Posts Tagged ‘Jeff VanderMeer’

A Situação – Lido e comentado

15/01/2013

Situacao_Capa_Frente

Fantástico, causa bastante estranhamento. Bizarro, também. Kafkiano? Chega perto. Uma imensa alegoria. Metafórico.

Fala do universo próprio existente dentro das grandes empresas e corporações. Os inter-relacionamentos, as crises, as cobranças.. Hierarquia escravizante, jogo de interesses, influências, maledicências…cruel, pontual, mordaz, selvagem.

Lesmas e besouros… muitos.

Perturbador? Não, está mais para desconfortável.

VanderMeer decalca o terror que reina nas entranhas das grandes empresas. A ausência total de livre arbítrio. A contumaz presença de gerentes, supervisores, diretores, solapando a livre iniciativa.

Jogo de interesses. Ou você segue a correnteza ou está fora. E, nesse caso, não metaforicamente.

Leitura rápida que pode ser feita em duas horas num sofá confortável, na sua mesa de escritório ou num ônibus preso no trânsito.

Há efeitos colaterais. Pelo menos no meu caso. Surpreendo-me olhando com certa insistência para o teto da minha sala na empresa onde trabalho. Já tive a impressão de divisar uma arraia jamanta disfarçada no reboco.

Elas estão em todos os lugares.

***

A Situação – Jeff VanderMeer

Editora: Tarja Editorial
Gênero: Fantástico
Formato: 14 cm x 21 cm
Páginas: 118

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De como um desabafo se transformou num pródigo debate, OU como o fandom e o mercado ainda rendem animadas discussões.

03/05/2012

Aborrecido depois de um longo bate-papo com o Ivo Heinz no Facebook, fiz um desabafo a respeito do fandom. Minha opinião a respeito dessa entidade não é nova, mas não consigo me controlar e acabo externando minhas mais profundas emoções a esse respeito de tempos em tempos.

Gente, na boa. FC brasileira não é lida nem pelo fandom. O nicho, que deveria prestigiar a nossa FC, lê os estrangeiros mas não lê o que a gente faz aqui dentro. Esse nicho, esse fandom, é uma merda. Não presta pra porra nenhuma”.

Não pensei que essa reclamação mal educada pudesse resultar na troca de ideias que resultou. Sinal claro de que existe vida inteligente no fandom.

Posto isso aqui porque muita gente que conheço não tem página no Facebook ou frequenta aquele espaço muito raramente. Ah, e também porque o blog andava muito paradinho, o coitado.

Há salvação para a literatura de FC no Brasil?

***

Rauda Graco To ligado faz tempo!

Tibor Moricz Tem autor brasileiro competentíssimo contando nos dedos o número de autores que o leram (e não estou falando de mim, que também conto nos dedos esses leitores).

Rauda Graco Eu li seu livro e nem to a fim de entrar nesse fandom tão mal falado. Tento me manter longe. Quando der na ideia publicar os meus materiais também tentarei me descolar dessa amarra sinistra que é o tal gênero que acredito, mais fecha que abre caminho. sei lá, to bebendo uma, desconsidere as besteiras. Hehehhehe

Tibor Moricz Pô, preciso beber uma também… rs

Cirilo S. Lemos Por isso que essa coisa de fandom precisa ser superada.

Tibor Moricz Mas as editoras menores publicam especificamente para ele. Não têm alcance pra fugir do nicho. Aí a coisa fica difícil. Então você não é lido e ainda escuta que seu livro é ruim (porque não vende – essa é a lógica cruel de mercado).

Cirilo S. Lemos A luta é essa. Aumentar o alcance dos livros se enfiando em cada espaço que aparecer, por menor que seja. É difícil, eu sei. :/

Marcelo Jacinto Ribeiro Tibor, Tibor, porque tanto amargor em seu coração ?

Marcelo Jacinto Ribeiro mas que vc tá certo tá, sejamos claros e sinceros…

Tibor Moricz Tive um papo agorinha mesmo com o Ivo Heinz e esse papo me deixou puto.

Horacio Corral Depois de muito lutar fazendo eventos com a Opelf, tanto eu quanto a Janaina, percebemos, de maneira irrefutável, que o problema era a ausência de leitores. As primeiras perguntas da segunda mesa-redonda sobre FC na Livraria Cultura foram nesse sentido e o próprio Gerson Lodi-Ribeiro, concluiu, ao vivo e em cores (também tenho isso gravado em vídeo), que ele, e os outros escritores de FC, escreviam/produziam obras para si mesmo e que eles mesmos se liam, pois ninguém, efetivamente, lia suas obras. As ações da Opelf, prévias à sua extinção, foram focadas na formação de leitores, porque o resto, no geral, era mera vaidade e um brincadeira de alguns egos com o espelho e o que lá era refletido. O meu incluso. Uma vez que tomamos essa direção. A Opelf acabou. É curiosíssimo ver escritores que se autorrotulam de underground, alternativos e/ou independentes e se orgulham disso como se eles fizessem parte de alguma resistência contra um mainstream que sequer existe no Brasil. Não temos nenhum Asimov, nenhum Tolkien. Dito isso, essa atitude, significa na imensa maioria dos casos, que ninguém tem interesse suficiente em sua obra como para investir nela e não que você é bom mas não te reconhecem. Mas a atitude na muda e mina, e complica, ainda mais o trato com editores e editoras. Você tem alguma sugestão de remédio, terapia ou processo revolucionário para mudar isso, Tibor?

Eduardo Jauch Hum… Isso é preocupante… FC & Fantasia São meus gêneros preferidos e tenho trabalhado em um conjunto de histórias de FC ambientadas em um futuro não muito distante. Ou distante, sei lá. Mas então, quer dizer que eu tenho que escrever em Inglês se quiser ser lido??? O.o

Ademir Pascale Faço o possível para divulgar autores nacionais em minhas entrevistas que já somam duzentas (a entrevista de nº duzentos foi com Octavio Aragão http://www.cranik.com/entrevista200.html). Mas senti o mesmo que você está sentindo quando vi você entrevistando e divulgando o trabalho de muitos autores internacionais. É legal saber o que eles pensam, mas perco meu tempo com meus colegas brasileiros, pois estes sim precisam de espaço 😉 Minha estante está lotada de livros e hqs nacionais. Mas tem muitos autores que gostam de colecionar livros estrangeiros apenas para ter um nome diferente e bonito na estante. Não vejo diferença no trabalho do autores nacionais para os internacionais. Alguns são diferentes, como Edgar Allan Poe que não era apenas um escritor, mas sim um gênio. Este sim merece ser reverenciado. Mas tem muitos autores nacionais bons completamente esquecidos, como André Carneiro. Um autor que tem muito para ensinar. Mas se você perguntar para um destes novos leitores quem é André Carneiro, ninguém saberá.

Tibor Moricz Caraca, que preparação longa para esse pergunta, Horacio Corral… Isso é uma entrevista? Vou pensar na sua pergunta e a respondo oportunamente.

Horacio Corral Eu queria dar mais contexto ao que você falou. A pergunta é ‘quase’ retórica. Você sabe disso. Mas é tentando respondê-la que poderemos sair da situação atual para outra diferente, espero eu, melhor.

Ivo Heinz Pois é, num papo virtual hoje com o Tibor Moricz, descobri que estávamos com a mesma ideia (ruim), de que a FCB não está tendo o “sucesso” que alguns julgam ter.

Vamos lá:

1) EU li e comentei o “Guardiã da Memória”, do Gerson Lodi-Ribeiro, e já perguntei uma vez e não tive resposta, quem mais leu??? E não estou falando de um autor iniciante, não, mas de alguém com um nome respeitável na FCB.

2) Tô vendo um monte de coletâneas e mais coletâneas, tô lendo sobre um monte de gente (aqui no Facebook e no Orkut) dizer que está escrevendo e tals…. mas vejo poucos falando do que, necessariamente, estão lendo.

3) Quem é que leu e comentou obras estrangeiras, então??? Quem é que leu “Rei Rato” e “A Separação”?? Será que só eu ????? Porra gente, são APENAS autores como China Miéville e Jeff Vandermeer, precisa falar mais?????

3) Editoras são entes empresariais, digamos assim, precisam de dinheiro pra continuar vivendo, bem como seus editores, que tem suas contas pra pagar… livro que não vende é prejuízo e tempo desperdiçado.

Véi, na boa…. Tio Ivo já viu este filme antes com a Segunda Onda da FCB….. reconheço que vocês que chegaram agora tem (na MINHA opinião) um maior pique e mais talento em potencial, sem contar que são bem mais abertos e iconoclastas (tomem isso como um elogio).

Mas…….. não estou vendo isso se converter em suce$$o de nenhuma editora, saber que tem livro que foi publicado e vendeu menos de 50 exemplares é decepcionante, até edição “de autor” (as famosas encomendadas) chegam a fazer mais do que isso.

E, vou falar DE NOVO: os iPads xing-Ling estão chegando cada vez mais baratos, a pirataria vai cair matando, como já aconteceu com a música e os filmes, estou profissionalmente envolvido com EaD (ensino à distância) num grande grupo educacional, só a ponta do iceberg já é de meter medo…… a revolução será enorme.

Ou seja, em muito pouco tempo livros DE PAPEL serão um luxo para pouquíssimos, como o são os discos de vinil…. vai lá na Galeria do Rock ver quanto custa cada um e depois me diz quantos são vendidos, OK?????

E fico triste, pois queria estar errado, mas ler as opiniões do Tibor e do Horacio Corral me fazem ver que não podemos tapar o sol com a peneira.

O futuro é digital, como fazer o povo quebrar o paradigma existente hoje de que “tá na internet, é grátis” serão outros 500, mas quem conseguir vai ganhar dinheiro…. aos outros vai sobrar só o “escrever por hobby”.

Século XXI, tão belo, tão cheio de potencial, tão vigoroso…. e tão perigoso !!!!!

Gerson Lodi-Ribeiro Às vezes tenho a impressão de que ninguém mais tem tempo de ler, estão todos escrevendo… 🙂

Horacio Corral Eu concordo contigo, Ivo Heinz, embora não tenha tido a mesma sorte que você de presenciar e participar da segunda onda de autores de FC. Eu sinto, e a lógica também indica isso, que teremos um cisma, uma separação, muito em breve, entre as editoras e produtores de conteúdo que não abrem mão de travar os arquivos (vide DRM) e aqueles que vão trabalhar, e encarar, o mercado sem esse tipo de ferramenta. Ao longo prazo, todas as empresas precisam: oferecer melhores serviços, melhores preços e satisfazer seus clientes. Elas irão se adaptar, serão flexíveis, serão inteligentes, assertivas e colaborativas, ou irão morrer. Há imensos mausoléus e túmulos da indústria da música para provar, ou indicar ao menos, a natureza desta transição. Embora pareça algo um tanto alheio, eu vejo casos visíveis entre editoras que todos nos conhecemos.Editoras que não deram valor ao seu público e o encararam com profissionalismo, editoras que não se atualizaram e ainda relutam em fazê-lo. Não falarei daqueles que na minha percepção erram, eles sabem que erram, falarei de quem acerta e de quem lidera, ou tenta fazê-lo. Para mim, a Editora Draco ocupa esse espaço. Um exemplo contextualizado com a mensagem do Ivo é possível aqui. Atualmente atuo como Diretor de Merchandising no Submarino Digital Club, entre as tarefas que desempenho esta a de selecionar títulos para a livraria e outros destaques. A única editora que publica, com seriedade, autores nacionais que posso listar lá é a Draco. Observem que o processo de criar um e-book, não é complexo nem custoso, muito pelo contrário, é mais barato. Sua distribuição pode ser feita por terceiros. Ou seja, a editora ocupa-se com aquilo que efetivamente deveria se ocupar, o que concerne ao: editorial. Tem empresas, e editoras, que precisam mudar de atitude ou vão perder o trem, e lamentavelmente, não vai passar outro tão cedo. Deixo uma dica aos senhores, em setembro, chegam praticamente todas as grandes distribuidoras de e-books do mundo ao Brasil. O “inverno” vai chegar para quem não estiver preparado.

Gabriel Boz Esses comentários me causaram um flashback de 10 anos atrás, em trocas de email na lista do CLFC…era a mesma discussão e de lá pra cá nada mudou, nossa FC não é e dificilmente vai ser mainstream, muitos acham que nem deve ser, outros que deve ser mais brasileira para se aproximar dos leitores ( funcionou???) ou mais gringa, inspirada nos mestres ( aí somos macacos de imitação)…escrever é um ofício solitário, egoísta, mas o Fandom acha que somos todos parte da FCB, de alguma onda, de algum grupo, de algum gênero, e se criticam e se elogiam, e se armam em grupos, amizades e não saem do lugar. Todos os problemas se resolvem respondendo uma simples pergunta: você escreve porque? Eu já me respondi essa pergunta algumas vezes, mas até achar a resposta certa, tenho pensado muito e escrito pouco!

Pablo Grilo Estou mirando no mercado americano da Amazon. Almejo ser algo parecido com Amanda Hoking.

Tibor Moricz ‎Horacio Corral, é muito difícil tentar fazer prognósticos de como o mercado de leitores poderia ser expandindo para abrigar a ficção científica. Acredito que não temos história no gênero, não temos um background que nos ofereça alguma comodidade em explorá-lo com o mínimo de certeza de sucesso (mesmo que relativo).
Posso só palpitar, levantar a bola.

Acredito que para fazer a FC “despertar” aos poucos, ser aceita lentamente na rotina dos leitores menos afeitos a ela (muitos por pura ignorância), seria necessário um processo de gradativa inserção. Começar com obras de FC soft, humanista, com enredos delirantes, ritmos fortes, com suspense, aventura, ação… bastante entretenimento, sem grandes voos literários (querer fazer parte do mainstream é uma bobagem, mas não descarto o processo de aproximação, absorvendo por osmose muito do que a literatura realista tem de melhor).

Obras aparentemente despretensiosas tem o condão de capturar leitores. A descoberta do gênero vai acontecendo devagar; os leitores “se dando conta” de que aquilo que estão lendo é FC. É como acostumar os jovens com Harry Potter primeiro para depois lhes dar Mark Twain.

Também defendo a criação de capas que não escancarem o gênero de imediato, que não exibam foguetes, homenzinhos de marte, planetas, anãs brancas. Se eu defendo uma inserção lenta e gradual, estaria sendo contraditório se apoiasse as capas escandalosamente autoexplicativas.

Um mercado que torce o nariz para o gênero, sequer chegará a pegar nas mãos um livro de capa tão ostensiva.

Claro que é necessária divulgação na mídia, junto a formadores de opinião. Um trabalho lendo, gradual e cuidadoso. O mercado tem potencial para um Best Seller de FC, sem que o leitor desconfie que tem uma FC nas mãos. Tudo um conjunto de ações.

Não sei se eu disse alguma coisa a ver, ou não. Talvez tenha dito um monte de bobagens.

Horacio Corral Eu acho, sincera e honestamente, que você deu uma das melhores respostas sobre isso até o momento,Tibor Moricz. Tanto que vou ‘invocar’ o Roberto De Sousa Causo e pedir a opinião dele. Afinal, eu considero vocês dois grandes observadores, e contribuidores, do que acontece na literatura de gênero brasileira. Ao ler sua resposta, inevitavelmente, lembrei do filme Vanilla Sky, que não chegou aos cinemas com um rótulo de Ficção Científica. Sequer foi mencionado em muitas das resenhas e críticas das diversas mídias. Muita gente mesmo depois de ver o filme não o considerava FC, isso não impediu que eles adorassem o filme de paixão e comentassem com seus amigos e pedissem para eles também vê-lo.

Pablo Grilo Inception por exemplo é FC e ninguém se ligou nisso, pelo contrário, viu um bom filme com elementos de psicologia e outras coisas.

Miguel Ángel Fernández Delgado Hola, Tibor, si te sirve de consuelo, lo mismo sucede en todos los países latinoamericanos

Oscar Mendes Filho O que arrasta a LitFan para o limbo é a panelinha que fica lambendo um o rabo do outro, empurrando lixo para os leitores que, enganados, deixam de lado os autores nacionais diante do trauma que tiveram. Uma vez que perderam seu tempo lendo porcaria irão atrás de autores cuja mídia “endeusa” mais e deixam de lado os escritores nacionais, inclusive os que não fazem parte da panela, mas que são encaixotados dentro do mesmo pacote de porcaria.

Cirilo S. Lemos Também acho que não escancarar rótulos é uma boa.

Miguel Ángel Fernández Delgado Hay que mostrar más interés por nuestros autores, porque si no, vienen los investigadores extranjeros a decirle al mundo que nos descubrieron y, entonces sí, algunos investigadores y lectores nacionales comienzan a leernos. Creo que es un problema de marketing y malinchismo

Horacio Corral A literatura é o que ela é, há obras que não se encaixam nos tipos de narrativas que a academia criou. Vejam o exemplo de O Cheiro do Ralo – Lourenço Mutarelli, é uma obra ‘estranha’. Os rótulos servem ao propósito de catalogar e compreender as obras e, hoje em dia, principalmente, vendê-las. Tem sub-sub-gêneros que literariamente não fazem sentido mas comercialmente são ‘necessários’.

Hugo Vera Tendo em vista os interessantes comentários feitos acima queria muito saber também a opinião dos editores sobre isso… Afinal, talvez mais que os escritores, os editores são os caras mais interessados em ganhar dinheiro com isso. Afinal, se supostamente ninguém lê, eles estão publicando para quem? Quem está comprando os livros? Eles estão se sustentando (e lucrando) com as vendas a ponto de valer a pena continuar com a empreitada? Com a palavra, os editores…

Horacio Corral Por favor, cuentamos, Miguel. En Mexico, ustedes también tienen ese problema de que todos son escritores pero nadie es lector? Otra curiosidad mía es, como son las narrativas? Son más nacionales y regionales como un Selva Brasil de Roberto De Sousa Causo o son obras abiertamente inspiradas en los autores extranjeros como William Gibson y Isaac Asimov? En el Brasil, y por lo que sé, en Argentina también, el primer problema é gravísimo.

Roberto De Sousa Causo O fandom é uma instituição importante, mas a história sugere que no Brasil ele nunca funcionou como um mercado minimamente substancial para a FC nativa. Por ser inerentemente anárquico, tentativas de esterçá-lo na direção de um ou outro interesse especial redundam na formação de feudos que rapidamente degeneram em guerrilha fratricida. O papel do fandom não é esse, mas o de manter e difundir discussões especializadas e de fomentar instituições críticas, editoriais e de formação de autores que não estão disponíveis fora-fandom. A comunidade Ficção Científica no Orkut tem 6.700 membros inscritos — fãs ativos, já que se reuniram mesmo que virtualmente, para discutir o assunto. Se um terço deles comprasse dez livros novos de FC por ano (o que não é nada) não haveria editor da área em dificuldade. Claramente, há um funil aí, no qual a literatura é minoritária, e dentro dela, o autor brasileiro mais ainda.

Roberto De Sousa Causo Em 1940, Jerry K. Westerfield, então editor de “Amazing Stories”, escreveu que, “dos 500 mil leitores da ficção científica, apenas cerca de 5 mil deles são fãs. Mas esses 5 mil fazem todo o barulho e soltam todos os fogos de artifício”. Isso foi lá na era das revistas pulp, mas no Brasil de hoje é mais ou menos essa a equação, mas numa escala menor. Naquela época, esses 5 mil provavelmente compravam todas as revistas (livros de FC ainda eram raros) e todos os fanzines, mas mesmo assim as revistas de tiragem média de 150 mil exemplares só podiam contar com eles como multiplicadores de interesse, não como mercado principal. Mas eles não tinham que enfrentar a concorrência de uma FC mais sofisticada e de maiores credenciais, que é o que toda FC não-anglófona tem de encarar.

Roberto De Sousa Causo A ideia de conquistar um público não previamente interessado em FC é interessante como um princípio e como um conceito geral a que toda a literatura de gênero deveria almejar, sem o velho ranço de que, ao fazê-lo, deixaria de ser de gênero. Mas isso é muito difícil de visualizar — e de realizar — coletivamente. Assim como o velho argumento de que o que falta à FC brasileira é marketing, não mencionando que falta antes dinheiro para encomendar esse marketing. Por isso é bom sempre lembrar que, como na equação de Westerfield, entre o fã de FC e o leitor comum, há ainda o leitor de FC que não é um fã ativo. Se o fandom brasileiro são 500 fãs que fazem todo o barulho e soltam todos os fogos, talvez haja 5 mil ou 50 mil leitores potenciais já interessados no gênero. Eles certamente são mais fáceis de abordar. Mas, novamente, há aquela histórica desconfiança do público em geral quanto à capacidade do escritor brasileiro de escrever literatura de gênero — seja ela FC, fantasia ou ficção de detetive, ficção militar ou outra.

Roberto De Sousa Causo Enfim, a história da FC no Brasil também nos lembra que o gênero teve efervescência e mercado (embora nenhuma respeitabilidade critica) entre 1960 e meados de 1980 — e depois disso foi morto pelos diversos planos econômicos. De lá pra cá a cultura empresarial das editoras assumiu o bordão de que “ficção científica não vende”, ou passou a se focar em outros nichos — autoajuda, ficção urbana pós-modernista, divulgação histórica, e finalmente, a onda que todos surfam agora, a literatura jovem-adulta. Isso quer dizer que a FC como ramo editorial está renascendo hoje, num contexto em que a maioria dos leitores não teve acesso ao estado da arte, no exterior. Eles precisam ser reeducados nos caminhos que o gênero percorreu, e isso, novamente, demanda investimento, tempo e esforço. O fandom, até certo ponto, por promover aqui e ali conceitos como New Weird, New Space Opera, FC feminista, Queer e outros, dá pequenos passos nesse sentido, e muitas vezes indica direções às pequenas editoras associadas a ele. Então ele tem importância, mesmo que não possa garantir um mercado para os autores locais.

Roberto De Sousa Causo Fixar a FC como gênero viável aos autores brasileiros é o grande desafio de todas as gerações, de todas as ondas. Como fazer isso não cabe a nenhum de nós dizer — cada autor percorre o seu caminho. Eu apenas acho que só imitar o estado da arte da FC anglo-americana, sem igualá-lo e adaptá-lo, é insuficiente.

Estevan Lutz Tibor, concordo com sua última postagem. Tanto que foi isso que eu fiz questão de fazer em O Voo de Icarus. E estou atingido públicos que não são fãs de ficção científica e acabaram gostando muito do tema do livro.

Ivo Heinz Pois é, mas e autores como Eduardo Spohr e André Vianco?

Focando em seu público e trabalhando bastante, eles conseguiram visibilidade.
O que eu vejo neles é que estão à parte das picuinhas do fandom, não ficam debatendo os assuntos intermináveis como “Movimento Antropofágico” e foram à luta.

Outro divisor de águas pra mim foi a pesquisa do Nelson de Oliveira (aka Luiz Bras), isso mostrou que muita gente mais nova conhece o que já foi feito, haja visto a influência e votação que o Gerson Lodi-RibeiroOctavio Aragão e Fábio Fernandes tiveram, e foi uma votação “secreta”, a divulgação dos resultados deve ter pego muita gente desprevenida (só Tio Ivo acertou os 3 primeiros, hehehehehe).

Na boa, FC NÃO VENDE AQUI. Olhem os números e tirem as conclusões.
Falta investimento em marketing? muito provavelmente.
Falta maior aceitação pelo mercado? talvez
Falta maior inserção nos círculos acadêmicos? Bem, já tem Rodolfo Londero, A dri Amaral, Fábio Fernandes, Octavio Aragão, etc…. em Universidades de ponta e discutindo seriamente, então acho que esse front já está “em batalha”.

Ou, rememorando uma pergunta que eu fiz num evento do Invisibilidades do Itaú Cultural, uns 7 anos atrás….

SERÁ QUE O TAMANHO DO REAL MERCADO DE FCB É ESSE MESMO QUE ESTAMOS VENDO???????

Ivo Heinz ‎Horacio Corral, quanto ao Cisma, eu acho que nada mais é que muita gente disputando um espaço muito pequeno, para piorar ainda tem a ENORME questão dos egos…..

Horacio Corral Vou ressaltar, ou melhor, parafrasear, um comentário da época. Que o nome do evento do Itaú Cultura fosse INVISIBILIDADES era significativo, provocativo e simbólico demais. Alguns se divertiam fazendo alusões aos escritores e demais participantes, que eram, literalmente, invisíveis para o público geral. Afinal, ninguém sabia que eles existiam. Por quanto tempo isso será uma condição comum, ou se isso irá mudar, é difícil dizer. Mas vale lembrar que mesmo entre os escritores mainstream é difícil ver conhecidos do grande público. A literatura no Brasil ainda é, na mente da população, algo de elite e de privilegiados. Criadores, e autores, como Douglas Mct e JM Trevisan são mais conhecidos do que a maioria dos autores da segunda onda, e da dita terceira também, e não por suas obras literárias, mas por suas contribuições em outras mídias como HQs e games. Eu enxergo como um dos ‘problemas’ a mídia LIVRO, pois no Brasil ela é uma das que mais sofre na comercialização e com a ausência de profissionais e plataformas adequadas. Por exemplo, se todas as obras do Gerson Lodi-Ribeiro ou Roberto De Sousa Causo fossem games, digamos de iPhone/iPad (iOS), estaríamos falando de outras questões como rentabilidade ou qualidade mas, certamente, a falta de público não seria uma das preocupações.

Miguel Ángel Fernández Delgado Hola, Horacio, también hay muchos autores y pocos lectores. El índice de lectura, en general, es bajísimo. Los autores de más prestigio prefieren publicar en otros países, como España, aunque sólo pocos lo logran. La mayoría busca darse a conocer y ganar dinero participando en concursos o dando talleres y conferencias. En cuanto a los temas, hasta la década de 1960 comenzaron a publicarse propuestas de cuestiones claramente mexicanas, porque antes trataban de imitar más a los autores extranjeros, aunque siempre han buscado incluir ingredientes mexicanos. Por ejemplo, hay una novela de fines de 1950 (Palamás, Echevete y yo, o el lago asfaltado de Diego Cañedo) que está dedicada a H. G. Wells, y trata sobre unos viajeros en el tiempo que se desplazan al pasado para conocer en vivo los sacrificios humanos que hacían los aztecas

Pablo Grilo É estranho que todo mundo aqui saiba o que o “povo brasileiro” pensa da literatura especulativa nacional ou o querem consumir de livros. Eu vejo que essa entidade “povo” é tão volátil e praticamente impossível de se rotular ou de saber o que todos querem, já que são formados por pessoas totalmente diferentes entre si e que vieram de classes sociais distintas. Quer propor uma FC diferente através de uma experiência pessoal? Escreva algo assim pra um nicho específico. Só não recrimine quem pensa diferente e escreva literatura especulativa de forma mais comercial.

Cirilo S. Lemos Só há duas opções: desistir ou persistir.

Tibor Moricz Persistir sempre. Mesmo que sem nenhuma (ou quase nenhuma) esperança.

***

Se quiserem acompanhar a discussão na origem, sigam esse link:
https://www.facebook.com/tibor.moricz/posts/10150785785527295

Leiam, analisem, discutam entre si, opinem.

De Bar em Bar entrevista Jeff Vandermeer.

21/03/2011

Jeff VanderMeer mora no bico de uma lula gigante na Florida.Entre seus livros estão "o neo spore noir" Finch, a crônica familiar desconexa e insana Shriek, o suspense animal com garras de fora Veniss Underground. Já recebeu dois World Fantasy Awards e um "cupcake" queimado pelos retratos que fez de palavras dispostas em forma de frase. Um dia, vai se transformar num eremita resmungão e morar numa barraca na praia, de onde vai ver o mundo acabar.

Essa entrevista é uma continuação da anterior com Charles Stross.

Agarrei-me com uma das mãos à beira do parapeito, tentando erguer-me enquanto Jeff também me puxava. Havia um sinal claro de urgência nos olhos dele, que dividia sua atenção comigo e com mais alguma coisa que se desenrolava muitos metros abaixo de nós.

Eu ouvia um matraquear intenso, ruído de desmoronamentos, estalar de metal, zumbidos e sirenes distantes. Num esforço final deixei-me tombar sobre a cobertura, respirando ofegante. Jeff vestia uma espécie de traje emborrachado ou coisa parecida. O corpo todo revestido, a cabeça protegida por um capacete high tech que lhe deixava apenas o rosto visível. Trazia às costas uma espécie de rifle de três canos, levemente diáfano, como se fosse feito de alguma matéria sintética ou mineral translúcida.

Além do cansaço que me fazia doer o corpo, uma perturbação profunda me abalava os nervos. Pela terceira vez eu migrava direto para uma entrevista subsequente, sem um necessário descanso.

Soltei um suspiro e tentei me erguer.

— Cuidado ao se levantar. Há alguns Soulhunters à minha procura. Viram-me subir nesse prédio.

Franzi o cenho. Lambi os beiços e coloquei-me de joelhos.

Soulhunters… – murmurei, me sentindo meio zonzo. As mãos tateando o chão em busca de apoio.

— Esses caçadores mecatrônicos são difíceis de enganar. Você escolheu um local distante para o encontro. Devíamos ter combinado um ponto menos visível.

— Nós combinamos esse encontro? – fiquei espantado. – não me lembro de ter combinado nada…

— Você me passou uma mensagem há dezoito horas indicando essa coordenada como ponto de encontro. Saí de meu esconderijo antes do amanhecer e atravessei a cidade de escombros para chegar aqui. Se você não combinou isso, quem foi?

Senti um gosto amargo na boca. Uma sensação de estar sendo manipulado, movido por cordas invisíveis, um joguete nas mãos de um titereiro habilidoso.

— Eu não sei.

Jeff deu de ombros. Ajudou-me a levantar e me conduziu para detrás de uma parede cheia de perfurações. Encostou-me nela e retirou do bolso uma pastilha negra com o tamanho de uma caixa de fósforos. Autoadesiva, ela foi presa firmemente em meu peito.

— Não devia ter vindo para cá sem proteção. O que você fez foi loucura – ele disse, tirando uma espécie de gadget com tela luminosa e botões coloridos de um bolso lateral. Apontou-o para mim e uma luz verde amarelada brotou do aparelho, envolvendo-me por inteiro.

Fui tomado por uma onda de calor intenso. A pastilha no meu peito emitiu um brilho forte e então começou a transformação. Para meu mais absoluto espanto ela foi se dilatando, estendendo-se sobre mim como uma segunda pele, formando ressaltos e escamosidades, cobrindo-me totalmente. Em segundos eu estava apenas com o rosto exposto; a cabeça protegida por um capacete. Eu e Jeff estávamos iguais, revestidos por uma segunda pele negra e opaca.

— Isso é… Incrível! – eu disse após alguns instantes de perplexidade.

— Melhor sairmos daqui. Não estamos seguros.

Eu relanceei o olhar para o horizonte. Rolos negros de fumaça se elevavam para o céu como imensas colunas. Fechei os olhos por alguns segundos. Pensei no planeta rochoso em que eu estivera, no cargueiro espacial, nas palavras de Charles Stross… “A Terra praticamente não existe mais, destruída numa guerra entre corporações”.

— Uma guerra destruiu a Terra – eu murmurei pasmo.

— Me diga algo que ainda não sei.

— Não se trata de outra realidade alternativa. Estou vivendo a mesma realidade da última entrevista – Essa fora uma frase meramente retórica. Eu dialogava comigo mesmo. Fazia constatações.

— E você me agarrou – exclamei. – Eu estava aqui antes de deixar o planeta rochoso? Porque caí? Como nos encontramos? Como conseguiu me alcançar e salvar?

— Apenas vim até aqui, como combinado. Ouvi um grito. Vi você se debatendo no ar, prestes a cair. Lancei-me em sua direção e agarrei seu braço. É a única coisa que sei.

Meus olhos estavam perdidos. Viam tudo e não viam nada. Eu tentava, desesperadamente, criar um vínculo entre os instantes finais com Charles Stross e os instantes iniciais com Jeff VanderMeer. Houve um salto de parsecs em nano segundos. Impossível demais para acreditar na possibilidade. O relógio quântico não tinha esse poder. Ou tinha?

Então fui rudemente arrancado de minhas elucubrações. O prédio onde estávamos estremeceu com mais força. Rachaduras cobriram o chão, abrindo brechas largas no concreto armado. O parapeito de onde eu há pouco havia sido resgatado se despedaçou. Jeff pegou-me por um dos braços e me fez correr na direção de uma das extremidades do prédio. Eu o acompanhei até a beirada do parapeito e parei. Era uma queda de mais de trinta metros.

— Pule! – gritou Jeff, enquanto o prédio parecia se desfazer sob nossos pés.

— Você está louco! – gritei em retorno, sentindo pânico.

Do lado oposto do prédio, sobre a cobertura, surgiu um Soulhunter. Terminara de escalar as paredes usando patas preênseis com alto poder de aderência. Tratava-se de um engenho assombroso, um mecha com cerca de quatro metros de altura em posição ereta. O corpo lembrava vagamente a forma humanoide. Pernas e braços mecânicos articulados, corpo maciço com micro junções que permitiam movimentos exatos; avanços, retrocessos, giros de até 180 graus. Cânulas de metal saltavam aqui e ali, nos braços e no corpo. Canos de disparo de projeteis. Nas extremidades dos braços havia lança-chamas. A cabeça era um trapézio isóscele com dois rasgos dianteiros que reverberavam uma luz azulada.

Identifiquei o caçador mecatrônico no momento em que o vi. Ou algum tipo de memória implantada – as coisas estavam acontecendo de maneira tão inexplicável que qualquer possibilidade era considerada – ou informação que o traje especial transferia para mim. A única coisa que sabia era que saltar era a única opção. Foi o que eu e Jeff fizemos.

O traje que vestíamos nos tornava mais leves ou mais pesados, de acordo com a necessidade. Chegamos ao solo sem sustos. Nossos pés tocaram o chão com suavidade. E, ato incontinenti, começamos a correr por entre escombros, fugindo de nossos caçadores.

Dois minutos depois paramos e nos escondemos sob uma ampla laje. Sobre ela uma montanha de detritos. Não estávamos cansados.

— Rua Monsenhor Dubois, altura do número 350. Leste da cidade. Em boa velocidade, cerca de vinte minutos daqui – eu disse, recostando-me numa parede.

— O que há nesse endereço? – Jeff me perguntou.

Senti um terrível mal estar. Fiquei mais uma vez perturbado. O que havia no endereço? Eu sabia o que havia, só não sabia como ficara sabendo.

— Verá quando chegarmos – eu disse num murmúrio. Lembrei-me da entrevista. Pigarreei e lhe fiz a primeira pergunta.

— É difícil conciliar o fato de ser editor, escritor e organizador de coletâneas? No Brasil, muitas vezes, uma coisa faz com que você seja excluído aos poucos das outras pelos seus próprios pares.

Jeff olhou para mim por alguns instantes, confuso. Depois sorriu.

— Podemos até morrer, mas a entrevista não pode parar – ele disse acenando a cabeça positivamente.

— É isso aí – respondi.

— Sou um metamorfo por natureza e já é sabido que costumo me transformar em Mord, um urso gigante. Ser excluído pelos meus pares é a menor das minhas preocupações – qualquer um que tente rotular as pessoas como uma única coisa está na verdade se podando. Concentrar-se em uma única atividade ao invés de dedicar-se a vários projetos interessantes é uma atitude tola e limitadora. Às vezes eu sou um urso gigante, outras uma lula, um suricato ou um cogumelo. Isso passa.

Ouvi a resposta sem dar a ela muita atenção. Meus olhos e meus ouvidos estavam atentos ao perímetro. E Soulhunter se aproximavam.

— Está pronto? – perguntei, já pronto para começar a correr.

— Estou!

Saímos de baixo da laje e disparamos por trilhas esburacadas, contornando monturos, escombros e ferragens retorcidas. Saltamos obstáculos, escorregamos por declives e escalamos elevados até sermos interceptados por outro Soulhunter. Eles se espalhavam pela cidade destruída em busca de sobreviventes e soldados desgarrados. Matavam impiedosamente homens, mulheres e crianças.

Uma rajada de projéteis rasgou o chão ao nosso redor e nos fez saltar de lado, rolando no chão irregular. Jeff empunhou a arma que carregava com e deu um único disparo luminoso que atingiu o “peito” do Soulhunter. Arrancou dele uma placa metálica grossa, deixando aparente um punhado de fios. Ia dar outro, mas teve que se desviar de um jato de fogo. A massa ígnea incendiou o concreto transformando-o em lava. Ouvi Jeff gritar assustado e de dor.

Esgueirei-me pelos destroços, contornando o mecha, sem ver ou saber onde Jeff estava. Uma parede de fogo me separava de sua última posição. Eu temia pelo pior. Aproveitando-me da incrível agilidade e destreza que a vestimenta especial me conferia, saltei nas costas do mecha, agarrando-me nele como podia. Uma das mãos enfiada no oceano de fios que lampejavam, expostos pelo tiro certeiro de Jeff.

Ainda tentava arrancá-los enquanto ele se debatia tentando fazer-me sair de suas costas, quando ouvi Jeff gritar, pedindo que me protegesse.

Foi o que fiz. Encolhi-me nas costas do monstro e o senti ser sacudido por um violento impacto. Um segundo disparo abriu-lhe um rombo no “peito”, quase o atravessando (o que talvez tivesse sido trágico para mim). O bicho balançou e caiu de bruços, abandonado, sem forças, vencido, morto.

Saí de cima dele, aturdido. Caminhei alguns passos trôpegos e então vi Jeff vencer a barreira de fogo e vir em minha direção. Os lábios abertos num imenso sorriso. Olhei para o Soulhunter outra vez e identifiquei nele um logotipo encimando um nome. Marca de fabricação, certamente.

Olhamo-nos, então, extenuados, e voltamos a correr.

— Como tem sido a sua experiência com os quadrinhos? Como você vê a conexão entre a ficção científica dos quadrinhos e a da literatura atualmente? E como é julgar os melhores quadrinhos do ano para a premiação mais relevante da arte sequencial atualmente, o Eisner Awards? – perguntei enquanto nos movíamos com rapidez pelo cenário desolado.

— Eu cresci com Tintin, Asterix e versões em quadrinhos de clássicos indianos como a Ramayana – começou Jeff, enquanto saltava um outdoor parcialmente despedaçado e onde havia uma publicidade da Pepsi-Cola – Voltar aos quadrinhos e descobrir que muitas vezes eles são melhores que os melhores filmes foi maravilhoso, e também tenho me divertido criando roteiros para outros projetos, como a minha história The Situation (A Situação, história prevista para sair no Brasil em março, publicada pela Tarja Editorial).

Contornamos um velho caminhão enferrujado e estacamos, súbito, olhares atônitos observando a nossa frente. Talvez duas dezenas de Soulhunters avançavam, vindo de todos os lados.

— Isso me fortalece como escritor – qualquer exposição a outras maneiras de contar uma história te faz bem e te dá mais ferramentas para usar em seu próprio trabalho. Eu gostei de ser juiz no Eisner Awards – me obrigou a ler tudo que saiu de quadrinhos em um ano e me fez apreciar a enorme variedade de obras que tem sido escritas – ele concluiu enquanto observava a melhor maneira de escapar do cerco.

— A rua que procuro está perto daqui. Mais duas centenas de metros… Além deles. Precisamos passar. Retroceder não é uma opção.

Então Jeff fez uma coisa que me surpreendeu. Puxou-me na direção dele, prendendo-me pelo braço e apertou um botão em seu traje. Logo uma bolha azulada nos envolveu. Os Soulhunters pareceram confusos, incertos de para onde deveriam seguir. Interromperam o avanço e hesitavam enquanto nós os íamos passando um a um, ultrapassando-os com extrema cautela.

Ele havia acionado uma bolha de invisibilidade, item adicional que meu traje não dispunha.

— Pensei que ia surpreendê-lo com esse pequeno acessório – sussurrou Jeff de maneira quase Inaudível.

“Então não serei apenas eu a apresentar surpresas, hoje” – pensei com satisfação.

Passamos a última barreira de caçadores mecatrônicos sentindo-nos vitoriosos. Não mais que oitenta metros nos separavam da entrada de garagem que o endereço que eu procurava nos levaria. Foi na certeza da impunidade que cometemos nosso maior erro. Esquecemos a cautela, pisamos em pedras soltas e essas rolaram fazendo barulho e chamando a atenção da última fileira de caçadores. Esses se voltaram em nossa direção, viram as pedras que ainda se ajeitavam no solo poeirento e abriram fogo para todos os lados.

Nossos trajes tem uma incrível capacidade de proteção, servindo como uma espécie de colete a prova da grande maioria dos projeteis existentes. Ao menos pelo tempo que resistissem ao estresse excessivo provocado pelos impactos repetidos. A fragilização decorrente nos tornaria expostos a qualquer colisão, mesmo a mais banal.

Foi uma saraivada de balas que nos atingiram de todos os lados. Fomos separados um do outro. A bolha de invisibilidade se desligou revelando nossas posições. Mesmo imersos em grande dor, corremos como pudemos para a entrada que objetivávamos. Os caçadores atrás de nós, atirando sem parar, acertando-nos muitas vezes.

Descemos a rampa da garagem aos trambolhões, ziguezagueamos por entre as colunas. Os Soulhunter tinham alguma dificuldade para entrar, mas um e outro, contorcendo-se ou retorcendo-se, obtinham sucesso. Paramos atrás de uma coluna, respiramos fundo tentando recuperar o fôlego.

— Em certa entrevista você sugeriu que o gênero Steampunk corria o risco de ficar sem graça por causa de um efeito “cópia da cópia”. No passado, quando essa tendência começou, no cyberpunk, isso queria dizer que o gênero estava morrendo, e de fato a maioria dos autores parou de escrever cyberpunk logo em seguida (ou eventualmente pararam de chamar seu trabalho de cyberpunk). Você acredita que o steampunk está morrendo lentamente, de dentro para fora, no sentido de que só se mantem vivo graças à força do mercado (já que se tornou “moda”) mas sem nenhuma ideia literária nova?

Jeff se apoiou nos joelhos, abaixou-se rapidamente e soltou um suspiro profundo. Sabia que a entrevista não podia parar, em hipótese nenhuma.

— Tudo que se identifica com marketing acaba virando um cadáver, mas há duas coisas a se lembrar: uma é que às vezes um cadáver proporciona um bom lucro e outros trabalhos com coisas mais bizarras e mais estranhas, outra é que os besouros e outras criaturas que se alimentam do cadáver são fascinantes por elas mesmas… Você precisa entender que um corpo sem vida não é a pior coisa do mundo. É no apodrecimento, decomposição e contaminação que está a ação!

— E a única coisa que queremos, agora, é virarmos cadáveres, certo? – perguntei a ele em seguida.

— Nem quero pensar em vermes se remexendo em mim – Jeff riu baixinho. – O que é que você está escondendo por aqui? Por que viemos para esse endereço?

Olhei para trás e vi um dos caçadores tentando se livrar das colunas que lhe estorvavam o avanço. Outros dois o observavam placidamente, apenas aguardando que ele abrisse espaço para todos. Apontei, então, uma porta na parede à nossa frente. Infelizmente exposta à visão dos monstrengos que nos seguiam.

— Vamos entrar por ela, descer as escadas e então você verá.

Fomos na direção da porta e tentamos abri-la. Estava trancada. Enquanto a forçávamos uma rajada de projeteis esfarelou as paredes ao nosso redor, atingindo-nos também. Gritei com a dor e me dobrei para frente como se tivesse sido atingido na barriga e não nas costas. Jeff empurrou-me de lado, apontou a arma na direção da porta e disparou, fazendo-a desaparecer numa nuvem de lascas e poeira.

Disparamos para dentro e escadas abaixo. Atingimos uma câmara ampla. Numa das paredes, dois nichos guardavam uma imensa surpresa.

— Exoesqueletos de última geração. Proteção praticamente inviolável contra quaisquer armas conhecidas. E dispara pulsos de plasma extremamente destrutivos. Essa era a minha surpresa – eu disse com enorme satisfação.

— Bolhas de invisibilidade e Exoesqueletos… Eu deveria ter pensado que aconteceria assim.

— Se você acredita nisso, será possível que a literatura internacional (leia-se: não de língua inglesa) venha em seu socorro? E se vier, será aceita pelo mercado de língua inglesa (leia-se: será traduzido e publicado)? – perguntei enquanto entrava num dos exoesqueletos. Jeff fazia o mesmo.

Fomos rapidamente assimilados pela engenhosa engenharia de metal liquido e logo encasulados dentro da poderosa arma de guerra. Destarte nosso isolamento, podíamos falar um com o outro, sem nenhuma perda de contato.

Engatilhamos nossas armas, apontamos elas para o teto e puxamos os gatilhos quase simultaneamente. Abriu-se um amplo buraco onde antes havia uma grossa camada de concreto. O plasma fez a matéria virar fumaça e cinzas. Saltamos para fora da câmara, movendo-nos com enorme rapidez pelo ambiente acidentado da garagem. Dois caçadores se interpuseram a nós e se transformaram em metal retorcido em segundos.

Soltamos um urro de alegria e enorme satisfação.

— Não acredito que seja obrigação da literatura internacional sair em socorro do Steampunk – respondeu Jeff enquanto deslizávamos para a rampa que nos levaria para o exterior – A função da literatura “internacional” – um termo sem sentido se você levar em conta que somente na Índia existem pelo menos entre 10 e 20 tradições diferentes – é ser fiel a si mesma e não se modificar ou se deformar com a finalidade de se enquadrar no mercado anglo-americano. Sua função é ser fiel a si mesma e colonizar os anglo-americanos com seus próprios projéteis cerebrais. Dito isso, acredito que a atual infusão de Steampunk internacional e multicultural é uma coisa boa e que mantém o cadáver vivo. Veja! Está dando pulos agora! Quase como se tivesse ressuscitado!

Saímos para a luz do dia e nos deparamos com dezenas e dezenas de Soulhunters. Todos voltados em nossa direção. Destravamos nossos gatilhos, carregamos os cartuchos de plasma e começamos a disparar. Íamos avançando sem problemas, liquefazendo-os, desmantelando-os, fazendo-os explodir em múltiplos pedaços. Riamos desbragadamente enquanto fazíamos isso.

Esqueci-me, durante o êxtase, de apertar o botão do relógio quântico (nem sabia se daria certo).

A destruição continuaria sem parar se Jeff não tivesse sido atingido por alguma coisa desconhecida. Seu exoesqueleto foi arremessado vários metros para trás, um dos braços arrancado. Olhei para cima por puro reflexo e perdi a respiração.

Uma imensa nave ou uma imensa bolha ou coisa parecida, flutuava centenas de metros acima de nossas cabeças, vi prédios. Uma coisa grandiosa e assustadora. Então um brilho intenso brotou da nave, um raio ou coisa parecida. Atingiu-me. Calor, dor e medo até que perdi os sentidos.

Quando despertei, a primeira coisa que vi no teto abobadado da sala onde estava deitado, era o estranho logotipo que marcava os Soulhunters que existiam em terra.

Luis Filipe Silva, Delfin and Christopher Kastensmidt colaboraram com essa entrevista.

Essa entrevista terá sequência com Liza Groen Trombi e Mark R. Kelly (Locus Editora)