Posts Tagged ‘Erick Santos’

E bota diesel na máquina!

20/10/2010

Há poucos dias Gerson Lodi-Ribeiro tornou público por email e dentro de alguns fóruns direcionados ao gênero, uma chamada de submissão para uma nova coletânea a ser publicada pela Editora Draco. A exemplo de Vaporpunk, recentemente publicada, vem agora o Dieselpunk. Trata-se, aparentemente, de uma evolução natural que deverá nos conduzir à uma coletânea Cyberpunk assim que essa atual for lançada (isso é um chute e não uma antecipação editorial…rs).

Não participei de nenhuma dessas coletâneas voltadas à temática punk. Ou por estar ocupado demais com outros projetos ou por descobrir que os deadlines eram próximos demais, me roubando qualquer possibilidade de produzir um trabalho verdadeiramente bom.

Mas já estou trabalhando para a Dieselpunk. Deverei terminar meu conto bem antes do prazo final, sem correrias nem atropelos (e acabo contrariando minha postagem anterior, onde digo que trabalhar com prazos apertados deixa qualquer projeto mais emocionante).

Se vocês também tem interesse em participar, cliquem nesse link aí em baixo:

http://www.4shared.com/document/eRNpjGr8/Guidelines_da_Antologia_DIESEL.htm

Tem tudo pra ser um sucesso, como o foram as obras antecessoras. As batutas de Gerson Lodi-Ribeiro e da Editora Draco só deixam as coisas ainda melhores.

E boa sorte.

Imaginários volume 3 – Lido e comentado

31/08/2010

Foi com enorme prazer que recebi da Draco Editora o terceiro volume da coleção Imaginários. Com a recomendação do Erick “Draco” Santos para ler e comentá-lo com a mais absoluta sinceridade. Claro que fiquei meio ressabiado. Temeroso de que uma avaliação negativa pudesse queimar meu filme na Editora.

O Erick, porém, reafirmou o desejo de uma leitura e de uma avaliação sinceras, como é de praxe ocorrer no É só outro blogue.

Eduardo Spohr, Marcelo Ferlin Assami, Rober Pinheiro, Douglas MCT, Lidia Zuin, Marcelo Galvão, Cirilo S. Lemos, Fernando Santos de Oliveira, Ana Cristina Rodrigues e Fábio Fernandes desfilam seus trabalhos em quase 130 páginas.

Assim como algumas leituras anteriores me fizeram criar categorias como Duplo Eca! e Triplo Eca!, encontrei nas páginas desse livro um conto que me forçou a criar a categoria Duplo Uau! E isso me deixou muito feliz, acreditem. Não há coisa melhor do que ser arrebatado por uma leitura.

Vamos aos contos e aos meus comentários:

1- A torre das almas – Eduardo Spohr

Não conheço o livro de sua autoria A batalha do apocalipse, mas me parece que esse conto percorre o mesmo universo. Guerra de anjos contra anjos, com a ajuda de humanos. O conto tem um bom ritmo e cenas consistentes.

2- Breve relato da ascensão do Papa Alexandre IX – Marcelo Ferlin Assami

Esse conto me criou algumas dificuldades. Numa primeira leitura me senti meio perdido, sem referências. Comentei isso com o Erick e ele me disse que o conto merecia uma segunda leitura. Li novamente. Eu o considero bem escrito, com descrições e algumas imagens que surpreendem, mas senti falta de uma pedra angular que a tornasse mais sólida. Não tenho nada contra narrativas não lineares, desde que eu encontre nelas um fio condutor que me possibilite uma leitura sem dúvidas excessivas. Minha leitura se deu com desconforto. Faltou um contato mais efetivo entre eu e a trama. 

3- As noivas brancas – Rober Pinheiro

Quem tentar comparar o conto dele publicado na coletânea UFO (De amizades e restos de Sol) com esse, vai enxergar um abismo separando-os.

Uma história de resgate numa aventura Space Opera, cheia de ação, descrições elaboradas, cenário e ritmo bons. Muito bem escrito.

4- Bonifrate – Douglas MCT

Demorei um pouco a me adaptar à prosa um tanto quanto sui generis do Douglas (estilo próprio ou ainda procurando um?), mas acabei mergulhando de cabeça numa bela narrativa. FC ou fábula, com direito a Gepetto e Pinochio (figuradamente), a idealizações pré-programadas, lutas e busca por respostas.

5- Dies Irae – Lidia Zuin

Uma história Cyberpunk com bom ritmo e muito bem escrito. Só achei que o cenário e a ambientação são recorrentes, tirando dela qualquer pretensão de originalidade.

6- Vida e morte do último astro pornô da Terra – Marcelo Augusto Galvão

Já havia lido esse conto na comunidade de Ficção Científica do Orkut, em prêmio literário realizado. O Marcelo me disse, no Fantasticon, que acrescentou algumas coisas. Minha opinião não mudou. Continuo achando o conto ótimo.

7- Corre, João, corre – Cirilo S. Lemos

Fui surpreendido por esse conto. Achei-o comovente. Uma belíssima narrativa onde um pai procura defender com unhas e dentes… A alma do filho. Trata-se de uma verdadeira aula de como imprimir emoção num texto. Arrebatador.

8- Uma segunda opinião – Fernando Santos de Oliveira

Estudante traída resolve, com ajuda de uma misteriosa figura, se vingar daqueles que a traíram. Trata-se de uma mistura de Sessão da Tarde, Betty a Feia e horror trash. Trama sem nenhuma novidade; aborrecida. Muito fraco.

9- Maria e a fada – Ana Cristina Rodrigues

Trata-se de um conto belo, com ótima ambientação. Por outro lado, tem o ritmo prejudicado por certa apatia que afasta da história o sentimento. Sem emoção, ele corre num ritmo fluído, mas frio.

10- O primmeiro contacto – Dr. Eleutherio Penna Filho (Fábio Fernandes)

Hipotético conto resgatado do passado (1929) e escrito por autor não satisfatoriamente identificado. Escrito com a grafia original da época, o que a torna especialmente interessante. Guerra dos mundos em realidade alternativa rica em citações, batalhas espaciais e uma tremenda vontade de querer ler mais. Que essa história tenha um prosseguimento. Muito envolvente. 

Nada como um sopro de ar fresco depois de longa imersão nas águas profundas e poluídas de algumas coletâneas de valor discutível. Pela somatória de avaliações eu dou ao Imaginários 3 um , chegando bem perto de um . Parabéns a todos os autores e ao Editor Erick Santos pela excelente organização. A continuar assim, teremos uma coleção primorosa ainda pela frente.

Imaginários 3. A continuação da saga.

11/08/2010

Belíssima capa!

Quando a saga Imaginários começou nem se chamava assim. Tinha uma proposta diferenciada e tentava reunir os melhores autores da época, coisa que conseguiu. Mas tropeçou na falta de editora – que pulou fora, de repente – e dormiu na gaveta por alguns meses. Isso até que Martha Argel me contatasse dizendo do interesse de um novo editor por contos ou coletâneas.

Foi assim que conheci Erick Santos e a Editora Draco.

Apresentei-lhe o projeto que estava em criogenia e ele se interessou de imediato. Começamos a negociar e trocar propostas sobre capa e título, e, logo, tínhamos um produto nas mãos.

Lançado, mostrou força ao receber resenhas elogiosas em sua maioria, validando as obras e seus autores. Resultado do trabalho de equipe na busca do melhor.

Como um filho que atinge a maioridade, a saga Imaginários alcança o terceiro volume, esse organizado inteiramente por Erick Santos. Mas é uma espécie de rebento que tomo como meu, também, já que trabalhei na sua realização e crescimento. Vejo-o hoje sob a batuta de novos mestres, mas com uma carinha que não nega o pai (ou os pais, incluindo aí Saint-Clair Stockler e Eric Novello).

Parabéns aos organizadores anteriores (incluindo-me a mim mesmo… rs), parabéns à Editora Draco, parabéns a Erick Santos e parabéns a todos os autores que trilharam, trilham e ainda trilharão essa saga. Fazem parte de um projeto que nasceu para ser grandioso.

Release:

Grandes e novos autores exploram infinitos imaginários nesta coletânea da Editora Draco. A coleção Imaginários trará, a cada volume, contos inéditos que explorarão o fantástico em todas as suas variantes, contando histórias de ontem, de hoje, de amanhã e – por que não? – de nunca.

Neste terceiro volume da coleção IMAGINÁRIOS da Editora Draco organizado por ERICK SANTOS CARDOSO, os autores EDUARDO SPOHR, MARCELO FERLIN ASSAMI, ROBER PINHEIRO, DOUGLAS MCT, LIDIA ZUIN, MARCELO GALVÃO, CIRILO S. LEMOS, FERNANDO SANTOS DE OLIVEIRA, ANA CRISTINA RODRIGUES e FÁBIO FERNANDES desafiam as fronteiras do real e apresentam excelentes histórias de fantasia, ficção-científica e terror.

É hora de começar a viagem. Prepare-se para uma aventura inesquecível da primeira à última linha, numa coletânea que é um sopro de frescor no panorama da literatura fantástica nacional.

Meu amor é um vampiro – Coleção Amores proibidos

26/04/2010

Essa coletânea organizada pelo Eric Novello e pela Janaína Chervezan me pegou de surpresa. Foi um segredo rigorosamente guardado a sete dentes.

A Editora Draco vem surpreendendo também com bastante agressividade, lançando livros a mão cheia e conquistando um respeito que muitas outras editoras levam bem mais tempo para conquistar. Diga-se de passagem que a Editora Draco está no mercado a pouquíssimos meses.

Gostei do argumento, gostei da capa (tem quem não tenha gostado, mas não podemos negar que ela é dirigidíssima aos seus leitores potenciais. Tem uma linguagem própria eficiente e com certeza atingirá seu público-alvo com pontaria certeira) e é possível que goste bastante dos contos. Vou lê-los todos e os comentarei depois aqui no blog.

Ah, tá. Vou ser um pouquinho chato, então. Com relação à capa. Os lábios da garota estão estranhos. Parecem ter sido artificialmente “inchados” no Photoshop. Ficou muito esquisito.

Fiquei sabendo que a boca da menina é assim mesmo, carnuda. Peço desculpas a ela…rs… e solicito mais fotos para confirmar as alegações do Erick…rsrs 🙂

***

Essa coleção vem mostrar que o amor verdadeiro vence todas as barreiras e pode fazer pessoas muito diferentes descobrirem que tem algo em comum, mesmo quando o coração de uma delas não bate há séculos.

Apaixonar-se não é nada fácil. Rola ansiedade, expectativa e muito nervosismo no primeiro encontro e no primeiro beijo. Imagine então quando o pretendente é um vampiro.

Pode ser um bem tradicional de capa e longos caninos, um sombrio e misterioso que aparece de repente na sua janela ou um aventureiro de moto e calças jeans, louco para te levar em um passeio inesquecível. Nesses casos, a adrenalina é ainda maior!

Nas perigosas páginas de Meu Amor é um Vampiro você conhecerá histórias fantásticas das melhores autoras de literatura vampiresca nacional, repletas de casais apaixonados e situações surpreendentes. Mas não pense que tudo são flores e caixas de bombom, afinal de contas, encontrar o par perfeito pode revelar terríveis surpresas.

Proteja o pescoço e marque um encontro com histórias que vão do romance ao susto, do suspense ao riso, numa leitura com beijos de tirar o fôlego.

Quem nunca se apaixonou que enfie a primeira estaca.

***

Essa coletânea tem o prefácio da dama morcega Giulia Moon, uma das maiores escritoras brasileiras dentro do gênero de terror vampiresco.

Conheça as autoras:

Adriana Araújo

É uma criatura estranha com idéias esquisitas. Cria histórias em tempo integral e estuda Química na UFMG para se distrair. Já publicou contos nas coletâneas Pacto de Monstros (2009) e Paradigmas 4 (2010) e mantém os sites de tirinhas Bram & Vlad, sobre vampiros, clichês e coisas da vida e Periódicas, onde a Química ri. Seu lema de vida é “não se leve tão a sério”.

Ana Carolina Silveira

É advogada, blogueira, leitora inveterada e escritora eventual, não necessariamente nesta ordem. Tem residência variável, sendo a atual Belo Horizonte-MG. Jogou muito Vampiro: A Máscara durante a adolescência e até  hoje tem uma quedinha por Lestat de Lioncourt.

Cristina ‘Tziganne’ Rodriguez

Tem alma e vida de cigana. Muda incessantemente, procurando descobrir algo de novo no mundo que a cerca. Romântica, acha que o amor supera tudo, inclusive vampirismo. É casada e tem um filho. Dedica-se a escrever e a tentar cuidar de plantas, sem muito sucesso. ‘O vermelho do teu sangue’ é seu primeiro conto publicado. Para saber mais sobre ela, visite: http://tziganne.blogspot.com

Giulia Moon

É paulistana, formada em publicidade e propaganda pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). Já foi diretora de arte, ilustradora, diretora de criação e sócia de agência de propaganda. Giulia tem três coletâneas de contos publicadas: Luar de Vampiros (2003), Vampiros no Espelho & Outros Seres Obscuros (2004) e A Dama-Morcega (2006). Em 2009, lançou o seu primeiro romance, Kaori: Perfume de Vampira. Participou das coletâneas Amor Vampiro (2008), Território V (2009), Galeria do Sobrenatural (2009) e Imaginários Vol. 1 (2009).

Helena Gomes

É jornalista, professora universitária e autora dos livros de ficção Assassinato na Biblioteca, Lobo Alpha, Código Criatura, Kimaera – Dois mundos, Nanquim – Memórias de um cachorro da Pet Terapia (infantil), O Arqueiro e a Feiticeira, Aliança dos Povos e Despertar do Dragão (os três últimos da saga A Caverna de Cristais). É também coautora da não-ficção Memórias da Hotelaria Santista (1997). Publica contos em sites, antologias e revistas. Mais sobre seu trabalho em http://mundonergal.blogspot.com

Nazarethe Fonseca

Nasceu em São Luís, Maranhão. Começou a escrever aos 15 anos, após um sonho que se tornaria seu primeiro livro, uma trama policial. É autora da saga Alma e Sangue, iniciada com O Despertar do Vampiro e que prossegue em O Império dos Vampiros. Escreveu também Kara e Kmam, e publicou contos nas coletâneas Necrópole: Histórias de Bruxaria e Anno Domini.  Mora atualmente em Natal, Rio Grande do Norte. Seu e-mail de contato é almaesangue@gmail.com.

Regina Drummond

É mineira e mora em Munique, Alemanha. Apesar da sua formação de professora, nunca deu aulas, mas sempre trabalhou com literatura. Autora de muitos livros, tradutora e contadora de histórias, fala alemão, inglês e francês. Já ganhou alguns prêmios e destaques, sendo o mais importante o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, como editora. Escreve ainda para jornais e revistas, nacionais e internacionais. Entre seus livros, destacam-se “Destino: Transilvânia” (Ed. Scipione); “Sete Histórias do Mundo Mágico” (Ed. Devir); “O destino de uma jovem maga” e “Histórias de Arrepiar” (Giz Editorial); “O Passarinho Rafa”, (Ed. Melhoramentos). Para conhecer seu trabalho, acesse a homepage www.regina-drummond.de

Rosana Rios

É autora de Lit. Fantástica, Infantil, Juvenil. Em 22 anos de carreira produziu ficção, teatro, roteiros (TV e quadrinhos), Publicou mais de 100 obras e recebeu os prêmios: Cid. de Belo Horizonte (1990), Bienal Nestlé de Literatura (1991), Prêmio Abril de Jornalismo (1994), Menção Altamente Recomendável da FNLIJ (1995, 2006) e foi finalista do Prêmio Jabuti (2008). Mora em São Paulo com a família, uma enorme biblioteca e uma coleção de dragões. Site: http://www.segredodaspedras.com.
Blog: http://rosanariosliterature.blogspot.com.

Valéria Hadel

Nasceu na capital do Estado de São Paulo. É descendente de húngaros e romenos, o que de certa forma explica sua familiaridade com vampiros. Graduou-se em biologia, fez pós-graduação em ecologia e zoologia, e mora em São Sebastião, litoral norte do Estado, desde 1984, quando foi trabalhar no Centro de Biologia Marinha da USP. Sua área de atuação é a pesquisa e o ensino em ecologia e educação ambiental marinha e costeira. No quintal da sua casa moram cinco vira-latas, um dos quais é personagem do conto que escreveu para esta coletânea.


ISBN: 978-85-62942-09-9

Gênero: Literatura Fantástica
Formato: 14cm x 21cm
Páginas: 160
Preço de capa: R$ 31,90

De Bar em Bar ENTREVISTA Erick Santos

03/12/2009

O pó em suspensão era abundante. O chão tremia como se terremotos sucedâneos se abatessem. Gritos ferozes retumbavam; guinchos, uivos, bramidos. Árvores arrancadas pelas raízes voavam para todos os lados. Rochas maciças rolavam, chocavam-se, partiam-se em milhares de fragmentos. Mesmo assim pude ouvir o canto do Manon, como se tudo aquilo, a desgraça e o terror, não fossem mais que momentâneos. Como se na singeleza de seu canto pudessem evanescer os infortúnios que se abatiam sobre solo nipônico.

Escondi-me num vão entre rochedos. Distante da contenda, mas perigosamente próximo dado a gigantesca estatura dos monstros que se enfrentavam.

— Godzilla – murmurei admirado. – Megalon – completei com não menos admiração. Olhei para o relógio quântico, verifiquei as horas e vi que estava atrasado. Não estaria se tivesse me posicionado mais perto do bar. Precisava correr e o fiz. Contornei monturos, rastejei por baixo de escombros, sempre com a impressão de que, em pouco tempo, os monstros cairiam sobre mim. Foi quando adentrei numa ravina, que vi o bar. Estava a uns cento e cinquenta metros de distância.

Corri feito um doido. Abri a porta, esbaforido, e entrei fechando-a atrás de mim.

Silêncio. Nada, a não ser o marulhar pacífico de um aquário onde carpas nadavam tranquilamente. Erick Santos, editor da Editora Draco, estava sentado diante do balcão. Comia sashimi e sorria, ora para mim, ora para a japonesinha de kimono multicolorido que o atendia tão solícita.

Aproximei-me devagar. O coração ainda aos saltos. Na garganta o gosto do pó.

— Demorou – comentou Erick, expressão radiante, cabelos em desalinho, roupa empoeirada, dando um gole parcimonioso no conteúdo de uma pequena vasilha. – Está servido?

— Você viu o que está acontecendo lá fora? – perguntei, ainda sem fôlego.

— Passei por eles há coisa de meia hora. Tive vontade de pedir autógrafos, mas fiquei na dúvida se havia gente dentro das fantasias ou se eram reais mesmo.

— Melhor não facilitar – respondi, sentando-me ao seu lado. Apontei a vasilha e inquiri sobre o conteúdo.

— Saquê. Essa pequena vasilha se chama ochokos e a maior, que a japonesinha está segurando chama-se tokkuri.

Ela me serviu. Virei o conteúdo inteiro na boca. Senti minhas faces se avermelharem e minha garganta se transformar numa fornalha. Observei rapidamente a decoração. As paredes eram ornadas com quadros de paisagens, a maioria exibindo o monte Fuji, cerejeiras e lagoas com carpas. Não era um bar muito grande. Sua área se estendia por duas dezenas de metros, subdividida por biombos de papel de arroz, quase transparentes de tão diáfanas. Dentro desses reservados havia mesas e cadeiras à moda ocidental.

Na minha frente o sushiman filetava salmão.

— Você é um bom conhecedor da cultura japonesa, não é? – perguntei.

— Estudei japonês por 10 anos, formalmente. Até hoje leio e estudo esporadicamente, pra ler mangás e jogar videogames. No site gamedreamz.com cheguei a fazer resenhas de games japoneses. Conheço bastante do cotidiano, se é que alguém pode conhecer uma cultura através de sua produção pop. No mínimo, sei o que idealizam e buscam. A narrativa japonesa, desde o cinema e teatro kabuki até os mangás e games, é uma área pela qual me interesso muito, assim como o costume de segmentação extrema dos produtos deles. Sou apaixonado pelo Japão, mas não tive oportunidade de visitá-lo ainda.

— Então cenários como esses, com monstros e heróis japoneses não lhe são absolutamente estranhos. Mesmo os anteriores ao seu tempo – continuei.

— Conheci todos quando era adolescente, dos 15 aos 18, quando fiz parte de um grupo de divulgação japonesa, o Hero Magazine. Fizemos mostras de vídeo até no MIS de SP, interagimos com outros grupos de fãs da época e escrevi meus primeiros artigos jornalísticos na revista Heróis do Futuro e futuramente um para a Folhinha de São Paulo. O grande negócio da época era o Saint Seiya, Os Cavaleiros do Zodíaco, responsáveis por reviver o interesse da mídia mainstream nos animes. Os seriados live-action sempre fizeram parte da saudosa Rede Manchete. Depois a TV Bandeirantes e até a TV Globo entraram nessa. Hoje em dia a televisão por assinatura dá muitas opções, as editoras de mangás são uma realidade sólida, um mercado que por muito tempo viveu da ação de fanzines e pirataria editorial. O público que tem hoje 15 anos tem muitas opções, incluindo a rede — algo inconcebível pra mim na época –, que não dá pra pensar que isso tudo era tão diferente há 15 anos. As coisas se transformaram rápido demais.

— É mesmo – concordei sem pensar muito. Já estava na terceira vasilha ou ochokos de saquê e o que era fogo líquido ia se transformando devagarzinho num delicioso tranquilizador. Nem as imagens terríveis do embate entre Godzilla e Megalon me assustavam mais. Elas pareciam flashes distantes, de um episódio antiquíssimo, adormecido nas brumas do tempo.

— Como e onde essas influências o transformaram de artista ou editor de mangás eróticos – aliás, fale um pouco sobre isso – em editor de livros, mais especificamente em literatura de gênero?

Erick engoliu com calma o sashimi, bebeu mais um gole de saquê e, limpando a boca com um guardanapo, virou-se para mim a tempo de ver a porta de frente do bar sendo aberta violentamente e entrarem por ela sete homens convulsionados, empunhando katanas e gritando como se perseguissem alguém – ou fossem perseguidos.

— Toshiro Mifune! – exclamou Erick, vendo-os desaparecer pelos fundos do bar.

— Akira Kurosawa, Os sete samurais – murmurei. Olhei para o relógio e pensei se não estava acontecendo mais alguma discrepância quântica, a exemplo do que ocorrera durante a entrevista com o Xerxenesky. Não me surpreenderia se Spectreman irrompesse também ali, derrubando algumas mesas. Eu havia programado uma entrevista calma e sossegada num bar oriental. Não previra lutas entre colossos do cinema catástrofe japonês, nem aparições perigosas de homens enlouquecidos brandindo espadas.

Olhei para Erick e ele estava eufórico. Sem dúvida se divertia muito com tudo.

— Cara, essa entrevista está sendo demais! – e, então, centrando a atenção no assunto discutido, continuou. – Fui artista de mangás eróticos, a publicação foi mais autoral que editorial. Como artista, fiz muitos contatos e amigos na internet – inclusive, da minha atuação no Samaco Hentai, veio o convite para ser ilustrador do gamedreamz.com. Mas foi de um sonho de publicar as coisas em que acreditava e amava que surgiu a Editora Draco. Gosto muito de quadrinhos, dos adultos aos infantis, e os lia muito mais que literatura propriamente dita. Porém, mesmo no cinema, games e quadrinhos, fantasia e ficção científica sempre me atraíram. A minha experiência em uma editora – trabalho na Editora Globo –, com uma equipe de pessoas competentes e apaixonadas, deu-me a dimensão do que é o mercado; como se fazem livros e o que significa a palavra “editar”. Hoje me considero mais editor que artista, pois admito que trabalho melhor junto aos talentosos e aos criativos para construir produtos, do que sozinho.

— Consegue imaginar a Editora Draco no futuro?

— Ah, imagino uma editora presente por todo o Brasil, com os maiores autores de literatura de gênero encabeçando esse sonho. Vejo fantásticos álbuns em quadrinhos e livros que possam estar na mão de todos os tipos de leitores, não apenas dos aficionados. Vejo a literatura de gênero nacional fazendo as pessoas se emocionar e esperarem ansiosas pelos próximos volumes de séries de sucesso. Mas divulgando e lançando constantemente novos autores, que não dependerão mais de autopublicação para ter edições de respeito e uma chance com os leitores.

— Pode adiantar alguma coisa sobre os projetos da editora para os próximos meses? – Fiz a pergunta com um pouco de pressa. Até aquele momento o bar não parecia sofrer as consequências da luta titânica que acontecia do lado de fora. Mas um tremor constante e cada vez mais intenso me punha de sobreaviso.

— Temos cinco romances de autores nacionais, iniciantes e veteranos. Temos também a Imaginários 3 e 4, com contos muito bons, também com grandes e novos autores. Além da Coleção Imaginários, temos três coletâneas temáticas em andamento – Vaporpunk e Brinquedos Mortais entre elas -, além de outras duas coletâneas, mas essas autorais.

— Ao que parece, bastante trabalho num esforço admirável para formar catálogo e construir imagem. Erick, a entrevista está pronta. Não tenho mais nada para perguntar. Acho melhor irmos embora.

— Ah, mas ainda não acabei meu sashimi. E o saquê está delicioso. Oras, chegamos ainda há pouco! – protestou, dando uma olhada de relance na japonesinha que bamboleava o bumbum naquele kimono tão sensual e colorido.

Os ochokos já chacoalhavam sobre o balcão. Um sushi escorregou para fora do prato e caiu aos nossos pés. O Sushiman largou facas e saiu correndo. Sugeri fazer o mesmo, mas Erick estava fascinado demais para me ouvir. A atenção dele se concentrava todinha no teto do bar, que em instantes foi arrancado. Acima de nós, ameaçador, estava Godzilla. Abriu a bocarra imensa e, além do mau hálito terrível, despejou um jorro de vômito nuclear, destruindo tudo.

Por sorte eu apertei o botão do relógio instantezinhos antes disso.