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O voo de Icarus – Lido e comentado

14/09/2011

Autor: Estevan Lutz
Editora: Novo Século (Selo Novos Talentos da Literatura Brasileira)
Páginas: 239
Edição: 2010

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Num futuro distante, na cidade marítima de Agartha, a vida do jovem Icarus oscila entre dois vícios: a realidade virtual e uma droga alucinógena denominada Nirvana. Para ver-se livre dos efeitos nocivos dos seus vícios, aceita se submeter a um tratamento inovador.

A inoculação de um medicamento chamado Sinaptek, baseado em nanorobôs que atuam no cérebro, promete pôr um fim aos seus problemas. Mas ao ingerir acidentalmente uma dose de Nirvana (proibida para não prejudicar o tratamento a que se submete), o jovem se vê arremessado numa outra realidade muito distante de todas as que já teve oportunidade de conhecer.

Estevan Lutz conta a história de um homem que se vê projetado para fora do próprio corpo, numa espécie de desdobramento ou viagem astral. A premissa é bastante interessante e possibilita um leque de abordagens: a chance de construir cenários fantásticos, de fazer o protagonista viver situações surreais, de criar conflitos sobrenaturais, de amalgamar real e supra-real numa coisa só.

O autor se esforça nesse sentido e consegue obter resultados satisfatórios nas viagens fantásticas de Icarus, embora tenha se limitado demais diante das inúmeras possibilidades a serem exploradas e na complexidade que poderia acrescentar à trama.

O romance prima pela reflexão, sendo quase todo introspectivo. O jovem Icarus vive questionamentos constantes. O tom muitas vezes filosófico arrasta a trama e deixa claro que se o leitor está em busca de ação, vai perder tempo.

Não há pontos de tensão nem conflitos durante quase toda a narrativa. Cria-se uma perseguição ao final da obra, mas ela termina de forma apática, previsível e decepcionante. O protagonista e os coadjuvantes são rasos, não houve uma preocupação maior em construí-los solidamente. A opção exagerada pela reflexão e pela introversão roubou de O voo de Icarus a possibilidade de desdobrar-se a si mesmo.

A construção empolada prejudicou a leitura. A pompa desnecessária (em contraponto à clareza e a objetividade) dificultou a imersão na narrativa e acrescentou uma superficialidade à obra difícil de ignorar.

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Exemplos:

“Com os punhos cerrados sobre o balcão, quase investi contra Lourdes por meio do emprego de adjetivos antissociais”.
Pag. 177

Isso tudo pra dizer que quase mandou a Lourdes tomar no rabo.

“Minha reação se restringiu a uma emanação criogênica que chegou a paralisar minha estrutura óssea”.
Pag. 191

E isso tudo pra dizer que estava gelado de medo.

Vários outros exemplos se repetem ao longo da narrativa. Deixou a impressão que os personagens da obra são todos sábios eruditos no púlpito.

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A leitura sem nuanças nem emoções mais fortes, aliada a linguagem afetada (tentativa fracassada de eruditismo. Não custa repetir que a melhor prosa é a mais simples, não tentem complicar), derrubou qualquer possibilidade de uma avaliação positiva. Mas em se tratando de primeira obra de autor ainda inexperiente, é aconselhável dar alguns descontos.

Encontro com Rama. De volta às livrarias um dos maiores clássicos da ficção científica mundial.

12/07/2011

Publicado originalmente em 1972, Encontro com Rama, de Arthur C. Clarke, ganhou alguns dos principais prêmios literários da ficção científica, entre eles o Hugo, o Nebula, o Júpiter e o British Science Fiction Association (BSFA). O livro é considerado um dos mais importantes do autor, ao lado de2001: Uma Odisseia no Espaço e O Fim da Infância.

Primeiro volume de uma série de quatro livros, a trama tem início com um gigantesco meteoro que atinge a Terra e devasta grande parte da Europa, destruindo cidades inteiras, como Pádua e Verona, dizimando populações e causando danos irreparáveis.

Cinquenta anos após esse episódio, uma missão espacial é incumbida de desvendar os mistérios de um novo meteoro, capaz de causar danos ainda maiores no Sistema Solar. Mas, longe ser apenas mais um astro errante no Universo, Rama se revela uma sofisticada e complexa construção, repleta de enigmas que desafiam a mente e os conceitos humanos. Surpreendente e meticuloso, é o relato dessa jornada que faz de Encontro com Rama uma das mais criativas obras da ficção científica mundial.

Curiosidades

Em 1992, o Congresso dos Estados Unidos solicitou à NASA uma investigação minuciosa dos corpos celestes próximos da Terra, a fim de avaliar os riscos de impactos em nosso planeta. Este esforço foi batizado de Spaceguard Project – inspirado no projeto homônimo  idealizado por Clarke em Encontro com Rama.

Em 2001, o cineasta David Fincher (A Rede Social) e o ator Morgan Freeman (Invictus) mostraram interesse em adaptar Encontro com Rama para o cinema. Freeman chegou a apresentar, na época, artes conceituais para o filme. Em 2007, eles voltaram a falar sobre o projeto, mas a ideia acabou não vingando.

Sobre o autor

Nascido em 16 de dezembro 1917 na cidade de Minehead, em Somerset, Inglaterra, Arthur C. Clarke desenvolveu, desde cedo, o interesse pela ciência e pela ficção científica. Após o ensino médio, mudou-se para Londres, onde se tornou membro da Sociedade Interplanetária Britânica e estudou Física e Matemática no King’s College. Em um artigo técnico escrito em 1945 para o periódico inglês Wireless World, ele apresentou os princípios da comunicação por satélite, os quais levariam aos sistemas hoje utilizados.

Entre seus trabalhos mais notáveis estão O Fim da Infância, Encontro com Rama e 2001: Uma Odisseia no Espaço, que se tornou um clássico do cinema nas mãos de Stanley Kubrick em 1968. Em 1956, Clarke mudou-se para o Sri Lanka, onde continuou a escrever seus livros e artigos. Lá viveu até sua morte em 19 de março de 2008, aos 90 anos, deixando um legado literário impressionante, com mais de cem milhões de livros vendidos no mundo inteiro.

Trecho do livro

O tubo de paisagem que o cercava era salpicado de áreas de luz e sombra que poderiam ser florestas, campos, lagos congelados ou cidades; a distância e a iluminação já fraca do sinalizador impossibilitavam a identificação. Linhas estreitas que poderiam ser estradas, canais ou rios com cursos retificados formavam uma rede geométrica vagamente visível; e lá adiante no cilindro, no limite da visão, havia uma faixa mais escura. A faixa formava um círculo completo, emoldurando o interior desse mundo, e Norton subitamente recordou-se do mito de Oceano, o mar que, segundo a crença dos antigos, circundava a Terra.

Ali talvez houvesse um mar ainda mais estranho – não circular, mas cilíndrico. Antes de congelar na noite interestelar, será que possuía ondas, marés e correntes – e peixes?

A luz do sinalizador bruxuleou e morreu; o momento de revelação terminara. Mas Norton sabia que, enquanto vivesse, essas imagens permaneceriam impressas em sua mente. Quaisquer que fossem as descobertas reservadas pelo futuro, jamais poderiam apagar essa primeira impressão.

ENCONTRO COM RAMA
Arthur C. Clarke
Tradução de Susana Alexandria
Editora Aleph
R$44,00 – 288 p.


Assembleia Estelar, lido e comentado.

13/06/2011

A coletânea Assembleia Estelar, organizada por Marcello Branco e publicada pela Editora Devir conta com 14 noveletas/contos, tem 408 páginas e seu tema está voltado à política e a tudo aquilo que a constitui e a complementa.

Comecei a leitura com grandes expectativas imaginando que o tema proposto exigiria trabalhos muito bem elaborados e necessariamente (não obrigatoriamente) hipnóticos. Não foi exatamente o que encontrei. Surpreendeu-me, sobretudo, encontrar trabalhos com pouquíssimas páginas quando uma das exigências era a de que as narrativas deveriam obedecer ao formato noveleta.

Ou faltaram trabalhos melhores e mais complexos, ou uma flexibilidade de última hora do organizador atingiu níveis estratosféricos.

Assembleia Estelar recebe um BOM pelo conjunto, embora não seja exatamente uma coletânea memorável.

A capa old-fashioned (autor: Vagner Vargas) repete o padrão apresentado por outros livros da Devir. Eu, particularmente, não gosto delas, embora reconheça a qualidade dos traços artísticos do capista. Já estava na hora da Devir se lembrar de que estamos no século XXI. Os anos 1960 ficaram para trás.

As escolhas recaíram sobre autores nacionais e estrangeiros, trazendo-nos trabalhos de Bruce Sterling, Ursula K. Le Guin e Orson Scott Card, além de Fernando Bonassi, André Carneiro, Ataíde Tartari, Henrique Flory, Daniel Fresnot, Luis Filipe Silva, Flávio Medeiros, Carlos Orsi, Miguel Carqueija, Roberto de Sousa Causo e Roberval Barcellos.

Vamos aos comentários.

• A queda de Roma antes da telenovela
Luis Filipe Silva

O que seria se cada votação de projeto de lei fosse transformada em espetáculo, transmitido em rede nacional de TV? Luis Filipe Silva fala de um futuro hipotético onde políticos perfeitamente integrados ao modus operandi da época lidam com um parlamentar cujas técnicas ainda obedecem às velhas fórmulas do século XX, nas quais os debates ainda se sobrepujam a mera análise estatística dos números. Não se trata de uma noveleta com ação e momentos de tirar o fôlego, trata-se de uma abordagem reflexiva que caminha paripasso para um final coerente. Se não arrebata, também não aborrece. MÉDIO

•Anauê
Roberval Barcellos

Trata-se de uma história alternativa onde, em 1980, o Brasil é governado por integralistas e tem a Alemanha nazista como aliada. Esperam por Hudolf Hess, que visitará o país. O autor traz à tona toda a sensação de indignidade e revolta que a política de extermínio de judeus provocou, explorando esse cenário em pleno território brasileiro. O conto começa bem, porém, na medida em que avança, vai descendo a ladeira. Há momentos inverossímeis, pouca habilidade nas cenas de ação (que são ingênuas) e um final apressado (e piegas) que foi decepcionante. RUIM

• Gabinete blindado
André Carneiro

Sabotadores se preparam para a ação enquanto uma das integrantes mergulha em reminiscências e reflexões. Poderia ser uma história bastante interessante se houvesse uma preocupação maior com a trama do que com a literariedade. Eu vivo reclamando a pouca preocupação do escritor brasileiro com a forma, mas também condeno os exageros. Nesse caso, André Carneiro chutou pra escanteio o enredo, apresentando-o de forma fragmentada, e valorizou excessivamente a qualidade técnica. Tratou-se de uma leitura arrastada e aborrecida. RUIM

•Trunfo de Campanha
Roberto de Sousa Causo

Essa noveleta fala de estratégias políticas que pretendem conferir a um único homem poder absoluto sobre o universo conhecido. Parece-se muito com um excerto, um trecho extraído de uma obra maior e mais completa — e isso a enfraquece. A preocupação em detalhar o cenário político desse universo força a narrativa a uma leitura cansativa. Não há pontos de tensão, não há ação (e quando há, não convence). Monocórdia da primeira à última linha parece ter sido escolhida para esse livro em virtude apenas do aprofundamento político que lhe é dada. O organizador ignorou qualquer necessidade de tensão. Final previsível e ingênuo. RUIM

• Diário do cerco de Nova Iorque
Daniel Fresnot

Escritor francês em visita à America do Norte assiste convulsão social onde Nova Iorque mergulha numa batalha contra o resto do país. Narrativa hipnótica, muito bem conduzida, ritmo excelente. O leitor se vê arrastado em meio à trama, ansioso pelo final. Destaque especialíssimo a Jack, o periquito. MUITO BOM

• Saara Gardens
Ataíde Tartari

Esse é o trabalho mais curto do livro. Narra tramas políticas que visam permitir a exploração do deserto do Saara num empreendimento imobiliário. Conhecido por seu estilo despojado, Ataíde Tartari explora alusões a empreiteiras e personalidades contemporâneas. O conto peca especialmente por ser muito curto. Não há desenvolvimento, não há aprofundamento, não há envolvimento. O subterrâneo e os bastidores políticos poderiam ter sido melhor explorados. Quando achamos que o conto está começando, ele termina. Sua absoluta despretensão também o enfraquece. RUIM

• Era de aquário
Miguel Carqueija

Embora seja também curto, esse conto tem um desenvolvimento mais equilibrado. Um senador se prepara para uma importante conferência numa universidade em meio a um cenário distópico e caótico, onde assassinatos e convulsões sociais são regra e não exceção. Boa condução e bom ritmo. Agradável leitura. BOM

• A evolução dos homens sem pernas
Fernando Bonassi

A história discorre com ironia e se revela uma metáfora para a ciranda evolutiva do Homem, que constrói o ambiente de acordo com as suas necessidades, até que suas necessidades sejam o ambiente que o cerca. Atraente sem ser apaixonante, o conto se descobre profético. BOM

•A pedra que canta
Henrique Flory

Uma criança doente se revela potencialmente perigosa quando tem implantado cirurgicamente um dispositivo que a permite enxergar pontos de tensão em estruturas. Será importantíssimo em uma missão de sabotagem que pretende destruir Buenos Aires. Trata-se de uma história bastante interessante, bem contada e com bom ritmo. BOM

• O dia antes da revolução
Ursula K. Le Guin

Noveleta em ritmo de reminiscências, onde a protagonista revive o passado às vésperas de uma revolução. Também como excerto, o trabalho acaba sendo linear demais, não oferecendo os pontos de tensão tão necessários para aprisionar a atenção durante a leitura. Muito bem escrito, porém. Mas basta isso? A mim, não. MÉDIO

•O grande rio
Flávio Medeiros Jr.

Trata-se, sem dúvida, do melhor trabalho dessa coletânea. O assassinato de John Kennedy é planejado muitos anos depois de sua eleição, num mundo mergulhado na guerra. Viagem no tempo, paradoxos e muita criatividade. ÓTIMO.

•O originista
Orson Scott Card

O estudo da origem e complexidade da linguagem na formação histórica do ser humano trabalhado com maestria por Card. A história está baseada na trilogia da Fundação de Asimov e os protagonistas trabalham nos subterrâneos pela formação da Segunda Fundação. Talvez uma das narrativas mais longas, mas nem por isso aborrecida. Card conduz muito bem a história conseguindo prender a atenção do leitor com rara habilidade. Por vezes me flagrei protelando a leitura com medo que ela se acabasse. MUITO BOM

• Questão de sobrevivência
Carlos Orsi

São Paulo, ano de 2030. O caos social implode a cidade, doenças misteriosas assolam a população menos favorecida, governantes não têm pruridos em dizimar massas humanas em nome da ordem. Nesse cenário extremamente caótico um grupo de resistentes toma de assalto um veículo de transporte de leite materno. Dramático e pungente. Carlos Orsi consegue com habilidade narrar uma história assustadora. BOM

•Vemos as coisas de modo diferente
Bruce Sterling

Jornalista muçulmano visita os EUA para entrevistar um político líder de uma banda de rock. Com boa condução essa história bastante interessante nos traz um mundo sociopoliticamente transformado, num tempo em  que os EUA não são mais a polícia do mundo e as terras do Islã se uniram num único Califado. Profético, talvez? BOM

Dieselpunk anuncia autores escolhidos.

04/05/2011

Foram lançadas, este ano, duas coletâneas que encarei com elevada seriedade e julguei importantes demais para ficar fora delas. Claro que sempre soube que as minhas chances ombreavam as mesmas de dezenas de outros candidatos e na escolha dos melhores eu poderia ser recusado.

Tratam-se das coletâneas Queer (Tarja editorial – organização de Cristina Lasaitis e Rober Pinheiro) e Dieselpunk (Editora Draco – organização de Gerson Lodi-Ribeiro).

A noveleta para a Dieselpunk ficou pronta primeiro (+ ou – duas semanas para escrevê-la), mesmo porque essa coletânea foi anunciada bem antes (já no último Fantasticon, extraoficialmente). Mas, por outro lado, o conto para a Queer foi o que menos me tomou tempo. Escrevi-o em meras duas horas, embora dar o primeiro passo tenha levado algumas semanas.

Ambos os trabalhos tem para mim uma grande importância porque dei a eles o que tinha de melhor. Tanto um quanto o outro passou pela leitura atenta de alguns leitores beta e ambos foram bastante elogiados. Enviei-os na certeza de estar concorrendo a uma vaga com boas chances de obtê-la.

Bem, fui recusado na Queer e isso me deixou chateado, como, claro, não poderia deixar de ser. Qualquer escritor com o mínimo de miolos na cabeça fica chateado quando é recusado para um projeto. Desejo à essa coletânea todo o sucesso do mundo e que seja precursora de outras tão inovadoras quanto ela.

Mas, por outro lado, fui aprovado para a Dieselpunk. E estou radiante com isso já que reputo a Gerson Lodi-Ribeiro umas das mais importantes cadeiras dentro da literatura de gênero nacional e ter um trabalho aprovado por ele significa muito para mim (significa muito para QUALQUER um).

Com bastante orgulho, dividirei espaço com:

– Antonio Luiz Costa – Ao perdedor, as baratas

– Cirilo Lemos – Auto do extermínio

– Sidemar castro – Cobra de fogo

– Octavio Aragão – O dia em que Virgulino cortou o rabo da cobra sem fim com o chuço excomungado

– Carlos Orsi Martinho – A fúria do escorpião azul

– Tibor Moricz – Grande G

– Hugo Vera – Impávido colosso

– Gerson Lodi-Ribeiro – País da aviação

– Jorge Candeias – Só a morte te resgata 

Com lançamento já programado para acontecer no próximo Fantasticon, antecipo-me bastante atarefado nessa data. Autógrafos para a Dieselpunk, autógrafos para O Peregrino. Para um autor não há nada melhor do que isso, ou há?

Parabéns à Editora Draco, parabéns ao organizador e parabéns a todos os escolhidos que figurarão nessa importante coletânea.

O Peregrino, em busca das crianças perdidas dá a cara a tapa.

25/03/2011

Meses atrás tive uma ideia que julguei interessante: reunir um grupo de resenhistas para ler e avaliar O Peregrino, em busca das crianças perdidas, com o intuito de divulgar suas impressões antes da distribuição oficial do livro.

Mas a proposta era de que essas resenhas só fossem publicadas se o livro de fato merecesse elogios. Pode parecer estranho, mas minha intenção era/é a de usar as resenhas como ferramenta de marketing. Isso não significa que se o livro não causar boa impressão, eles deixarão de resenhá-lo. Vão. Mas publicarão a crítica, nesse caso, só depois do lançamento.

Nunca pedi a ninguém que me fizesse resenhas positivas na base da amizade e nunca vou pedir. Não me presto a canastrices.

Assim sendo, os resenhistas/críticos aceitaram a missão e trataram de ler o original em PDF que lhes enviei e logo vocês terão a oportunidade de saber o que pensam a respeito de O Peregrino, em busca das crianças perdidas.

Quem são eles? Ficarão sabendo na semana que vem.

Cada resenha será postada no blog de domínio do resenhista contatado num dia diferente, começando na segunda-feira, dia 28 de março.

Encontraremos-nos lá.

Quem é Miguel Carqueija?

02/03/2011

 

Miguel Carqueija é o primeiro a esquerda, nessa foto de 2006 onde acontece uma reunião do CLFC. Nasceu e mora no Rio de Janeiro onde escreve "desde tempos imemoriais", mas participa do fandom desde 1983 - isto é, quase desde o seu início - e vem publicando desde então. Afora centenas de textos em fanzines, revistas, jornais e páginas virtuais, contabiliza 14 livros individuais, sendo 9 em papel, 1 em papel e com versão digital, e 4 "e-books". Desses 14, o livro virtual As portas do magma (scarium.com.br) é de coautoria com Jorge Luiz Calife. Menciona-se ainda A âncora dos Argonautas (1999), A Rainha Secreta (2001), A Esfinge Negra (2003), O fantasma do apito (2007, reeditado em 2010), Farei meu destino (versões em papel e virtual, 2008 -gizeditorial.com.br) e "Tempo das caçadoras" (2009). Também participou de mais de duas dezenas de antologias, umas amadoras, outras profissionais, destacando Poe 200 anos, organizada por Maurício Montenegro e Ademir Pascale e lançada em 2010, onde além de um dos contos também assina o prefácio. Seu conto O tesouro de Dona Mirtes foi filmado em 2004 e o curta resultante pode ser assistido pelo youtube (http://www.youtube.com/watch?v=CYn_11sQEQI).

É só outro blogue: Como você definiria as décadas de 1980 e 2010? Quais são as fundamentais e observáveis diferenças entre a FC praticada naquela época e a que é praticada hoje?

Miguel Carqueija: Naquele tempo os “gêneros interessantes” – basicamente, ficção científica, fantasia, terror e mistério não estavam tão unidos como hoje em dia, quando não separamos mais os que fazem isso ou aquilo, estamos todos no mesmo barco. Eu, particularmente, diversifiquei minhas experiências, passei a escrever terror, fanfics, cheguei à alta fantasia e tenho incursões no policial. Além disso, nos anos 80 ainda não existiam celular e internet, que influenciaram muito nos textos posteriores. Também nos baseávamos mais nos fanzines de papel e poucos de nós publicavam em livros, quando o faziam eram edições amadoras e/ou cooperativadas. Hoje em dia é mais fácil chegar ao livro, pelo menos às antologias, sem falar nos “e-books” – só eu já tenho quatro.

É só outro blogue: Você exibe, hoje, em parte de seus escritos, uma profunda crença religiosa. Seus personagens obedecem ao estereótipo maniqueísta onde bem e mal estão claramente definidos. Você não acha que, em tempos de ateísmo (e agnosticismo) cada vez mais abrangente entre os intelectuais, essa abordagem pode afastar leitores potenciais?

Miguel Carqueija: Em certas novelas principalmente as que lidam mais profundamente com a alma feminina (sou um especialista em heroínas) coloco religiosidade, e diferenciação clara entre o bem e o mal. Mas não vejo isso como maniqueísmo, pois procuro colocar vivacidade nos personagens e nas ações. E as atitudes dos bons são justificadas. Creio que estabelecer uma diferença clara entre o certo e o errado é o melhor caminho, muito melhor que o relativismo moral. Por outro lado, bilhões de pessoas no mundo são religiosas, embora em graus diferentes e também de maneiras diferentes; e existem autores ateus que, nos seus escritos, operam claro proselitismo das ideias ateístas. Ora, para mim a religião está mais forte do que nunca, especialmente a minha (católica) e sei que o materialismo jamais conseguirá prevalecer. Outros podem pensar de outra maneira, mas esta é uma aposta minha. Gostaria de lembrar que nessas historias também coloco muito humor entremeado, e trabalho com um estilo narrativo que Jorge Luiz Calife considerou “cinematográfico” no prefácio que escreveu para a novela A face oculta da Galáxia (“e-book” publicado em casadacultura.org, no “link” de ficção científica). É interessante observar que Calife é decididamente descrente, pelo menos deixa isso claro em Padrões de contato (não sei se é sua posição atual), mas não se incomodou com as referências à religião feitas na citada novela; ele enxergou outras coisas. Uma coisa que posso dizer é que me esforço para que os meus textos sejam interessantes do começo ao fim, evito as narrativas resumidas que tantos fazem, ou repletas de explicações cansativas, sou de opinião que uma história explica a si mesma pelo seu desenvolvimento. Assim, não me considero um “moralista chato”, mas não abro mão de considerar a literatura um veículo para ideias e mensagens. E não considero um bom caminho o brutalismo à Rubem Fonseca seguido por vários colegas do fandom; entretanto é um caminho que eles escolheram, e eu escolhi o meu, mais próximo p.ex. do João Batista Melo.

É só outro blogue: Dentre os escritores brasileiros de ficção de gênero (Fantasia, Terror, Ficção Científica, etc.), quais os que mais lhe chamam a atenção e por quê?

Miguel Carqueija: Gosto de alguns antigos como Thales Andrade, autor de O sono do monstro e A filha da floresta, e que acompanhou a minha infância, é um autor injustamente esquecido. E Malba Tahan, nosso grande fabulista, que até numa de suas histórias, A caixa do futuro, antecipou as cápsulas de mensagem para os pósteros, coisa que hoje já existe. São autores que podem ser lidos por todas as idades e que mantém uma inocência básica que vejo como muito importante, apesar de ser um valor esquecido. O João Batista Melo eu aprecio muito, como o nosso Bradbury. Um de seus contos mais aliciantes, onde o fantástico é sutilíssimo, é aquele em que um diretor de escola corrupto afasta uma professora antiga e querida pelos alunos para dar lugar a uma apaniguada jovem, e em consequência todos os alunos desaparecem, colocando-o em palpos de aranha. Também gosto dos trabalhos de Simone Saueressig e Roberto Causo, a primeira pela sua veia fabulística, o Causo pela correção de seu estilo e seu resgate dos temas do folclore indígena. E quero mencionar também duas autoras pouco comentadas, Regina Sylvia, cujo romance 9225 antecipou a internet numa distopia curiosíssima (é uma edição particular) e Elizabeth Maggio, cujo conto Aqui não há nuvens, saído na antologia As sete faces da ficção científica, é uma obra-prima.

É só outro blogue: O que o atrai a ponto de dedicar seus esforços em algumas histórias crossover baseadas em mangás? Não o incomoda que uns considerem esses trabalhos infantilóides?

Miguel carqueija: Com relação a isso, talvez você esteja se baseando no fato de que meus dois últimos livros publicados foram fanfics-crossovers: A cidade do terror, que saiu em contosgrotescos.com.br, e O fator caos, publicado no Portal Cranik, ambos em 2010. Mas veja bem, isto foi uma estratégia: surgindo oportunidade de lançar “e-books” dei preferência a essas novelas já antigas, pois a internet é o espaço mais adequado para as fanfics – tanto que existem milhões na rede, e cada dia aumenta o número.
Além do mais, minhas fanfics não são inspiradas só em mangás, já fiz com Batman, Chapolin, Tio Patinhas etc. Fanfics são homenagens dos fãs e representam um interessante exercício, pois o autor deve se esforçar em respeitar o caráter básico dos personagens utilizados. Monteiro Lobato, na série do  “Sítio do Pica-pau Amarelo” trabalhou muito com fanfics (Peter Pan, por exemplo), embora naquele tempo não se usasse esse termo.
Gosto de produzir fanfics. No campo dos mangás fiz várias de Sailor Moon e estou preparando uma do Cowboy Bebop. Mas, quero frisar bem este ponto, fanfics são apenas uma fração da minha obra, já que invisto em muitas modalidades. Já criei até um pirata para uma nova série. Escrevo terror, fantasia, mini-contos de vários tipos, policial, história alternativa, contos de ficção científica de fundo social e satírico. Quanto a serem tais histórias “infantiloides”, bem, eu sou assumidamente um escritor de ficção infanto-juvenil. Não me julgo infantiloide, pois tento caprichar nos diálogos, construção das cenas etc. e meu texto é econômico. Realmente, meus textos são amenos e nesse ponto contrastam bem com certa FC barra-pesada que se tornou moda em alguns autores, mas não tenho a mínima intenção de mudar. Acredito que não se pode abandonar de todo as histórias idealistas e que o público aprecia a exaltação de valores, senão séries como “Harry Potter” e “Guerra nas estrelas” não fariam tanto sucesso. Como autor, uma das minhas preocupações é constatar as impressões dos leitores. Tanto isso é verdade, que costumo remeter meus livros para possíveis resenhadores. Comentários que não se limitem a “gostei” ou “não gostei” são bem recebidos, mesmo que sejam desfavoráveis. Os leitores/críticos muitas vezes enxergam coisas que os próprios autores não percebem. E mesmo que você tenha sabido de críticas “ferozes” contra meus textos, também estou acostumado a receber elogios às vezes inesperados e até exagerados.
Agora, se você acha que escrever fanfics é um desperdício de talento, devo esclarecer que estou com vários livros que não são fanfics à espera de edição profissional em papel. Tenho um romance de ficção científica e policial, Neblina e a Ninja, que trata do problema da violência urbana (portanto, mais atual que nunca), prefaciado por Marcello Simão Branco. Estou com dois novos romances que representam experiências novas na minha obra: O estigma do feiticeiro negro (com prefácio de Cesar Silva), que é uma alta fantasia, e O despertar das bruxas, uma fantasia urbana contemporânea e acho que ambos poderão dar o que falar. Meu próximo livro, porém, que deverá sair em formato de bolso, será Os mistérios do Mundo Negro, uma mistura de terror e FC.

É só outro blogue: O mercado literário de gênero, hoje, vem passando por uma expansão editorial jamais vivenciada antes. Tratando-se você de um autor com currículo e história em nossa FC, o que justifica publicar Farei meu destino na Editora Giz, como edição de autor? Você chegou a procurar por editoras tradicionais?

Miguel Carqueija: Não acho tão fácil assim motivar as editoras profissionais, mas eu lhe digo que, depois de publicar Farei meu destino, muitas portas começaram a se abrir. Basta dizer que, desde então, publiquei três “e-books” individuais e participei de duas antologias virtuais; lancei mais um livro individual semi-profissional, Tempo das caçadoras; O fantasma do apito, de 2007, obteve segunda edição em 2010 (já houve quem o classificasse de “cult”): e participei de nada menos que sete antologias em papel profissionais. Na verdade, nunca publiquei tanto e em tantas edições profissionais. Por isso, creio que valeu a pena investir.

Quem é Simone Saueressig?

23/02/2011

 

Simone Saueressig nasceu em Campo Bom (RS), em 1964. Atualmente mora em Novo Hamburgo (RS). Professora de balé, estreou na Literatura em 1987. Tem vários títulos publicados dentro do gênero do Fantástico, muitos deles voltados para o público infantil e infanto-juvenil como “A Noite da Grande Magia Branca” (2007), “A Fortaleza de Cristal” (2007), “O Palácio de Ifê” (1989) “A Estrela de Iemanjá” (2009), “A Máquina Fantabulástica” (1997), “Receita para um dragão” (1999) e o livro de contos “O Ninho” (2000). Na década de 90, publicou contos infantis no jornal "Ya", de Madrid (Espanha) e o conto de realidade fantástica “As linhas na pele do viajante” na revista lusitana “Ibn Maruan” (1996). Participou de diferentes antologias, como “Como era gostosa a minha alienígena” (2002) e de vários fanzines, como o Boletim Antares, Somnium, Hiperespaço, e Scarium, entre 1987 e 2008. Em 2003 conquistou o 1º lugar no concurso 1º Concurso de Contos e Ilustrações – Na rota das caravanas promovido pela Revista Scarium e o 1º lugar no concurso Museus: Mundos Imaginários, promovido pelo Museu Imperial de Petrópolis. Seus trabalhos podem ser encontrados em vários sites da internet, inclusive no http://www.porteiradafantasia.com onde podem ser lidos gratuitamente os e-books “O pitbull é manso, mas o dono dele já mordeu uns quantos...” e “O Jogo no Tabuleiro” de sua autoria.

Começarei as entrevistas com autores identificados com a Segunda Onda com Simone Saueressig. Simone, mesmo tendo uma peridiocidade de publicações bastante razoável, é, misteriosamente, desconhecida do Fandom atual, esse que vem se formando de forma paulatina, acompanhando a expansão de mercado da Terceira Onda. Talvez essa entrevista ajude-a a se tornar mais visível, talvez não. Para quem não a conhece, apresento-lhes uma autora de técnica narrativa refinada e muita criatividade.

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É só outro blogue: Você escreve obras tanto para adultos quanto para crianças e jovens. Há mesmo alguma diferença entre escrever para adultos e escrever para crianças/jovens?

Simone: Creio que há uma diferença de abordagem, o que significa uma diferença de linguagem. Mas não mais do que isso. Existem alguns autores que acreditam que existem temas “tabu” para a literatura voltada ao público infantil, mas eu acho que não. A dificuldade maior está na abordagem e no próprio autor. Alguns autores se sentem mais a vontade para falar de temas como sexo e violência e outros não. O fórum interno de cada um conta muito mais do que a gente pensa.

É só outro blogue: Suas obras de Fantasia são marcadas pela preocupação em utilizar elementos da mitologia indígena brasileira. Mas vivemos numa “aldeia global”, para citar a frase que já virou clichê de Marshall McLuhan. No que uma escritora brasileira de Fantasia difere de, digamos, uma escritora escocesa de Fantasia?

Simone: A diferença deveria ser a matéria-prima do imaginário e a maneira como uma cultura lida com isso. A cultura massificada dos nossos dias tem uma tendência a ficar na superfície das coisas e esquece que os elementos da mitologia falam diretamente ao simbólico, ao subconsciente das pessoas. Pouco antes de eu começar a escrever, muita gente se preocupava com a “invasão cultural norte-americana”: era uma discussão muito viva e abrangente, com críticas voando de lado a lado. Eu vivi uma situação polarizada: de um lado amigos politizados que criticavam minhas leituras (basicamente FC e Fantasia, o que na época significava ler autores norte americanos e europeus) e de outro umas poucas pessoas que compartilhavam comigo a paixão por esse tipo de histórias (que eram poucas e estavam distantes). Encontrei o equilíbrio quando percebi que poderia escrever fantasia usando os elementos do meu folclore – o que é exatamente a mesma coisa que a hipotética escritora escocesa da pergunta faria com os elementos do folclore dela. A grande diferença é que depois da abertura política e a chegada da internet, a discussão em torno da invasão cultural foi se esvaziando e praticamente desapareceu. Então quase não existe mais resistência, porque se antes a frase de Marshall McLuhan era quase uma metáfora, hoje ela não é mais. A rede aproxima as pessoas, mantém laços afetivos, promove encontros que antes não eram possíveis. Por isso mesmo é tão importante que recuperemos a discussão sobre a invasão cultural e a mantenhamos viva. Isso não quer dizer ignorar as mitologias que chegam de fora, mas ter claro que elas são outra leitura do imaginário humano, que não o meu, enquanto brasileira e sul-americana – mas aí surge outra discussão sobre quais os símbolos com os quais nós nos identificamos: se com o Saci-Pererê ou com o gnomo que oculta seu tesouro no fim do arco-íris e qual a legitimidade de eu usar um símbolo com o qual eu não me identifico, porque a cultura urbana e globalizada me deu outros elementos que os considerados originalmente como brasileiros e estes, muitas vezes, são mais alienígenas, no sentido que não os reconheço como meus, do que os estrangeiros que povoaram os filmes e livros que consumi e que me formaram como ser humano. Toda vez que lidamos com um símbolo cultural, estamos lidando com valores de uma cultura especifica. Então é muito importante que mantenhamos vivas as diferenças culturais, não como uma fronteira que separe, mas como forma de enriquecer o patrimônio imaginário humano. Por isso é  importante manter vivos os seus elementos mitológicos e folclóricos: para não perder a variedade que nos torna únicos na Natureza. Talvez a principal diferença entre uma escritora de Fantasia brasileira e uma escocesa, é que a escocesa tem tão arraigada a importância de manter a sua identidade cultural, que ela não vai se preocupar com isso – é parte do seu trabalho. Mas de uma maneira geral, a escritora brasileira terá de compreender o processo e sua importância, terá de se convencer disso, porque ela foi bombardeada durante muito tempo com objetos culturais onde são exaltados e dados a conhecer figuras mitológicas de outras culturas. Ela já está acostumada a guerreiros medievais, sabe – ou pensa que sabe – o que são. Ela já se apaixonou por dragões e tem claras as paisagens das histórias de Fantasia europeias. De uma maneira geral, conhece as dificuldades climáticas e os desafios do relevo. Em que história de Fantasia não neva? Não tem um pântano com guerreiros afogados? Que graça uma história de Fantasia sem altas montanhas para transpor? Tudo isso faz parte da paisagem europeia, e já foi tão explorado por esse tipo de literatura que qualquer leitor médio saberia descrever medianamente um cenário de história de Fantasia. Mas quando a gente atravessa o Atlântico, aparece o desafio. De repente não há mais guerreiros medievais, os monstros mudam, o cenário muda. As regras mudam. E além de você ter de pesquisar tudo isso, ainda por cima tem de descrever de uma maneira atrativa para um público que, normalmente, não sabe do que se está falando. Então a escritora brasileira terá de se convencer de fato de que o sua matéria-prima é tão importante quanto a da escocesa – que já está convencida disso – e esta é uma diferença muito importante.

É só outro blogue: Como é o seu método de trabalho? Quando se senta para escrever, você já tem toda a história planejada ou vai descobrindo na medida em que escreve? Como você se inspira? Quem ou quais são as suas influências?

Simone: Normalmente, eu escrevo para descobrir a história. Quero saber o que vai acontecer com algum personagem. Eventualmente tenho uma “cena” que gostaria de escrever e para ela funcionar, é preciso criar um arcabouço de eventos onde ela possa ser inserida com a dramaticidade que eu a imaginei. “A Fortaleza de Cristal”, por exemplo, foi escrito somente para por um personagem de joelhos (pura crueldade, já me disseram!). Contudo, de vez em quando escrevo uma história cujo final já imaginei, como o inédito “Os Sóis da América”. Quando isso acontece, costuma ser um sufoco, porque a partir do momento em que eu sei o final da história ela perde o interesse para mim. “Os Sóis da América” não perdeu o interesse porque mesmo sabendo o final da história eu precisava resolver tantas coisas na aventura do personagem principal que fiquei ligada até a última linha. O que não significa que o texto está pronto, longe disso. Aí é que começa o trabalho mesmo, porque a primeira versão costuma ser pura diversão. Depois é que o vou trabalhar de verdade.
É complicado falar em “método”. Depende do texto. Se for uma história de Fantasia sem um contrato especifico com o imaginário brasileiro ou sul americano, é mais fácil, como em “A Máquina Fantabulástica”. O próprio “O Jogo no Tabuleiro”, que lida com elementos tradicionais das histórias de Fantasia (tem dragões, montanhas, magos e guerreiros), foi relativamente fácil de ser escrito, embora trabalhoso. “O pitbull é manso, mas o dono dele já mordeu uns quantos…” fluiu muito bem, quando não toquei no texto depois de pronto.  Mas quando estou focada em alguma das nossas tradições, o texto é escrito mais ou menos junto com a pesquisa. Reconheço que sou preguiçosa. As coisas facilmente perdem o interesse para mim, então dificilmente eu faço primeiro a pesquisa, para depois escrever. Acho que só fiz isso com “O Palácio de Ifê” e “A Estrela de Iemanjá”, que têm como tema a cultura afro-brasileira.
Quanto à inspiração, bem que eu gostaria de dizer “como eu me inspiro”, porque daí ia ficar fácil repetir o processo toda vez que precisar! A única vez em que a inspiração veio de verdade, aquela que a gente tem como ideal, foi quando escrevi “A Máquina Fantabulástica”, inspirada no maluco do elevador do prédio onde moro. Normalmente as histórias partem de uma ideia vaga: “eu gostaria de escrever algo feito aquele livro, com um tema parecido ou uma voz textual semelhante”. Mas é claro que dificilmente algo me inspirará mais do que um filme ruim. Quanto pior o filme, mais ele me desperta indagações e controvérsias interiores. Ainda estou me recuperando de “O último mestre do ar”.
E por fim, as influências, são múltiplas: Asimov, Bradbury, Tolkien, Lewis, Leblanc, King, Poe, Lovecraft, o que vou lendo no momento… é difícil de dizer. No fundo eu acho que todo autor que a gente lê contribui, em certa medida, no texto que vamos escrever. Mas sem dúvida, Tolkien, Poe e Asimov foram os que contribuíram na minha paixão pela literatura fantástica. Sem eles, eu não teria lido todos os demais. E antes todos eles, Lewis e suas Crônicas de Nárnia. Sem Lewis, eu sequer teria me tornado uma leitora.

É só outro blogue: Olhando em retrospecto, o que você diria para um jovem escritor brasileiro de Fantasia não fazer?

Simone: Não copiar – o que é muito difícil. Mesmo “A noite da grande magia branca”, o primeiro livro que editei buscando uma Fantasia com elementos brasileiros, tem tanta influência de Tolkien que é quase impossível não lê-lo nas entrelinhas – e isso que foi uma luta constante. Quando eu digo “não copiar”, não estou acusando ninguém de plágio, notem bem. Não estou dizendo que este ou aquele autor copia realmente seus livros e suas histórias de clássicos. Eles existem, mas felizmente são em menor número. Contudo, estaria bem que no lugar de tanto feiticeiro, bruxa e guerreiro medieval, pudéssemos contar com bandeirantes, pais de santo e jagunços, por exemplo. Outra coisa que está acontecendo com esses autores é que eles ficam olhando muito para o próprio umbigo. O sujeito escreve um livro e vende (que bom!)– e se acha o máximo. Em vez de ele partir para a próxima, pensar “tá, e agora?”, ele fica inflando o ego com números e resenhas elogiosas. Quando eu comecei a colocar meus contos nos fanzines, descobri que estava dando a cara à tapa. As críticas nem sempre eram boas. Claro que ninguém gosta de ser criticado, mas é ela que ensina. A primeira coisa que se faz hoje, quando isso acontece, é revidar como se fosse uma coisa pessoal. A crítica é, sobretudo, o olhar do outro, e o “outro” é o leitor, a outra ponta da corrente. Sem ele não existe Literatura.
E também tem o básico: se estiver começando, não o faça com uma saga de cinco volumes de 700 páginas cada um!  A gente precisa aprender a ter calma. Se quiser escrever a tal da saga, o melhor é deixá-la num cantinho por um ano ou dois, depois de pronta. Quando o escritor a pegar de novo verá se ela de fato merece tudo isso ou se precisa ser recortada. Em todo o caso, se o autor pensar que é isso mesmo o que ele quer, então que vá em frente, mesmo que o mundo inteiro diga que não. Muitas vezes os editores erram de maneira tão absurda que a gente fica pensando como um sujeito como aquele que disse que Kipling não sabia escrever, por exemplo, podia estar à frente de uma editora. O caso é que o que o editor diz pode ser importante, mas aquilo em que o autor acredita é mais. Kipling, afinal de contas, depois de receber tão miserável crítica, foi o primeiro autor inglês agraciado com o Nobel de Literatura, em 1907 e até hoje foi o mais jovem.
Em todo o caso Kipling não começou com histórias longas, não mesmo!

É só outro blogue: Dentre os escritores brasileiros de ficção de gênero (Fantasia, Terror, Ficção Científica, etc.), quais os que mais lhe chamam a atenção?

Simone: Acho o Braulio Tavares brilhante e gosto muito do Roberto Causo. Acabei de ler o lançamento de Christopher Kastensmidt pela Devir, e achei muito legal a proposta. É como se fosse um diálogo travado através dos livros: eu, enquanto brasileira, li e consumi FC e Fantasia americana. Ele, que é norte-americano radicado no Brasil, me oferece uma história do gênero com temas brasileiros, em terras brasileiras. Também gosto do Flávio Medeiros Jr. e dos contos da Maria Lúcia Victor Barbosa, dos livros que li de Aline Bittencourt e Flávia Muniz.  E eu jamais deixaria Marina Colasanti de fora de uma lista de autores do gênero aqui do Brasil. Ninguém escreve contos de fadas como ela (mesmo quando as fadas não aparecem explicitamente).

Saint-Clair Stockler colaborou nesta entrevista.

De Bar em Bar entrevista Charles Stross.

02/02/2011

Charles Stross, 46 anos, é escritor de ficção científica em tempo integral e reside em Edimburgo, na Escócia. É autor de seis romances indicados ao prêmio Hugo, tendo vencido os prêmios de 2005 e 2010 na categoria melhor novela, e já teve suas obras traduzidas em mais de doze idiomas. Como muitos escritores, Stross teve uma variedade de carreiras, ocupações e trabalhos catastróficos no passado, desde farmacêutico (do qual desistiu depois da segunda autuação polícial) a programador em tempo integral numa bem sucedida empreitada "pontocom" (mas com um timing perfeito, tentou mudar de empregador justo quando a bolha estourou)

Chamas azuladas e faíscas explodiam ruidosamente. Encolhi-me, assustado e sem entender o que estava acontecendo. Devia estar em casa, descansando depois da entrevista com Ekaterina Sedia, mas me via envolto em fumaça, fogo, sirenes e gritos de alerta. Sem iniciativa para agir, atônito.

Então fui agarrado num dos braços e puxado com força para fora do nicho em que estava metido. Fui sendo arrastado por alguns metros ao mesmo tempo em que um grupo de homens tentava, com extintores de incêndio, debelar o fogo que ganhava força. Olhei para o homem que me arrastava e reconheci Charles Stross.

Se eu já estava atônito, fiquei ainda mais. Nossa entrevista não deveria acontecer antes de alguns dias de intervalo. Levantei-me dividindo minha atenção com ele e com meu relógio quântico, tentando adivinhar o que estava acontecendo. Provavelmente uma discrepância que me lançara em outra realidade alterada de maneira subsequente.

Ainda cutucava o relógio quando Charlie, exasperado, me chamou a atenção.

— Vamos ficar aqui brincando de cuco enquanto a nave se desintegra?

Claro que sentia um peixe fora d’água. Não sabia o que estava acontecendo, nem como fora parar ali.

— Não, claro que não – respondi sem nem saber ao certo como devia proceder.

Charlie não me deixou pensar por muito tempo. Voltou a me pegar pelo braço e a me conduzir por um curto corredor até uma porta que se abriu imediatamente à nossa aproximação. Do lado de fora a azáfama era igualmente grande. Um intenso corre-corre de homens e mulheres, todos vestindo macacões cinza chumbo, olhares de espanto, expressões de medo.

— O que está acontecendo? – perguntei.

— Aparentemente fomos arrancados, sem nenhuma graciosidade, do hiperespaço.

Eu o ia seguindo apressadamente, vendo os outros passarem por nós, às vezes trombando conosco. Subimos e descemos escadas, caminhamos por inúmeros corredores sendo, por vezes, sacudidos pelo que pareciam explosões próximas.

— Hiperespaço? – perguntei de novo, tentando entender.

Charlie olhou para mim como quem olha para um completo estranho.

— Viagem inaugural, lembra-se? Cargueiro Pegasus de primeira classe. Nível 2 na escala de Reymond & Clever. Com destino à constelação de Orion, ao sistema de Bellatrix. Vindos do conglomerado industrial de Io, a serviço da Corporação Amgen & Toyota. O que você andou bebendo?

— Fomos arrancados – continuou ele – de nossa viagem por um flare solar de grande magnitude. Ar-ran-ca-dos! Entende isso?

Parei de acompanhá-lo por alguns instantes. Havia em meio ao corredor uma abertura ampla, aparentemente envidraçada. Ao me aproximar e tocar a membrana que nos separava do espaço exterior foi que me lembrei de já ter visto aquela tecnologia antes, na entrevista com Calife.

Aproximei meu rosto do campo energético e vi uma coisa colossal e sinuosa. Era a nave cargueira onde estávamos. Ela se estendia a perder de vista, toda formada por blocos metálicos agrupados como um imenso Lego. Em vários lugares as junções explodiam, blocos se separavam uns dos outros, girando, batendo, abrindo suas paredes e despejando no espaço carga e gente. Vi vários focos de incêndio, intensos. Logo desapareciam no vácuo para serem substituídos por outros. As explosões iam se sucedendo.

Um grito de Charlie me trouxe novamente à realidade. Corri para alcançá-lo. O chão sob nossos pés estremecia com cada vez mais força. Comecei a ouvir gritos não muito distantes e, para meu terror, vi o segmento da nave onde eu estava há pouco, rachar e abrir ao meio, expulsando as pessoas que corriam por ali, jogando-as no espaço. Charlie me agarrou e me lançou para dentro de uma sala, fechando hermeticamente a porta atrás de nós.

Eu estava apavorado.

— Há a entrevista, mas não sei o que perguntar. Não estou preparado para isso. Não era para estar aqui – balbuciei confuso.

— Entrevista? Que besteira é essa?

A sala onde estávamos possuía uma série de casulos que se projetavam das paredes. Observei-os tentando adivinhar-lhes as funções. Arrisquei um palpite.

— Sistema de fuga?

— Bolhas de ejeção. Existem algumas centenas nessa gigantesca cidade flutuante. Mas a grande maioria já se perdeu, destruída pela desintegração da nave.

Então Charles parou e olhou fixamente para mim.

— Você não está brincando comigo, não é? Quero dizer, está querendo dizer mesmo de que não sabe o que esta acontecendo e nem sabe onde estamos? Você comentou sobre essa entrevista e tive uma sensação curiosa de que… Bem, perguntas foram feitas, lembro-me delas. Eu as respondi, não sem antes recusar algumas. Parece-me que isso aconteceu há centenas de anos. Como se essa lembrança ressurgisse do fundo, bem do fundo de minha memória.

— From Bar to Bar, entrevistas perigosas. Lembra-se? Entrevistei Ekaterina Sedia, depois era você, mas com um intervalo. Esse intervalo não ocorreu. Vim parar aqui de chofre.

— From Bar to Bar… – murmurou Charles, enquanto ia me empurrando para dentro de um dos casulos.

Cintas magnéticas prenderam-se ao meu corpo, imobilizando-me. Uma membrana energética igual a que vi na ampla área aberta surgiu, selando-me dentro do casulo. Ofeguei sentindo falta de ar; uma sensação mais psicológica que física. Vi Charles entrando em outro casulo, vi a membrana se fechando, isolando-o dentro dele. Vi o homem cutucando um painel (que existia dentro de onde eu estava) e então tudo começou a tremer.

Pensei que o segmento onde estávamos ia arrebentar, mas então nossos casulos foram sugados por um tubo e lançados logo depois no espaço exterior. Cruzamos destroços quase abalroando alguns. Distanciamos-nos da nave o suficiente para que eu descobrisse que ela era ainda maior do que eu supunha inicialmente. Fiquei estarrecido diante de toda a sua incrível magnitude. Corcoveando, retorcendo-se como uma cobra. Anelos sendo expelidos, segmentos sendo arrancados, explosões simultâneas destruindo uma incrível obra da engenharia humana.

Então nossos casulos giraram no espaço iniciando uma espécie de ignição, como se houvesse foguetes de cauda neles. Disparamos numa velocidade vertiginosa, distanciando-nos da imensa nave terrestre, rumo a um destino totalmente ignorado por mim.

——

Estava grogue quando despertei. Sentado, com as costas apoiadas numa rocha. Charles estava perto de seu casulo, remexia dentro dele em busca de alguma coisa.

— Ah, acordou. Já estava na hora – ele me disse sem se voltar em minha direção.

— Onde estamos?

— Um pequeno planeta rochoso alguns milhões de quilômetros distantes da Pegasus ou do que sobrou dela.

— Como viemos parar aqui?

— Este lado da galáxia está todo mapeado. Programei o destino mais próximo e os sistemas de sustentação de vida dos casulos fizeram o resto.

— Sustentação de vida?

— Você acha que chegaria vivo aqui com apenas 2 litros de oxigênio disponíveis? Foram seis dias de viagem! Você foi colocado para dormir e seu metabolismo reduzido a níveis mínimos.

— A Pegasus era dirigida por uma lagosta? – perguntei, ainda confuso.

— O quê?

Então foi como se abrissem uma comporta dentro de minha mente e todas as perguntas necessárias para conduzir a entrevista fluíssem com liberdade.

— Lagostas sonham com viagens através de buracos de minhoca? E será que devemos temer que um dia elas tenham um livro sobre “como servir a um homem”?

Charles estava debruçado sobre seu casulo e ergueu-se. Tinha nas mãos uma pequena sacola. Na outra carregava o que parecia um binóculo.

— Apetrechos de primeira necessidade – ele disse, vendo minha curiosidade – este binóculo, canivete, abridor de latas, primeiros socorros, comida desidratada, pastilhas de hortelã.

— Pastilhas de hortelã?

— Lagostas… Bem, vamos com calma, até onde sabemos elas são apenas crustáceos, criaturas com cara de inseto gigante que vivem no mar, quase sem nada de sistema nervoso. Eu as escolhi para a primeira parte de Accelerando depois de ler sobre uma experiência interessante…

Charles escolheu um trecho plano de terreno, afastou alguns pedriscos e sentou-se diante de mim. Largou a sacola e o binóculo de lado e apoiou o queixo nas mãos livres.

— Pelos últimos 400 anos, tem havido um debate entre dois lados filosoficamente opostos: os que propõem um dualismo mente/corpo (o pensamento de que nossa consciência é separada da nossa existência física, surgindo daí uma espécie de “alma”) e os materialistas que acreditam que a consciência é propriedade emergente da matéria. Nos últimos 60 anos o caminho parece estar apontando para os materialistas. Dois grandes avanços na ciência os ajudaram bastante: o desenvolvimento da teoria da computação, que admite a existência de grandes estruturas computacionais que podem emular umas às outras, desde que haja tempo e capacidade de memória suficientes, e o desenvolvimento da neurobiologia, que esboçou os mecanismos pelos quais os nervos funcionam, mostrando que estes são, de certa forma, estruturas computacionais. Outras pesquisas científicas falharam em provar a hipótese dualista: cérebros vivos analisados por ressonância magnética não dão sinais de terem almas se escondendo em seu interior.

Eu permaneci quieto, apenas ouvindo sua dissertação. Impossível impedir que meus olhos se perdessem na topografia alienígena, curiosos, observando a redondeza. Havia rochas de diversos tamanhos, uma paisagem quase marciana. Mas eu podia ver pequenas florescências intensamente rubras que nasciam aos pés de grande parte das rochas presentes. Pareciam nacos de carne abertos e expostos; flores estranhas.

— Como consequência – continuou ele –, mais recentemente há ideias a respeito de uploads mentais: se nossas mentes são essencialmente padrões de atividade mantidos por um neurocomputador, seria possível transferi-las de maneira intacta (e com continuidade plena de consciência) para um substrato diferente e possivelmente mais rápido e poderoso?

Charles fez uma pausa ao mesmo tempo em que senti um leve sopro em minha orelha esquerda. Olhei para o lado e dei um salto, assustado. Abriu-se uma fenda na rocha e de dentro dela foram expelidos diminutos esporos. Recuei dois passos, olhando com incredulidade a estranha manifestação. Charles riu de meu espanto.

— Isso que você vê não são rochas. Pelo menos não na sua maioria. A botânica aqui é exótica. Não vê as flores rentes ao chão, juntos dessas “rochas”? Mas são todas inofensivas. A não ser que você seja alérgico a pólen.

Dei um sorriso sem graça e preferi me manter de pé.

— Nos anos 1980 – ele continuou mais uma vez –, o professor de robótica da CMU (Carnegie Mellon University) Hans Moravec, planejou uma experiência mental. Sua ideia era a seguinte: você leva um paciente para cirurgia e abre seu crânio sob efeito de anestesia local, mantendo-o consciente. Um robô-cirurgião fantasticamente preciso então (a) identifica um único neurônio na superfície do neurocortex, (b) mapeia suas conexões com os neurônios vizinhos, (c) desenvolve um software que modele seu potencial de ação, (d) substitui seus terminais axônios e dendritos por aparelhos eletrônicos capazes de unir o modelo computacional do neurônio a todos os seus vizinhos, de modo que o computador assuma o trabalho de emular o estado interno do neurônio e trocar sinais com seus vizinhos e depois (e) remove o neurônio redundante. Repita o procedimento cem bilhões de vezes e no final você vai ter um crânio vazio forrado de eletrodos funcionando como se fossem nervos para um corpo e uma mente que, apesar de ter estado consciente o tempo todo, agora existe somente numa simulação de computador. Mas nós não vamos começar isso direto com os humanos, né?

Aproveitei a pausa dele para lançar o olhar com mais atenção ao horizonte, onde eu parecia ver alguma movimentação distante. Talvez ilusão de ótica, talvez não.

— É algo com que devamos nos preocupar? – perguntei, apontando o dedo para o norte.

Charles se ergueu, aproximou o binóculo dos olhos e soltou uma exclamação de assombro.

— Não é possível! – ele disse, numa voz tensa. Então empurrou o binóculo em minha direção.

Olhei para o horizonte e vi o que parecia ser uma massa humana se movendo. Vinham a pé ou conduzidos por máquinas que soltavam nuvens de vapor. Homens e mulheres com roupas estranhas, antigas. Alguns pareciam vestir armaduras bizarras, Vi duas formas humanoides, certamente mecânicas, movendo-se pesadamente. Um ou outro também nos observava com binóculos. Apontaram os dedos em nossa direção, excitados. Então Charles tocou no binóculo que eu mantinha diante dos olhos, forçando-me a apontá-los mais para cima, na direção do céu, bem acima da turba. Dois enormes zepelins apontavam seus narizes para nós.

— Steamers! – Charles exclamou com a mais viva perplexidade.

— Steamers? Aqui? Mas esse não é um planetoide rochoso, perdido nos confins do universo?

Charles olhou para meu relógio como se o responsabilizasse por tudo.

— Acho melhor nós nos movermos.

— Por quê? Podem ser nossa salvação. Estamos perdidos, não estamos?

— Mova-se. Se ficarmos vamos ser massacrados.

— Um candidato – Charles voltou à sua dissertação. A voz bem mais tensa, é verdade – muito melhor para fazer experiências de uploading mental é a chamada Pacific Spiny Lobster, panulirus interruptus. Este inseto super-crescido tem um jeito estranho de comer: ao invés de morder sua comida em pedacinhos, ele a engole por inteiro, e a mastiga usando uma espécie de moinho cheio de dentes dentro do seu estômago. Este moinho é controlado por um amontoado de nervos chamado stomatogastric ganglion, nervos muito grandes, fáceis de se estudar, e muito simples: o gerador padrão central que o controla tem apenas onze neurônios (e muito grandes). Essas conexões neurais foram mapeadas já nos anos 1970 e no final dos 1990 eu li um artigo no qual alguns pesquisadores verificaram o seu mapeamento, realizando a experiência de Moravec. E funcionou. (Em um neurônio, é verdade, mas já é um começo!).

Então ouvimos um estrondo. Olhamos para trás e vimos, ao longe, o que parecia ser um diminuto pontinho escuro se erguendo contra o céu e, numa parábola, ir aumentando de tamanho gradativamente. Vinha em nossa direção.

— Corra! – gritou Charles, me empurrando.

Corremos desviando-nos das “pedras” até chegarmos perto de uma suficientemente grande para nos ocultar. Paramos por uma fração de segundo e olhamos para trás. O projétil se aproximava rapidamente. Uma bola metálica que caiu a cerca de cinquenta jardas, rolou chocando-se contra vários obstáculos (destruindo algumas “plantas” e provocando fortes emanações de esporos) e foi parar não mais que 10 jardas de nós. De sua superfície abriram-se pequenas aberturas e delas se projetaram dezenas de agulhas metálicas. Charles me agarrou e jogou-se, junto comigo, detrás da pedra. Os dardos foram disparados e espalharam-se para todos os lados, algumas perfurando a rocha vários centímetros.

— Querem nos matar! – exclamei, assustado! – E eu que pensei que vieram da Terra para nos salvar.

— Terra? – inquiriu Charles. A Terra praticamente não existe mais, mergulhada numa terrível guerra entre as corporações que não aceitam mais a diplomacia política como forma de diálogo.

— Esses Steamers saíram de onde, então?

— Da fantasia louca desse seu relógio quântico. Eu e minha grande boca…

— Não creio que meu relógio esteja funcionando direito. Vim para cá sem pausas, num salto quântico imediato. Mau funcionamento, provavelmente.

— Ou alguém brincando com você.

— Alguém?

— Alguém com um relógio igual. Faz sentido, não faz?

Franzi o cenho, tentando acompanhar o raciocínio dele. Logo descartei a possibilidade, era absurdo que mais alguém possuísse um relógio quântico igual ao meu.

— Vamos ficar aqui até quando? – perguntei, preocupado com o avanço dos Steamers.

— Vou dar uma olhada rápida. A verdade é que não temos muito para onde fugir. Esse planeta é desolado, sem muitos lugares que possam servir de abrigo.

Charles levantou-se e pôs a cabeça para fora, espiando os inimigos. Soltou um grito de terror, levou ambas as mãos ao rosto e cambaleou para trás, em agonia. Envolvendo sua cabeça estava um… Parecia um… Eu diria que era um… Corselete cheio de rendas e pregas?

— Estão nos alvejando com clichês! – gritou aos brados, furioso.

— responda às perguntas. É o único jeito de escaparmos dessa enrascada.

— Claro que a questão de o que realmente seria possível fazer com um upload de lagosta continua sem resposta. Mas se você tiver pelo menos um, basta ligar mais um monte de neurônios, ensiná-los a falar e “perguntar” para eles – completou Charles, jogando a corselete ao chão. — Aqui não é mais seguro, vamos em frente.

Levantei-me e pus-me a segui-lo. À nossa frente se descortinava um cenário de poucas alterações. Podíamos ouvir gritos e risadas não muito longe.

— Se senciência não é uma meta evolucionária mandatória (como sugerido pelo filósofo alemão Thomas Metzinger e proposto por Peter Watts em Blindsight), e se a inteligência pode realmente existir sem que a espécie seja ciente disso (como enxames, etc.), pode-se dizer que nós somos na realidade a singularidade (em cada um de nossos cérebros, a matéria se transformou em pensamento)? – perguntei, apressado.

— Eu já não considero que a singularidade seja um conceito incrivelmente útil. Tem muita bagagem escatológica envolvida nela. Consciência é, indiscutivelmente, um fenômeno interessante, como Richard Dawkins demonstrou em The Extended Phenotype – nos dá a habilidade de nos desenvolver através de transferências horizontais de características desejáveis, encurtando o processo de incrementação que seria necessário pela evolução clássica. Mas se é um fenômeno estável ou desejável, quem sabe? Como espécie, temos menos de 200.000 anos de idade e já desencadeamos a sexta maior extinção em massa dos últimos 600 milhões de anos. Também estamos sob o risco de uma crise de falta de recursos seguida por uma queda de população. Isso não é sinal de características de sobrevivência!

Olhamos para cima e os zepelins estavam sobre nossas cabeças. Para nosso espanto, despejaram centenas de sombrinhas coloridas, abertas, que desciam como pequenos paraquedas, rodopiando. Outros disparos foram efetuados pela multidão que nos seguia. Dessa vez foram chapéus coco, cartolas, pince-nez (um deles me atingiu na testa, me provocando um pequeno corte). Charles apressava o passo, temendo ser atingido por mais um clichê. Certamente não sobreviveria a outra violência dessas.

— Portanto, se estamos vivendo num universo pós-singularidade, o estágio pós-humano (longevidade, etc), se vier a acontecer, não será um empecilho, já que um dos principais motores da evolução vem de vidas curtas individuais e do abastecimento constante de blank slates (cérebros novinhos de bebês)? – continuei a perguntar.

— Você está confundido o alto grau de mudança com “progresso”. Progresso sugere teleologia e uma meta. Mas evolução não é conduzida por metas. É um passeio de bêbado pelo espaço da adaptação, com uma parede do outro lado (extinção). Também não há garantias de que não haja limites para a ciência, nem limites para a quantidade de conhecimento que podemos acumular e aproveitar.

As sombrinhas caiam ao nosso redor. Era visível o esforço de Charles em não lhes dar maior atenção. Assim como às polainas, bengalas com castão de prata, monóculos, suspensórios e bigodes postiços.

Então fomos forçados, brutalmente, a parar. Diante de nós se abria um imenso despenhadeiro. Um precipício assustador com milhares de metros de altitude. Gotas de suor escorreram por nossas frontes. Vimos-nos sem saída, tendo que enfrentar os Steamers cara a cara, sem chances de sucesso.

— Mais alguma pergunta?

— Uma.

— Faça-a.

Batidas fortes no chão nos fizeram dar meia volta. Três robôs cheios de engrenagens, com quase três metros de altura, estancaram umas quinze jardas de nós. De seus flancos se destacaram canos de metralhadora. A multidão se aproximava.

— Freya Nakamichi-47, ou alguém de sua descendência, voltará para mais aventuras?

Uma rajada no chão, próximo a nós, nos fez retroceder alguns passos, aproximando-nos perigosamente do precipício. Uma nuvem de pó se ergueu.

— Sim! Tem um conto, Bit Rot, que vai sair na antologia Engineering Infinity de Jonathan Strahan em janeiro…

http://www.amazon.com/Engineering-Infinity-Jonathan-Strahan/dp/1907519521

…Também tenho planos para mais um romance passado no universo de Saturn’s Children (embora não seja sobre Freya, e provavelmente só seja publicado em 2013).

Então apertei o botão.

Nada aconteceu. Apertei de novo. Olhamo-nos um para o outro, angustiados. Voltei a apertar o botão outras vezes, mas não houve resultado. A entrevista não acabava, o perigo não se extinguia. Engoli em seco, mas não tive tempo de expressar minha preocupação. Outra rajada de metralhadora nos fez recuar ainda mais. O chão me faltou, procurei apoio e não o encontrei. Soltei um grito abafado de terror antes de me sentir solto no ar, prestes a sofrer uma queda livre. Vi Charles se voltando, vi-o esticando o braço, vi sua mão próxima e ao mesmo tempo tão distante.

Quando pensei que estava tudo acabado. Senti meu braço agarrado com força, meu corpo contido, balançando ainda, solto no ar. Respirei fundo tentando afugentar o medo e olhei para o meu salvador. Levei um susto terrível. Não era Charles Stross que me segurava com firmeza, era Jeff VanderMeer. Não era num planeta inóspito que eu estava, mas numa terra, a Terra, devastada pela guerra.

Acompanhe essa incrível aventura na próxima entrevista com Jeff VanderMeer.

—–

Luis Filipe Silva colaborou com essa entrevista.

Devir publica Angela entre dois mundos.

18/12/2010

Título: Angela entre dois Mundos
Autor: Jorge Luiz Calife
Editora: Devir Livraria
Arte de capa: Vagner Vargas
Número de páginas: 214
Formato: 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-7532-452-3

Jorge Luiz Calife ascendeu ao mapa da ficção científica mundial com o agradecimento de Arthur C. Clarke às suas sugestões para a continuação de 2001: Uma Odisséia no Espaço, tornadas concretas com o romance 2010: Uma Odisséia no Espaço II:
“Agradeço ao Sr. Jorge Luiz Calife, do Rio de Janeiro, por uma carta que me fez pensar seriamente numa possível continuação [de 2001: Uma Odisséia no Espaço].”
Isso abriu as portas também para que ele fosse publicado no Brasil com os três romances da trilogia “Padrões de Contato”, composta de Padrões de Contato, Horizonte de Eventos e Linha Terminal, relançados pela Devir em um único volume em 2009.
Calife apresenta agora um novo romance deste universo ficcional: Angela entre dois Mundos. Escrito ainda antes da trilogia original, o livro nos apresenta o começo da saga humana que se expandirá galáxia afora, conduzida pela superinteligência da Tríade, e a partir da perspectiva da bela e imortal Angela Duncan, a escolhida para nos servir de guia por uma jornada rumo ao desconhecido. É uma aventura de ficção científica hard vibrante e movimentada que pode ser lida por si mesma, de forma independente.
Nascida e criada nas luas geladas de Saturno, a jovem Angela visita a Terra do século XXV e encontra um mundo alterado pela mudança climática global, onde uma nova geração de humanos vive nas nuvens, nas conchas cibernéticas de suas residências aéreas, e uma inteligência galáctica misteriosa tenta mudar o destino dos humanos. É o planeta da corporação Norland, a empresa multiplanetária que tenta mudar a face do firmamento, com a criação de novos lares para os humanos através da engenharia planetária, num processo conhecido como terraformação, que já criou um novo mundo na Lua. Ao mesmo tempo, Angela conhece o amor e tem de lidar com o drama do aparente desaparecimento da mãe em uma missão nas profundezas do espaço, que levará a jovem à espiral fluorescente da galáxia Colar de Jóias, onde conhecerá parte do mistério sobre suas origens.

Repercussão:

“Um brasileiro imaginativo, bem informado e irreverente, capaz de lidar com a ficção científica tão bem quanto os melhores autores estrangeiros do gênero.”

— Miriam Paglia Costa, Veja.

“[A Trilogia Padrões de Contato] é um marco da sci fi brasileira e precursora do gênero new space opera.”
— Arnaldo Bloch, O Globo.

“Um dos méritos deste novo romance é que ele não se limita a reconstituir os eventos que precederam a Trilogia Padrões de Contato. Longe de uma perspectiva puramente romanesca, Jorge Luiz Calife amplifica aqui sua visão de uma galáxia dedicada a se tornar o crisol de múltiplas civilizações, ao mesmo tempo em que a relaciona aos problemas de nosso tempo. Angela entre dois Mundos implicitamente faz parte de uma história do futuro comparável àquelas de Robert Heinlein, Poul Anderson ou Olaf Stapledon. (…) No âmbito da ficção científica brasileira, é um dos raros autores capazes de apaixonar seus leitores conjugando ciência e filosofia.”
— Jean-Pierre Moumon, editor de Jorge Luiz Calife na revista francesa Antarès.

“Fiel à ficção científica hard de Arthur C. Clarke, Calife brinda o leitor de Angela Entre Dois Mundos com a narrativa da adolescência e do início da idade adulta de Angela Duncan, protagonista da Trilogia Padrões de Contato. Quem curtiu os enredos, tramas e ambientes futuristas da trilogia, vai querer saber o que fez a jovem Angela pré-Tríade se tornar quem é.”
— Gerson Lodi-Ribeiro, autor de Taikodom: Crônicas e Xochiquetzal.

Escrever ficção científica exige de um autor mais que facilidade de escrita. Neste caso é preciso criatividade, tanto na criação de personagens quanto desenvolvimento de diálogos, além de boa formação cultural. Jorge Luiz Calife dispõe de tudo isso… Num estilo refinado, com inegável influência de Arthur C. Clarke… Calife tem tudo para se transformar no grande autor desse gênero no Brasil. Seu conhecimento de ciência, como um dos principais autores de divulgação, dá a ele credenciais mais que suficientes…”
— Ulisses Capozzoli, editor da Scientific American Brasil.

“Se o relançamento da trilogia em 2009 tornou possível a reavaliação histórica e a importância surpreendentemente atual da obra neste início de século XXI, Angela entre dois Mundos nos ajuda a compreender melhor as motivações iniciais de Calife para a criação do universo ficcional mais elaborado e significativo da história recente de nossa FC. Coloca em primeiro plano, a gestação das primeiras ideias, através da figura bela e precoce de Angela Duncan, uma das personagens mais marcantes da ficção científica brasileira.”
— Marcello Simão Branco, co-autor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica.

Sumi, mas não morri.

19/10/2010

Muitos devem estar se perguntando onde é que fui parar, já que o Blog não recebe atualizações desde o último dia 5. Gostaria de dizer que estive em Samoa, ou nas Galápagos, ou ainda na Grécia, em viagem de turismo, mas a verdade é bem menos deslumbrante.

Atolado de trabalho, mal tive tempo para respirar. Além de projetos pessoais, o From Bar to Bar mostrou-se um Blog vampiro, daqueles que chupam o sangue da gente até a última gota. Inúmeros contatos, argumentos pré-construídos e preguiça. Claro, preguiça. Ela é fundamental na condução de qualquer trabalho. Mergulhar num delicioso far niente, mesmo tendo prazos exíguos. Isso faz correr adrenalina nas veias e deixa qualquer projeto mais emocionante.

Vou retornando à rotina, devagarzinho, emergindo aos poucos.

Ah, o De Bar em Bar não morreu, não. Logo, logo vou retomar as entrevistas com personalidades nacionais. Em aventuras de tirar o fôlego.

 


Pedro Moreno

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A vida de um escritor, roteirista e dramaturgo de Osasco.

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