Posts Tagged ‘Luis Bras’

Em Cobra Norato, todo dia é sexta-feira.

22/03/2010

Fiquei surpreso quando recebi, pelo correio, um exemplar de Babel Hotel, livro infanto-juvenil publicado pela Editora Scipione e escrito por Luis Bras. Para quem não sabe, esse é o heterônimo de Nelson de Oliveira, um escritor com dupla identidade/personalidade. Deve ser divertido. Você sempre tem com quem conversar e qualquer desculpa de solidão é balela. Duas mentes argutas, dois escritores afiados. Assunto nunca vai faltar.

Fiquei interessado pelo livro já na quarta-capa. E ela me remeteu automaticamente ao filme Feitiço do tempo. Não é uma associação gratuita e a referência ao filme veio logo depois, ao ler o texto das orelhas.

Babel Hotel foi uma leitura vertiginosa. Bem escrito, fácil de ler, se revela uma ficção científica “tri-ante”. Vou explicar: instigante, fascinante e delirante. Muito difícil abandonar a leitura. Vamos sendo apresentados aos protagonistas, sete ao todo, cada um contando a sua história, cada um interpretando os fatos à sua maneira, cada um morrendo dia após dia. E, paradoxalmente, todos vão vivendo a mesma sexta-feira todos os dias, numa cidade intrigante (olhaí outro “ante”): Cobra Norato.

Mas existe um segredo. Ou vários. Existe também um personagem misterioso. Existe um medalhão com poderes assombrosos. E isso tudo dá uma liga danada de boa.

Faltaram mais explicações no final. Um pouquinho mais das motivações, das causas, do porque que as coisas foram feitas daquele jeito. Ou teremos uma continuação dessa eletrizante história e aí, então, as peças finalmente se juntem nesse curioso tabuleiro.

Recomendo.

Portal Fundação – Comentários 1ª parte

09/01/2010

Antes de qualquer coisa, acho melhor voltar a abordar um assunto já tratado anteriormente.

Não tenho nem nunca tive a pretensão de me passar por um crítico literário, posto que certamente exige uma carga de conhecimento na área que não possuo. Isso não significa que não possa ter opinião, fundamentada nas impressões que cada narrativa me provoca. No caso específico dos Portais, passarei a me ater única e especificamente a cada trabalho, sem analisá-los em função do conjunto.

O que quero dizer com conjunto, neste caso?

Tenho pra mim (posso estar errado desde o início) que os Portais tinham a intenção primeira de mostrar tanto para os leitores de literatura realista, como para os de gênero, que existe vida inteligente em todas as vertentes literárias. Que as ferramentas de um podem ser úteis para o outro e vice-versa.

Na literatura de gênero valorizam mais o enredo. Na realista, valorizam mais a forma. Os Portais teriam a missão de conciliar ambas as ferramentas e mostrar ao leitor de ambos os gêneros que a união faz a força.

Por isso fui contra os experimentalismos estilísticos, os hermetismos. Para o leitor realista, um experimentalismo com linguagem de FC deve ser assustador. Para o leitor de gênero, idem. Uma boa história precisa ter… História. Precisa ser inteligível. Precisa ter uma boa trama. Precisa falar com todos os leitores e não com meia dúzia de eleitos.

De agora em diante, pelo menos em relação aos Portais, deixarei de analisar cada texto em razão de um objetivo que nem sei se existe. Vou ler cada conto como obra independente e não conciliada num coletivo literário com metas determinadas.

Assim sendo, vamos aos meus comentários:

Veja seu futuro – Ataíde Tartari

Já tinha lido esse conto antes. Gosto da prosa do Ataíde. Esse traz uma máquina especial numa loja de fotografia com o poder de mostrar o futuro às pessoas. Antecipar problemas e tentar resolvê-los na volta pode ser uma boa, mas nem sempre as coisas dão certo.

Cheiro de predador – Roberto de Sousa Causo

Continuação das aventuras de Shiroma/Bella Nunes, uma assassina implacável. Acho a narrativa do Causo cirurgicamente precisa. Mas não gosto da absoluta perfeição da protagonista. Pequenos erros de julgamento e imprecisões nos momentos de luta a tornariam mais crível. Torná-la humana nas últimas linhas não bastou. Há um trecho onde o Causo cita um spray capaz de endurecer tecidos moles. Acho pouco verossímil que isso fizesse uma camisa se transformar numa pá, já que ela não tem espessura e densidade suficientes para isso.

Estranho progresso – Richard Diegues

Bizarro, pra dizer o mínimo. Relato de um futuro distante ou de uma viagem alucinógena profunda. Cenário extravagante. Há trechos onde a compreensão fica dificultada e Isso prejudica o conjunto. Difícil abandonar a leitura. Apesar dos problemas a narrativa tem seus encantos.

A cor da tempestade – Mustafá Ali Kanso

Uma narrativa vigorosa. Lei Áurea liberta escravos, mas preconceito e racismo impedem que sejam imediatamente aceitos. É uma analogia, mas bastante adequada. Humanos e Sangarianos vivendo conflitos étnicos. Guerra com Najaris ocupa 2º plano na trama. Abordagem ética que conduz a uma espécie de lição moral. Cenário bem construído e muito boa ambientação.

Nuvem de cães-cavalos – Luiz Bras

Um conto bem escrito, mas o argumento, o cenário e a abordagem tornam, para mim, difícil aceitá-lo como ficção científica. Tirem as naves espaciais e coloquem em seus lugares carruagens, e a história terá a mesma força, sem perda de conteúdo.

O desenvolvimento insustentável do ser – Laura Fuentes

Outro conto que, para mim, não é ficção científica. Preocupações bastante contemporâneas com o progresso e suas conseqüências imediatas e futuras. Uma pequena extrapolação, inócua e poética, não justifica o gênero.
Existe um trecho que não bateu bem (sem trocadilhos): “…O sol daquela manhã mais parecia bigorna batendo no corpo sem dó…”. Bigornas não batem. Elas são o anteparo para o malho do ferro. Nem como licença poética isso me entra pela goela.

A segunda parte reunirá todos os demais contos e será postada na semana que vem.

Até lá.


Pedro Moreno

Portfolio Online

Blog do Vianco

A vida de um escritor, roteirista e dramaturgo de Osasco.

Além das estrelas

Fantasia, ficção e ciência

frombartobar.wordpress.com/

Just another WordPress.com site