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Licença poética para pecar.

03/11/2009

Montagem livros1

“… entrei no quarto com o coração desvairado e vi a menina adormecida, nua e desamparada na enorme cama de aluguel, tal e como a sua mãe a havia parido. Jazia meio de lado, de cara para a porta, iluminada pelo lustre com uma luz intensa que não perdoava detalhe algum. Sentei-me para contemplá-la à beira da cama com um feitiço dos cinco sentidos. Era morena e morna. Tinha sido submetida a um regime de higiene e embelezamento que não descuidou nem os pelos incipientes de seu púbis.”

Memória de minhas putas tristes – Gabriel Garcia Marques

“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.

Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.”

Lolita – Vladimir Nabokov

“Agachei-me diante dela e voltei a tocá-la. Ela não esboçou nenhuma reação. Corri meus dedos pelas suas ancas estreitas. Acariciei suas coxas magras. Tateei suas costas que exibiam as costelas de maneira impudente.

Eu a queria. E naquele momento.

Arranquei os trapos que a cobriam. Ela recuou o que pôde, espremendo-se contra a parede. Dois pequenos montículos se sobressaíam onde um dia ela (se continuasse viva) teria peitos. A vulva mostrava pequenos e sedosos pelinhos que iam cobrindo a região. Agarrei-a pelas pernas e a arrastei para o meio do esconderijo, sobre folhas de papelão. Virei-a para ver suas nádegas. Brancas e exíguas. Espalmei-as. Apertei-as. Bati nelas. Avermelharam até parecer fogo.”

Fome – Tibor Moricz

Radicais afirmam: Crime. Pedofilia. Desvio. Insanidade. Desregramento. Doença.

Liberais contrapõem: Lirismo. Poesia. Paixão. Enlevo. Ficção.

E a ficção vence, sempre vence. Porque ela nunca estará agrilhoada nos convencionalismos sociais. Ela se expande para além da limitação imposta pelo medo.

No Imaginário, o que é real se transforma em mito. Num faz de conta inofensivo. Nela existem camadas de entendimento, formas de interpretação que permitem ignorar o fato pela ficção.

Nos livros, o amor entre adultos e menores de idade ou a tentativa desse amor, passa despercebida, confundida dentro de toda uma estrutura narrativa, amalgamada em cenários e ambientações que, de certa forma, dão uma espécie de licença poética para pecar.

Lembro-me de uma passagem específica do filme Léon – O profissional (1994 – Luc Besson), onde Matilda (Natalie Portman, então com 13 anos de idade), inquirida sobre o “pai” na portaria do prédio onde morava temporariamente com Léon (Jean Reno), respondeu que o homem com quem estava era o seu amante e não o seu pai (ele na verdade a abrigava e não tinham nenhuma relação licenciosa).

Inegável a carga de erotismo e lubricidade que a cena provocou, mesmo que não fosse essa a intenção primeira. Matilda fez a declaração com uma sensualidade infantil bastante convincente.

A exploração desse tema no cinema e na literatura não é ocasional e esporádica. Temos ainda A casa das belas adormecidas (Yasunari Kawabata), Golpe de misericórdia (Marguerite Yourcenar), O imoralista (André Gide) entre outros. Essas obras vão na contramão do que se prega e alardeia atualmente em nosso cotidiano.

Ninguém protesta. Nem denuncia as obras à polícia. Nem faz piquetes e quebra-quebra para que queimem todos os livros e todas as películas que insinuam esse amor profano e inaceitável (não falta muito para isso).

Existem mundos, na literatura e no cinema, bastante ligados ao nosso. Parelhos. Lado a lado, embora separados por um abismo que não nos permite ir de um lado a outro senão pela força da imaginação.

E essa imaginação ganha poderes inauditos do lado de lá do abismo. De tal forma que as pessoas do lado de cá a ignoram na mesma medida em que mergulham nela, vivendo realidades impossíveis de conceber aqui, e com garantia de impunidade.

A ficção é boa e é má. Boa quando nos arrebata ou quando nos ajuda a evoluir (ou como pessoas – sem panfletarismos -, ou como leitores). Má quando nos vicia.

Mas não há vício na boa literatura, a não ser para os fracos e já predispostos.

Comprou um, ganhou o outro.

19/10/2009

Promoçao

Semana passada fui surpreendido com uma promoção da Tarja Editorial, oferecendo meu livro de brinde para quem comprasse o livro Steampunk. No início fiquei surpreso, mas depois vi que era uma grande sacada.

Quem aproveitou a promoção terá em mãos duas excelentes obras. Leitura de primeira. E eu terei mais leitores e mais feedbacks. É isso realmente que move as ambições de qualquer escritor (já que ganhar dinheiro com isso no Brasil é, salvo raríssimas exceções, fantasia pura).

Foi uma excelente oportunidade de ter em mãos duas das principais publicações desse ano.

A única coisa que pegou mal nessa promoção é o texto, com dados referentes ao Fome, onde se lê:

“…128 páginas de um livro apocalíptico escrito por Tibor Moricz, que ainda poderá existir um dia.”

Que? Hã? Como é que é? Poderei existir um dia? Está parecendo argumento de “Além da Imaginação”. Cadê o preparador de texto, einh? Eric, candidate-se!

Que tal um Fome?

02/09/2009

Fome - Capa 3DDaqui a dois meses meu livro Fome, publicado pela Tarja Editorial, fará um ano de publicação. Desde que foi ao mercado, em novembro de 2008, venho recebendo vários feedbacks, os mais variados. Sem dúvida não é um livro para se gostar fácil. Ou se gosta, ou se odeia. Mas ambas essas emoções eram previstas quando escrevi esse conjunto de contos ambientados num cenário pósapocalíptico. Tanto o gostar quanto o não gostar, ou odiar, faziam parte dos meus planos. Ninguém poderá dizer que Fome é literatura ruim. Apenas poderão combatê-lo enquanto um conjunto de idéias; poderão discutir o argumento, a trama, a crueza, a frieza, a violência, a ausência de quaisquer traços morais ou éticos. Nesse sentido, Fome vem cumprindo com seu papel de maneira exemplar.

Alguns comentários recebidos:

• Lixo! • Perturbador • Imoral • Uma porcaria • Coisa do demônio • Como pôde? • Fascinante • Assustador • Comecei a ler, mas não vou terminar • Senti nojo • Tenho filhos! • Maneiro, cara!

Se você leu, talvez se identifique com um ou outro destes comentário. Se não leu, convido-o a fazê-lo. E depois me diga o que achou. Comente aqui neste blogue. Xingue ou elogie. Sua opinião é importante.

Trechos:

“Arranquei os trapos que a cobriam. Ela recuou o que pôde, espremendo-se contra a parede. Dois pequenos montículos se sobressaiam onde um dia ela (se continuasse viva) teria peitos. A vulva mostrava pequenos e sedosos pelinhos que iam cobrindo a região. Agarrei-a pelas pernas e a arrastei para o meio do esconderijo, sobre folhas de papelão. Virei-a para ver suas nádegas. Brancas e exíguas. Espalmei-as. Apertei-as. Bati nelas. Avermelharam até parecer fogo.”

“Com olhares nervosos cortou os membros, separando-os do tronco. Abriu a barriga e retirou dele algumas vísceras. Mais ossos que carne. Afastou os urubus com acenos enérgicos, ajuntou as peças e começou a carregá-las para dentro do prédio.”

“Quisera que as letras impressas nas folhas surgissem uma a uma em sua pele, saltando como brotoejas. Ele então as poderia ler. Palavras novas surgindo, formações aleatórias, sentenças surpreendentes. Poderia ele se tornar num autor esofágico, epidérmico. Contemplaria o corpo nu diante de um pedaço de vidro e admiraria a metamorfose.”

“Os olhos se esgazearam e o brilho do metal refulgiu um segundo antes do golpe. Foi rápido, quase um instante. A cabeça tombou para frente e uma luz vermelha alaranjada surgiu fantasmagórica, lançando-o na estupefação da súbita descoberta da vida após a morte.”

“Girou nos calcanhares. Firmou o pé exatamente na marca. Olhou para frente e para o lado. Sobre o papelão havia um pedaço de carne. Nem seca ao sol, nem salgada. Quase fresca. Até seria, se não cheirasse mal.”

“Retirou ambas as mãos do meio das pernas e as cheirou. Ainda estava trêmula. Molhada, mas não muito. Lambeu a umidade entre os dedos como quem procura retirar a última gota de água de um copo vazio. Estava com fome e sede. De comida e de homem. De ambos.”

“— Seu deus morreu antes de todos nós! – insistiu a voz lá na frente. – O Paraíso foi invadido por diversas matilhas. Mataram todos os animais, beberam e comeram toda a comida, estupraram e devoraram todas as mulheres…

— Deus foi flagrado fodendo um menino sob uma laje. Enfiava nele o cajado tão profundamente que o sangue espirrava! Depois o devorou, mastigando a carne ainda viva e pulsante!”

“As pernas tremiam ligeiramente. Muito mais pelo esforço da caminhada ininterrupta do que pela doença que lhe devorava a carne. Cada bolha estourada levava consigo uma parte de nervos e músculos liquefeitos.”

“O menino, quieto, exibia a sua nudez conspurcada sem nenhuma vergonha. Olhos semicerrados. Respiração ausente. Tocou no seu peito. Procurou pelo batimento cardíaco. Procurou pelo hálito, pelo bafo quente e juvenil, mas não o encontrou.”

“Ao fim da oração, desferiu poderoso golpe. A faca penetrou na pouca carne, rasgou e partiu ossos, penetrou na terra, fincando-se nela. O capturado não gemeu. Não sibilou. Não proferiu nenhum som. Seus olhos embaciados acompanharam a descida da faca, arregalaram-se de leve durante o golpe mortal, depois pareceram sorrir.”

“Deu-se o pandemônio. Gritos terríveis antecederam um ataque maciço desferido por ambas as partes. Dezenas de homens se engalfinharam transformando a pequena clareira num palco de carnificina. Lâminas cortavam o ar, disparos eram efetuados, paus e pedras voavam em todas as direções. Agarravam-se, mordiam-se, unhavam-se.”

“E então todos pararam de comer e beber. Alguns regurgitaram o excesso de sangue, cuspiram a carne que se lhes entalava na garganta. Levantaram-se, atônitos e maravilhados. Alguns feridos e cambaleantes. Moribundos puseram-se de pé ao som das trombetas. Ossos partidos, fraturas expostas… E mesmo assim se puseram de pé.”

Fome está aí, na Tarja Livros. Baratinho. O Richard Diegues vai ficar contente com sua visita (eu também…rs).


Pedro Moreno

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