção do leitor com rara habilidade. Por vezes me flagrei protelando a leitura com medo que ela se acabasse. MUITO BOM

• Questão de sobrevivência
Carlos Orsi

São Paulo, ano de 2030. O caos social implode a cidade, doenças misteriosas assolam a população menos favorecida, governantes não têm pruridos em dizimar massas humanas em nome da ordem. Nesse cenário extremamente caótico um grupo de resistentes toma de assalto um veículo de transporte de leite materno. Dramático e pungente. Carlos Orsi consegue com habilidade narrar uma história assustadora. BOM

•Vemos as coisas de modo diferente
Bruce Sterling

Jornalista muçulmano visita os EUA para entrevistar um político líder de uma banda de rock. Com boa condução essa história bastante interessante nos traz um mundo sociopoliticamente transformado, num tempo em  que os EUA não são mais a polícia do mundo e as terras do Islã se uniram num único Califado. Profético, talvez? BOM

Portal 2001 – Lido e comentado.

14/09/2010

Ter recebido todos os cinco portais tem sido uma honra que devo a Nelson de Oliveira, a quem agradeço pela enorme generosidade.

Recentemente me inquiriram sobre os dois primeiros (Solaris e Neuromancer) e se eu os tinha lido e comentado aqui no blog. Até pensei que tinha e fui procurá-los. Com surpresa descobri que, embora os tenha lido, não os resenhei.

Fica para uma próxima encarnação, então.

Perguntaram-me também porque ainda não tinha publicado nenhum conto nos portais. Respondi que até ia publicar no Neuromancer, mas problemas financeiros súbitos me impediram. Depois acabei desistindo por optar em manter um comportamento único para todas as coletâneas pagas. Ou seja: se tenho que pagar, então não participo.

Isso não tem nada a ver com qualidade editorial ou literária. Nem se se trata de coletânea caça-níquel ou não. Apenas critério.

Quanto ao Portal 2001, recebi e o li quase numa só tacada (tá, uma tacada que demorou uns cinco dias… rs). Gostei bastante desse, talvez mais que dos demais. Ainda assim há contos que não conseguiram dialogar comigo, nada tiveram a me dizer. Assim, ignorarei a esses, não os comentando (Não significam que sejam ruins, embora alguns sejam, sim, eca!). Poupo o meu vernáculo e poupo a integridade intelectual do autor.

Vamos aos meus comentários:

A república do recurso infinito – Braulio Tavares.

Braulio Tavares é hoje uma unanimidade nacional (por mais que toda a unanimidade seja burra, segundo Nelson Rodrigues). Dono de uma verve excelente e admirável criatividade. Nesse conto ele consegue ser bastante desconcertante. A excelência levada à enésima potencia fragmenta a sociedade em compartimentos cada vez menores e burocraticamente controlados. Traz como resultado a opressividade do controle estatal sobre o indivíduo.

Arribação rubra – Roberto de Sousa Causo.

O conto é um prosseguimento de trabalhos anteriores, publicados desde o primeiro Portal. Shiroma é a protagonista, uma agente mortífera e arduamente treinada. Assassina, trata-se de uma ferramenta eficaz nas mãos de tutores inescrupulosos. Dessa vez vi uma personagem mais falível. Não tanto inatingível ou implacável. O autor revelou que por trás da carapaça de eficácia se esconde uma mulher frágil e com anseios bastante humanos. Shiroma mesmo sob um aparente fracasso, completa sua missão de forma bem sucedida. Gostei muito da ambientação e do cenário. Dos contos do Causo com essa protagonista, o melhor até agora.

A paz forçada – Mayrant Gallo.

Nesse conto, o autor explora um futuro próximo onde questões políticas aparentemente insolúveis entre países, são resolvidas com pulverizações continentais. Mostra um avanço científico e tecnológico irreal para daqui a 30 ou 40 anos. Narrativa fluida e até contagiante, porém superficial. Mostra uma nova ordem mundial geopolítica numa abordagem muito periférica.

Além do espelho – Claudio Parreira.

Bebum numa mesa de bar devaneia ou vive uma realidade que só ele é capaz de atingir. Homem desesperado pela perda da mulher a quem amava faz trato com figura misteriosa, fruto do entorpecimento de seus sentidos ou entidade fantástica. Realidade e fantasia se misturam de forma que somos incapazes de dizer qual delas domina o cenário.

Sentinela – Delfin.

Avanço científico e tecnológico permite ao homem criar clones de si mesmo, estéreis, porém. O que não se poderia supor é que essa criação se tornasse independente, reivindicando direitos que antes não possuía. O problema se torna tão emblemático que apenas a guerra poderá resolver. É quando soluções alternativas são elaboradas. Boa narrativa de viagem no tempo, linguagem consistente e boa solução, embora relativamente previsível.

Herdeiro dos ventos – Mustafá Ali Kanso.

Esse conto me surpreendeu. Bela e poética narrativa sobre a necessidade de ser livre nos atos e pensamentos, sem patrulhamento ideológico e sobre a prisão que os incompetentes, os invejosos, os frustrados e os amargos constroem ao redor daqueles que buscam a realização pessoal.

Uma carta para Guinevere – Mustafá Ali Kanso.

Homem em vias de realizar uma viagem espacial e se ausentar da Terra por séculos em voo subluminar redige a derradeira carta aos que ama. Poético como o anterior, mas não tão intenso nem tão deslumbrante.

Planetas invisíveis: Diana – Brontops Baruq.

Em fuga de crises sucessivas, povo encontra na miniaturização a solução para seus problemas até que o verdadeiro problema se torne a miniaturização. Cenário fascinante que mereceria um trabalho mais longo. Uma novela ou um romance. Criativo e admirável.

Rebobinados – Brontops Baruq.

Presidiário enviado em viagem de 1.800 anos junto a um maníaco sexual. Luta diuturna para manter a integridade física. Interessante (embora absurda) concepção de longevidade para que os protagonistas terminem a viagem ainda vivos. Bem conduzido e construído.

Prometeu acorrentado reboot – Sid Castro.

Nave terráquea encontra planeta gigante com fascinante estrutura de vida. Boa condução embora tenha sido bastante previsível. A complexidade científica apresentada escapa ao meu conhecimento.

Novo Início – Marcelo L. Bighetti.

Esse conto mexe com argumentos difíceis de deixar de lado, pelo menos para mim. Nazismo, ufologia e viagem no tempo. Trata-se por isso, de um trabalho com o condão de me prender na poltrona, logo nas primeiras linhas. Por outro lado, o autor comete alguns pecadilhos. Um deles é o de entregar o final do conto logo na quarta página, tirando qualquer surpresa do leitor. Outro se vê na aparente necessidade de enxugar o texto. Coisas ficaram mal explicadas, como, por exemplo, o que a descoberta de um disco voador com tripulantes moribundos tem a ver com uma passagem temporal (ou buraco de minhoca). O autor não explica como os cientistas chegaram às suas conclusões. Também ignora as inúmeras possibilidades de alteração de passado que redundariam em futuros os mais díspares e não apenas naquele que encerra o conto. Assim, embora o argumento seja fascinante, faltou a ele maiores explicações para que tivesse mais consistência. Como uma parede de tijolos sem argamassa. Qualquer esbarrão e vai tudo por terra.

Contato alpha 9 – Rodrigo Novaes de Almeida.

Esse conto me fez lembrar vagamente de O túnel do tempo pelo estilo de narrativa. Observadores externos assistem momentos históricos extraídos dos sonhos de humanos. Buscam por um artefato com o poder de destruir toda a galáxia. O conto traz coordenadas geográficas que tive a pachorra de verificar. Não são aleatórias (Que cada leitor faça a mesma verificação e descubra a que lugares representam). Segue um bom ritmo.

Neve e sanduiches, A gruta de Vênus, Eblon, Mãos de borracha – Maria Helena Bandeira.

Os quatro contos seguem os mesmos parâmetros dos trabalhos anteriores dessa autora. Com um pouco menos de hermetismo, talvez, mas ainda demonstram o desinteresse numa história linear, com começo, meio e fim, perfeitamente delineados. Isso não é ruim. A autora brinca com situações cotidianas em cenários alienígenas ou não, cenários bizarros ou fantásticos, mas cientificamente alterados indicando um tempo (ou realidade) além do nosso. Não são particularmente bons, mas também não são particularmente médios (ruins não são). Me deu aquele gosto de gostei/não gostei tanto. Na necessidade de classificar, opto então por um bom.

Primeiro de abril: Corpus Christi – Luiz Bras.

Cidade autoconsciente sofre ataques que visam penetrá-la, compreendê-la e, se possível, neutralizá-la. A história confusa, alegórica e aparentemente sem sentido me obrigou a erguer a suspensão de credulidade e passar a lê-la como um texto de fantasia.

Futuro do pretérito Ricardo Delfin.

Narrativa muito interessante, inteira no futuro do pretérito. Remete-nos a uma espécie de fast forward antecipando acontecimentos futuros dramáticos. Nada a ver com FC (pra mim), tem os dois pés no fantástico.

Gazeta marciana – Ricardo Delfin.

Notícias de uma Marte futurística onde o homem já a colonizou e nela construiu suas cidades. Ambiente curioso embora nada muito diferente daquilo que vivemos agora. A existência de uma civilização marciana nativa desloca o conto da FC para a fantasia, descaracterizando o cenário.

Amor perfeito – Rogers Silva.

Ode ao amor entre dois antagônicos pós-apocalipse permite inúmeras reflexões. Narrativa de orações extensas e que nos obriga a uma leitura atenta. O risco de se perder entre os dois narradores é grande. Texto muito bem trabalhado, embora eu creia que se prolongue demasiadamente, tornando-a cansativa.