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Baudelaire no Cassino do Chacrinha.

07/09/2009

Charles_Baudelaire Chacrinha_

Qual a diferença entre Baudelaire e o Chacrinha? Ah, muitos dirão que as diferenças são gigantescas, que de tão profundas, um e outro não se vêem, não se dão a conhecer. Outros darão risinhos divertidos imaginando que há nesta pergunta alguma pegadinha.

Mas não. Não há pegadinha nenhuma.

Tanto o poeta quanto o comunicador foram mestres do entretenimento.

— Ah? Como é? Baudelaire era um entertainer? Você está gozando da minha cara! Jamais que aquele poeta maravilhoso teria sido um entretenedor! – Você me dirá, entre risos e expressões de incredulidade, ainda achando que estou a promover algum chiste.

Pois é. Se Baudelaire vivo fosse, com certeza admitiria. Principalmente ele, boêmio, de uma ironia ímpar, bom vivant e prematuramente falecido.

Pois entreter é dar aos leitores, ou telespectadores, ou ouvintes, ou admiradores (ou, ou, ou…) o prazer da nossa arte. O prazer que qualquer arte bem executada – e até por vezes mal, tem gosto pra tudo – provoca nas pessoas.

Entreter é para poucos. Os que não conseguem, por se esconderem atrás de hermetismos obscuros e inextricáveis (mesmo esses têm meia dúzia que os agrada com rapapés hipócritas), esses olham para o lado de lá, onde platéias aplaudem entusiasticamente seus ídolos e os maldizem. Fecham o semblante para qualquer coisa que desmistifique a arte que elaboram ou a arte que vêem elaborar.

Quem afirmar categoricamente que não pode se entreter com Camus, ou Joyce, ou Tagore, ou Machado de Assis, deve estar morrendo de alguma doença degenerativa do cérebro.

Se se lê com prazer, com alegria e satisfação, então se entretém. Seja um autor canônico, seja um autor popular. Ambas as formas atendem pelo nome de Literatura (Concordo que listas de compras, bulas de remédio e placas de “compra-se ouro”, entre outras, não se enquadram nessa categoria). E ambas entretém na exata medida do que oferecem, se considerando que a uma se admite um entretenimento mais elevado ou intelectualizado e ao outro um entretenimento mais superficial, mais descompromissado; respeitando-se, sempre, os gêneros a que pertencem.

Fala-se muito nas fronteiras que delimitam gêneros; fala-se que a literatura canônica não é a mesma de entretenimento, mas se ignora que para entreter basta agradar. Quem não se agrada com uma leitura, não se entretém com ela. Só nesse caso posso conceber a idéia de uma literatura “não-entretenedora”. E só nesse.

Portanto, literatura é entretenimento? Para mim, Sim. Absolutamente, sim. Por excelência, sim.

Claro, poderíamos, todos, perguntar ao pó, se o pó pudesse nos responder. Como não há essa possibilidade, só nos resta imitar o Velho Guerreiro: “Alô, Alô, Baudelaaaire…Você quer bacalhau?”

Gênero X Mainstream

31/08/2009

graal1 A cartuxa de parma

Na postagem de Ficção de Polpa 3 – Comentários – 1ª parte, surgiu um assunto na caixa de comentários que acabou se alargando, tomando forma e ganhando matéria própria.

A discussão sobre literatura de gênero e mainstream, sobre como se classificam, como são compreendidas e, decerto, como se entrechocam nas opiniões nem sempre convergentes dos comentaristas.

Saint-Clair Stockler acabou fazendo um comentário extremamente valioso sobre o assunto e achei que valeria a pena trazê-lo, melhor estruturado, para a página principal desse blogue, dando a todos a oportunidade de lê-lo e discuti-lo a vontade, como se estivéssemos, todos, numa aprazível mesa de bar.

Saint-Clair

“A fronteira entre os gêneros não é tão delimitada quanto a gente pretende (o ser humano gosta de ver tudo certinho, compartimentalizado, mas na vida e na teoria da literatura, não é assim…) Portanto, algumas vezes, raras vezes, raríssimas, uma obra pode ser considerada como mainstream e não-mainstream ao mesmo tempo. Um exemplo? O Senhor dos Anéis. Vou voltar a isso.

No exemplo dado, acho que o livro do Cornwell seria, ainda assim, considerado de gênero. Por quê? Porque ele, mesmo escrevendo corretamente, mesmo tendo certa preocupação com a forma, está muito mais preocupado com os lances episódicos, com a aventura, com contar uma história cheia de eventos. Ele quer entreter e não “fazer literatura”. Essa é a questão interna, inerente à obra. Mas há também uma questão externa. E a questão externa não tem muito a ver com a obra em si, tem a ver com a recepção que ela suscita: os livros do Cornwell não são aceitos pelo Cânone como pertencentes à literatura mainstream. O Cânone é o conjunto de pessoas e pensamentos que, de uma forma ou de outra, ditam as “regras” não-escritas que aceitam ou não uma obra como fazendo parte do mainstream. É formado por professores universitários, críticos, uns tantos quantos escritores, jornalistas, etc. Gente que têm algum poder e influência para “elevar” ou não um autor, uma obra, à posição de literatura “canônica”, digna de ser lida, estudada, comentada, largamente difundida nas universidades, e passando a pertencer, em algum momento, do rol das obras clássicas.

Podem alegar que Tolstoi escreveu Guerra e Paz, um livro cheio de lances, de aventuras, de acontecimentos; que Stendhal escreveu A Cartuxa de Parma, outro livro cheio de acontecimentos, duas obras que, embora tenham preocupação com a forma, não a privilegiam em detrimento do conteúdo, e, mesmo assim, não são considerados autores de ficção de gênero (ao contrário, são dois dos maiores e mais legítimos exemplares da literatura clássica). Então, por que Bernard Cornwell é? Há uma série de razões, estamos aqui pisando em terreno movediço, mas arriscaria dizer que o que diferencia os dois primeiros do último é que, entre outras coisas, eles tiveram uma preocupação psicológica e sociológica em suas obras que Cornwell não teve, que nenhuma ficção de gênero tem habitualmente (mas toda exceção tem suas regras). Isso que falo sobre a presença de psicologia e sociologia não tem nada a ver com obras herméticas, difíceis de entender, cheias de termos científicos (até porque Tolstoi e Stendhal são bem de antes da “invenção” da psicologia e da sociologia!). Cornwell quer contar uma aventura e entreter o leitor – ponto. Stendhal e Tolstoi também querem, mas essa aventura também vai até ao espírito dos seus heróis, ao íntimo, e quer, de alguma maneira, fazer o leitor refletir mais seriamente, mudar alguma coisa dentro dele.

Além disso, Tolstoi e Stendhal são escritores mainstream porque o Cânone disse que eles eram, ponto final. E até o momento, não se passou a considerar o Cornwell como sendo um escritor canônico.

Então, resumindo: não é só o conteúdo e/ou a forma que diz que uma obra é digna de fazer parte do Cânone; não é algo inerente a ela. É o próprio Cânone quem escolhe os seus eleitos, quem diz: “Tu és digno de vir sentar-te à minha direita”, meio como Jeová.

Veja bem: é raro, mas pode acontecer de um livro ser encarado como mainstream e passar, de repente, a ser encarado como ficção de gênero e vice-versa. Um exemplo? A novela A invenção de Morel, do Bioy Casares, foi desde o início tida como uma obra artística perfeitamente canônica, de um dos maiores autores argentinos. Mas de uns tempos pra cá, e cada vez mais, tem gente dizendo que ela é, também, uma obra de ficção científica. O Poe, por exemplo, no início, quando ainda era vivo, andando bêbado pelas ruas da Filadélfia em busca de um trago, era mais um escritor de gênero (não havia ainda essa concepção naquela época, mas era isso o que ele era) e depois da sua morte, e a partir da importância que Baudelaire deu a ele na França, traduzindo seus textos e escrevendo ensaios sobre ele, promovendo seu nome, passou cada vez mais a ser um mestre da Literatura com “L” maiúsculo, respeitado e incontestado, até ser completamente deglutido pelo Cânone.

Quero dizer que não estou 100% seguro de que as razões acima-expostas sejam todas as razões que há para dar conta desse enigma do por que algumas obras “são” e outras “não”. Escrevi isso sem ir à estante, sem evocar os Mestres e/ou as Teorias. É meio que uma conversa de bar, ao sabor da pena (quer dizer, do teclado). Seria legal se alguém viesse apontar as minhas falhas conceituais, se as houver. Mas me parece que mais ou menos é isso aí.”


Pedro Moreno

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