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Ficção de Polpa 3 – Comentários – 2ª parte

28/08/2009

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Encerro, aqui, a leitura do Ficção de Polpa volume 3. Como já dito anteriormente, esta série me surpreendeu bastante. Autores com competências admiráveis, histórias surpreendentes. Torço para que lançamentos como esses sejam feitos mais vezes, por mais editoras. Que revelem autores novos, que nos tragam um lastro literário cada vez mais sólido e representativo. A Não Editora está de parabéns.

11- O corredor infinito – Fábio Fernandes

Com o perdão de Casimiro de Abreu; pelo enorme, pujante e supremo caralho de Chtulhu! Descubro agora que fluxos, fluxos, fluxos de trocadilhos, tocam a consciência literária, fazendo-se literatura. Esqueçam-se do resto, vamos trocadilhar e metaforizar até o cú do universo. Então encontraremos a morte.

12- Duas fábulas – Lancast Mota

Nenhuma coletânea de contos fantásticos poderia ficar sem uma ou duas fábulas para enriquecer as suas páginas.

13- Pelo alívio dos enfermos – Alessandro Garcia

Uma estonteante cornucópia de fatos, de pústulas e personagens. Tive que ler duas vezes para ter certeza de que uma terceira ainda faria bem.

14- Os seus novos sapatos – Marcelo Juchem

Cuidado ao acordarem! Antes de calçarem os sapatos, olhem bem para eles. Qualquer anomalia, corram! Sapatos famintos engolem dono dorminhoco.

15- Cricket Larson – Rafael Kasper

Um guarda-real confunde realidade com ficção. Narrativa muito bem conduzida. Um ótimo conto.

16- A vila das acácias – Silvio Pilau

Pais traumatizados pela morte do filho mudam-se para casarão de tia morta. Ao final, o protagonista não entende o assassinato que ocorreu. Nem eu. Nem ninguém entenderá. Que tal contratarmos um detetive médium para uma investigaçãozinha básica?

17- Todas as cobras – Emir Ross

Cobra engole homem adulto sem lhe triturar os ossos primeiro. Homem vive dentro da cobra, como Jonas na Baleia. Uma realidade fantástica. Uma imaginação surpreendente. Muito bom conto.

18- No meio da noite – Rodrigo Alfonso Figueira

Madrugada. Amigos ocultos num quarto temem perseguidores misteriosos. Fui implacavelmente arrastado por essa narrativa talentosa, numa correnteza insana e angustiante. Excelente conto.

19- Pelos dentes da baleia – Roberto de Sousa Causo

Indígenas querem explorar o grande-mar, arriscando conquistas numa nau construída sobre os ossos de uma baleia-mãe. Belíssimo conto. Narrativa primorosa.

20- Um insalubre sozinho no escuro – Cardoso

Cabeça chata? Bicho grilo? Zé Mané? Figuraça cheia de trejeitos e maneirismos de linguagem trava duelo com SAC em atendimento telefônico. Conto divertidíssimo.

21- O incidente do edifício 476 – Bruno Mattos

Testemunhos de personagens surpreendentes para contar uma história surpreendente. Toda a narrativa aprisiona o leitor, que anseia pelo final para, então, se surpreender mais uma vez.

22- Admirável mundo Monga – Samir Machado de Machado

Um belo conto onde nada é o que parece. O estilo lembra o de Neil Gaiman, muito bom!

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Ficção de Polpa 3 – Comentários – 1ª parte

27/08/2009

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A série Ficção de Polpa se encerra no terceiro volume? Não sei. Mas se continuar, vou querer ler os outros com o mesmo afã com que li estes últimos. O volume três centrou suas histórias no fantástico, alargando bem mais o espectro de gênero compreendido pela FC e Fantasia. Estou agradado? Certamente que sim. No geral os contos foram bastante bons, mostrando que linguagem sofisticada e estilo podem fazer a literatura de gênero, sem rebuscamentos, nem experimentações estilísticas herméticas. Mostraram também que enredo é fundamental para a literatura de gênero, assim como Kyle Reese é fundamental para John Connor.

Literatura de gênero e mainstream são distintos, têm códigos próprios, mas podem melhorar oferecendo um ao outro o que têm de melhor. Forma e enredo são complementares. Ignorar um em benefício do outro é marcar passo, é estancar.

E o leitor não merece isto, merece?

Então vamos parar o que para alguns é mero blá-blá-blá obscuro e comentar os contos:

1- Recuperação – Antonio Xerxenesky

Como reagir quando você descobre que existe outro você comendo a sua namorada? Esse conto me lembrou um episódio de Além da Imaginação, que apresentava um argumento parecido. Dá margem para diversas e angustiantes abordagens. O Xerxenesky deu mais ênfase ao espanto e a indignação do protagonista do que do evidente trauma psicológico que isto lhe causaria. Gostei porque a situação é inquietante demais.

2- O anão – Sergio Napp

Exclusão social e transcendência. Ou, como ferrar aqueles que te ferraram. Um anão se vinga da cidade em que morava por ter sido excluído em virtude de suas deficiências físicas. Um bom conto.

3- Trabalho, chefe e um gole de café – Luciana Thomé

A história da funcionária dedicada que jamais vê seu valor reconhecido. Venho reparando que a Luciana tem um estilo aparentemente definido. Gosta de escrever histórias que provocam muitas mais perguntas do que apresentam respostas. Brincando, escrevi, a lápis, na página do livro: cadê os cogumelos? Deve estar cheio de gente assim pelas empresas, descendo pelas goelas dos patrões. Um bom conto.

4- Carinhas coloridas – Helena Gomes

Esse conto me fez lembrar também de um episódio de Além da Imaginação. O garoto que se recusa a comer legumes e vegetais, contentando-se apenas com hambúrgueres e batatas fritas. Uma caixa de bolinhos com carinhas bonitinhas, todos eles de legumes, os mais variados. Conspiração, condicionamento, magia malévola. Não há como escapar. Você VAI COMER isso! Achei muito bom.

5- Aos pedaços – Rafael Spinelli

Conflitos íntimos de um assassino. Remorso e arrependimento finais. Autodestruição. Um conto bem conduzido, mas a frase que o fecha é muito feia: “assustadora fusão completa”.

6- Sonho de consumo – Ubiratan Peleteiro

Um pedido a uma estrela cadente (era uma estrela? Não era uma estrela? O que era aquilo, afinal? Faltou explicar) e o protagonista dá a uma revista o poder de ser explorada internamente em níveis metafísicos (eu teria dado o poder ao protagonista de explorar quaisquer revistas e jornais, seria bem mais interessante). Até que a história é criativa e vai de encontro a várias aspirações do gênero (… ah, como gostaria de poder “pegar” esse relógio que tá no anúncio…), mas o tema foi subexplorado. Apenas razoável.

7- Fabulosas inconsistências – Felipe Kramer

Espectadora de palestra ouve relatos de encontros com fadas, tendo certeza, por razões pessoais, de ser tudo mentira. Levanta-se, indignada, e vai embora. Eu também quis ir embora, mas quando vi que era um conto curtinho, resolvi ficar até o final. Dispensável.

8- Indiferente à tragédia – Fernando Mantelli

Homem dá carona para mulher morta. Sensação de Déjà-vu. Histórias parecidas pipocam por ai com certa regularidade. Bem conduzida, mas nenhuma novidade.

9- Os melhores amigos – Clarice Kowacs

Cenário pósapocalíptico. Humanidade egressa. Um homem e um cachorro. Um conto bastante perturbador. Final surpreendente. Excelente trabalho.

10- Ursinho de sonho – Renato Arfelli

Menininha apaixonada pelo ursinho de pelúcia cresce apegada ao brinquedo até que os hormônios efervesçam e outras coisas passam a ter mais importância. A menininha, já moça, não cogitava ter o próprio Chucky dentro do quarto. Embora prometa pelo menos uma cena de terror, não passa de um sustinho previsível.