Posts Tagged ‘Dias estranhos’

Mercado editorial e seus esconjuros e sortilégios.

26/01/2010

Dentre todos os lançamentos desse ano na Editora Draco, existem três obras de autores que são novatos. Os romances: Baronato de Shoah, Annabel e Sarah e a antologia Dias estranhos (José Roberto Vieira, Jim Anotsu e Saint-Clair Stockler respectivamente).

Sabemos das dificuldades para emplacar um romance numa editora (e me refiro a uma tradicional, e não por demanda. Nessas, qualquer um com grana faz). Existem milhares de pretendentes a escritor, desses algumas dezenas com algum talento e desses, apenas um ou dois, munidos de patuás, com a sorte de conseguir.

Dentre as histórias de sucesso nesse concorridíssimo mercado (não me refiro ao sucesso de vendas, mas ao de simplesmente conseguir publicar), existem ainda outras que parecem reforçar essa aura de mistério indissolúvel que o mercado editorial transpira. Quando, por exemplo, um autor não só consegue publicar um romance, mas DOIS num mesmo ano. Está aí a prova de que reza brava e ebós as vezes fazem a diferença.

Estou falando de Carlos Orsi, que vai emplacar A guerra justa e O nômade em 2010. E isso também não é para qualquer um (também não é para qualquer um beber um legítimo Scotch com gelo milenar. Orsi é o verdadeiro sub-zero man).

Carlos Orsi:

“O segundo romance é o Nômade, um juvenil que havia escrito sob encomenda de uma editora da área há vários anos (nem me lembro bem de quando; por volta de 2005, acho).

O fato é que a tal da editora, depois de ter o texto pronto, ficou cozinhando o galo um baita tempo — diziam que o romance estava aceito, mas não tomavam nenhuma atitude a respeito… nem me mandavam contrato, nem mexiam uma palha para publicá-lo — e, quando o saco finalmente estourou, em 2009, mandei tudo às favas e publiquei o livro de graça no Scribd, como PDF.

Graças à publicação no Scribd e à “mídia” que a publicação gerou (por exemplo, as resenhas que pipocaram online) outra editora de papel, que vinha buscando material para lançar sua própria linha de ficção juvenil, resolveu encampá-lo. Não digo o nome da casa editorial agora porque não sei se a inauguração da linha, que ainda deve levar uns meses, é algum tipo de segredo comercial ou não…

A negociação foi bem simples: mandaram-me um e-mail, conversamos por telefone, enviaram-me um contrato com previsão de tiragem e participação nas vendas, e voilà!

Quanto à coincidência, a bem da verdade acho que o fator inesperado nessa história foi o surgimento da Draco; a conversa para soltar o Nômade já estava bem adiantada quando o Erick começou a coligir o material para a editora nova. Além disso, há o fato estatístico de que tenho tanto material flutuando por aí que cedo ou tarde um ponto desses fora da curva ia acabar acontecendo.

E falando em estatísticas, fiz uma conta rápida outro dia: digamos que a chance de um livro deixar seu autor rico num dado ano seja de 2%. Lançando dois, a minha cresce para 1-(0,98)^2, ou 3,96%. Para ter uma chance superior a 50% eu precisaria lançar uns 36 volumes em 12 meses. Não cheguei lá ainda, mas quem sabe um dia…”

Considerando correta a estatística do Orsi, ficar rico publicando é bem mais fácil que acertar na mega sena. Então vamos escrever, gente.

Saint-Clair Stockler fala de Dias estranhos.

25/01/2010

Conheço-o desde 2007. Desde então sei de Dias estranhos, o livro que escreveu e que ansiava publicar um dia, se tivesse sorte. Bem, ela chegou. Mas a sorte não faria nada sozinha se não tivesse em mãos uma antologia fantástica de indiscutível qualidade e um autor consciente disso.

Dias estranhos recebeu uma ótima resenha do jornal O Globo, caderno Prosa & Verso, no dia 15 de setembro de 2007. Isso não é para qualquer um. Será publicado esse ano pela Editora Draco. Clique na imagem para ler.

Saint-Clair:

“Dias estranhos é um livro de contos escritos num período de 13 anos. É isso mesmo: levei quase uma década e meia pra formar o livro. Sou devagar, porque não escrevo todos os dias. Escrevo apenas quando sinto vontade, quando acho que tenho uma boa idéia, nem que seja apenas uma imagem (que depois terá de ser trabalhada até surgir uma história). No entanto, agora com o livro “fechado”, olho e me surpreendo que apesar das várias técnicas que empreguei na feitura dos contos (e foram muitas), o livro tenha unidade, seja coeso e não um amontoado de coisas soltas sem equilíbrio, juntadas às pressas só pra fazer volume.

Só escrevo quando sinto uma força que não pode ser contrariada me forçando a escrever. Eu sou assim. Também fico “polindo” muito: troco palavras de lugar, reconstruo frases, corto ou acrescento adjetivos, advérbios, verbos. Gosto de pensar em mim como um artesão da palavra. Cada vez que releio um texto meu descubro coisas a mudar, a cortar, a acrescentar. É uma luta incessante, é como ser Sísifo. Escrevo porque gosto, porque a literatura representou pra mim uma via de escape de uma infância terrível; lendo, esquecia da minha realidade mas acabava – sem saber – aprendendo cada vez mais sobre mim e sobre tudo que me cercava. Um paradoxo, eu sei: fugindo, me encontrava. Mas a literatura é assim. Escrevo também porque produzir uma obra de arte é uma tentativa de parar o tempo, ou de tentar amenizar a sua força terrível. A gente morre, a obra – se dermos sorte – fica. É a única forma de imortalidade em que acredito.

A maior parte dos contos pertence ao gênero fantástico porque isso reflete a minha visão do mundo. Pra mim o mundo é cheio de coisas estranhas, de pessoas estranhas, de acontecimentos estranhos. Refuto com veemência a corrente “realista” da literatura brasileira. Mesmo quando algum conto meu não tem nada de exatamente fantástico, o fantástico está presente no viés com que o narrador mostra eventos e pessoas. Nesse sentido, sinto-me mais próximo dos homens e mulheres da Idade Média do que dos meus contemporâneos. Naquele período as pessoas viviam imersas na dimensão maravilhosa das coisas. O mundo era um mistério (reforçado, entre outros, por instrumentos como a Igreja), e podia ser belo embora frequentemente fosse terrível. Mas o mundo era, repito, um mistério a ser gozado e não uma equação a ser resolvida. Desde então o mundo se empobreceu muito. Acho que perdemos muito, nós sobreviventes dos séculos XX e XXI.

Sou essencialmente um contista, porque a forma curta me agrada demais. Posso, num livro, contar 20 histórias diferentes, ao passo que se fosse um romancista teria um livro de 300 páginas contando apenas uma única história. E mais: sou um contista barroco. O que quero dizer com isso? Só lendo um dos meus contos você entenderá. Nunca achei que a menor distância entre dois pontos fosse a linha reta. Mas sou, principalmente, um contista que acredita que um conto tem de ter uma história e não meramente ser um exercício de estilo. Perguntei a Elvira Vigna – que, além de ser minha amiga, é para mim um dos maiores escritores que o Brasil tem -, depois que ela leu os contos que formariam o Dias estranhos, se havia gostado. Elvira ficou um tempo calada e respondeu, naquele seu jeito direto, sem enfeites: “Gosto dos seus contos”. E depois acrescentou: “Você me lembra um buldogue. Você anda com o osso na boca pra cima e pra baixo, mas nunca o larga. Você nunca solta o osso”. O “osso” a que ela se referia era o enredo. Meus enredos nunca são lineares, mas também não há pontas soltas. No final tudo se encaixa.

Estou com 37 anos e esse é o meu primeiro livro. Tem gente que com 18 já publicou. Eu achava que não ia publicar nunca um livro só meu. Tem centenas de garotos e garotas com vários livros publicados e eu quase na meia-idade e nada. Mas não me incomodo. Me incomodaria mais se tivesse a certeza de que árvores estariam sendo abatidas para a publicação de um livro de merda. Não é o caso, apesar de ser suspeito em afirmá-lo. Não perderei noites de sono pensando nas pobres árvores que viraram Dias estranhos, porque tenho a certeza de que estou oferecendo um livro honesto e bem escrito aos leitores que vierem a se interessar por ele. Sou grato ao Espírito das árvores, e sei que ele não se sentirá ofendido comigo, mas tenho muita pena de gente como o José Sarney, a Zíbia Gasparetto ou a Fernanda Young.  É um livro belo, também. Erick Santos, o editor da Draco, me disse: “Seus contos são muito tristes”. Não sei bem se é tristeza, mas com certeza há um certo amargor, misturado com humor negro e com ironia. Eu olho o ser humano e não tenho ilusões quanto ao que nós somos. Nós somos muito ruins, não prestamos, somos mentirosos, mesquinhos, falsos, nos vendemos facilmente por 30 moedas – e mostro isso nos meus contos. Minha cunhada leu alguns deles e comentou chocada com o meu irmão: “Ele é um pervertido”. Não sei se há tristeza, mas sei que há certa beleza neles. Um dos segredos da vida é esse: há beleza em tudo o que existe, até mesmo nas coisas feias.


Pedro Moreno

Portfolio Online

Blog do Vianco

A vida de um escritor, roteirista e dramaturgo de Osasco.

Além das estrelas

Fantasia, ficção e ciência

frombartobar.wordpress.com/

Just another WordPress.com site