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A Fantasia brasileira vai bem, obrigado. Mas e a FC, como está?

30/01/2013

Capas Livros FC e Fantasia

A discussão FC x Fantasia não é nova, mas é sempre produtiva. O que vemos hoje no Brasil é uma quantidade de publicações de livros de Fantasia que ultrapassa a de Ficção Científica em muito (10 para 4, segundo estatísticas que me foram fornecidas por Cesar Silva, editor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica).

Mas, onde está a questão?

Parece-nos bastante óbvio que seja assim. Afinal, obras de Fantasia são mais assimiláveis. Não obrigam o leitor a acompanhar — via de regra — longas e exaustivas explicações científicas, nem a ter conhecimento — mesmo que básico — de nada que se aproxime de tecnologia e ciência. Leis simples como as da gravidade são comumente desafiadas e vencidas. Nossos autores fazem com que todos os grandes obstáculos sejam suplantados com abracadabras, com pitadas de pó de pirlinpinpin, efeitos sobrenaturais inexplicáveis ou poções e encantamentos diversos. Gestos grandiloquentes fazem surgir tempestades, piscar de olhos movem montanhas.

Vilões e mocinhos se enfrentam numa tempestade coruscante de efeitos especiais, transformam e transmutam com uma sem-cerimônia tão banal quanto encantadora. E os personagens secundários, humanóides ou não, sucumbem diante de tantos poderes, arrasados, fragmentados, pulverizados.

Não temos no Brasil autores como Susanna Clarke, Ursula K. Le Guin, Fritz Leiber ou Patrick Rothfuss. Boa parte de nossos esforçados autores de Fantasia estão muito mais para J.K. Rowlings recauchutadas ou J.R.R. Tolkiens de calças curtas, exceção feita a poucos e talentosos autores que conseguiram fugir do lugar comum e desenvolver universos próprios. Infestam as imitações mal feitas, as poucas tentativas pífias de encontrar um estilo próprio, um cenário divergente e original (porque é muito mais fácil copiar o que já está consagrado).

Não há ciência nas histórias de fantasia (deixo de lado a fantasia científica, mas mesmo ela dialoga pouco com a verossimilhança). Há apenas uma imaginação profusa que não explica, apenas apresenta mirabolâncias.

A Fantasia traz à tona o nosso lado lúdico, nos faz retornar à infância, aos sonhos, às nossas íntimas fantasias pueris, quando nos imaginávamos repletos de poder. Nossa visão do mundo era mágica, o mundo nos parecia mágico. A FC é o contraponto a essa visão. Ela nos obriga a fincar os pés no chão, nos mostra que o mundo é físico e obedece a leis imutáveis. A FC nos rouba muito de nosso senso lúdico, nos esfrega a cara no chão. Obriga-nos a “despertar” para a realidade e para todas as responsabilidades decorrentes disso.

Será essa a razão porque a nossa literatura de Fantasia leva grande vantagem em relação à FC? Ou é mesmo porque não temos uma cultura tecnológica, de grandes descobertas e viagens espaciais?

Afinal é essa a explicação recorrente. Somos um país sem cultura científica. Nunca fizemos grandes descobertas, nossos melhores foguetes são os da Caramuru, nossos cientistas, os melhores, vão embora do país em busca de melhores condições de trabalho e em busca de reconhecimento.

Então, por que, afinal, histórias de Ficção Científica deveriam ser populares, não é mesmo?

Se formos falar de outras mídias, veremos que a FC vai muito bem nos HQs, nos games, no cinema e na TV. Filmes e séries desse gênero bombam e alcançam bilheterias expressivas e telespectadores apaixonados. São vários os lançamentos (inclusive brasileiros) disputando espaço nas salas de exibição.

Mas em quê a literatura de FC ganha com isso? Como nossos autores são beneficiados com o boom da FC nas outras mídias? A FC continua não sendo lida. Continua não sendo prestigiada, continua sofrendo o preconceito das casas editoriais (e de muitos leitores que a consideram um gênero “chato”) que parecem esperar que um de nossos autores (sem patrocínio, nem apoio de nenhuma editora significativa) consiga vencer as dificuldades de mercado e explodir em vendas (melhor ainda se tiver o livro transformado em filme).

Só esse chamado “boi de piranha” conseguiria superar o “dar de ombros” das principais casas editoriais e, enfim, fazer a FC brasileira ser vista com olhos mais condescendentes (porque a FC estrangeira é normalmente publicada aqui com rótulos diferentes que tentam disfarçá-la)?

Difícil crer que não haja público para uma boa e dinâmica história de FC. Ou que não existam leitores inteligentes que não se entusiasmem com histórias elaboradas, personagens com múltiplas camadas, cenários ricos, boas ambientações, argumentos convincentes e soluções criativas e verossímeis (Nem toda FC produzida aqui é assim tão complexa, mas não podemos esquecer que, qualitativamente, a literatura de FC brasileira é, no geral, muito mais bem trabalhada que a de Fantasia).

Ou crer que todos os leitores de FC estejam comodamente assentados dentro do nicho, incorporados ao fandom. Porque se for assim, é de se compreender a atitude das grandes editoras. Investir num gênero que não consegue reunir mais que uns poucos milhares de leitores (dos quais muitos sequer conhecem o que se produz contemporaneamente) é jogar tempo e dinheiro fora.

A Fantasia não precisa de apresentações prévias. Não precisa vencer o preconceito de editores. Há muita Fantasia sendo publicada, grande parte de qualidade duvidosa.

Sem contar que é notório que qualidade e apelo comercial não são correlatos. As editoras são casas comerciais e são as vendas (as boas, de preferência) que pagam as suas contas. Entre escolher um romance de Fantasia manco e com chulé, mas com apelo comercial palpável, e um romance de FC de boa qualidade, elas vão escolher o primeiro. Por que deveriam investir num gênero, construir paulatinamente um mercado, se o custo/benefício é incerto?

Casos como o de Luiz Brás que publicou Sozinho no deserto extremo pela Editora Prumo são exemplos que parecem apenas servir para confirmar a regra.

Assim, a FC fica relegada às pequenas editoras que trabalham com edições limitadas e publicam quase que especificamente para o nicho. Um possível manancial de leitores extra-fandom permanece inatingível, inalcançável. Porque esses vários milhares de leitores que adquirem Asimov, Clarke, Bradbury (e outros nomes estrangeiros que se escondem na chamada ficção especulativa), também podem adquirir Gersons-Lodis, Causos e Carlos Orsis.

Existe dificuldade nisso? Claro. Mas mercados existem para serem descobertos, desbravados. Não só por quem escreve (que esses não têm poder para erguer mercados) e, sim, pelas editoras que, se não têm nenhuma obrigação em formar leitores, também não deveriam se escudar inteiramente disso.

Afinal, assim como nas melhores obras brasileiras de Fantasia, existem trabalhos de Ficção Científica com bom potencial de vendas e com argumentos que cairiam muito bem em filmes. Nem é preciso garimpar muito. Basta abrir os olhos, não dar mais de ombros, atentar para a pilha de originais e conceder à FC brasileira um voto de confiança.

Pelo menos isso.

***

Links interessante cedido por Cesar Silva:

• Listagem de todas as publicações de literatura fantástica feitas em 2011 no Brasil para download:
http://issuu.com/cesarsilva7/docs/anu_rio_brasileiro_de_literatura_fant_stica_2011_l

Você quer o anuário?

• Anuários Brasileiros de Literatura Fantástica para aquisição (anos de 2009 e 2010, 2011 está esgotado até o momento):
http://loja.devir.com.br/catalogsearch/result/?q=anuario+brasileiro+de+literatura+fantastica

Kaori e o Samurai sem braço – Lido e comentado

10/01/2013

Capa_KaoriSSB04B_semprata

Conheci Kaori antes de conhecer Giulia Moon. E foi na coletânea Amor Vampiro. Já na ocasião achei a personagem bastante forte para apenas uma história. Não foi surpresa nenhuma ver que a autora deu a Kaori um universo próprio, desenvolvendo-a em (até agora, mas tem espaço pra mais) três livros.

Vou ser sincero em admitir (mea culpamea máxima culpa) que não li os dois primeiros livros da saga (erro que estou a corrigir, já que comecei a leitura de Kaori, perfume de vampira).

Kaori e o Samurai sem braço foi uma leitura libertadora.

Vou explicar.

Andava cansado de ler obras de gênero cujos estilos e talentos se diferenciam tanto na pegada quanto na qualidade, quase sempre densos, ou experimentais, ou herméticos (ou simplesmente ruins, está cheio disso por aí). Andava como Jó, de vela em mãos, a procura de uma obra cuja prosa conseguisse me desintoxicar.

Giulia Moon tem o mesmo talento nato para a escrita quanto Kaori para a sedução… foi uma leitura deliciosa.

Nesse livro, Kaori vive aventuras no seu passado remoto, no tempo dos Xoguns.

Ilustração Kaori

Ela tem a vida salva por um Samurai — Kuroshima Kitarô, conhecido como Migitê-no-Kitaro (O Samurai sem braço) — e faz com ele um acordo: um ano ajudando-o na busca por um demônio chamado Shinkû. Vivem várias aventuras durante a busca por esse poderoso Bakemono, enfrentando monstros das mais diversas naturezas.

Ajuda-os uma pequena kitsune, raposa com poderes mágicos com a faculdade de se transformar em humano, nesse caso, numa mocinha esperta, comilona e bastante levada.

Narrativa com fino humor e ação precisa e bem descrita. A ambientação e o cenário – Japão do século XIII – são fascinantes. Envolvente até a última linha, trata-se de leitura tão agradável que quando você se dá conta, acabou. E isso é bom e ruim ao mesmo tempo.

Não por acaso Giulia Moon foi indicada e terminou entre terceiro lugar no Concurso Hydra, promovido pela revista eletrônica norte-americana Orson Scott Card’s Intergalactic Medicine Show e o Website brasileiro A Bandeira do Elefante e da Arara do escritor Christopher Kastensmidt com o conto Eu, a sogra, publicado no primeiro volume da coleção Imaginários em 2009 (organização Eric Novello, Saint-Clair Stockler e Tibor Moricz).

Se você ainda não leu Kaori e o Samurai sem braço, corra até uma livraria. Você não sabe o que está perdendo.

Kaori

***

Kaori e o Samurai sem braço

Editora: GIZ Editorial
Gênero: Fantasia
Formato: 16 cm x 23 cm
Páginas: 196

Cira e o Velho – Lido e comentado.

26/11/2012

Tenho lido menções do livro Cira e o Velho de Walter Tierno há tempos nas redes sociais. Nem todas elogiosas (embora reconheça que muitas foram feitas por pessoas que aparentemente não gostam/gostavam de Tierno. Assim, impossível encará-las com a devida seriedade).

Giulia Moon acabou por abreviar essa leitura que, cedo ou tarde, acabaria acontecendo. Entrou em contato oferecendo-me seu livro para resenha e propôs que eu lesse também dois outros, um deles o objeto dessa postagem.

Cira — a protagonista — é guerreira e bruxa. Trás nos ombros a caveira de Norato, seu pai, e luta para vingar a morte da mãe, provocada pelo sertanista Domingos Jorge Velho.

É uma história aderente. A prosa de Tierno é madura e ele conseguiu me conduzir pela trama sem tropeços. O desenrolar se inicia perto de 1680, antes da guerra dos Palmares. Tierno mistura fantasia e fatos históricos com competência, derrama sobre o leitor uma cornucópia de entes mágicos folclóricos, cidades fantásticas, lendas exuberantes, lutas ferozes.

Bem definidos no livro estão os dois arcos narrativos que se interligam. No primeiro, o Velho persegue Cira e sua mãe para matá-las. No segundo, Cira o persegue para vingar-se. No intermédio, vários quiproquós exigem da heroína o máximo de sua força e esperteza.

Tierno traz a história bem presa a reboque até os dias atuais, onde a magia inerente ao passado se perde na concretude de uma contemporaneidade cinzenta e melancólica.

Ao longo da história nos deparamos, aqui e ali, com momentos que poderiam ter sido melhor explorados, ou crises cujas soluções abusaram da simplicidade ou da conveniência, mas nada que prejudique a minha visão geral da obra.

Publicado em 2010, Cira e o Velho tem tudo para agradar em cheio qualquer leitor de gênero e, mais especificamente, aqueles que reclamam um uso maior do nosso rico folclore em histórias mais brasileiras. Trata-se de um bom livro de entretenimento. Leitura recomendada.

Capa e revisão competentes.

***

Cira e o Velho

Editora: GIZ Editorial
Gênero: Fantasia
Formato: 14 cm x 21 cm
Páginas: 229

Jebediah Crow, o Anjo do Senhor.

18/05/2012

Já faz algum tempo que eu não posto nada a respeito de meus próprios projetos. Não tenho andado parado, como podem até supor. Acho que venho sofrendo uma lenta e gradual mudança de conceitos. Começo a não acreditar em projetos previamente anunciados e divulgados nas redes sociais. Tenho a impressão de que essa divulgação acaba se transformando numa faca de dois gumes. De tanto o publico leitor potencial ouvir falar de um livro, dos seus protagonistas, do tema e do argumento, eles acabam meio que saturados e quando esse livro é finalmente lançado, têm a impressão de já o ter lido.

A novidade pode agregar interesse. Pode provocar a premência, a urgência. Pode fazer o leitor, surpreendido, se interessar pelo livro mais do que se interessaria se fosse bombardeado por ele durante meses ou anos anteriores.

Apesar disso, essa postagem é para falar de um romance fix-up que estou escrevendo no momento. Um projeto recente que está atropelando outros mais antigos (comigo é quase sempre assim).

Trata-se de Jebediah Crow, o Anjo do Senhor.

Ficção científica, fantasia, terror, suspense… uma mistura que vagueia por diversos subgêneros, mas mais especificamente no Steampunk. Jebediah Crow é um dos protagonistas, um enviado de Deus para levar Sua ira aos homens de boa vontade. Ele cruza o meio oeste americano nos anos de 1890 travando lutas contra demônios, vampiros, zumbis, contra monstros de todas as espécies. Deus sempre ao seu lado, sempre lhe fornecendo milagres.

Claro que Deus é um dos protagonistas, como não poderia deixar de ser.

Nas palavras de um dos leitores beta, “Deus é um aloprado, um lunático”. Um personagem grandioso que rompe com os próprios paradigmas.  Irascível, imprevisível, bipolar.

Seguem dois trechos:

Jebediah Crow, o Anjo do Senhor – História I

Bateram à porta. Encontraram uma menina com não mais que dezesseis anos, aguardando-os com paciência. Cabelos dourados e cacheados. Olhos azuis. Tez alva, sardas, nariz arrebitado. Vestido longo, branco como a sua alma pura. Deixaram-na entrar, convidaram-na a se sentar na cama. Acomodada, a menina pôs-se a chorar.

— Quem é você? — perguntou-lhe Ishmael, curioso.

— Madeleine. Minha irmã foi raptada pelos demônios. Vim implorar a ajuda de vocês.

— E porque choras? — retornou Ishmael, compadecido.

— Porque estou diante dos anjos do Senhor. Meu pai me enviou para lhes dar conforto e em busca de purificação. Imploro que não recusem a minha oferenda — disse-lhes a menina enquanto erguia a saia e lhes mostrava a brancura imaculada de suas coxas, o fulgor robusto de seu monte de Vênus e, entreabrindo as pernas, o vale onde repousa a alegria dos homens.

— Pobre garota — disse Jebediah se aproximando da coitada. Reconheceu-a como uma das que os receberam com o canto de louvor. Passou-lhe os dedos no rosto, sentindo-lhe a maciez da pele. Recolheu uma gota de lágrima e a levou aos lábios, sorvendo-a com deleite. — Que Deus a abençoe e que o cajado do Senhor a locuplete.

E o cajado do Senhor a locupletou pelo que restou da noite. Ishmael a tudo assistiu, contrito em oração. Quando lhe coube a vez, repetiu o sinal da cruz setenta mais sete vezes. Ao nascer do sol, a menina, repleta de bênçãos, purificada, feliz e esfuziante por ter servido à causa do Senhor, deixou-os a sós.

Jebediah Crow, o Anjo do Senhor – História II

O homem se aproximou de Jebediah Crow. Parecia um touro inquieto, remexia os pés chutando cavacos inexistentes. Seu olhar indicava um grau de irritação que ia um pouco além do considerado saudável para alguém que ousa enfrentar o negro num mau momento.
— E pode me dizer por que é que Deus não colocou um fim nisso, ainda? — perguntou o homem quase cuspindo as palavras.
Jebediah respirou fundo, comprimiu os lábios lambendo-os e esfregou os olhos, cansado.
— Porque Ele está com preguiça.
O homem diante de Jebediah estancou. Parou de se remexer. Seus olhos se arregalaram.
— Ele está o quê?
— Com preguiça — repetiu Jebediah sem muita paciência.
— Com o quê? — quase gritou o homem, indignado.
Um raio arrebentou o telhado do Saloon, estourou o piso de um quarto e caiu na cabeça do indigitado que desapareceu numa nuvem de fumaça.
— Com preguiça e sem pachorra nenhuma para questionamentos… — concluiu Jebediah pedindo ao barman mais uma dose de uísque.

***

Isso é tudo o que lerão a respeito de Jebediah Crow, o Anjo do Senhor, até que ele seja lançado. Apesar das minhas mudanças de conceito, acabei não resistindo em revelar o projeto e alguns dos seus trechos.

Uma recaída para a qual já estou tomando alguns comprimidos. Logo, passa.

Brinquedos Mortais e outros assuntos.

27/02/2012

Novos projetos

Estive afastado de meu blog por um longo período. Desde a última postagem, pouco mais de dois meses de ausência. Encontrava-me em mergulho profundo num novo romance de ficção científica; tão mergulhado que ignorei várias submissões cujas deadlines estavam dentro ou perigosamente próximas do horizonte de eventos de meu romance. Esse projeto me absorveu por completo. Passou pelas mãos hábeis de três leitores beta e ainda está nas mãos de mais dois. Depois deles, entregarei o romance a um sexto leitor, cujo nome não defini (aceito sugestões e solicitações). Ainda não fechei com nenhuma editora. Não tenho pressa.

Comecei paralelamente um novo romance, esse de Fantasia. Não é comum escrever um seguido do outro; geralmente me dou alguns meses de intervalo. Uma espécie de período de desintoxicação. Mas a ideia brotou com força e pediu para ser colocada no papel. Não devo afrontar a musa. Quem é escritor, sabe o que estou dizendo.

Coletâneas

Embora tenha me afastado das submissões, fui convidado para algumas coletâneas e os contos que produzi foram em data anterior ao “mergulho” (com exceção de um deles para o qual já estava comprometido. Sinto um pouco que o resultado do conto, escrito meio que sob pressão, não tenha sido inteiramente do meu agrado). Assim, em 2012 estarei presente em pelo menos 6 coletâneas. Cinco delas como convidado e noutra como organizador, o que me leva a outra questão:

Brinquedos Mortais

Os autores aprovados nessa coletânea devem ficar tranquilos. O processo de publicação vai de vento em popa e não deve demorar a divulgarmos a capa definitiva (o trabalho de elaboração está em andamento e os rascunhos entusiasmam). Logo, logo teremos uma excelente seleção de contos numa obra que reúne os melhores nomes da FC nacional.

Leituras

Enquanto escrevo um romance, não leio. Sempre fui assim. Então estou sem ler livros desde setembro. Faço leituras esporádicas de revistas, jornais, panfletos, rótulos de xampu. Estou com uma revista Piauí nas mãos há duas semanas e só li até agora uma matéria. Estou na entressafra e não sei quando vou abrir as páginas de um livro novamente (talvez demore mesmo… devo receber meu Kindle Fire nessa semana :)).

E por enquanto, é isso.

Essa menina é do barulho!

21/12/2011

O blog está sem atualização há bastante tempo. Nesse interlúdio fiz algumas leituras (não muitas, já que quando estou trabalhando em um novo romance, eu me afasto delas) que pretendo comentar aos poucos.

Uma delas foi Isidora encontra o herói acorrentado, livreto que recebi graciosamente do autor, Victor Vargas, no último Fantasticon. Chamou-me a atenção o formato, a capa e a gratuidade (risos), mas só fui lê-lo quase dois meses depois (não por falta de vontade. Eu o coloquei no porta-luvas do carro e como quase não acesso esse arquivo, ficou esquecido lá dentro).

Isidora me surpreendeu. Gostei da narrativa, gostei da proposta e gostei da personagem. Victor Vargas demonstrou um interessante talento e surge como uma boa promessa no cenário de literatura fantástica brasileiro.

Trata-se de uma menina terrível. Tão terrível que todos a temem e a respeitam, até a própria família. Demonstra uma personalidade marcante que equilibra bem o “ser criança” com o “ser terrível”, construindo uma menina que bem poderíamos encontrar em qualquer esquina, com a diferença que habita uma realidade fantástica permeada de monstros, bruxas, magos e outros seres mirabolantes.

Ela nos atrai e nos repele. Tive vontade de colocá-la no colo e cobri-la de carinhos, assim com cobri-la também de tapas na bunda. Como toda criança arteira cujo sorriso nos amolece.

O livreto tem ilustrações de Vagner Vargas (capista amado e odiado da Devir) e é um prefácio a uma obra maior que, me pergunto, sairá quando?

Quem não leu, perdeu.

Quarta Capa:

Isidora mora em uma mansão situada à beira de um penhasco, onde se diverte aterrorizando monstros. Sua família incomum a trata com carinho e cuidado, pois Isidora não é uma criança com quem se deva brincar. Até que um dia seu avô, um herói já idoso que conquistou fama e glória na juventude, parte para uma última aventura recheada de altos riscos e encoberta em mistérios. Chega a hora de Isidora deixar para trás sua infância e partir em auxílio do avô. Ela parte para salvá-lo e agora o resto do mundo corre perigo.

O Peregrino, em busca das crianças perdidas dá a cara a tapa.

25/03/2011

Meses atrás tive uma ideia que julguei interessante: reunir um grupo de resenhistas para ler e avaliar O Peregrino, em busca das crianças perdidas, com o intuito de divulgar suas impressões antes da distribuição oficial do livro.

Mas a proposta era de que essas resenhas só fossem publicadas se o livro de fato merecesse elogios. Pode parecer estranho, mas minha intenção era/é a de usar as resenhas como ferramenta de marketing. Isso não significa que se o livro não causar boa impressão, eles deixarão de resenhá-lo. Vão. Mas publicarão a crítica, nesse caso, só depois do lançamento.

Nunca pedi a ninguém que me fizesse resenhas positivas na base da amizade e nunca vou pedir. Não me presto a canastrices.

Assim sendo, os resenhistas/críticos aceitaram a missão e trataram de ler o original em PDF que lhes enviei e logo vocês terão a oportunidade de saber o que pensam a respeito de O Peregrino, em busca das crianças perdidas.

Quem são eles? Ficarão sabendo na semana que vem.

Cada resenha será postada no blog de domínio do resenhista contatado num dia diferente, começando na segunda-feira, dia 28 de março.

Encontraremos-nos lá.

Quem é Miguel Carqueija?

02/03/2011

 

Miguel Carqueija é o primeiro a esquerda, nessa foto de 2006 onde acontece uma reunião do CLFC. Nasceu e mora no Rio de Janeiro onde escreve "desde tempos imemoriais", mas participa do fandom desde 1983 - isto é, quase desde o seu início - e vem publicando desde então. Afora centenas de textos em fanzines, revistas, jornais e páginas virtuais, contabiliza 14 livros individuais, sendo 9 em papel, 1 em papel e com versão digital, e 4 "e-books". Desses 14, o livro virtual As portas do magma (scarium.com.br) é de coautoria com Jorge Luiz Calife. Menciona-se ainda A âncora dos Argonautas (1999), A Rainha Secreta (2001), A Esfinge Negra (2003), O fantasma do apito (2007, reeditado em 2010), Farei meu destino (versões em papel e virtual, 2008 -gizeditorial.com.br) e "Tempo das caçadoras" (2009). Também participou de mais de duas dezenas de antologias, umas amadoras, outras profissionais, destacando Poe 200 anos, organizada por Maurício Montenegro e Ademir Pascale e lançada em 2010, onde além de um dos contos também assina o prefácio. Seu conto O tesouro de Dona Mirtes foi filmado em 2004 e o curta resultante pode ser assistido pelo youtube (http://www.youtube.com/watch?v=CYn_11sQEQI).

É só outro blogue: Como você definiria as décadas de 1980 e 2010? Quais são as fundamentais e observáveis diferenças entre a FC praticada naquela época e a que é praticada hoje?

Miguel Carqueija: Naquele tempo os “gêneros interessantes” – basicamente, ficção científica, fantasia, terror e mistério não estavam tão unidos como hoje em dia, quando não separamos mais os que fazem isso ou aquilo, estamos todos no mesmo barco. Eu, particularmente, diversifiquei minhas experiências, passei a escrever terror, fanfics, cheguei à alta fantasia e tenho incursões no policial. Além disso, nos anos 80 ainda não existiam celular e internet, que influenciaram muito nos textos posteriores. Também nos baseávamos mais nos fanzines de papel e poucos de nós publicavam em livros, quando o faziam eram edições amadoras e/ou cooperativadas. Hoje em dia é mais fácil chegar ao livro, pelo menos às antologias, sem falar nos “e-books” – só eu já tenho quatro.

É só outro blogue: Você exibe, hoje, em parte de seus escritos, uma profunda crença religiosa. Seus personagens obedecem ao estereótipo maniqueísta onde bem e mal estão claramente definidos. Você não acha que, em tempos de ateísmo (e agnosticismo) cada vez mais abrangente entre os intelectuais, essa abordagem pode afastar leitores potenciais?

Miguel Carqueija: Em certas novelas principalmente as que lidam mais profundamente com a alma feminina (sou um especialista em heroínas) coloco religiosidade, e diferenciação clara entre o bem e o mal. Mas não vejo isso como maniqueísmo, pois procuro colocar vivacidade nos personagens e nas ações. E as atitudes dos bons são justificadas. Creio que estabelecer uma diferença clara entre o certo e o errado é o melhor caminho, muito melhor que o relativismo moral. Por outro lado, bilhões de pessoas no mundo são religiosas, embora em graus diferentes e também de maneiras diferentes; e existem autores ateus que, nos seus escritos, operam claro proselitismo das ideias ateístas. Ora, para mim a religião está mais forte do que nunca, especialmente a minha (católica) e sei que o materialismo jamais conseguirá prevalecer. Outros podem pensar de outra maneira, mas esta é uma aposta minha. Gostaria de lembrar que nessas historias também coloco muito humor entremeado, e trabalho com um estilo narrativo que Jorge Luiz Calife considerou “cinematográfico” no prefácio que escreveu para a novela A face oculta da Galáxia (“e-book” publicado em casadacultura.org, no “link” de ficção científica). É interessante observar que Calife é decididamente descrente, pelo menos deixa isso claro em Padrões de contato (não sei se é sua posição atual), mas não se incomodou com as referências à religião feitas na citada novela; ele enxergou outras coisas. Uma coisa que posso dizer é que me esforço para que os meus textos sejam interessantes do começo ao fim, evito as narrativas resumidas que tantos fazem, ou repletas de explicações cansativas, sou de opinião que uma história explica a si mesma pelo seu desenvolvimento. Assim, não me considero um “moralista chato”, mas não abro mão de considerar a literatura um veículo para ideias e mensagens. E não considero um bom caminho o brutalismo à Rubem Fonseca seguido por vários colegas do fandom; entretanto é um caminho que eles escolheram, e eu escolhi o meu, mais próximo p.ex. do João Batista Melo.

É só outro blogue: Dentre os escritores brasileiros de ficção de gênero (Fantasia, Terror, Ficção Científica, etc.), quais os que mais lhe chamam a atenção e por quê?

Miguel Carqueija: Gosto de alguns antigos como Thales Andrade, autor de O sono do monstro e A filha da floresta, e que acompanhou a minha infância, é um autor injustamente esquecido. E Malba Tahan, nosso grande fabulista, que até numa de suas histórias, A caixa do futuro, antecipou as cápsulas de mensagem para os pósteros, coisa que hoje já existe. São autores que podem ser lidos por todas as idades e que mantém uma inocência básica que vejo como muito importante, apesar de ser um valor esquecido. O João Batista Melo eu aprecio muito, como o nosso Bradbury. Um de seus contos mais aliciantes, onde o fantástico é sutilíssimo, é aquele em que um diretor de escola corrupto afasta uma professora antiga e querida pelos alunos para dar lugar a uma apaniguada jovem, e em consequência todos os alunos desaparecem, colocando-o em palpos de aranha. Também gosto dos trabalhos de Simone Saueressig e Roberto Causo, a primeira pela sua veia fabulística, o Causo pela correção de seu estilo e seu resgate dos temas do folclore indígena. E quero mencionar também duas autoras pouco comentadas, Regina Sylvia, cujo romance 9225 antecipou a internet numa distopia curiosíssima (é uma edição particular) e Elizabeth Maggio, cujo conto Aqui não há nuvens, saído na antologia As sete faces da ficção científica, é uma obra-prima.

É só outro blogue: O que o atrai a ponto de dedicar seus esforços em algumas histórias crossover baseadas em mangás? Não o incomoda que uns considerem esses trabalhos infantilóides?

Miguel carqueija: Com relação a isso, talvez você esteja se baseando no fato de que meus dois últimos livros publicados foram fanfics-crossovers: A cidade do terror, que saiu em contosgrotescos.com.br, e O fator caos, publicado no Portal Cranik, ambos em 2010. Mas veja bem, isto foi uma estratégia: surgindo oportunidade de lançar “e-books” dei preferência a essas novelas já antigas, pois a internet é o espaço mais adequado para as fanfics – tanto que existem milhões na rede, e cada dia aumenta o número.
Além do mais, minhas fanfics não são inspiradas só em mangás, já fiz com Batman, Chapolin, Tio Patinhas etc. Fanfics são homenagens dos fãs e representam um interessante exercício, pois o autor deve se esforçar em respeitar o caráter básico dos personagens utilizados. Monteiro Lobato, na série do  “Sítio do Pica-pau Amarelo” trabalhou muito com fanfics (Peter Pan, por exemplo), embora naquele tempo não se usasse esse termo.
Gosto de produzir fanfics. No campo dos mangás fiz várias de Sailor Moon e estou preparando uma do Cowboy Bebop. Mas, quero frisar bem este ponto, fanfics são apenas uma fração da minha obra, já que invisto em muitas modalidades. Já criei até um pirata para uma nova série. Escrevo terror, fantasia, mini-contos de vários tipos, policial, história alternativa, contos de ficção científica de fundo social e satírico. Quanto a serem tais histórias “infantiloides”, bem, eu sou assumidamente um escritor de ficção infanto-juvenil. Não me julgo infantiloide, pois tento caprichar nos diálogos, construção das cenas etc. e meu texto é econômico. Realmente, meus textos são amenos e nesse ponto contrastam bem com certa FC barra-pesada que se tornou moda em alguns autores, mas não tenho a mínima intenção de mudar. Acredito que não se pode abandonar de todo as histórias idealistas e que o público aprecia a exaltação de valores, senão séries como “Harry Potter” e “Guerra nas estrelas” não fariam tanto sucesso. Como autor, uma das minhas preocupações é constatar as impressões dos leitores. Tanto isso é verdade, que costumo remeter meus livros para possíveis resenhadores. Comentários que não se limitem a “gostei” ou “não gostei” são bem recebidos, mesmo que sejam desfavoráveis. Os leitores/críticos muitas vezes enxergam coisas que os próprios autores não percebem. E mesmo que você tenha sabido de críticas “ferozes” contra meus textos, também estou acostumado a receber elogios às vezes inesperados e até exagerados.
Agora, se você acha que escrever fanfics é um desperdício de talento, devo esclarecer que estou com vários livros que não são fanfics à espera de edição profissional em papel. Tenho um romance de ficção científica e policial, Neblina e a Ninja, que trata do problema da violência urbana (portanto, mais atual que nunca), prefaciado por Marcello Simão Branco. Estou com dois novos romances que representam experiências novas na minha obra: O estigma do feiticeiro negro (com prefácio de Cesar Silva), que é uma alta fantasia, e O despertar das bruxas, uma fantasia urbana contemporânea e acho que ambos poderão dar o que falar. Meu próximo livro, porém, que deverá sair em formato de bolso, será Os mistérios do Mundo Negro, uma mistura de terror e FC.

É só outro blogue: O mercado literário de gênero, hoje, vem passando por uma expansão editorial jamais vivenciada antes. Tratando-se você de um autor com currículo e história em nossa FC, o que justifica publicar Farei meu destino na Editora Giz, como edição de autor? Você chegou a procurar por editoras tradicionais?

Miguel Carqueija: Não acho tão fácil assim motivar as editoras profissionais, mas eu lhe digo que, depois de publicar Farei meu destino, muitas portas começaram a se abrir. Basta dizer que, desde então, publiquei três “e-books” individuais e participei de duas antologias virtuais; lancei mais um livro individual semi-profissional, Tempo das caçadoras; O fantasma do apito, de 2007, obteve segunda edição em 2010 (já houve quem o classificasse de “cult”): e participei de nada menos que sete antologias em papel profissionais. Na verdade, nunca publiquei tanto e em tantas edições profissionais. Por isso, creio que valeu a pena investir.

Quem é Simone Saueressig?

23/02/2011

 

Simone Saueressig nasceu em Campo Bom (RS), em 1964. Atualmente mora em Novo Hamburgo (RS). Professora de balé, estreou na Literatura em 1987. Tem vários títulos publicados dentro do gênero do Fantástico, muitos deles voltados para o público infantil e infanto-juvenil como “A Noite da Grande Magia Branca” (2007), “A Fortaleza de Cristal” (2007), “O Palácio de Ifê” (1989) “A Estrela de Iemanjá” (2009), “A Máquina Fantabulástica” (1997), “Receita para um dragão” (1999) e o livro de contos “O Ninho” (2000). Na década de 90, publicou contos infantis no jornal "Ya", de Madrid (Espanha) e o conto de realidade fantástica “As linhas na pele do viajante” na revista lusitana “Ibn Maruan” (1996). Participou de diferentes antologias, como “Como era gostosa a minha alienígena” (2002) e de vários fanzines, como o Boletim Antares, Somnium, Hiperespaço, e Scarium, entre 1987 e 2008. Em 2003 conquistou o 1º lugar no concurso 1º Concurso de Contos e Ilustrações – Na rota das caravanas promovido pela Revista Scarium e o 1º lugar no concurso Museus: Mundos Imaginários, promovido pelo Museu Imperial de Petrópolis. Seus trabalhos podem ser encontrados em vários sites da internet, inclusive no http://www.porteiradafantasia.com onde podem ser lidos gratuitamente os e-books “O pitbull é manso, mas o dono dele já mordeu uns quantos...” e “O Jogo no Tabuleiro” de sua autoria.

Começarei as entrevistas com autores identificados com a Segunda Onda com Simone Saueressig. Simone, mesmo tendo uma peridiocidade de publicações bastante razoável, é, misteriosamente, desconhecida do Fandom atual, esse que vem se formando de forma paulatina, acompanhando a expansão de mercado da Terceira Onda. Talvez essa entrevista ajude-a a se tornar mais visível, talvez não. Para quem não a conhece, apresento-lhes uma autora de técnica narrativa refinada e muita criatividade.

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É só outro blogue: Você escreve obras tanto para adultos quanto para crianças e jovens. Há mesmo alguma diferença entre escrever para adultos e escrever para crianças/jovens?

Simone: Creio que há uma diferença de abordagem, o que significa uma diferença de linguagem. Mas não mais do que isso. Existem alguns autores que acreditam que existem temas “tabu” para a literatura voltada ao público infantil, mas eu acho que não. A dificuldade maior está na abordagem e no próprio autor. Alguns autores se sentem mais a vontade para falar de temas como sexo e violência e outros não. O fórum interno de cada um conta muito mais do que a gente pensa.

É só outro blogue: Suas obras de Fantasia são marcadas pela preocupação em utilizar elementos da mitologia indígena brasileira. Mas vivemos numa “aldeia global”, para citar a frase que já virou clichê de Marshall McLuhan. No que uma escritora brasileira de Fantasia difere de, digamos, uma escritora escocesa de Fantasia?

Simone: A diferença deveria ser a matéria-prima do imaginário e a maneira como uma cultura lida com isso. A cultura massificada dos nossos dias tem uma tendência a ficar na superfície das coisas e esquece que os elementos da mitologia falam diretamente ao simbólico, ao subconsciente das pessoas. Pouco antes de eu começar a escrever, muita gente se preocupava com a “invasão cultural norte-americana”: era uma discussão muito viva e abrangente, com críticas voando de lado a lado. Eu vivi uma situação polarizada: de um lado amigos politizados que criticavam minhas leituras (basicamente FC e Fantasia, o que na época significava ler autores norte americanos e europeus) e de outro umas poucas pessoas que compartilhavam comigo a paixão por esse tipo de histórias (que eram poucas e estavam distantes). Encontrei o equilíbrio quando percebi que poderia escrever fantasia usando os elementos do meu folclore – o que é exatamente a mesma coisa que a hipotética escritora escocesa da pergunta faria com os elementos do folclore dela. A grande diferença é que depois da abertura política e a chegada da internet, a discussão em torno da invasão cultural foi se esvaziando e praticamente desapareceu. Então quase não existe mais resistência, porque se antes a frase de Marshall McLuhan era quase uma metáfora, hoje ela não é mais. A rede aproxima as pessoas, mantém laços afetivos, promove encontros que antes não eram possíveis. Por isso mesmo é tão importante que recuperemos a discussão sobre a invasão cultural e a mantenhamos viva. Isso não quer dizer ignorar as mitologias que chegam de fora, mas ter claro que elas são outra leitura do imaginário humano, que não o meu, enquanto brasileira e sul-americana – mas aí surge outra discussão sobre quais os símbolos com os quais nós nos identificamos: se com o Saci-Pererê ou com o gnomo que oculta seu tesouro no fim do arco-íris e qual a legitimidade de eu usar um símbolo com o qual eu não me identifico, porque a cultura urbana e globalizada me deu outros elementos que os considerados originalmente como brasileiros e estes, muitas vezes, são mais alienígenas, no sentido que não os reconheço como meus, do que os estrangeiros que povoaram os filmes e livros que consumi e que me formaram como ser humano. Toda vez que lidamos com um símbolo cultural, estamos lidando com valores de uma cultura especifica. Então é muito importante que mantenhamos vivas as diferenças culturais, não como uma fronteira que separe, mas como forma de enriquecer o patrimônio imaginário humano. Por isso é  importante manter vivos os seus elementos mitológicos e folclóricos: para não perder a variedade que nos torna únicos na Natureza. Talvez a principal diferença entre uma escritora de Fantasia brasileira e uma escocesa, é que a escocesa tem tão arraigada a importância de manter a sua identidade cultural, que ela não vai se preocupar com isso – é parte do seu trabalho. Mas de uma maneira geral, a escritora brasileira terá de compreender o processo e sua importância, terá de se convencer disso, porque ela foi bombardeada durante muito tempo com objetos culturais onde são exaltados e dados a conhecer figuras mitológicas de outras culturas. Ela já está acostumada a guerreiros medievais, sabe – ou pensa que sabe – o que são. Ela já se apaixonou por dragões e tem claras as paisagens das histórias de Fantasia europeias. De uma maneira geral, conhece as dificuldades climáticas e os desafios do relevo. Em que história de Fantasia não neva? Não tem um pântano com guerreiros afogados? Que graça uma história de Fantasia sem altas montanhas para transpor? Tudo isso faz parte da paisagem europeia, e já foi tão explorado por esse tipo de literatura que qualquer leitor médio saberia descrever medianamente um cenário de história de Fantasia. Mas quando a gente atravessa o Atlântico, aparece o desafio. De repente não há mais guerreiros medievais, os monstros mudam, o cenário muda. As regras mudam. E além de você ter de pesquisar tudo isso, ainda por cima tem de descrever de uma maneira atrativa para um público que, normalmente, não sabe do que se está falando. Então a escritora brasileira terá de se convencer de fato de que o sua matéria-prima é tão importante quanto a da escocesa – que já está convencida disso – e esta é uma diferença muito importante.

É só outro blogue: Como é o seu método de trabalho? Quando se senta para escrever, você já tem toda a história planejada ou vai descobrindo na medida em que escreve? Como você se inspira? Quem ou quais são as suas influências?

Simone: Normalmente, eu escrevo para descobrir a história. Quero saber o que vai acontecer com algum personagem. Eventualmente tenho uma “cena” que gostaria de escrever e para ela funcionar, é preciso criar um arcabouço de eventos onde ela possa ser inserida com a dramaticidade que eu a imaginei. “A Fortaleza de Cristal”, por exemplo, foi escrito somente para por um personagem de joelhos (pura crueldade, já me disseram!). Contudo, de vez em quando escrevo uma história cujo final já imaginei, como o inédito “Os Sóis da América”. Quando isso acontece, costuma ser um sufoco, porque a partir do momento em que eu sei o final da história ela perde o interesse para mim. “Os Sóis da América” não perdeu o interesse porque mesmo sabendo o final da história eu precisava resolver tantas coisas na aventura do personagem principal que fiquei ligada até a última linha. O que não significa que o texto está pronto, longe disso. Aí é que começa o trabalho mesmo, porque a primeira versão costuma ser pura diversão. Depois é que o vou trabalhar de verdade.
É complicado falar em “método”. Depende do texto. Se for uma história de Fantasia sem um contrato especifico com o imaginário brasileiro ou sul americano, é mais fácil, como em “A Máquina Fantabulástica”. O próprio “O Jogo no Tabuleiro”, que lida com elementos tradicionais das histórias de Fantasia (tem dragões, montanhas, magos e guerreiros), foi relativamente fácil de ser escrito, embora trabalhoso. “O pitbull é manso, mas o dono dele já mordeu uns quantos…” fluiu muito bem, quando não toquei no texto depois de pronto.  Mas quando estou focada em alguma das nossas tradições, o texto é escrito mais ou menos junto com a pesquisa. Reconheço que sou preguiçosa. As coisas facilmente perdem o interesse para mim, então dificilmente eu faço primeiro a pesquisa, para depois escrever. Acho que só fiz isso com “O Palácio de Ifê” e “A Estrela de Iemanjá”, que têm como tema a cultura afro-brasileira.
Quanto à inspiração, bem que eu gostaria de dizer “como eu me inspiro”, porque daí ia ficar fácil repetir o processo toda vez que precisar! A única vez em que a inspiração veio de verdade, aquela que a gente tem como ideal, foi quando escrevi “A Máquina Fantabulástica”, inspirada no maluco do elevador do prédio onde moro. Normalmente as histórias partem de uma ideia vaga: “eu gostaria de escrever algo feito aquele livro, com um tema parecido ou uma voz textual semelhante”. Mas é claro que dificilmente algo me inspirará mais do que um filme ruim. Quanto pior o filme, mais ele me desperta indagações e controvérsias interiores. Ainda estou me recuperando de “O último mestre do ar”.
E por fim, as influências, são múltiplas: Asimov, Bradbury, Tolkien, Lewis, Leblanc, King, Poe, Lovecraft, o que vou lendo no momento… é difícil de dizer. No fundo eu acho que todo autor que a gente lê contribui, em certa medida, no texto que vamos escrever. Mas sem dúvida, Tolkien, Poe e Asimov foram os que contribuíram na minha paixão pela literatura fantástica. Sem eles, eu não teria lido todos os demais. E antes todos eles, Lewis e suas Crônicas de Nárnia. Sem Lewis, eu sequer teria me tornado uma leitora.

É só outro blogue: Olhando em retrospecto, o que você diria para um jovem escritor brasileiro de Fantasia não fazer?

Simone: Não copiar – o que é muito difícil. Mesmo “A noite da grande magia branca”, o primeiro livro que editei buscando uma Fantasia com elementos brasileiros, tem tanta influência de Tolkien que é quase impossível não lê-lo nas entrelinhas – e isso que foi uma luta constante. Quando eu digo “não copiar”, não estou acusando ninguém de plágio, notem bem. Não estou dizendo que este ou aquele autor copia realmente seus livros e suas histórias de clássicos. Eles existem, mas felizmente são em menor número. Contudo, estaria bem que no lugar de tanto feiticeiro, bruxa e guerreiro medieval, pudéssemos contar com bandeirantes, pais de santo e jagunços, por exemplo. Outra coisa que está acontecendo com esses autores é que eles ficam olhando muito para o próprio umbigo. O sujeito escreve um livro e vende (que bom!)– e se acha o máximo. Em vez de ele partir para a próxima, pensar “tá, e agora?”, ele fica inflando o ego com números e resenhas elogiosas. Quando eu comecei a colocar meus contos nos fanzines, descobri que estava dando a cara à tapa. As críticas nem sempre eram boas. Claro que ninguém gosta de ser criticado, mas é ela que ensina. A primeira coisa que se faz hoje, quando isso acontece, é revidar como se fosse uma coisa pessoal. A crítica é, sobretudo, o olhar do outro, e o “outro” é o leitor, a outra ponta da corrente. Sem ele não existe Literatura.
E também tem o básico: se estiver começando, não o faça com uma saga de cinco volumes de 700 páginas cada um!  A gente precisa aprender a ter calma. Se quiser escrever a tal da saga, o melhor é deixá-la num cantinho por um ano ou dois, depois de pronta. Quando o escritor a pegar de novo verá se ela de fato merece tudo isso ou se precisa ser recortada. Em todo o caso, se o autor pensar que é isso mesmo o que ele quer, então que vá em frente, mesmo que o mundo inteiro diga que não. Muitas vezes os editores erram de maneira tão absurda que a gente fica pensando como um sujeito como aquele que disse que Kipling não sabia escrever, por exemplo, podia estar à frente de uma editora. O caso é que o que o editor diz pode ser importante, mas aquilo em que o autor acredita é mais. Kipling, afinal de contas, depois de receber tão miserável crítica, foi o primeiro autor inglês agraciado com o Nobel de Literatura, em 1907 e até hoje foi o mais jovem.
Em todo o caso Kipling não começou com histórias longas, não mesmo!

É só outro blogue: Dentre os escritores brasileiros de ficção de gênero (Fantasia, Terror, Ficção Científica, etc.), quais os que mais lhe chamam a atenção?

Simone: Acho o Braulio Tavares brilhante e gosto muito do Roberto Causo. Acabei de ler o lançamento de Christopher Kastensmidt pela Devir, e achei muito legal a proposta. É como se fosse um diálogo travado através dos livros: eu, enquanto brasileira, li e consumi FC e Fantasia americana. Ele, que é norte-americano radicado no Brasil, me oferece uma história do gênero com temas brasileiros, em terras brasileiras. Também gosto do Flávio Medeiros Jr. e dos contos da Maria Lúcia Victor Barbosa, dos livros que li de Aline Bittencourt e Flávia Muniz.  E eu jamais deixaria Marina Colasanti de fora de uma lista de autores do gênero aqui do Brasil. Ninguém escreve contos de fadas como ela (mesmo quando as fadas não aparecem explicitamente).

Saint-Clair Stockler colaborou nesta entrevista.

A Tríade. Lido e comentado.

28/10/2010

Claudio Brites me enviou o livro A Tríade para ler e comentar.

Publicado pela Terracota Editora e escrito por Carlos Andrade, Claudio Brites, Kizzy Ysatis e Octavio Cariello.

Quando o recebi, fiquei surpreso ao constatar que eram quatro os autores responsáveis pela construção do argumento e pela escrita propriamente dita. Sempre tive para mim que a reunião de mais de um autor para qualquer trabalho acaba transformando o objeto em uma espécie de Quasimodo, com corcundas pronunciadas aqui e ali.

E comecei a lê-lo em busca dessas corcundas, claro.

Foi uma surpresa muito maior ver que não encontrei nenhuma corcunda, mas apenas pequeníssimos degraus formados por diferenças de estilo e somente vistos por olhares atentos durante a leitura. Um leitor menos preocupado com isso não vai notar absolutamente nada. A leitura transcorrerá tranquilamente até seu desfecho.

A Tríade acabou se mostrando muito mais que um bloco coeso, onde vários estilos conseguem se amalgamar de forma a quase se tornarem num só.

Vou me abster de entrar demasiadamente no cerne da história para não acabar dando spoilers indesejados.

A narrativa conta a aventura de um personagem em busca de um poderoso artefato que proporcionará a ele o poder máximo e a conquista do altíssimo reino divino, de outro que em busca de respostas para um enigma, acabará transformado no que jamais poderia imaginar e de um terceiro que no árduo trabalho de proteger relíquias sagradas, acaba metido em muito mais confusão do que gostaria.

Esse é um resumo bem humorado da obra.

Destaque positivo para o narrador. Onisciente até a última gota.

Destaque negativo para a revisão. Encontrei muitos erros crassos que uma revisão pé de chinelo teria evitado.

A Tríade é, de longe, a melhor coisa que li nesse gênero este ano. Vence tranquilamente o livro do Leonel Caldela – O caçador de apóstolos – e é melhor que boa parte da obra de Bernard Cornwell reunida (vou ser apedrejado agora, mas acho Cornwell um bom contador de guerras, um ótimo historiador, mas um péssimo escritor).

No mais, o livro é um ótimo entretenimento que vem demonstrando força também nos pontos de venda. Segundo Claudio Brites, os 2000 exemplares iniciais já estão esgotados. Ótima notícia para um mercado onde o gênero sai a tapa em busca de espaço e onde os leitores andam escassos.

Aconselho a compra do livro e garanto que você terá diversão da primeira à última página.

Adendo: O livro receberia um UAU! se não tivesse os erros de revisão que tem.