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De Bar em Bar entrevista Ekaterina Sedia

02/12/2010

Ekaterina Sedia mora na região de Pinelands, em New Jersey. Seus romances The Secret History of Moscow e The Alchemy of Stone, aclamados pela crítica, foram publicados pela Prime Books. O próximo, The house of Discarded Dreams, está previsto para sair ainda em 2010, enquanto Heart of Iron está programado para 2011. Seus contos foram vendidos para Analog, Baen's Universe, Dark Wisdom e Clarkesworld, assim como para diversas coletâneas, incluindo Haunted Legends e Magic in the Mirrorstone. Ela organizou também as coletâneas Paper Cities (vencedora do Word Fantasy Award), Running with the Pack e Bewere the Night (a serem lançados). Faça uma visita em http://www.ekaterinasedia.com.

 

Dei graças aos deuses quando, ao cair, vi-me sobre uma montanha de detritos. Como rocha pulverizada, fragmentou-se ainda mais à minha queda, amortecendo o impacto de meu corpo sobre o solo. Rolei afundando mãos, cotovelos e joelhos no pó e nos fragmentos de pedra. Aguardei alguns segundos até ter um pouco mais de controle sobre a situação e, livre de uma rápida tonteira, olhei ao redor.

Do ângulo em que me encontrava só consegui visualizar montes altíssimos, uns maiores que os outros, pináculos estendidos para o céu. Centenas ou milhares deles lado a lado, formando um bizarro cenário. Coloquei-me de pé, equilibrei-me sobre o solo instável e arrisquei alguns passos até a borda do cume onde me encontrava. Meus pés afundavam quase até os tornozelos, enchendo meu tênis de pedriscos. Estiquei o pescoço e senti um arrepio forte. O monte em que eu me encontrava distava da superfície uns bons duzentos metros.

Então recuei. Eu estava aprisionado num cume de onde não havia a menor possibilidade de escapar, a não ser que fosse em queda livre até o chão. Não havia alternativas, não havia escolhas. Ou ficava lá para toda a eternidade, ou arriscava uma descida perigosa.

Então senti o chão estremecer. O cume todo balançava como se estivesse ocorrendo um terremoto. Senti o chão sob meus pés se agitar, uma espécie de fluxo contrário me empurrava para cima. Balancei de um lado a outro, perdendo o equilíbrio. Então um jorro de fragmentos irrompeu, formando um gêiser comedido. Pedriscos foram atirados para fora, sei lá por qual processo, formando uma nuvem espessa de pó.

Afastei-me do centro do cume, de onde espirravam os estilhaços. Atônito, vi o processo ir diminuindo até não sobrar nada além de um pequeno revoluteio no solo. Em segundos o processo se alterou e foi-se abrindo no chão um vórtice para onde escorria a caliça. Um buraco com cerca de cinco pés de diâmetro. Aproximei-me, curioso, e olhei para dentro.

Soltei uma exclamação abafada de terror e recuei assustado até cair próximo à beira do cume. Meu coração disparado, meus olhos arregalados, as mãos aferradas no solo movediço, procurando apoio, sem encontrá-lo.

Da abertura surgiu uma térmite. Antenas nervosas, com as pinças empurrando um resto de lixo. Colocou meio corpo para fora e estancou subitamente ao perceber minha presença. Tinha pelo menos uns oito ou nove pés de comprimento.

Minha respiração estava suspensa. Sentia minha pulsação elevar-se a níveis preocupantes. Meu maxilar tremia e meus músculos pareciam ter virado geleia. Não respondiam a nenhum comando. O grito só explodiu de minha boca quando outras térmites surgiram, umas sobre as outras, atirando-se em minha direção.

O solo sob meu corpo cedeu e eu caí montanha de entulho abaixo.

Por vezes sentindo a lateral do cume se chocar contra meu corpo, por vezes sentindo-me suspenso no ar, mas em queda vertiginosa. Via o solo se aproximar inexoravelmente e não pela primeira vez tive certeza de que ia morrer. Então bati num relevo e comecei a rolar em meio a fragmentos e estilhas de pedra que iam amortecendo minha queda. A velocidade diminuindo gradativamente. Cheguei ao sopé da montanha de detritos ofegante, assustado e com múltiplas arranhaduras e hematomas. Felizmente, nenhum osso quebrado apesar da sensação dolorosa de não ter uma única parte do corpo sem alguma contusão.

Endireitei-me no chão, procurando algo para me encostar. Tentei ajeitar as roupas sujas que estavam amarrotadas e rasgadas em alguns pontos. Olhei ao redor com bastante nervosismo, tendo vivas na memória as térmites alucinadas vindo para cima de mim. Então ergui a cabeça e olhei para cima. Os montes erupcionavam na direção do céu, fincando nele suas pontas. Podia jurar que via antenas distantes se movendo. As térmites, nervosas, à procura da caça que despencara.

Respirei fundo tentando controlar as emoções e passei a prestar mais atenção ao meu redor. Entre as bases das inúmeras torres havia um espaço de cerca de vinte ou trinta metros, corredores razoavelmente largos, suficientes para uma pequena multidão se locomover. Era audível um abafado estalar e crepitar cuja procedência eu desconhecia. O solo na superfície era bastante firme e sólido, sem a consistência arenosa e fofa dos montes.

Ergui-me com bastante esforço sentindo as contusões doerem, os músculos latejarem. Arrisquei alguns passos, temeroso, acerquei-me dos sopés, em busca de alguma coisa diferente, algo que pudesse me fazer assimilar o cenário com qualquer coisa que me lembrasse da civilização.

Arrastei os pés por alguns corredores até parar próximo de um túnel. Largo o bastante para… Para… Ainda tentava achar qualquer concluir o pensamento quando senti o chão estremecer suavemente e o estalar e crepitar estranho que ouvira antes, aumentar.

Parei qualquer elucubração e comecei a recuar, preocupado. Não havia para onde fugir naquele labiríntico novelo de corredores, então me aproximei de uma pedra grande o suficiente para me ocultar e escondi-me atrás dela.

Sufoquei outro grito quando vi centenas de térmites assomarem à entrada da caverna. Uma onda devastadora de formigas gigantes, agitando as antenas, abrindo e fechando as presas – de onde vinham o estalar e crepitar. Formaram uma parede diante da entrada, como sentinelas montando guarda. Atrás das primeiras, dezenas de outras se estendiam, subindo pelas encostas, espraiando-se pelas margens. Encolhi-me sem nenhuma opção e estremeci diante do inevitável.

Fui visto e logo cercado. Aproximavam-se. Meus olhos marejaram antecipando uma morte dolorosa, quando um longo silvo as fez retroceder alguns metros. Outro silvo as fez subirem umas nas outras, recuando o suficiente para que eu me sentisse menos ameaçado.

Da entrada da caverna surgiu a maior de todas. Uma térmite tão grande que parecia abarcar toda a circunferência da entrada. Talvez trinta metros de comprimento. Seis ou sete metros de altura. E em seu dorso… Uma mulher.

Ekaterina Sedia.

Foi uma visão magnífica e aterrorizante. Por um lado eu entendia a aparição de Ekaterina como uma atenuante de perigo, por outro, a presença daquelas formigas todas, enormes, causava-me um pavor tão grande que minhas pernas se recusavam a se mover. Parecia-me que ao menor movimento elas atacariam e me despedaçariam.

Ekaterina gesticulou em minha direção fazendo sinais para que eu me aproximasse. Mas como fazer isso tendo as térmites todas à minha frente, olhando para mim e agitando antenas e presas? Esforcei-me em caminhar. Para minha surpresa, as formigas afastavam-se à minha passagem, permitindo que eu avançasse. Venci alguns metros, sendo orlado por uma parede viva de térmites, algumas com alguns palmos de comprimento, outras com quase três metros.

Estava quase na boca do túnel quando um zumbido intenso começou a ecoar, vindo de todos os lados. As térmites se agitaram, assim como a grandalhona que tinha Ekaterina em seu dorso. Soltei um brado de surpresa e medo quando fui erguido pelas pernas e carregado caverna a dentro por uma das formigas, junto a todas as outras, num avanço aparentemente caótico, mas sem, porém, sem ser ferido no processo.

— Aqui dentro é bem mais seguro – disse-me Ekaterina, quando já estávamos protegidos num dos imensos formigueiros, repleto de corredores que iam e vinham, para cima e para baixo, entrecruzando-se subterraneamente de forma a interligar todas as torres.

— Que lugar é esse? – perguntei ainda preocupado.

— Pensei que parecesse óbvio – ela me respondeu arqueando as sobrancelhas com alguma perplexidade.

— Sim, um formigueiro. Sei disso. Quero saber onde estamos, que lugar é esse. Que planeta, que…

— Que realidade, para ser exata. Uma das muitas, nos infinitos universos paralelos que existem. Inteiramente habitado por insetos.

Ekaterina moveu-se para uma das paredes internas. Elas eram bastante sólidas. Uma espécie de cola orgânica as solidificava. Havia um nicho e dentro dele alguns potes de barro. Retirou dois deles e estendeu-me um.

— Como na história de Robert A. Heilein? – perguntei, pegando um dos potes.

— Aquilo é fantasia. Isso é real. Embora aqui também haja uma guerra.

Eu estava me preparando para fazer a primeira pergunta quando a palavra “guerra” me surpreendeu.

— Alguma coisa a ver com o zumbido ouvido lá fora?

Ekaterina fez que sim num movimento afirmativo com a cabeça. Estávamos sentados em rochas esculpidas para parecerem poltronas, embora estivessem longe de ser confortáveis.

— As formigas aqui possuem um grau de inteligência que superam aos dos golfinhos na Terra. Não são meras máquinas de guerrear, procurar alimento e construir repetidas vezes o que se destrói. Embora as formigas de nossa realidade tenham uma estrutura social estabelecida, essas, além disso, conseguem entender conceitos abstratos e são capazes de aprender. Esse pote que está em suas mãos e essas poltronas foram construídas por eles, diante de esquemas que eu desenhei na areia. Fascinante, não é?

— E o que é que está dentro do pote?

— Uma espécie de beberagem adocicada e levemente fermentada. Produzida por elas, serve principalmente para alimentar as larvas. Pode beber. É seguro, agradável e extremamente proteico.

Embora a experiência não me fosse atraente, levei o pote à boca. Bebi um gole pequeno, mas o suficiente para ver que Ekaterina estava certa. A bebida era deliciosa.

— Quanto à guerra. Contra quem as térmites guerreiam?

— Vespas. É, na verdade, uma guerra por alimento. As vespas, igualmente inteligentes, se alimentam das larvas. Em momentos de maior escassez, alimentam-se das próprias térmites, com predileção pelas enormes rainhas, como aquela que você viu levando-me em seu dorso.

— Para se alimentarem das larvas elas precisam…

— Penetrar nas torres, destruindo suas paredes. Depois cavar até profundidades maiores. Muitas dessas torres, na verdade a grande maioria, é formada por montanhas de detritos, sem outra serventia senão enganar as vespas que perdem nelas precioso tempo. Mas às vezes encontram uma torre ativa. A luta é encarniçada, terrível. As vespas tem uma carapaça em torno do corpo e das patas que as protege das presas das térmites. São necessárias dezenas, as vezes centenas delas para conseguir matar uma vespa. E uma vespa para matar dezenas, as vezes centenas de térmites. A conta pode não parecer muito justa, mas existem nesse planeta bilhões de térmites a mais do que vespas. Acaba havendo algum equilíbrio.

— Em outras oportunidades, você falou a respeito da diferença entre “dar explicações” e infodumping, mostrando uma das melhores diretrizes para isso (o leitor não gosta de ser tratado como uma criança estúpida). No entanto, você acha que isso se aplica tanto a fantasia quanto a FC? Ou você acredita que a Fantasia (com sua tradição de realidades míticas firmemente enraizadas em história alternativa) fornece um ambiente de trabalho mais aberto e livre para os autores? – fiz a pergunta após um pigarro, querendo levar a entrevista a termo o mais rápido possível.

Ekaterina Sedia surpreendeu-se pela mudança súbita de assunto e, ciente de que uma entrevista precisava acontecer, depositou o pote que tinha nas mãos num pequeno ressalto da poltrona. Antes de responder lançou um olhar avaliativo para as paredes à nossa volta. Estávamos numa câmara isolada. Do outro lado da entrada havia um corredor por onde milhares de formigas iam e vinham em constante labuta. Não pareciam alertas.

— Isso se aplica a qualquer coisa. O leitor não precisa saber tudo que o autor pensa. Leia Michael Cisco. Ele raramente usa infodumping (ou worldbuilding no sentido tradicional), e mesmo assim escreve livros incríveis. Eu também não acredito que realmente haja alguma diferença entre Fantasia e FC, de modo que não acredito que precisemos tratá-las de maneira diferente.

Ela pareceu terminar, embora eu ainda aguardasse alguma continuação. Estranhei a resposta curta e fiz de meu silêncio uma espécie de artifício para que ela continuasse, mas Ekaterina permaneceu quieta, olhando para mim fixamente. Pigarreei, sem graça, mexi os pés e ajeitei os óculos que estavam escorregando sobre o nariz.

Um tremor súbito que fez soltar estilhas das paredes me surpreendeu, mas não pareceu espantar Ekaterina.

— Há mais questões? Receio que tenhamos que acelerar essa entrevista – disse-me ela ao levantar-se. O pote que estava repousando no ressalto da poltrona balançou e caiu no chão, derramando o seu conteúdo.

— Sim, há mais três questões – respondi, levantando-me também.

— Então as faça – disse-me ela, enquanto se encaminhava a uma das paredes da câmara. Procurou algo que não pude determinar e, num gesto rápido, pareceu fazer desprender dela uma pequena alavanca. Abriu-se uma porta secreta, num rangido estridente.

Ela me chamou com um gesto e me apontou o que havia do outro lado. Uma escada em caracol feita de rocha que parecia levar a grandes profundidades.

— Rota de fuga? – perguntei, preocupado.

— Sim – respondeu-me ela com um sorriso.

— Graças ao seu próprio histórico e ao fato de que nenhum dos entrevistadores são americanos, essa pergunta fatalmente surgiria: como é a experiência de escrever numa língua estrangeira para um público estrangeiro? Que tipo de escolhas literárias você sente que está fazendo para transmitir sua mensagem? Suas histórias seriam contadas da mesma maneira se você estivesse escrevendo em russo para um público russo? Os enredos seriam diferentes?

Ekaterina pegou-me pelo braço e fez-me seguir pela escadaria. Outro tremor balançou o lugar. As paredes daquela saída de emergência estalaram. A escadaria abriu-se em alguns pontos, exibindo trincas cuja largura causava preocupação.

— Ataque de vespas, certo?

— Sim. Estão chegando ao nível em que estávamos. As térmites acorreram para lá às milhares, prontas para o combate.

— Temos chances?

— Todas elas! – afirmou, sem sombra de indecisão. – se fosse tão fácil assim sermos acossados e mortos por elas, eu jamais permitira que essa entrevista acontecesse aqui.

— Fico mais tranquilo.

— Eu nunca escrevi em russo para um público russo – ela começou a responder a segunda pergunta –, então trato essa questão como hipotética. Então, sim, seria diferente – do mesmo modo que sempre é diferente quando o autor e seu público compartilham as mesmas referências. Quando escrevo para um público americano, tenho ciência de que eles podem não reconhecer algumas coisas – e eu tento sutilmente mostrar essas coisas a eles…

Outro tremor, esse bem mais forte que os anteriores fez as paredes soltarem grandes pedaços. A escadaria fendeu e rompeu em diversos pontos. Tivemos que nos agarrar para não cair. Um súbito clarão, um flash de luz surgiu vindo de cima, do topo da escadaria que descíamos tão rápido quando podíamos.

Vi na expressão de Ekaterina um repentino brilho de pavor.

— Quanto a outras coisas… Bom em época de Wikipedia tudo pode ser pesquisado. O que eu quero dizer é que consigo ler livros traduzidos a respeito de outras culturas sem muitos problemas, então suponho que se um leitor não entender alguma coisa, ele pode pesquisar a respeito – respondeu-me ela, empurrando-me, me forçando a descer ainda mais rápido.

Guinchos estranhos e assustadores ecoaram pela estreita e profunda garganta em que descíamos. Estilhas caiam em maior profusão. Comecei a entender porque Ekaterina estava sendo tão econômica nas respostas. Não tínhamos tempo para conversas longas. Nossas vidas estavam em risco.

Terminamos a longa descida no que parecia ser uma pequena câmara fechada. Ekaterina apalpou a parede e outra porta se abriu num estrídulo. Passamos por ela, fechando-a atrás de nós, e começamos a correr. O corredor em que estávamos era pouco largo, como se tivesse sido construído para pessoas e não para térmites gigantescas. Ao final dele, demos com uma espécie de hangar, embora o termo não fosse propriamente adequado.

Havia centenas de formigas frenéticas, mas não eram elas que chamavam a atenção. Talvez dezenas de enormes térmites aladas se alinhavam, lado a lado, sendo alimentadas, limpas e aparentemente preparadas para voo. Era uma visão surpreendente.

— A colônia está sofrendo um ataque devastador. Essas são rainhas que partirão carregando dentro si milhões de ovos que garantirão outras colônias.

— E estamos fazendo o quê, aqui?

— Partiremos com elas, para nossa segurança.

Fiquei estático observando o frenesi dentro do hangar. Formigas laboriosas trabalhavam para garantir o futuro da espécie. E eu estava lá, dentro de um enorme formigueiro, rodeado por milhões delas e outras tantas centenas ou milhares de vespas que escavavam, escavavam e escavavam em busca de alimento.

Ekaterina pegou-me pelo braço e praticamente pôs-se a me arrastar.

— Os cenários de fantasia urbana mudam de cidade para cidade? Seria possível colocar histórias de fantasia de Nova York em outra cidade como, por exemplo, Moscou? Lendas de São Petersburgo na Filadélfia? Ou você acha que as cidades se transformaram num padrão de vida internacional e qualquer história de fantasia urbana pode ser lida e compreendida da mesma maneira por qualquer público no mundo?

Fiz a pergunta enquanto era conduzido. Ekaterina não pareceu prestar atenção nela. Aproximamo-nos de uma térmite gigante alada e fomos içados por uma formiga que nos carregou em sua pinça com extrema facilidade e sem nos causar nenhum dano. Agarramo-nos em cerdas resistentes que despontavam de folículos pilosos em seu dorso, aguardando o momento em que partiriam.

— Sim, os cenários mudam, claro que mudam. São Petersburgo e Nova York foram construídos como numa grade, mas os quarteirões de São Petersburgo são dez vezes maiores que os de New York. Moscou e Londres são muito mais caóticas e “labirínticas”, mas a largura das ruas, a altura dos prédios, a proporção de prédios particulares, tudo isso é diferente, e tudo isso afeta a história. Se há um porteiro e uma fechadura na entrada de um prédio, há uma série de obstáculos diferentes se compararmos a um prédio sem porteiro, com mendigos urinando livremente na escada da frente. Há, é claro, universalidade quanto ao conceito de cidade, mas a maneira de se andar e se situar espacialmente em cada uma delas vai determinar os acontecimentos, e cada uma delas terá limitações idiossincráticas.

Abriu-se, súbito, um corredor amplo muitos metros à nossa frente. Como uma espécie de rampa de lançamento com uma extensão formidável. Eu não enxergava sua extremidade senão como a um minúsculo pontinho de luz distante. Ekaterina agarrou-se melhor, inclinou o corpo para frente, apoiando a testa em minhas costas e então a térmite alada ergueu-se no ar, agitando suas asas diáfanas numa velocidade impossível de acompanhar. O zumbido desse voo tornou-se quase ensurdecedor.

Disparamos para frente, quase uma térmite se chocando com outra, mas nem mesmo suas asas chegavam a se tocar. Senti o deslocamento de ar empurrando-me para trás e entendi porque Ekaterina inclinou-se para frente.

Fiz o mesmo. O ponto luminoso distante foi ganhando dimensão e logo se escancarou uma abertura para o mundo exterior, muitas milhas distante do ponto onde o ataque estava ocorrendo.

Aparentemente, estávamos a salvo. Então fiz a última pergunta.

— Fale-nos sobre seu novo livro, The House of discarded dreams.

— Eu o imagino como um Heardt of Darkness invertido. O livro é sobre uma filha de pais imigrantes, vindos do Zimbábue, que se vê perdida na “selva” de New Jersey. Menos irreverente, é um livro sobre o conflito entre a primeira e a segunda geração de imigrantes, de pais que de repente têm filhos americanos…

Então Ekaterina se calou por momentos e olhou para trás. Ela se retesou, soltando uma breve exclamação de espanto. Acompanhei seu olhar e fui invadido por uma onda de terror. Um manto negro indevassável ia crescendo a olhos vistos, cobrindo o horizonte e se aproximando de nós perigosamente. Eram milhões de vespas em voo coordenado, um enxame de proporções descomunais. Engoli em seco, congelado pelo medo.

—… As oscilações e a perda de vínculos culturais – continuou ela, com um tom de urgência na voz –, ao mesmo tempo em que se deseja manter esses vínculos. A fusão da cultura americana com a dos povos que migraram para cá é fruto desse desejo de preservação, mas como a cultura nunca é realmente pura, ao se tentar preservar, cria-se algo novo. Eu apenas tentei pensar no que se ganha e no que se perde durante esse processo. Claro que há, também, biologia marinha e caranguejos-ferradura nele.

A térmite em que estávamos fez uma curva súbita para cima, numa guinada violenta. As demais tomaram caminhos diversos, lançando-se cada uma em uma direção. Ekaterina agarrou-se em meu braço, fazendo-me despertar para o fato de que eu tinha o relógio. O relógio era nossa salvação. Fiz menção de apertar o botão, mas num gesto tão letárgico e assustado que fomos, antes, atingidos por uma das vespas, também de tamanho assustador. Ela pousou, agarrando-se ferrenhamente à térmite. Enfiou nela seu ferrão poderoso e então as cerdas em que estávamos agarrados cederam, soltando-se dos folículos.

Fomos arremessados no vazio, para uma queda mortal. Eu estava enregelado pelo medo, mas vi Ekaterina num voo certeiro, vindo em minha direção como se fosse uma paraquedista experiente em queda livre. Envolveu-me num abraço forte e procurou pelo meu pulso.

Ela apertou o botão poucos instantes antes de atingirmos o chão.

Então me vi numa confusão de explosões, chamas violáceas irrompendo de painéis elétricos, faíscas, estrondos e muita fumaça. Eu parecia estar numa ponte de comando. Ponte de comando? Mas que diabos estava acontecendo?

Não percam a próxima entrevista e a continuação dessa emocionante aventura.

Sumi, mas não morri.

19/10/2010

Muitos devem estar se perguntando onde é que fui parar, já que o Blog não recebe atualizações desde o último dia 5. Gostaria de dizer que estive em Samoa, ou nas Galápagos, ou ainda na Grécia, em viagem de turismo, mas a verdade é bem menos deslumbrante.

Atolado de trabalho, mal tive tempo para respirar. Além de projetos pessoais, o From Bar to Bar mostrou-se um Blog vampiro, daqueles que chupam o sangue da gente até a última gota. Inúmeros contatos, argumentos pré-construídos e preguiça. Claro, preguiça. Ela é fundamental na condução de qualquer trabalho. Mergulhar num delicioso far niente, mesmo tendo prazos exíguos. Isso faz correr adrenalina nas veias e deixa qualquer projeto mais emocionante.

Vou retornando à rotina, devagarzinho, emergindo aos poucos.

Ah, o De Bar em Bar não morreu, não. Logo, logo vou retomar as entrevistas com personalidades nacionais. Em aventuras de tirar o fôlego.

 

From Bar to Bar rende justas homenagens.

08/09/2010

Quando idealizei o From Bar to Bar, tropecei logo de cara nas enormes dificuldades que teria para verter as entrevistas do português para o inglês. Se me jogarem nos EUA ou em qualquer outro país de língua inglesa, me faço entender e não morro de fome, mas não me considero apto a verter nem uma lista de compras de supermercado (tá, exagerei…rs), o que dirá entrevistas ficcionais que se propõem bem feitas.

Nesse sentido cheguei a procurar alguns tradutores conhecidos tentando não um trabalho de tradução fixo do blog, mas simples versões de cartas-convite para autores estrangeiros. Fui ignorado por alguns e educadamente dispensado por outros. Isso não me surpreende. Embora eu, pessoalmente, não seja capaz de recusar um quebra galho pra alguém, dentro do meu métier, muitos o são. Escorados nas mais diversas razões, principalmente naquelas que se referem ao próprio ganha pão.

Mas quem tem sobrinho bom de inglês, tem tudo.

Ele se propôs a me ajudar. E o fez. Logo depois, antes de publicar a primeira entrevista com Kim Newman, o Daniel Borba me ofereceu ajuda também. Combinaram ambos que quando um fizesse a versão, o outro a revisaria e vice-versa. Desde então têm saído entrevistas ótimas que vem sendo elogiadas nos EUA, Inglaterra e, agora, na Escócia. Leitores externos demonstram surpresa com a qualidade do inglês utilizado num site estrangeiro.

Isso tem sido ótimo pra gente. Nos enche de orgulho e demonstra o ótimo trabalho que estamos fazendo.

Quero agradecer aos colaboradores Daniel Moricz e Daniel Borba, assim como a Romeu Martins, Delfin, Marcello Branco e Luis Filipe Silva.

Vou dar uma dica valiosa: se estiverem procurando por trabalhos profissionais de versão ou tradução em inglês/Português, Português/Inglês, contatem a dupla “Daniel & Daniel”. Garantem eficiência nota mil e um precinho bem camarada.

Daniel Moricz (contato@moriczidiomas.com) –  Daniel Borba (dfborba@hotmail.com)

Considerações em mês de Copa do Mundo.

08/06/2010

Acho que é a primeira vez que vejo uma Copa chegar e não sinto nem um tiquinho de interesse em acompanhar os jogos.

Claro que vou acabar assistindo os jogos. O mundo inteiro vai e eu sou parte do mundo. Mas o que quero dizer é que estou sem tesão. Tanto me faz se o Brasil for campeão ou se não passa nem da primeira fase.

O médico, no Hospital, me disse: “Era para você ter morrido. Seu coração foi muito forte e segurou o baque”.

Depois disso, passei a reavaliar um pouquinho as prioridades e a alterar níveis de importância em certas coisas. Vinte e dois caras milionários correndo atrás de uma bola pode, ainda, ter alguma sedução para mim, mas não tem a mesma mágica que tinha antes.

Meus projetos ganharam uma dimensão muito maior, com isso. Não que não tenham sido importantes, antes. Absolutamente. Mas passaram a ser ainda mais.

Se o Brasil perder as três partidas iniciais, vou me aborrecer? Vou. Mas vou me aborrecer ainda mais se o China Mièville recusar a entrevista no From Bar the Bar, se a Gwineth Jones não gostar do resultado ou se o Ian McDonald desistir antes de eu lhe enviar as perguntas.

O Gaiman e o Stephen King? Tão na mira. Telescópica. Bola na marca de cal. Goleiro distraído, olhando uma formiga no gramado. Errar esse tiro seria de uma grossura imperdoável.

Mas as vezes eu faço cagada…rs

Novo espaço vem para somar e não dividir.

05/06/2010

A ideia de transportar o De Bar em Bar para um cenário internacional, entrevistando autores estrangeiros nem é tão nova. Vim ruminando muito a possibilidade, conjeturando, inclusive, a probabilidade razoável de transpor o formato para outras mídias. Projetos em andamento.

O Adriano Fromer Piazzi, da Aleph, deu o empurrão que estava faltando, intermediando o contato com Kim Newman. A entrevista saiu e outras virão, já confirmadas. Eu não iria dar o pontapé inicial do blog sem ter, pelo menos, três entrevistas na fila.

Muitos autores, lá fora, têm demonstrado curiosidade com o formato “estranho” dessas entrevistas. Preferem ler uma ou duas antes de dar uma confirmação. O legal é que estou estreitando contato com autores considerados inacessíveis por muitos. Esses contatos são meio complicados, resultado da desconfiança que demonstram na proposta e no autor que lhes contata. Mas, por fim, aproximam-se e se revelam pessoas afáveis e até brincalhonas (são humanos, ora bolas! De onde tirei a ideia de que eram alienígenas?).

Mas não pensem que só autores estrangeiros terão vez. Verterei entrevistas de autores nacionais e os publicarei no From Bar to Bar. Afinal, publicidade é bom e todo mundo gosta. As entrevistas do De Bar em Bar continuarão, mas meio devagar devido a problemas de saúde recentes.

Quem ainda não conhece o From Bar to Bar, o endereço é:

www.frombartobar.wordpress.com

Quem não está afinado no inglês, pode voltar aqui na próxima segunda-feira. A entrevista com o Kim Newman será postada em português.

E obrigado a todos pela preferência.