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De Bar em Bar entrevista Ekaterina Sedia

02/12/2010

Ekaterina Sedia mora na região de Pinelands, em New Jersey. Seus romances The Secret History of Moscow e The Alchemy of Stone, aclamados pela crítica, foram publicados pela Prime Books. O próximo, The house of Discarded Dreams, está previsto para sair ainda em 2010, enquanto Heart of Iron está programado para 2011. Seus contos foram vendidos para Analog, Baen's Universe, Dark Wisdom e Clarkesworld, assim como para diversas coletâneas, incluindo Haunted Legends e Magic in the Mirrorstone. Ela organizou também as coletâneas Paper Cities (vencedora do Word Fantasy Award), Running with the Pack e Bewere the Night (a serem lançados). Faça uma visita em http://www.ekaterinasedia.com.

 

Dei graças aos deuses quando, ao cair, vi-me sobre uma montanha de detritos. Como rocha pulverizada, fragmentou-se ainda mais à minha queda, amortecendo o impacto de meu corpo sobre o solo. Rolei afundando mãos, cotovelos e joelhos no pó e nos fragmentos de pedra. Aguardei alguns segundos até ter um pouco mais de controle sobre a situação e, livre de uma rápida tonteira, olhei ao redor.

Do ângulo em que me encontrava só consegui visualizar montes altíssimos, uns maiores que os outros, pináculos estendidos para o céu. Centenas ou milhares deles lado a lado, formando um bizarro cenário. Coloquei-me de pé, equilibrei-me sobre o solo instável e arrisquei alguns passos até a borda do cume onde me encontrava. Meus pés afundavam quase até os tornozelos, enchendo meu tênis de pedriscos. Estiquei o pescoço e senti um arrepio forte. O monte em que eu me encontrava distava da superfície uns bons duzentos metros.

Então recuei. Eu estava aprisionado num cume de onde não havia a menor possibilidade de escapar, a não ser que fosse em queda livre até o chão. Não havia alternativas, não havia escolhas. Ou ficava lá para toda a eternidade, ou arriscava uma descida perigosa.

Então senti o chão estremecer. O cume todo balançava como se estivesse ocorrendo um terremoto. Senti o chão sob meus pés se agitar, uma espécie de fluxo contrário me empurrava para cima. Balancei de um lado a outro, perdendo o equilíbrio. Então um jorro de fragmentos irrompeu, formando um gêiser comedido. Pedriscos foram atirados para fora, sei lá por qual processo, formando uma nuvem espessa de pó.

Afastei-me do centro do cume, de onde espirravam os estilhaços. Atônito, vi o processo ir diminuindo até não sobrar nada além de um pequeno revoluteio no solo. Em segundos o processo se alterou e foi-se abrindo no chão um vórtice para onde escorria a caliça. Um buraco com cerca de cinco pés de diâmetro. Aproximei-me, curioso, e olhei para dentro.

Soltei uma exclamação abafada de terror e recuei assustado até cair próximo à beira do cume. Meu coração disparado, meus olhos arregalados, as mãos aferradas no solo movediço, procurando apoio, sem encontrá-lo.

Da abertura surgiu uma térmite. Antenas nervosas, com as pinças empurrando um resto de lixo. Colocou meio corpo para fora e estancou subitamente ao perceber minha presença. Tinha pelo menos uns oito ou nove pés de comprimento.

Minha respiração estava suspensa. Sentia minha pulsação elevar-se a níveis preocupantes. Meu maxilar tremia e meus músculos pareciam ter virado geleia. Não respondiam a nenhum comando. O grito só explodiu de minha boca quando outras térmites surgiram, umas sobre as outras, atirando-se em minha direção.

O solo sob meu corpo cedeu e eu caí montanha de entulho abaixo.

Por vezes sentindo a lateral do cume se chocar contra meu corpo, por vezes sentindo-me suspenso no ar, mas em queda vertiginosa. Via o solo se aproximar inexoravelmente e não pela primeira vez tive certeza de que ia morrer. Então bati num relevo e comecei a rolar em meio a fragmentos e estilhas de pedra que iam amortecendo minha queda. A velocidade diminuindo gradativamente. Cheguei ao sopé da montanha de detritos ofegante, assustado e com múltiplas arranhaduras e hematomas. Felizmente, nenhum osso quebrado apesar da sensação dolorosa de não ter uma única parte do corpo sem alguma contusão.

Endireitei-me no chão, procurando algo para me encostar. Tentei ajeitar as roupas sujas que estavam amarrotadas e rasgadas em alguns pontos. Olhei ao redor com bastante nervosismo, tendo vivas na memória as térmites alucinadas vindo para cima de mim. Então ergui a cabeça e olhei para cima. Os montes erupcionavam na direção do céu, fincando nele suas pontas. Podia jurar que via antenas distantes se movendo. As térmites, nervosas, à procura da caça que despencara.

Respirei fundo tentando controlar as emoções e passei a prestar mais atenção ao meu redor. Entre as bases das inúmeras torres havia um espaço de cerca de vinte ou trinta metros, corredores razoavelmente largos, suficientes para uma pequena multidão se locomover. Era audível um abafado estalar e crepitar cuja procedência eu desconhecia. O solo na superfície era bastante firme e sólido, sem a consistência arenosa e fofa dos montes.

Ergui-me com bastante esforço sentindo as contusões doerem, os músculos latejarem. Arrisquei alguns passos, temeroso, acerquei-me dos sopés, em busca de alguma coisa diferente, algo que pudesse me fazer assimilar o cenário com qualquer coisa que me lembrasse da civilização.

Arrastei os pés por alguns corredores até parar próximo de um túnel. Largo o bastante para… Para… Ainda tentava achar qualquer concluir o pensamento quando senti o chão estremecer suavemente e o estalar e crepitar estranho que ouvira antes, aumentar.

Parei qualquer elucubração e comecei a recuar, preocupado. Não havia para onde fugir naquele labiríntico novelo de corredores, então me aproximei de uma pedra grande o suficiente para me ocultar e escondi-me atrás dela.

Sufoquei outro grito quando vi centenas de térmites assomarem à entrada da caverna. Uma onda devastadora de formigas gigantes, agitando as antenas, abrindo e fechando as presas – de onde vinham o estalar e crepitar. Formaram uma parede diante da entrada, como sentinelas montando guarda. Atrás das primeiras, dezenas de outras se estendiam, subindo pelas encostas, espraiando-se pelas margens. Encolhi-me sem nenhuma opção e estremeci diante do inevitável.

Fui visto e logo cercado. Aproximavam-se. Meus olhos marejaram antecipando uma morte dolorosa, quando um longo silvo as fez retroceder alguns metros. Outro silvo as fez subirem umas nas outras, recuando o suficiente para que eu me sentisse menos ameaçado.

Da entrada da caverna surgiu a maior de todas. Uma térmite tão grande que parecia abarcar toda a circunferência da entrada. Talvez trinta metros de comprimento. Seis ou sete metros de altura. E em seu dorso… Uma mulher.

Ekaterina Sedia.

Foi uma visão magnífica e aterrorizante. Por um lado eu entendia a aparição de Ekaterina como uma atenuante de perigo, por outro, a presença daquelas formigas todas, enormes, causava-me um pavor tão grande que minhas pernas se recusavam a se mover. Parecia-me que ao menor movimento elas atacariam e me despedaçariam.

Ekaterina gesticulou em minha direção fazendo sinais para que eu me aproximasse. Mas como fazer isso tendo as térmites todas à minha frente, olhando para mim e agitando antenas e presas? Esforcei-me em caminhar. Para minha surpresa, as formigas afastavam-se à minha passagem, permitindo que eu avançasse. Venci alguns metros, sendo orlado por uma parede viva de térmites, algumas com alguns palmos de comprimento, outras com quase três metros.

Estava quase na boca do túnel quando um zumbido intenso começou a ecoar, vindo de todos os lados. As térmites se agitaram, assim como a grandalhona que tinha Ekaterina em seu dorso. Soltei um brado de surpresa e medo quando fui erguido pelas pernas e carregado caverna a dentro por uma das formigas, junto a todas as outras, num avanço aparentemente caótico, mas sem, porém, sem ser ferido no processo.

— Aqui dentro é bem mais seguro – disse-me Ekaterina, quando já estávamos protegidos num dos imensos formigueiros, repleto de corredores que iam e vinham, para cima e para baixo, entrecruzando-se subterraneamente de forma a interligar todas as torres.

— Que lugar é esse? – perguntei ainda preocupado.

— Pensei que parecesse óbvio – ela me respondeu arqueando as sobrancelhas com alguma perplexidade.

— Sim, um formigueiro. Sei disso. Quero saber onde estamos, que lugar é esse. Que planeta, que…

— Que realidade, para ser exata. Uma das muitas, nos infinitos universos paralelos que existem. Inteiramente habitado por insetos.

Ekaterina moveu-se para uma das paredes internas. Elas eram bastante sólidas. Uma espécie de cola orgânica as solidificava. Havia um nicho e dentro dele alguns potes de barro. Retirou dois deles e estendeu-me um.

— Como na história de Robert A. Heilein? – perguntei, pegando um dos potes.

— Aquilo é fantasia. Isso é real. Embora aqui também haja uma guerra.

Eu estava me preparando para fazer a primeira pergunta quando a palavra “guerra” me surpreendeu.

— Alguma coisa a ver com o zumbido ouvido lá fora?

Ekaterina fez que sim num movimento afirmativo com a cabeça. Estávamos sentados em rochas esculpidas para parecerem poltronas, embora estivessem longe de ser confortáveis.

— As formigas aqui possuem um grau de inteligência que superam aos dos golfinhos na Terra. Não são meras máquinas de guerrear, procurar alimento e construir repetidas vezes o que se destrói. Embora as formigas de nossa realidade tenham uma estrutura social estabelecida, essas, além disso, conseguem entender conceitos abstratos e são capazes de aprender. Esse pote que está em suas mãos e essas poltronas foram construídas por eles, diante de esquemas que eu desenhei na areia. Fascinante, não é?

— E o que é que está dentro do pote?

— Uma espécie de beberagem adocicada e levemente fermentada. Produzida por elas, serve principalmente para alimentar as larvas. Pode beber. É seguro, agradável e extremamente proteico.

Embora a experiência não me fosse atraente, levei o pote à boca. Bebi um gole pequeno, mas o suficiente para ver que Ekaterina estava certa. A bebida era deliciosa.

— Quanto à guerra. Contra quem as térmites guerreiam?

— Vespas. É, na verdade, uma guerra por alimento. As vespas, igualmente inteligentes, se alimentam das larvas. Em momentos de maior escassez, alimentam-se das próprias térmites, com predileção pelas enormes rainhas, como aquela que você viu levando-me em seu dorso.

— Para se alimentarem das larvas elas precisam…

— Penetrar nas torres, destruindo suas paredes. Depois cavar até profundidades maiores. Muitas dessas torres, na verdade a grande maioria, é formada por montanhas de detritos, sem outra serventia senão enganar as vespas que perdem nelas precioso tempo. Mas às vezes encontram uma torre ativa. A luta é encarniçada, terrível. As vespas tem uma carapaça em torno do corpo e das patas que as protege das presas das térmites. São necessárias dezenas, as vezes centenas delas para conseguir matar uma vespa. E uma vespa para matar dezenas, as vezes centenas de térmites. A conta pode não parecer muito justa, mas existem nesse planeta bilhões de térmites a mais do que vespas. Acaba havendo algum equilíbrio.

— Em outras oportunidades, você falou a respeito da diferença entre “dar explicações” e infodumping, mostrando uma das melhores diretrizes para isso (o leitor não gosta de ser tratado como uma criança estúpida). No entanto, você acha que isso se aplica tanto a fantasia quanto a FC? Ou você acredita que a Fantasia (com sua tradição de realidades míticas firmemente enraizadas em história alternativa) fornece um ambiente de trabalho mais aberto e livre para os autores? – fiz a pergunta após um pigarro, querendo levar a entrevista a termo o mais rápido possível.

Ekaterina Sedia surpreendeu-se pela mudança súbita de assunto e, ciente de que uma entrevista precisava acontecer, depositou o pote que tinha nas mãos num pequeno ressalto da poltrona. Antes de responder lançou um olhar avaliativo para as paredes à nossa volta. Estávamos numa câmara isolada. Do outro lado da entrada havia um corredor por onde milhares de formigas iam e vinham em constante labuta. Não pareciam alertas.

— Isso se aplica a qualquer coisa. O leitor não precisa saber tudo que o autor pensa. Leia Michael Cisco. Ele raramente usa infodumping (ou worldbuilding no sentido tradicional), e mesmo assim escreve livros incríveis. Eu também não acredito que realmente haja alguma diferença entre Fantasia e FC, de modo que não acredito que precisemos tratá-las de maneira diferente.

Ela pareceu terminar, embora eu ainda aguardasse alguma continuação. Estranhei a resposta curta e fiz de meu silêncio uma espécie de artifício para que ela continuasse, mas Ekaterina permaneceu quieta, olhando para mim fixamente. Pigarreei, sem graça, mexi os pés e ajeitei os óculos que estavam escorregando sobre o nariz.

Um tremor súbito que fez soltar estilhas das paredes me surpreendeu, mas não pareceu espantar Ekaterina.

— Há mais questões? Receio que tenhamos que acelerar essa entrevista – disse-me ela ao levantar-se. O pote que estava repousando no ressalto da poltrona balançou e caiu no chão, derramando o seu conteúdo.

— Sim, há mais três questões – respondi, levantando-me também.

— Então as faça – disse-me ela, enquanto se encaminhava a uma das paredes da câmara. Procurou algo que não pude determinar e, num gesto rápido, pareceu fazer desprender dela uma pequena alavanca. Abriu-se uma porta secreta, num rangido estridente.

Ela me chamou com um gesto e me apontou o que havia do outro lado. Uma escada em caracol feita de rocha que parecia levar a grandes profundidades.

— Rota de fuga? – perguntei, preocupado.

— Sim – respondeu-me ela com um sorriso.

— Graças ao seu próprio histórico e ao fato de que nenhum dos entrevistadores são americanos, essa pergunta fatalmente surgiria: como é a experiência de escrever numa língua estrangeira para um público estrangeiro? Que tipo de escolhas literárias você sente que está fazendo para transmitir sua mensagem? Suas histórias seriam contadas da mesma maneira se você estivesse escrevendo em russo para um público russo? Os enredos seriam diferentes?

Ekaterina pegou-me pelo braço e fez-me seguir pela escadaria. Outro tremor balançou o lugar. As paredes daquela saída de emergência estalaram. A escadaria abriu-se em alguns pontos, exibindo trincas cuja largura causava preocupação.

— Ataque de vespas, certo?

— Sim. Estão chegando ao nível em que estávamos. As térmites acorreram para lá às milhares, prontas para o combate.

— Temos chances?

— Todas elas! – afirmou, sem sombra de indecisão. – se fosse tão fácil assim sermos acossados e mortos por elas, eu jamais permitira que essa entrevista acontecesse aqui.

— Fico mais tranquilo.

— Eu nunca escrevi em russo para um público russo – ela começou a responder a segunda pergunta –, então trato essa questão como hipotética. Então, sim, seria diferente – do mesmo modo que sempre é diferente quando o autor e seu público compartilham as mesmas referências. Quando escrevo para um público americano, tenho ciência de que eles podem não reconhecer algumas coisas – e eu tento sutilmente mostrar essas coisas a eles…

Outro tremor, esse bem mais forte que os anteriores fez as paredes soltarem grandes pedaços. A escadaria fendeu e rompeu em diversos pontos. Tivemos que nos agarrar para não cair. Um súbito clarão, um flash de luz surgiu vindo de cima, do topo da escadaria que descíamos tão rápido quando podíamos.

Vi na expressão de Ekaterina um repentino brilho de pavor.

— Quanto a outras coisas… Bom em época de Wikipedia tudo pode ser pesquisado. O que eu quero dizer é que consigo ler livros traduzidos a respeito de outras culturas sem muitos problemas, então suponho que se um leitor não entender alguma coisa, ele pode pesquisar a respeito – respondeu-me ela, empurrando-me, me forçando a descer ainda mais rápido.

Guinchos estranhos e assustadores ecoaram pela estreita e profunda garganta em que descíamos. Estilhas caiam em maior profusão. Comecei a entender porque Ekaterina estava sendo tão econômica nas respostas. Não tínhamos tempo para conversas longas. Nossas vidas estavam em risco.

Terminamos a longa descida no que parecia ser uma pequena câmara fechada. Ekaterina apalpou a parede e outra porta se abriu num estrídulo. Passamos por ela, fechando-a atrás de nós, e começamos a correr. O corredor em que estávamos era pouco largo, como se tivesse sido construído para pessoas e não para térmites gigantescas. Ao final dele, demos com uma espécie de hangar, embora o termo não fosse propriamente adequado.

Havia centenas de formigas frenéticas, mas não eram elas que chamavam a atenção. Talvez dezenas de enormes térmites aladas se alinhavam, lado a lado, sendo alimentadas, limpas e aparentemente preparadas para voo. Era uma visão surpreendente.

— A colônia está sofrendo um ataque devastador. Essas são rainhas que partirão carregando dentro si milhões de ovos que garantirão outras colônias.

— E estamos fazendo o quê, aqui?

— Partiremos com elas, para nossa segurança.

Fiquei estático observando o frenesi dentro do hangar. Formigas laboriosas trabalhavam para garantir o futuro da espécie. E eu estava lá, dentro de um enorme formigueiro, rodeado por milhões delas e outras tantas centenas ou milhares de vespas que escavavam, escavavam e escavavam em busca de alimento.

Ekaterina pegou-me pelo braço e praticamente pôs-se a me arrastar.

— Os cenários de fantasia urbana mudam de cidade para cidade? Seria possível colocar histórias de fantasia de Nova York em outra cidade como, por exemplo, Moscou? Lendas de São Petersburgo na Filadélfia? Ou você acha que as cidades se transformaram num padrão de vida internacional e qualquer história de fantasia urbana pode ser lida e compreendida da mesma maneira por qualquer público no mundo?

Fiz a pergunta enquanto era conduzido. Ekaterina não pareceu prestar atenção nela. Aproximamo-nos de uma térmite gigante alada e fomos içados por uma formiga que nos carregou em sua pinça com extrema facilidade e sem nos causar nenhum dano. Agarramo-nos em cerdas resistentes que despontavam de folículos pilosos em seu dorso, aguardando o momento em que partiriam.

— Sim, os cenários mudam, claro que mudam. São Petersburgo e Nova York foram construídos como numa grade, mas os quarteirões de São Petersburgo são dez vezes maiores que os de New York. Moscou e Londres são muito mais caóticas e “labirínticas”, mas a largura das ruas, a altura dos prédios, a proporção de prédios particulares, tudo isso é diferente, e tudo isso afeta a história. Se há um porteiro e uma fechadura na entrada de um prédio, há uma série de obstáculos diferentes se compararmos a um prédio sem porteiro, com mendigos urinando livremente na escada da frente. Há, é claro, universalidade quanto ao conceito de cidade, mas a maneira de se andar e se situar espacialmente em cada uma delas vai determinar os acontecimentos, e cada uma delas terá limitações idiossincráticas.

Abriu-se, súbito, um corredor amplo muitos metros à nossa frente. Como uma espécie de rampa de lançamento com uma extensão formidável. Eu não enxergava sua extremidade senão como a um minúsculo pontinho de luz distante. Ekaterina agarrou-se melhor, inclinou o corpo para frente, apoiando a testa em minhas costas e então a térmite alada ergueu-se no ar, agitando suas asas diáfanas numa velocidade impossível de acompanhar. O zumbido desse voo tornou-se quase ensurdecedor.

Disparamos para frente, quase uma térmite se chocando com outra, mas nem mesmo suas asas chegavam a se tocar. Senti o deslocamento de ar empurrando-me para trás e entendi porque Ekaterina inclinou-se para frente.

Fiz o mesmo. O ponto luminoso distante foi ganhando dimensão e logo se escancarou uma abertura para o mundo exterior, muitas milhas distante do ponto onde o ataque estava ocorrendo.

Aparentemente, estávamos a salvo. Então fiz a última pergunta.

— Fale-nos sobre seu novo livro, The House of discarded dreams.

— Eu o imagino como um Heardt of Darkness invertido. O livro é sobre uma filha de pais imigrantes, vindos do Zimbábue, que se vê perdida na “selva” de New Jersey. Menos irreverente, é um livro sobre o conflito entre a primeira e a segunda geração de imigrantes, de pais que de repente têm filhos americanos…

Então Ekaterina se calou por momentos e olhou para trás. Ela se retesou, soltando uma breve exclamação de espanto. Acompanhei seu olhar e fui invadido por uma onda de terror. Um manto negro indevassável ia crescendo a olhos vistos, cobrindo o horizonte e se aproximando de nós perigosamente. Eram milhões de vespas em voo coordenado, um enxame de proporções descomunais. Engoli em seco, congelado pelo medo.

—… As oscilações e a perda de vínculos culturais – continuou ela, com um tom de urgência na voz –, ao mesmo tempo em que se deseja manter esses vínculos. A fusão da cultura americana com a dos povos que migraram para cá é fruto desse desejo de preservação, mas como a cultura nunca é realmente pura, ao se tentar preservar, cria-se algo novo. Eu apenas tentei pensar no que se ganha e no que se perde durante esse processo. Claro que há, também, biologia marinha e caranguejos-ferradura nele.

A térmite em que estávamos fez uma curva súbita para cima, numa guinada violenta. As demais tomaram caminhos diversos, lançando-se cada uma em uma direção. Ekaterina agarrou-se em meu braço, fazendo-me despertar para o fato de que eu tinha o relógio. O relógio era nossa salvação. Fiz menção de apertar o botão, mas num gesto tão letárgico e assustado que fomos, antes, atingidos por uma das vespas, também de tamanho assustador. Ela pousou, agarrando-se ferrenhamente à térmite. Enfiou nela seu ferrão poderoso e então as cerdas em que estávamos agarrados cederam, soltando-se dos folículos.

Fomos arremessados no vazio, para uma queda mortal. Eu estava enregelado pelo medo, mas vi Ekaterina num voo certeiro, vindo em minha direção como se fosse uma paraquedista experiente em queda livre. Envolveu-me num abraço forte e procurou pelo meu pulso.

Ela apertou o botão poucos instantes antes de atingirmos o chão.

Então me vi numa confusão de explosões, chamas violáceas irrompendo de painéis elétricos, faíscas, estrondos e muita fumaça. Eu parecia estar numa ponte de comando. Ponte de comando? Mas que diabos estava acontecendo?

Não percam a próxima entrevista e a continuação dessa emocionante aventura.

Sumi, mas não morri.

19/10/2010

Muitos devem estar se perguntando onde é que fui parar, já que o Blog não recebe atualizações desde o último dia 5. Gostaria de dizer que estive em Samoa, ou nas Galápagos, ou ainda na Grécia, em viagem de turismo, mas a verdade é bem menos deslumbrante.

Atolado de trabalho, mal tive tempo para respirar. Além de projetos pessoais, o From Bar to Bar mostrou-se um Blog vampiro, daqueles que chupam o sangue da gente até a última gota. Inúmeros contatos, argumentos pré-construídos e preguiça. Claro, preguiça. Ela é fundamental na condução de qualquer trabalho. Mergulhar num delicioso far niente, mesmo tendo prazos exíguos. Isso faz correr adrenalina nas veias e deixa qualquer projeto mais emocionante.

Vou retornando à rotina, devagarzinho, emergindo aos poucos.

Ah, o De Bar em Bar não morreu, não. Logo, logo vou retomar as entrevistas com personalidades nacionais. Em aventuras de tirar o fôlego.

 

De Bar em Bar entrevista Hal Duncan

10/09/2010

Hal Duncan é escritor de ficção Científica, Fantasia e ficção estranha em geral, membro do Círculo de Escritores de Ficção Científica de Glasgow e colunista mensal no BSC Review. Publicou dois romances: "Vellum" (que recebeu o prêmio Spectrum e Tähtivaeltaja e foi indicado para muitos outros) e "Ink". Publicou também a novela independente "Escape from Hell", vários contos em revistas e antologias e a coleção de poemas "Sonnets for Orpheus". Seu trabalho também inclui a letra "If you Love me, you’d destroy me" para a banda escocesa Aereogramme’s e o musical "Nowhere town", recentemente premiado em Chicago.

Estava escuro. Deparei-me com arvores cujas raízes expostas retorciam-se no solo, recobrindo-o quase totalmente. O caminho era dificultado por elas e pela escuridão que me forçava a caminhar devagar, passos curtos e cuidadosos. Não raro tropeçava, cambaleava e me apoiava nas raízes úmidas e escorregadias.

Quando apertei o botão de meu relógio quântico supus uma entrevista num pub, com bastante cerveja ou uísque. Talvez uma boa briga para esquentar os músculos. Cadeiras lançadas de um lado ao outro, mesas derrubadas, garrafas estilhaçadas. Gritos, xingamentos e risadas. Porque uma boa briga precisa ter risadas. E depois gelo para acalmar as contusões.

Mas quando o torvelinho provocado pela mudança de realidade se acalmou, me vi num cenário desolado. Árvores tão altas e tão cerradas que era impossível saber se havia um céu além delas. Arbustos espinhentos disputavam lugar com troncos e raízes. E havia uivos, rosnados e rugidos não muito distantes.

Procurava por Hal Duncan, mas tinha medo de chamá-lo. Temia que um grito pudesse atrair os ferozes animais que disputavam espaço, próximos dali.

Esfreguei os braços tentando afugentar os arrepios. O ar estava pesado, quente e denso. Não havia fumaça, mas eu podia senti-la, tênue, no ar. Controlei o medo que vinha assomando devagar e prossegui tentando não tropeçar e cair.

Não avancei nem três metros.

Por entre uma densa ramagem que eu tentava vencer, surgiu um homem com olhar alucinado e portando uma clava. Ergueu-a acima da cabeça e estava prestes a desferir um poderoso golpe contra mim, quando interrompeu o movimento. Ficamos, ambos, estáticos. Olhando-nos.

Era Hal Duncan, pela graça de Deus.

— Abaixe esse porrete, homem! – pedi com certa urgência, enquanto ele continuava me olhando com expressão esgazeada.

Ouviu-me, enfim, e abrandou os movimentos, abaixando o braço armado. Soltou um suspiro e balançou a cabeça.

— Foi por pouco, disse.

Então sorriu e gesticulou me mostrando a redondeza.

— Não é lindo? – perguntou ele.

— Muito – respondi, mal humorado. — Onde está a beleza desse lugar? – inquiri enquanto ultrapassava, enfim, a ramagem densa e me colocava ao lado dele.

— Não a beleza do lugar, mas a beleza da situação – ele respondeu, me deixando sem entender nada.

— Que situação?

— Não sente o ar? Não sente o cheiro? Não ouve os animais nervosos? Não vê as árvores, as raízes… Estamos às portas, você sabe. Ah, você sabe muito bem!

— Meu nome não é Virgílio — respondi com um estremecimento.

— Nem o meu é Dante, mas estamos e você sabe disso.

Observei a redondeza tentando me lembrar de quando é que havia folheado a Divina Comédia a última vez. Fazia tempo, uns bons anos. Lembrava-me das pinturas de Gustave Doré e do quanto as imagens haviam me perturbado.

— Para que a clava? – perguntei receoso da resposta.

— É que as coisas são um pouco diferentes, aqui.

— Creio que já devo parecer meio clichê, mas essa é uma entrevista. É para isso que estamos aqui e não para caçadas a animais ferozes.

Hal ergueu a clava e manuseou-a com bastante perícia, fazendo-a girar no ar.

— Esse porrete não é para caçar animais. É para nos proteger dos anjos.

Apenas olhei para ele. Não vi em sua expressão nada que pudesse me fazer pensar que estivesse brincando ou tentando me assustar. Mordi os lábios, respirei fundo e, após uma boa olhada ao redor, fiz-lhe a primeira pergunta:

— De acordo com uma entrevista anterior, parece que você tem compromissos estéticos e estilísticos com as histórias que escreve. Diga-me como você vê o dilema entre forma e conteúdo na literatura de gênero.

Hal não respondeu de imediato. Parou de girar a clava e estreitou os olhos, atento a alguma coisa. Fez-me sinal pedindo que o acompanhasse e saiu, caminhando na minha frente, saltando raízes e desviando-se de espinheiros. Deparamos-nos com uma clareira. No centro dela havia uma cova ou um poço e de dentro brotava uma luz forte e cheiro de carne queimada. Ouvi gemidos. Hal cutucou em meu ombro, fez sinal para que me mantivesse quieto e preparou o porrete, erguendo-o à altura dos ombros. Para meu espanto um anjo de asas brancas e fulgurantes desceu, esvoaçando sobre a cova. Hal lançou-se para frente num salto, brandiu a clava e estraçalhou o crânio do anjo que se estatelou no chão, à nossa frente.

— Mas… Mas… Mas… O que você fez? – perguntei, estarrecido, indo até ele.

Enquanto Hal limpava a clava numa pedra, livrando-a de cabelos loiros e encaracolados e gosma de cérebro, ignorou essa pergunta, preferindo responder a feita anteriormente.

— Eu vou começar sendo difícil e dizendo que não existe literatura de gênero. Toda a literatura é de algum gênero; o caso é que alguns gêneros têm má reputação devido as suas ligações com o marketing comercial, enquanto outras – como realismo cotidiano – se passam como se não tivessem gênero, sendo vendidas como ficção. Claro, você poderia juntar as categorias comerciais como ficção de gênero, mas além da pressão para a formulação que vem com o marketing, eu não vejo nenhuma razão para tratar os dois grupos separadamente. Ou poderia se juntar os gêneros de ficção estranha – o que incluiria realismo mágico e fantástico a todos os tipos de trabalho que não são considerados “gênero”. De qualquer forma, vou continuar a ser difícil dizendo que não há dilema entre forma e conteúdo. Palavras são a única substância. Palavras não tem conteúdo; é o todo que dá significado. Elas têm denotações, claro, mas cada uma também te atinge com seu grupo único de conotações, de modo que se você trocar uma palavra em uma frase, você muda o significado. Não dá para ter duas frases com diferentes formatos para o mesmo conteúdo básico; se tem duas diferentes articulações, duas construções, dois significados diferentes. Cada narrativa é uma articulação de palavras moldadas em frases, parágrafos, passagens, cenas, capítulos. É uma estrutura de palavras. Cada narrativa conjura uma história, claro, e esta história pode ser resumida cruamente em termos de roteiro e tema. Alguns leitores lerão pelo roteiro e tema, imaginando que é responsabilidade da narrativa providenciar o “conteúdo”. É direito deles, mas não acho que devemos prestar muita atenção a filisteus e filósofos que na verdade não apreciam a narrativa como algo além de um meio para um fim – seja este fim uma ilustração da ação ou introspecção da condição humana. Estas são recompensas que o leitor tem todo o direito de esperar, claro, mas se você realmente aprecia narrativa, você está procurando por ambos, e para conseguir isso, a história tem que ser conjurada por uma narrativa que as articule corretamente. Em suas palavras. Palavras são o único ingrediente.

Eu ainda estava trêmulo, vendo o corpo do anjo sacudido por curtos espasmos. A cabeça estraçalhada de onde vazavam líquidos. Estávamos ao lado da cova e me atrevi a lançar um olhar para dentro dele. Vi o que pareciam figuras humanas se movendo em meio ao fogo.

— Anjos… Para que prestam anjos? – perguntou-me com expressão aborrecida.

— Anjos e Deus – balbuciei. – são divinos… – minha voz não foi maior que um chiado.

Hal abraçou-me e me conduziu para além do poço, ao que parecia ser uma clareira. Não era. Tratava-se do topo de um penhasco. As poucas árvores sobreviventes na pura rocha projetavam seus ramos retorcidos para o vazio. Foi possível ver o céu e, riscando-o por todos os lados, objetos voadores como borrões de velocidade vertiginosa. Dominei o medo e me aproximei da borda, lançando um olhar aterrorizado para baixo.

Ravinas e platôs. Cordilheiras baixas. Focos de incêndio espalhados por todos os lugares. Explosões súbitas lançavam fogo e magma para os altos. Rios de lava corriam pelo solo. Vi sombras indistinguíveis se movendo de forma aleatória no chão e figuras voadoras, como chispas de luz, dando rasantes.

Mesmo não podendo identificar nada com clareza, senti uma angústia profunda. Estremeci mais intensamente, desvencilhei-me do abraço de Hal e recuei alguns passos. Ele me olhou profundamente, a clava apoiada no chão. Era possível ver atrás dele, no céu escuro que se perdia no horizonte, os clarões que se projetavam lá de baixo.

Gaguejei a segunda pergunta. Minhas mãos tremiam. O frio havia ido embora. Eu suava.

— Você diz que é um militante com tendências anarquistas. Há muitos debates políticos entre você e outros escritores, ou não?

— Você precisa se decidir, Tibor.

— Decidir o quê? – perguntei, aflito.

— Há uma guerra em curso. Você precisa definir de que lado você está – e então ergueu a clava, apoiando-a no ombro.

— Não estou interessado em guerras. Sou um homem pacífico. Esta é uma entrevista.

— Não responderei a sua pergunta. Você será um perdido nessas terras de fogo até que eu lhe responda todas. Sei bem disso.

Terá que fazer escolhas ou passará a eternidade vagando em profundo sofrimento.

“miserável” eu pensei, irritado. Hal balançava a clava, impaciente.

— Ok – eu disse por fim. – estou com você.

Ele sorriu, escancarando os lábios. Seus olhos brilharam de satisfação. Veio até mim e me levou de volta à beira do precipício.

— Então vamos nos divertir, cara!

Foi quase como dar um salto para a morte. Senti-me agarrado pelos ombros e erguido no ar com extrema facilidade. Ergui o rosto, lançando um olhar rápido para quem ou o que me segurava. Empalideci imediatamente. Vi um ser imenso, com asas negras. O rosto enfurecido exibia dentes pontiagudos, olhos rasgados e rutilantes, orelhas pontudas, escamas e cabelos que se moviam de forma estranha, como se fossem milhões de larvas agarradas ao crânio. Olhei para baixo, então, tentando conter a náusea provocada pelo pavor. Hal Duncan estava a alguns metros de mim, montado às costas de um desses demônios. Brandia a clava como um cavaleiro, pronto para arrebentar mais cabeças.

— Na verdade, não sei se sou suficientemente radical para me qualificar como um militante, um pouco revoltado, talvez, apenas sigo tendências políticas – anarquista, socialista, pacifista – muito em inconformidade uma com a outra e muito informado pelo pragmatismo, para realmente se encaixar em uma militância reconhecível. — iniciou Hal, me fazendo perder parte do que dizia, ora pela situação inusitada e assustadora, ora pela distância e deslocamento de ar — Apesar de estar, talvez, me tornando mais ativista em termos de políticas estranhas conforme envelheço; eu estou certamente ficando mais bocudo quando se trata de políticas de ficção considerando os outros – abjeção na base de sexualidade, raça, sexo, identidade, habilidade, etc. De qualquer forma, sim. O debate político é parte importante dos círculos em que me envolvo, eu diria, tanto em termos de vida cotidiana quanto em termos de escrita.

À medida que descíamos consegui identificar as figuras ensombradas que se moviam no solo. E também as chispas de luz que davam rasantes. Eram homens e mulheres, confusos, perdidos. As chispas eram anjos.

Fomos deixados num altiplano, cercados por vales mais ou menos profundos. Hal agitava-se me instando a acompanhá-lo. Corria na direção de uma trilha tortuosa que nos levaria para baixo. Não queria ficar para trás nem, principalmente, sozinho. Então o acompanhei.

— A Escócia tem uma “cultura de pub” onde política e religião são tópicos constantes. Cresci com isso, tanto que acho esquisito quando entro em contato com pessoas que pensam que este tipo de assunto não deveria ser colocado em pauta em encontros sociais. Por exemplo, eu tive um correspondente do meio-oeste dos EUA, um teólogo católico, que se referia com aquela etiqueta de jantar em relação ao meu blog, porque de onde ele vem as pessoas não costumam ter debates acalorados a fim de não causar ofensas. Dane-se, eu digo. É isso que realmente importa!

Ele parou diante de uma rocha. Vimos uma mulher arrastar-se pelo chão, suja, imunda, coberta de dejetos. Gemia e ria alternadamente. Pareceu não nos ver. Hal cutucou-me e apontou para o céu, num ponto ao nível do horizonte, onde nossos olhares quase não podiam alcançar, obstruídos pelo terreno acidentado e cercado de pequenos monturos. Vi uma fileira do que pareciam almas ascendendo. Seguiam para cima até o que parecia uma abertura dimensional – lembrei-me de a Faca Sutil, obra de Philip Pullman.

— Seguem, em fuga. Não são almas de humanos redimidos, como você pode pensar – e sorriu um sorriso de pleno delírio. – São o que sobrou dos anjos que estamos matando.

Estremeci pela milésima vez.

— A comunidade online de escritores de ficção estranha e leitores parece ser bem intensa nestes termos também – continuou Hal, reencetando a caminhada –, ao menos nos blogs e diários que sigo você vê a política aparecer com grande frequência – o que é bom. Apesar de nem sempre ser o debate mais positivo, devo dizer. Muitos deles, especialmente quando lidam com políticas raciais, tendem a degenerar muito rapidamente conforme o pânico e o ultraje moral começam a dar marradas. Por pânico moral eu me refiro a defesa irracional e negações sempre que você sugere que um trabalho é um tanto… Eticamente desonesto. Alguns que gostem dele irão imediatamente reagir como se você estivesse erroneamente acusando-os de estuprar gatinhos.

Paramos mais uma vez. Diante de nós de estendia um vale medonho onde corriam córregos de água sulfurosa e borbulhante. Havia gente dentro e fora dessas águas. Carnes despregadas dos ossos, olhos pendurados, pés onde artelhos quebrados iam se soltando à medida que caminhavam. Dois deles carregavam a própria cabeça, cambaleantes. Um anjo surgiu, súbito, e cortou um dos sofredores pela metade usando uma espada de fogo.

Nunca em minha vida me senti mais aflito e atormentado que nessa ocasião. Hal estava efusivo.

Olhei para cima e vi uma luta em curso. Anjos e demônios esvoaçavam entrechocando-se, tridentes e espadas batiam uns contra os outros. Penas negras e brancas, luminosas, desciam em cascata. Vi alguns anjos e alguns demônios despencarem, ora estatelando-se contra o solo pedregoso, ora afundando nas águas.

Apressei-me a fazer a terceira pergunta.

— Você se considera especificamente um autor de gênero ou considera o gênero apenas um momento, uma fase? Pretende ainda escrever histórias realistas, assim como escreve poesia, ou não?

Hal olhou para mim como quem olha para um idiota.

— Temos mais o que fazer além de perguntas e respostas, não acha?

E lançou-se para frente, correndo pelos estreitos corredores formados pelas correntes de água. Fui atrás dele, com medo que pudéssemos nos perder um do outro. Vi quando ele se jogou contra as costas de um anjo que lutava ao nível do solo, em visível desigualdade. Três demônios o atacavam, desferindo nele golpes poderosos com os tridentes. Hal agarrou-se ao pescoço do anjo e tentava levá-lo ao solo.

Conseguiu.

O que vi depois foi uma carnificina. Desmembraram o ente celestial, espalhado suas vísceras pelo terreno. Vibraram, depois, cheios de glória, pela vitória em mais uma batalha. E então um dos demônios caiu, vitimado por um raio fulgurante que brotou do céu, trespassando-o. Os demais alçaram voo e partiram, rápidos.

Hal voltou, ofegante.

— Acho que minha resposta para esta pergunta já esta dada, até certo ponto. Toda literatura é de um gênero ou outro. Enquanto me distancio de uma etiqueta de categoria de marketing, não vou proclamar que meu trabalho não seja Ficção cientifica/fantasia, apesar de que, para ser honesto, não considero estes rótulos particularmente significativos para o campo de ficção estranha. Há uma comunidade lá da qual sou feliz em participar e que não quero ofender – a não ser que seja como um participante lutando contra a falta de senso tribalista, não querendo ver definições ligadas àqueles rótulos fechados com o intuito de excluir toda a porcaria maluca que cresci vendo como ficção cientifica. Quer dizer, há algumas tribos que insistem nas mais bitoladas definições, e se este pensamento vencesse no final do dia eu daria com os ombros e os deixaria de lado, mas preferiria que isso não acontecesse. Eu poderia ver minha própria marca de camisas esquisitas sendo vendidas sem as etiquetas por decisão da editora, mas ainda estaria pensando e falando sobre elas como ficção cientifica.

Hal respirou fundo, jogou a clava para o lado e se sentou, apoiando as costas contra uma pedra. Fiz o mesmo. Ela estava quente, o ar quase irrespirável. Um coração solitário batia a alguns metros de nós. Sem corpo, sem sangue, sem nada. Só batia, num ritmo compassado e aparentemente calmo.

— Se eu tenciono mudar o tipo de coisa que escrevo, para fazer trabalhos que não sejam ficção estranha? Bom, eu tenho um script que é basicamente um filme colegial, sem nenhuma daquelas esquisitices que você encontra nos meus contos e romances, então quem sabe que tipo de coisa pode acabar sendo de meu gosto mais para frente? Tenho gosto eclético, e meio que gosto de experimentar o atípico em meu próprio trabalho – escrever um musical aqui, um filme colegial acolá, e, claro, poesia. Eu meio que gosto da ideia de trabalhar em tantos gêneros quantos me venham a mente. Então não refuto a possibilidade de, de repente, fazer algo puramente realista. Mas também não acho que isso seja provável. Realismo contemporâneo é limitado por definição, excluindo o estranho. É propositadamente excluir um conjunto de ferramentas literárias, limitando-se ao mimético. É como retirar as cordas do seu violão, deixando apenas uma e eu não consigo imaginar o porquê de eu querer me restringir dessa forma. Quer dizer, como um único experimento no minimalismo da pura mimese, claro; mas como um compromisso de abordagem por um período de tempo? Foda-se esta merda. Você pode ser realista sem ser puramente realista. E não ser puramente realista significa que você pode fazer uma caralhada a mais do que os Realistas Contemporâneos tem se limitado a fazer.

Ele silenciou. Fiquei quieto, também. Olhando ao redor. Escutando o retinir distante, resultado de batalhas esparsas que pareciam nunca acabar.

— Você não vai matar nenhum anjo? – perguntou-me, de repente.

— Não – respondi tentando aparentar tranquilidade. – estou sem saco de estourar miolos, agora.

— É divertido. Deveria tentar.

— Noutra ocasião, talvez.

— Te empresto minha clava, se quiser.

— Obrigado pela honra! Vou me lembrar disso quando resolver fazer uma chacina no paraíso.

Ficamos calados de novo. Uma pena de luz desceu lentamente e caiu diante de mim, bem em frente de meus pés. Ia pegá-la, mas evanesceu ao menor toque.

— Nem um nariz quebrado, nem uma perna arrancada? – insistiu Hal.

— Depois. Ainda tenho mais duas perguntas. Responda-me a próxima e vamos matar o que nos aparecer pela frente, ok?

— Ótimo! Assim que se faz, Tibor. Pergunte!

— Fala-me a respeito de Vellum e Ink, romances não conhecidos no Brasil. Como surgiu a ideia de escrevê-los e como tem sido o retorno de suas publicações?

— A fagulha inicial foi um incidente na biblioteca da universidade de Glasgow quando eu ainda era um estudante cheio das noções de Necromicon de Lovecraft e do Book of Sand (Livro de areia) de Borges na minha imaginação. Eu havia feito uma pesquisa “perda de tempo” sobre Nostradamus e descobri que a biblioteca tinha uma cópia na “Ferguson Special Collection” (Coleção especial Ferguson) que eu sabia estar no subsolo, mas nunca havia visitado. Então fui até lá e dei de cara com uma atendente sentada sozinha nesta sala sombria cheia de estantes de livros tapadas com vidro. Ela claramente não recebia muitos visitantes, e então, estava muito disposta a ajudar, e assim que disse o que estava procurando ela foi a uma saleta dos fundos e voltou com um enorme tomo de capa de couro. Ela tinha me dado uma ficha para preencher com o nome do orientador e tudo mais, então eu estava meio que cagando nas calças a essa hora, porra, eu havia ido até lá apenas por curiosidade. Veja bem, o livro precisava ser guardado em travesseiros de espuma. Ela me deu luvas de pelica para manuseá-lo. E quando abri o artefato de valor inestimável, com suas páginas amareladas pelo tempo – e estamos falando de um manuscrito aqui – eu tive a plena certeza de que não tinha a menor razão válida para ficar mexendo com ele.

Hal pegou a clava e a posicionou mais próxima dele, bem junto ao quadril. Esticou uma das pernas, chutando um fêmur solto por ali.

— Tudo que pude fazer foi ficar lá, sentado por uns quinze minutos, folheando e fingindo que fazia anotações em meu caderno, como se realmente o estivesse estudando. Mas conforme olhava para aquele totalmente inescrutável tomo, meio que fiquei impressionado por ele, pelo mistério do seu texto, o couro de sua capa, a textura das páginas. E ali, de alguma forma, me veio esta ideia de que se ficção de fantasia tem seus objetos de poder – espadas mágicas e coisas do tipo – com certeza o derradeiro objeto de poder quando se trata de qualquer fantasia era o livro onde a história havia sido escrita. Aquela fagulha ficou e se tornou a ideia para o derradeiro Livro das Horas – aqueles livros de escrituras e sermões para duques e príncipes, dividindo o ano em meses, dias, horas do dia, com textos apropriados para cada período. Isso se tornou o Livro de Todas as Horas, um tomo fictício contendo tudo já escrito e tudo jamais escrito – porque teria que conter o texto apropriado a todos os momentos possíveis, certo?

Então Hal abaixou-se de repente, me obrigando a fazer o mesmo. Tarefa complicada quando estamos sentados. Meio que caí de lado, batendo o ombro no chão e manchando a camisa com sangue. Um raio de luz perdido, provavelmente ricocheteado resvalou num monturo e veio direto para a rocha onde estávamos. Não sei como Hal viu ou antecipou o acidente, mas agradeci aos infernos pela pronta reação dele.

Mesmo com o coração aos saltos – o meu e não aquele que batia solitário à nossa frente –, aprumei-me enquanto ele fazia o mesmo, continuando o raciocínio anterior.

— Passei dez anos sem perceber que estava escrevendo Vellum e Ink na verdade, trabalhando com todos estes contos e noveletas que se sucediam em termos de tema e personagens e tropo como este livro. Foi só quando havia escrito o que hoje é o prólogo do Vellum – que se referia diretamente àquele incidente – que todo este material começou a se juntar no que seriam os dois romances. Em termos de resposta, tem sido sensacional. Não sei como eles têm se saído em alguns países – não tenho muito contato com a editora da publicação em espanhol, por exemplo – mas em alguns mercados fui surpreendido. Puxa, eu nunca esperei que ele seria escolhido por editoras como a Macmillan no Reino Unido, Del Rey nos EUA, então quando ele começou a decolar e os direitos de tradução começaram a ser vendidos, foi completamente surreal. E onde obtive contato com editoras ou diretamente com os leitores… Tem sido incrível vê-lo decolar. O lançamento da edição em Finlandês na Feira de Livros de Helsinki foi um ponto alto. O livro esgotou duas vezes enquanto eu estava lá e quando deixei o país já estava indo para a segunda edição. E claro, o fandom finlandês é incrível, então aquela semana toda foi demais.

Respirou fundo, soltando o ar num sopro ruidoso e bateu as palmas das mãos, saltando de pé. Estava radiante.

— Pronto! Agora você vai sentir a maravilha que é esmagar uma cabeça!

Levantei-me, esticando as calças sujas. Observei o relógio quântico de relance. Hal ergueu a clava e a entregou para mim. Era pesada e eu mal pude segurá-la, quando mais erguê-la acima de minha cabeça. Mas precisava dar continuidade à farsa. Ele me mostrou um ponto difuso ao longe, onde uma refrega parecia ocorrer.

— É a sua chance. O Anjo, lá, está em desvantagem.

— Vamos juntos – eu disse, incentivando-o. – Preciso de meu mestre para me dar confiança.

Ele sorriu, compreensivo. Deu-me tapinhas no ombro e então soltou um brado de guerra que eu imitei. Arrancamos numa corrida insana, driblando moribundos e saltando poças sulfurosas. Num dado momento larguei a clava e apertei o botão do relógio lançando-nos de volta à nossa própria realidade.

Não havia outra pergunta. A entrevista já havia se encerrado.

Hoje Hal Duncan não responde aos meus emails. Compreendo que esteja bravo comigo, mas creio que acabará entendendo que fiz o certo. Enganá-lo não foi nada bonito, mas terão que concordar: foi necessário!

De Bar em Bar entrevista Larry Nolen

18/08/2010

Larry Nolen é professor de Inglês e História e leciona por mais de 10 anos no Tenessee e na Florida tanto em escolas particulares e públicas. Fascinado com línguas desde muito cedo, ele devota muito do seu tempo a ler e traduzir entrevistas e artigos do espanhol para o inglês, com sua primeira tradução publicada marcada para ser lançada em novembro de 2010. Larry tem uma fascinação doentia por esquilos e sonha em um dia organizar uma antologia sobre esquilos e ficção cientifica. Seu blogue pode ser encontrado no endereço ofblog.blogspot.com. Ele foi nomeado editor da série da "Best American Fantasy" em janeiro, começando com BAF 4

Estávamos rodeados pela mata. Árvores frondosas, arbustos, grama. Muitas borboletas. O céu azul era filtrado pela alta ramagem, deixando passar raios entrecortados de luz. E esquilos. Muitos deles. Subindo e descendo das árvores, correndo pelo chão, se enroscando em nossas pernas. Sorriamos. Era uma visão encantadora. O ar rescendia ao perfume de flores. Víamos animais selvagens como gamos e muitos pássaros, canoros, observando-nos como nós os observávamos. Sem sustos nem medos tolos e desnecessários.

Devo salientar que não esperava um cenário maravilhoso como esse quando apertei o botão do relógio quântico, pronto para mais uma entrevista. Sabia da adoração de Larry Nolen por esquilos e até acreditei que nos encontraríamos com eles. Só me preocupava em como esses roedores poderiam se apresentar. Temia que viessem mortos-vivos, dentes enormes e pontiagudos, com fome de miolos.

Há tempos abandonei qualquer expectativa por uma entrevista pacífica e sem grandes riscos à vida.

Olhamo-nos, embevecidos. Meu entrevistado estava em estado de graça, quase vivendo uma epifania. Esquilos são animaizinhos extremamente ariscos. Ele jamais poderia imaginar vários deles subindo por nossas pernas, festivos, como se fôssemos iguais.

E foi com igual estupor que vimos um deles, maior, do tamanho de um gato adulto, arriscar-se bem mais. Trepou nas calças de Larry Nolen, agarrou-se à sua camisa e empoleirou-se em seu ombro. O animal sorria. Com olhos esbugalhados nos fitava alternadamente. Então abriu a boca e, para nossa surpresa, falou:

— Não acham que já está na hora de acordarem dessa ilusão estúpida e retornarem à realidade?

Como num passe de mágica vimos tudo ao nosso redor ir desmoronando em partes cada vez menores, pixeis que iam desmanchando até restar nada mais que uma sala rodeada de projetores holográficos.

O esquilo nos ombros de Larry continuava lá. Expressão irônica. Aguardou alguns instantes até que nos recuperássemos do espanto e então desceu, num salto preciso. Olhou-nos de volta e fez sinal para que o acompanhássemos.

— Esquilos falantes – murmurei, perplexo.

— Esquilos falantes e tecnológicos – Larry completou com um franzir de cenho.

O esquilo disparou de encontro a uma parede, desaparecendo por ela diante de nossos olhos. Avançamos e a tocamos. Era rígida, sólida, metálica.

— Mas que diabos… – começou a protestar Larry.

Antes que terminasse, o esquilo retornou com expressão irritada.

— esqueci que vocês são tão grandes quanto o cérebro minúsculo que possuem. É metal amorfo e nós somos pequenos. Se usassem ou pouco mais a cabeça, saberiam que teriam que se agachar.

Experimentei a parede com a ponta do pé direito e ele, para meu espanto, atravessou. Larry tateou, descobrindo exatamente a altura da passagem e num sorriso forçado, ajoelhou-se, engatinhando para fora da sala. Eu o imitei.

Encontramo-nos num corredor. Embora os esquilos fossem pequenos – mas não tão pequenos quanto poderíamos imaginar – os ambientes ali eram razoavelmente grandes.

— Esperávamos vocês. Adaptamos algumas coisas – disse o roedor como se antecipasse nossas inquietações. – meu nome é Bel’n’tirk e esta é a nave espacial Derk’n’bork, categoria oito. Construída para resgatar e conduzir alguns escolhidos a paragem segura.

Eu e Larry nos olhamos, espantados.

— Mas para onde esse relógio maluco nos trouxe? – ele me perguntou.

— Não faço a menor idéia – respondi enquanto via o esquilo disparar pelo corredor, deixando-nos para trás.

— É uma entrevista. Faça a primeira pergunta.

— Quando você diz — com razão — que o público que não fala inglês espera e possivelmente requer dos autores locais que eles sejam mais fiéis aos padrões velados da FC, você quer dizer que a FC inglesa — mais apta a subverter ou desafiar esses padrões — está evoluindo ou já chegou ao seu limite? Em outras palavras, é possível que ela esteja evoluindo de maneira “divergente” de si mesma? – guardei o papel que consultei em busca das perguntas no bolso de onde o tinha tirado e acelerei o passo. Logo perderíamos Bel’n’tirk de vista se ficássemos parados.

Outros esquilos corriam pelos corredores. Muitos carregando blocos de notas, comunicadores, canetas e um sem número de coisas que não podíamos identificar. Passavam por nós como se nem estivéssemos lá.

— Em minha opinião, o problema de se definir rigidamente um termo é que, quando isso é feito, o termo passa a ser usado de maneira diferente. A FC hoje, seja nos EUA, Grã-Bretanha ou Brasil, por exemplo, difere completamente em tendências, avanços tecnológicos — tanto reais quanto imaginários — e em como as pessoas e as sociedades são representadas. Se eu fosse obrigado, de alguma forma, a dar uma definição, diria que a FC é um tipo de narrativa fluida que corresponde às condições temporais e locais dos autores, modificando-se de acordo com as necessidades, a fim de retratar de maneira melhor as mudanças sociais, culturais e tecnológicas.

Assim que terminou de responder, a Espaçonave foi sacudida. Ouvimos um ranger intenso como se o metal de sua estrutura estivesse se rompendo. O chão tremeu e tivemos que nos apoiar nas paredes. Os esquilos ao nosso redor alarmaram-se e passaram a correr ainda mais rápidos.

Bel’n’tirk meteu-se noutra passagem. Agachamo-nos e entramos no que parecia um elevador. E era. Os controles ao rés do chão. O esquilo apertou dois botões e fomos arremessados ao teto, tamanha a velocidade com que aquele veículo se lançou para baixo. Bel’n’tirk riu de nossa situação e apontou os pés, onde botinhas magnéticas recém-acionadas o mantinham bem firme no chão.

— O que está acontecendo? – perguntou Larry, preocupado.

— Somos uma nave de resgate. Alguns nos acusam de seqüestro, mas não é o caso. Salvamos pessoas que são perseguidas. Mas só fazemos isso quando sua causa nos interessa. E a causa de vocês é bastante interessante.

— Que causa é esse? – perguntei, entre curioso e assustado.

Bel’n’tirk ia responder quando o elevador parou de chofre. Fomos arremessados ao chão, caímos sentados entre gemidos de dor e constrangimento. As portas não se abriram porque não se abriam. Tínhamos que atravessá-las. Engatinhamos para fora, já irritados com essa necessidade tão idiota (portas que abrem e fecham são extremamente confortáveis). Levantamos-nos, mas não inteiramente. Teto baixo. Obrigados a ficar recurvados. Vimo-nos na Ponte de Comando. Pelo menos doze esquilos ocupavam lugares diante de painéis multicoloridos de onde se projetavam imagens holográficas indistinguíveis. No centro do passadiço um esquilo maior que os demais, quase do tamanho de um cão, olhava-nos com indisfarçável curiosidade.

— Meu nome é Jorj’h’korg. Não imaginam a enorme satisfação que tenho em conhecê-los. E a esse maravilhoso relógio quântico, cuja tecnologia tanto nos fascina.

— “Nos fascina”? – questionei, já em defesa de meu relógio.

O esquilo capitão se moveu preguiçosamente sobre as patas traseiras, arrastando a imensa barriga em nossa direção. Parou diante de nós dois, avaliando-nos por inteiro, como se analisasse produtos que estivesse em vias de adquirir.

— Críticos literários… Ah, isso me deslumbra… – disse de súbito, erguendo as mãos teatralmente. Depois apontou o dedo para mim e completou: …E escritor, também… Hmmmm… Um crítico com telhado de vidro… fascinante. Querem matá-los – emendou, por fim, dando-nos as costas e se distanciando.

— Matar-nos? – perguntou, perplexo, Larry Nolen.

— Odeiam críticos, todos eles – grunhiu o capitão. – detestam quem lhes aponte os defeitos. Querem elogios, só isso. Mesmo não merecidos.

Larry Nolen olhou para mim. Olhei para ele.

— Eu meto o pau, mesmo, sem dó nem piedade – gracejei.

— Mas não critico ninguém… Quer dizer… Não faço isso… Só comento ou resenho os trabalhos que aprovo… Eu nunca…

— E acha que os demais tomam de que maneira o seu silêncio? – perguntou Jorj’h’korg, virando-se rapidamente e fazendo a barriga balançar perigosa e assustadoramente de um lado a outro.

Larry Nolen engoliu em seco.

— Mas, relaxem – o capitão continuou. – Vocês estão numa nave de resgate categoria oito. Na famosa Derk’n’bork. Salvos, podem acreditar. Nossos perseguidores podem nos atingir quantas vezes quiserem e não nos causarão danos maiores.

Como a não confirmar as palavras dele a nave voltou a ser sacudida. Ouvimos um estrondo próximo. Um dos painéis soltou chispas e fumaça. Uma descarga elétrica fez um dos esquilos da ponte soltar um guincho agudo e estridular enquanto estrebuchava. Caiu aparentemente morto, soltando fumaça pela boca. O capitão se aproximou dele, chutou-o displicentemente e sorriu, fingindo que nada acontecera.

— Estão numa entrevista, não é mesmo? Interessam-me demasiado as perguntas e as respostas. Continuem, por favor.

Temeroso de que nosso tempo naquela espaçonave fosse curto, atendi aos apelos do capitão. Gaguejei enquanto fazia a segunda pergunta. Larry Nolen gaguejou durante a resposta.

— Haveria algum benefício real em se traduzir trabalhos estrangeiros para o inglês de maneira regular? Quero dizer, tirando o fato de o autor ser diferente e estrangeiro, e supondo que os editores e o mercado não sejam uma barreira à tradução e publicação dessas histórias, será que a FC seria beneficiada com um fluxo constante de trabalhos que não fossem de língua inglesa, mas que, em sua essência, fossem inspirados nos modelos da FC inglesa e britânica?

— Certamente que sim. A qualquer momento em que haja uma livre troca de ideias, particularmente ideias que reflitam valores culturais e sociais diferentes, as chances de inovação na escrita, digamos, entre um autor americano e um argentino, ou um britânico e um japonês, crescem exponencialmente. Veja a explosão que acontece atualmente com o mangá. Este já não é um tipo de literatura japonesa, ou algo que os americanos adotaram por acaso. O mangá está se tornando uma literatura global, do tipo que gera mais e mais híbridos literários.

Larry Nolen respirou fundo, segurou-se na cadeira de Jorj’h’korg e continuou:

— O mesmo acontece com a FC. Recentemente, terminei de ler uma antologia curta de FC de Cingapura chamada Happiness at the End of the World (Felicidade no Fim do Mundo). Apesar de o inglês, juntamente com o mandarim, serem os idiomas dominantes em Cingapura, os valores culturais são muito diferentes, e isso no mínimo serve para abrir os olhos. Estando nesta parte do mundo, veja a explosão de popularidade da FC na China, Taiwan e Japão. Apesar desses mercados ainda não terem produzido muitos trabalhos que tenham sido traduzidos para o inglês, eu devo mencionar que a Haikasuru iniciou as atividades em 2009 e já realizou muitas boas traduções de FC japonesa. Pelo que tenho visto, eles tem reinventado muitos conceitos centrais da FC, entre eles o primeiro contato. Os japoneses às vezes parecem ser até mais xenófobos que os americanos nesse assunto, viagem no tempo — não tão voltada aos paradoxos e às alterações negativas do passado no caso dos japoneses — e tecnologia. Os americanos parecem ter sentimentos mais misturados em relação aos avanços tecnológicos, especialmente no que diz respeito a modificações no corpo humano, do que os japoneses ou chineses.

Jorj’h’korg, que todo o tempo parecia absorto em meu relógio, abanou as mãos, sorrindo.

— Inteligente pergunta, inteligente resposta – voltou-se então a um dos comandados e ordenou que passassem à dobra oito.

— Dobra oito? – perguntamos quase em uníssono, eu e Larry.

— Bah! Quando estavam se divertindo no Holodeck, já desenvolvíamos dobra sete. Manobras evasivas e fuga acelerada. A nave Derk’n’bork não consegue ir além da dobra oito. Os inimigos estão próximos, muito próximos.

A um gesto, um painel desceu do teto, desdobrando-se em múltiplas facetas, todas elas formando um único monitor. Tremularam na tela oito pontos luminosos que pareciam dançar.

— Estão a cinco milhões de quilômetros de nós. Suas armas conseguem nos atingir com metade da potência. Mas se aproximam. E cada metro mais próximos, a força de suas descargas aumenta consideravelmente.

— Nos disseram que esta espaçonave era a melhor de sua categoria. Você mesmo disse isso agorinha há pouco – protestei.

— Oh, mentirinhas inofensivas, embora ela seja boa. Só, infelizmente, não a mais rápida. Temos conforto, o Holodeck, um depósito de provisões invejável e algumas esquilinhas safadinhas, se podem me entender – disse com um piscar malicioso de olhos.

—E como pensa em nos salvar desse jeito? – perguntei, nervoso.

O capitão olhou para meu relógio com um sorriso franco. Juntou as mãos e tamborilou os dedos uns contra os outros.

— Podemos partir dessa realidade para outra. Uma fuga espetacular através dos multiversos. Claro que isso obrigaria que esse relógio saia desse pulso, o seu, e venha para esse aqui, o meu. Mas a vida é sempre o bem mais precioso, não é verdade?

Ponderei suas palavras. E logo cheguei à conclusão de que isso não poderia ser feito. A transferência de propriedade nos impediria de voltar à nossa própria realidade. E não havia nenhuma garantia de que aquele esquilo obeso fosse devolvê-lo para mim.

— Como a ficção, não necessariamente científica, feita em países
latinos como Brasil, Argentina e México é percebida nos grandes
centros de literatura de ficção? Há mesmo barreiras de língua? – perguntei à Larry Nolen de supetão.

O capitão da nave logo transferiu sua atenção à Larry, deixando meu relógio, por alguns intantes, em segundo plano. Eu tentava, claro, ganhar tempo e acelerar a entrevista para que pudessemos nos mandar dali em segurança.

— Há barreiras, claro, mas a fama parece acabar com elas. Veja o exemplo de Jorge Luis Borges. Passei todo o mês de julho escrevendo postagens diariamente sobre seus livros — lendo a maioria em espanhol ao invés de traduzidos para o inglês — ou sobre comentários que ele fez a respeito de outros autores. Levou 14 anos, desde a publicação de sua primeira história em 1947, numa revista de mistérios, até sua repentina explosão de popularidade nos EUA e em outros países em 1961, depois que ele dividiu um prêmio importante de ficção com Samuel Beckett. Em sete anos, Borges passou a atravessar os EUA dando palestras que atraíam milhares, tornou-se Professor Visitante em Harvard e várias outras universidades de prestígio, e suas histórias passaram a figurar em publicações como The New Yorker pouco depois de serem publicadas na Argentina. Levando em conta que isso aconteceu há mais de 40 anos, essa foi uma grande conquista para um escritor estrangeiro.

Olhei de relance para Jorj’h’korg. Estava absorto na resposta.

— Mas apesar de os EUA terem uma longa história de importar (e depois “emprestar” ideias) ficções da Europa, foi somente a partir dos anos 1950 que a literatura latino-americana se tornou tão popular nos EUA quanto no México e na América do Sul. Parece que houve um período mágico que perdurou até meados dos anos 1980 com o aparecimento de autores como Roberto Bolaño no final da década anterior, quando uma avalanche de escritores talentosos de toda a América Latina teve bom público nos EUA: Juan Rulfo, Alejo Carpentier, Carlos Fuentes, Gabriel García Márquez, Jorge Amado, Mario Vargas Llosa. Cada um destes foi traduzido nos EUA entre 1960 e 1975, e a América Latina passou a ser vista como uma boa fonte de literatura.

Enquanto Larry respondia, comecei a me mover para trás. Tentando não despertar suspeitas. O capitão queria meu relógio e eu desconfiava seriamente se a intenção primeira era mesmo escapar de perseguidores. Podia apostar que era tudo um embuste. Larry, atento, acompanhou meus movimentos.

— Ainda há muitos críticos que apontam a América Latina como um lugar onde se pode encontrar ótimos livros. A revista Time colocou o escritor chileno Alberto Fuguet como um dos “50 Latinos Mais Influentes” em 1999, por exemplo. O grupo do Manifesto Crack Mexicano, o grupo McOndoísta do Cone-Sul, e o infrarrealismo de Bolaño levaram a importantes projetos de tradução nos EUA. Apesar de Fuguet, Edmundo Paz Soldán, Jorge Volpi, e Ignacio Padilla — para citar alguns dos nomes mais proeminentes desses grupos — ainda não terem atingido o status de superstars do “El Boom”, eles são bem visíveis e seus trabalhos geralmente bem aceitos nos círculos literários americanos.

Aproximamo-nos da entrada do elevador. Todos os esquilos na Ponte de Comando estavam atentos em nós. Alguns já tinham se levantado das cadeiras. O capitão aproximara-se também, meio ressabiado.

— De volta à pergunta original a respeito das barreiras para escritores latino-americanos: na maioria dos gêneros literários, uma vez que se percebe que um autor tem talento, seu trabalho geralmente é reconhecido nos EUA. Mas na literatura de gênero, assim como FC ou fantasia, isso pode ser um problema, já que, tirando Borges, cujos trabalhos de ficção frequentemente tocavam — como ele menciona na introdução de El Aleph — no “fantástico”, não houve um escritor latino-americano de sucesso com trabalhos explicitamente de gênero. Tenha em mente que por enquanto estou deixando em aberto a questão de como definir “realismo mágico”, já que a semântica por trás dessa expressão já criou debates acalorados – concluiu Larry num pigarro.

Havia uma espécie de entendimento tácito. Como se eu e ele pudéssemos nos entender telepaticamente. Claro que o capitão barrigudo e a tripulação não estavam ali tentando salvar nossas pobres e mortais vidas. O interesse no relógio quântico era tão intenso, que foi impossível não reparar nisso.

Num átimo lançamo-nos para o elevador. Mergulhamos entrando nele de cabeça, não sem batê-las na parede metálica do outro lado, já que o espaço interno não era grande. Larry apertou os botões sem saber o que fazia. O elevador alçou vôo, disparando para cima e depois para o lado, fazendo-nos chacoalhar dentro dele como se estivéssemos numa batedeira.

— Para onde vamos?  — ele perguntou, confuso.

— E eu sei? – respondi, aparvalhado. – Esse caixote vai ter que nos deixar em algum lugar, qualquer hora.

— Querem o relógio, certo?

— Ficou óbvio demais.

— Esquilos miseráveis. Há mais uma pergunta, não há?

— Sim.

— Faça-a. Sei que só tendo todas elas respondidas poderemos sair da realidade paralela em que viemos parar.

Ia fazer a última pergunta quando o elevador parou de repente. Ficar lá dentro ou sair? A dúvida foi cruel. Mas preferimos sair e foi o que fizemos. Estávamos em um corredor. Alguns esquilos confusos nos viram enquanto sirenas tocavam alto anunciando a nossa fuga. Empurramos alguns roedores para o lado e saímos em disparada pelos corredores, sem destino. Podíamos ouvir gritos atrás de nós. Palavras de ordem pedindo nossa prisão. Ordenando nossa execução. “Mas o relógio não pode ser danificado!”, diziam.

— Que esquilos são esses? – Perguntei depois de uma curva, parando, tentando ganhar fôlego.

— Não são esquilos normais – Larry respondeu, parando ao meu lado, mãos apertando o baço. — Não são os nossos esquilos. Não podem ser.

Estiquei o pescoço na esquina em que estávamos para ver onde estavam os malditos. Vinham em turba, avançavam resolutos, pareciam carregar armas nas mãos.

— Há uma sala adiante – Disse Larry Nolen.

— Como sabe? – inquiri, sem conseguir divisar nada a não ser uma sólida parede.

— Há uma leve, quase imperceptível luminosidade que demarca o limite da entrada. Não pode vê-la? Observe, preste atenção.

Então vi. Ele estava certo.

— Não adianta muito. Estão próximos demais para conseguirmos cobrir essa distância sem sermos atingidos pelos disparos das armas.

— Ahá! – disse, então, Larry. E retirou dos bolsos um punhado de nozes. – esquilos são esquilos em qualquer lugar do mundo, sejam eles avançados cientifica e tecnologicamente, ou não!

— De onde vieram essas nozes?

— Você não disse alguns dias antes da entrevista, que preparasse algumas? Aqui estão!

E então ele as lançou no meio dos esquilos que imediatamente se alvoroçaram, abandonando a caçada e brigando entre si pelo alimento que quicava entre eles. Corremos com o resto de nossos fôlegos na direção da porta que fulgurava adiante. Larry Nolen agachou-se lépido e passou escorregando para o outro lado, eu não fui tão rápido. Bati a cabeça na parece acima da porta e tombei de costas, atordoado. Larry Nolen me agarrou pelos pés e me puxou para dentro do Holodeck. Tínhamos voltado ao início de tudo.

Eu ainda tentava recobrar completamente a consciência enquanto ele arrastava um móvel pesado na direção da porta, posicionando-o de forma que os esquilos não pudessem passar. Suspirou aliviado ao fim da operação e sentou-se, costas no armário, enxugando o suor que lhe escorria pela testa.

— A última pergunta – insistiu, enquanto cutucava minhas pernas.

Balbuciei alguma coisa, enfiei a mão no bolso e retirei dele o papel com as perguntas. Tinha esquecido a última. Ia ler, mas vendo meu esforço e meu olhar atrapalhado, Larry Nolen pegou o papel e leu ele mesmo em voz alta.

— A vida de um resenhista nem sempre é muito fácil, principalmente
quando os autores dos livros resenhados estão cada vez mais vivos e
conectados. Quais os seus critérios — inclusive de avaliação — para que você se mantenha sempre fiel aos leitores que optaram por acompanhar suas críticas e resenhas? Você já teve problemas com alguma resenha ou autor específicos? Como consegue ler 500 ou mais livros por ano?

Ia começar a responder quando o móvel foi chacoalhado. Podíamos ouvir  gritos do outro lado. Sentei-me de encontro ao móvel também, apondo a ele o meu peso e força contrárias. Puxei as pernas e cruzei os braços nos joelhos. O relógio quântico bem diante do meu nariz. Em meio ao vozerio, ouvimos o capitão falar

—Amigos, amigos. Que bobagem! Saiam da frente, façam correr esse obstáculo e vamos beber! Vejam, tenho cerveja nictiana, aqui.

—Bem, tento não ler mais do que 3 ou 4 livros que tenham um enfoque ou gênero similares – iniciou Larry, ignorando os apelos do capitão. Dessa forma não esgoto a leitura. Quando escolho um livro para resenhar — que pode ser até mais ou menos ¼ dos livros que leio, primeiramente verifico se o livro tem algo de interessante para passar. Se tiver, passo a considerar o contexto; quando foi escrito? Para quem foi escrito? Existe alguma coisa que por ventura não conheça a respeito daquele tempo/cultura? Então vejo a mecânica da história.

Uma chacoalhada mais forte nos assustou. Ouvimos uma espécie de zumbido agudo e insistente. Olhamo-nos, sem entender o que faziam. De repente, bem diante de nossos olhos, entre nossos rostos que estavam voltados um para o outro, um raio azulado intenso brotou de dentro do móvel e começou a cortá-lo perpendicularmente. Engasgamos com o susto. Afobado, Larry deu continuidade à resposta.

— Qual o ponto de vista da narrativa? Quão forte é a prosa? Há algum tema que se possa identificar? Que tipo de caracterização é apresentada? Ela se encaixa na história? Há alguma trama? E se há, é fácil entendê-la? Os fatos acontecem num ritmo constante ou fica-se com a impressão de o autor ter perdido o controle? Depois disso, eu avalio se as coisas se encaixam e se o autor conseguiu fazer aquilo a que se propôs. Somente depois disso tudo é que eu considero escrever uma resenha do livro.

O móvel estava se partindo em dois.

— Se eu tive problemas com autores ou outras pessoas a respeito das minhas resenhas? Na verdade, não. Um dos motivos é que eu geralmente só escrevo resenhas de livros que tenham deixado uma forte impressão em mim, não tenho a tendência de escrever resenhas negativas (pelo menos se compararmos com a quantidade de trabalhos “blehh” que eu nem tive forças para mencionar). Eu já conversei via email com autores, mas por incrível que pareça, geralmente não sobre os trabalhos deles. Então, não, não tive conflitos que devam ser mencionados com autores. Em relação aos fãs, somente de vez em quando, mas já que eu consigo ser mais duro com aqueles que não me fornecem argumentos inteligentes, geralmente não tenho problemas com eles.

Ajeitamo-nos preocupados, vendo o laser ou o que quer que fosse aquilo, completando o curso de seu preciso corte. Logo o móvel estaria dividido em dois.

— Sobre como consigo ler 500 livros por ano? Bem, eu disse no meu blog alguns meses atrás que tenho uma equipe especialmente treinada de esquilos sérvios que fazem a maior parte do trabalho, lendo, revisando, além de cozinhar e fazer massagens eventuais. Mas a resposta mais “chata” é que sempre fui capaz de ler várias linhas ao mesmo tempo e compreender o texto totalmente. Processo palavras como se fossem imagens e faço isso umas 5 a 10 vezes mais rápido do que a maioria. Isso é o mais perto que consigo chegar de explicar a minha velocidade de leitura. Devo mencionar também que raramente leio mais do que 3 horas por dia e que a maioria dos livros que leio tem menos de 350 páginas. Então nada de ler 2 ou 3 livros por dia de Robert Jordan, George R. R. Martin ou Steven Erickson para mim!

O móvel se partiu, enfim, mesmo que ainda com partes justapostas. A força de dezenas ou centenas de esquilos anabolizados contra dois humanos cansados… Bem, o resultado não poderia ser mesmo diferente. Lançamo-nos para frente, assustados, nos afastando dos roedores que arrastavam as partes com destreza e extrema facilidade.

Instantes antes de apertar o botão do relógio, remetendo-nos à nossa realidade, eu ainda assisti a entrada dos animais. Esquilos ferozes, incluindo um imediato que julgávamos morto numa descarga elétrica e um capitão barrigudo consternado. Nas mãos, nenhuma cerveja nictiana.

Não seria dessa vez que o relógio quântico cairia em mãos inimigas.

De Bar em Bar entrevista Libby Ginway.

13/07/2010

M. Elizabeth (Libby) Ginway é professora associada no Departamento de Estudos de Espanhol e Português da Universidade da Flórida. É autora de Ficção Científica Brasileira: Mitos culturais e nacionalidade no país do futuro (Bucknell, 2004) lançada em português pela Devir no ano 2005. Nesse mesmo ano, ela organizou o simpósio “Latin America Writes Back” sobre a ficção científica latinoamericana, e atualmente está organizando um livro de ensaios em inglês sobre este tema com J. Andrew Brown. Ela já publicou artigos em Brasil/Brazil, Extrapolation, Femspec, Foundation, Hispania, Revista Iberoamericana, com outro na Luso-Brazilian Review por sair. Em maio, com uma bolsa de aperfeiçoamento, viajou ao Chile para assistir um simpósio da narrativa “weird” na América Latina e, em julho, uma coleção de seus ensaios, Visão Alienígena será lançada pela Devir em São Paulo. Embora a ficção científica brasileira seja sua área principal de pesquisa, ela está ampliando seu campo de atuação para incluir a ficção científica de outros países da América Latina. Ela ofereceu uma aula sobre a ficção científica latinoamericana em inglês, e um ensaio baseado nessa experiência aparecerá em Teaching Science Fiction, organizado por Peter Wright e Andy Sawyer, pela Palgrave McMillan.

Embora o ar parecesse parado, podiam-se ver os revoluteios do pó, erguidos por uma leve aragem que soprava discretamente. O céu de profundo azul, sem nenhuma nuvem, e só muito raramente riscado por jatos a grandíssimas altitudes, era uma abóbada recortada no horizonte por montanhas cinzentas.

Uma estrada, a State Route 375, cujo asfalto parecia vir de lugar nenhum e ir a lugar algum, cortava o deserto numa faixa preta empoeirada. Poucos metros distantes dela, um posto de gasolina que qualquer um juraria abandonado. Duas bombas. Uma loja de conveniência cuja porta envidraçada parecia não ver limpeza há longa data.

Numa das bombas, um Chevy 500 de carroçaria amassada e queimada pelo sol parecia aguardar alguém para abastecê-lo.

Mas todo esse cenário não era desabitado. Dentro da loja de conveniência, dois homens e uma mulher observavam ao redor com espanto e certa perplexidade.

— De onde vem essa voz? – perguntou Libby.

— Esse relógio maluco acrescentou um narrador onisciente à história – respondi, batucando o relógio, irritado.

Libby Ginway franziu o cenho, pegou uma caixa de papelão repleta de quinquilharias e latas de cerveja e virou-se, saindo dali.

— Quando aceitei a entrevista, sabia que testemunharia coisas estranhas. Mas essa…

— Eu mesmo sempre me surpreendo com esse maquinismo. Uma vez alterou minha personalidade, acredita nisso? Quase matei… sim… eu quase matei um entrevistado. Foi horrível.

Libby jogou as traquitanas na carroceria, separando, antes, as cervejas. Colocou-as no assoalho do carro. Sentou-se no banco do motorista e ligou o motor.

— Vai ficar aí fora? – perguntou-me com alguma impaciência.

— E para onde vamos? – quis saber.

— Missão secreta – me disse dando um piscar de olhos.

— Gasolina, não vai precisar?

— Abasteci antes de você chegar.

Quando apareci no cenário o narrador onisciente ainda falava da abóbada celeste e das montanhas cinzentas. Caminhei direto para a loja e a encontrei lá dentro. Ela conversava com o homem que a atendia e tive a nítida impressão de que trocavam informações importantes, de tal forma que estavam próximos e pareciam cochichar um ao outro. Libby vestia uma calça jeans, botas de cano longo, camisa xadrez e um boné. Os cabelos estavam soltos. As mãos moviam-se rapidamente, parecia nervosa. Antes que me aproximasse inteiramente, o homem colocou sobre o balcão a caixa de papelão repleta de trastes que para mim pareciam não ter nenhuma serventia.

Abandonei as breves reminiscências e respirei fundo com a nítida impressão de que ficar no posto seria mais prudente. Mas precisava segui-la.

Sentei-me ao lado dela, bati a porta com força moderada e ela não fechou. Um sinal de Libby me mostrou que tinha que erguê-la um pouco se queria vê-la travada. Na segunda tentativa, ela fechou corretamente.

— Cenário inóspito – eu disse enquanto ela dava marcha a ré e voltava para a auto-estrada.

— Deserto de Nevada – ela respondeu.

— Interessante! Perto de Las Vegas, certo? Opa! Dessa vez essa entrevista terá glamour!

Libby riu-se baixinho, acenando com a cabeça em sinal afirmativo. Tive a impressão de que não era exatamente essa a ideia dela.

O deserto se estendia a perder de vista, entremeado por formações rochosas esparsas, pequenas elevações montanhosas, saguaros e árvores Joshua. A State Route 375, também chamada de “extraterrestrial Highway” pouco movimentada, via um Chevy 500 avançando em boa velocidade. A cidade de Rachel já ficara para trás. A seguir, ininterruptamente, desembocaria na State Rote 318, em Crystal Springs, destino que não seria atingido pelo casal intrépido.

— Não tem como desligar essa porcaria? –perguntou Libby enquanto abria uma lata de cerveja e jogava outra para mim.

— O narrador onisciente disse, e não, não dá pra desligar essa porcaria, que Crystal Springs não será atingida… para onde estamos indo? – inquiri, intrigado.

— Desse jeito, como esse “cara” narrando os acontecimentos, não há missão que possa ser bem sucedida, não acha? Jean-Claude Dunyach está certo… fabricação brasileira. Ou pior, paraguaia.

— O relojoeiro parecia oriental – protestei em voz baixa, incerto se isso servia ou não como argumento. Abri a lata de cerveja e bebi um gole rápido.

Era melhor mudar o assunto e nada mais natural se começasse a entrevista. Quando antes o fizesse, mais rápido sairíamos daquele deserto escaldante.

— Recentemente você tem estendido os seus contatos com a comunidade latino-americana de FC. Soube que voltou recentemente do Chile. O que a atraiu na FC de outros países latinos e que semelhanças mais visíveis você enxerga entre eles e a FC praticada no Brasil?

Libby bebeu de sua cerveja, passou a língua nos lábios colhendo algumas gotas que escaparam e deu uma guinada com o carro para a esquerda, saindo da estrada principal e tomando outra, secundária, em péssimo estado de conservação.

— Este contato evoluiu por etapas, primeiro em congressos e depois por minha realidade acadêmica.  O Centro de Estudos Latinoamericanos tem um orçamento que inclui bolsas para desenvolver aulas novas.  Recebi uma em janeiro 2009 para dar uma aula em inglês sobre FC latinoamericana, utilizando a antologia Cosmos Latinos, organizada por Andrea Bell e Yolanda Molina-Gavilán.  Sendo contos de FC principalmente hispanoamericanos (os únicos representantes brasileiros eram Jerônimo Monteiro, André Carneiro e Braulio Tavares), resolvi suplementá-la com contos brasileiros traduzidos para o inglês, uma série de filmes de FC latinoamericanos e o romance Turing’s Delirium pelo autor boliviano Edmundo Paz-Soldán.

Diminuiu a velocidade acalmando-me, afinal estava a mais de sessenta milhas por hora numa estrada vicinal que não aceitava mais que trinta.

— Alfredo Suppia me ajudou com o cinema brasileiro – continuou –, e convidei mais dois palestrantes da área de FC hispanoamericana, Rachel Haywood Ferreira e J. Andrew Brown. A experiência resultou num artigo que vai aparecer em Teaching Science Fiction, ed. Peter Wright and Andy Sawyer (Palgrave).  Foi assim que comecei a ver traços em comum entre a FC hispanoamericana e a brasileira. Embora superficial, posso começar que a história, as gerações e as divisões são semelhantes.  O primeiro momento corresponderia à Primeira Onda, com a época atômica vista desde a periferia, fantasias de colonização inversa (o colonizado/alienígena vencendo o colonizador), e um pessimismo ou desconfiança a respeito da tecnologia.  Nos anos 70-80 vemos reações à ditadura em metáforas de sexualidade, uma das constantes nas distopias brasileiras e, na produção a partir dos anos 90, mais cyberpunk e a temática de violência, mas com variações regionais ou nacionais.

Depois de duzentos metros ela parou o carro. Bebeu toda a cerveja da lata e a jogou para fora do carro. Olhou para longe, avaliando o caminho e mais detidamente as elevações montanhosas que iam se aproximando.

— No Cone Sul, por exemplo, o ciborgue é o ser torturado – retomou a resposta –, dilacerado. No México, o implantado ciborgue é o operário, vítima das grandes corporações. Pelo que vi no Chile, há ciborgues assassinas e vampiros utilizando a violência como vingança ou exorcismo do passado, e existe também uma vertente New Weird, combinando a representação grotesca do corpo com traços de FC e horror, que talvez tenha aspectos em comum com a nova geração de escritores brasileiros. Aqui nos EUA, onde o espanhol se projeta mais, se pode entender o meu desejo de abranger novas áreas, trabalhar mais com alunos de espanhol e da pós-graduação.

Ela abriu mais uma lata, acelerou e retomou o caminho, mantendo uma velocidade moderada.

— Isto também ajudaria o programa de espanhol, já que não tem um número suficiente de aulas/professores para atender os alunos de forma adequada.  Por isso me candidatei em janeiro deste ano para uma bolsa de “aperfeiçoamento” vamos dizer, com a idéia de viajar ao Chile, melhorar meu espanhol, e, finalmente, dar uma aula sobre a FC latinoamericana em espanhol no futuro.  Outro aspecto desta bolsa era de pesquisar, ou, melhor dizendo, editar uma série de artigos de crítica e teoria da FC latinoamericana com J. Andrew Brown. Dividimos o trabalho, com ele organizando os textos hispanoamericanos e eu os brasileiros.  Assim, teremos um livro de crítica sobre a FC latinoamericana em inglês.  Ele também fazia parte do congresso no Chile, onde o escritor argentino/ americano Mike Wilson organizou o evento na PUC do Chile.

— Terminou? – perguntei ironicamente depois de sua dissertação.

— Essa pergunta, sim.

— A voz onisciente disse que a rodovia em que estávamos chama-se alguma coisa parecida com rodovia extraterrestre. Por que isso?

— Você já ouviu falar da Área 51?

— E quem não ouviu?

Libby não retrucou e isso ficou batendo na minha cabeça. Mas, por pouco tempo. Estávamos no deserto de Nevada, disse ela, anteriormente. A área 51 ficava lá. Caiu a ficha.

— Essa missão que você disse – pigarreei – não tem nada a ver com essa base ultra-secreta, tem?

— Qual a segunda pergunta?

Observei os saguaros e a vegetação arbustiva ressequida. As montanhas estavam próximas, bem próximas. O pó invadia a cabine do carro. A evidente mudança de assunto de Libby me pôs nervoso. Mas lhe fiz a pergunta seguinte.

— Qualitativamente é possível comparar os bons nomes de FC brasileira com autores da FC americana, inglesa, francesa, russa e alemã (países com tradição forte nesse nicho literário)? Nesse aspecto, ou seja, na qualidade literária, é possível afirmar que nossa literatura está historicamente avançando a ponto de acompanhar a qualidade de produção nesses países?

Ela pisou no breque e levou o carro devagar para fora da via. Estacionou uma centena de metros adiante, próxima de uma formação rochosa.

— Já que as idéias se transmitem ou se divulgam rapidamente, não acredito no “atraso” cultural. Existem diferenças de mercado e tradição. Precisa ter ciência para escrever ficção científica? Um país economicamente periférico pode ter conhecimento direto de um gênero que surgiu de países tecnologicamente mais avançados? Na América Latina do século XIX, as elites latinoamericanas aproveitavam o discurso hegemônico da ciência como a linguagem autoritária de conhecimento, auto-conhecimento e legitimização, o que Augusto Emílio Zaluar, entre outros, usava para justificar a idéia de progresso e civilização, uma extensão do projeto colonial.

Ela parou de falar por instantes para abrir a terceira lata de cerveja. Impressionou-me a rapidez com que ela ia secando uma lata após a outra.

— Veja só, em 2008, John Rieder publicou um livro Colonialism and the Emergence of Science Fiction pela Wesleyan UP, discutindo textos do século XIX desconhecidos do gênero, mostrando que as origens da FC estão profundamente ligadas ao discurso colonial.  Vários textos citados por Rieder, não são os clássicos do gênero, muito pelo contrário, são textos desconhecidos, mas mostram uma tendência geral da justificativa de “conquista” ou de “civilização.”  Então existe um mito de melhor qualidade; talvez seja questão de percentagens, mercado, e tradição.

Do lado latinoamericano, o livro de Rachel Haywood Ferreira (The Emergence of Latin American Science Fiction, Wesleyan, forthcoming 2010) confirma que a FC não era um gênero “importado” para escritores do século XIX, só que os textos não eram entre os clássicos nacionais, nem reconhecidos como FC.  Roberto de Sousa Causo também mina as origens do gênero no Brasil, documentando a produção do século XIX até meados do século XX em Ficção científica, Fantasia e Horror no Brasil, 1875-1950 (UFMG, 2003).  Estas pesquisas marcaram o primeiro passo em estudos de escritura marginal, a recuperação histórica—os feministas fizeram o mesmo para consolidar seu campo de estudo.  Quanto à qualidade, acho subjetivo.   Acho que alguns contos de André Carneiro, Rubens Teixeira Scavone, Dinah Silveira de Queiroz são comparáveis a Bradbury, por exemplo.  Acho as diferenças interessantes, como no romance Fuga para parte alguma de Jerônimo Monteiro que tem a vitória das formigas sobre a humanidade, um final tão distinto do filme americano de formigas gigantes Them em que o herói James Arness vence a praga.  A realidade é a mesma: guerra atômica, mas a visão é distinta. Talvez eu possa falar de tendências da FC brasileira contemporânea.  Existem vários escritores que cabem dentro da linha fantástica e literária, outros associados com a fantasia, FC hard ou histórias alternativas.  A maioria escreve em todos os subgêneros.  Existem muitos escritores originais e versáteis que estão sendo cada vez mais reconhecidos.  Estão surgindo novos nomes, com professores/autores escrevendo e incentivando a nova geração.  As revistas online têm crescido. Os subgêneros de fantasia pura, horror, vampiro, cyberpunk, FC escrita por mulheres, oferecem textos para todos os gostos.  Não sei se dá para comparar. Deve-se ler e conhecer o que se faz na Europa e na FC Anglo-americana, para comparar com o que se escreve no Brasil.

Saiu do carro, esticando rapidamente as pernas. Depois se dirigiu à carroceria. Desci também a tempo de vê-la retirar a caixa de quinquilharias e colocá-la no chão, à sua frente. Aproximei-me, curioso e fiquei observando-a enquanto ela a vasculhava. Retirou dois objetos metálicos oblongos. Entregou-me um deles.

— E para que serve isso? – perguntei com curiosidade, enquanto analisava o objeto.

Ela apontou o que tinha nas mãos para a área descampada à nossa frente e apertou o que parecia uma leve concavidade sobre a superfície metálica. Uma onda de choque fez voar pedras, arbustos e um saguaro, arrancando tudo do chão como se um tornado acabasse de passar por ali. Fiquei boquiaberto.

Voltou a se debruçar sobre a caixa, retirou de lá um cinturão que prendeu em seu quadril e mais alguns aparatos. Colocou-os em bolsas próprias no cinto. Embora não pudesse atribuir serventia a eles, já os respeitava até com certa solenidade.

— De onde você arrumou essas coisas fascinantes? Que tecnologia é essa?

— De onde eu vim, existem coisas muito mais impressionantes. Essas aqui são brinquedos de criança.

— De onde você veio, afinal?

Libby não respondeu. Observou a elevação montanhosa mais próxima e fez sinal para que eu a acompanhasse. Seguimos numa escalada branda até o cume, que atingimos em cerca de quinze minutos. Enquanto subia, me perguntava onde estava me metendo e, principalmente, com quem estava me metendo.

Ela se debruçou e fiz o mesmo. Observei o outro lado e vi a base militar a cerca de dois ou três quilômetros de nós. Uma cerca a delimitava não mais que duzentos metros adiante, logo após o sopé da montanha.

— Eis a famosa base Nellis – murmurou Libby.

— Vamos invadi-la? – perguntei num suspiro nervoso. Eu sentia que era exatamente isso que iria acontecer.

— Vamos! – respondeu Libby com entusiasmo.

— Seremos vistos. Com sorte, presos e processados. Com azar, metralhados.

— Não seja tão pessimista.

— Pelo menos me diga o que vamos fazer. Acho que tenho o direito de saber antes de arriscar o meu pescoço.

Libby sorriu, olhou para o céu límpido e depois de alguns segundos, respondeu-me.

— Resgatar um artefato alienígena de suma importância e que está nessa base desde que ela foi construída.

Limitei-me a ficar calado, olhando para ela com perplexidade.

— Uma coisa foi descoberta por um espeleólogo numa gruta em uma dessas montanhas. Militares cercaram a área evitando a aproximação de curiosos e pouco a pouco foram militarizando-a ao ponto de se tornar essa base militar. Até agora não conseguiram descobrir como funciona nem como podem adentrá-la. Eles têm uma visão errônea de sua utilidade.

— Alienígena? – perguntei, enfim.

— Passamos muito tempo esperando a oportunidade de podermos invadi-la e recuperar o que é nosso. Em condições normais seria uma ação fadada ao fracasso, mas esse seu relógio nos deu a resposta. A missão numa realidade paralela teria tudo para ser bem sucedida. E aqui estamos!

— Já faz alguns anos que seu livro foi editado no Brasil. De lá para cá, houve uma reativação da FC Nacional, com novíssimos autores e editoras investindo no gênero. Como eles se encaixam nas teses defendidas pelo livro? – perguntei de socapa, numa tentativa de mudar o assunto e, quem sabe, acelerar o final da entrevista e ir embora dali antes que mais absurdos fossem ditos e cometidos.

Libby retirou um aparelho do cinturão, ajustou alguns controles, escutei um zumbido curto antes de ela colocá-lo de volta ao cinturão. Depois se levantou e acenou para que eu a seguisse na descida da montanha.

— Enlouqueceu! – exclamei, assustado com aquela descida. – Seremos vistos! Estamos à vista de todos. Há vigilância!

— Acalme-se – respondeu-me ela com tranquilidade. – Ninguém está nos vendo. Nem lagartos, nem tarântulas, nem coiotes. Estamos cobertos por um manto eletromagnético que nos confere invisibilidade.

Não tentei entender. Não perguntei como aquele artefato funcionava, nem quem Libby era na verdade. Estava assustado demais para raciocinar com clareza.

— Somos sessenta e oito mil na Terra – disse-me ela, como se antecipasse as minhas dúvidas. – mil quatrocentos e vinte só no Brasil. Trezentos e quinze no Rio de Janeiro, um deles em Pinheiral!

Engasguei.

— Você não está querendo dizer que o Jorge Luis Calife… que ele… que, é? Ele é?

Libby não respondeu, limitando-se a manter um sorriso enigmático nos lábios. Ficou assim, como se se deliciasse com aquelas revelações até que chegamos à cerca. Eletrificada, claro.

— Meu livro está ligado a uma questão histórica e cultural. Como a FC retrata atitudes perante a modernização vistas na interseção dos ícones/subgêneros da FC e os mitos culturais brasileiros — Ela começou a responder enquanto retirava do cinturão uma pequena pistola de solda. Pelo menos era o que me parecia numa avaliação bem superficial. — É claro que com a globalização e a popularidade da Fantasia e de outros subgêneros; Steampunk, Vampiros, New Weird, no Brasil, existe essa idéia de superar limites nacionais; que o mundo da FC é transnacional, como aquela velha questão de cosmopolitanismo versus nacionalismo.  Fico contente com o novo interesse pelo gênero, já que quando comecei minha pesquisa sobre a FC da pós-ditadura por volta de 2000, encontrei um certo desalento após a euforia dos anos 90 e o surgimento do fandom e a Segunda Onda de escritores. Portanto, acho que existem toques ou resquícios de brasilidade ou perspectivas que surgem de uma cultura, e que, para mim, são de maior interesse, embora o autor esteja escrevendo sobre outra cultura ou ambientando o texto em outro país. Por exemplo, (e o exemplo não é dos mais originais, por isso não sou escritora), posso imaginar um autor americano de FC escrevendo sobre a invasão da região amazônica, mas a idéia de Roberto de Sousa Causo ou de Gerson Lodi-Ribeiro de dividir o Brasil ou de aliá-lo com outros países da região e mudar a política, parece-me uma perspectiva latino-americana, uma visão de dentro, ou uma visão pelo menos não hegemônica. Então, acho interessante a combinação de um gênero volúvel, supostamente importada, dentro perspectiva de autores brasileiros.  Li o conto Steampunk de Jacques Barcia Uma vida possível atrás das barricadas (2009), e achei interessante a idéia de uma golem e um autômato quererem ter filhos.  O conto Julgamentos (1993) de Cid Fernández lida com ciborgues que desejam o mesmo. Não vi muitos textos em inglês sobre este tema, o ciborgue representa a crise de papéis de gênero, ou o ser “pós-gênero.” Na FC do Chile e da Argentina, como mencionei antes, o ciborgue muitas vezes representa uma maneira para entender a tortura, enquanto no México o ciborgue representa a crise econômica do mercado do trabalho.  Para mim, isto é fascinante. Meu artigo The Post-human in Third Wave Brazilian Science Fiction, traduzido por César Silva, vai aparecer no Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, que aborda justamente esta questão a antecedentes históricos, FC transnacional, etc. A meu ver, ainda existem traços de brasilidade nesta nova onda, e talvez minha ótica seja esta, então é isso que eu vejo. É claro que existem outras perspectivas, outras aproximações.  Os meus interesses refletem meus valores e minhas preferências, então como pesquisadora de fora, quero ver o que existe de diferente.

Então apontou a estranha pistola para a cerca e disparou um raio azulado de larga abrangência. O que era metal se transformou numa massa amorfa fumegante, escorrida pelo chão. Ouvimos ao longe uma sirene. Avançamos, caminhando lado a lado até que dois jipes militares surgiram, se aproximando rapidamente. Libby me segurou no braço, fazendo sinal para que me mantivesse calado. Os jipes passaram por nós a toda. Eu estava perplexo. Soldados desceram e foram observar o estrago. Gesticulavam e falavam em rádios.  Caímos fora, caminhando com cautela, tentando não fazer barulho, nem levantar pó.

Aproximamos-nos de instalações. Grandes galpões ladeavam nosso caminho. Veículos militarem e de passeio estacionados. Uma pista de pouso e decolagem com duas grandes aeronaves estava à nossa direita, não mais que cem metros de distância. Foi pura ilusão acreditar que entraríamos ali sem nenhum problema. Logo surgiram soldados. Fomos obrigados a nos refugiar atrás de galões, ladeando paredes, fazendo de tudo para não ficar no caminho nem das pessoas nem dos veículos. Não podiam nos ver, mas podiam se chocar conosco. Isso não seria uma boa ideia.

— Do outro lado há uma montanha e nela uma gruta. Ela mergulha centenas de metros de profundidade na rocha. Uma câmara interna abriga o artefato que te falei. Está alocado atrás de portas praticamente inexpugnáveis, protegido por sistemas de segurança de última geração e guardado por soldados treinados e fortemente armados.

— E vamos resgatá-lo? – perguntei com evidente perplexidade.

— Sim. Não é excitante?

— E como pensa passar pelos obstáculos? Espremendo-se em paredes até lá? – minha preocupação maior era com o narrador onisciente. Estava apavorado pensando que ele poderia surgir de repente, no meio da ação, denunciando nossas posições.

Libby sorriu vitoriosa e sacou o objeto metálico oblongo. Engoli em seco diante das perspectivas. Ela me puxou pelo braço, apontou para o caminho que deveríamos tomar e apertou o botão. Foi um festival de soldados, latas, pedregulhos e jipes sendo jogados para os lados, numa lufada violenta. Incitou-me a correr e foi o que fiz. Tirei o meu objeto, segurei-o na mão enquanto corríamos e fui apertando o botão de quando em vez, me divertindo em ver as coisas e as pessoas voando. Logo ouvimos tiros, mas esses eram dados sem direção. Não sabiam em quem nem para onde disparar. Logo escapamos da área central, metemo-nos em trilhas mais estreitas, entre armazéns, e vimos, então, a famosa montanha diante de nós.

Uma rampa guarnecida por cercas de arame farpado. Guarita de entrada onde dois soldados estavam postados. Cancela eletrônica. Nada que não pudéssemos derreter ou “assoprar” para os lados. A entrada permitia que veículos leves fossem por ela. Uma grande comporta de aço, aparentemente automática, franqueava a entrada à gruta. Não duvidava encontrar lá dentro uma espécie de cidade subterrânea. Libby evitou a entrada principal. Aproximou-se de uma lateral e disparou a sua pistola de raios na cerca. Enquanto ela escorria pelo chão, corremos para a o início da rampa. Como esperávamos, os dois soldados saíram de seus postos, apontavam as armas para a área logo após o buraco e disparavam rajadas a esmo, tentando atingir alguma coisa que não podiam ver. Passamos sob a cancela sem riscos maiores e corremos rampa acima.

Foi uma entrada silenciosa.

Nada além de uma espécie de antecâmara antecipando uma parede larga central com elevadores. Havia corredores laterais, amplos e com teto bastante alto, mas Libby não deu a eles nenhuma atenção.

— Está pensando em apertar o botão e descer calmamente? – perguntei não sem algum sarcasmo.

— Claro que não – respondeu-me ela. – não são simples botões que fazem movimentar esses elevadores. É necessário digitar um código alfanumérico no painel frontal e permitir escaneamento de retina. Não temos tempo para tudo isso.

Catou no cinturão um badulaque e, enquanto a grande comporta de aço ia se fechando às nossas costas, acionada externamente, girou nele um dispositivo e uma luz esmaecida, amarelada, iluminou a porta de um dos elevadores. O metal pareceu ondular. Libby aproximou a mão e a tocou mostrando-me como parecia estar liquefeito.

— O efeito dura alguns minutos – disse ela. – Saltaremos para dentro. Do outro lado há um fosso. A queda deve ser de aproximadamente oitocentos metros. Como os elevadores se movem por força eletromagnética, infelizmente conflitam com meu dispositivo. Enquanto descemos, ficaremos visíveis. Creio que lá embaixo, já no solo, idem.

— Saltaremos? – perguntei perplexo. – No vazio? Vamos nos esborrachar!

Libby catou uma caixinha de dentro do cinturão. Girou uma pequena manivela – tão prosaica que duvidei que pudesse ser artefato alienígena –, apertou um botão e o devolveu novamente ao cinturão. Agarrou-me num abraço apertado e jogou-se contra a porta do elevador, arrastando-me com ela. Nós a atravessamos como se estivéssemos atravessando uma parede de água.

E caímos. Caímos vertiginosamente. Só não tão rápido quanto eu poderia supor. Dava-me a impressão de estarmos contidos por cordas ou redes invisíveis. Descíamos o vão livre, profundamente escuro, sem nada enxergar, numa velocidade tão moderada que deu à Libby tempo de procurar uma lanterna cujo facho era poderoso e, com ela, iluminar o que parecia ser o final daquele mergulho.

— Há mais uma pergunta? – perguntou-me Libby. Eu estava atônito demais para me lembrar da entrevista.

— Sim – respondi.

— Faça-a, então. Mas prometa-me que não apertará o botão do relógio enquanto o artefato a que vim buscar não estiver já em meu poder.

— Prometo – respondi, assustado com esse compromisso. — Está previsto para este ano o lançamento de um novo livro seu no Brasil, pela Devir. Fale-me deste seu novo trabalho de não ficção.

Visão alienígena brinca com a idéia da minha condição de estrangeira e do tema do estranhamento, isto é, ver o Brasil pela ótica da FC.  Oferece um panorama de meus artigos desde os anos 80 até a atualidade. Quando escrevia minha tese de doutorado, trabalhava principalmente os gêneros da distopia e do conto fantástico como reações à política da ditadura.  Depois, quando cabia desenvolver mais este trabalho inicial, comecei a pesquisar a FC a partir da década dos 90.  O novo livro reúne uns 12 artigos ou ensaios. O primeiro artigo é de maior extensão e resume o método utilizado no meu livro, aproveitando outros exemplos que não tive tempo, espaço ou conhecimento para incluir no livro de 2005. Tem um pouco de tudo—organizei os ensaios por categoria: Icones da FC: robôs, ciborgues e a cidade, subgêneros da FC: histórias alternativas, FC hard ou fantasia, Ditadura e FC: o conto fantástico e a distopia, e Escritoras da FCB.  Quatro artigos são inéditos. Então, no conjunto da obra, toco na obra dos seguintes autores, Levy Meneses, Guido Wilmar Sassi, Dinah Silveira de Queiroz, Rubens Teixeira Scavone, Jorge Luiz Calife, Braulio Tavares, Gerson Lodi-Ribeiro, Ivanir Calado, Henrique Flory, Cid Fernández, Daniel Fresnot, Marien Calixte, José dos Santos Fernandes, Octávio Aragão, Fábio Fernandes, Adriana Simon, Simone Saueressig, Júlio Emílio Braz, Marcia Kupstas, Martha Argel, Helena Gomes, Luiz Roberto Mee, Orlando Paes Filho, Mariana Albuquerque, Michelle Klautau, Finisia Fideli, Carlos Orsi, Roberto de Sousa Causo, André Carneiro, Murilo Rubião, José J. Veiga, entre outros. O novo artigo sobre o pós-humano que vai aparecer no Anuário inclui referências a textos de Felipe Tazzo, Cristina Lasaitis, Octávio Aragão e Goulart Gomes. Um artigo que vai aparecer no mês que vem pela Luso-Brazilian Review é sobre os seres “transgender” na FC &FB desde Machado de Assis até o presente.  Acho que o meu próximo livro vai lidar mais com textos da nova geração, sobretudo na minha análise sobre cibogues e clones.  Para ver o que meu colega Andrew Brown anda pesquisando, veja o índice do livro que lançou.  Ele mexe mais com autores hispanoamericanos slipstream: http://us.macmillan.com/cyborgsinlatinamerica.  Andrew me disse que no livro dele a América Latina não inclui o Brasil, então recomendou que eu continuasse com o tema.  Quanto aos escritores da nova geração, o artigo publicado a quatro mãos com Causo sobre a história da FCB saiu na mais recente edição da revista Extrapolation 51.1 (2010) 13-39.  Lá falamos da Terceira Onda, Gaming, Horror, Fantasia, the New Weird, Graphic novel.   Algumas novas tendências e autores estão lá. Terminamos o artigo em 2008 e só está saindo agora!

Então pousamos sem traumas sobre o teto do elevador que estava no subsolo. Libby desativou o aparelhinho de antigravidade e voltou a utilizar o fazedor de paredes liquefeitas. Caímos dentro do elevador, de pé, embora eu tenha quase sentado o traseiro no chão numa escorregada. Ela empunhou o objeto oblongo e avisou-me que a ação começaria agora.

— Procure, assim que sairmos daqui, um lugar para se esconder. Lembre-se, você prometeu não apertar o botão do seu relógio. E não se preocupe comigo. O que vim buscar é um transporte interdimensional. Livro-me com ele dessa realidade alterada e volto para nossa própria realidade. Pena que só dá pra um.

Assim que a porta do elevador se transformou em água ela apertou o botão do objeto. Uma onda de choque violenta irrompeu dentro do recinto ao mesmo tempo em que nós nos lançávamos para fora. Havia uma câmara ampla, teto tão alto que seria necessário um helicóptero para alcançá-lo. Fomos disparando à medida que avançávamos. Surpreendia-me o amplo espectro de atuação daquela diminuta arma. Homens se elevavam no ar, indo cair muitos metros adiante, atordoados. Balas eram rechaçadas pelas ondas de choque. Corri para detrás de alguns caixotes enquanto Libby avançava de encontro a… fiquei pasmo. Dois pratos cinza chumbo emborcados um contra o outro. Diâmetro de aproximadamente quarenta metros. Um disco voador! Era isso mesmo, um disco voador!

Ela continuava disparando. Ao se aproximar da nave, uma rampa que durante anos não fora descoberta nem acessada, desceu suavemente. Ela entrou e desapareceu lá dentro, não sem antes fazer o sinal de OK na minha direção. Continuei pasmo, olhando aquela maravilha, sem me dar conta dos perigos que ainda corria.

A nave interdimensional começou a vibrar suavemente, emitindo luzes que pareciam brotar de sua superfície. Todos os soldados que estavam próximos se afastaram, incertos do que deveriam fazer. Observavam, apenas, assombrados, aquela nave finalmente, após tantos anos, tornar-se operacional. Mas os que imaginavam que nada poderia ocorrer por estar ela encerrada numa câmara subterrânea, certamente jamais se perguntaram como teria ido parar ali. A nave elevou-se no ar um bom par de metros, girou sobre seu próprio eixo algumas vezes e, então, num estalo, desapareceu. Estavam tão embasbacados que não se deram conta de outro intruso oculto atrás de caixas de madeira, a poucos metros de onde se encontravam.

O que eu mais temia aconteceu. Praguejei contra o narrador onisciente que fez duas dezenas de soldados armados e furiosos voltarem-se na minha direção. Teriam continuado ignorantes de minha presença não fosse essa interferência inesperada e idiota. Mas fui mais rápido que as balas que fizeram explodir os caixotes. Apertei o botão do relógio e voltei para casa.

Colaboraram nessa entrevista Delfin, Marcello Branco e Jorge Luis Calife.

De Bar em Bar entrevista Jean-Claude Dunyach.

24/06/2010

Jean-Claude Dunyach, nascido em 1957, tem Ph.D. em matemática aplicada e supercomputação. Trabalha para a Airbus em Toulouse (sul da França). É escritor de ficção científica desde o início da década de 1980, e já publicou sete romances e sete coleções de histórias curtas, ganhando o prêmio de ficção científica francesa em 1983, quatro Rosny Ainé Award em 1992 (2), 1998 e 2008, bem como o "Grand Prix de l'Imaginaire" em 1998 e Prix Ozone em 1997. Seu último romance, "Etoiles Mourantes" (Dying Stars), escrito em colaboração com o famoso escritor francês Ayerdhal, ganhou o "Grand Prix de la Tour Eiffel", em 1999, bem como o “Prix Ozone”. Jean-Claude Dunyach também escreve letras para canções francesas, que serviram de inspiração para um de seus romances sobre um cantor de rock and roll em um futuro devastado; turismo na Antártica com uma orquestra filarmônica de zumbis.

A incerteza é uma das piores coisas quando se aproxima o momento de apertar o botão do relógio quântico e dar início a mais uma entrevista. Já estive nos cenários mais doidos. Já vivi situações de perigo intenso. Já tive, até, minha própria personalidade alterada. Sei muito bem que posso não voltar de uma dessas entrevistas. Os entrevistados estão cientes, também, dos perigos a que se expõe. Como Pilatos, lavo as minhas mãos em relação ao meu destino e ao deles.

Apertei o botão num suspiro longo. Fechei os olhos um instante antes disso. Como se a cegueira momentânea pudesse me proteger de qualquer perigo. Vã ilusão.

***

Quando abri os olhos novamente, vi-me envolto por uma bruma. Pensei ter voltado a Whitechapel. Desconfiei que não quando vi árvores e arbustos. O chão de terra e cascalho, lama e poças esparsas.  Guinchos de aves noturnas rasgavam a noite. Estava frio. O céu era cortado por relâmpagos que explodiam ainda distantes. Farfalhavam as copas das árvores, movidas por ventos contínuos. Uma chuva forte ia se anunciando.

Caminhei devagar pelo chão escorregadio. Olhando com cautela, tentando vencer a névoa que recobria o chão como um grosso tapete. Parei quando escutei o que parecia um rangido longo e lamentoso. Um atrito profundo e angustiante. Identifiquei a direção e hesitei em seguir por ela. Estava atrás de Jean-Claude Dunyach e não de problemas.

Venci com certa dificuldade os obstáculos naturais que se interpunham a meu avanço. Deparei-me com uma pequena clareira. No centro dela, alguém ajoelhado diante de uma rocha. Nas mãos uma longa faca que era afiada ininterruptamente. A pessoa, que logo identifiquei como sendo o próprio Jean-Claude, exibia uma expressão dura, olhar congelado na lâmina que raspava na pedra.

Engoli em seco.

Ele voltou o rosto para mim e eu recuei um passo, assustado. Ele não interrompeu o trabalho. Moveu os lábios num sorriso quase imperceptível e voltou a atenção ao objeto que tinha nas mãos. Sorriu um pouco mais, ergueu a faca, movendo-a como uma espada, porém lentamente, cortando a névoa fria. Levantou-se e tentou se aproximar. Até conseguiria se eu, temeroso, não recuasse cada vez mais.

— É o Tibor, não é? Não tem o que temer. Minha preocupação está lá – disse ele, adiantando-se e abrindo as ramagens de um arbusto denso.

Duas ou três dezenas de metros adiante havia um casarão. A silhueta sombria era destacada pelos relâmpagos cada vez mais constantes. Podia jurar que vi uma luz rutilante, demoníaca, brilhar em ambas as janelas superiores. Estremeci, de frio e medo.

— O que há naquela casa? – perguntei com a voz quase num sussurro.

— A mentira. A mentira está lá dentro – respondeu.

— Para que a faca? Para que isso tudo? É só uma entrevista. Eu faço as perguntas, você dá as respostas. Vamos embora e está tudo bem. Fiquemos por aqui.

— Impossível. Se ficarmos, ela virá até nós. Aguarda-nos… veja! A casa parece respirar.

Jean-Claude aproximou a lâmina da faca bem perto do rosto. Soprou no metal como se tentasse afastar minúsculas farpas do recém-afiado gume. Olhar embevecido. Senti um arrepio intenso. Receei que o relógio quântico tivesse alterado a personalidade dele. Que tivesse estimulado nele um sentimento suicida qualquer. Um instinto de demência que o fizesse se lançar numa batalha sobrenatural, movido não por impulsos de autodefesa, mas sim por desejos enlouquecidos de enfrentamento.

Então ele soltou a ramagem, respirando fundo. Abaixou a mão armada, olhou para mim com um brilho estranho nos olhos e sorriu.

Vive la Science Fiction! – Exclamou enquanto contornava o arbusto e se dirigia para o casarão com passos resolutos. Não tive alternativa se não segui-lo. Enfrentei meus próprios medos em defesa do francês. Apesar de ele conhecer os riscos dessas entrevistas, eu me sentia responsável por ele e por qualquer outro entrevistado. Não podia deixar que se metesse naquela enrascada sozinho.

Chegamos ao alpendre subindo três degraus cuja madeira velha e rachada estalava sob nossos pés. Ruídos indistintos e de origem desconhecida nos chegavam, vindos de dentro da casa. Provocaram-me arrepios profundos. Jean-Claude aproximou a mão da aldrava, velha peça metálica já quase tomada pela ferrugem. Antes que pudesse tocá-la, a porta se abriu num rangido assustador, revelando um interior de trevas.

— Oh, Deus… – lamuriei.

— Coragem, homem! A vida é feita de lutas constantes – filosofou Jean-Claude.

Então empurrou a porta terminando por abri-la por completo. Vimo-nos numa espécie de limiar. Ainda no alpendre podíamos nos considerar salvos, mesmo que nas fronteiras entre a sanidade e a loucura. Antes que eu relutasse mais uma vez, antes que eu fosse inteiramente tomado pelo pavor e saísse correndo de lá, Jean-Claude tomou-me pelo braço. Empunhou a faca de forma ameaçadora, como se pretendesse apunhalar o vazio a nossa frente e, puxando-me com ele, lançou-se para dentro. A porta se fechou às nossas costas num estrondo que fez estremecer as vidraças por trás das grossas cortinas.

Entramos cambaleando, trôpegos, cegos pela escuridão profunda. Tropeçamos em móveis e fomos nos estatelar no chão, entre gemidos abafados.  Encostamo-nos ao que parecia ser uma parede, próximos um do outro, respirações aceleradas.

— Em breve nossos olhos se acostumarão ao escuro e poderemos enxergar melhor — ele sussurrou. — Até lá é conveniente permanecermos aqui, quietos.

— O que me preocupa é quem ou o quê está por aí, com os olhos já acostumados à escuridão — comentei temeroso.

O ar dentro da casa estava mais frio que do lado de fora. Uma brisa cortante parecia soprar, vinda de todos os lados. Estalos e rangidos se repetiam em todos os lugares. Tateei o bolso e achei uma caixa de fósforos. Exultei intimamente pelo achado. Risquei um palito e a chama foi rapidamente apagada.  Risquei outro e tive o mesmo resultado. Fiquei irritado com Jean-Claude. Se continuasse soprando as chamas, jamais sairíamos daquele canto. Jamais nos livraríamos da escuridão.

— Pare de soprar! Não vê que quero nos tirar dessa situação? – protestei.

— Eu não estou soprando nada. Dê-me aqui essa caixa – ele riscou um palito, protegendo-o com uma das mãos. A luz pareceu explodir, trazendo-nos muito mais do que um ambiente cheio de pó e móveis velhos cobertos por longos lençóis. Um vulto imenso, acocorado, oculto por um manto negro que não deixava ver quase nada dele, a não ser os olhos de brilho satânico, estava à nossa frente. Tão próximo que poderíamos ter sentido seu bafejo se ele fosse vivo e bafejasse.

Gritamos juntos. O palito apagou-se. Jean-Claude brandiu a faca, jogando-se para frente na tentativa de atingir a aparição. Eu me encolhi, apavorado. Escutei móveis tombando, panos rasgando, gritos abafados, o choque do metal contra o piso frio.

Putain de Merde! – grunhiu Jean-Claude depois de alguns instantes.

— Você o pegou? – perguntei.

Ouvi seus passos vacilantes. Mais algumas trombadas. Uma cadeira caindo no chão. Depois uma luz esmaecida fez o salão se iluminar.

— Não, mas encontrei um interruptor.

Levantei-me, com as pernas tremendo. Jean-Claude estava do outro lado da sala, próximo à porta. Entre nós uma barafunda: cadeiras, lençóis e abajures tombados. Uma nuvem de pó ainda em suspensão, provocada pela luta recente. Nas paredes, quadros antigos. Tapeçarias, luminárias, prateleiras exibindo cerâmicas decorativas. Uma escada em caracol levava para o andar superior. Um corredor lateral conduzia aos fundos da casa.

— O seu conto Déchiffrer la Trame foi publicado no Brasil em 2000, no fanzine Megalon. Ainda que seja numa publicação não profissional, causou uma forte repercussão positiva no fandom brasileiro da época. Você tem sua obra publicada em outros países? Teria alguma perspectiva de publicar um livro no Brasil?

Jean-Claude olhou para mim, piscando ainda os olhos com alguma rapidez, tentando se acostumar à súbita claridade. Franziu o cenho e fez sinal de que não havia entendido nada. Pigarreei, limpando a garganta e repeti a pergunta, dessa vez num tom mais alto, para que ele me pudesse me ouvir. Ele limpou a testa com as costas da mão, procurou a faca que estava caída entre duas poltronas, respirou fundo e respondeu com certa surpresa.

— Uau, eu não sabia disso! Digo, a forte repercussão. É muito difícil avaliar como uma história é recebida noutro pais – às vezes você tem respostas maravilhosas e às vezes falha miseravelmente. E, frequentemente, você não consegue nem traduzir as críticas e opiniões sobre seus livros! É terrivelmente frustrante. Você sabe que alguém lá fora leu sua história e não tem como receber um feedback. Eu realmente deveria ver o Brasil com meus próprios olhos. Tem sido uma fantasia há anos. Nunca pisei na América do Sul, o que é um tanto perturbador. Já tenho mais de 50 anos e estou perdendo um continente inteiro. Eu tive material publicado em vários países. Em sua maioria contos e coleções, que são mais baratas de traduzir. No entanto, alguns de meus romances estão disponíveis em italiano e húngaro. Não há perspectiva de ter algo publicado no Brasil, pelo menos que eu saiba. Mas se você tiver alguma editora local que esteja interessada, eu ficaria feliz de entrar em contato. Possuo os direitos de todos os meus romances e contos, e assim posso fazer acordos por mim mesmo – e sou barato, pode acreditar!

Jean-Claude fez sinal para a escadaria, deixando claro que pretendia subir. Lembrei-me das luzes que vi nas janelas superiores e gemi baixinho. Aquela casa escondia mistérios e eu não tinha nenhuma intenção de descobri-los.

— Você está atrás do quê, exatamente? – perguntei tentando ganhar tempo, antes que ele atingisse o primeiro degrau.

— Fantasmas. Os mesmos que assolam o seu país, o meu país, e os países onde a ficção científica é vista com preconceito.

Estreitei os olhos, confuso com a resposta. Alguns instantes depois minha expressão se aclarou. Considerei a empreitada, todavia, um desperdício de tempo.

— E sozinho você acha que resolve o problema?

— Talvez não. Mas estou tentando fazer alguma coisa. Os outros apenas debatem. Blá-blá-blá inútil. Além do que, não estou sozinho. Você está comigo.

Deixei-me tomar por uma coragem inaudita. Abandonei a covardia e me propus a enfrentar o desconhecido com Jean-Claude. Ele estava certo. Tínhamos que fazer alguma coisa. Ficarmos parados, só discutindo o assunto, não resolveria nada.

— Nós brasileiros conhecemos muito da Ficção Científica praticada nos países de língua inglesa e menos da escrita na Europa continental. Nos dê um breve panorama do mercado editorial francês atual para os livros de Ficção Científica e Fantasia – perguntei enquanto subíamos a escadaria.

— Bem a situação é bem contrastada. Durante a última década, o mercado francês de Ficção Científica tem sido devorado aos poucos – ou atacado – pela fantasia e bit-lit, como em todos os outros lugares. Isto não quer dizer que paramos de escrever e publicar Ficção Cientifica, mas tem sido cada vez mais difícil ser visível no meio das pilhas de livros sobre dragões, feiticeiros e deusas vestindo biquínis metálicos – Confesso que não me oponho aos biquínis. Então, os livros de ficção científica colonizaram o mercado para jovens adultos – muitos de nossos melhores novos autores, como Johan Heliot, Xavier Muméjean, Christophe Lambert, Jeanne-A Debats, Jérôme Noirez, Lionel Davoust, têm ido muito bem nesse sentido – e alguns livros conseguiram trilhar seu caminho até coleções mais populares.

Paramos no meio da escadaria. As luzes no salão se apagaram e ouvimos risadas contidas, que pareciam percorrer os tijolos da velha mansão. Jean-Claude continuou subindo.

— Você consegue vender material de pura ficção cientifica na França, — continuou, tentando disfarçar a preocupação e o medo — mas não deve mencionar em lugar algum que é FC. E é esse maldito fantasma que persigo agora, se é que me entende. No entanto, eu sinto que as coisas estão mudando, como Bob D. disse um bom tempo atrás. A FC está de volta para se vingar, com novas tropas e uma boa quantidade de novos autores que estão prontos para a batalha. Durante um dos mais importantes festivais dedicados a nossa literatura, os famosos Imaginales na maravilhosa cidade de Epinal – veja www.imaginales.fr – eu escutei uma discussão entre nossos principais editores de fantasia e FC – há coleções de FC na maioria das grandes editoras francesas como Bragelonne, Gallimard/Denoël, Laffont, Flammarion, Fleuve, Noir/Pocket, etc… – e todos estavam concordando que a fantasia e a bit-lit estavam em derrocada enquanto a FC estava um pouco melhor. Vamos adicionar a este fato termos uma excelente revista de ficção cientifica chamada “Bitfrost” – veja www.belial.fr/pages/bitfrost – publicada por uma editora pequena, mas muito profissional chamada “Le Belial”, outra revista de FC chamada Galaxies – veja http://monsite.orange.fr/galaxies-sf/ – diversas fanzines e vários fóruns dedicados a FC, sem mencionar as várias iniciativas da imprensa, por exemplo, ActuS http://www.editions-actusf.com, ou Griffe d’Encre, http://www.griffedencre.fr/. Nós inclusive temos um editor de “difíceis, mas realmente recompensadores” livros de FC que está vendendo muito bem e conseguindo prêmios. O nome é “La Volte” – veja www.lavolte.net – com autores que realmente devem ser lidos como Stéphane Beauverger, Jacques Barbéri ou Alain Damasio. Finalmente Retour sur l’horizon, uma grande antologia de ficção cientifica francesa, sob a direção de Serge Lehman, foi lançada no último Outubro por Denoël. Atraiu muita atenção da mídia e estamos aproveitando esta onda, no momento. Eu estou começando a me sentir otimista com a ficção cientifica na França. Eu não teria dito isto três anos atrás. E li alguns autores locais que são muito bons, incrivelmente bons.

Tentei riscar mais um palito de fósforo, dessa vez com sucesso. A pequena e tremeluzente chama revelou um interruptor a poucos centímetros das mãos ansiosas de Jean-Claude. Ele a ligou e um candelabro decadente lançou uma luz mortiça sobre o corredor largo e atapetado. Ignoramos a escuridão atrás de nós para nos concentrar nos aposentos que ladeavam o corredor. Ao final, uma vidraça suja de onde podíamos ver o céu carregado, riscado por relâmpagos com uma frequência impressionante.

— Mesmo sendo um dos autores mais premiados da FC francófona, aparentemente você não vive da literatura, mas sim de seu emprego como engenheiro aeronáutico. Assim, uma pergunta: Não dá para viver de literatura na França?

Jean-Claude se aproximou de uma das portas, encostou nela a orelha  tentando auscultar alguma coisa, enquanto fazia gestos com as mãos, solicitando um pouco de silencio. Logo depois se afastou dela sinalizando que lá nada havia.

— Eu não vivo de literatura mesmo, por duas razões: Não tenho tantas ideias, então não escrevo muito – 15 livros em 25 anos – e realmente gosto do meu trabalho como engenheiro. Mesmo que estivesse arrebentando no mercado literário, passaria algum tempo fazendo pesquisa cientifica porque amo isso. Se você adicionar a isso o fato de que sou casado, com duas filhas – 25 e 23 anos – que requerem uma vasta quantia de dinheiro para sustentarem seu desejo incontrolável por roupas novas, computadores e brinquedos, feriados caros e tudo mais, vai entender que minha situação em casa não me encoraja a me tornar um escritor pobre em tempo integral.

Voltou a se encostar a outra porta. Concentrou-se nos ruídos internos. Olhou para mim com um sorriso sinistro e apontou a maçaneta, agarrando-se com força à faca.

— Falando mais seriamente, é difícil viver de literatura na França por que o mercado é pequeno e nós somos numerosos. Dá para se viver de traduções, escrevendo para revistas, fazendo turnê pelas escolas – quando você é um escritor para adolescentes – mas requer muito trabalho. Claro, alguns autores estão escrevendo Best Sellers com muitas traduções internacionais – Bernard Werber ou Henri Loevenbruck no nosso gênero -, alguns estão vivendo disso – Pierre Bordage, Ayerdhal… – mas a maioria dos nossos autores tem um necessário trabalho diurno para por o pão na mesa.

Nem tentou abrir a porta. A força que fez quando jogou o ombro contra a madeira bastou para escancará-la. A luz do corredor foi o bastante para que pudéssemos ver o fantasma de manto negro sentado a uma poltrona, nas mãos um livro que lia ferozmente. Quedamo-nos estáticos por breves instantes enquanto identificávamos a leitura. Jean-Claude foi tomado por uma ira assombrosa e se lançou contra o vulto, agitando a faca temerariamente.

— É ficção científica! – ele berrava a plenos pulmões enquanto distribuía golpes a torto e a direito.

Vi o fantasma esvanecer num instante, desaparecendo da poltrona e voltando a aparecer ao lado de uma cama larga com dossel. Seus olhos lampejavam furiosos e suas mãos em garras moviam-se ameaçadoras na direção de Jean-Claude. Abandonei minha passividade e, num átimo, saltei na direção dele, agarrando-o com força. Fomos ambos para o chão.

A luta teria perdurado por longo tempo não fosse o fantasma um produto ectoplasmático. Embora a surpresa o tenha feito ficar bem preso pelo meu abraço, logo recuperou o controle das ações e desapareceu, deixando-me no chão, envolto em brumas. Jean-Claude, eufórico, exibia um pedaço do manto que havia conseguido cortar num dos golpes desferidos.

— Ele está fraquejando! E lê ficção científica sem se dar conta disso, o miserável. Esse é o pior tipo de fantasma do preconceito que existe.

— Orson Welles.

— 1984.

— Muitos não consideram…

— São tolos. Claro que são. Não admitem. Não lhes interessa admitir.

Atirei-me na poltrona que o fantasma ocupara. O livro estava no chão, ao lado dela. Peguei-o e o folheei.

— A existência de uma província de língua francesa como Quebec facilita a entrada de autores franceses no mercado americano ou Quebec, na verdade, existe fora deste mercado?

Jean-Claude sentou-se na beirada da cama. Observou orgulhoso o pedaço de pano nas mãos e aproveitou-se dele para limpar o suor que lhe porejava a fronte.

— Não há entrada de autores franceses no Mercado Americano. Ponto final. Eu sou o autor de FC mais publicado e traduzido nos EUA e isso se deve tão somente ao fato de eu ser rico o suficiente para pagar por minhas traduções. O mercado americano está estruturalmente fechado. Editores não leem línguas estrangeiras – alguns leem em espanhol, dizem – e pedem que você traduza seu próprio livro para inglês antes de enviá-lo. E não te pagam suficientemente bem para cobrir o preço da tradução. Temos enfrentado essa situação por décadas e não vejo nenhum sinal de melhora. Eu tive dois dos meus principais romances parcialmente traduzidos para o inglês – 150 páginas e um resumo – e recebi respostas de editores americanos dizendo: Ok, parece promissor; agora queremos ler o resto do trabalho antes de te enviar um contrato. O fato, porém, é que o resto do trabalho era muito caro para bancar sem um contrato. Situação bloqueada. Quebec está fora deste mercado. A única vantagem de Quebec é que você acha excelentes autores por lá. Minha tradutora Sheryl Curtis, é com certeza uma das melhores!

— Vamos sair em busca do desgraçado pelos outros aposentos? – perguntei, já começando a me divertir com a caçada.

— Claro que sim. Não podemos, em nenhum momento, deixar de combater esse miserável.

Tínhamos, então, que continuar a busca. Saímos do quarto e fomos para um ao lado. Jean-Claude não parecia mais disposto a auscultar as portas. Abriu-a num pontapé vigoroso, revelando uma pequena biblioteca cujas prateleiras estavam praticamente vazias.

O quarto seguinte estava repleto de baratas, aranhas e centopeias. Retorciam-se no chão como uma alcatifa compacta e semovente. Recuamos enojados, mas Jean-Claude logo se aproximou mais uma vez.

— Se tem um truque que esses miseráveis utilizam é esse. O de nos enganar com cenas revoltantes. Mas se esquecem de que utilizam contra nós argumentos que dominamos com maestria. Somos os artesãos de cenários semelhantes.

— Vai entrar aí?

— Se ele nos quer longe daqui é porque é aqui seu principal esconderijo.

Olhei para a massa nauseante de insetos e relutei.

— E se forem pestilentos? E se forem venenosos?

— A pestilência e o veneno estão no preconceito. Vamos, homem. Coragem!

Engoli em seco, senti minhas mãos tremerem. Admito que baratas me afligem, centopeias, não ligo para elas. Mas aranhas me apavoram. Antes que ele entrasse, lhe fiz a última pergunta.

— De acordo com sua experiência como editor (Bragelonne) e autor, você concorda que a ficção cientifica europeia como um todo tende a ser mais conservadora no uso de linguagem tradicional de FC (por exemplo, uma história precisa se utilizar de elementos que possam ser reconhecidos para ser considerada FC) do que escritores ingleses e americanos (que tentam de tempos em tempos subverter os fundamentos)?

Jean-Claude que parecia determinado a entrar parou diante da pergunta. Vi seus olhos soltarem chispas.

— Não, me desculpe, não concordo de jeito nenhum! Há um importante movimento literário na França, e provavelmente no resto da Europa, para explorar transgênero, ficção transgressiva como chamamos – veja o artigo Bibliothèque de l’Entre-Mondes por Francis Berthelot, um dos nossos melhores autores literários – que é equivalente ao slipstream no mercado Anglo-Saxão. Editores podem ser conservadores, e normalmente o são, mas para nós, autores, a ideia de subverter as regras e brincar com as fronteiras artificiais dos gêneros é extremamente atraente. Na coleção Retour sur l’horizon, que já mencionei, um terço dos textos foi considerado “realmente inesperado” pelos críticos. Afinal, muitos autores franceses são inspirados pelo surrealismo ou “noveau roman” que são parte da nosso cenário literário. Então não acho mesmo que nós franceses somos mais conservadores do que escritores americanos. Claro, o mercado americano é muito grande e você pode ter tanto uma forte linha de histórias militares espaciais e franquias de romances – Star Wars e afins -, como livros que são mais inesperados. Mas na França, todo ano mais ou menos, aparecem alguns livros que tentam empurrar os limites um pouco mais adiante. Até por que, é disso que se trata a ficção cientifica, ora essa!

Então se voltou para o quarto com o olhar decidido, a faca bem segura. Entrou pisoteando a massa cerrada de insetos, fazendo-os estalar e soltar uma gosma intensa e malcheirosa. Regurgitei minha última refeição e, tentando ignorar a náusea, entrei atrás dele.

O fantasma se espremia, acuado, num canto do quarto. Junto a ele um amontoado de livros que lhe servia de alicerce em suas crenças deturpadas. Jean-Claude espetou um deles com a faca e o jogou em minhas mãos. Matadouro 5 de Kurt Vonnegut.

— Ficção Científica!  – Bradou Jean-Claude, tomado por um frenesi.

Espetou outro, arremessando-o para meu lado. Quase o deixei escapar. Era Associação Judaica de Polícia de Michael Chabon.

— Ficção Científica! – Bradou mais uma vez Jean-Claude, mal se aguentando no regozijo.

O terceiro, espetado e arrancado de sob os braços do fantasma, que àquela hora gemia inconsolável, fendido pela dor e pelo ódio, era Laranja Mecânica de Anthony Burgess.

— Ficção Científica! – Arrebentou Jean-Claude num grito exultante de alegria. — Tudo Ficção Científica! Maldito! Você lê ficção científica e nem se dá conta disso! Não admite para si nem para os outros!

O fantasma ficava cada vez menor. Pensei, mesmo, que ele fosse se agigantar e nos atacar de forma violenta. Que fosse querer nos arrebentar, estraçalhando nossos corpos. Mas que nada! Encolhia-se aterrorizado, soltando gemidos angustiados de terror. Os livros ao seu lado viravam as folhas de forma intensa como se soprados por um furacão. Logo as folhas começaram a se soltar das capas e a voar pelo quarto, incendiando-se em seguida. Ficamos assistindo a isso, fascinados, mas logo nos demos conta de que não apenas as folhas e os livros reagiam de forma estranha, mas a casa inteira! O chão e as paredes iam se fendendo, estalando, soltando pedaços do reboco. Tudo tremia como se agitado por um tremor de terra.

Olhamos um para o outro, conscientes do perigo que estávamos correndo. Saímos do quarto aos trambolhões. O corredor atapetado ondulava sob nossos pés. Olhamos em direção da escadaria, mas os degraus se soltavam e batiam desvairados como se manipulados por algum pianista enlouquecido. Foram momentos de pânico até que entendemos que nossa única escapatória seria nos jogando pela grande vidraça que encerrava o corredor.

Não pensamos duas vezes. O teto e as paredes iam fazendo dobras, como se um imenso origami estivesse em curso. Corremos e nos lançamos, explodindo a vidraça em milhões de cacos. Fomos cair em uma poça de água, lodosa e malcheirosa. Rolamos enlameando-nos e depois, assustados, rastejamos até ficar longe o suficiente para não sermos tragados pela incrível transformação que a casa estava sofrendo.

Vimos quando ela foi se encolhendo, dobrando-se em estalos e pequenas explosões de fogo. Cada vez menor até que foi engolida pela terra, desaparecendo.

Estávamos sem fôlego, corações acelerados. Olhos vidrados no lugar onde houve poucos instantes atrás, uma mansão mal-assombrada. Levantamo-nos ainda cautelosos e nos dirigimos até o centro da imensa clareira recém-formada. Jean-Claude com a faca nas mãos.

— Não bebemos nada. Não houve bar – disse Jean-Claude.

— Às vezes, acontece – respondi.

— Nem havia mesmo clima para isso.

— Vencemos o fantasma do preconceito? – perguntei num fio de voz, mudando o assunto.

— A luta é constante. Essa foi apenas uma batalha.

— E com facas? Ora. Somos autores de ficção científica. Não podia ter vindo com algo mais apropriado? Talvez um desintegrador subatômico?

Jean-Claude olhou para mim e depois para o relógio quântico.

— Indústria brasileira, é? Se sim, está explicado o porquê dessa faca. Se fosse fabricado na França, maravilhosa França, eu estaria aqui com um magnífico, um estupendo, um maravilhoso…

Não deixei que ele terminasse. Antes que aquele discurso ufanista atingisse níveis intoleráveis e evitando a chuvarada que começava a cair, apertei o botão do relógio quântico tirando-nos dali.

***

Essa entrevista contou com a colaboração de Luis Filipe Silva, Delfin e Marcello Branco.

De Bar em Bar entrevista Antonio Luiz Costa

29/04/2010

Das vezes anteriores a transferência sempre se mostrou suave, quase imperceptível. Dessa vez me senti sendo arrastado por um longo corredor, escuro e frio. Foi uma experiência assombrosa. Quando dei por mim, estava de joelhos, ombros levemente recurvados, como se tivesse um fardo nas costas.

Ergui pouco a pouco a cabeça, tentando abarcar o local.

Fiquei uns segundos desnorteado, olhar voltado para cima, absorto na arquitetura estonteante do prédio. Teto abobadado, sustentado por colunas grossas.

Observei, boquiaberto, a estrutura gigantesca e admirável que me cercava. Vitrais e rosáceas belíssimas. À frente, a nave central se estendia por muitos metros, entremeada por compridos bancos de madeira com genuflexórios. Naves laterais exibiam imagens de santos católicos, grandes esculturas esculpidas com esmero. Ao final da nave central um grande, enorme, portal de madeira esculpida, trabalho rústico de incrível precisão. Nas paredes, nichos exibiam pequenas estatuetas. Entalhes rigorosos recortavam a pedra mostrando detalhes angelicais. A visão era incrível.

Estava numa igreja, disso não tinha a menor dúvida. E não estava só.

Sentado mais à frente, encolhido atrás do púlpito, pernas recolhidas, agarrado a uma bíblia de capa dura e letras douradas, estava o Antonio. Olhava para mim com um misto de alívio e preocupação. Gotas de suor porejavam sua fronte. Nunca o imaginei religioso. E disse isso.

— E não sou – respondeu-me ele, olhando para o livro grosso com algum desconforto – mas, pelo sim, pelo não.

Aproximei-me dele ainda de joelhos. Observava ao redor com atenção. Várias outras entrevistas já tinham me preparado para esperar sempre o pior. Ver o Antonio encolhido, cara de assustado e agarrado a uma Bíblia era no mínimo preocupante.

— Está acontecendo alguma coisa? – perguntei, certo de que a resposta seria afirmativa.

— Coisas estranhas, desde que cheguei. Eventos… Não saberia descrevê-los à luz da razão.

— Não é um bar – constatei – uma igreja. Bela. Creio que barroco mineiro.

Antonio olhou para mim com um franzir de cenho. Fez um esgar de desaprovação e, abanando a cabeça, negou minha avaliação.

— Esta, não. Esta é gótica. Gótica! Veja os detalhes. Veja a arquitetura. Veja as rosáceas e as pilastras. Veja a abóbada. Veja os ricos entalhes na pedra.

Pela primeira vez desde que chegara, vi o Antonio recuperar alguma cor. Apesar disso, não largava a Bíblia.

— Que eventos estranhos são esses que você mencionou?

— Coisas a Stephen King. Improbabilidades. Alucinações. Cansaço mental, esgotamento intelectual. Coisas… Estranhas. Ruídos, vozes, risadas, lamúrias, estalos.

— Igreja antiga. Estes lugares costumam pregar peças. O vento, talvez.

Ele se agarrou mais à Bíblia, negando veementemente com a cabeça.

— Improbabilidades. Prefiro essa definição. Parece-me mais… Racional, embora esteja bastante longe de qualquer demonstração de bom senso crer nisso.

— Tenho algumas perguntas. Se não se incomodar, poderemos começar.

— Claro. Para que isso acabe logo.

— Quando se fala em crítica literária dentro da literatura de gênero, logo se pensa em você. Mas como você lida com a crítica que é feita aos seus critérios e aos seus trabalhos?

Antonio olhou ao redor, atento, antes de responder.

— Quando a crítica ao meu trabalho é num contexto de comunidade de literatura ou grupo de discussão, quero discutir os critérios – suponho que essa é a função desses fóruns. Mas fora disso, tomo conhecimento e só. É direito de qualquer um opinar sobre minhas críticas e meus textos, enquanto não me fizerem ataques pessoais ou tentarem me censurar.

Ouvi alguns barulhos estranhos. Portas batendo, talvez. Tenho certeza de que alguém riu, não muito longe dali.

— É noite – disse o Antonio.

Olhei para os vitrais e vi alguma luz, mesmo que esmaecida, penetrando por eles.

— Não se iluda. Essa luz tem um foco distinto. Difere da luz solar na intensidade. Conflita na direção. Não é dia. É noite.

— Nem tardezinha?

— Qual é a segunda pergunta?

— Você está prestes a lançar a antologia Eclipse ao pôr do Sol e outros contos fantásticos. Será sua primeira obra profissional — se eu estiver enganado, me corrija. Quantos contos ele contém, em que período os escreveu e como você vê o atual cenário da literatura de gênero nacional?

Antonio abraçou-se à Bíblia, sentou-se melhor, desencostando-se do púlpito o suficiente para meter a mão dentro dele, na parte de baixo, atrás de uma cortina pregueada. Apalpou um pouco e trouxe de dentro uma garrafa de vinho. Depois tirou de lá um pote com hóstias. Voltou a se encostar.

— Para que a entrevista não fique longe do contexto que lhe foi criado. Descobri isso antes de você surgir e antes de… Antes das coisas começarem a acontecer.

Agradeci. A garrafa estava bem arrolhada. E a ideia de comer hóstias como se fossem amendoins não me agradou. Antonio não se deu por achado e começou a abri-la. Como não tinha um saca-rolhas, empurrou-a para dentro da garrafa com algum esforço. Bebeu um gole generoso, arrotou acanhado e disfarçadamente e voltou a beber mais um gole. Apanhou um punhado de hóstias e as enfiou na boca. Começou a responder enquanto as mastigava.

— Obra profissional? Só no sentido de receber uns trocados como direitos autorais, mas acho só se pode falar em profissionalização em literatura quando realmente se vive principalmente disso e essa perspectiva, para mim, é distante. Como suponho que também seja para quase todos os autores de ficção especulativa, com uma ou outra exceção. Até onde sei, o único profissional brasileiro nesse gênero, no momento, é o André Vianco.

Ele parou, engoliu a massa que tinha na boca e silenciou por alguns momentos. Os suficientes para ouvirmos, ambos, a gargalhada que ecoou pela nave principal. Espichamos os pescoços para espiar, mas não havia ninguém, lá.

— Esse livro terá seis contos de fantasia – continuou ele –, escritos de dezembro de 2007 a maio de 2009, incluindo A Nascente na Serra, que chegou a sair na Kaliopes e é representativo do teor da antologia. Também os outros contos têm sabor exótico. Não buscam se identificar com a linguagem e os problemas quotidianos do leitor médio — como, digamos, o A Casa ou Caminho do Poço das Lágrimas do Vianco —, mas convidá-lo a se aventurar em territórios estranhos, pôr-se em contato com gente que vive em outros tempos e outras terras e fala com outros sotaques, inclusive alguns grandes poetas e escritores. Nada de ônibus de excursão: é mochila nas costas e pé na estrada. Como turismo de aventura, tem suas dificuldades, mas também seus prazeres únicos, inclusive o de envolver-se sentimentalmente e sexualmente com os estranhos encontrados pelo caminho, o que acontece mais do que uma vez. Ou duas.

Ouvimos um crepitar. Madeira estalando, parecia. As paredes estremeceram. Podia jurar que vi uma das estátuas numa nave lateral, mover as mãos.

— Para a literatura de gênero em geral — ele continuou mais uma vez —, o Brasil me parece estar em um momento que se não chega a ser bom, ao menos é melhor do que qualquer outro que eu tenha vivido.  Primeiro, desenvolve-se há alguns anos a cultura da internet, que permitiu a fãs terem mais contato entre si e escritores amadores mostrarem seus trabalhos e receber alguma espécie de retorno de leitores que os incentive a produzir e, em alguns casos, a se aperfeiçoar. Segundo, surgiram novas tecnologias de impressão que permitem editar pequenas tiragens sem tornar proibitivo o preço do exemplar, o que torna o risco de publicar iniciantes, mais aceitável para pequenas editoras. Terceiro, mas não menos importante; vivemos um período de relativa estabilidade e prosperidade econômica, que incentiva essas pequenas apostas e investimentos, tanto por parte do editor quanto do autor e do leitor. É importante que também este tenha alguns trocados sobrando e um pouco de lazer e tranquilidade para ter prazer com leituras que não vão lhe proporcionar nada de imediatamente útil, em vez de estar preocupado apenas com conseguir emprego, com fazer o salário durar até o fim do mês ou com ler algo que o ajude a conseguir um aumento ou uma promoção.

Não era impressão. A estatua tinha mesmo se mexido. Apontei a improbabilidade para o Antonio que se aferrou na Bíblia, arregalando os olhos.

— Eu disse, não disse?

— Essa Igreja é mal assombrada – murmurei.

— Fantasmas não existem. O que estamos vendo são improbabilidades.

Eu ia apresentar a próxima pergunta, mas o Antonio fez sinal de que ainda não tinha terminado.

— O resultado é um mini-boom de edições e publicações. Há alguns anos, era relativamente fácil não só saber de tudo que foi publicado em ficção científica e fantasia durante o ano, como ler tudo, caso se quisesse. Agora já não é assim. Ao tentar levantar tudo que se publicou em 2010, a Ana Cristina contou, se não me engano, pouco menos de 80 livros impressos. Um a cada quatro ou cinco dias, em média, e sem contar as publicações de internet, não necessariamente menos importantes. Claro, são de qualidade muito variável. Algumas se comparam bem a produções profissionais do gênero do mercado anglo-saxônico, pelo menos segundo o crítico estadunidense Larry Nolen, outras são de se chorar de vergonha alheia ou de morrer de rir, conforme o momento e o temperamento do freguês. Por isso, em minha opinião, já passou o tempo de tentar incentivar todo mundo que tenta escrever alguma coisa, passar a mão na cabeça e fazer só críticas de cortesia. É preciso escolher o que é bom e o que não é, orientar os leitores sobre o que vale a pena comprar e ler, o que se pode esperar desta ou daquela vertente da ficção especulativa brasileira. A proliferação já é suficiente, é hora da seleção entrar em ação e dos menos aptos saírem de cena ou evoluírem. É verdade que mesmo dentro dos gêneros existe um nicho para uma literatura mais popular e outra mais elaborada, ou mesmo experimental; que escritores menos brilhantes, mas de consumo rápido, ajudam as editoras a sobreviver e editar coisas melhores e menos comerciais, que leva mais tempo para dar retorno. Mas também o texto mais voltado a leitores inexperientes e preguiçosos precisa melhorar tecnicamente. Noventa por cento de tudo pode ser lixo, mas não precisa ser lixo tóxico.

— Agora – Antonio fez novo sinal de que ia continuar – é bom lembrar que também enfrentamos um momento de incerteza, que é a transição do livro impresso para o livro eletrônico. Em minha opinião, é iminente, coisa de poucos anos, e irreversível. Quem acredita que o papel reinará para sempre está errado, mesmo que se chame Umberto Eco. O livro de papel sobreviverá apenas como um pequeno nicho de mercado, como o LP ao lado da música digital. Mesmo quem quiser possuir algumas obras de luxo e prestígio em papel, fará a maior parte das suas leituras – principalmente as mais descartáveis, e nisso se inclui a maior parte da literatura de gênero – em forma eletrônica. Mas ninguém pode ainda prever com segurança o que isso significará para o mercado e para o escritor, se criará uma riqueza cultural sem precedentes ou tornará ainda mais difícil a vida de quem sonha em ser escritor profissional. Estou do lado dos otimistas, mas é apenas um palpite.

Ele parou, tomou fôlego e outro generoso gole de vinho. Pude reparar em suas pupilas que dilatavam ligeiramente e em sua pele que perdia a palidez inicial, se tornando mais rosada. Ele ia, devagarzinho, adquirindo um humor melhor. Já até havia deixado a Bíblia de lado, embora não tão longe que não pudesse voltar a agarrá-la.

Ia fazer a terceira pergunta quando sentimos o chão tremer. Como se houvesse ocorrido um abalo sísmico. As paredes soltaram pequenas nuvens de caliça, as pilastras rangeram, o teto pareceu se mover quase imperceptivelmente, provocando pequeníssimas fissuras no reboco. Olhamo-nos preocupados; agarrei-me ao chão e ele ao púlpito, temerosos do pior. Mas assim como o abalo começou, terminou.

Não resisti ao apelo e tomei a garrafa de vinho das mãos do Antonio. Bebi primeiro devagar e depois em grandes goladas. O efeito foi quase imediato. Seguido ao calor que me aflorou à pele, meus nervos se acalmaram.

— Você é um critico e resenhista empedernido. Temido pelos autores. Para você, quais as virtudes de um escritor. Quais aquelas que ele não pode abrir mão, quais aquelas que você ainda faz vistas grossas dentro de um contexto maior. Para você, o que um escritor que se pretende bom precisa ter e fazer?

A resposta precisou esperar. Um súbito vento uivou dentro do recinto, nos surpreendendo. Vimos sombras se agitando além dos vitrais e percebemos que algumas paredes pareciam inchar como se ganhassem vida própria.

— Improbabilidades.

— Preferia dizer que são possibilidades.

— Se vemos, embora não cremos, são improbabilidades.

Apontei o relógio quântico para o Antônio e sorri meio sem jeito.

— Com esse aparato, qualquer improbabilidade se torna em intensa possibilidade.

O Antonio engoliu em seco, levou a mão de volta à Bíblia e a trouxe mais para perto dele.

— A importância de cada apoio do tripé varia conforme o texto, mas a maneira mais trivial de falhar é na linguagem. É preciso que a escrita seja legível. Não adianta anunciar que uma trilha vai passar por lugares interessantes se ela for intransitável. Não é só saber ortografia e regras gramaticais básicas: há várias outras maneiras de deixar um texto ilegível. Por exemplo, complicar a sintaxe de maneira a não se fazer entender. Encher o texto de adjetivos, advérbios e juízos de valor cansativos e óbvios. Tentar aparentar uma falsa cultura usando palavras que se acabou de garimpar do fundo do dicionário e nada têm a ver com a época ou o contexto. Alinhavar frases vagas e desconexas, sem sequência lógica e, nos piores casos, intercaladas por reticências. O uso criativo e original da linguagem é a marca do bom escritor, mas é preciso saber o que se está fazendo e por quê.

Fez uma pausa, bebeu um gole pequeno do vinho e enfiou mais um punhado de hóstias na boca.

— Para que o pé da realidade se sustente, é preciso que a ficção seja consistente e verossímil dentro de suas próprias regras e fiel aos aspectos mais importantes de como as coisas são e como as pessoas agem e pensam no mundo que se quer descrever. Num conto medieval sério, não se faz o lanceiro consultar o relógio de pulso, a rainha tomar sol de biquíni, marinheiros usarem coturnos, duques preencherem livros-caixa, plebeus chamarem o rei de “você” ou guerreiros temíveis se tratarem com piadinhas de mesa de RPG. No Uruguai, não pode haver pessoas escalando montanhas. Num romance policial, é preciso saber como a polícia funciona e se organiza, na teoria e na prática. Numa organização que se quer séria e secreta, os membros não são incentivados a passear pelas ruas de São Paulo com um Lincoln Continental vermelho.

Nessa hora ouvimos um uivo. E não provocado pelo vento que já havia parado. As pilastras se agitaram e soltaram pedaços de pedra que se espatifavam no chão. As estátuas religiosas estalaram e se moveram. O grande portal de entrada foi abalado por vigorosa sacudidela que quase a arrancou das poderosas dobradiças. Das paredes surgiram concavidades extensas. De suas formas inicialmente inexatas se formaram mãos e cabeças, como se corpos tentassem penetrar no salão vencendo a resistência dos tijolos e como se a grossa parede fosse feita de mero tecido.

A garrafa de vinho foi de uma mão para outra, seguidas vezes. O último gole, o derradeiro, que secou a garrafa, coube ao Antonio. Uma pequena baba rosada escorreu de sua boca. Ele a recolheu com a língua. Não ia desperdiçar nem a menor quantidade daquele excelente vinho.

— É o inferno, isso aqui – murmurou ele.

Apalpei o relógio só para constatar que o botão estava travado. O que quer que tivéssemos que enfrentar, o faríamos inevitavelmente.

— Pode-se inventar um universo imaginário – recomeçou o Antonio –, mas criar um mundo secundário interessante e com profundidade, que não pareça uma colagem de clichês, dá ainda mais trabalho do que uma pesquisa histórica e geográfica e não dispensa o autor de ser coerente e convincente. Os processos da realidade alternativa podem não ser os da nossa, mas precisam imitá-la no sentido aristotélico da palavra: parecer naturais, não forçados. Há fãs e autores que acham que, quando se trata de fantasia ou ficção científica, o leitor tem a obrigação de engolir qualquer coisa. Nada disso. Quanto mas alto se voa na fantasia, mais cuidado é preciso para não deixar o leitor cair. Basta uma solução ilógica, uma atitude absurda, um sentimento piegas para estragar o caldo. Enredos realistas são mais robustos: se o leitor sente que a maior parte da história está de acordo com suas expectativas da realidade, perdoa mais facilmente pequenas inconsistências.

O que temíamos finalmente aconteceu. Depois de várias sacudidas, o grande portão de entrada cedeu. Abriu-se num rangido longo e assustador. Uma onda de energia desconhecida varreu os bancos de madeira, lançando-os para os lados como se fossem de papel.

Vimos sombras, formas difusas recortadas por uma luz avermelhada que brotava de trás deles, vinda de ponto inexato. Começaram a avançar em passos aparentemente trôpegos. Só tivemos uma idéia mais exata do que vinha em nossa direção, quando os primeiros seres adentraram a nave principal.

Levantamo-nos e recuamos alguns passos.

Eram humanóides recurvados, andrajosos, retorcidos, purulentos e leprosos. Vinham como uma onda. Olhares fixos no Antonio. Poucos foram os que me fitaram.

— Quanto ao “pé” da imaginação – Antonio se agarrou mais firmemente à Bíblia e também, nesse momento, à garrafa vazia de vinho –, uma ficção banal não merece ser lida, mesmo que seja fluente e pareça verossímil. É preciso mergulhar além da superfície do senso comum e surpreender o leitor com algo interessante ou intrigante, algo que ele não sabia; algo que o faça pensar. No mínimo, algo que ele não sabia que queria ler. Pode-se escrever sobre o quotidiano de pontos de vista inusitados, ou refletir sobre os segredos das ações e motivos de pessoas comuns, como faz a boa literatura realista. Ou se pode criar situações fantásticas, mostrar como as coisas poderiam ser diferentes e criar metáforas provocantes, como faz a literatura especulativa. O erro mais comum dos que tentam o fantástico é banalizá-lo com situações gastas e personagens estereotipados. Ou, pior, com posturas e ambições triviais e rotineiras, geralmente as da juventude urbana de classe média, sem ter nada a questionar, nada a dizer de novo, nada além da superfície e das aparências. É muito difícil sugerir fórmulas, mas é fácil perceber quando se fracassou nesse aspecto, o mais importante para entusiasmar o leitor e criar um clássico – ou mesmo um best-seller.

Ele pareceu terminar. Sua voz já estava meio trêmula. Seu olhar em nenhum momento abandonou o avanço da horda. Foi com um desconforto enorme que nós dois nos demos conta de um fato perturbador. Liderando o grupamento de desvalidos horrorosos vinha um ser que, embora também exibisse a decadência dos demais, patenteava de maneira bastante flagrante uma altivez que os outros não possuíam. Seu rosto era familiar, embora as maçãs fossem proeminentes, dentes e orelhas pontiagudas, nariz largo, olhos rutilantes, mãos com unhas em garra, corpo encurvado para frente, pernas peludas semi cobertas por calças rasgadas. Um misto de lobisomem com vampiro. E se aproximava da gente num ritmo mais rápido, mais decidido, mais feroz.

O líder fez sinal à turba e eles pararam. Moviam-se no mesmo lugar como minhocas nervosas, chacoalhando o corpo sem parar. Pedaços de carne e pele iam sendo derrubados aqui e ali.

— Viemos buscá-lo, seu miserável que não respeita nosso trabalho! Daremos-lhe uma lição que jamais esquecerá.

Recuamos. Não havia muito que fazer. Não tínhamos escapatória às nossas costas, embora tivéssemos observado duas torres laterais que deveriam levar aos campanários. Mas de lá, iríamos para onde? Saltaríamos no vazio? Apertei o botão do relógio. Tecnicamente a entrevista estava encerrada. Deveria ter funcionado, mas não funcionou.

— Sou um crítico. Esse é meu trabalho. Deveriam agradecer.

Admirei a coragem do homem, mesmo sabendo que boa parte dela provinha do vinho que rebuliçava em suas veias. Veio da multidão um riso uniforme e pestilento que encheu o ar dum cheiro podre de morte. A um sinal do líder, os cadáveres ambulantes reiniciaram sua caminhada.

Olhamo-nos um ao outro, engolimos em seco. Antonio instigou-me a apertar o botão, coisa que já vinha fazendo repetidas vezes, sem nenhum sucesso.

Foi quando brotou da abóbada uma luz vermelha intensa. Ela abriu um buraco em meio aos andrajosos, fazendo crepitar alguns corpos e desintegrando esses num piscar de olhos. Os demais de afastaram, aterrorizados.

Era Lilith, em pessoa, que surgia. Deixamo-nos ficar boquiabertos, incertos se ela vinha em nosso auxílio ou também para nos trucidar. Olhou para o Antonio com uma expressão facínora e lhe apontou um dedo. Não chegou a lhe dizer nada, mesmo que tivesse tentado. Outra luz, branca dessa vez e intensa como a primeira, surgiu da abóbada fazendo-a tombar morta no meio do salão.

Era Jesus Cristo. Recobria-o uma luz dourada. Os andrajosos lamuriaram-se, encolhendo os corpos em total submissão. Quando achávamos que um final totalmente Deus ex-machina tinha se formado em nosso auxílio, nova luz surgiu, lançando Jesus mortalmente ferido ao chão.

Sobre ele, regozijante, estava Metatron. Uma lança cristalina e ensangüentada nas mãos. Olhou-nos a todos com indisfarçável desdém. Esse não viera nem para salvar, nem para destruir. Aparentemente só exibia sua inegável superioridade e isso o exultava. Foi quando outra luz, essa mais intensa do que todas as anteriores juntas, surgiu.

Em meio à névoa que se formou e ao grito aterrorizado de Metraton, que teve a cabeça fendida por um tapaço gigantesco, surgiu o imponderável.

Ana Cristina Rodrigues.

Ela lançou um olhar confuso para todos os lados. Quando nos reconheceu, perplexos e atônitos, atrás do púlpito, arregalou os olhos e bradou:

— Ah, não! Vocês não vão me fazer pagar esse mico. Ah, não…

Antes que a situação se tornasse ainda mais bizarra do que estava, e sentindo que finalmente o botão do relógio destravara, eu o apertei.

De Bar em Bar entrevista Luiz Bras.

22/04/2010

A rua estava uma confusão. Viaturas espalhadas pelos quatro cantos, multidão espremida contra os cordões de isolamento. Rádios soltando chiados de estática enquanto guardas solícitos respondiam a chamados ou faziam solicitações. Um monte de focas disputavam cada informação possível, espocando os flashes ao menor movimento policial. Observei o prédio diante de mim. Dezesseis andares, fachada envelhecida, pintura rachada. Janelas de madeira pintadas de verde. Uma combinação horrorosa.

Céu fuliginoso, com nuvens carrancudas.

Estava vestindo um sobretudo cinza, longo. Chapéu de abas curtas, sapato preto precisando uma boa engraxada. Sentia-me o próprio Al Capone. Ao meu lado, um sujeito com cabelo cortado rente, óculos grossos de grau, rádio na mão, ansioso, quase pululando ao meu redor.

Observei o cenário tentando me situar dentro dele. Puxei pela memória.

— Está lá dentro faz quarenta minutos, Tenente – disse o escovinha – o zelador deu o alarme. Foi direto para o apartamento.

— Quem? – perguntei confuso.

— Luiz Bras – disse o sujeito, olhando para mim com certa perplexidade.

Então comecei a entender algumas coisas. Estava no Bar do Joe comendo umas rosquinhas e bebendo café quando o rádio da viatura começou a tossir. Alguém ligou para a polícia delatando a presença de um assassino procurado. Pensei em não atender, mas a chefatura chamou por mim diretamente devido ao meu especial talento em negociações. Engoli a rosquinha de qualquer jeito e agora estava ali, diante daquele prédio decadente.

Ultimamente as coisas estavam mesmo tranqüilas na cidade. Pequenos delitos e contravenções. Assassinos eram raros naquelas paragens. Serviam para dar um pouco mais de sabor ao dia a dia.

— Temos alguns homens posicionados no prédio em frente, ali e ali – apontou o sujeito cujo nome era Norton – são franco-atiradores. Acompanhei o olhar dele até lá em cima e vi cabecinhas se movendo além dos parapeitos.

— Alguns homens estão diante do apartamento, apenas aguardando suas ordens.

Apalpei a algibeira. A arma estava lá.

— Não faça nada. Vou lá em cima tentar chamar o homem à razão.

Norton deu um sorrisinho.

— Gosto quando você faz isso. É divertido – ele disse, empurrando os óculos mais para cima no nariz.

— Onde está a diversão em negociar rendições?

— Você é um miserável… Mata todos, sempre.

— Assassinos não merecem viver, rapaz.

Passei por baixo do cordão de isolamento, retirando um lenço do bolso e limpando um pouco do suor do rosto. Olhei para o relógio e levei um susto com o maquinário que tinha no pulso. Não me lembrava de ter um relógio tão estiloso e com tantos botões.

Alguns policiais se afastaram diante da minha chegada. Olharam para mim com respeito. Eu era o matador de foragidos. Uma fama não muito popular com os políticos, mas bastante apreciada pelo populacho. Tirei o revólver do bolso e chequei o tambor. Com sorte não precisaria mais do que duas balas de todas as seis disponíveis.

Enquanto esperava o elevador fui rememorando as informações que tinha do bandido… Luiz Bras, escritor premiado, organizador de antologias, crítico literário. Tinha um livro dele em casa. Babel Hotel. Presente de uma ex-namorada. Esses escritores pensam que são os donos do mundo. Assassino de Nelson de Oliveira. Outro escritor. Que se matem, todos. Assim ficamos livres dessas histórias idiotas que inventam. Foragido há dias, temeu-se que tivesse fugido do país. Voltou para casa, num movimento idiota e inesperado. Mas se não fosse o zelador denunciá-lo, aquele seria o último lugar em que o procurariam.

O elevador chegou ao nono andar e abriu a porta. Dei de cara com três policiais bonachões. Dois deles tão gordos que poderiam pular pela janela. Quicariam no chão sem ferimentos.

— Caiam fora – disse num murmúrio mal humorado. Era hora de começar a vestir o disfarce de policial malvado. Eles deram de ombros, recolheram suas coisas e desceram com o elevador, levando aquela caixa barulhenta para longe dali.

Observei a porta do apartamento noventa e oito. Folha oca de madeira. Não resistiria a um chute com meia força. Encostei-me à parede ao lado dela. Retirei do bolso um maço de cigarros e fiz uma careta enquanto retirava um e o acendia. Dei uma tragada funda e soltei a fumaça devagar, vendo-a esvanecer, rapidamente desfeita por uma corrente de ar que soprava pelo vão livre da escadaria. Pigarreei e dei duas batidinhas na porta, a guisa de boa educação. Não ia derrubá-la sem antes lembrar ao fugitivo de que o negociador havia chegado.

— Luiz Bras! – chamei. Não tive nenhuma resposta.

— Escritor, não é? Deve ser fascinante… – engoli em seco. Estava prestes a afirmar uma coisa que não sentia nem acreditava. Mas era parte do ofício mentir bem –… Construir mundos e dirigi-los como um Deus. Isso deve fazê-lo se sentir bem.

O danado manteve o silêncio. Cocei o bigode que não tinha e mordi o lábio superior. Voltei a aproximar a mão esquerda da porta para mais duas batidinhas rápidas. Ia irritá-lo antes de dar um fim àquela lengalenga. Um disparo me conteve. Empalideci. Um buraco na porta, centímetros da minha mão. Recolhi-a, estremecendo. Tremendo filho da puta, esse Luis Braz.

— Quer complicar as coisas, hein, seu merda? – saquei meu revólver, agachei devagar me colocando de cócoras. Apontei a arma de baixo para cima num ângulo aproximado de sete ou oito graus e puxei o gatilho duas vezes. Puto da vida por gastar mais balas do que havia pretendido inicialmente. Ouvi um estalido, cacos se espalhando e o homem praguejar.

— Era o vaso de vovó – falou o homem, saindo finalmente de seu mutismo – e vovó amava esse vaso!

Bizarro. Trocávamos tiros e o homem lá dentro se preocupava com o vaso da vovó.

— Que tal sair daí com as mãos para cima? – instiguei-o a se entregar. Estava pensando no Bar do Joe e em mais algumas rosquinhas.

— E por quê? O que fiz?

Era normal que assassinos não se achassem criminosos. Que considerassem seus crimes atos de benevolência, realizados em prol da humanidade.

— Matou Nelson de Oliveira – Sempre me senti um idiota em reafirmar aos criminosos os seus crimes. Como crianças que a gente precisa ficar lembrando de suas peraltices.

— Eu não o matei. Não nesse sentido. Pra quê a polícia? Pra que tudo isso? Que porra de loucura é essa toda?

Estava na hora de trocar de disfarce. Tirar o de policial malvado e colocar o de policial psicólogo. O cara não se achava um assassino. O que eu disse sobre eles não se acharem criminosos? Bingo!

— Quem foi Nelson de Oliveira? Quem é Luiz Bras? – perguntei enquanto mastigava carinhosamente a bituca de cigarro e coçava atrás da orelha com o cano do revólver.

— Nelson de Oliveira foi o cara dos contos de humor negro e dos romances nem um pouco realistas, com longos trechos delirantes, em que o estranho e o nonsense dão as cartas. Luiz Bras é o cara que leu apaixonadamente Kafka, Cortázar e García Márquez, mas jamais perdeu o tesão por Ray Bradbury, Asimov e Philip K. Dick, autores que ele leu antes de ler todos os outros, na adolescência, e continua relendo até hoje. O primeiro publicou, de 1997 a 2009, catorze livros de ficção mainstream. O segundo publicou até agora dezenove livros para jovens leitores, a maioria escrita a quatro mãos com Tereza Yamashita, e vai lançar ainda este ano sua primeira coletânea de contos para o público adulto, intitulada Paraíso líquido. Aquele abandonou a prosa de ficção em 2009 pra se dedicar exclusivamente à teoria literária, à organização de antologias temáticas e às oficinas de criação literária. Este abraçou pra valer a ficção científica e a fantasia, gêneros que pretende exercitar fervorosamente até que a morte o separe dos livros.

Fiquei embasbacado com a verborragia. O homem resolveu falar. Ri intimamente com a crença de que o cara ainda acreditava que iria lançar alguma coisa esse ano. Mas acertou em cheio quando vaticinou a própria morte o separando dos livros. Voltei a olhar para o relógio e imaginei quantos minutos ainda faltavam para dar um tiro na cara do sujeito.

— Braulio Tavares diz que opor o realismo à FC é como opor o jazz aos Beatles. Para ele, não faz sentido. Não se excluem, se completam mutuamente. Essa é uma opinião divergente do que se escuta e lê por aí. Você mesmo apregoa a necessidade do realismo se render à riqueza do gênero e buscar nele fontes de inspiração. São pensamentos conflitantes ou você vê convergência de opiniões?

Terminei a pergunta e senti o ar me faltando. Mas que merda de pergunta era essa? De onde eu havia tirado essa questão?

— É o Tibor que está aí fora? – perguntou o Luiz – é você, não é? Que porra é essa? Que está acontecendo? Porque a polícia está atrás de mim? Era pra ser uma entrevista, não uma caçada!

Tibor? Tibor? Quem é esse Tibor?

— Responda logo, carajo! – agarrei-me à parede, tonto. Joguei a bituca pelo vão livre da escadaria. Alguma coisa estava muito errada e eu não sabia o quê.

— Concordo com o Braulio, não faz sentido algum opor Thelonious Monk aos Beatles, ou John Coltrane ao Pink Floyd. Esse tipo de antagonismo é tolo, porque empobrece o indivíduo, que acaba perdendo uma boa oportunidade de conhecer esferas poéticas diferentes. Mas no mundo em que eu vivo, habitado praticamente por autores, professores e leitores de alta literatura, é isso o que acontece: a oposição burra. Nesse meu mundinho, tudo o que não é Clarice Lispector ou Guimarães Rosa não tem valor. A questão é que eu vejo o mesmíssimo valor também no Dick e no Bradbury. E não suporto mais os mesmos velhos temas sendo tratados e retratados infinitamente pelo mainstream: a periferia das grandes cidades, as crises conjugais, a juventude transviada, o artista e seu umbigo, a boçalidade da classe média etc. Digo que esses escritores precisam renovar o estoque de assuntos. E voltar a se preocupar tanto com o enredo, tido como elemento menos importante em um conto ou romance contemporâneos, quanto com a bendita forma literária.

Agachei-me até ficar de cócoras. Sentia um formigamento insistente na ponta dos dedos e um tremor estranho na língua. Um buraco no estômago, também. Estava nervoso e não sabia por quê. Assuntos fervilhavam na minha cabeça, perguntas que eu precisava fazer para aquele cara. Mas eu não entendia de onde as questões surgiam.

— Nelson de Oliveira bebeu em fontes da FC muito antes de surgir o Luiz Bras. A antropofagia que fez eclipsar o Nelson, certamente trabalhou com a absorção dessa cornucópia de conhecimentos anteriores. Luiz Bras é hoje um autor mais preparado territorialmente (dentro das áreas do gênero e do mainstream) que Nelson de Oliveira? Luiz Bras veio definitivamente pra ficar?

Fiz a pergunta e deixei-me cair sentado no corredor. O suor começava o porejar em minha fronte. Olhei o relógio e o estranhei ainda mais.

— É o Tibor, né? – perguntou Luiz Bras, insistente.

Levei as mãos à cabeça, confuso.

— Essa é uma realidade alterada, cara. Lembra? Seu relógio quântico. Esse que deve estar no seu pulso. É ele que cria essas distorções. Você não é um policial. Eu não sou um assassino. Sou só um escritor tentando responder a uma entrevista. Você é um entrevistador, mas também escritor.

Ofeguei, nessa hora. Eu, escritor? O babaca estava tentando me confundir.

— Há dois anos Nelson sentiu que já não tinha mais nada a dizer, pelo menos não na forma de um conto ou de um romance – começou Luiz Bras – Ele percebeu que o ciclo iniciado com seu primeiro livro, Naquela época tínhamos um gato, havia se encerrado com o último, Babel Babilônia. Foi quando eu assumi pra valer o controle de nossa mente, ao menos no campo ficcional. Não posso garantir que hoje eu seja um autor mais preparado territorialmente, mas estou convencido de que sou um autor mais maduro, melhor paramentado para o combate. Já não caio nas mesmas armadilhas em que caía na década de 90. Perdi todas as ilusões românticas relacionadas ao mundo literário, posso até dizer que troquei a visão religiosa pela darwinista. Hoje eu vejo claramente todos os nuances da luta de classes literárias que sacode o mercado editorial. Mas estou falando de um darwinismo não-determinístico, se isso é possível. Em comunhão com os filósofos, os matemáticos e os físicos de hoje, acredito que o sucesso é governado por uma conspiração de fatores pequenos e aleatórios, isto é, pelo acaso, pela sorte. Talento e determinação são e serão sempre necessários, é claro. Mas sem sorte você não atravessa a rua.

Levantei-me não sem pouca dificuldade. Estava apalermado com a ousadia do desgraçado que tentava me perturbar, acusando-me de ser quem não era. Mas não pude evitar olhar para o relógio uma enésima vez. Era estranho e não me lembrava dele. Onde o tinha comprado? Precisava virar o jogo, precisava fazê-lo confessar. Precisava ser hábil.

— O recurso de um heterônomo, além de evidenciar a supressão de uma de suas personalidades, denota uma espécie de “assassinato”. Você está preparado para viver com sentimentos de culpa? Ou isso não o preocupa de jeito nenhum?

Luiz Bras se manteve quieto alguns instantes. Senti que a cabeça dele devia estar fervilhando com a questão. A resposta seria determinante para minha ação seguinte.

— Concordo com a metáfora do assassinato. Quando empurrei o ficcionista Nelson de Oliveira da borda do abismo, a sensação de liberdade foi tão grande que na hora eu não pensei na culpa. Eu precisava de mais espaço e ele estava atrapalhando, um dos dois tinha que desaparecer. Sobrou o outro, o Nelson ensaísta e professor de literatura. Talvez por isso mesmo, pelo fato de ter sido meio assassinato, o sentimento de culpa pelo crime ainda não tenha aparecido.

Bingo! Ele havia confessado.

Não perdi mais tempo. As palavras ainda ressoavam quando me afastei meio passo da porta e acertei nele um violento coice. Arma nãos mãos me atirei para dentro. Cambaleei desnorteado até trombar com uma poltrona. Luiz Bras estava atrás dela, agachado, pernas flexionadas, cabeça baixa, quase entre os joelhos. Uma posição típica de alguém com evidentes sentimentos de culpa. Caí rolando sobre ele, tentei firmar o revólver na mão, mas ela estava escorregadia. Agarramo-nos pelas lapelas, abraçamo-nos furiosamente e começamos a rolar pelo chão. Eu tentava virar o punho de forma a apontar a arma para a cabeça dele. Ele tentava virar o próprio, aparentemente com a mesma intenção. Grunhíamos, resfolegávamos, sibilávamos um contra o outro.

— Escritor de merda. Assassino miserável. Vou te matar!

— Realidade alterada… Realidade alterada… O relógio… O botão.

Minha arma disparou. A bala resvalou no chão, ricocheteou na parede atrás de nós e atravessou o tubo da televisão, provocando um rápido estrondo.

— Um escritor a menos no mundo! Você vai ver…

— O botão, merda! O botão!

Consegui virar a arma do jeito que eu queria. Seria o quarto disparo. Dois a mais que o planificado. Mas esse seria mortal e definitivo. Apertei o gatilho ao mesmo tempo em que ele desvencilhou uma das mãos e agarrou meu relógio, apertando os botões de maneira desencontrada.

Escutei a explosão do disparo enquanto me sentia sugado como que por um aspirador de pó gigante. Girei e rodopiei até perder os sentidos.

Fui despertar tempos depois, em casa. Estava perturbado, com as idéias atrapalhadas. Mas me lembrei pouco a pouco do acontecido. Fiquei aterrorizado quando me dei conta de que a alteração de realidade havia reprogramado minha própria identidade. Soube que o Luiz Bras estava bem. Sem ferimentos, fora o evidente trauma. As entrevistas estão cada vez mais perigosas. Considero a possibilidade de cancelar as próximas.

De Bar em Bar anuncia futuros entrevistados.

20/04/2010

Não existe melhor maneira de tentar agarrar as rédeas da nossa vida senão estabelecendo cronogramas de trabalho. E tentando obedecê-los, claro. Assim, deixo desde já assinalado que as próximas três entrevistas do De Bar em Bar já tem vítimas e datas para ocorrer.

• Dia 22 de abril – Luiz Bras
• Dia 29 de abril – Antonio Luiz M.C. da Costa
• Dia 06 de maio – Gerson Lodi-Ribeiro

Depois destes pobres coitados, já tenho outros na mira. O legal dessas entrevistas é que raramente tenho negativas. Meus entrevistados querem correr os riscos, querem arriscar o pescoço. E querem fazer parte desse projeto que já ganha leitores e aplausos de muito longe do fandom.

Ah… já tive recusas. Entendo o silêncio após um convite, como uma recusa. Fico perplexo com quem pula fora. Demonstra uma covardia que vai muito além do compreensível. E uma pobreza de espírito que dói.

Eu não perco nada.
O De Bar em Bar não perde nada.
Perde quem ignora o convite.

Não deixem de ler a entrevista dessa próxima quinta-feira. Vai ser sen-sa-ci-o-nal.

De Bar em Bar entrevista Braulio Tavares.

08/04/2010

Programara exatamente isso. Ou quase isso. Uma rua, uma cidade, multidão. Carros, semáforos, sinais de trânsito. Mas havia alguma coisa errada, muito errada. Apalpei o relógio quântico, surpreso por estar num cenário bastante próximo do que planejara. Não queria mais matas nem desertos. Nem monstros nem alienígenas. Não dessa vez. Eu queria uma cidade e estava em uma. Queria agitação, movimento, caos urbano… Estava tudo ali.

Mas… O céu estava cinza. As pessoas vestiam-se com calças, camisas, vestidos, sobretudos, todos cinza. Os semblantes eram acinzentados. Expressões tristes, desenxabidas, olhares esmaecidos. Passavam por mim, num vai e vêm, molengos, ombros caídos, costas curvadas. Os carros, todos alternando escalas de cor que iam do preto ao cinza claro. Circulavam lentamente, obedecendo ao fluxo. Os semáforos exibiam três cores distintas: cinza escuro, cinza claro e cinza mais claro ainda.

Então me observei melhor. Vestia-me do mesmo jeito. Calça e camiseta cinza. Tênis cinza. Meias cinza. A pele, A pele! Era levemente acinzentada. Arregalei os olhos, assustado. Observei o relógio quântico. A pulseira era cinza. A caixa era cinza. Os mostradores, cinza.

Então fiquei triste. Tão triste e de forma tão incontida que curvei os ombros, abaixei o olhar e caminhei molengo, até parar diante do bar. Um trailer largo e espaçoso. Todo pintado de cinza, com um luminoso desligado, mas com letras cinza grandes, destacadas: Bar do Mané.

Soltei um sorriso triste. Estava satisfeito, mas era uma satisfação macambúzia. Entrei, olhei em busca do Braulio, mas ainda não estava lá. Escolhi um lugar, sentei-me próximo da janela, observando tristemente o movimento da rua.

Um garçom com grandes barbelas sob os olhos se aproximou. Pedi uma cerveja, mas a vontade era de tomar sicuta. Nunca me senti tão mal, tão deprimido e atormentado. Ele se afastou, arrastando os pés.

Encostei a testa na mesa. Senti pequenas lágrimas assomarem. Mas as contive. Não sem grande esforço. Fiquei assim até o garçom me trazer a cerveja e até escutar mais alguém se aproximar e se sentar diante de mim. Ergui a cabeça o suficiente para reconhecê-lo.

— Oi, Braulio.

— Oi – ele me respondeu, melancólico. Olhar igualmente triste. Expressão derrotada.

— Fico feliz em vê-lo – eu disse, sem, contudo, expressar uma só gota de felicidade.

— Também estou feliz por essa entrevista – nem o mais crédulo dos crédulos acreditaria nisso. A tristeza estava tão estampada em seu rosto que nem a máscara da morte seria mais perturbadora.

— Essa cidade é… Tão… Tão…

— Contagiante.

— Sim. Estranha e contagiante.

— Estava nos planos? – Braulio parecia perplexo.

— Claro que não. Seria normal se estivesse? – voltei a apoiar a cabeça sobre a mesa. Soltei um suspiro longo e angustiado.

— Esse líquido cinza é…

— Cerveja, creio. Não experimentei, ainda. Peça um para você.

— Obrigado. Acho melhor, não. Não sei que estranho efeito o álcool poderia me provocar num cenário deprimente como esse.

— Você é, hoje, uma referência nacional em ficção especulativa. Antes de lançar Espinha Dorsal da Memória, qual era sua relação com o gênero e com o fandom? – perguntei, erguendo o rosto com esforço.

Braulio se manteve quieto por longos momentos, olhando para mim com tanta tristeza que quase me pus a chorar copiosamente. Seu rosto exprimia um desalento enorme.

— Suponho que seja a primeira pergunta – questionou ele, enfim.

— Sim – respondi em meio a soluços.

— Leio FC desde garoto e muitas vezes tive a sensação de que era a única pessoa que gostava daquilo.  Tive meia dúzia de amigos que compartilharam esse gosto antes que, por volta de 1986, eu conhecesse o pessoal do CLFC através de Roberto Nascimento.  Somente então comecei a escrever contos de FC a sério, mas nesse tempo eu já era um autor publicado. Tinha lançado vários livros de poesia, e publicado muitos contos – fantásticos ou mainstream – em revistas e suplementos literários. E já tinha publicado, em forma de cordel, um dos meus livros mais bem sucedidos comercialmente até hoje, A Pedra do Meio Dia ou Artur e Isadora, que é de 1979.

Braulio parou por alguns instantes para esfregar os olhos, recolhendo uma leve umidade que ia se insinuando. Engoliu em seco algumas vezes, franziu o cenho, respirou fundo e continuou.

— O CLFC me deu o que eu sempre precisei: alguém com quem conversar sobre a FC, trocar idéias, trocar livros, indicar autores, pescar informações.  Sem minha filiação ao CLFC e sem a chance de publicar no Somnium eu não teria escrito os contos da Espinha Dorsal da Memória, que ainda considero juntamente com Mundo Fantasmo, que é uma espécie de expansão dele, meu melhor livro.

Parou de novo, enfiou uma das mãos no bolso em busca de um lenço. Tirou de lá uma cambraia. Junto veio um pedaço de papel.

— Por outro lado, nunca tive o propósito de me especializar em FC, de “ser um escritor de FC e ponto final”.  Ainda hoje, por exemplo, lamento muito nunca ter escrito contos policiais, tarefa para a qual me acho igualmente bem preparado.  Tenho vontade de – e idéias para – escrever muitos livros mainstream, além de poesia, teatro, terror…  Não quero me prender a um tipo de literatura, por mais que goste dele.

Passou o lenço nos olhos marejados, assoou o nariz. Seu olhar buscou o exterior. As ruas movimentadas, sombras de gente se movendo nas calçadas. Suas mãos entrelaçaram-se e apertaram-se de tal forma que os nós dos dedos embranqueceram. Ergueu a cabeça um pouquinho tentando demonstrar controle de si mesmo, mas logo a tombou, vencido pela prostração.

— Mantém-se acalorada uma discussão sobre literatura realista e literatura de gênero; onde cada uma pode beber na fonte da outra. Qual é a sua visão sobre a questão?

Braulio largou o lenço sobre a mesa. Pegou o pedaço de papel que saíra junto com ele quando o tirou do bolso, tomando-o nas mãos. Pigarreou duas vezes, o abriu ligeiramente, leu o que continha, e voltou a fechá-lo.

— Eu vejo a literatura como uma coisa multiforme.  Para mim é como a música.  Eu ouço samba, rock, forró, blues, música clássica, jazz… – ó Deus, haverá música nessa terra de miseráveis? – Não direi que gosto de qualquer estilo ou de qualquer artista – sou até meio exigente –, mas gosto de ouvir coisas muito diferentes entre si, ver as possibilidades infinitas de combinar notas, timbres, ritmos, harmonias, vozes, letras…  Isso me deleita; ser capaz de perceber a grandeza artística de Miles Davis e de Adoniran Barbosa, a de Tom Waits e de Chopin.  Todos diferentes e todos geniais.

— Músicas fúnebres, talvez – respondi à sua inquietação.

— Essas pessoas estão vivas… Mas também estão mortas. Logo também morreremos se continuarmos aqui.

— Literatura é a mesma coisa – continuou – Graciliano Ramos é tão grande quanto Harlan Ellison, que é tão grande quanto Borges, que é tão grande quanto Clarice Lispector ou Conan Doyle.  Opor o realismo à FC é como opor o jazz aos Beatles.  Para mim, não faz sentido.  Não se excluem, se completam mutuamente. Eu vejo que muitos leitores veem a literatura como uma espécie de política onde você é “partidário” de “A” e consequentemente deve ser adversário de “B” e “C”.  Eu não vejo isso.  Minha visão de literatura é como um conjunto de experiências estéticas, e não como uma arena de disputas políticas ou de mercado.

Rendi-me ao copo. Bebi um gole tímido, experimentando o líquido cinza.

— Cerveja, mesmo – tartamudeei constrangido.

Braulio observou o copo como quem tem um espécime raro diante de si. Depois voltou a abrir o papelote que segurava. Observou-o mais um pouco.

— Será que existe poesia nessa terra de desvalidos? – perguntou, olhando ao redor com visível abatimento.

— Você acha que ainda temos muito que aprender com autores anglo-saxões, ou o Brasil já caminha com pernas próprias?

— Temos a aprender com todo mundo, e o que talvez seja um defeito nosso – meu, inclusive – é que só bebemos das fontes anglo-saxãs.  Eu leio pouquíssima FC francesa, creio que nunca li FC italiana ou espanhola, li uma dúzia de livros de FC russa, não tenho idéia do que é a FC holandesa, alemã, tcheca, indiana…  Alguém pode dizer que esses países não têm nada de muito bom para oferecer e se tivessem já saberíamos, mas então o mesmo se aplica ao Brasil.

— Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Ouvi o verso, proferido ao fim de sua resposta. Surpreendi-me com ele. Braulio leu a primeira estrofe e se calou. O semblante fechado numa argamassa de concreto. Mas foi possível ver um pequeno lampejo de luz que escapou de seus olhos embaciados.

— E ainda assim – continuou ele, tentando vencer a prostração – de vez em quando surge um nome isolado nessas literaturas não-anglo-saxãs, como surgiu Stanislaw Lem na Polônia, os irmãos Strugatsky na URSS e agora Zoran Zivkovic da Croácia.  Talvez se déssemos mais atenção a esses autores ficássemos mais perto de descobrir a linguagem de uma FC brasileira, porque veríamos uma porção de elementos que são estranhos à FC americana-britânica, elementos que podemos considerar contribuições próprias daqueles povos.

— Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

O garçom olhou para nós. Dois frequentadores, também. Pareciam preocupados. Levei um susto quando vi o copo de cerveja exibindo uma coloração dourada. Meus lábios se crisparam num sorriso doloroso e assustado.

— Por outro lado, a criação de um caminho brasileiro só pode se dar, obrigatoriamente, no momento da escrita, e não da leitura.  Eu hoje já li muitíssimo mais FC do que tinha lido em 1988 quando escrevi A Espinha Dorsal da Memória, mas não acho que hoje estou mais bem preparado do que então.  Respondendo mais objetivamente a pergunta: temos que aprender com todos os países, mas só teremos o que ensinar a eles se a FC e a literatura brasileira mainstream forem vasos comunicantes.

— Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

O garçom levou ambas as mãos à cabeça. Seu olhar estava aterrorizado. Um dos frequentadores saltou da banqueta em que estava sentado e se dirigiu para a rua, como se estivesse em fuga. As cores iam se alastrando lentamente a partir do copo de cerveja, tingindo a mesa. Olhamo-nos aturdidos. Mas em nossos olhares se revelou a verdade. Arrebatado por uma espécie de loucura, Braulio ergueu ambas as mãos espalmadas ao alto, e riu. Voltou a poetar:

— De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Os versos iam sendo despejados. As cores se alargavam cada vez mais. O garçom gesticulava, indicando-nos que aquele tipo de manifestação era terminantemente proibido, tentava a todo custo conter a fúria poética de Braulio, mas ninguém, aparentemente, teria poder para isso naquele momento.

Foi quando ouvimos o que parecia ser um bater de início ritmado, mas que logo se tornou caótico. Olhamos para fora e vimos a cidade mergulhar numa espécie de frenesi de insanidade. As pessoas corriam de um lado ao outro, contorciam-se em desespero. O trânsito mergulhou num caos de batidas, de buzinaços, de estertores. O garçom largou tudo e disparou para a rua. Braulio se aquietou, perplexo e assustado. Olhávamos o exterior através da janela, rodeados por cores vivas. Mesas, cadeiras, balcão. Geladeiras, caixa registradora, estufas. Tudo colorido. O luminoso piscava suas lâmpadas multicores anunciando para a cidade o Bar do Mané.

Vimos também pernas de pau. Muitas. Encimando-as, figuras surpreendentes. Eram palhaços. Dezenas deles. Centenas. Talvez milhares. Vinham de todos os lados, de todos os lugares. As pernas de pau tão altas que vergavam a cada passada. Suas faces pintadas exibiam não a máscara da alegria, mas carrancas malignas. Expressões de profundo ódio e olhares raivosos. Roupas bufantes cujas cores vivas e contrastadas com as da cidade não tinham como nos enganar. Não eram mesmo mensageiros de felicidade. Avançavam como guardiões da tristeza, soldados do terror.

Eu apertava o botão do relógio, mas sabia que havia ainda uma pergunta. E ela precisava ser feita. Lançamo-nos para fora do bar. Foi como dar de cara dentro de um bambuzal. Vimos pessoas transpassadas pelas varas, crianças abandonadas, chorando. Mães ignorando a dor dos filhos, se refugiando nos cantos, se encolhendo apavoradas. Homens desesperados, implorando clemência enquanto eram atingidos, feridos, mortos pelas varas que iam surgindo numa onda avassaladora.

— Noto em certos círculos um desdém com o que foi escrito em nosso passado – passado muitas vezes bastante imediato – ignorando o trabalho de autores que foram nossos predecessores. Você concorda que o que passou, passou e o que vale é o agora e o amanhã?

Minha pergunta por pouco não se perdeu na azáfama. Braulio agitava o pedaço de papel no ar, expressão insana, provocando os palhaços que nos cercavam batendo as pernas de pau no chão, rilhando os dentes e murmurando um zum-zum-zum assustador. Corremos para trás de um caminhão cinza, acotovelando-nos com uma pequena multidão que se espremia ali.

— Vivemos um momento cultural, no mundo inteiro, que eu definiria como A Onipresença do Presente.  O momento presente está sufocando nossa capacidade de pensar o passado e de pensar o futuro, porque a quantidade de informação sobre a hora presente, o dia presente, a semana presente, etc., é aterradora…

Ele ia respondendo na mesma medida em que íamos sendo expulsos do agrupamento. Não nos queriam ali. Temiam-nos, nos odiavam.

—… Redes sociais como Facebook, Twitter, etc., não são mais do que a exacerbação desse processo.  É possível passar uma hora inteira apenas lendo o que aconteceu no mundo durante os últimos 60 minutos.  Quando se acha que isso é a coisa mais importante, como ter interesse em ler um livro de 10 anos atrás, de 20, de 50, de 100 anos atrás?

Excluídos do esconderijo que, afinal, nem era tão bom assim. Corremos pela rua, driblando o caos e evitando as pernas de pau que tentavam nos cercar, diminuindo nossos espaços.

— Atualidade de informação está virando sinônimo de qualidade de informação – gritou Braulio tentando se fazer ouvir em meio ao alarido geral e ao bater de paus –,  pior que isso: está virando a definição oficial de qualidade.  Informação boa é informação presente. Devido a isto, estamos perdendo a visão diacrônica (de enxergar os fatos num eixo histórico, num antes-e-depois que se estende no Tempo, ao longo de anos ou séculos) e sendo capazes apenas de ter uma visão sincrônica, de enxergar o que está acontecendo aqui-e-agora num presente que, dependendo das circunstâncias, pode ser contraído em minutos ou expandido em meses, mas continua a ser “o Presente”, o momento do tempo em que acontecem as coisas realmente importantes.  É para isto que estamos caminhando.

Contornamos uma montanha de escombros formados por veículos virados, pessoas feridas e estendidas no chão, gementes e agonizantes. Viramos à esquerda numa rua e demos de cara com uma infinidade de paus que vinham. Atrás de nós outra onda se aproximava. Estávamos, afinal, cercados.

Braulio voltou a agitar o papelote e bradou ameaças antes de voltar a poetar as estrofes certamente decoradas.

— Sou Paul Bunyan e vou arrancar essa floresta de varapaus da cidade, devolvendo a ela a alegria de viver!

— Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

Cercados. Enrodilhados. Lentamente esmagados.

— E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

A voz já quase sumida, sufocada pelas grades.

— Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Então um torvelinho de força irresistível ergueu palhaços com suas pernas de pau. Ergueu cidadãos e carros e latas de lixo e placas e jornais e crianças e cachorros. Ergueu a cidade, arrancando-a de suas fundações. O mundo todo de ponta cabeça. Ergueu a nós, lançando-nos ao ar, rodopiando. Mas não pela ameaça de um gigantesco machado a varrer o emaranhado de paus. Nem pela aparição – que não houve – de um boi azul furioso.

A poesia manejava um milagre.

As cores explodiram primeiro num clarão súbito, manchando céu e terra com tonalidades bizarras. Logo se estabilizaram, mesclando-se de tal forma que todas as nuances que se formaram cobriam as coisas, dando-lhes a cor que deveriam ter.

Braulio ainda agitava o papelote, estrebuchando de tanto rir. Agarrava-se ora em uma, ora em outra perna de pau, puxando-as todas, a espevitar os palhaços, cujas carrancas haviam se dissolvido e revelado olhares de pânico e incompreensão.

Assustado com o andar das coisas e certo de que tudo que vai ao ar logo volta a terra, apertei o botão.