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Temos ou não temos leitores – Parte IV

05/02/2010

Vimos discutindo todas as faixas possíveis onde os leitores potenciais de literatura de gênero, predominantemente de FC, estariam. E como nossa literatura se relaciona com eles, levando em consideração aspectos práticos de mercado, seja na distribuição, seja na divulgação e tratamento editorial. Existem leitores e eles estão por aí, devendo ser caçados no laço, se necessário, e utilizando das armas que dispomos.

Mas surgiu um novo aspecto de abordagem. Íamos nos esquecendo de comentar a interação com a multimídia, transformando uma obra literária num conjunto muito mais amplo de peças, todas elas interligadas, atuando separadamente em mercados diferenciados, com o objetivo de alavancar vendas, transformando um livro num Bestseller, ancorado no sucesso de suas peças irmãs.

Mas esse é um cenário ainda nebuloso no Brasil. Fica difícil imaginarmos uma ação dessa natureza num país com evidentes problemas financeiros, onde a cultura sofre com a falta de investimentos e só pode “acontecer” se financiada pela iniciativa privada.

Segundo Gerson-Lodi Ribeiro, consultor técnico da Hoplon Infotainment e que ajudou a criar e desenvolver o game Taikodon, o sucesso de uma obra literária impulsionada por um amplo esforço multimídia é uma verdade que pode ser constatada, ainda, apenas no exterior. No Brasil as coisas caminham mais devagar.

Tanto o jogo quanto os livros da coleção Taikodom foram lançados há pouco mais de um ano. Mesmo sem acesso aos números das vendas da Devir, eu diria que ainda é cedo demais para se afirmar alguma coisa. Dentro de uns dois ou três anos, saberei responder se a verdade anglo-saxã também se aplica ao Brasil”.

Jorge Luis Calife também se manifestou a esse respeito:

“A FC hoje em dia é um gênero multimídia, os autores estrangeiros ficam famosos porque seus livros são adaptados para outras mídias como cinema e games. Enquanto a FC brasileira ficar restrita só à literatura ela vai continuar invisível. É difícil mudar esse quadro. No início do ano escrevi o roteiro para um game, o Gravidade Zero, baseado no meu último romance. Ele tem fases de combate como o Halo 3 da Microsoft e fases de exploração como o Rama da Sierra. Mostrei o roteiro para vários game designers e todos disseram que é impossível produzir um jogo assim no Brasil; que custaria milhões de dólares. Mas todos reconhecem que renderia de três a quatro vezes mais que um filme. Os livros de vampiros do André Vianco também dariam ótimos games para PC ou console. Mas não há como expandir a FC e a Fantasia brasileira para outras mídias por falta de recursos. Assim, num país de cultura audiovisual, como é o caso do Brasil, a nossa literatura fantástica vai continuar invisível, no gueto, enquanto não puder se expandir para outras mídias”.

Podemos constatar um aumento razoável de books trailers produzidos pelos próprios autores como um esforço de divulgação, mas não vemos mais nada, além disso. Não temos como amplificar nossos esforços, senão pelos recursos oferecidos pela internet, que são parcos diante da necessidade que temos de explorar novas mídias.

Seria fantástico, sem dúvida, se pudéssemos ver obras como Padrões de Contato, Hegemonia, os vampiros do André Vianco, A mão que cria, sendo exibidos nos cinemas ou jogados por adolescentes ávidos. Seria um evento grandioso e comparável apenas aos que ocorrem em países do primeiro mundo.

Mas, sem recursos, ficamos limitados ao boca a boca, mesmo que virtual, em fóruns de discussão, comunidades de grupos e redes sociais.

E os leitores? Disparando pela campina. Limpem e municiem as suas armas, ajeitem a mira e que se regozije o de melhor pontaria. Só cuidado com as balas perdidas. Acabam acertando um ao outro, nem sempre sem querer.

Temos ou não temos leitores – Parte III

03/02/2010

Não, o assunto ainda não se esgotou. Falamos de quantidade de publicações versus leitores, falamos de rótulos versus leitores e agora falaremos de qualidade versus leitores.

Nesse sentido, é bastante coerente nos perguntarmos se literatura bem feita, preocupada com a forma e com o rigor estilístico vende mais do que aquela cuja preocupação maior é só contar uma história.

Para mim, escrever direito e escrever bem são duas coisas distintas. Os que escrevem direito conseguem se fazer entender, mesmo na indecisão estrutural de seus textos. Os que escrevem bem, o fazem com cuidado técnico, atenção ao estilo, narrativa fluida e bem construída.

Não se vê escritores bons com frequência, mas os “direitos” transbordam.

A eles não está reservada a sorte de vender bem?

Claro que está. Qualidade literária pode determinar o feedback da mídia e dos leitores especializados, sejam formadores de opinião ou não. Mas qualidade não é fundamental para definir o resultado das vendas. Estamos cheios de exemplos de autores cujas obras alcançam o status de Best seller, sem, contudo, exibirem qualidade narrativa suficiente para atrair a atenção de leitores mais exigentes.

Escrever bem é importante, claro. Que escritor quer ser medíocre a vida inteira (Está certo, tem escritores que se esforçam nisso incansavelmente)? Mas desde quando não ser o melhor privará um assassino do vernáculo de atingir um nicho de mercado e tirar a sorte grande?

Então, argumentos relacionando qualidade literária com vendas, são incoerentes. Antes frisemos a necessidade de distribuição, de marketing, de um competente trabalho editorial. Leitores exigentes querem ler coisas boas. Boas histórias e bem escritas, mas o mercado está forrado de leitores não muito exigentes, e são eles que dão números finais às curvas ascendentes (ou descendentes) de vendas.

Senão veríamos Dan Brown, Stephen King e Nora Roberts sendo discutidos em rodas intelectualizadas e disputando palmo a palmo o Nobel de Literatura.

Isso não significa, nem quero que pensem, que estou incentivando que escrevam mal. Só saliento que escrever bem ou mal nada tem a ver com se dar bem ou não nas prateleiras.

Por fim, chego à conclusão que precisamos focar os leitores que estão além do fandom, que não devemos lhes escancarar o gênero (para não afugentá-los logo de cara), e tanto faz se você escreve bem ou só escreve direito (se escreve mal, então não tem jeito). 90% desses leitores não são exigentes. Eles não querem se enrodilhar em artifícios da linguagem, nem se espantar diante da sua fluência ou rigor narrativo. Eles querem se divertir. Querem fugir da realidade um pouco que seja a cada dia.

Zibia Gaspareto vende muito, muito bem. Mas escreve muito, mas muito mal. Entenderam a relação? Ninguém entende, mas é assim que muitos autores vão se virando.

E, ah, sim, aqueles na base do “pouco estou ligando se vendo ou não, o importante é publicar”, estão no gênero errado. O Mainstream é no final do corredor, a segunda porta à esquerda.

Temos ou não temos leitores – Parte II

02/02/2010

Acredito que a discussão a esse respeito ainda não acabou e está longe disso. Frisei a existência evidente de leitores além das fronteiras da literatura de gênero, possivelmente ávidos (sem saber disso) para ler o que escrevemos.

Sabemos, claro, que muita gente lê gênero sem se dar conta disso.

O que me incomoda é saber se esses leitores que estão do lado de lá leriam nossos escritos se soubessem que têm nas mãos obras de FC. Me pergunto se a especificação de gênero não poderia agir como um limitador de público.

Não é de hoje que se torce o nariz para a FC. Não só aqui no Brasil, mas em outros lugares também.

Nesse sentido, acrescento aqui um trecho de uma matéria publicada no Blog Ípsilon por Eduarda Sousa e que se encaixa como uma luva no assunto:

“Em 1975, Kingsley Amis, Arthur C. Clarke e Brian Aldiss preparavam-se para atribuir o prêmio de melhor romance de FC do ano a Salman Rushdie, pelo seu primeiro livro “Grimus”, quando no último minuto os editores resolveram retirar a obra do concurso. “Se Salman Rushdie tivesse ganhado o prêmio seria classificado como escritor de FC e nunca mais ninguém voltaria a ouvir falar dele”, explicou na altura Brian Aldiss.”

Não creio que tenha mudado muita coisa hoje em dia. Queremos ser lidos para além do fandom. Desejamos isso. Queremos ver nossos livros vendendo não algumas dezenas, mas centenas, quiçá milhares.

Mas a estampa de “FC” restringe leitores.

Seria solução não especificarmos o gênero nas capas e contracapas? Isso nos faria eventualmente mais lidos por leitores desavisados? Seria um desserviço ao gênero estigmatizá-lo ainda mais, embora as intenções sejam as melhores? As necessidades do gênero devem sobrepor as necessidades do autor? Ou a FC não sofre nenhum tipo de preconceito e essas questões são todas sem nenhum fundamento?

Autores clássicos de FC, publicados pela Editora Aleph, enfeitam estantes nas livrarias do Brasil, esses livros não estampam na capa o gênero a que pertencem. Me parece que, apesar disso, vendem bem. Venderiam tão bem se o gênero fosse aberto? Tenho dúvidas.

Particularmente, prefiro um livro meu publicado sem referências diretas ao gênero e, com isso, fisgar um ou outro leitor de fora. Pessoas que lerão e possivelmente gostarão, sem saber que tem uma legítima FC nas mãos.

Posso estar errado, mas prefiro acreditar que estou certo.

Temos ou não temos leitores?

28/01/2010

A avalanche de publicações que se promete para este ano traz em sua cauda uma discussão que questiono se é ou não procedente. Pergunta-se, amiúde, se teremos leitores para tantas e diversificadas obras. Se não estariam elas sendo lançadas para o ostracismo.

Não consigo crer que a literatura de gênero no Brasil tenha tão poucos leitores a ponto de nos questionarmos a esse respeito. Obviamente deveremos olhar para bem além das fronteiras que separam os leitores do fandom para os leitores de fora dele. Existe um público bastante bom do lado de lá. Basta que as editoras obtenham uma distribuição abrangente para poder alcançá-los.

Qualquer editora que se disponha a existir baseando sua estratégia de vendas apenas para o fandom, estará arquitetando a própria falência.

O fandom não é e nunca foi target único para um marketing eficiente.

Aí, nos voltamos para questões mais mundanas, fora da arte que se pretende na escrita, chamada capa. Quando nos viramos para públicos do lado de lá de nossas fronteiras, precisamos oferecer um chamariz capaz de trazê-los aos nossos livros. Capaz de fazê-los pegá-los e manuseá-los. Capaz de fazê-los ler a quarta-capa. E é aí que se refugia toda a complicada arte da venda.

Porque escrevemos para vender e não para agraciar nossos egos.

Claro que a literatura de gênero só sobrevive com leitores. Ela existe para ser lida. Seus autores não escrevem para si e para poucos eleitos, mas anseiam um público mais amplo. Problema maior vive a literatura realista, onde parte de seus autores parece escrever uns para ou outros, numa ciranda egoísta e burra.

Matéria nesse sentido você pode ler no Todoprosa de Sérgio Rodrigues.