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O homem fragmentado já tem capa. Conheça!

10/06/2013

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Já faz um tempinho que anunciei meu contrato com a Terracota Editora para a publicação de O homem fragmentado. Agora, finalmente, saiu a capa (trabalho esmerado de Fernando Lima). Trata-se de uma imagem de  Étienne-Jules Marey, renomado fotógrafo francês e também inventor. Um dos pioneiros na área de fotografia e cinema.

Vou ser bastante franco em dizer que temia a capa. Não que não acreditasse na capacidade da editora em desenvolver uma bastante boa (tenho gostado muito das capas da Terracota, de maneira geral), mas temia obviedades. Fui surpreendido. A imagem revela a essência da obra, mas que só poderá ser entendida quando de sua leitura.

O Homem fragmentado está ambientado na São Paulo contemporânea e narra as aventuras fantásticas e surpreendentes de um suicida. Talvez a minha obra mais ambiciosa até aqui. Mas quem poderá dizer isso, claro, é você, leitor.

Leia a sinopse:

O homem fragmentado

Imagine-se arrasado pela culpa. Responsável pela morte de seu filho e pela vagarosa e inexorável dissolução do seu casamento. Imagine-se sem mais nenhuma perspectiva de vida; desmotivado profissionalmente, sem mais sonhos, nem esperanças.

Imagine um revólver em suas mãos. Imagine-se apontando-o para a própria cabeça e… puxando o gatilho.

Imagine um possível “depois disso”:

Seu filho vivo, seu casamento em pé, sua vida, a vida, outra vida, uma vida desconhecida e assustadora.

Imagine-se num mundo que não lhe pertence. Tendo amigos que nunca foram os seus, uma família que nunca foi a sua. Imagine-se consumido por um delírio difícil de refrear.

Imagine-se morrendo consecutivas vezes e vendo surgir novas e sucessivas realidades que violentam a sua ciência de realidade.

O homem fragmentado fala de alguém que vê seu mundo ser desconstruído e assiste, perplexo, a ruína de todas as suas verdades. Ao ponto irreversível da loucura ou da liberdade numa última e epifânica revelação.

***

A data de lançamento ainda está sob segredo de justiça, mas deve acontecer logo. Avisarei a todos assim que souber de alguma coisa.

Vós Sois Máquinas – Lido e comentado

17/01/2013

vos sois maquinas

Fiquei sabendo dessa obra no grupo de discussão do CLFC do Yahoo. Goulart Gomes citou-o como uma obra livre, de distribuição gratuita. Interessei-me de imediato e solicitei uma cópia. O autor, bastante solícito, atendeu ao meu pedido.

Devo salientar que a leitura de Vos sois máquinas me cativou.

Prosa madura, vocabulário amplo e bem empregado, abordagem interessante e desenvolvimento idem. A história se passa em 2245, após um surto de cibersuicídio (narrada em obra – Deixando de Existir – que antecede a essa) que eliminou grande parte dos androides da face da Terra.

Dessa vez, um novo e surpreendente fato voltará a abalar as estruturas mundiais: um contato alienígena a partir de um androide (Andr-El) que servirá de intermediário entra Patxa (líder alienígena) e os humanos.

Goulart Gomes lida bem com as emoções humanas, trabalha bem os personagens e instiga o leitor a se manter na leitura, sempre na expectativa de descobrir o que essa raça alienígena promete para os humanos, que tipo de evolução traz consigo.

A história nos arrasta das metrópoles para a Amazônia, nos brinda com pirâmides, com revelações que antecedem historicamente os fatos narrados, consegue segurar o pique até as últimas páginas.

O autor peca na construção do antagonista. Misterioso, ficamos sem saber mais sobre ele, quem é, o que o move. O vilão é pouco trabalhado, fica nas sombras (talvez tenha sido bem explorado na obra anterior, mas para quem não a leu, fica a impressão de falha). Poderia ter sido mais aproveitado, o que daria à história mais tensão.

De qualquer forma, uma agradabilíssima leitura (embora tenha abusado um pouco de discursos pacifistas politicamente corretos, o que chegou a soar muitas vezes inocente ou ingênuo, e me fez ponderar se os argumentos do vilão não eram mais razoáveis). Uma obra que deveria ter mais divulgação, ser distribuída além das fronteiras de Salvador (onde mora o autor), lida por mais gente. Seria um bom concorrente ao prêmio Argos recentemente promovido pelo CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica).

Que venham mais obras desse autor.

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Vós Sois Máquinas – Goulart Gomes

Editora: Obra publicada com recursos do Governo do Estado da Bahia, Secretaria da Fazenda e Secretaria da Cultura
Gênero: Ficção Científica
Formato: 11 cm x 20 cm
Páginas: 148

Cira e o Velho – Lido e comentado.

26/11/2012

Tenho lido menções do livro Cira e o Velho de Walter Tierno há tempos nas redes sociais. Nem todas elogiosas (embora reconheça que muitas foram feitas por pessoas que aparentemente não gostam/gostavam de Tierno. Assim, impossível encará-las com a devida seriedade).

Giulia Moon acabou por abreviar essa leitura que, cedo ou tarde, acabaria acontecendo. Entrou em contato oferecendo-me seu livro para resenha e propôs que eu lesse também dois outros, um deles o objeto dessa postagem.

Cira — a protagonista — é guerreira e bruxa. Trás nos ombros a caveira de Norato, seu pai, e luta para vingar a morte da mãe, provocada pelo sertanista Domingos Jorge Velho.

É uma história aderente. A prosa de Tierno é madura e ele conseguiu me conduzir pela trama sem tropeços. O desenrolar se inicia perto de 1680, antes da guerra dos Palmares. Tierno mistura fantasia e fatos históricos com competência, derrama sobre o leitor uma cornucópia de entes mágicos folclóricos, cidades fantásticas, lendas exuberantes, lutas ferozes.

Bem definidos no livro estão os dois arcos narrativos que se interligam. No primeiro, o Velho persegue Cira e sua mãe para matá-las. No segundo, Cira o persegue para vingar-se. No intermédio, vários quiproquós exigem da heroína o máximo de sua força e esperteza.

Tierno traz a história bem presa a reboque até os dias atuais, onde a magia inerente ao passado se perde na concretude de uma contemporaneidade cinzenta e melancólica.

Ao longo da história nos deparamos, aqui e ali, com momentos que poderiam ter sido melhor explorados, ou crises cujas soluções abusaram da simplicidade ou da conveniência, mas nada que prejudique a minha visão geral da obra.

Publicado em 2010, Cira e o Velho tem tudo para agradar em cheio qualquer leitor de gênero e, mais especificamente, aqueles que reclamam um uso maior do nosso rico folclore em histórias mais brasileiras. Trata-se de um bom livro de entretenimento. Leitura recomendada.

Capa e revisão competentes.

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Cira e o Velho

Editora: GIZ Editorial
Gênero: Fantasia
Formato: 14 cm x 21 cm
Páginas: 229

De como um desabafo se transformou num pródigo debate, OU como o fandom e o mercado ainda rendem animadas discussões.

03/05/2012

Aborrecido depois de um longo bate-papo com o Ivo Heinz no Facebook, fiz um desabafo a respeito do fandom. Minha opinião a respeito dessa entidade não é nova, mas não consigo me controlar e acabo externando minhas mais profundas emoções a esse respeito de tempos em tempos.

Gente, na boa. FC brasileira não é lida nem pelo fandom. O nicho, que deveria prestigiar a nossa FC, lê os estrangeiros mas não lê o que a gente faz aqui dentro. Esse nicho, esse fandom, é uma merda. Não presta pra porra nenhuma”.

Não pensei que essa reclamação mal educada pudesse resultar na troca de ideias que resultou. Sinal claro de que existe vida inteligente no fandom.

Posto isso aqui porque muita gente que conheço não tem página no Facebook ou frequenta aquele espaço muito raramente. Ah, e também porque o blog andava muito paradinho, o coitado.

Há salvação para a literatura de FC no Brasil?

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Rauda Graco To ligado faz tempo!

Tibor Moricz Tem autor brasileiro competentíssimo contando nos dedos o número de autores que o leram (e não estou falando de mim, que também conto nos dedos esses leitores).

Rauda Graco Eu li seu livro e nem to a fim de entrar nesse fandom tão mal falado. Tento me manter longe. Quando der na ideia publicar os meus materiais também tentarei me descolar dessa amarra sinistra que é o tal gênero que acredito, mais fecha que abre caminho. sei lá, to bebendo uma, desconsidere as besteiras. Hehehhehe

Tibor Moricz Pô, preciso beber uma também… rs

Cirilo S. Lemos Por isso que essa coisa de fandom precisa ser superada.

Tibor Moricz Mas as editoras menores publicam especificamente para ele. Não têm alcance pra fugir do nicho. Aí a coisa fica difícil. Então você não é lido e ainda escuta que seu livro é ruim (porque não vende – essa é a lógica cruel de mercado).

Cirilo S. Lemos A luta é essa. Aumentar o alcance dos livros se enfiando em cada espaço que aparecer, por menor que seja. É difícil, eu sei. :/

Marcelo Jacinto Ribeiro Tibor, Tibor, porque tanto amargor em seu coração ?

Marcelo Jacinto Ribeiro mas que vc tá certo tá, sejamos claros e sinceros…

Tibor Moricz Tive um papo agorinha mesmo com o Ivo Heinz e esse papo me deixou puto.

Horacio Corral Depois de muito lutar fazendo eventos com a Opelf, tanto eu quanto a Janaina, percebemos, de maneira irrefutável, que o problema era a ausência de leitores. As primeiras perguntas da segunda mesa-redonda sobre FC na Livraria Cultura foram nesse sentido e o próprio Gerson Lodi-Ribeiro, concluiu, ao vivo e em cores (também tenho isso gravado em vídeo), que ele, e os outros escritores de FC, escreviam/produziam obras para si mesmo e que eles mesmos se liam, pois ninguém, efetivamente, lia suas obras. As ações da Opelf, prévias à sua extinção, foram focadas na formação de leitores, porque o resto, no geral, era mera vaidade e um brincadeira de alguns egos com o espelho e o que lá era refletido. O meu incluso. Uma vez que tomamos essa direção. A Opelf acabou. É curiosíssimo ver escritores que se autorrotulam de underground, alternativos e/ou independentes e se orgulham disso como se eles fizessem parte de alguma resistência contra um mainstream que sequer existe no Brasil. Não temos nenhum Asimov, nenhum Tolkien. Dito isso, essa atitude, significa na imensa maioria dos casos, que ninguém tem interesse suficiente em sua obra como para investir nela e não que você é bom mas não te reconhecem. Mas a atitude na muda e mina, e complica, ainda mais o trato com editores e editoras. Você tem alguma sugestão de remédio, terapia ou processo revolucionário para mudar isso, Tibor?

Eduardo Jauch Hum… Isso é preocupante… FC & Fantasia São meus gêneros preferidos e tenho trabalhado em um conjunto de histórias de FC ambientadas em um futuro não muito distante. Ou distante, sei lá. Mas então, quer dizer que eu tenho que escrever em Inglês se quiser ser lido??? O.o

Ademir Pascale Faço o possível para divulgar autores nacionais em minhas entrevistas que já somam duzentas (a entrevista de nº duzentos foi com Octavio Aragão http://www.cranik.com/entrevista200.html). Mas senti o mesmo que você está sentindo quando vi você entrevistando e divulgando o trabalho de muitos autores internacionais. É legal saber o que eles pensam, mas perco meu tempo com meus colegas brasileiros, pois estes sim precisam de espaço 😉 Minha estante está lotada de livros e hqs nacionais. Mas tem muitos autores que gostam de colecionar livros estrangeiros apenas para ter um nome diferente e bonito na estante. Não vejo diferença no trabalho do autores nacionais para os internacionais. Alguns são diferentes, como Edgar Allan Poe que não era apenas um escritor, mas sim um gênio. Este sim merece ser reverenciado. Mas tem muitos autores nacionais bons completamente esquecidos, como André Carneiro. Um autor que tem muito para ensinar. Mas se você perguntar para um destes novos leitores quem é André Carneiro, ninguém saberá.

Tibor Moricz Caraca, que preparação longa para esse pergunta, Horacio Corral… Isso é uma entrevista? Vou pensar na sua pergunta e a respondo oportunamente.

Horacio Corral Eu queria dar mais contexto ao que você falou. A pergunta é ‘quase’ retórica. Você sabe disso. Mas é tentando respondê-la que poderemos sair da situação atual para outra diferente, espero eu, melhor.

Ivo Heinz Pois é, num papo virtual hoje com o Tibor Moricz, descobri que estávamos com a mesma ideia (ruim), de que a FCB não está tendo o “sucesso” que alguns julgam ter.

Vamos lá:

1) EU li e comentei o “Guardiã da Memória”, do Gerson Lodi-Ribeiro, e já perguntei uma vez e não tive resposta, quem mais leu??? E não estou falando de um autor iniciante, não, mas de alguém com um nome respeitável na FCB.

2) Tô vendo um monte de coletâneas e mais coletâneas, tô lendo sobre um monte de gente (aqui no Facebook e no Orkut) dizer que está escrevendo e tals…. mas vejo poucos falando do que, necessariamente, estão lendo.

3) Quem é que leu e comentou obras estrangeiras, então??? Quem é que leu “Rei Rato” e “A Separação”?? Será que só eu ????? Porra gente, são APENAS autores como China Miéville e Jeff Vandermeer, precisa falar mais?????

3) Editoras são entes empresariais, digamos assim, precisam de dinheiro pra continuar vivendo, bem como seus editores, que tem suas contas pra pagar… livro que não vende é prejuízo e tempo desperdiçado.

Véi, na boa…. Tio Ivo já viu este filme antes com a Segunda Onda da FCB….. reconheço que vocês que chegaram agora tem (na MINHA opinião) um maior pique e mais talento em potencial, sem contar que são bem mais abertos e iconoclastas (tomem isso como um elogio).

Mas…….. não estou vendo isso se converter em suce$$o de nenhuma editora, saber que tem livro que foi publicado e vendeu menos de 50 exemplares é decepcionante, até edição “de autor” (as famosas encomendadas) chegam a fazer mais do que isso.

E, vou falar DE NOVO: os iPads xing-Ling estão chegando cada vez mais baratos, a pirataria vai cair matando, como já aconteceu com a música e os filmes, estou profissionalmente envolvido com EaD (ensino à distância) num grande grupo educacional, só a ponta do iceberg já é de meter medo…… a revolução será enorme.

Ou seja, em muito pouco tempo livros DE PAPEL serão um luxo para pouquíssimos, como o são os discos de vinil…. vai lá na Galeria do Rock ver quanto custa cada um e depois me diz quantos são vendidos, OK?????

E fico triste, pois queria estar errado, mas ler as opiniões do Tibor e do Horacio Corral me fazem ver que não podemos tapar o sol com a peneira.

O futuro é digital, como fazer o povo quebrar o paradigma existente hoje de que “tá na internet, é grátis” serão outros 500, mas quem conseguir vai ganhar dinheiro…. aos outros vai sobrar só o “escrever por hobby”.

Século XXI, tão belo, tão cheio de potencial, tão vigoroso…. e tão perigoso !!!!!

Gerson Lodi-Ribeiro Às vezes tenho a impressão de que ninguém mais tem tempo de ler, estão todos escrevendo… 🙂

Horacio Corral Eu concordo contigo, Ivo Heinz, embora não tenha tido a mesma sorte que você de presenciar e participar da segunda onda de autores de FC. Eu sinto, e a lógica também indica isso, que teremos um cisma, uma separação, muito em breve, entre as editoras e produtores de conteúdo que não abrem mão de travar os arquivos (vide DRM) e aqueles que vão trabalhar, e encarar, o mercado sem esse tipo de ferramenta. Ao longo prazo, todas as empresas precisam: oferecer melhores serviços, melhores preços e satisfazer seus clientes. Elas irão se adaptar, serão flexíveis, serão inteligentes, assertivas e colaborativas, ou irão morrer. Há imensos mausoléus e túmulos da indústria da música para provar, ou indicar ao menos, a natureza desta transição. Embora pareça algo um tanto alheio, eu vejo casos visíveis entre editoras que todos nos conhecemos.Editoras que não deram valor ao seu público e o encararam com profissionalismo, editoras que não se atualizaram e ainda relutam em fazê-lo. Não falarei daqueles que na minha percepção erram, eles sabem que erram, falarei de quem acerta e de quem lidera, ou tenta fazê-lo. Para mim, a Editora Draco ocupa esse espaço. Um exemplo contextualizado com a mensagem do Ivo é possível aqui. Atualmente atuo como Diretor de Merchandising no Submarino Digital Club, entre as tarefas que desempenho esta a de selecionar títulos para a livraria e outros destaques. A única editora que publica, com seriedade, autores nacionais que posso listar lá é a Draco. Observem que o processo de criar um e-book, não é complexo nem custoso, muito pelo contrário, é mais barato. Sua distribuição pode ser feita por terceiros. Ou seja, a editora ocupa-se com aquilo que efetivamente deveria se ocupar, o que concerne ao: editorial. Tem empresas, e editoras, que precisam mudar de atitude ou vão perder o trem, e lamentavelmente, não vai passar outro tão cedo. Deixo uma dica aos senhores, em setembro, chegam praticamente todas as grandes distribuidoras de e-books do mundo ao Brasil. O “inverno” vai chegar para quem não estiver preparado.

Gabriel Boz Esses comentários me causaram um flashback de 10 anos atrás, em trocas de email na lista do CLFC…era a mesma discussão e de lá pra cá nada mudou, nossa FC não é e dificilmente vai ser mainstream, muitos acham que nem deve ser, outros que deve ser mais brasileira para se aproximar dos leitores ( funcionou???) ou mais gringa, inspirada nos mestres ( aí somos macacos de imitação)…escrever é um ofício solitário, egoísta, mas o Fandom acha que somos todos parte da FCB, de alguma onda, de algum grupo, de algum gênero, e se criticam e se elogiam, e se armam em grupos, amizades e não saem do lugar. Todos os problemas se resolvem respondendo uma simples pergunta: você escreve porque? Eu já me respondi essa pergunta algumas vezes, mas até achar a resposta certa, tenho pensado muito e escrito pouco!

Pablo Grilo Estou mirando no mercado americano da Amazon. Almejo ser algo parecido com Amanda Hoking.

Tibor Moricz ‎Horacio Corral, é muito difícil tentar fazer prognósticos de como o mercado de leitores poderia ser expandindo para abrigar a ficção científica. Acredito que não temos história no gênero, não temos um background que nos ofereça alguma comodidade em explorá-lo com o mínimo de certeza de sucesso (mesmo que relativo).
Posso só palpitar, levantar a bola.

Acredito que para fazer a FC “despertar” aos poucos, ser aceita lentamente na rotina dos leitores menos afeitos a ela (muitos por pura ignorância), seria necessário um processo de gradativa inserção. Começar com obras de FC soft, humanista, com enredos delirantes, ritmos fortes, com suspense, aventura, ação… bastante entretenimento, sem grandes voos literários (querer fazer parte do mainstream é uma bobagem, mas não descarto o processo de aproximação, absorvendo por osmose muito do que a literatura realista tem de melhor).

Obras aparentemente despretensiosas tem o condão de capturar leitores. A descoberta do gênero vai acontecendo devagar; os leitores “se dando conta” de que aquilo que estão lendo é FC. É como acostumar os jovens com Harry Potter primeiro para depois lhes dar Mark Twain.

Também defendo a criação de capas que não escancarem o gênero de imediato, que não exibam foguetes, homenzinhos de marte, planetas, anãs brancas. Se eu defendo uma inserção lenta e gradual, estaria sendo contraditório se apoiasse as capas escandalosamente autoexplicativas.

Um mercado que torce o nariz para o gênero, sequer chegará a pegar nas mãos um livro de capa tão ostensiva.

Claro que é necessária divulgação na mídia, junto a formadores de opinião. Um trabalho lendo, gradual e cuidadoso. O mercado tem potencial para um Best Seller de FC, sem que o leitor desconfie que tem uma FC nas mãos. Tudo um conjunto de ações.

Não sei se eu disse alguma coisa a ver, ou não. Talvez tenha dito um monte de bobagens.

Horacio Corral Eu acho, sincera e honestamente, que você deu uma das melhores respostas sobre isso até o momento,Tibor Moricz. Tanto que vou ‘invocar’ o Roberto De Sousa Causo e pedir a opinião dele. Afinal, eu considero vocês dois grandes observadores, e contribuidores, do que acontece na literatura de gênero brasileira. Ao ler sua resposta, inevitavelmente, lembrei do filme Vanilla Sky, que não chegou aos cinemas com um rótulo de Ficção Científica. Sequer foi mencionado em muitas das resenhas e críticas das diversas mídias. Muita gente mesmo depois de ver o filme não o considerava FC, isso não impediu que eles adorassem o filme de paixão e comentassem com seus amigos e pedissem para eles também vê-lo.

Pablo Grilo Inception por exemplo é FC e ninguém se ligou nisso, pelo contrário, viu um bom filme com elementos de psicologia e outras coisas.

Miguel Ángel Fernández Delgado Hola, Tibor, si te sirve de consuelo, lo mismo sucede en todos los países latinoamericanos

Oscar Mendes Filho O que arrasta a LitFan para o limbo é a panelinha que fica lambendo um o rabo do outro, empurrando lixo para os leitores que, enganados, deixam de lado os autores nacionais diante do trauma que tiveram. Uma vez que perderam seu tempo lendo porcaria irão atrás de autores cuja mídia “endeusa” mais e deixam de lado os escritores nacionais, inclusive os que não fazem parte da panela, mas que são encaixotados dentro do mesmo pacote de porcaria.

Cirilo S. Lemos Também acho que não escancarar rótulos é uma boa.

Miguel Ángel Fernández Delgado Hay que mostrar más interés por nuestros autores, porque si no, vienen los investigadores extranjeros a decirle al mundo que nos descubrieron y, entonces sí, algunos investigadores y lectores nacionales comienzan a leernos. Creo que es un problema de marketing y malinchismo

Horacio Corral A literatura é o que ela é, há obras que não se encaixam nos tipos de narrativas que a academia criou. Vejam o exemplo de O Cheiro do Ralo – Lourenço Mutarelli, é uma obra ‘estranha’. Os rótulos servem ao propósito de catalogar e compreender as obras e, hoje em dia, principalmente, vendê-las. Tem sub-sub-gêneros que literariamente não fazem sentido mas comercialmente são ‘necessários’.

Hugo Vera Tendo em vista os interessantes comentários feitos acima queria muito saber também a opinião dos editores sobre isso… Afinal, talvez mais que os escritores, os editores são os caras mais interessados em ganhar dinheiro com isso. Afinal, se supostamente ninguém lê, eles estão publicando para quem? Quem está comprando os livros? Eles estão se sustentando (e lucrando) com as vendas a ponto de valer a pena continuar com a empreitada? Com a palavra, os editores…

Horacio Corral Por favor, cuentamos, Miguel. En Mexico, ustedes también tienen ese problema de que todos son escritores pero nadie es lector? Otra curiosidad mía es, como son las narrativas? Son más nacionales y regionales como un Selva Brasil de Roberto De Sousa Causo o son obras abiertamente inspiradas en los autores extranjeros como William Gibson y Isaac Asimov? En el Brasil, y por lo que sé, en Argentina también, el primer problema é gravísimo.

Roberto De Sousa Causo O fandom é uma instituição importante, mas a história sugere que no Brasil ele nunca funcionou como um mercado minimamente substancial para a FC nativa. Por ser inerentemente anárquico, tentativas de esterçá-lo na direção de um ou outro interesse especial redundam na formação de feudos que rapidamente degeneram em guerrilha fratricida. O papel do fandom não é esse, mas o de manter e difundir discussões especializadas e de fomentar instituições críticas, editoriais e de formação de autores que não estão disponíveis fora-fandom. A comunidade Ficção Científica no Orkut tem 6.700 membros inscritos — fãs ativos, já que se reuniram mesmo que virtualmente, para discutir o assunto. Se um terço deles comprasse dez livros novos de FC por ano (o que não é nada) não haveria editor da área em dificuldade. Claramente, há um funil aí, no qual a literatura é minoritária, e dentro dela, o autor brasileiro mais ainda.

Roberto De Sousa Causo Em 1940, Jerry K. Westerfield, então editor de “Amazing Stories”, escreveu que, “dos 500 mil leitores da ficção científica, apenas cerca de 5 mil deles são fãs. Mas esses 5 mil fazem todo o barulho e soltam todos os fogos de artifício”. Isso foi lá na era das revistas pulp, mas no Brasil de hoje é mais ou menos essa a equação, mas numa escala menor. Naquela época, esses 5 mil provavelmente compravam todas as revistas (livros de FC ainda eram raros) e todos os fanzines, mas mesmo assim as revistas de tiragem média de 150 mil exemplares só podiam contar com eles como multiplicadores de interesse, não como mercado principal. Mas eles não tinham que enfrentar a concorrência de uma FC mais sofisticada e de maiores credenciais, que é o que toda FC não-anglófona tem de encarar.

Roberto De Sousa Causo A ideia de conquistar um público não previamente interessado em FC é interessante como um princípio e como um conceito geral a que toda a literatura de gênero deveria almejar, sem o velho ranço de que, ao fazê-lo, deixaria de ser de gênero. Mas isso é muito difícil de visualizar — e de realizar — coletivamente. Assim como o velho argumento de que o que falta à FC brasileira é marketing, não mencionando que falta antes dinheiro para encomendar esse marketing. Por isso é bom sempre lembrar que, como na equação de Westerfield, entre o fã de FC e o leitor comum, há ainda o leitor de FC que não é um fã ativo. Se o fandom brasileiro são 500 fãs que fazem todo o barulho e soltam todos os fogos, talvez haja 5 mil ou 50 mil leitores potenciais já interessados no gênero. Eles certamente são mais fáceis de abordar. Mas, novamente, há aquela histórica desconfiança do público em geral quanto à capacidade do escritor brasileiro de escrever literatura de gênero — seja ela FC, fantasia ou ficção de detetive, ficção militar ou outra.

Roberto De Sousa Causo Enfim, a história da FC no Brasil também nos lembra que o gênero teve efervescência e mercado (embora nenhuma respeitabilidade critica) entre 1960 e meados de 1980 — e depois disso foi morto pelos diversos planos econômicos. De lá pra cá a cultura empresarial das editoras assumiu o bordão de que “ficção científica não vende”, ou passou a se focar em outros nichos — autoajuda, ficção urbana pós-modernista, divulgação histórica, e finalmente, a onda que todos surfam agora, a literatura jovem-adulta. Isso quer dizer que a FC como ramo editorial está renascendo hoje, num contexto em que a maioria dos leitores não teve acesso ao estado da arte, no exterior. Eles precisam ser reeducados nos caminhos que o gênero percorreu, e isso, novamente, demanda investimento, tempo e esforço. O fandom, até certo ponto, por promover aqui e ali conceitos como New Weird, New Space Opera, FC feminista, Queer e outros, dá pequenos passos nesse sentido, e muitas vezes indica direções às pequenas editoras associadas a ele. Então ele tem importância, mesmo que não possa garantir um mercado para os autores locais.

Roberto De Sousa Causo Fixar a FC como gênero viável aos autores brasileiros é o grande desafio de todas as gerações, de todas as ondas. Como fazer isso não cabe a nenhum de nós dizer — cada autor percorre o seu caminho. Eu apenas acho que só imitar o estado da arte da FC anglo-americana, sem igualá-lo e adaptá-lo, é insuficiente.

Estevan Lutz Tibor, concordo com sua última postagem. Tanto que foi isso que eu fiz questão de fazer em O Voo de Icarus. E estou atingido públicos que não são fãs de ficção científica e acabaram gostando muito do tema do livro.

Ivo Heinz Pois é, mas e autores como Eduardo Spohr e André Vianco?

Focando em seu público e trabalhando bastante, eles conseguiram visibilidade.
O que eu vejo neles é que estão à parte das picuinhas do fandom, não ficam debatendo os assuntos intermináveis como “Movimento Antropofágico” e foram à luta.

Outro divisor de águas pra mim foi a pesquisa do Nelson de Oliveira (aka Luiz Bras), isso mostrou que muita gente mais nova conhece o que já foi feito, haja visto a influência e votação que o Gerson Lodi-RibeiroOctavio Aragão e Fábio Fernandes tiveram, e foi uma votação “secreta”, a divulgação dos resultados deve ter pego muita gente desprevenida (só Tio Ivo acertou os 3 primeiros, hehehehehe).

Na boa, FC NÃO VENDE AQUI. Olhem os números e tirem as conclusões.
Falta investimento em marketing? muito provavelmente.
Falta maior aceitação pelo mercado? talvez
Falta maior inserção nos círculos acadêmicos? Bem, já tem Rodolfo Londero, A dri Amaral, Fábio Fernandes, Octavio Aragão, etc…. em Universidades de ponta e discutindo seriamente, então acho que esse front já está “em batalha”.

Ou, rememorando uma pergunta que eu fiz num evento do Invisibilidades do Itaú Cultural, uns 7 anos atrás….

SERÁ QUE O TAMANHO DO REAL MERCADO DE FCB É ESSE MESMO QUE ESTAMOS VENDO???????

Ivo Heinz ‎Horacio Corral, quanto ao Cisma, eu acho que nada mais é que muita gente disputando um espaço muito pequeno, para piorar ainda tem a ENORME questão dos egos…..

Horacio Corral Vou ressaltar, ou melhor, parafrasear, um comentário da época. Que o nome do evento do Itaú Cultura fosse INVISIBILIDADES era significativo, provocativo e simbólico demais. Alguns se divertiam fazendo alusões aos escritores e demais participantes, que eram, literalmente, invisíveis para o público geral. Afinal, ninguém sabia que eles existiam. Por quanto tempo isso será uma condição comum, ou se isso irá mudar, é difícil dizer. Mas vale lembrar que mesmo entre os escritores mainstream é difícil ver conhecidos do grande público. A literatura no Brasil ainda é, na mente da população, algo de elite e de privilegiados. Criadores, e autores, como Douglas Mct e JM Trevisan são mais conhecidos do que a maioria dos autores da segunda onda, e da dita terceira também, e não por suas obras literárias, mas por suas contribuições em outras mídias como HQs e games. Eu enxergo como um dos ‘problemas’ a mídia LIVRO, pois no Brasil ela é uma das que mais sofre na comercialização e com a ausência de profissionais e plataformas adequadas. Por exemplo, se todas as obras do Gerson Lodi-Ribeiro ou Roberto De Sousa Causo fossem games, digamos de iPhone/iPad (iOS), estaríamos falando de outras questões como rentabilidade ou qualidade mas, certamente, a falta de público não seria uma das preocupações.

Miguel Ángel Fernández Delgado Hola, Horacio, también hay muchos autores y pocos lectores. El índice de lectura, en general, es bajísimo. Los autores de más prestigio prefieren publicar en otros países, como España, aunque sólo pocos lo logran. La mayoría busca darse a conocer y ganar dinero participando en concursos o dando talleres y conferencias. En cuanto a los temas, hasta la década de 1960 comenzaron a publicarse propuestas de cuestiones claramente mexicanas, porque antes trataban de imitar más a los autores extranjeros, aunque siempre han buscado incluir ingredientes mexicanos. Por ejemplo, hay una novela de fines de 1950 (Palamás, Echevete y yo, o el lago asfaltado de Diego Cañedo) que está dedicada a H. G. Wells, y trata sobre unos viajeros en el tiempo que se desplazan al pasado para conocer en vivo los sacrificios humanos que hacían los aztecas

Pablo Grilo É estranho que todo mundo aqui saiba o que o “povo brasileiro” pensa da literatura especulativa nacional ou o querem consumir de livros. Eu vejo que essa entidade “povo” é tão volátil e praticamente impossível de se rotular ou de saber o que todos querem, já que são formados por pessoas totalmente diferentes entre si e que vieram de classes sociais distintas. Quer propor uma FC diferente através de uma experiência pessoal? Escreva algo assim pra um nicho específico. Só não recrimine quem pensa diferente e escreva literatura especulativa de forma mais comercial.

Cirilo S. Lemos Só há duas opções: desistir ou persistir.

Tibor Moricz Persistir sempre. Mesmo que sem nenhuma (ou quase nenhuma) esperança.

***

Se quiserem acompanhar a discussão na origem, sigam esse link:
https://www.facebook.com/tibor.moricz/posts/10150785785527295

Leiam, analisem, discutam entre si, opinem.

Merchandising literário seria uma solução contra a pirataria?

22/12/2011

Muito se tem falado (e muito se vai falar) sobre e-books. É comum escutar que eles são nosso futuro, que os livros de papel estão com os dias contados, que a virtualidade fagocitará os livros tradicionais ao ponto de fazê-los desaparecer e só serem encontrados futuramente nas bibliotecas e museus.

Não duvido de metade dessas previsões que, mesmo assim, me parecem catastróficas demais.

Publicar na Amazon ou em outros veículos de venda virtual será inevitável para todos nós, escritores (muitos já o fazem).

Há que se evitar? Por que se manter a margem da evolução?

Mas converter nossos livros para o formato e-book trás alguns perigos inerentes. Perigos tão assustadores que freiam a ânsia inicial de trabalhar com esse formato. Li, ontem (The Guardian), uma matéria sobre a premiada escritora espanhola Lucía Etxebarria (matéria aqui) onde ela anuncia sua aposentadoria como escritora. Reclama que tem mais livros baixados ilegalmente que vendidos.

Afinal, é MUITO fácil adquirir uma obra em e-book, quebrar seu sistema DRM (Digital Rights Management) e espalhá-lo pela rede (a biografia de Steve Jobs foi pirateada poucos minutos depois de lançada pela Cia. das Letras, segundo fonte segura).

Então, qual a solução? Encarar os e-books, correndo todos os riscos, ou se manter fiel ao papel até que criem leis e sistemas mais eficientes de proteção aos direitos do autor?

Vou arriscar, num arroubo de criatividade, uma solução alternativa bem polêmica:

Escrever e disponibilizar nossos livros gratuitamente na internet, mas bancados por empresas particulares que seriam inseridos em nossas histórias num esquema de merchandising (o que acabaria completamente com a pirataria). Uma história onde o carro do mocinho é um Corsa Hatch, o celular é um LG Twink, a camiseta é C&A e o sabonete é Francis.

Os direitos autorais seriam pagos pelas empresas patrocinadoras de acordo com o retorno institucional (medido pela quantidade de downloads).

Mas, claro, isso é pura abstração.

Prevejo grandes obstáculos até conseguirmos ter um sistema de venda de e-books minimamente seguro. E vastas discussões sobre a matéria, sem soluções razoáveis.

Você pensa o quê a esse respeito?

A corrente – lido e comentado

01/07/2011

Logo quando o livro foi lançado me senti atraído por ele. A capa que é muito boa e a premissa me fisgaram imediatamente. Mesmo assim me demorei em comprar o livro, deixando para fazê-lo há poucas semanas.

A história fala sobre um espírito mau, um hacker malandro e uma corrente aparentemente inofensiva — embora ameaçadora — que acaba por provocar a morte de várias pessoas. Uma ideia bastante boa que transcorre em Vitória, no Espírito Santo. Impossível não se deixar levar pela expectativa que uma história dessas gera. São muitas as possibilidades em construir cenários assustadores.

Incomodou-me, porém, a quantidade exagerada de problemas no texto e falhas de revisão, que um copidesque realmente eficaz teria corrigido. A prosa frágil de Estevão Ribeiro também atrapalha, criando, muitas vezes, momentos confusos que exigem releitura de certos trechos para “se achar” dentro da trama.

O livro tem alguns bons momentos mas, em geral, não consegue provocar medo nem sustos. Além de algumas cenas inverossímeis, incomoda também a personalidade fraca do protagonista — Roberto — que passa boa parte do tempo fugindo, chorando, apavorado. A completa inação desse personagem, que passa parte da história sem ir em busca das respostas para o que acontece, enerva. Fiquei querendo que ele morresse logo.

Mas preciso admitir que existe algo de magnético em toda a história, já que me mantive preso na leitura por um dia todo, abandonando o livro apenas quando o conclui. As falhas serviram para me prender, assim como os acertos.

Uma pergunta: porque a palavra internet está em itálico no livro todo? Trata-se de palavra dicionarizada e incorporada ao nosso léxico.

Embora incomodado por vários problemas, a expectativa de cada morte e a forma terrível com que elas aconteciam (às vezes dramáticas em exagero) conseguiu agregar elementos aderentes à leitura. Essa cola distribuída ao longo da narrativa a mantém focada, aprisionando a atenção do leitor.

MEDIO

A Corrente 

Autor: Estevão Ribeiro
Gênero: Terror
Páginas: 183
Editora: Draco

Assembleia Estelar, lido e comentado.

13/06/2011

A coletânea Assembleia Estelar, organizada por Marcello Branco e publicada pela Editora Devir conta com 14 noveletas/contos, tem 408 páginas e seu tema está voltado à política e a tudo aquilo que a constitui e a complementa.

Comecei a leitura com grandes expectativas imaginando que o tema proposto exigiria trabalhos muito bem elaborados e necessariamente (não obrigatoriamente) hipnóticos. Não foi exatamente o que encontrei. Surpreendeu-me, sobretudo, encontrar trabalhos com pouquíssimas páginas quando uma das exigências era a de que as narrativas deveriam obedecer ao formato noveleta.

Ou faltaram trabalhos melhores e mais complexos, ou uma flexibilidade de última hora do organizador atingiu níveis estratosféricos.

Assembleia Estelar recebe um BOM pelo conjunto, embora não seja exatamente uma coletânea memorável.

A capa old-fashioned (autor: Vagner Vargas) repete o padrão apresentado por outros livros da Devir. Eu, particularmente, não gosto delas, embora reconheça a qualidade dos traços artísticos do capista. Já estava na hora da Devir se lembrar de que estamos no século XXI. Os anos 1960 ficaram para trás.

As escolhas recaíram sobre autores nacionais e estrangeiros, trazendo-nos trabalhos de Bruce Sterling, Ursula K. Le Guin e Orson Scott Card, além de Fernando Bonassi, André Carneiro, Ataíde Tartari, Henrique Flory, Daniel Fresnot, Luis Filipe Silva, Flávio Medeiros, Carlos Orsi, Miguel Carqueija, Roberto de Sousa Causo e Roberval Barcellos.

Vamos aos comentários.

• A queda de Roma antes da telenovela
Luis Filipe Silva

O que seria se cada votação de projeto de lei fosse transformada em espetáculo, transmitido em rede nacional de TV? Luis Filipe Silva fala de um futuro hipotético onde políticos perfeitamente integrados ao modus operandi da época lidam com um parlamentar cujas técnicas ainda obedecem às velhas fórmulas do século XX, nas quais os debates ainda se sobrepujam a mera análise estatística dos números. Não se trata de uma noveleta com ação e momentos de tirar o fôlego, trata-se de uma abordagem reflexiva que caminha paripasso para um final coerente. Se não arrebata, também não aborrece. MÉDIO

•Anauê
Roberval Barcellos

Trata-se de uma história alternativa onde, em 1980, o Brasil é governado por integralistas e tem a Alemanha nazista como aliada. Esperam por Hudolf Hess, que visitará o país. O autor traz à tona toda a sensação de indignidade e revolta que a política de extermínio de judeus provocou, explorando esse cenário em pleno território brasileiro. O conto começa bem, porém, na medida em que avança, vai descendo a ladeira. Há momentos inverossímeis, pouca habilidade nas cenas de ação (que são ingênuas) e um final apressado (e piegas) que foi decepcionante. RUIM

• Gabinete blindado
André Carneiro

Sabotadores se preparam para a ação enquanto uma das integrantes mergulha em reminiscências e reflexões. Poderia ser uma história bastante interessante se houvesse uma preocupação maior com a trama do que com a literariedade. Eu vivo reclamando a pouca preocupação do escritor brasileiro com a forma, mas também condeno os exageros. Nesse caso, André Carneiro chutou pra escanteio o enredo, apresentando-o de forma fragmentada, e valorizou excessivamente a qualidade técnica. Tratou-se de uma leitura arrastada e aborrecida. RUIM

•Trunfo de Campanha
Roberto de Sousa Causo

Essa noveleta fala de estratégias políticas que pretendem conferir a um único homem poder absoluto sobre o universo conhecido. Parece-se muito com um excerto, um trecho extraído de uma obra maior e mais completa — e isso a enfraquece. A preocupação em detalhar o cenário político desse universo força a narrativa a uma leitura cansativa. Não há pontos de tensão, não há ação (e quando há, não convence). Monocórdia da primeira à última linha parece ter sido escolhida para esse livro em virtude apenas do aprofundamento político que lhe é dada. O organizador ignorou qualquer necessidade de tensão. Final previsível e ingênuo. RUIM

• Diário do cerco de Nova Iorque
Daniel Fresnot

Escritor francês em visita à America do Norte assiste convulsão social onde Nova Iorque mergulha numa batalha contra o resto do país. Narrativa hipnótica, muito bem conduzida, ritmo excelente. O leitor se vê arrastado em meio à trama, ansioso pelo final. Destaque especialíssimo a Jack, o periquito. MUITO BOM

• Saara Gardens
Ataíde Tartari

Esse é o trabalho mais curto do livro. Narra tramas políticas que visam permitir a exploração do deserto do Saara num empreendimento imobiliário. Conhecido por seu estilo despojado, Ataíde Tartari explora alusões a empreiteiras e personalidades contemporâneas. O conto peca especialmente por ser muito curto. Não há desenvolvimento, não há aprofundamento, não há envolvimento. O subterrâneo e os bastidores políticos poderiam ter sido melhor explorados. Quando achamos que o conto está começando, ele termina. Sua absoluta despretensão também o enfraquece. RUIM

• Era de aquário
Miguel Carqueija

Embora seja também curto, esse conto tem um desenvolvimento mais equilibrado. Um senador se prepara para uma importante conferência numa universidade em meio a um cenário distópico e caótico, onde assassinatos e convulsões sociais são regra e não exceção. Boa condução e bom ritmo. Agradável leitura. BOM

• A evolução dos homens sem pernas
Fernando Bonassi

A história discorre com ironia e se revela uma metáfora para a ciranda evolutiva do Homem, que constrói o ambiente de acordo com as suas necessidades, até que suas necessidades sejam o ambiente que o cerca. Atraente sem ser apaixonante, o conto se descobre profético. BOM

•A pedra que canta
Henrique Flory

Uma criança doente se revela potencialmente perigosa quando tem implantado cirurgicamente um dispositivo que a permite enxergar pontos de tensão em estruturas. Será importantíssimo em uma missão de sabotagem que pretende destruir Buenos Aires. Trata-se de uma história bastante interessante, bem contada e com bom ritmo. BOM

• O dia antes da revolução
Ursula K. Le Guin

Noveleta em ritmo de reminiscências, onde a protagonista revive o passado às vésperas de uma revolução. Também como excerto, o trabalho acaba sendo linear demais, não oferecendo os pontos de tensão tão necessários para aprisionar a atenção durante a leitura. Muito bem escrito, porém. Mas basta isso? A mim, não. MÉDIO

•O grande rio
Flávio Medeiros Jr.

Trata-se, sem dúvida, do melhor trabalho dessa coletânea. O assassinato de John Kennedy é planejado muitos anos depois de sua eleição, num mundo mergulhado na guerra. Viagem no tempo, paradoxos e muita criatividade. ÓTIMO.

•O originista
Orson Scott Card

O estudo da origem e complexidade da linguagem na formação histórica do ser humano trabalhado com maestria por Card. A história está baseada na trilogia da Fundação de Asimov e os protagonistas trabalham nos subterrâneos pela formação da Segunda Fundação. Talvez uma das narrativas mais longas, mas nem por isso aborrecida. Card conduz muito bem a história conseguindo prender a atenção do leitor com rara habilidade. Por vezes me flagrei protelando a leitura com medo que ela se acabasse. MUITO BOM

• Questão de sobrevivência
Carlos Orsi

São Paulo, ano de 2030. O caos social implode a cidade, doenças misteriosas assolam a população menos favorecida, governantes não têm pruridos em dizimar massas humanas em nome da ordem. Nesse cenário extremamente caótico um grupo de resistentes toma de assalto um veículo de transporte de leite materno. Dramático e pungente. Carlos Orsi consegue com habilidade narrar uma história assustadora. BOM

•Vemos as coisas de modo diferente
Bruce Sterling

Jornalista muçulmano visita os EUA para entrevistar um político líder de uma banda de rock. Com boa condução essa história bastante interessante nos traz um mundo sociopoliticamente transformado, num tempo em  que os EUA não são mais a polícia do mundo e as terras do Islã se uniram num único Califado. Profético, talvez? BOM

Cartas do fim do mundo. Lido e comentado.

30/07/2010

A coletânea Cartas do fim do mundo, organizada por Nelson de Oliveira e Claudio Brites e publicada pela Terracota Editora parte de uma premissa que considero excelente. Imagine que o mundo vai acabar no dia 31 de julho de 2013 (bem no dia do meu aniversário) e você decide escrever uma carta para alguém, seja familiar, amigo, conhecido, desconhecido ou para ninguém, apenas um relato solitário e histórico dos momentos angustiantes que precedem o fim.

Celeiro de ideias incríveis, o mote nos suscita argumentos variados.

Até preferia que autores reconhecidamente realistas mantivessem o foco no gênero em que se estabeleceram e consagraram. Não sei se a sugestão de adentrarem no terreno da FC foi objetiva ou subjetiva. Se houve uma sugestão direta ou se isso ficou no ar, meio que uma proposição vaga e não obrigatória.

O que aconteceu foi que autores chapinharam no inverossímil ao tentar acrescentar uma especulação científica qualquer às narrativas que, sem elas, evoluiriam muito bem. De qualquer maneira, os textos são bons. Aconselho aos leitores de gênero que ignorem sugestões de naves mães conduzindo um êxodo de humanos para planetas distantes em pleno ano 2013. Ou essas sugestões se ancoram numa realidade alternativa muito mal sugerida, ou são arroubo fantasioso, talvez motivado pela angústia provocada pelo fim do mundo iminente.

Há, claro, narrativas de FC genuína. E essas, escritas por quem entende do assunto, graças aos deuses.

Segue abaixo um por um dos contos, alguns com meus comentários:

1- Raimundo Carrero – Entre fogo e gelo – 31 de julho de 2013

Um desolado relato do que restou do mundo, entremeado das reminiscências do protagonista. Texto condoído que revela muito da insensibilidade humana diante do inevitável.

2- Marcio Souza – Ipanoré Cachoeira – 31 de julho de 2013

Lenda indígena explica o fim do mundo.

3- Braulio Tavares – Campina Grande – Agosto 2014

Presente e futuro (ou passado e futuro) ligados por um comunicador quântico. Fim do mundo anunciado, improrrogável e inevitável.

4- Moacyr Scliar – Porto Alegre – 10 de agosto de 2013

Conto que relata o fim do mundo para um e não para todos. Homem que crê em novo dilúvio universal refugia-se em local que acredita seguro. Mas o fim sempre nos encontra onde quer que nos escondamos.

5- Marcelino Freire – Sertânia – 31 di Julio di 2013

Homem do sertão narra o fim do próprio mundo onde o mundo acaba todos os dias. Marcelino insere uma viagem à lua perfeitamente dispensável. A realidade concreta de um homem habituado à luta diária pela sobrevivência  sequer cogita viagens espaciais.

6- Xico Sá – São Paulo – 31 de julho de 2013

Crônica cotidiana, reclamações e constatações. Fim do mundo aguardado com festividade e desdém num botequim.

7- Menalton Braff – Terra, 30 de junho de 2013

Distopia revela um planeta completamente esgotado. Humanidade regride às suas condições mais primitivas. Especulação inverossímil. Muito pouco tempo para que tal magnitude de degradação nos atingisse.

8- Luis Dill – Londres – 31 de julho de 2013

Droga psicotrópica nova demonstra poder muito acima das expectativas. Viagem no tempo e o fim do mundo explicado de maneira muito convincente.

9- Marne Lucio Guedes – Mundo – 31 de julho de 2013

Conto intenso. Homem liberto da fé a que se entregou avidamente ao tomar conhecimento do fim do mundo mergulha no vício e na degradação. Texto forte e muito bem trabalhado.

10 – Moacyr Godoy Moreira – São Paulo – 31 de julho de 2013

Criminoso em penitenciária se penitencia ao irmão pio. Alusão a êxodo humano em busca de novos planetas põe o conto em xeque. Inverossímil, embora pungente.

11 – Brontops Baruq – Metrópolis – 30 de julho de 2013

Já publicado num dos Portais. Conto cru, pragmático e pungente. Lamento ter sido alterado. Provavelmente uma exigência editorial que não esconde a sombra pútrida da censura, mesmo que razões internas tentem justificar.

12- Claudio Brites – Cidade desconhecida – 3 de agosto de 2013

Conto narrando um final de mundo que me faz lembrar vagamente de Blecaute de Marcelo Rubens Paiva e Escuridão de André Carneiro. Junte alguns gigantes e voilá! Uma narrativa enlouquecida do último homem (zumbi?) sobre a terra.

13 – Luiz Bras – São Paulo – 31 de julho de 2013

Homem do futuro envia carta a homem do passado. Pequeno detalhe: trata-se do mesmo homem. Fim do mundo prenuncia revolta de cupins, baratas e (trecho ilegível). Construa uma (trecho ilegível) ou morra dolorosamente.

14 – Fausto Fawcett – 31 de julho de 2013

Firma promotora de apocalipses mata o leitor desavisado com verborragia intensa e coordenada e deixa o senhor Armageddon em maus lençóis. Os pólos magnéticos continuam numa boa, os ventos solares também, mas acho que precisarei passar uma temporada numa câmara hiperbárica.

Guerra Justa e o cyberpunk na literatura brasileira.

02/06/2010

Sábado que vem (05/06) será realizado o lançamento do livro Guerra Justa do Carlos Orsi e haverá um bate papo mediado pelo Erick Santos – editor da editora Draco -, onde Fábio Fernandes e o autor falarão sobre literatura cyberpunk. É um evento imperdível para quem estiver em São Paulo.

Eu irei.

Como estou de convalescença, estou meio que proibido pelo médico de ir para casa, que é em Praia Grande. Lá, numa necessidade, o acesso a hospitais ou médicos, é extremamente dificultoso (tá bom, aquela região é, nesse sentido, um cenário pós-apocalíptico. Sem hospitais, sem médicos, sem salvação).

Ir ao lançamento de Guerra Justa vai ser ótimo. Respirar ares literários, conversar com pessoas inteligentes, rever amigos.

Espero você, lá. Não vá me decepcionar!

Dica Importante: se ainda não comprou Anno Dracula de Kim Newman, aproveite a promoção da Martins Fontes Paulista. 30% de desconto. O livro que é normalmente vendido por R$50,00, sai por R$35,00.

De Bar em Bar entrevista Jorge Luis Calife.

25/03/2010

Caminhei pelo corredor tomando o maior cuidado em não tropeçar em velhas quinquilharias largadas pelo caminho. Tomava especial cuidado com alguns alienígenas caídos no chão. Pernas e braços estendidos. Alguns com a garganta cortada. Outros plenamente bêbados, ainda balbuciantes, contorcidos e entrelaçados em várias pernas e braços, alguns indistinguíveis dos outros.

As paredes circundantes eram circulares e deviam possuir cerca de quatro metros de diâmetro. Abriam-se, aqui e ali, corredores que levavam a lugares desconhecidos e cuja extensão era difícil calcular devido à obscuridade em que mergulhavam após poucos metros.

Alguns olhares inamistosos me acompanhavam, vindos de seres ainda não completamente entorpecidos. Havia vários deles, de todas as espécies, de todas as raças e conformações físicas.

Depois de uma dezena de metros me desviando de obstáculos me deparei com uma porta estanque. Fechada hermeticamente. Analisei-a tentando adivinhar como a faria se abrir, quando, num átimo, ela zuniu e se desgarrou da parede metálica, deslizando ruidosamente até ficar completamente aberta. Do outro lado, dois aliens com cerca de dois metros de altura amparavam-se, trôpegos, tentando sair.

Dei-lhes passagem.

Adiantei-me e a porta se fechou noutro zumbido metálico, cravando-se na parede de tal forma que me parecia estar escavando-a pouco a pouco. Estava uma balbúrdia. Mesas de plexiglas, balcão circular de onde alguns garçons deslizavam carregando garrafas multicores. Aliens trotavam indo e vindo, alguns altercavam, outros trocavam insultos, um ostentava abertamente uma espada longa, de lâmina estreita e aparentemente afiadíssima. Agitava-a nervosamente, pronto a decepar membros de quem ousasse enfrentá-lo.

Chamou-me atenção a extremidade oposta daquele amplo salão. Não havia paredes, mas uma abertura larga de onde se podia ver a imensidão do espaço. Sentado com um copo diante de si, completamente alheio a qualquer distúrbio, estava Jorge Luis Calife. Mergulhado no ato de contemplação. Aproximei-me driblando alguns contendores e me sentei diante dele, igualmente fascinado pela paisagem.

Além de uma miríade de sóis distantes, um mais próximo deixava uma cauda atrás de si como se fosse um cometa. Próximo dele um buraco negro o sugava com todas as forças, drenando sua energia com voracidade.

— Não é incrível? – balbuciou Calife, sem tirar os olhos da cena.

— Sim – respondi.

—Gostei. Amei. Lugar melhor não poderia existir para essa entrevista – disse, virando-se para mim e bebendo um pouco do que tinha no copo.

— Onde estamos? – perguntei.

— Numa velha estação orbital. Quando atingiu seu tempo de vida útil, consideraram-na como sucata e a atiraram ao espaço. Ficou vagando sem rumo até ser encontrada por piratas espaciais. Tomaram-na e fizeram alguns reparos necessários. Acabou transformada num grande depósito de carga roubada e contrabando. Ah, e fizeram esse bar. Um bom bar. Frequência estranha, mas com uma vista maravilhosa.

— tempo de vida ainda mais curto, presumo – eu disse apontando com o queixo para o buraco negro adiante.

— Ela gravita o buraco, bastante próxima do horizonte de eventos. É um lugar difícil de abordar e nem todos tem coragem para isso. Dessa forma, trata-se de um reduto pirata quase inexpugnável. Mas um dia… Mergulhará. E com quem estiver por aqui.

Um garçom solícito deixou na mesa um copo. Não havia pedido nada, nem pretendia tomar nada. Mas um olhar de Calife me bastou para entender que deveria aceitar sem questionamentos.

— Cerveja nictiana. Um composto de ingredientes que você certamente não vai querer conhecer. Mas tem um sabor muito agradável e teor alcoólico de 60%.

Observei o líquido borbulhante e a cor levemente acanelada. Experimentei um pequeno gole e senti, além do álcool que me fez arder as papilas, um suave sabor de framboesa. Meus olhos avermelharam quase instantaneamente, coisa que fez Calife soltar um sorriso divertido.

— É esse o famoso relógio quântico? – ele me perguntou, olhando para o mecanismo em meu braço.

— Ele mesmo – respondi, levando instintivamente a mão até ele.

— trouxe-nos para um cenário que conheço como a palma das minhas mãos.

— melhor assim – respondi –, nos dá a impressão de que alguém está no controle da situação.

— Quais as perguntas? Essa cerveja tem o excepcional dom de tornar bêbado o mais resistente. Se demorarmos muito, logo não teremos condição nem de nos levantarmos.

— Seu trabalho é elogiado, mas existem críticos – não poucos – que o acusam de se acomodar nas eternas aventuras de suas heroínas, quando poderia diversificar suas abordagens e temas. O que você pensa a respeito?

Mais um gole, mais uma olhada longa para o espetáculo oferecido pelo buraco negro e Calife suspirou.

— Olha, o único livro que eu queria escrever se chama “Ângela entre dois mundos” que ainda não foi publicado. Os outros surgiram como consequência desse, para cumprir contratos com editoras. Quanto a explorar outros temas, já fiz isso num monte de contos, que estão saindo nessa coleção “Os melhores da FC” organizada pelo Causo. Quem quiser é só conferir lá.

Gritos irromperam atrás de nós. Alguém sacou uma arma, houve ameaças e apenas um disparo. Um corpo caiu pesadamente no chão. O autor do tiro foi até ele e o chutou um par de vezes. Depois voltou a se sentar. Guardou a arma displicentemente num coldre puído e silenciou, mergulhado numa bebida qualquer que não a cerveja nictiana.

— Como está sendo a recepção da Trilogia Padrões de Contato no mercado? Qual a perspectiva de lançamento de Ângela? – perguntei quando a voz me voltou.

— Eu fui contra a republicação de Padrões de Contato. O público para esse tipo de livro é tão pequeno que eu preferia investir tudo no livro inédito. Mas o Causo, que organiza as edições pela Devir, insistiu que tinha que republicar Padrões, que o livro inédito só depois dele. Resultado: já vai fazer um ano que saiu o livro e até agora me rendeu um salário mínimo de direito autoral. Pra ter esse resultado pífio eu preferia ter feito só o Ângela entre dois mundos. Agora vamos ver, se o Ângela sair esse ano terá valido a pena. As coisas seriam muito melhores se os editores ouvissem a opinião dos autores.

— Calife é mais conhecido por ter sido o inspirador de Arthur Clarke, ou pela sua produção literária? Como a relação com Clarke o ajudou como escritor?

Bem que ele tentou responder, mas um sujeito embriagado se sentou na mesma mesa em que estávamos. Olhou-nos com desprezo e soltou a língua, fazendo-a vibrar entre os lábios. Depois apontou o dedo para mim e fez sinal para que me erguesse. Não entendi nada. O Calife, na maior sem cerimônia, levantou-se e aplicou vigoroso sopapo no cara. Ele rodou na cadeira em que estava e tombou inerme. O evento provocou meio segundo de silêncio no bar e depois o vozerio voltou ao normal.

— Um cotleriano. São brigões por natureza – disse-me o Calife.

— O que ele queria comigo? – perguntei, preocupado.

— Com você, nada. O desafio era para mim. Ele só queria que você caísse fora. Olha, Tibor, as coisas aqui são resolvidas na porrada ou coisa pior, como deve ter notado. Então, se alguém se aproximar de você e você sentir que existem segundas intenções, parta para o ataque sem titubear. Leva a melhor quem for mais rápido.

— Vou tentar me lembrar disso – murmurei.

— Acho que ainda sou o cara que inspirou o Clarke a escrever 2010. Independente da amizade, eu acho que aprendi a escrever FC lendo os livros do Clarke. Acabei entendendo mais do universo dele do que ele mesmo. Quando saiu 2010 eu percebi que ele tinha cometido um erro na descrição da nave Discovery. Eu conheço aquela nave como a palma da minha mão. Falei com ele e o Clarke mandou uma mensagem urgente para o Peter Hyams, que tava fazendo o filme em Hollywood, dizendo que o Calife tinha achado um erro na cena da abordagem da nave. O Hyams corrigiu no filme. Essa correspondência dele com o diretor, me citando, saiu no livro The Odyssey File da Ballantine Books. Uma coisa eu garanto, se eu estivesse lá o Bowman tinha desarmado o anel cognitivo que tornou o Hal psicótico com meia dúzia de palavras. E o Frank não teria morrido.

Por alguns instantes fizemos silêncio. Não que nosso silêncio fosse fazer alguma diferença na balbúrdia do salão. Olhamos para fora, através do que parecia ser vidro, mas não era. O Calife pareceu captar minha curiosidade e aproximou o dedo do vão, fazendo surgir várias ondas concêntricas que iam se alargando levemente até desaparecer.

— Energia pura. Trata-se de um escudo energético. Parece melífluo, capaz de ser vencido com um pouco mais de força. Mas nem um disparo de uma arma de pulsos quânticos seria capaz de abrir um buraco nessa armadura. Por outro lado, se desfaz com uma rapidez impressionante assim que a moldura metálica que a contorna é destruída. Paradoxal, não é mesmo? Para quê um escudo de energia tão poderoso se a estrutura metálica dessa estação é tão frágil quando uma casca de ovo?

— Para quê manter um centro logístico como esse, armazenando muamba e butins, se o fim está tão próximo? – perguntei, reforçando o questionamento do Calife e me referindo, obviamente, ao buraco negro.

— Questões… Questões…

— Como você enxerga o mercado literário nacional atualmente. Como encara o fandom?

— As pessoas ficam falando que a FC brasileira é invisível; na verdade toda a literatura brasileira é invisível. As pessoas só leem livro de religião e autoajuda. Até os livros de FC estrangeiros só são publicados se virarem filmes. Eu traduzi o Eu Robô do Asimov para a Ediouro, a toque de caixa, porque fizeram um filme que só usava o título do livro do Asimov. A cultura brasileira atual é audiovisual. Se não virar filme ou game, o livro é ignorado. O fandom é que mantém a FC viva no Brasil. Se não fossem os fanzines, as convenções e reuniões, tudo seria esquecido. Eles prestam um trabalho inestimável.

— Voltando à primeira pergunta, Calife, nessas duas coletâneas recentes – os melhores contos brasileiros da ficção científica –, seus trabalhos são atuais? Porque as críticas que fazem a você não são quanto a sua produção anterior, mas quanto a atual. Dizem que você só escreve histórias com Ângela Duncan e outras beldades e desistiu de se aventurar por outras veredas, trazendo narrativas novas e surpreendentes aos leitores. Reclamam da sua passividade em se estabelecer num argumento só e não experimentar outras vertentes.

O Calife franziu o cenho. Apertou os olhos, olhando para mim com irritação. Pegou o copo ainda meio cheio, bebeu o restante da cerveja nictiana num gole só, se levantou sem tirar os olhos de mim e, num gesto rápido e inesperado, atirou o copo sobre a minha cabeça. Ela se estilhaçou na cara do sujeito armado que vinha assomando sobre mim, numa tentativa de ataque prontamente rechaçada.

Então o tempo fechou. O céu desabou, as paredes se estreitaram, os ânimos se exaltaram e tudo aconteceu numa sucessão tão rápida que mal posso descrever o que aconteceu.

Fui agarrado pelos ombros e jogado alguns metros distante. Caí sobre uma mesa que, embora firmemente atarraxada ao solo, quebrou uma das pernas e pendeu, me deixando tombar no chão sujo e gorduroso. Aliens pegajosos se atracaram em luta furiosa. Levantei-me sob uma saraivada de golpes, todos desferidos contra mim e contra todos que estivessem mais próximos. Vi o Calife girar um baixinho de duas cabeças sobre os ombros e arremessá-lo contra um grandão de uma cabeça só, mas com quatro braços tão grossos que pareciam troncos de uma sequoia. Peguei uma garrafa azul piscina e a brandi agitado de um lado ao outro. Ela arrebentou nas fuças de um dos garçons que tentava recolhê-la, como se fosse peça sagrada e preciosa. Fui atingido nas costas, na nuca e nos quadris. Chutes ou socos, não dava para ter certeza. Desferi um cruzado e quase quebrei a mão numa couraça óssea que fazia as vezes de cabeça num sujeitinho escroto que blasfemava e ria ao mesmo tempo em que socava sistematicamente o peito de outro cotleriano.

A briga teria durado muito mais se não fosse a súbita aparição de uma mulher lindíssima, com um corpo escultural. Golpes precisos de uma artista nata em artes marciais e logo estavam todos por terra, estatelados. Menos eu e o Calife que ostentávamos algumas equimoses, roupas rotas e expressões apalermadas.

A mulher se aproximou de mim e passou a mão delicadamente pelo meu rosto.

— É um homem interessante. Mas não é a você que estamos em busca, agora. Quem sabe em outra ocasião.

— Ângela – balbuciou Calife, tentando se aprumar.

— Querido – respondeu ela, apertando-o num abraço mais que afetuoso – saiamos daqui. Vamos lançar essa carcaça no buraco negro e é melhor estar longe.

O Calife se virou para mim. Uma expressão vívida de satisfação e orgulho.

— Não preciso do seu relógio para me mandar. Ângela Duncan vai cuidar de mim de agora em diante.

Vi-os saindo. Um pouco antes da porta se fechar, ele se virou para mim e deu a última resposta.

— Os dois contos que saíram em Os melhores contos brasileiros da ficção científica são, um da década de 1980 e outro da de 1990. Já o da antologia Gastronomia Fantástica foi escrito há três anos e o da Imaginários escrevi em 2008. Eu tenho a série de noveletas Os filhos de Medeia sobre a colonização de um planeta por bebês de proveta criados por robôs, que continua inédita assim como outras histórias. Tenho uma história sobre um ataque terrorista num Brasil do futuro que o Marcello Branco rejeitou para uma coletânea atual da Editora Devir. Pediu para que fosse melhorada. Um dia, quem sabe. Portanto, não me encham o saco com esse tipo de cobrança. Eu escrevo o que eu imagino; quem não gostar que leia o Causo, você, o Gerson, o Braulio. Há tantos autores disponíveis, porque eu tenho que escrever pra todos os gostos? Se ainda ganhasse bem pra isso, oras!

Então, depois do desabafo, voltou a sorrir. Ângela Duncan o abraçou pela cintura, carregando-o consigo. Ainda pude ouvi-la prometer que “trataria” bem dele.

Só, tendo um cenário de destruição ao meu redor e imaginando que em breve a estação orbital estaria mergulhando definitivamente dentro do buraco negro, apertei o botão de meu relógio quântico. Fui curar minhas feridas em casa.

Colabore com a literatura fantástica nacional. Compre Padrões de contato.


Pedro Moreno

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A vida de um escritor, roteirista e dramaturgo de Osasco.

Além das estrelas

Fantasia, ficção e ciência

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