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A Fantasia brasileira vai bem, obrigado. Mas e a FC, como está?

30/01/2013

Capas Livros FC e Fantasia

A discussão FC x Fantasia não é nova, mas é sempre produtiva. O que vemos hoje no Brasil é uma quantidade de publicações de livros de Fantasia que ultrapassa a de Ficção Científica em muito (10 para 4, segundo estatísticas que me foram fornecidas por Cesar Silva, editor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica).

Mas, onde está a questão?

Parece-nos bastante óbvio que seja assim. Afinal, obras de Fantasia são mais assimiláveis. Não obrigam o leitor a acompanhar — via de regra — longas e exaustivas explicações científicas, nem a ter conhecimento — mesmo que básico — de nada que se aproxime de tecnologia e ciência. Leis simples como as da gravidade são comumente desafiadas e vencidas. Nossos autores fazem com que todos os grandes obstáculos sejam suplantados com abracadabras, com pitadas de pó de pirlinpinpin, efeitos sobrenaturais inexplicáveis ou poções e encantamentos diversos. Gestos grandiloquentes fazem surgir tempestades, piscar de olhos movem montanhas.

Vilões e mocinhos se enfrentam numa tempestade coruscante de efeitos especiais, transformam e transmutam com uma sem-cerimônia tão banal quanto encantadora. E os personagens secundários, humanóides ou não, sucumbem diante de tantos poderes, arrasados, fragmentados, pulverizados.

Não temos no Brasil autores como Susanna Clarke, Ursula K. Le Guin, Fritz Leiber ou Patrick Rothfuss. Boa parte de nossos esforçados autores de Fantasia estão muito mais para J.K. Rowlings recauchutadas ou J.R.R. Tolkiens de calças curtas, exceção feita a poucos e talentosos autores que conseguiram fugir do lugar comum e desenvolver universos próprios. Infestam as imitações mal feitas, as poucas tentativas pífias de encontrar um estilo próprio, um cenário divergente e original (porque é muito mais fácil copiar o que já está consagrado).

Não há ciência nas histórias de fantasia (deixo de lado a fantasia científica, mas mesmo ela dialoga pouco com a verossimilhança). Há apenas uma imaginação profusa que não explica, apenas apresenta mirabolâncias.

A Fantasia traz à tona o nosso lado lúdico, nos faz retornar à infância, aos sonhos, às nossas íntimas fantasias pueris, quando nos imaginávamos repletos de poder. Nossa visão do mundo era mágica, o mundo nos parecia mágico. A FC é o contraponto a essa visão. Ela nos obriga a fincar os pés no chão, nos mostra que o mundo é físico e obedece a leis imutáveis. A FC nos rouba muito de nosso senso lúdico, nos esfrega a cara no chão. Obriga-nos a “despertar” para a realidade e para todas as responsabilidades decorrentes disso.

Será essa a razão porque a nossa literatura de Fantasia leva grande vantagem em relação à FC? Ou é mesmo porque não temos uma cultura tecnológica, de grandes descobertas e viagens espaciais?

Afinal é essa a explicação recorrente. Somos um país sem cultura científica. Nunca fizemos grandes descobertas, nossos melhores foguetes são os da Caramuru, nossos cientistas, os melhores, vão embora do país em busca de melhores condições de trabalho e em busca de reconhecimento.

Então, por que, afinal, histórias de Ficção Científica deveriam ser populares, não é mesmo?

Se formos falar de outras mídias, veremos que a FC vai muito bem nos HQs, nos games, no cinema e na TV. Filmes e séries desse gênero bombam e alcançam bilheterias expressivas e telespectadores apaixonados. São vários os lançamentos (inclusive brasileiros) disputando espaço nas salas de exibição.

Mas em quê a literatura de FC ganha com isso? Como nossos autores são beneficiados com o boom da FC nas outras mídias? A FC continua não sendo lida. Continua não sendo prestigiada, continua sofrendo o preconceito das casas editoriais (e de muitos leitores que a consideram um gênero “chato”) que parecem esperar que um de nossos autores (sem patrocínio, nem apoio de nenhuma editora significativa) consiga vencer as dificuldades de mercado e explodir em vendas (melhor ainda se tiver o livro transformado em filme).

Só esse chamado “boi de piranha” conseguiria superar o “dar de ombros” das principais casas editoriais e, enfim, fazer a FC brasileira ser vista com olhos mais condescendentes (porque a FC estrangeira é normalmente publicada aqui com rótulos diferentes que tentam disfarçá-la)?

Difícil crer que não haja público para uma boa e dinâmica história de FC. Ou que não existam leitores inteligentes que não se entusiasmem com histórias elaboradas, personagens com múltiplas camadas, cenários ricos, boas ambientações, argumentos convincentes e soluções criativas e verossímeis (Nem toda FC produzida aqui é assim tão complexa, mas não podemos esquecer que, qualitativamente, a literatura de FC brasileira é, no geral, muito mais bem trabalhada que a de Fantasia).

Ou crer que todos os leitores de FC estejam comodamente assentados dentro do nicho, incorporados ao fandom. Porque se for assim, é de se compreender a atitude das grandes editoras. Investir num gênero que não consegue reunir mais que uns poucos milhares de leitores (dos quais muitos sequer conhecem o que se produz contemporaneamente) é jogar tempo e dinheiro fora.

A Fantasia não precisa de apresentações prévias. Não precisa vencer o preconceito de editores. Há muita Fantasia sendo publicada, grande parte de qualidade duvidosa.

Sem contar que é notório que qualidade e apelo comercial não são correlatos. As editoras são casas comerciais e são as vendas (as boas, de preferência) que pagam as suas contas. Entre escolher um romance de Fantasia manco e com chulé, mas com apelo comercial palpável, e um romance de FC de boa qualidade, elas vão escolher o primeiro. Por que deveriam investir num gênero, construir paulatinamente um mercado, se o custo/benefício é incerto?

Casos como o de Luiz Brás que publicou Sozinho no deserto extremo pela Editora Prumo são exemplos que parecem apenas servir para confirmar a regra.

Assim, a FC fica relegada às pequenas editoras que trabalham com edições limitadas e publicam quase que especificamente para o nicho. Um possível manancial de leitores extra-fandom permanece inatingível, inalcançável. Porque esses vários milhares de leitores que adquirem Asimov, Clarke, Bradbury (e outros nomes estrangeiros que se escondem na chamada ficção especulativa), também podem adquirir Gersons-Lodis, Causos e Carlos Orsis.

Existe dificuldade nisso? Claro. Mas mercados existem para serem descobertos, desbravados. Não só por quem escreve (que esses não têm poder para erguer mercados) e, sim, pelas editoras que, se não têm nenhuma obrigação em formar leitores, também não deveriam se escudar inteiramente disso.

Afinal, assim como nas melhores obras brasileiras de Fantasia, existem trabalhos de Ficção Científica com bom potencial de vendas e com argumentos que cairiam muito bem em filmes. Nem é preciso garimpar muito. Basta abrir os olhos, não dar mais de ombros, atentar para a pilha de originais e conceder à FC brasileira um voto de confiança.

Pelo menos isso.

***

Links interessante cedido por Cesar Silva:

• Listagem de todas as publicações de literatura fantástica feitas em 2011 no Brasil para download:
http://issuu.com/cesarsilva7/docs/anu_rio_brasileiro_de_literatura_fant_stica_2011_l

Você quer o anuário?

• Anuários Brasileiros de Literatura Fantástica para aquisição (anos de 2009 e 2010, 2011 está esgotado até o momento):
http://loja.devir.com.br/catalogsearch/result/?q=anuario+brasileiro+de+literatura+fantastica

Capa da coletânea Brinquedos Mortais revelada.

22/03/2012

Brinquedos Mortais nasceu a partir do conto de Saint-Clair Stockler que, mesmo curto, me causou impacto. Enxerguei na mesma hora a possibilidade de ampliar o universo que aquele conto apenas permitia entrever e idealizei essa coletânea. A Editora Draco abraçou a proposta e pusemos, então, mãos a obra. Poderíamos tê-la aberta inteira para submissões, mas nos preocupamos prioritariamente com a qualidade literária e, para evitar longas buscas e exaustivas análises, achamos por bem convidar seis integrantes, certos de que não nos decepcionariam (e, de fato, não nos decepcionaram).

São eles: Ataíde Tartari, Braulio Tavares, Carlos Orsi Martinho, Lúcio Manfredi, Luiz Bras e Roberto de Sousa Causo.

As outras quatro vagas nós as deixamos para a disputa de contendores hábeis. E que vencessem os melhores. Foram muitas as submissões e algumas delas tão boas que nos causaram verdadeira dor deixá-las de fora.

Os quatro selecionados foram:  Brontops Baruq, João Beraldo, Pedro Vieira e Sid castro. Com as narrativas dos organizadores, a coletânea perfaz ao todo doze contos.

Sinopse oficial:

Brinquedos mortais, uma coletânea organizada por Saint-Clair Stockler e Tibor Moricz, reúne 12 autores que apresentam universos díspares e, ao mesmo tempo, convergentes, dialogando com o inusitado, o assustador, o cômico e o repulsivo. Burilam seus textos com cuidado cirúrgico, capricham na prosa para oferecer aos leitores uma excelente literatura de entretenimento.

Bonecos cheios de más intenções, brinquedos ameaçadores, jogos estranhos e perigosos. Narrativas onde a morte é uma constante e onde a vida em todas as suas formas está sempre por um fio.

Ataíde Tartari , Braulio Tavares, Brontops Baruq, Carlos Orsi Martinho, João Marcelo Beraldo, Lucio Manfredi, Nelson de Oliveira, Pedro Vieira, Roberto de Sousa Causo, Saint-Clair Stockler, Sid Castro e Tibor Moricz convidam os leitores a penetrar em mundos ameaçadores e a compartilhar essa fascinante e mortal experiência.

Breve sinopse de cada conto:

• Um FDP blindado (Ataíde Tartari)

Numa releitura de Dorian Gray, o conto narra a cabulosa história de Dagá, um rapaz protegido de todas as terríveis consequências de seus atos por um incrível artefato Hi-Tech.

• HAXAN (Braulio Tavares):

Num futuro próximo, um grupo de garotos se diverte praticando pequenas transgressões, fugindo das milícias armadas, e usando aparelhos de realidade virtual com fins educativos para brincadeiras violentas.

• Astronauta (Brontops Baruq)

“As câmeras de observação de raios-x já foram objetos de uso puramente militar. Hoje qualquer camelô vende uma de brinquedo tão boa quanto as usadas pelo Exército. Com estes binóculos, é possível acompanhar a rotina e os rituais de um estranho casal, que mora no edifício em frente. Dentro de alguns minutos, será chamada a polícia. Não é maldade, é apenas outra brincadeira.”

• Grande Panteão (Carlos Orsi):

Deuses ou brinquedos? No grande panteão, sacerdotes de todas as crenças e divindades preparam seus encantos para o festival, mas nem tudo que parece mágica realmente é: engrenagens, carvão e vapor criam os milagres a que milhares de peregrinos esperam assistir.

• Brinquedo perfeito (João Beraldo)

Explorar o espaço pode ser mais fácil do que lidar com uma adolescente. É o que descobre Thiago, viajante espacial e pai solteiro. Tentando se aproximar da filha, compra em uma de suas viagens o presente perfeito.

• Hipocampo (Lúcio Manfredi)

Um game, um cavalo marinho, labirintos intermináveis e mundos paralelos. Cuidado com suas escolhas. Elas podem mudar drasticamente o mundo à sua volta.

• Daimons (Luiz Bras)

Daimons (antiga palavra grega que significa espíritos) é sobre um grupo de brinquedos inteligentes conspirando contra a hegemonia humana. Os brinquedos querem tomar o poder e pra isso precisam da ajuda das crianças, que eles tentam manipular a seu favor. Nesse conto, os brinquedos agem como consciências más, sussurrando ordens no ouvido das crianças, torturando as mais desobedientes.

• Austenolatria (Pedro Vieira)

Em Austenolatria, o estranho fetiche de um professor de literatura inglesa pelas heroínas da obra de Jane Austen deixa de ser inofensivo quando provoca ciúmes em Elizabeth Bennet e seu seleto círculo de amizades.

• Um herói para Afrodite (Roberto de Sousa Causo)

Tudo começa quando Leandro Vieira adquire, por uma pechincha, uma estatueta, estranhamente erótica, de uma mulher de beleza estonteante. Uma brincadeira revela que a deusa representada na estátua o quer como seu herói. O preço a pagar é, porém, muito alto.

• O homúnculo (Saint-Clair Stockler) 

A mais perfeita engenharia genética. Homúnculos para o deleite, para o prazer de adquirentes perturbados pela rotina. Uma brincadeira que deixa de ser divertida para começar a ser dolorosa.

• O segredo do McGuffin (Sid Castro)

Nos sombrios módulos da mais antiga Estação Espacial do Universo, na gigantesca Central da Galáxia, o detetive Sol Spada enfrenta a sedução de uma sereia laureana, a ameaça de gangsteres alienígenas e a desconfiança de um policial robô de dúbia honestidade, enquanto busca o McGuffin, um artefato dos Primordiais que pode conter… o Segredo do Universo!

• Boneca Dendem, feliz quem a tem (Tibor Moricz)

A ânsia de sentir o plástico e os circuitos internos de seus corpos substituídos por carne e sangue, move um a um os bonecos de uma cidade inteira numa viagem ao passado na busca incansável dessa realização.

***

Fiquem ligados que o lançamento é breve, muito breve… 🙂



Livro é livro. Nada é tão permanente.

16/03/2011

Recebi há poucos dias alguns exemplares do livro Muitas peles, de Luiz Bras e publicado pela Terracota editora, com o apoio do Governo de São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura.

Trata-se de um livreto com crônicas publicadas na coluna Ruído Branco do jornal Rascunho. Aproveito, alias, para agradecer ao Luiz pelo envio desses exemplares.

São textos que questionam, debatem, provocam e deliram. Chutam o pau da barraca. Muito mais literatura de gênero, muito mais ficção científica que outra coisa qualquer.

Leitura agradável e que faz pensar. Gosto de livros que fazem pensar.

Retirei dele um excerto (com a devida vênia do autor – não solicitada, mas presumida) que, acho, tem tudo a ver conosco enquanto autores, com todos os autores, sejam eles candidatos ou já publicados. Trata do sonho de publicar, de se tornar imortal posto que o livro permanecerá por gerações. Foi escrito por Rodrigo Lacerda, escritor e editor.

“Arrisco dizer que para a maioria dos escritores, bons ou ruins, o livro realiza antes de tudo mais um sonho de imortalidade. Se ele será considerado uma obra-prima, isso é um segundo momento de concretização do sonho, mas a publicação é o primeiro passo crucial. E não me digam que postar seu romance num blog é a mesma coisa. A virtualidade não dá as mesmas garantias da sobrevivência material do texto. E contra a morte, contra o desaparecimento da matéria que sustenta a consciência individual, nada como a tinta preta sobre o papel branco. Livro é livro. Nada é tão permanente. O espetáculo teatral passa, os filmes de menos de 100 anos atrás hoje são verdadeiros trapos velhos, precisando ser remasterizados e fotochapados, para não falar dos registros musicais, que até pouco tempo arranhavam, chiavam e disparavam pipocos para todos os lados. Um livro, para o editor, é mais um; mas para o escritor, é o sumo de sua existência.

Então, quando lhe recusam um livro, o autor ouve a recusa como se o editor estivesse dizendo: “Não vou contribuir para a sua imortalidade, vou barrar a transcendência de sua passagem pela face da Terra; você, se depender de mim, permanecerá mortal e medíocre, com sua memória sendo definitivamente enterrada dentro de duas ou três gerações de seus filhos e netos, e todas elas juntas não serão mais que um espirro do carona no banco de trás do rolo compressor da História”.

Alguém aí tem alguma dúvida da veracidade dolorosa do que foi escrito acima? Aguardo comentários.

Portal 2001 – Lido e comentado.

14/09/2010

Ter recebido todos os cinco portais tem sido uma honra que devo a Nelson de Oliveira, a quem agradeço pela enorme generosidade.

Recentemente me inquiriram sobre os dois primeiros (Solaris e Neuromancer) e se eu os tinha lido e comentado aqui no blog. Até pensei que tinha e fui procurá-los. Com surpresa descobri que, embora os tenha lido, não os resenhei.

Fica para uma próxima encarnação, então.

Perguntaram-me também porque ainda não tinha publicado nenhum conto nos portais. Respondi que até ia publicar no Neuromancer, mas problemas financeiros súbitos me impediram. Depois acabei desistindo por optar em manter um comportamento único para todas as coletâneas pagas. Ou seja: se tenho que pagar, então não participo.

Isso não tem nada a ver com qualidade editorial ou literária. Nem se se trata de coletânea caça-níquel ou não. Apenas critério.

Quanto ao Portal 2001, recebi e o li quase numa só tacada (tá, uma tacada que demorou uns cinco dias… rs). Gostei bastante desse, talvez mais que dos demais. Ainda assim há contos que não conseguiram dialogar comigo, nada tiveram a me dizer. Assim, ignorarei a esses, não os comentando (Não significam que sejam ruins, embora alguns sejam, sim, eca!). Poupo o meu vernáculo e poupo a integridade intelectual do autor.

Vamos aos meus comentários:

A república do recurso infinito – Braulio Tavares.

Braulio Tavares é hoje uma unanimidade nacional (por mais que toda a unanimidade seja burra, segundo Nelson Rodrigues). Dono de uma verve excelente e admirável criatividade. Nesse conto ele consegue ser bastante desconcertante. A excelência levada à enésima potencia fragmenta a sociedade em compartimentos cada vez menores e burocraticamente controlados. Traz como resultado a opressividade do controle estatal sobre o indivíduo.

Arribação rubra – Roberto de Sousa Causo.

O conto é um prosseguimento de trabalhos anteriores, publicados desde o primeiro Portal. Shiroma é a protagonista, uma agente mortífera e arduamente treinada. Assassina, trata-se de uma ferramenta eficaz nas mãos de tutores inescrupulosos. Dessa vez vi uma personagem mais falível. Não tanto inatingível ou implacável. O autor revelou que por trás da carapaça de eficácia se esconde uma mulher frágil e com anseios bastante humanos. Shiroma mesmo sob um aparente fracasso, completa sua missão de forma bem sucedida. Gostei muito da ambientação e do cenário. Dos contos do Causo com essa protagonista, o melhor até agora.

A paz forçada – Mayrant Gallo.

Nesse conto, o autor explora um futuro próximo onde questões políticas aparentemente insolúveis entre países, são resolvidas com pulverizações continentais. Mostra um avanço científico e tecnológico irreal para daqui a 30 ou 40 anos. Narrativa fluida e até contagiante, porém superficial. Mostra uma nova ordem mundial geopolítica numa abordagem muito periférica.

Além do espelho – Claudio Parreira.

Bebum numa mesa de bar devaneia ou vive uma realidade que só ele é capaz de atingir. Homem desesperado pela perda da mulher a quem amava faz trato com figura misteriosa, fruto do entorpecimento de seus sentidos ou entidade fantástica. Realidade e fantasia se misturam de forma que somos incapazes de dizer qual delas domina o cenário.

Sentinela – Delfin.

Avanço científico e tecnológico permite ao homem criar clones de si mesmo, estéreis, porém. O que não se poderia supor é que essa criação se tornasse independente, reivindicando direitos que antes não possuía. O problema se torna tão emblemático que apenas a guerra poderá resolver. É quando soluções alternativas são elaboradas. Boa narrativa de viagem no tempo, linguagem consistente e boa solução, embora relativamente previsível.

Herdeiro dos ventos – Mustafá Ali Kanso.

Esse conto me surpreendeu. Bela e poética narrativa sobre a necessidade de ser livre nos atos e pensamentos, sem patrulhamento ideológico e sobre a prisão que os incompetentes, os invejosos, os frustrados e os amargos constroem ao redor daqueles que buscam a realização pessoal.

Uma carta para Guinevere – Mustafá Ali Kanso.

Homem em vias de realizar uma viagem espacial e se ausentar da Terra por séculos em voo subluminar redige a derradeira carta aos que ama. Poético como o anterior, mas não tão intenso nem tão deslumbrante.

Planetas invisíveis: Diana – Brontops Baruq.

Em fuga de crises sucessivas, povo encontra na miniaturização a solução para seus problemas até que o verdadeiro problema se torne a miniaturização. Cenário fascinante que mereceria um trabalho mais longo. Uma novela ou um romance. Criativo e admirável.

Rebobinados – Brontops Baruq.

Presidiário enviado em viagem de 1.800 anos junto a um maníaco sexual. Luta diuturna para manter a integridade física. Interessante (embora absurda) concepção de longevidade para que os protagonistas terminem a viagem ainda vivos. Bem conduzido e construído.

Prometeu acorrentado reboot – Sid Castro.

Nave terráquea encontra planeta gigante com fascinante estrutura de vida. Boa condução embora tenha sido bastante previsível. A complexidade científica apresentada escapa ao meu conhecimento.

Novo Início – Marcelo L. Bighetti.

Esse conto mexe com argumentos difíceis de deixar de lado, pelo menos para mim. Nazismo, ufologia e viagem no tempo. Trata-se por isso, de um trabalho com o condão de me prender na poltrona, logo nas primeiras linhas. Por outro lado, o autor comete alguns pecadilhos. Um deles é o de entregar o final do conto logo na quarta página, tirando qualquer surpresa do leitor. Outro se vê na aparente necessidade de enxugar o texto. Coisas ficaram mal explicadas, como, por exemplo, o que a descoberta de um disco voador com tripulantes moribundos tem a ver com uma passagem temporal (ou buraco de minhoca). O autor não explica como os cientistas chegaram às suas conclusões. Também ignora as inúmeras possibilidades de alteração de passado que redundariam em futuros os mais díspares e não apenas naquele que encerra o conto. Assim, embora o argumento seja fascinante, faltou a ele maiores explicações para que tivesse mais consistência. Como uma parede de tijolos sem argamassa. Qualquer esbarrão e vai tudo por terra.

Contato alpha 9 – Rodrigo Novaes de Almeida.

Esse conto me fez lembrar vagamente de O túnel do tempo pelo estilo de narrativa. Observadores externos assistem momentos históricos extraídos dos sonhos de humanos. Buscam por um artefato com o poder de destruir toda a galáxia. O conto traz coordenadas geográficas que tive a pachorra de verificar. Não são aleatórias (Que cada leitor faça a mesma verificação e descubra a que lugares representam). Segue um bom ritmo.

Neve e sanduiches, A gruta de Vênus, Eblon, Mãos de borracha – Maria Helena Bandeira.

Os quatro contos seguem os mesmos parâmetros dos trabalhos anteriores dessa autora. Com um pouco menos de hermetismo, talvez, mas ainda demonstram o desinteresse numa história linear, com começo, meio e fim, perfeitamente delineados. Isso não é ruim. A autora brinca com situações cotidianas em cenários alienígenas ou não, cenários bizarros ou fantásticos, mas cientificamente alterados indicando um tempo (ou realidade) além do nosso. Não são particularmente bons, mas também não são particularmente médios (ruins não são). Me deu aquele gosto de gostei/não gostei tanto. Na necessidade de classificar, opto então por um bom.

Primeiro de abril: Corpus Christi – Luiz Bras.

Cidade autoconsciente sofre ataques que visam penetrá-la, compreendê-la e, se possível, neutralizá-la. A história confusa, alegórica e aparentemente sem sentido me obrigou a erguer a suspensão de credulidade e passar a lê-la como um texto de fantasia.

Futuro do pretérito Ricardo Delfin.

Narrativa muito interessante, inteira no futuro do pretérito. Remete-nos a uma espécie de fast forward antecipando acontecimentos futuros dramáticos. Nada a ver com FC (pra mim), tem os dois pés no fantástico.

Gazeta marciana – Ricardo Delfin.

Notícias de uma Marte futurística onde o homem já a colonizou e nela construiu suas cidades. Ambiente curioso embora nada muito diferente daquilo que vivemos agora. A existência de uma civilização marciana nativa desloca o conto da FC para a fantasia, descaracterizando o cenário.

Amor perfeito – Rogers Silva.

Ode ao amor entre dois antagônicos pós-apocalipse permite inúmeras reflexões. Narrativa de orações extensas e que nos obriga a uma leitura atenta. O risco de se perder entre os dois narradores é grande. Texto muito bem trabalhado, embora eu creia que se prolongue demasiadamente, tornando-a cansativa.

Cartas do fim do mundo. Lido e comentado.

30/07/2010

A coletânea Cartas do fim do mundo, organizada por Nelson de Oliveira e Claudio Brites e publicada pela Terracota Editora parte de uma premissa que considero excelente. Imagine que o mundo vai acabar no dia 31 de julho de 2013 (bem no dia do meu aniversário) e você decide escrever uma carta para alguém, seja familiar, amigo, conhecido, desconhecido ou para ninguém, apenas um relato solitário e histórico dos momentos angustiantes que precedem o fim.

Celeiro de ideias incríveis, o mote nos suscita argumentos variados.

Até preferia que autores reconhecidamente realistas mantivessem o foco no gênero em que se estabeleceram e consagraram. Não sei se a sugestão de adentrarem no terreno da FC foi objetiva ou subjetiva. Se houve uma sugestão direta ou se isso ficou no ar, meio que uma proposição vaga e não obrigatória.

O que aconteceu foi que autores chapinharam no inverossímil ao tentar acrescentar uma especulação científica qualquer às narrativas que, sem elas, evoluiriam muito bem. De qualquer maneira, os textos são bons. Aconselho aos leitores de gênero que ignorem sugestões de naves mães conduzindo um êxodo de humanos para planetas distantes em pleno ano 2013. Ou essas sugestões se ancoram numa realidade alternativa muito mal sugerida, ou são arroubo fantasioso, talvez motivado pela angústia provocada pelo fim do mundo iminente.

Há, claro, narrativas de FC genuína. E essas, escritas por quem entende do assunto, graças aos deuses.

Segue abaixo um por um dos contos, alguns com meus comentários:

1- Raimundo Carrero – Entre fogo e gelo – 31 de julho de 2013

Um desolado relato do que restou do mundo, entremeado das reminiscências do protagonista. Texto condoído que revela muito da insensibilidade humana diante do inevitável.

2- Marcio Souza – Ipanoré Cachoeira – 31 de julho de 2013

Lenda indígena explica o fim do mundo.

3- Braulio Tavares – Campina Grande – Agosto 2014

Presente e futuro (ou passado e futuro) ligados por um comunicador quântico. Fim do mundo anunciado, improrrogável e inevitável.

4- Moacyr Scliar – Porto Alegre – 10 de agosto de 2013

Conto que relata o fim do mundo para um e não para todos. Homem que crê em novo dilúvio universal refugia-se em local que acredita seguro. Mas o fim sempre nos encontra onde quer que nos escondamos.

5- Marcelino Freire – Sertânia – 31 di Julio di 2013

Homem do sertão narra o fim do próprio mundo onde o mundo acaba todos os dias. Marcelino insere uma viagem à lua perfeitamente dispensável. A realidade concreta de um homem habituado à luta diária pela sobrevivência  sequer cogita viagens espaciais.

6- Xico Sá – São Paulo – 31 de julho de 2013

Crônica cotidiana, reclamações e constatações. Fim do mundo aguardado com festividade e desdém num botequim.

7- Menalton Braff – Terra, 30 de junho de 2013

Distopia revela um planeta completamente esgotado. Humanidade regride às suas condições mais primitivas. Especulação inverossímil. Muito pouco tempo para que tal magnitude de degradação nos atingisse.

8- Luis Dill – Londres – 31 de julho de 2013

Droga psicotrópica nova demonstra poder muito acima das expectativas. Viagem no tempo e o fim do mundo explicado de maneira muito convincente.

9- Marne Lucio Guedes – Mundo – 31 de julho de 2013

Conto intenso. Homem liberto da fé a que se entregou avidamente ao tomar conhecimento do fim do mundo mergulha no vício e na degradação. Texto forte e muito bem trabalhado.

10 – Moacyr Godoy Moreira – São Paulo – 31 de julho de 2013

Criminoso em penitenciária se penitencia ao irmão pio. Alusão a êxodo humano em busca de novos planetas põe o conto em xeque. Inverossímil, embora pungente.

11 – Brontops Baruq – Metrópolis – 30 de julho de 2013

Já publicado num dos Portais. Conto cru, pragmático e pungente. Lamento ter sido alterado. Provavelmente uma exigência editorial que não esconde a sombra pútrida da censura, mesmo que razões internas tentem justificar.

12- Claudio Brites – Cidade desconhecida – 3 de agosto de 2013

Conto narrando um final de mundo que me faz lembrar vagamente de Blecaute de Marcelo Rubens Paiva e Escuridão de André Carneiro. Junte alguns gigantes e voilá! Uma narrativa enlouquecida do último homem (zumbi?) sobre a terra.

13 – Luiz Bras – São Paulo – 31 de julho de 2013

Homem do futuro envia carta a homem do passado. Pequeno detalhe: trata-se do mesmo homem. Fim do mundo prenuncia revolta de cupins, baratas e (trecho ilegível). Construa uma (trecho ilegível) ou morra dolorosamente.

14 – Fausto Fawcett – 31 de julho de 2013

Firma promotora de apocalipses mata o leitor desavisado com verborragia intensa e coordenada e deixa o senhor Armageddon em maus lençóis. Os pólos magnéticos continuam numa boa, os ventos solares também, mas acho que precisarei passar uma temporada numa câmara hiperbárica.

E o ganhador de Paraíso Líquido é…

22/07/2010

O sortudo da vez (e dessa vez, sortudo mesmo), foi Marcel Breton. Favor entrar em contato com a nossa assessoria, solicitando o envio da obra prima de Luiz Bras. Se morar perto, chega logo. Se morar longe vai depender da resistência do pombo correio.

Parabéns, Marcelo, e ótima leitura!

Paraíso líquido pode escorrer entre os seus dedos.

15/07/2010

Marque presença na caixa de comentários com um e-mail válido e concorra ao livro de Luiz Bras (comentários logo abaixo da entrevista com a Libby Ginway). O sorteio será realizado no dia 21 deste mês utilizando o avançadíssimo sistema do papelote. Cortado, rabiscado com o seu nome, dobrado, chacoalhado e escolhido. Desta vez o ganhador vai sorrir, o livro é bom!

Boa sorte a todos!

Paraíso líquido de Luiz Bras. Lido e comentado.

12/07/2010

Li o livro de Luiz Bras em quatro dias, feito admirável para alguém que não tem muito tempo livre para isso. Deve ter ajudado (e como!) o fato de já ter lido em vezes anteriores pelo menos um terço dos contos apresentados.

O livro tem doze contos de ficção científica e um fronteiriço, mais pro lado e cá, que pro lado de lá (Primeiro contato). A capa é muito bonita.

Luiz Bras não é um autor que se esforce em escrever bem, dando atenção especial à forma. Isso já é uma coisa que faz parte dele, lhe é inerente. A estética se aplica automaticamente, permeando as linhas com absoluta naturalidade. Brinca com as palavras com segurança, as aplica corretamente, faz acrobacias, experimentalismos e experimentações.

Tem um domínio que poucos têm da arte narrativa.

Por outro lado (e sempre há outro lado), sinto que ele dá o pontapé inicial em alguns contos sem ter uma boa ideia de onde aquilo vai levá-lo. Ele mergulha num torvelinho narrativo muitas vezes confuso, divaga e devaneia, dando reviravoltas súbitas, deixando o leitor meio sem chão, meio sem bengala na escuridão. Permitir que a história se conduza por si própria, dando a ela pernas e braços, tem grandes perigos se o autor não estiver pronto a agarrá-la no laço quando isso lhe parecer necessário. O momento certo de fazer isso determina se a história acabará bem ou só arremedada. No caso em pauta, isso não chega a ser ruim, porque Luiz Bras, como eu já disse, tem um ótimo controle narrativo. Assim, mesmo uma condução que parece confusa acaba por ser simpática. Nós nos deixamos levar pela enxurrada, imersos em expectativa.

Alguns contos terminam de maneira pouco satisfatória. Outros são muito bons.

Luiz Bras fliducha e trupede enroscando-se, por vezes, no próprio laço, enquanto o leitor badulate e clipecapota, vencendo os obstáculos que a narrativa cheia de armadilhas do autor apresenta.

Paraíso líquido é, no cômputo geral, um livro bastante bom. Para quem gosta do gênero e para quem não curte muito, também.

Recomendado.

Livros recebidos. Resenhas e comentários em breve.

06/07/2010

Recebi nesses dias, seis exemplares de Paraíso Líquido de Luiz Bras (enviado graciosamente pelas Terracota Editora)  e um exemplar de O caçador de apóstolos de Leonel Caldela (enviado pela Jambô Editora).

Serão lidos e resenhados pelo Saint-Clair ou lidos e comentados por mim. Quiçá ambas as coisas.

Um dos exemplares de Paraíso líquido, ou mais deles, serão sorteados no blog nos próximos dias. Então, fiquem atentos.

Há mais livros chegando, que eu sei. Quando estiverem em minhas mãos, aviso. É provável que mais sorteios sejam realizados futuramente.

Agradeço imensamente aos escritores e às editoras que vêm enviando suas obras.

De Bar em Bar entrevista Luiz Bras.

22/04/2010

A rua estava uma confusão. Viaturas espalhadas pelos quatro cantos, multidão espremida contra os cordões de isolamento. Rádios soltando chiados de estática enquanto guardas solícitos respondiam a chamados ou faziam solicitações. Um monte de focas disputavam cada informação possível, espocando os flashes ao menor movimento policial. Observei o prédio diante de mim. Dezesseis andares, fachada envelhecida, pintura rachada. Janelas de madeira pintadas de verde. Uma combinação horrorosa.

Céu fuliginoso, com nuvens carrancudas.

Estava vestindo um sobretudo cinza, longo. Chapéu de abas curtas, sapato preto precisando uma boa engraxada. Sentia-me o próprio Al Capone. Ao meu lado, um sujeito com cabelo cortado rente, óculos grossos de grau, rádio na mão, ansioso, quase pululando ao meu redor.

Observei o cenário tentando me situar dentro dele. Puxei pela memória.

— Está lá dentro faz quarenta minutos, Tenente – disse o escovinha – o zelador deu o alarme. Foi direto para o apartamento.

— Quem? – perguntei confuso.

— Luiz Bras – disse o sujeito, olhando para mim com certa perplexidade.

Então comecei a entender algumas coisas. Estava no Bar do Joe comendo umas rosquinhas e bebendo café quando o rádio da viatura começou a tossir. Alguém ligou para a polícia delatando a presença de um assassino procurado. Pensei em não atender, mas a chefatura chamou por mim diretamente devido ao meu especial talento em negociações. Engoli a rosquinha de qualquer jeito e agora estava ali, diante daquele prédio decadente.

Ultimamente as coisas estavam mesmo tranqüilas na cidade. Pequenos delitos e contravenções. Assassinos eram raros naquelas paragens. Serviam para dar um pouco mais de sabor ao dia a dia.

— Temos alguns homens posicionados no prédio em frente, ali e ali – apontou o sujeito cujo nome era Norton – são franco-atiradores. Acompanhei o olhar dele até lá em cima e vi cabecinhas se movendo além dos parapeitos.

— Alguns homens estão diante do apartamento, apenas aguardando suas ordens.

Apalpei a algibeira. A arma estava lá.

— Não faça nada. Vou lá em cima tentar chamar o homem à razão.

Norton deu um sorrisinho.

— Gosto quando você faz isso. É divertido – ele disse, empurrando os óculos mais para cima no nariz.

— Onde está a diversão em negociar rendições?

— Você é um miserável… Mata todos, sempre.

— Assassinos não merecem viver, rapaz.

Passei por baixo do cordão de isolamento, retirando um lenço do bolso e limpando um pouco do suor do rosto. Olhei para o relógio e levei um susto com o maquinário que tinha no pulso. Não me lembrava de ter um relógio tão estiloso e com tantos botões.

Alguns policiais se afastaram diante da minha chegada. Olharam para mim com respeito. Eu era o matador de foragidos. Uma fama não muito popular com os políticos, mas bastante apreciada pelo populacho. Tirei o revólver do bolso e chequei o tambor. Com sorte não precisaria mais do que duas balas de todas as seis disponíveis.

Enquanto esperava o elevador fui rememorando as informações que tinha do bandido… Luiz Bras, escritor premiado, organizador de antologias, crítico literário. Tinha um livro dele em casa. Babel Hotel. Presente de uma ex-namorada. Esses escritores pensam que são os donos do mundo. Assassino de Nelson de Oliveira. Outro escritor. Que se matem, todos. Assim ficamos livres dessas histórias idiotas que inventam. Foragido há dias, temeu-se que tivesse fugido do país. Voltou para casa, num movimento idiota e inesperado. Mas se não fosse o zelador denunciá-lo, aquele seria o último lugar em que o procurariam.

O elevador chegou ao nono andar e abriu a porta. Dei de cara com três policiais bonachões. Dois deles tão gordos que poderiam pular pela janela. Quicariam no chão sem ferimentos.

— Caiam fora – disse num murmúrio mal humorado. Era hora de começar a vestir o disfarce de policial malvado. Eles deram de ombros, recolheram suas coisas e desceram com o elevador, levando aquela caixa barulhenta para longe dali.

Observei a porta do apartamento noventa e oito. Folha oca de madeira. Não resistiria a um chute com meia força. Encostei-me à parede ao lado dela. Retirei do bolso um maço de cigarros e fiz uma careta enquanto retirava um e o acendia. Dei uma tragada funda e soltei a fumaça devagar, vendo-a esvanecer, rapidamente desfeita por uma corrente de ar que soprava pelo vão livre da escadaria. Pigarreei e dei duas batidinhas na porta, a guisa de boa educação. Não ia derrubá-la sem antes lembrar ao fugitivo de que o negociador havia chegado.

— Luiz Bras! – chamei. Não tive nenhuma resposta.

— Escritor, não é? Deve ser fascinante… – engoli em seco. Estava prestes a afirmar uma coisa que não sentia nem acreditava. Mas era parte do ofício mentir bem –… Construir mundos e dirigi-los como um Deus. Isso deve fazê-lo se sentir bem.

O danado manteve o silêncio. Cocei o bigode que não tinha e mordi o lábio superior. Voltei a aproximar a mão esquerda da porta para mais duas batidinhas rápidas. Ia irritá-lo antes de dar um fim àquela lengalenga. Um disparo me conteve. Empalideci. Um buraco na porta, centímetros da minha mão. Recolhi-a, estremecendo. Tremendo filho da puta, esse Luis Braz.

— Quer complicar as coisas, hein, seu merda? – saquei meu revólver, agachei devagar me colocando de cócoras. Apontei a arma de baixo para cima num ângulo aproximado de sete ou oito graus e puxei o gatilho duas vezes. Puto da vida por gastar mais balas do que havia pretendido inicialmente. Ouvi um estalido, cacos se espalhando e o homem praguejar.

— Era o vaso de vovó – falou o homem, saindo finalmente de seu mutismo – e vovó amava esse vaso!

Bizarro. Trocávamos tiros e o homem lá dentro se preocupava com o vaso da vovó.

— Que tal sair daí com as mãos para cima? – instiguei-o a se entregar. Estava pensando no Bar do Joe e em mais algumas rosquinhas.

— E por quê? O que fiz?

Era normal que assassinos não se achassem criminosos. Que considerassem seus crimes atos de benevolência, realizados em prol da humanidade.

— Matou Nelson de Oliveira – Sempre me senti um idiota em reafirmar aos criminosos os seus crimes. Como crianças que a gente precisa ficar lembrando de suas peraltices.

— Eu não o matei. Não nesse sentido. Pra quê a polícia? Pra que tudo isso? Que porra de loucura é essa toda?

Estava na hora de trocar de disfarce. Tirar o de policial malvado e colocar o de policial psicólogo. O cara não se achava um assassino. O que eu disse sobre eles não se acharem criminosos? Bingo!

— Quem foi Nelson de Oliveira? Quem é Luiz Bras? – perguntei enquanto mastigava carinhosamente a bituca de cigarro e coçava atrás da orelha com o cano do revólver.

— Nelson de Oliveira foi o cara dos contos de humor negro e dos romances nem um pouco realistas, com longos trechos delirantes, em que o estranho e o nonsense dão as cartas. Luiz Bras é o cara que leu apaixonadamente Kafka, Cortázar e García Márquez, mas jamais perdeu o tesão por Ray Bradbury, Asimov e Philip K. Dick, autores que ele leu antes de ler todos os outros, na adolescência, e continua relendo até hoje. O primeiro publicou, de 1997 a 2009, catorze livros de ficção mainstream. O segundo publicou até agora dezenove livros para jovens leitores, a maioria escrita a quatro mãos com Tereza Yamashita, e vai lançar ainda este ano sua primeira coletânea de contos para o público adulto, intitulada Paraíso líquido. Aquele abandonou a prosa de ficção em 2009 pra se dedicar exclusivamente à teoria literária, à organização de antologias temáticas e às oficinas de criação literária. Este abraçou pra valer a ficção científica e a fantasia, gêneros que pretende exercitar fervorosamente até que a morte o separe dos livros.

Fiquei embasbacado com a verborragia. O homem resolveu falar. Ri intimamente com a crença de que o cara ainda acreditava que iria lançar alguma coisa esse ano. Mas acertou em cheio quando vaticinou a própria morte o separando dos livros. Voltei a olhar para o relógio e imaginei quantos minutos ainda faltavam para dar um tiro na cara do sujeito.

— Braulio Tavares diz que opor o realismo à FC é como opor o jazz aos Beatles. Para ele, não faz sentido. Não se excluem, se completam mutuamente. Essa é uma opinião divergente do que se escuta e lê por aí. Você mesmo apregoa a necessidade do realismo se render à riqueza do gênero e buscar nele fontes de inspiração. São pensamentos conflitantes ou você vê convergência de opiniões?

Terminei a pergunta e senti o ar me faltando. Mas que merda de pergunta era essa? De onde eu havia tirado essa questão?

— É o Tibor que está aí fora? – perguntou o Luiz – é você, não é? Que porra é essa? Que está acontecendo? Porque a polícia está atrás de mim? Era pra ser uma entrevista, não uma caçada!

Tibor? Tibor? Quem é esse Tibor?

— Responda logo, carajo! – agarrei-me à parede, tonto. Joguei a bituca pelo vão livre da escadaria. Alguma coisa estava muito errada e eu não sabia o quê.

— Concordo com o Braulio, não faz sentido algum opor Thelonious Monk aos Beatles, ou John Coltrane ao Pink Floyd. Esse tipo de antagonismo é tolo, porque empobrece o indivíduo, que acaba perdendo uma boa oportunidade de conhecer esferas poéticas diferentes. Mas no mundo em que eu vivo, habitado praticamente por autores, professores e leitores de alta literatura, é isso o que acontece: a oposição burra. Nesse meu mundinho, tudo o que não é Clarice Lispector ou Guimarães Rosa não tem valor. A questão é que eu vejo o mesmíssimo valor também no Dick e no Bradbury. E não suporto mais os mesmos velhos temas sendo tratados e retratados infinitamente pelo mainstream: a periferia das grandes cidades, as crises conjugais, a juventude transviada, o artista e seu umbigo, a boçalidade da classe média etc. Digo que esses escritores precisam renovar o estoque de assuntos. E voltar a se preocupar tanto com o enredo, tido como elemento menos importante em um conto ou romance contemporâneos, quanto com a bendita forma literária.

Agachei-me até ficar de cócoras. Sentia um formigamento insistente na ponta dos dedos e um tremor estranho na língua. Um buraco no estômago, também. Estava nervoso e não sabia por quê. Assuntos fervilhavam na minha cabeça, perguntas que eu precisava fazer para aquele cara. Mas eu não entendia de onde as questões surgiam.

— Nelson de Oliveira bebeu em fontes da FC muito antes de surgir o Luiz Bras. A antropofagia que fez eclipsar o Nelson, certamente trabalhou com a absorção dessa cornucópia de conhecimentos anteriores. Luiz Bras é hoje um autor mais preparado territorialmente (dentro das áreas do gênero e do mainstream) que Nelson de Oliveira? Luiz Bras veio definitivamente pra ficar?

Fiz a pergunta e deixei-me cair sentado no corredor. O suor começava o porejar em minha fronte. Olhei o relógio e o estranhei ainda mais.

— É o Tibor, né? – perguntou Luiz Bras, insistente.

Levei as mãos à cabeça, confuso.

— Essa é uma realidade alterada, cara. Lembra? Seu relógio quântico. Esse que deve estar no seu pulso. É ele que cria essas distorções. Você não é um policial. Eu não sou um assassino. Sou só um escritor tentando responder a uma entrevista. Você é um entrevistador, mas também escritor.

Ofeguei, nessa hora. Eu, escritor? O babaca estava tentando me confundir.

— Há dois anos Nelson sentiu que já não tinha mais nada a dizer, pelo menos não na forma de um conto ou de um romance – começou Luiz Bras – Ele percebeu que o ciclo iniciado com seu primeiro livro, Naquela época tínhamos um gato, havia se encerrado com o último, Babel Babilônia. Foi quando eu assumi pra valer o controle de nossa mente, ao menos no campo ficcional. Não posso garantir que hoje eu seja um autor mais preparado territorialmente, mas estou convencido de que sou um autor mais maduro, melhor paramentado para o combate. Já não caio nas mesmas armadilhas em que caía na década de 90. Perdi todas as ilusões românticas relacionadas ao mundo literário, posso até dizer que troquei a visão religiosa pela darwinista. Hoje eu vejo claramente todos os nuances da luta de classes literárias que sacode o mercado editorial. Mas estou falando de um darwinismo não-determinístico, se isso é possível. Em comunhão com os filósofos, os matemáticos e os físicos de hoje, acredito que o sucesso é governado por uma conspiração de fatores pequenos e aleatórios, isto é, pelo acaso, pela sorte. Talento e determinação são e serão sempre necessários, é claro. Mas sem sorte você não atravessa a rua.

Levantei-me não sem pouca dificuldade. Estava apalermado com a ousadia do desgraçado que tentava me perturbar, acusando-me de ser quem não era. Mas não pude evitar olhar para o relógio uma enésima vez. Era estranho e não me lembrava dele. Onde o tinha comprado? Precisava virar o jogo, precisava fazê-lo confessar. Precisava ser hábil.

— O recurso de um heterônomo, além de evidenciar a supressão de uma de suas personalidades, denota uma espécie de “assassinato”. Você está preparado para viver com sentimentos de culpa? Ou isso não o preocupa de jeito nenhum?

Luiz Bras se manteve quieto alguns instantes. Senti que a cabeça dele devia estar fervilhando com a questão. A resposta seria determinante para minha ação seguinte.

— Concordo com a metáfora do assassinato. Quando empurrei o ficcionista Nelson de Oliveira da borda do abismo, a sensação de liberdade foi tão grande que na hora eu não pensei na culpa. Eu precisava de mais espaço e ele estava atrapalhando, um dos dois tinha que desaparecer. Sobrou o outro, o Nelson ensaísta e professor de literatura. Talvez por isso mesmo, pelo fato de ter sido meio assassinato, o sentimento de culpa pelo crime ainda não tenha aparecido.

Bingo! Ele havia confessado.

Não perdi mais tempo. As palavras ainda ressoavam quando me afastei meio passo da porta e acertei nele um violento coice. Arma nãos mãos me atirei para dentro. Cambaleei desnorteado até trombar com uma poltrona. Luiz Bras estava atrás dela, agachado, pernas flexionadas, cabeça baixa, quase entre os joelhos. Uma posição típica de alguém com evidentes sentimentos de culpa. Caí rolando sobre ele, tentei firmar o revólver na mão, mas ela estava escorregadia. Agarramo-nos pelas lapelas, abraçamo-nos furiosamente e começamos a rolar pelo chão. Eu tentava virar o punho de forma a apontar a arma para a cabeça dele. Ele tentava virar o próprio, aparentemente com a mesma intenção. Grunhíamos, resfolegávamos, sibilávamos um contra o outro.

— Escritor de merda. Assassino miserável. Vou te matar!

— Realidade alterada… Realidade alterada… O relógio… O botão.

Minha arma disparou. A bala resvalou no chão, ricocheteou na parede atrás de nós e atravessou o tubo da televisão, provocando um rápido estrondo.

— Um escritor a menos no mundo! Você vai ver…

— O botão, merda! O botão!

Consegui virar a arma do jeito que eu queria. Seria o quarto disparo. Dois a mais que o planificado. Mas esse seria mortal e definitivo. Apertei o gatilho ao mesmo tempo em que ele desvencilhou uma das mãos e agarrou meu relógio, apertando os botões de maneira desencontrada.

Escutei a explosão do disparo enquanto me sentia sugado como que por um aspirador de pó gigante. Girei e rodopiei até perder os sentidos.

Fui despertar tempos depois, em casa. Estava perturbado, com as idéias atrapalhadas. Mas me lembrei pouco a pouco do acontecido. Fiquei aterrorizado quando me dei conta de que a alteração de realidade havia reprogramado minha própria identidade. Soube que o Luiz Bras estava bem. Sem ferimentos, fora o evidente trauma. As entrevistas estão cada vez mais perigosas. Considero a possibilidade de cancelar as próximas.