Posts Tagged ‘Editora Terracota’

A Fantasia brasileira vai bem, obrigado. Mas e a FC, como está?

30/01/2013

Capas Livros FC e Fantasia

A discussão FC x Fantasia não é nova, mas é sempre produtiva. O que vemos hoje no Brasil é uma quantidade de publicações de livros de Fantasia que ultrapassa a de Ficção Científica em muito (10 para 4, segundo estatísticas que me foram fornecidas por Cesar Silva, editor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica).

Mas, onde está a questão?

Parece-nos bastante óbvio que seja assim. Afinal, obras de Fantasia são mais assimiláveis. Não obrigam o leitor a acompanhar — via de regra — longas e exaustivas explicações científicas, nem a ter conhecimento — mesmo que básico — de nada que se aproxime de tecnologia e ciência. Leis simples como as da gravidade são comumente desafiadas e vencidas. Nossos autores fazem com que todos os grandes obstáculos sejam suplantados com abracadabras, com pitadas de pó de pirlinpinpin, efeitos sobrenaturais inexplicáveis ou poções e encantamentos diversos. Gestos grandiloquentes fazem surgir tempestades, piscar de olhos movem montanhas.

Vilões e mocinhos se enfrentam numa tempestade coruscante de efeitos especiais, transformam e transmutam com uma sem-cerimônia tão banal quanto encantadora. E os personagens secundários, humanóides ou não, sucumbem diante de tantos poderes, arrasados, fragmentados, pulverizados.

Não temos no Brasil autores como Susanna Clarke, Ursula K. Le Guin, Fritz Leiber ou Patrick Rothfuss. Boa parte de nossos esforçados autores de Fantasia estão muito mais para J.K. Rowlings recauchutadas ou J.R.R. Tolkiens de calças curtas, exceção feita a poucos e talentosos autores que conseguiram fugir do lugar comum e desenvolver universos próprios. Infestam as imitações mal feitas, as poucas tentativas pífias de encontrar um estilo próprio, um cenário divergente e original (porque é muito mais fácil copiar o que já está consagrado).

Não há ciência nas histórias de fantasia (deixo de lado a fantasia científica, mas mesmo ela dialoga pouco com a verossimilhança). Há apenas uma imaginação profusa que não explica, apenas apresenta mirabolâncias.

A Fantasia traz à tona o nosso lado lúdico, nos faz retornar à infância, aos sonhos, às nossas íntimas fantasias pueris, quando nos imaginávamos repletos de poder. Nossa visão do mundo era mágica, o mundo nos parecia mágico. A FC é o contraponto a essa visão. Ela nos obriga a fincar os pés no chão, nos mostra que o mundo é físico e obedece a leis imutáveis. A FC nos rouba muito de nosso senso lúdico, nos esfrega a cara no chão. Obriga-nos a “despertar” para a realidade e para todas as responsabilidades decorrentes disso.

Será essa a razão porque a nossa literatura de Fantasia leva grande vantagem em relação à FC? Ou é mesmo porque não temos uma cultura tecnológica, de grandes descobertas e viagens espaciais?

Afinal é essa a explicação recorrente. Somos um país sem cultura científica. Nunca fizemos grandes descobertas, nossos melhores foguetes são os da Caramuru, nossos cientistas, os melhores, vão embora do país em busca de melhores condições de trabalho e em busca de reconhecimento.

Então, por que, afinal, histórias de Ficção Científica deveriam ser populares, não é mesmo?

Se formos falar de outras mídias, veremos que a FC vai muito bem nos HQs, nos games, no cinema e na TV. Filmes e séries desse gênero bombam e alcançam bilheterias expressivas e telespectadores apaixonados. São vários os lançamentos (inclusive brasileiros) disputando espaço nas salas de exibição.

Mas em quê a literatura de FC ganha com isso? Como nossos autores são beneficiados com o boom da FC nas outras mídias? A FC continua não sendo lida. Continua não sendo prestigiada, continua sofrendo o preconceito das casas editoriais (e de muitos leitores que a consideram um gênero “chato”) que parecem esperar que um de nossos autores (sem patrocínio, nem apoio de nenhuma editora significativa) consiga vencer as dificuldades de mercado e explodir em vendas (melhor ainda se tiver o livro transformado em filme).

Só esse chamado “boi de piranha” conseguiria superar o “dar de ombros” das principais casas editoriais e, enfim, fazer a FC brasileira ser vista com olhos mais condescendentes (porque a FC estrangeira é normalmente publicada aqui com rótulos diferentes que tentam disfarçá-la)?

Difícil crer que não haja público para uma boa e dinâmica história de FC. Ou que não existam leitores inteligentes que não se entusiasmem com histórias elaboradas, personagens com múltiplas camadas, cenários ricos, boas ambientações, argumentos convincentes e soluções criativas e verossímeis (Nem toda FC produzida aqui é assim tão complexa, mas não podemos esquecer que, qualitativamente, a literatura de FC brasileira é, no geral, muito mais bem trabalhada que a de Fantasia).

Ou crer que todos os leitores de FC estejam comodamente assentados dentro do nicho, incorporados ao fandom. Porque se for assim, é de se compreender a atitude das grandes editoras. Investir num gênero que não consegue reunir mais que uns poucos milhares de leitores (dos quais muitos sequer conhecem o que se produz contemporaneamente) é jogar tempo e dinheiro fora.

A Fantasia não precisa de apresentações prévias. Não precisa vencer o preconceito de editores. Há muita Fantasia sendo publicada, grande parte de qualidade duvidosa.

Sem contar que é notório que qualidade e apelo comercial não são correlatos. As editoras são casas comerciais e são as vendas (as boas, de preferência) que pagam as suas contas. Entre escolher um romance de Fantasia manco e com chulé, mas com apelo comercial palpável, e um romance de FC de boa qualidade, elas vão escolher o primeiro. Por que deveriam investir num gênero, construir paulatinamente um mercado, se o custo/benefício é incerto?

Casos como o de Luiz Brás que publicou Sozinho no deserto extremo pela Editora Prumo são exemplos que parecem apenas servir para confirmar a regra.

Assim, a FC fica relegada às pequenas editoras que trabalham com edições limitadas e publicam quase que especificamente para o nicho. Um possível manancial de leitores extra-fandom permanece inatingível, inalcançável. Porque esses vários milhares de leitores que adquirem Asimov, Clarke, Bradbury (e outros nomes estrangeiros que se escondem na chamada ficção especulativa), também podem adquirir Gersons-Lodis, Causos e Carlos Orsis.

Existe dificuldade nisso? Claro. Mas mercados existem para serem descobertos, desbravados. Não só por quem escreve (que esses não têm poder para erguer mercados) e, sim, pelas editoras que, se não têm nenhuma obrigação em formar leitores, também não deveriam se escudar inteiramente disso.

Afinal, assim como nas melhores obras brasileiras de Fantasia, existem trabalhos de Ficção Científica com bom potencial de vendas e com argumentos que cairiam muito bem em filmes. Nem é preciso garimpar muito. Basta abrir os olhos, não dar mais de ombros, atentar para a pilha de originais e conceder à FC brasileira um voto de confiança.

Pelo menos isso.

***

Links interessante cedido por Cesar Silva:

• Listagem de todas as publicações de literatura fantástica feitas em 2011 no Brasil para download:
http://issuu.com/cesarsilva7/docs/anu_rio_brasileiro_de_literatura_fant_stica_2011_l

Você quer o anuário?

• Anuários Brasileiros de Literatura Fantástica para aquisição (anos de 2009 e 2010, 2011 está esgotado até o momento):
http://loja.devir.com.br/catalogsearch/result/?q=anuario+brasileiro+de+literatura+fantastica

Ano novo, romance novo, casa nova.

22/01/2013

logo3 copy

Frontal Terracota

Venho, desde meados de 2011, laborando em várias frentes. Comecei em setembro do ano retrasado um thriller de Ficção Científica, suspense e mistério que me absorveu até fevereiro de 2012. Na verdade, ele vem me absorvendo até agora já que não consigo abandoná-lo, estou sempre mexendo numa coisa aqui, noutra ali.

Já disse várias vezes que, quando me ocupo com um romance, não há espaço na minha cabeça para outros formatos. Mergulho no trabalho e só me preocupo com contos ou noveletas quando o termino. Por pensar assim, deixei de participar de algumas submissões. Por outro lado, participei de algumas coletâneas porque já havia me comprometido com elas (como convidado). Nesses casos, e só neles, passo por cima de minhas restrições e me esforço em cumprir com a palavra dada.

Posso dizer que 2012 foi um ano bastante profícuo em publicações em coletâneas, embora não tenha publicado nenhum romance.

Três meses depois de ter oficiosamente terminado esse thriller, explodiu uma nova ideia em minha cabeça. Foi tão arrebatadora que não consegui me desvencilhar dela até que a tivesse concluído, o que aconteceu no começo de julho de 2012. Um pouco mais de dois meses e meio para escrever cerca de 250 páginas.

Esse romance de FC, ao contrário do anterior, não passou por várias mãos e várias editoras em busca de publicação. Passou por apenas uma só mão e a decisão em publicá-lo foi rápida.

Trata-se de O homem fragmentado, e a editora que aceitou o desafio de colocá-lo no mercado foi a Terracota Editora.

Tenho admiração pela Terracota. Venho acompanhando seus lançamentos, seu trabalho editorial, seu comprometimento, o diz-que-diz na mídia em relação a esses lançamentos, os autores publicados, os projetos executados.

Posso dizer que houve escolha da minha parte. Remeti o original para as mãos de Claudio Brites, certo de que queria publicar sob a sua batuta. E eu lhe disse isso. Era necessário, claro, que ele também o quisesse.

O “sim” veio algumas semanas depois, com elogios ao trabalho. O que muito me envaideceu.

Trata-se de um projeto onde tentei dar tudo de mim: construir bom cenário e boa ambientação, esculpir personagens fortes e bastante realísticos, desenvolver tramas e subtramas convincentes, dar ao trabalho meu toque especial na questão de ritmo tentando transformá-lo num page turner.

Se consegui isso, ou não, vocês mesmo me dirão quando o livro for lançado, ainda este ano.

Adianto um texto promocional que diz muito (se não tudo) da obra:

O homem fragmentado

Imagine-se arrasado pela culpa. Responsável pela morte de seu filho e pela vagarosa e inexorável dissolução do seu casamento. Imagine-se sem mais nenhuma perspectiva de vida; desmotivado profissionalmente, sem mais sonhos, nem esperanças.

Imagine um revólver em suas mãos. Imagine-se apontando-o para a própria cabeça e… puxando o gatilho.

Imagine um possível “depois disso”:

Seu filho vivo, seu casamento em pé, sua vida, a vida, outra vida, uma vida desconhecida e assustadora.

Imagine-se num mundo que não lhe pertence. Tendo amigos que nunca foram os seus, uma família que nunca foi a sua. Imagine-se consumido por um delírio difícil de refrear.

Imagine-se morrendo consecutivas vezes e vendo surgir novas e sucessivas realidades que violentam a sua ciência de realidade.

O homem fragmentado fala de alguém que vê seu mundo ser desconstruído e assiste, perplexo, a ruína de todas as suas verdades. Ao ponto irreversível da loucura ou da liberdade numa última e epifânica revelação.

***

Ainda é cedo para falar de capa e projeto editorial, mas, quando tiver novidades, eu as posto aqui.

Ah, obrigado Terracota!

Réquiem: sonhos proibidos – Lido e comentado

19/10/2012

Imagine um mundo controlado por governos totalitários. Difícil? Claro que não.

Distopias desse tipo abundam na literatura de ficção científica. Réquiem: sonhos proibidos, não foge ao tema. Petê Rissatti conta uma história onde nosso mundo, após uma chamada Guerra dos Anos Confusos, assiste a supremacia de um Governo Mundial que controla a tudo e a todos com a ajuda de um medicamento conhecido como Réquiem (Repressor Químico para Ecmnésia Mensurada).

Alega-se que a liberdade máxima do ser humano se encontra na experiência, no mundo dos sonhos. É nele que alcançamos total independência, sem controles externos. Livres para sermos e fazermos o que quisermos. O medicamento, então, reprime os sonhos fazendo-nos ter uma noite de sono totalmente negra, apagada. Uma quase morte.

Segundo a premissa, isso seria suficiente para nos tornar seres sem ambições, sem anseios; manipuláveis.

Os sonhos são importantíssimos à nossa saúde física e mental, são eles que estabelecem um ponto de equilíbrio na mente racional, provocam relaxamento, dirigem-nos ao simbólico, ao abstrato. Relaxam nossa capacidade cognitiva, preparam-nos para outro momento de vigília e concentração. Sem sonhar teríamos — segundo pesquisas — nossa capacidade intelectual comprometida, deixaríamos, paulatinamente, de ser a espécie dominante no planeta. Seríamos flagelados por surtos de amnésia, agressividade e ansiedade. O mundo seria imerso na esquizofrenia.

Uma sociedade inteira, milhões de pessoas, bilhões, sem sonhar. Esse cenário é terrífico e levaria toda nossa civilização à bancarrota.

Assim, considero, particularmente, a premissa do livro um equívoco.

O sonho que liberta, a meu ver, não é o onírico — esse, caótico, sem amarras com a realidade, anárquico — e sim, o sonho acordado. A ambição. O anseio. O anelo. O que nos passa pela cabeça, nossos desejos mais íntimos e imediatos, nossas insatisfações. Esses só se podem controlar contrariando a premissa da obra; forçando-nos a um sono coletivo e induzido.

A sociedade descrita por Petê Rissatti é ordeira e organizada. Indivíduos proficientes e felizes, satisfeitos com a vida do jeito que a tem. Mentes equilibradas, sensatas — embora apáticas —… bem diferente do cenário real que a ausência completa de sonhos provocaria.

A história em si, deixando de lado os aspectos oníricos, fala da luta de uma organização insurgente que se esforça em vencer o Governo Mundial, libertando as pessoas de seu jugo. Através de uma tecnologia difusa, detectam aqueles que têm uma noite de sonhos — ou por terem se esquecido de tomar o medicamento, ou por tê-lo deixado de tomar propositalmente — e vão a sua busca com o intuito de agregá-los à causa.

Tipo: “Ah, sonhou, então já é um revolucionário” (ingênuo, sim, concordo. Bastaria sequestrar felizes consumidores do Réquiem e deixá-los sem o remédio. Logo sonhariam e… novos insurgentes para as fileiras!).

O protagonista, Ivan, vê-se, em pouco mais de vinte páginas, transformado de passivo funcionário organizador de formulários, para um dos mais perigosos revolucionários, temido mundialmente (!!). Isso graças a uma noite de sonhos confusos e aos genes que, segundo teorias igualmente confusas, o marcariam para a luta.

Trata-se de uma história com uma infinidade de clichês e que precisaria de muito mais páginas para ser bem contada. Para construir personagens realmente críveis, para aprofundá-los e para explicar melhor a sociedade e as engrenagens que a movem.

Precisaria também de uma premissa razoável.

Há pouca verossimilhança. Os personagens são planos — apesar dos esforços do autor em compensar isso com reflexões existências superficiais demais, na maioria — e suas motivações são contraditórias.

A obra é, no geral, muito ingênua, inocente. Repleta de soluções simplistas. Chega até a ser bobinha.

Trata-se de leitura rápida e descompromissada que só recomendo se não houver alternativa.

Réquiem: sonhos proibidos

Editora: Terracota
Gênero: Romance de Ficção Científica
Formato: 14 cm x 21 cm
Páginas: 203

O grito do sol sobre a cabeça – lido e comentado

16/10/2012

Li os primeiros trabalhos de Brontops Baruq em várias edições do Projeto Portal capitaneado por Luis Braz. Foi aí que conheci a força desse contador de histórias. Causou-me tamanha boa impressão que o convidei para participar da coletânea Brinquedos Mortais. Considerei que não poderia abrir mão de um conto desse prosista surpreendente. Vê-lo lançar um livro não me causa admiração. Causaria se ele se demorasse com isso, se delongasse ou procrastinasse esse projeto.

Vale lembrar que Brontops Baruq foi o ganhador do prêmio Hydra com o conto História com desenho e diálogos, também incluído nessa coletânea.

O grito do sol sobre a cabeça reúne dezenove contos. Poderia comentá-los um a um, destacando os melhores, mas sinto que isso seria um desserviço. Não é caso para avaliações individuais — mesmo porque incorreria no risco de dar spoilers que estragariam a surpresa do leitor. Vou me ater ao conjunto da obra, discutindo-o como um corpo só, porque, apesar de multifacetado, há uma amalgama poderosa que os une numa só alma.

Brontops Baruq desfia um rosário de distopias. Mas não é um distópico ordinário, não. Ele foge à regra carregando-nos numa prosa elaborada, como engrenagens bem azeitadas, até quando não há mais escapatória. Só nos damos conta do fim quando não podemos mais escapar dele. A tessitura muito bem engendrada confere um raro prazer à leitura.

Na orelha do livro há o parecer de Caio Silveira Ramos e ele destaca a ferocidade do autor, o deslumbramento de sua obra, a perturbação e a sensação de estranhamento que provoca. Concordo. Mas quando sugere que Brontops não faz ficção científica senão de passagem apenas para corrompê-la, ignora o óbvio. A ficção científica é a alma da obra — embora desfilem também o insólito e o surreal. Destarte as metáforas, as referências, as críticas sociais — que existem em qualquer obra mais comprometida seja de que gênero for.

Brontops Baruq mostra que faz parte de uma escola onde qualidade de prosa e literatura de gênero convivem magnificamente bem. Demonstra que forma e conteúdo só melhoram, só engrandecem a literatura fantástica.

A sombra do sol sobre a cabeça

Editora: Terracota
Gênero: Contos fantásticos
Formato: 14 cm x 21 cm
Páginas: 166

Alterego – Lido e comentado.

02/09/2010

A coletânea Alterego (Terracota Editora), organizado por Octavio Cariello traz um conjunto de vinte contos heterogêneos; mainstream, com um pé ou dois no fantástico e os assumidamente de gênero.

Talvez seja a coletânea mais equilibrada que li até agora. A maioria dos contos se estabelece nos patamares de avaliação “Bom” e “Ruim”, dividindo oito indicações cada uma. Três “Médio” e um “Eca!” a completam.

No caso dessa coletânea me sinto na obrigação de esclarecer uma coisa. Quando avalio alguns contos com um “Ruim” eu o faço seguindo os mesmos parâmetros que utilizo nas leituras de contos fantásticos. Ora, existem aqui alguns contos realistas e eles se diferem dos de FC / Fantasia / Terror, abrindo mão do enredo elaborado em benefício maior ou menor da forma. Assim, mesmo não me sentindo confortável em julgá-los, não creio que deva abrir mão de meus critérios avaliativos só porque se trata de um gênero e não do outro.

Isso poderá parecer injusto para alguns.

Mas que não se aborreçam esses autores, considerando minhas avaliações como uma experiência transgênero. Alguns contos assumidamente de gênero em Alterego também não atingiram nível satisfatório de qualidade.

1- Claudio Brites – Território –

Funcionário do metrô de São Paulo revela personalidade assassina oculta por verniz social que o torna respeitado e admirado pelos outros. Conto curto, com bom desfecho.

2- Valdo Resende – Jennifer, mamãe, é estéril –

Mineiro recém-chegado à capital interessa-se por morena sedutora. Flerte segue até que a morena cede aos encantos de Luiz Geraldo. Narrativa bem conduzida guarda um final bom mesmo que relativamente previsível.

3- Renato Lacerda – Fuga –

Homem perturba-se com sonhos recorrentes. Perseguições que o afligem. Pouca intimidade com a linguagem e condução fraca leva o leitor ao final previsível e insosso.

4- Albano Martins Ribeiro – Todos os luxos o lixo –

Adonis / Argemiro. Personagem alterna duas personalidades, cada uma vivenciando uma realidade distinta, mesmo que na mesma maloca, na mesma favela e com a mesma mulher. Boa condução onde a alternância de um para outro se dá com segurança.

5- Mario Carneiro Jr – O salteador noturno –

Adolescente magrelo se transforma em super-herói e tenta salvar a vida de mocinhas indefesas. Mas a condição que o tornou poderoso acaba se voltando contra suas próprias convicções e as mocinhas indefesas se tornam suas vítimas. Embora a ideia não seja ruim (até começa bem), a condução vai fraquejando até morrer sufocada na última linha.

6- Weberson Santiago – Ao vivo e em cores –

Programa de fofocas de TV acaba revelando mais do que o protagonista poderia supor. Não me conectei à história desde o início, lendo-a com um distanciamento que impediu qualquer tipo de avaliação mais efetiva. Achei o conto fraco.

7- Luciano Marques – O incrível Mccoy –

Western fantástico onde fora da lei possui características extraordinárias. Fui surpreendido com esse conto. Ideia interessante, boa condução e final previsível mas competente.

8- Roger Cruz – Seven boys e o enforcado –

Garoto que utiliza caminho alternativo para a escola acaba, mais tarde, surpreendido com um homem enforcado numa árvore. Narrativa apática, sem sal e sem razão. Não me disse absolutamente nada.

9- Weber Sauerbrown – Alterego –

Interno de manicômio dá escapadas onde vive outra personalidade. Conceito recorrente. Condução irregular.

10- Marcela Godoy – O guardião –

Carcereiro convive consigo mesmo, suas memórias, verdades ocultas e medos. O reflexo de si mesmo trazido à tona e expulso de forma dolorosa. Narrativa consistente e bem controlada.

11- Pedro Reichert – Algo anda nestas ruas –

Personagem caminha pelas ruas da cidade de madrugada e vê cenário de morte e desolação. Tentativa fracassada de criar clima de terror. Linguagem pouco hábil, repleta de erros de construção, transforma o conto num sacrifício de leitura.

12- Felipe Castilho – Saindo do armário –

Paciente que pensa que é super-herói nas horas vagas é tratado por médico que pensa que é herói em tempo integral. Sem novidades.

13- Patrícia Vieira – As ilusões que a madrugada traz – 

Vigia de condomínio fechado esconde verdadeira identidade para cumprir com objetivos criminosos. Como narrativa, legal, como manual para um assassinato, sem chances. O protagonista não ficaria um único dia livre depois disso. Mas gostei.

14- Brontops Baruq – O xadrez das mariposas –

Protagonista entediado e aborrecido relata a rotina cotidiana de uma cidade repleta de superpoderosos cujos poderes são concedidos burocraticamente através de cartas oficiais enviadas pelo correio. Narrativa que não esconde ironia nem sarcasmo na crítica social que realiza.

15- Thiago Pedrosa – A esperança é azul –

Personagem autodestrutiva se refugia na fantasia de ser um super-herói, acabando por sê-lo em momento dramático da história. Embora seja até comovente nas cenas que protagoniza, a história é clichê e não consegue fisgar.

16- Bruna Brito – Velhos amigos –

Quatro amigos se reúnem num bar para um encontro depois de certo tempo sem se verem. Ao final revelam as suas identidades ao leitor o que causa certo surpreendimento. Mas, fora isso, a narrativa é arrastada.

17- Alex Lopes – Redenção do inocente –

Narrativa relata o surgimento de um novo super-herói e a formação, a posterior, de uma espécie de liga da justiça. História clichê, amparada em centenas de outras que seguiram o mesmo argumento. Final bobo.

18- Gian Danton – Intangível –

Personagens com poderes correm a tentar salvar a vida de outro que não consegue controlar seu poder de intangibilidade. Conto relativamente curto, bem trabalhado, que consegue manter o ritmo e a atenção do leitor.

19- Guilherme Beltrami – A rosa –

Homens extrovertidos e populares mudam completamente depois de se relacionarem com Rosa. História de amor e traição elevada à enésima potência da chatice.

20- Octavio Cariello – Labirinto –

Criminoso recluso, vivendo uma vida postiça para fugir da lei corre o risco de ser escorchado por travesti. Clichê e previsível até a última linha.

Livros recebidos para leitura e comentários.

19/07/2010

Um querido e talentoso autor, a quem muito admiro, deixou-me, pessoalmente, essas preciosidades para leitura. Dois livros da Terracota e dois da Andross. Não vou negar que sempre tive vontade de ler os livros da Andross, as famosas coletâneas caça-níqueis, mas nunca tive coragem de investir um centavo que fosse na empreitada. Recebê-los, agora, foi, para mim, um grande prazer e a realização de um desejo.

Realizar desejos nem sempre é bom (cuidado com o que desejas, podes acabar conseguindo). Espero que eu não me arrependa.

Aguardem para breve meus comentários.

Terracota Editora – Última coletânea do ano.

09/11/2009

Cartas do fim do mundo

Para fechar o ano com chave de ouro, a Terracota Editora lança o livro Cartas do fim do mundo. Organizado por Claudio Brites e Nelson de Oliveira, o livro reúne treze cartas de autores novos e consagrados, escrita lá do fim dos tempos. Mais precisamente do dia 31 de julho de 2013 (data de aniversário deste blogueiro, que honra!), quando o mundo realmente terá seu fim.

Há ainda uma carta apócrifa e um artigo científico da Dra. Nicole Hudson, traduzido pelos organizadores, que trata dos documentos antigos de várias civilizações e de seus indícios sobre o fim dos tempos e sobre a data supracitada.

Os autores são: Moacyr Scliar, Raimundo Carrero, Marcelino Freire, Márcio Souza, Fausto Fawcett, Braulio Tavares, Xico Sá, Menalton Braff, Luis Dill, Luiz Bras, Marne Lucio Guedes, Brontops Baruq, Moacyr Godoy Moreira e Claudio Brites.

Texto da quarta capa:

Está escrito. O mundo vai acabar no dia 31 de julho de 2013. Entre meio-dia e 13h13, no horário de Brasília. Fim. Esqueça qualquer outra previsão que você já tenha visto, pois ela está totalmente errada. Acredite, esse é o dia (13), o mês (julho) e o ano (2013) do fim de nossa existência. Como será? Não há como saber. Os textos sagrados analisados não prevêem causas. Ao contrário, abrem um amplo leque de probabilidades catastróficas e deixam que a imaginação de cada um descubra os detalhes. E você sabe muito bem que bons e maus motivos para o fim não faltam.

Os manuscritos sagrados só falam que tudo vai acabar, e no instante final nós finalmente saberemos se a verdade é uma ilusão e se o tempo não existe. Nesse momento último, poderemos tocar o germinar de nossa existência. Ou, como fizeram os treze escritores aqui reunidos, enviar uma carta aos nossos antepassados contando como tudo terminou.

Como foi o fim do mundo.

Contos Imediatos – Editora Terracota

14/08/2009

Foi marcado o lançamento da antologia de ficção científica organizada por Roberto de Sousa Causo, chamada Contos Imediatos. Será em 28 de novembro de 2009, das 15 às 18h30, na Livraria Martins Fontes (Alameda Jaú, 1742) em São Paulo. Os autores – todos convidados – são: Luiz Brás, Ataíde Tartari, Sidemar V. de Castro, Ademir Pascale, Miguel Carqueija, Tatiana Alves, João Batista Melo, Chico Pascoal, André Carneiro, Jorge Luiz Calife, Mustafá Ali Kanso e este que vos escreve. Além destes autores, a antologia terá um ensaio sobre FC e FC brasileira assinado por Ramiro Giroldo, doutorando na Universidade de São Paulo.

Antes que me perguntem ou se questionem, os autores não estão concorrendo com nenhuma ajuda financeira compulsória a título de cooperação com esta antologia. Todos foram convidados e estão recebendo compensação pela participação, sinal mais do que claro de que ainda é possível enxergar alguma luz no fim do túnel.