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A Situação – Lido e comentado

15/01/2013

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Fantástico, causa bastante estranhamento. Bizarro, também. Kafkiano? Chega perto. Uma imensa alegoria. Metafórico.

Fala do universo próprio existente dentro das grandes empresas e corporações. Os inter-relacionamentos, as crises, as cobranças.. Hierarquia escravizante, jogo de interesses, influências, maledicências…cruel, pontual, mordaz, selvagem.

Lesmas e besouros… muitos.

Perturbador? Não, está mais para desconfortável.

VanderMeer decalca o terror que reina nas entranhas das grandes empresas. A ausência total de livre arbítrio. A contumaz presença de gerentes, supervisores, diretores, solapando a livre iniciativa.

Jogo de interesses. Ou você segue a correnteza ou está fora. E, nesse caso, não metaforicamente.

Leitura rápida que pode ser feita em duas horas num sofá confortável, na sua mesa de escritório ou num ônibus preso no trânsito.

Há efeitos colaterais. Pelo menos no meu caso. Surpreendo-me olhando com certa insistência para o teto da minha sala na empresa onde trabalho. Já tive a impressão de divisar uma arraia jamanta disfarçada no reboco.

Elas estão em todos os lugares.

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A Situação – Jeff VanderMeer

Editora: Tarja Editorial
Gênero: Fantástico
Formato: 14 cm x 21 cm
Páginas: 118

Diga “não!” à dominação cultural imperialista.

11/03/2011

Houve tempo em que a ficção científica que se escrevia no Brasil era toda eivada dos símbolos da literatura estrangeira e de tal forma contaminada por eles que não existia nem a mais tênue sombra de uma literatura identificada com a nossa realidade.

Isso fez surgir alguns insurgentes escritores brasileiros que, em busca de uma literatura de raiz, com personagens, cenários e ambientações tipicamente nacionais, procuraram romper com os asfixiantes clichês anglo-saxônicos.

Foi quando Ivan Carlos Regina, autor premiadíssimo da Segunda Onda da FC&F brasileira, escreveu o Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira (publicado no fanzine Somnium em 1988), pegando carona no famoso Manifesto Antropofágico escrito por Oswald de Andrade. O que era pra ser uma brincadeira acabou como símbolo de uma geração que buscava uma identidade própria, repudiando a mediocridade que permeava o cenário da literatura de gênero à época. Um movimento literário em sua essência.

Leiam esse manifesto e ponderem: mudou alguma coisa de lá para cá?

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MANIFESTO ANTROPOFÁGICO

DA FICÇÃO CIENTÍFICA

BRASILEIRA


MOVIMENTO SUPERNOVA

O homem foi até as estrelas para se encontrar e só achou o vazio, vazio, vazio.

Descobriu que no interior de todos os sóis se esconde a noite, e com ela sua inimiga ancestral, a escuridão.

São seus companheiros de viagem a morte, a dor, o riso, o sexo, a miséria, a alegria, o amor, o tédio, a solidão, a desesperança, o cansaço e a preguiça.

No cruzar da existência uma pirâmide de objetos inúteis: um forno de microondas, uma garrafa plástica, um quilo de éter, uma blusa de náilon, uma lâmina de barbear. Objetos do dia a dia.

Não propomos a dialética do povo mas a estética do novo.

O homem odeia o deus e ama o robô. Seu destino é destruir a perfeição e criar a aberração.

O totem foi a primeira máquina do homem.

Queremos ser uma explosão da forma e uma revolução do conteúdo. A supernova no céu do convencional.

A alegria e a prova dos nove.

A tecnologia e, em ultima instância, a tentativa neurótica do homem em substituir todos os seus componentes humanos por artificiais, criando um mundo onde ele seja o menos possível responsável.

Um boitatá de olhos de césio espreita no planalto central do país.

Ao lidar somente com a máquina, a ficção científica transforma-se num gênero de cenários, um arremedo de vaudeville, estéril e inconsequente.

Não viemos criticar a função da máquina mas propor a estética do homem.

Precisamos deglutir urgentemente, após o Bispo Sardinha, a pistola de raios laser, o cientista maluco, o alienígena bonzinho, o herói invencível, a dobra espacial, o alienígena mauzinho, a mocinha com pernas perfeitas e cérebro de noz, o disco voador, que estão tão distantes da realidade brasileira quanto a mais longínqua das estrelas.

A ficção científica brasileira não existe.

A cópia do modelo estrangeiro cria crianças de olhos arregalados, velhinhos tarados por livros, escritores sem leitores, homens neuróticos, literaturas escapistas, absurdos livros que se resumem as capas e pobreza mental, colônias intelectuais, que procuram, num grotesco imitar, recriar o modus vivendi dos paises tecnologicamente desenvolvidos.

A ficção científica nacional não pode vir a reboque do resto do mundo. Ou atingimos sua qualidade ou desaparecemos.

A produção literária brasileira, no gênero de FC, à exceção de reduzido rol de obras, é de uma mediocridade horripilante.

Uma mula sem cabeça cospe fogo radioativo pelas ventas.

Emulamos tecnologias sem conhecê-las.

Um Saci Pererê matuta, com uma prótese de vanádio, masca mandioca, tritura paçoca e arrota urânio enriquecido.

A alegria e a prova dos nove.

O homem prova, todo dia, que não é merecedor da tecnologia.

Queremos despertar o iconoclasta que jaz em todo peito brasileiro.

Morte aos adoradores de máquinas.

Um caipora verde amarelo devora hambúrgueres, destrói satélites, deglute armas e destroça tecnologias.

Um índio descerá de uma estrela colorida brilhante.

SUPERNOVA

São Paulo, 1º ano após o desastre de Goiânia.

IVAN CARLOS REGINA