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Réquiem: sonhos proibidos – Lido e comentado

19/10/2012

Imagine um mundo controlado por governos totalitários. Difícil? Claro que não.

Distopias desse tipo abundam na literatura de ficção científica. Réquiem: sonhos proibidos, não foge ao tema. Petê Rissatti conta uma história onde nosso mundo, após uma chamada Guerra dos Anos Confusos, assiste a supremacia de um Governo Mundial que controla a tudo e a todos com a ajuda de um medicamento conhecido como Réquiem (Repressor Químico para Ecmnésia Mensurada).

Alega-se que a liberdade máxima do ser humano se encontra na experiência, no mundo dos sonhos. É nele que alcançamos total independência, sem controles externos. Livres para sermos e fazermos o que quisermos. O medicamento, então, reprime os sonhos fazendo-nos ter uma noite de sono totalmente negra, apagada. Uma quase morte.

Segundo a premissa, isso seria suficiente para nos tornar seres sem ambições, sem anseios; manipuláveis.

Os sonhos são importantíssimos à nossa saúde física e mental, são eles que estabelecem um ponto de equilíbrio na mente racional, provocam relaxamento, dirigem-nos ao simbólico, ao abstrato. Relaxam nossa capacidade cognitiva, preparam-nos para outro momento de vigília e concentração. Sem sonhar teríamos — segundo pesquisas — nossa capacidade intelectual comprometida, deixaríamos, paulatinamente, de ser a espécie dominante no planeta. Seríamos flagelados por surtos de amnésia, agressividade e ansiedade. O mundo seria imerso na esquizofrenia.

Uma sociedade inteira, milhões de pessoas, bilhões, sem sonhar. Esse cenário é terrífico e levaria toda nossa civilização à bancarrota.

Assim, considero, particularmente, a premissa do livro um equívoco.

O sonho que liberta, a meu ver, não é o onírico — esse, caótico, sem amarras com a realidade, anárquico — e sim, o sonho acordado. A ambição. O anseio. O anelo. O que nos passa pela cabeça, nossos desejos mais íntimos e imediatos, nossas insatisfações. Esses só se podem controlar contrariando a premissa da obra; forçando-nos a um sono coletivo e induzido.

A sociedade descrita por Petê Rissatti é ordeira e organizada. Indivíduos proficientes e felizes, satisfeitos com a vida do jeito que a tem. Mentes equilibradas, sensatas — embora apáticas —… bem diferente do cenário real que a ausência completa de sonhos provocaria.

A história em si, deixando de lado os aspectos oníricos, fala da luta de uma organização insurgente que se esforça em vencer o Governo Mundial, libertando as pessoas de seu jugo. Através de uma tecnologia difusa, detectam aqueles que têm uma noite de sonhos — ou por terem se esquecido de tomar o medicamento, ou por tê-lo deixado de tomar propositalmente — e vão a sua busca com o intuito de agregá-los à causa.

Tipo: “Ah, sonhou, então já é um revolucionário” (ingênuo, sim, concordo. Bastaria sequestrar felizes consumidores do Réquiem e deixá-los sem o remédio. Logo sonhariam e… novos insurgentes para as fileiras!).

O protagonista, Ivan, vê-se, em pouco mais de vinte páginas, transformado de passivo funcionário organizador de formulários, para um dos mais perigosos revolucionários, temido mundialmente (!!). Isso graças a uma noite de sonhos confusos e aos genes que, segundo teorias igualmente confusas, o marcariam para a luta.

Trata-se de uma história com uma infinidade de clichês e que precisaria de muito mais páginas para ser bem contada. Para construir personagens realmente críveis, para aprofundá-los e para explicar melhor a sociedade e as engrenagens que a movem.

Precisaria também de uma premissa razoável.

Há pouca verossimilhança. Os personagens são planos — apesar dos esforços do autor em compensar isso com reflexões existências superficiais demais, na maioria — e suas motivações são contraditórias.

A obra é, no geral, muito ingênua, inocente. Repleta de soluções simplistas. Chega até a ser bobinha.

Trata-se de leitura rápida e descompromissada que só recomendo se não houver alternativa.

Réquiem: sonhos proibidos

Editora: Terracota
Gênero: Romance de Ficção Científica
Formato: 14 cm x 21 cm
Páginas: 203

Escreva seu conto! Participe de 2013 – Ano um.

08/07/2011

2013 – Ano um é uma iniciativa da Editora Ornitorrinco e Editora Literata e tem como organizadores Alicia Azevedo e Daniel Borba. Está aceitando submissões do dia 10 de julho a 15 de setembro.

Não é um prazo muito longo, então sugiro aos interessados que metam mãos à obra desde já.

Serão escolhidos alguns contos inéditos (não há quantidade definida) que farão companhia aos trabalhos dos seguintes autores convidados:

Roberto de Sousa Causo
Gerson Lodi-Ribeiro
Tibor Moricz
Ana Lúcia Merege
Ademir Pascale
Duda Falcão
Adriano Siqueira

Aproveitem. 2013 – Ano um será um excelente palco para desfiarmos nossas esperanças ou desesperanças na raça humana. Utopias e distopias são muito bem vindas.

Saibam dos detalhes nesse link:
http://www.editoraornitorrinco.com.br/2013/sinopse.html

Que tal um Fome?

02/09/2009

Fome - Capa 3DDaqui a dois meses meu livro Fome, publicado pela Tarja Editorial, fará um ano de publicação. Desde que foi ao mercado, em novembro de 2008, venho recebendo vários feedbacks, os mais variados. Sem dúvida não é um livro para se gostar fácil. Ou se gosta, ou se odeia. Mas ambas essas emoções eram previstas quando escrevi esse conjunto de contos ambientados num cenário pósapocalíptico. Tanto o gostar quanto o não gostar, ou odiar, faziam parte dos meus planos. Ninguém poderá dizer que Fome é literatura ruim. Apenas poderão combatê-lo enquanto um conjunto de idéias; poderão discutir o argumento, a trama, a crueza, a frieza, a violência, a ausência de quaisquer traços morais ou éticos. Nesse sentido, Fome vem cumprindo com seu papel de maneira exemplar.

Alguns comentários recebidos:

• Lixo! • Perturbador • Imoral • Uma porcaria • Coisa do demônio • Como pôde? • Fascinante • Assustador • Comecei a ler, mas não vou terminar • Senti nojo • Tenho filhos! • Maneiro, cara!

Se você leu, talvez se identifique com um ou outro destes comentário. Se não leu, convido-o a fazê-lo. E depois me diga o que achou. Comente aqui neste blogue. Xingue ou elogie. Sua opinião é importante.

Trechos:

“Arranquei os trapos que a cobriam. Ela recuou o que pôde, espremendo-se contra a parede. Dois pequenos montículos se sobressaiam onde um dia ela (se continuasse viva) teria peitos. A vulva mostrava pequenos e sedosos pelinhos que iam cobrindo a região. Agarrei-a pelas pernas e a arrastei para o meio do esconderijo, sobre folhas de papelão. Virei-a para ver suas nádegas. Brancas e exíguas. Espalmei-as. Apertei-as. Bati nelas. Avermelharam até parecer fogo.”

“Com olhares nervosos cortou os membros, separando-os do tronco. Abriu a barriga e retirou dele algumas vísceras. Mais ossos que carne. Afastou os urubus com acenos enérgicos, ajuntou as peças e começou a carregá-las para dentro do prédio.”

“Quisera que as letras impressas nas folhas surgissem uma a uma em sua pele, saltando como brotoejas. Ele então as poderia ler. Palavras novas surgindo, formações aleatórias, sentenças surpreendentes. Poderia ele se tornar num autor esofágico, epidérmico. Contemplaria o corpo nu diante de um pedaço de vidro e admiraria a metamorfose.”

“Os olhos se esgazearam e o brilho do metal refulgiu um segundo antes do golpe. Foi rápido, quase um instante. A cabeça tombou para frente e uma luz vermelha alaranjada surgiu fantasmagórica, lançando-o na estupefação da súbita descoberta da vida após a morte.”

“Girou nos calcanhares. Firmou o pé exatamente na marca. Olhou para frente e para o lado. Sobre o papelão havia um pedaço de carne. Nem seca ao sol, nem salgada. Quase fresca. Até seria, se não cheirasse mal.”

“Retirou ambas as mãos do meio das pernas e as cheirou. Ainda estava trêmula. Molhada, mas não muito. Lambeu a umidade entre os dedos como quem procura retirar a última gota de água de um copo vazio. Estava com fome e sede. De comida e de homem. De ambos.”

“— Seu deus morreu antes de todos nós! – insistiu a voz lá na frente. – O Paraíso foi invadido por diversas matilhas. Mataram todos os animais, beberam e comeram toda a comida, estupraram e devoraram todas as mulheres…

— Deus foi flagrado fodendo um menino sob uma laje. Enfiava nele o cajado tão profundamente que o sangue espirrava! Depois o devorou, mastigando a carne ainda viva e pulsante!”

“As pernas tremiam ligeiramente. Muito mais pelo esforço da caminhada ininterrupta do que pela doença que lhe devorava a carne. Cada bolha estourada levava consigo uma parte de nervos e músculos liquefeitos.”

“O menino, quieto, exibia a sua nudez conspurcada sem nenhuma vergonha. Olhos semicerrados. Respiração ausente. Tocou no seu peito. Procurou pelo batimento cardíaco. Procurou pelo hálito, pelo bafo quente e juvenil, mas não o encontrou.”

“Ao fim da oração, desferiu poderoso golpe. A faca penetrou na pouca carne, rasgou e partiu ossos, penetrou na terra, fincando-se nela. O capturado não gemeu. Não sibilou. Não proferiu nenhum som. Seus olhos embaciados acompanharam a descida da faca, arregalaram-se de leve durante o golpe mortal, depois pareceram sorrir.”

“Deu-se o pandemônio. Gritos terríveis antecederam um ataque maciço desferido por ambas as partes. Dezenas de homens se engalfinharam transformando a pequena clareira num palco de carnificina. Lâminas cortavam o ar, disparos eram efetuados, paus e pedras voavam em todas as direções. Agarravam-se, mordiam-se, unhavam-se.”

“E então todos pararam de comer e beber. Alguns regurgitaram o excesso de sangue, cuspiram a carne que se lhes entalava na garganta. Levantaram-se, atônitos e maravilhados. Alguns feridos e cambaleantes. Moribundos puseram-se de pé ao som das trombetas. Ossos partidos, fraturas expostas… E mesmo assim se puseram de pé.”

Fome está aí, na Tarja Livros. Baratinho. O Richard Diegues vai ficar contente com sua visita (eu também…rs).

Fome – Palavras canibais

05/08/2009

Fome - Capa 2D

Há meses, quando Fome foi lançado, o meu companheiro de batalhas Eric Novello desenvolveu uma animação chamada Palavras Canibais baseada na narrativa distópica da obra. Resolvi trazê-la novamente à baila, já que a considero tão perturbadora quando os melhores contos do livro. Aproveitem para ir ao site da Tarja Editorial e comprar o livrete (pequeno, mas dá uma porrada boa!).