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2010: O ano em que fizemos contato.

20/12/2010

Futuro virou passado e vivemos no mundo sonhado há 50 anos

Crônica de fim de ano de Jorge Luiz Calife para o Diário do Vale.

Dezembro chegou e dentro de algumas semanas, precisamente daqui a 14 dias, o ano de 2010, símbolo do futuro para uma geração, vai entrar para a história e virar passado. Em 1984 a MGM fez um filme imaginando o mundo de 2010 a partir de um romance de Arthur C. Clarke. Chamava-se “2010: O ano em que faremos contato” e acertou em algumas coisas e errou em outras. O tema do filme era o contato com uma nova forma de vida, diferente da nossa, o que, em parte, acabou acontecendo mesmo em 2010. A Nasa ainda está festejando a descoberta de uma bactéria, a GEFAJ-1 que redefiniu o conceito de vida no mês passado. Não foi encontrada no espaço e sim num lago da Califórnia mas é uma coisa tão alienígena quanto os europeanos do filme.

Eu nunca vou esquecer desse filme, porque marcou a minha estréia apoteótica na profissão de jornalista. Clarke dizia que tinha escrito 2010 por causa de um palpite que dei para ele numa correspondência, daí que a Metro me convidou para assistir ao filme, na cabine de imprensa lá na Cinelandia, no Rio de Janeiro. Flavio Pinheiro, que era o editor da revista Veja no Rio, me ligou na véspera e me convidou para escrever um comentário sobre o filme. Sairia num box, embaixo da crítica.

Daí que eu sentei ao lado do crítico de cinema da Veja, que trouxera a namorada para ver o filme com ele. A projeção começa e uns quinze minutos depois escuto um ruído estranho, que não fazia parte da trilha sonora do David Shire. Era o rapaz da Veja, dormindo entre eu e a namorada. Quando o filme acabou tomamos um taxi para a redação da Veja, que ficava ali em Botafogo e o sujeito começou a me fazer perguntas sobre o filme, que ele não vira. Ele nem ao menos se dera ao trabalho de ler o release e não sabia o nome do diretor. Quando chegamos a redação ele começou a pedir ao editor para deixar ele escrever sobre outro filme. E o Flavio insistia: “Não você foi ver o 2010, tem que escrever sobre o 2010”. E o cara desesperado me perguntando como era o nome do ator e do diretor.

E o editor acabou jogando no lixo a crítica dele, e colocando o meu comentário em uma página inteira da Veja. Eu tinha acabado de sair da faculdade de jornalismo, e aquela foi uma estréia e tanto. O fato é que uma boa parte do futuro sonhado por Stanley Kubrick e Arthur C.Clarke já virou realidade e as pessoas nem ligam. É o caso das videopranchetas que os astronautas de “2001” usam em uma sequencia do filme de 1968. Hoje elas existem e se chamam iPads. Os cockpits eletrônicos, cheios de telas de cristal líquido da nave espacial do filme estão presentes em qualquer Airbus desses de linha. E a estação espacial internacional orbita a Terra com uma tripulação de americanos, russos e japoneses, como imaginava a ficção.

Semana passada eu estava num ônibus, vindo de Pinheiral para Volta Redonda, que não é uma situação propícia para se pensar no futuro. Uma mocinha senta ao meu lado e tira da bolsa um telefone celular. Aperta uma tecla e a telinha de cristal exibe um calendário onde ela confere e marca datas importantes. Depois ela joga na tela sua agenda pessoal e em seguida manda uma mensagem para uma página do Twitter. E tudo isso com uma caixinha do tamanho daqueles comunicadores de Jornada nas Estrelas. Que nunca tiveram a metade das funções dos nossos telefones celulares. Neste dezembro de 2010 os emissários eletrônicos da humanidade já invadiram o espaço interestelar. Neste momento a sonda espacial Voyager 1 já cruzou a heliopausa, o ponto em que termina o nosso sistema solar e está viajando para as estrelas.

A bordo da Voyager há um disco de ouro com imagens e sons da Terra. Destinadas a serem ouvidos por alguma civilização inteligente que intercepte a nave em sua jornada pelas estrelas.

2010 já é passado, mas um futuro surpreendente se abre diante de nós. Enquanto termino esta crônica está chegando nas livrarias o meu novo romance de ficção científica, “Angela entre dois mundos” que imagina a vida no ano de 2400. Num mundo transformado por uma mudança climática global. Afinal, pensar em 2010 agora é pensar no passado. E se o futuro do passado já virou realidade, temos que pensar no futuro do futuro.

Essas duas fotos de cima mostram cenas do filme 2001, uma odisséia no espaço, onde aparece a Newspad, segundo a concepção de Arthur Clarke. É possível ver, apesar de borrado, o logotipo da IBM no canto inferior direito dos tablets.

Um cartaz publicitário do filme mostra astronautas e um deles observando um Newspad.

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Devir publica Angela entre dois mundos.

18/12/2010

Título: Angela entre dois Mundos
Autor: Jorge Luiz Calife
Editora: Devir Livraria
Arte de capa: Vagner Vargas
Número de páginas: 214
Formato: 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-7532-452-3

Jorge Luiz Calife ascendeu ao mapa da ficção científica mundial com o agradecimento de Arthur C. Clarke às suas sugestões para a continuação de 2001: Uma Odisséia no Espaço, tornadas concretas com o romance 2010: Uma Odisséia no Espaço II:
“Agradeço ao Sr. Jorge Luiz Calife, do Rio de Janeiro, por uma carta que me fez pensar seriamente numa possível continuação [de 2001: Uma Odisséia no Espaço].”
Isso abriu as portas também para que ele fosse publicado no Brasil com os três romances da trilogia “Padrões de Contato”, composta de Padrões de Contato, Horizonte de Eventos e Linha Terminal, relançados pela Devir em um único volume em 2009.
Calife apresenta agora um novo romance deste universo ficcional: Angela entre dois Mundos. Escrito ainda antes da trilogia original, o livro nos apresenta o começo da saga humana que se expandirá galáxia afora, conduzida pela superinteligência da Tríade, e a partir da perspectiva da bela e imortal Angela Duncan, a escolhida para nos servir de guia por uma jornada rumo ao desconhecido. É uma aventura de ficção científica hard vibrante e movimentada que pode ser lida por si mesma, de forma independente.
Nascida e criada nas luas geladas de Saturno, a jovem Angela visita a Terra do século XXV e encontra um mundo alterado pela mudança climática global, onde uma nova geração de humanos vive nas nuvens, nas conchas cibernéticas de suas residências aéreas, e uma inteligência galáctica misteriosa tenta mudar o destino dos humanos. É o planeta da corporação Norland, a empresa multiplanetária que tenta mudar a face do firmamento, com a criação de novos lares para os humanos através da engenharia planetária, num processo conhecido como terraformação, que já criou um novo mundo na Lua. Ao mesmo tempo, Angela conhece o amor e tem de lidar com o drama do aparente desaparecimento da mãe em uma missão nas profundezas do espaço, que levará a jovem à espiral fluorescente da galáxia Colar de Jóias, onde conhecerá parte do mistério sobre suas origens.

Repercussão:

“Um brasileiro imaginativo, bem informado e irreverente, capaz de lidar com a ficção científica tão bem quanto os melhores autores estrangeiros do gênero.”

— Miriam Paglia Costa, Veja.

“[A Trilogia Padrões de Contato] é um marco da sci fi brasileira e precursora do gênero new space opera.”
— Arnaldo Bloch, O Globo.

“Um dos méritos deste novo romance é que ele não se limita a reconstituir os eventos que precederam a Trilogia Padrões de Contato. Longe de uma perspectiva puramente romanesca, Jorge Luiz Calife amplifica aqui sua visão de uma galáxia dedicada a se tornar o crisol de múltiplas civilizações, ao mesmo tempo em que a relaciona aos problemas de nosso tempo. Angela entre dois Mundos implicitamente faz parte de uma história do futuro comparável àquelas de Robert Heinlein, Poul Anderson ou Olaf Stapledon. (…) No âmbito da ficção científica brasileira, é um dos raros autores capazes de apaixonar seus leitores conjugando ciência e filosofia.”
— Jean-Pierre Moumon, editor de Jorge Luiz Calife na revista francesa Antarès.

“Fiel à ficção científica hard de Arthur C. Clarke, Calife brinda o leitor de Angela Entre Dois Mundos com a narrativa da adolescência e do início da idade adulta de Angela Duncan, protagonista da Trilogia Padrões de Contato. Quem curtiu os enredos, tramas e ambientes futuristas da trilogia, vai querer saber o que fez a jovem Angela pré-Tríade se tornar quem é.”
— Gerson Lodi-Ribeiro, autor de Taikodom: Crônicas e Xochiquetzal.

Escrever ficção científica exige de um autor mais que facilidade de escrita. Neste caso é preciso criatividade, tanto na criação de personagens quanto desenvolvimento de diálogos, além de boa formação cultural. Jorge Luiz Calife dispõe de tudo isso… Num estilo refinado, com inegável influência de Arthur C. Clarke… Calife tem tudo para se transformar no grande autor desse gênero no Brasil. Seu conhecimento de ciência, como um dos principais autores de divulgação, dá a ele credenciais mais que suficientes…”
— Ulisses Capozzoli, editor da Scientific American Brasil.

“Se o relançamento da trilogia em 2009 tornou possível a reavaliação histórica e a importância surpreendentemente atual da obra neste início de século XXI, Angela entre dois Mundos nos ajuda a compreender melhor as motivações iniciais de Calife para a criação do universo ficcional mais elaborado e significativo da história recente de nossa FC. Coloca em primeiro plano, a gestação das primeiras ideias, através da figura bela e precoce de Angela Duncan, uma das personagens mais marcantes da ficção científica brasileira.”
— Marcello Simão Branco, co-autor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica.

De Bar em Bar entrevista Jorge Luis Calife.

25/03/2010

Caminhei pelo corredor tomando o maior cuidado em não tropeçar em velhas quinquilharias largadas pelo caminho. Tomava especial cuidado com alguns alienígenas caídos no chão. Pernas e braços estendidos. Alguns com a garganta cortada. Outros plenamente bêbados, ainda balbuciantes, contorcidos e entrelaçados em várias pernas e braços, alguns indistinguíveis dos outros.

As paredes circundantes eram circulares e deviam possuir cerca de quatro metros de diâmetro. Abriam-se, aqui e ali, corredores que levavam a lugares desconhecidos e cuja extensão era difícil calcular devido à obscuridade em que mergulhavam após poucos metros.

Alguns olhares inamistosos me acompanhavam, vindos de seres ainda não completamente entorpecidos. Havia vários deles, de todas as espécies, de todas as raças e conformações físicas.

Depois de uma dezena de metros me desviando de obstáculos me deparei com uma porta estanque. Fechada hermeticamente. Analisei-a tentando adivinhar como a faria se abrir, quando, num átimo, ela zuniu e se desgarrou da parede metálica, deslizando ruidosamente até ficar completamente aberta. Do outro lado, dois aliens com cerca de dois metros de altura amparavam-se, trôpegos, tentando sair.

Dei-lhes passagem.

Adiantei-me e a porta se fechou noutro zumbido metálico, cravando-se na parede de tal forma que me parecia estar escavando-a pouco a pouco. Estava uma balbúrdia. Mesas de plexiglas, balcão circular de onde alguns garçons deslizavam carregando garrafas multicores. Aliens trotavam indo e vindo, alguns altercavam, outros trocavam insultos, um ostentava abertamente uma espada longa, de lâmina estreita e aparentemente afiadíssima. Agitava-a nervosamente, pronto a decepar membros de quem ousasse enfrentá-lo.

Chamou-me atenção a extremidade oposta daquele amplo salão. Não havia paredes, mas uma abertura larga de onde se podia ver a imensidão do espaço. Sentado com um copo diante de si, completamente alheio a qualquer distúrbio, estava Jorge Luis Calife. Mergulhado no ato de contemplação. Aproximei-me driblando alguns contendores e me sentei diante dele, igualmente fascinado pela paisagem.

Além de uma miríade de sóis distantes, um mais próximo deixava uma cauda atrás de si como se fosse um cometa. Próximo dele um buraco negro o sugava com todas as forças, drenando sua energia com voracidade.

— Não é incrível? – balbuciou Calife, sem tirar os olhos da cena.

— Sim – respondi.

—Gostei. Amei. Lugar melhor não poderia existir para essa entrevista – disse, virando-se para mim e bebendo um pouco do que tinha no copo.

— Onde estamos? – perguntei.

— Numa velha estação orbital. Quando atingiu seu tempo de vida útil, consideraram-na como sucata e a atiraram ao espaço. Ficou vagando sem rumo até ser encontrada por piratas espaciais. Tomaram-na e fizeram alguns reparos necessários. Acabou transformada num grande depósito de carga roubada e contrabando. Ah, e fizeram esse bar. Um bom bar. Frequência estranha, mas com uma vista maravilhosa.

— tempo de vida ainda mais curto, presumo – eu disse apontando com o queixo para o buraco negro adiante.

— Ela gravita o buraco, bastante próxima do horizonte de eventos. É um lugar difícil de abordar e nem todos tem coragem para isso. Dessa forma, trata-se de um reduto pirata quase inexpugnável. Mas um dia… Mergulhará. E com quem estiver por aqui.

Um garçom solícito deixou na mesa um copo. Não havia pedido nada, nem pretendia tomar nada. Mas um olhar de Calife me bastou para entender que deveria aceitar sem questionamentos.

— Cerveja nictiana. Um composto de ingredientes que você certamente não vai querer conhecer. Mas tem um sabor muito agradável e teor alcoólico de 60%.

Observei o líquido borbulhante e a cor levemente acanelada. Experimentei um pequeno gole e senti, além do álcool que me fez arder as papilas, um suave sabor de framboesa. Meus olhos avermelharam quase instantaneamente, coisa que fez Calife soltar um sorriso divertido.

— É esse o famoso relógio quântico? – ele me perguntou, olhando para o mecanismo em meu braço.

— Ele mesmo – respondi, levando instintivamente a mão até ele.

— trouxe-nos para um cenário que conheço como a palma das minhas mãos.

— melhor assim – respondi –, nos dá a impressão de que alguém está no controle da situação.

— Quais as perguntas? Essa cerveja tem o excepcional dom de tornar bêbado o mais resistente. Se demorarmos muito, logo não teremos condição nem de nos levantarmos.

— Seu trabalho é elogiado, mas existem críticos – não poucos – que o acusam de se acomodar nas eternas aventuras de suas heroínas, quando poderia diversificar suas abordagens e temas. O que você pensa a respeito?

Mais um gole, mais uma olhada longa para o espetáculo oferecido pelo buraco negro e Calife suspirou.

— Olha, o único livro que eu queria escrever se chama “Ângela entre dois mundos” que ainda não foi publicado. Os outros surgiram como consequência desse, para cumprir contratos com editoras. Quanto a explorar outros temas, já fiz isso num monte de contos, que estão saindo nessa coleção “Os melhores da FC” organizada pelo Causo. Quem quiser é só conferir lá.

Gritos irromperam atrás de nós. Alguém sacou uma arma, houve ameaças e apenas um disparo. Um corpo caiu pesadamente no chão. O autor do tiro foi até ele e o chutou um par de vezes. Depois voltou a se sentar. Guardou a arma displicentemente num coldre puído e silenciou, mergulhado numa bebida qualquer que não a cerveja nictiana.

— Como está sendo a recepção da Trilogia Padrões de Contato no mercado? Qual a perspectiva de lançamento de Ângela? – perguntei quando a voz me voltou.

— Eu fui contra a republicação de Padrões de Contato. O público para esse tipo de livro é tão pequeno que eu preferia investir tudo no livro inédito. Mas o Causo, que organiza as edições pela Devir, insistiu que tinha que republicar Padrões, que o livro inédito só depois dele. Resultado: já vai fazer um ano que saiu o livro e até agora me rendeu um salário mínimo de direito autoral. Pra ter esse resultado pífio eu preferia ter feito só o Ângela entre dois mundos. Agora vamos ver, se o Ângela sair esse ano terá valido a pena. As coisas seriam muito melhores se os editores ouvissem a opinião dos autores.

— Calife é mais conhecido por ter sido o inspirador de Arthur Clarke, ou pela sua produção literária? Como a relação com Clarke o ajudou como escritor?

Bem que ele tentou responder, mas um sujeito embriagado se sentou na mesma mesa em que estávamos. Olhou-nos com desprezo e soltou a língua, fazendo-a vibrar entre os lábios. Depois apontou o dedo para mim e fez sinal para que me erguesse. Não entendi nada. O Calife, na maior sem cerimônia, levantou-se e aplicou vigoroso sopapo no cara. Ele rodou na cadeira em que estava e tombou inerme. O evento provocou meio segundo de silêncio no bar e depois o vozerio voltou ao normal.

— Um cotleriano. São brigões por natureza – disse-me o Calife.

— O que ele queria comigo? – perguntei, preocupado.

— Com você, nada. O desafio era para mim. Ele só queria que você caísse fora. Olha, Tibor, as coisas aqui são resolvidas na porrada ou coisa pior, como deve ter notado. Então, se alguém se aproximar de você e você sentir que existem segundas intenções, parta para o ataque sem titubear. Leva a melhor quem for mais rápido.

— Vou tentar me lembrar disso – murmurei.

— Acho que ainda sou o cara que inspirou o Clarke a escrever 2010. Independente da amizade, eu acho que aprendi a escrever FC lendo os livros do Clarke. Acabei entendendo mais do universo dele do que ele mesmo. Quando saiu 2010 eu percebi que ele tinha cometido um erro na descrição da nave Discovery. Eu conheço aquela nave como a palma da minha mão. Falei com ele e o Clarke mandou uma mensagem urgente para o Peter Hyams, que tava fazendo o filme em Hollywood, dizendo que o Calife tinha achado um erro na cena da abordagem da nave. O Hyams corrigiu no filme. Essa correspondência dele com o diretor, me citando, saiu no livro The Odyssey File da Ballantine Books. Uma coisa eu garanto, se eu estivesse lá o Bowman tinha desarmado o anel cognitivo que tornou o Hal psicótico com meia dúzia de palavras. E o Frank não teria morrido.

Por alguns instantes fizemos silêncio. Não que nosso silêncio fosse fazer alguma diferença na balbúrdia do salão. Olhamos para fora, através do que parecia ser vidro, mas não era. O Calife pareceu captar minha curiosidade e aproximou o dedo do vão, fazendo surgir várias ondas concêntricas que iam se alargando levemente até desaparecer.

— Energia pura. Trata-se de um escudo energético. Parece melífluo, capaz de ser vencido com um pouco mais de força. Mas nem um disparo de uma arma de pulsos quânticos seria capaz de abrir um buraco nessa armadura. Por outro lado, se desfaz com uma rapidez impressionante assim que a moldura metálica que a contorna é destruída. Paradoxal, não é mesmo? Para quê um escudo de energia tão poderoso se a estrutura metálica dessa estação é tão frágil quando uma casca de ovo?

— Para quê manter um centro logístico como esse, armazenando muamba e butins, se o fim está tão próximo? – perguntei, reforçando o questionamento do Calife e me referindo, obviamente, ao buraco negro.

— Questões… Questões…

— Como você enxerga o mercado literário nacional atualmente. Como encara o fandom?

— As pessoas ficam falando que a FC brasileira é invisível; na verdade toda a literatura brasileira é invisível. As pessoas só leem livro de religião e autoajuda. Até os livros de FC estrangeiros só são publicados se virarem filmes. Eu traduzi o Eu Robô do Asimov para a Ediouro, a toque de caixa, porque fizeram um filme que só usava o título do livro do Asimov. A cultura brasileira atual é audiovisual. Se não virar filme ou game, o livro é ignorado. O fandom é que mantém a FC viva no Brasil. Se não fossem os fanzines, as convenções e reuniões, tudo seria esquecido. Eles prestam um trabalho inestimável.

— Voltando à primeira pergunta, Calife, nessas duas coletâneas recentes – os melhores contos brasileiros da ficção científica –, seus trabalhos são atuais? Porque as críticas que fazem a você não são quanto a sua produção anterior, mas quanto a atual. Dizem que você só escreve histórias com Ângela Duncan e outras beldades e desistiu de se aventurar por outras veredas, trazendo narrativas novas e surpreendentes aos leitores. Reclamam da sua passividade em se estabelecer num argumento só e não experimentar outras vertentes.

O Calife franziu o cenho. Apertou os olhos, olhando para mim com irritação. Pegou o copo ainda meio cheio, bebeu o restante da cerveja nictiana num gole só, se levantou sem tirar os olhos de mim e, num gesto rápido e inesperado, atirou o copo sobre a minha cabeça. Ela se estilhaçou na cara do sujeito armado que vinha assomando sobre mim, numa tentativa de ataque prontamente rechaçada.

Então o tempo fechou. O céu desabou, as paredes se estreitaram, os ânimos se exaltaram e tudo aconteceu numa sucessão tão rápida que mal posso descrever o que aconteceu.

Fui agarrado pelos ombros e jogado alguns metros distante. Caí sobre uma mesa que, embora firmemente atarraxada ao solo, quebrou uma das pernas e pendeu, me deixando tombar no chão sujo e gorduroso. Aliens pegajosos se atracaram em luta furiosa. Levantei-me sob uma saraivada de golpes, todos desferidos contra mim e contra todos que estivessem mais próximos. Vi o Calife girar um baixinho de duas cabeças sobre os ombros e arremessá-lo contra um grandão de uma cabeça só, mas com quatro braços tão grossos que pareciam troncos de uma sequoia. Peguei uma garrafa azul piscina e a brandi agitado de um lado ao outro. Ela arrebentou nas fuças de um dos garçons que tentava recolhê-la, como se fosse peça sagrada e preciosa. Fui atingido nas costas, na nuca e nos quadris. Chutes ou socos, não dava para ter certeza. Desferi um cruzado e quase quebrei a mão numa couraça óssea que fazia as vezes de cabeça num sujeitinho escroto que blasfemava e ria ao mesmo tempo em que socava sistematicamente o peito de outro cotleriano.

A briga teria durado muito mais se não fosse a súbita aparição de uma mulher lindíssima, com um corpo escultural. Golpes precisos de uma artista nata em artes marciais e logo estavam todos por terra, estatelados. Menos eu e o Calife que ostentávamos algumas equimoses, roupas rotas e expressões apalermadas.

A mulher se aproximou de mim e passou a mão delicadamente pelo meu rosto.

— É um homem interessante. Mas não é a você que estamos em busca, agora. Quem sabe em outra ocasião.

— Ângela – balbuciou Calife, tentando se aprumar.

— Querido – respondeu ela, apertando-o num abraço mais que afetuoso – saiamos daqui. Vamos lançar essa carcaça no buraco negro e é melhor estar longe.

O Calife se virou para mim. Uma expressão vívida de satisfação e orgulho.

— Não preciso do seu relógio para me mandar. Ângela Duncan vai cuidar de mim de agora em diante.

Vi-os saindo. Um pouco antes da porta se fechar, ele se virou para mim e deu a última resposta.

— Os dois contos que saíram em Os melhores contos brasileiros da ficção científica são, um da década de 1980 e outro da de 1990. Já o da antologia Gastronomia Fantástica foi escrito há três anos e o da Imaginários escrevi em 2008. Eu tenho a série de noveletas Os filhos de Medeia sobre a colonização de um planeta por bebês de proveta criados por robôs, que continua inédita assim como outras histórias. Tenho uma história sobre um ataque terrorista num Brasil do futuro que o Marcello Branco rejeitou para uma coletânea atual da Editora Devir. Pediu para que fosse melhorada. Um dia, quem sabe. Portanto, não me encham o saco com esse tipo de cobrança. Eu escrevo o que eu imagino; quem não gostar que leia o Causo, você, o Gerson, o Braulio. Há tantos autores disponíveis, porque eu tenho que escrever pra todos os gostos? Se ainda ganhasse bem pra isso, oras!

Então, depois do desabafo, voltou a sorrir. Ângela Duncan o abraçou pela cintura, carregando-o consigo. Ainda pude ouvi-la prometer que “trataria” bem dele.

Só, tendo um cenário de destruição ao meu redor e imaginando que em breve a estação orbital estaria mergulhando definitivamente dentro do buraco negro, apertei o botão de meu relógio quântico. Fui curar minhas feridas em casa.

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Temos ou não temos leitores – Parte IV

05/02/2010

Vimos discutindo todas as faixas possíveis onde os leitores potenciais de literatura de gênero, predominantemente de FC, estariam. E como nossa literatura se relaciona com eles, levando em consideração aspectos práticos de mercado, seja na distribuição, seja na divulgação e tratamento editorial. Existem leitores e eles estão por aí, devendo ser caçados no laço, se necessário, e utilizando das armas que dispomos.

Mas surgiu um novo aspecto de abordagem. Íamos nos esquecendo de comentar a interação com a multimídia, transformando uma obra literária num conjunto muito mais amplo de peças, todas elas interligadas, atuando separadamente em mercados diferenciados, com o objetivo de alavancar vendas, transformando um livro num Bestseller, ancorado no sucesso de suas peças irmãs.

Mas esse é um cenário ainda nebuloso no Brasil. Fica difícil imaginarmos uma ação dessa natureza num país com evidentes problemas financeiros, onde a cultura sofre com a falta de investimentos e só pode “acontecer” se financiada pela iniciativa privada.

Segundo Gerson-Lodi Ribeiro, consultor técnico da Hoplon Infotainment e que ajudou a criar e desenvolver o game Taikodon, o sucesso de uma obra literária impulsionada por um amplo esforço multimídia é uma verdade que pode ser constatada, ainda, apenas no exterior. No Brasil as coisas caminham mais devagar.

Tanto o jogo quanto os livros da coleção Taikodom foram lançados há pouco mais de um ano. Mesmo sem acesso aos números das vendas da Devir, eu diria que ainda é cedo demais para se afirmar alguma coisa. Dentro de uns dois ou três anos, saberei responder se a verdade anglo-saxã também se aplica ao Brasil”.

Jorge Luis Calife também se manifestou a esse respeito:

“A FC hoje em dia é um gênero multimídia, os autores estrangeiros ficam famosos porque seus livros são adaptados para outras mídias como cinema e games. Enquanto a FC brasileira ficar restrita só à literatura ela vai continuar invisível. É difícil mudar esse quadro. No início do ano escrevi o roteiro para um game, o Gravidade Zero, baseado no meu último romance. Ele tem fases de combate como o Halo 3 da Microsoft e fases de exploração como o Rama da Sierra. Mostrei o roteiro para vários game designers e todos disseram que é impossível produzir um jogo assim no Brasil; que custaria milhões de dólares. Mas todos reconhecem que renderia de três a quatro vezes mais que um filme. Os livros de vampiros do André Vianco também dariam ótimos games para PC ou console. Mas não há como expandir a FC e a Fantasia brasileira para outras mídias por falta de recursos. Assim, num país de cultura audiovisual, como é o caso do Brasil, a nossa literatura fantástica vai continuar invisível, no gueto, enquanto não puder se expandir para outras mídias”.

Podemos constatar um aumento razoável de books trailers produzidos pelos próprios autores como um esforço de divulgação, mas não vemos mais nada, além disso. Não temos como amplificar nossos esforços, senão pelos recursos oferecidos pela internet, que são parcos diante da necessidade que temos de explorar novas mídias.

Seria fantástico, sem dúvida, se pudéssemos ver obras como Padrões de Contato, Hegemonia, os vampiros do André Vianco, A mão que cria, sendo exibidos nos cinemas ou jogados por adolescentes ávidos. Seria um evento grandioso e comparável apenas aos que ocorrem em países do primeiro mundo.

Mas, sem recursos, ficamos limitados ao boca a boca, mesmo que virtual, em fóruns de discussão, comunidades de grupos e redes sociais.

E os leitores? Disparando pela campina. Limpem e municiem as suas armas, ajeitem a mira e que se regozije o de melhor pontaria. Só cuidado com as balas perdidas. Acabam acertando um ao outro, nem sempre sem querer.

Pulp Ficcion a Portuguesa

23/07/2009

Depois de vários meses de espera, após adiamentos variados, saiu, segunda-feira passada (dia 13) a primeira lista de contos aprovados para a antologia Pulp Ficcion a Portuguesa.

Organizada pela Editora Saída de Emergência, essa extenuante seleção galardoou, numa primeira etapa, vinte contos de onde sairão os dez que comporão essa antologia.

O conto Mundo Fatal, escrito em parceria entre eu e Jorge Luis Calife, foi selecionado. Isso ainda não é definitivo, mas termos sido escolhidos entre dezenas de outros, muitos bastante gabaritados, e estarmos perto de publicar em Portugal (pra mim isto será novidade), já nos dá muita alegria (embora não nos satisfaça completamente… rs).

Os dez contos escolhidos serão anunciados, provavelmente, no próximo dia 27, no site Efeitos Secundários, capitaneado pelo Luis Filipe Silva. Até lá não resta muita coisa a fazer senão cruzar os dedos e torcer.