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Portal 2001 – Lido e comentado.

14/09/2010

Ter recebido todos os cinco portais tem sido uma honra que devo a Nelson de Oliveira, a quem agradeço pela enorme generosidade.

Recentemente me inquiriram sobre os dois primeiros (Solaris e Neuromancer) e se eu os tinha lido e comentado aqui no blog. Até pensei que tinha e fui procurá-los. Com surpresa descobri que, embora os tenha lido, não os resenhei.

Fica para uma próxima encarnação, então.

Perguntaram-me também porque ainda não tinha publicado nenhum conto nos portais. Respondi que até ia publicar no Neuromancer, mas problemas financeiros súbitos me impediram. Depois acabei desistindo por optar em manter um comportamento único para todas as coletâneas pagas. Ou seja: se tenho que pagar, então não participo.

Isso não tem nada a ver com qualidade editorial ou literária. Nem se se trata de coletânea caça-níquel ou não. Apenas critério.

Quanto ao Portal 2001, recebi e o li quase numa só tacada (tá, uma tacada que demorou uns cinco dias… rs). Gostei bastante desse, talvez mais que dos demais. Ainda assim há contos que não conseguiram dialogar comigo, nada tiveram a me dizer. Assim, ignorarei a esses, não os comentando (Não significam que sejam ruins, embora alguns sejam, sim, eca!). Poupo o meu vernáculo e poupo a integridade intelectual do autor.

Vamos aos meus comentários:

A república do recurso infinito – Braulio Tavares.

Braulio Tavares é hoje uma unanimidade nacional (por mais que toda a unanimidade seja burra, segundo Nelson Rodrigues). Dono de uma verve excelente e admirável criatividade. Nesse conto ele consegue ser bastante desconcertante. A excelência levada à enésima potencia fragmenta a sociedade em compartimentos cada vez menores e burocraticamente controlados. Traz como resultado a opressividade do controle estatal sobre o indivíduo.

Arribação rubra – Roberto de Sousa Causo.

O conto é um prosseguimento de trabalhos anteriores, publicados desde o primeiro Portal. Shiroma é a protagonista, uma agente mortífera e arduamente treinada. Assassina, trata-se de uma ferramenta eficaz nas mãos de tutores inescrupulosos. Dessa vez vi uma personagem mais falível. Não tanto inatingível ou implacável. O autor revelou que por trás da carapaça de eficácia se esconde uma mulher frágil e com anseios bastante humanos. Shiroma mesmo sob um aparente fracasso, completa sua missão de forma bem sucedida. Gostei muito da ambientação e do cenário. Dos contos do Causo com essa protagonista, o melhor até agora.

A paz forçada – Mayrant Gallo.

Nesse conto, o autor explora um futuro próximo onde questões políticas aparentemente insolúveis entre países, são resolvidas com pulverizações continentais. Mostra um avanço científico e tecnológico irreal para daqui a 30 ou 40 anos. Narrativa fluida e até contagiante, porém superficial. Mostra uma nova ordem mundial geopolítica numa abordagem muito periférica.

Além do espelho – Claudio Parreira.

Bebum numa mesa de bar devaneia ou vive uma realidade que só ele é capaz de atingir. Homem desesperado pela perda da mulher a quem amava faz trato com figura misteriosa, fruto do entorpecimento de seus sentidos ou entidade fantástica. Realidade e fantasia se misturam de forma que somos incapazes de dizer qual delas domina o cenário.

Sentinela – Delfin.

Avanço científico e tecnológico permite ao homem criar clones de si mesmo, estéreis, porém. O que não se poderia supor é que essa criação se tornasse independente, reivindicando direitos que antes não possuía. O problema se torna tão emblemático que apenas a guerra poderá resolver. É quando soluções alternativas são elaboradas. Boa narrativa de viagem no tempo, linguagem consistente e boa solução, embora relativamente previsível.

Herdeiro dos ventos – Mustafá Ali Kanso.

Esse conto me surpreendeu. Bela e poética narrativa sobre a necessidade de ser livre nos atos e pensamentos, sem patrulhamento ideológico e sobre a prisão que os incompetentes, os invejosos, os frustrados e os amargos constroem ao redor daqueles que buscam a realização pessoal.

Uma carta para Guinevere – Mustafá Ali Kanso.

Homem em vias de realizar uma viagem espacial e se ausentar da Terra por séculos em voo subluminar redige a derradeira carta aos que ama. Poético como o anterior, mas não tão intenso nem tão deslumbrante.

Planetas invisíveis: Diana – Brontops Baruq.

Em fuga de crises sucessivas, povo encontra na miniaturização a solução para seus problemas até que o verdadeiro problema se torne a miniaturização. Cenário fascinante que mereceria um trabalho mais longo. Uma novela ou um romance. Criativo e admirável.

Rebobinados – Brontops Baruq.

Presidiário enviado em viagem de 1.800 anos junto a um maníaco sexual. Luta diuturna para manter a integridade física. Interessante (embora absurda) concepção de longevidade para que os protagonistas terminem a viagem ainda vivos. Bem conduzido e construído.

Prometeu acorrentado reboot – Sid Castro.

Nave terráquea encontra planeta gigante com fascinante estrutura de vida. Boa condução embora tenha sido bastante previsível. A complexidade científica apresentada escapa ao meu conhecimento.

Novo Início – Marcelo L. Bighetti.

Esse conto mexe com argumentos difíceis de deixar de lado, pelo menos para mim. Nazismo, ufologia e viagem no tempo. Trata-se por isso, de um trabalho com o condão de me prender na poltrona, logo nas primeiras linhas. Por outro lado, o autor comete alguns pecadilhos. Um deles é o de entregar o final do conto logo na quarta página, tirando qualquer surpresa do leitor. Outro se vê na aparente necessidade de enxugar o texto. Coisas ficaram mal explicadas, como, por exemplo, o que a descoberta de um disco voador com tripulantes moribundos tem a ver com uma passagem temporal (ou buraco de minhoca). O autor não explica como os cientistas chegaram às suas conclusões. Também ignora as inúmeras possibilidades de alteração de passado que redundariam em futuros os mais díspares e não apenas naquele que encerra o conto. Assim, embora o argumento seja fascinante, faltou a ele maiores explicações para que tivesse mais consistência. Como uma parede de tijolos sem argamassa. Qualquer esbarrão e vai tudo por terra.

Contato alpha 9 – Rodrigo Novaes de Almeida.

Esse conto me fez lembrar vagamente de O túnel do tempo pelo estilo de narrativa. Observadores externos assistem momentos históricos extraídos dos sonhos de humanos. Buscam por um artefato com o poder de destruir toda a galáxia. O conto traz coordenadas geográficas que tive a pachorra de verificar. Não são aleatórias (Que cada leitor faça a mesma verificação e descubra a que lugares representam). Segue um bom ritmo.

Neve e sanduiches, A gruta de Vênus, Eblon, Mãos de borracha – Maria Helena Bandeira.

Os quatro contos seguem os mesmos parâmetros dos trabalhos anteriores dessa autora. Com um pouco menos de hermetismo, talvez, mas ainda demonstram o desinteresse numa história linear, com começo, meio e fim, perfeitamente delineados. Isso não é ruim. A autora brinca com situações cotidianas em cenários alienígenas ou não, cenários bizarros ou fantásticos, mas cientificamente alterados indicando um tempo (ou realidade) além do nosso. Não são particularmente bons, mas também não são particularmente médios (ruins não são). Me deu aquele gosto de gostei/não gostei tanto. Na necessidade de classificar, opto então por um bom.

Primeiro de abril: Corpus Christi – Luiz Bras.

Cidade autoconsciente sofre ataques que visam penetrá-la, compreendê-la e, se possível, neutralizá-la. A história confusa, alegórica e aparentemente sem sentido me obrigou a erguer a suspensão de credulidade e passar a lê-la como um texto de fantasia.

Futuro do pretérito Ricardo Delfin.

Narrativa muito interessante, inteira no futuro do pretérito. Remete-nos a uma espécie de fast forward antecipando acontecimentos futuros dramáticos. Nada a ver com FC (pra mim), tem os dois pés no fantástico.

Gazeta marciana – Ricardo Delfin.

Notícias de uma Marte futurística onde o homem já a colonizou e nela construiu suas cidades. Ambiente curioso embora nada muito diferente daquilo que vivemos agora. A existência de uma civilização marciana nativa desloca o conto da FC para a fantasia, descaracterizando o cenário.

Amor perfeito – Rogers Silva.

Ode ao amor entre dois antagônicos pós-apocalipse permite inúmeras reflexões. Narrativa de orações extensas e que nos obriga a uma leitura atenta. O risco de se perder entre os dois narradores é grande. Texto muito bem trabalhado, embora eu creia que se prolongue demasiadamente, tornando-a cansativa.

Portal Fundação – Comentários 1ª parte

09/01/2010

Antes de qualquer coisa, acho melhor voltar a abordar um assunto já tratado anteriormente.

Não tenho nem nunca tive a pretensão de me passar por um crítico literário, posto que certamente exige uma carga de conhecimento na área que não possuo. Isso não significa que não possa ter opinião, fundamentada nas impressões que cada narrativa me provoca. No caso específico dos Portais, passarei a me ater única e especificamente a cada trabalho, sem analisá-los em função do conjunto.

O que quero dizer com conjunto, neste caso?

Tenho pra mim (posso estar errado desde o início) que os Portais tinham a intenção primeira de mostrar tanto para os leitores de literatura realista, como para os de gênero, que existe vida inteligente em todas as vertentes literárias. Que as ferramentas de um podem ser úteis para o outro e vice-versa.

Na literatura de gênero valorizam mais o enredo. Na realista, valorizam mais a forma. Os Portais teriam a missão de conciliar ambas as ferramentas e mostrar ao leitor de ambos os gêneros que a união faz a força.

Por isso fui contra os experimentalismos estilísticos, os hermetismos. Para o leitor realista, um experimentalismo com linguagem de FC deve ser assustador. Para o leitor de gênero, idem. Uma boa história precisa ter… História. Precisa ser inteligível. Precisa ter uma boa trama. Precisa falar com todos os leitores e não com meia dúzia de eleitos.

De agora em diante, pelo menos em relação aos Portais, deixarei de analisar cada texto em razão de um objetivo que nem sei se existe. Vou ler cada conto como obra independente e não conciliada num coletivo literário com metas determinadas.

Assim sendo, vamos aos meus comentários:

Veja seu futuro – Ataíde Tartari

Já tinha lido esse conto antes. Gosto da prosa do Ataíde. Esse traz uma máquina especial numa loja de fotografia com o poder de mostrar o futuro às pessoas. Antecipar problemas e tentar resolvê-los na volta pode ser uma boa, mas nem sempre as coisas dão certo.

Cheiro de predador – Roberto de Sousa Causo

Continuação das aventuras de Shiroma/Bella Nunes, uma assassina implacável. Acho a narrativa do Causo cirurgicamente precisa. Mas não gosto da absoluta perfeição da protagonista. Pequenos erros de julgamento e imprecisões nos momentos de luta a tornariam mais crível. Torná-la humana nas últimas linhas não bastou. Há um trecho onde o Causo cita um spray capaz de endurecer tecidos moles. Acho pouco verossímil que isso fizesse uma camisa se transformar numa pá, já que ela não tem espessura e densidade suficientes para isso.

Estranho progresso – Richard Diegues

Bizarro, pra dizer o mínimo. Relato de um futuro distante ou de uma viagem alucinógena profunda. Cenário extravagante. Há trechos onde a compreensão fica dificultada e Isso prejudica o conjunto. Difícil abandonar a leitura. Apesar dos problemas a narrativa tem seus encantos.

A cor da tempestade – Mustafá Ali Kanso

Uma narrativa vigorosa. Lei Áurea liberta escravos, mas preconceito e racismo impedem que sejam imediatamente aceitos. É uma analogia, mas bastante adequada. Humanos e Sangarianos vivendo conflitos étnicos. Guerra com Najaris ocupa 2º plano na trama. Abordagem ética que conduz a uma espécie de lição moral. Cenário bem construído e muito boa ambientação.

Nuvem de cães-cavalos – Luiz Bras

Um conto bem escrito, mas o argumento, o cenário e a abordagem tornam, para mim, difícil aceitá-lo como ficção científica. Tirem as naves espaciais e coloquem em seus lugares carruagens, e a história terá a mesma força, sem perda de conteúdo.

O desenvolvimento insustentável do ser – Laura Fuentes

Outro conto que, para mim, não é ficção científica. Preocupações bastante contemporâneas com o progresso e suas conseqüências imediatas e futuras. Uma pequena extrapolação, inócua e poética, não justifica o gênero.
Existe um trecho que não bateu bem (sem trocadilhos): “…O sol daquela manhã mais parecia bigorna batendo no corpo sem dó…”. Bigornas não batem. Elas são o anteparo para o malho do ferro. Nem como licença poética isso me entra pela goela.

A segunda parte reunirá todos os demais contos e será postada na semana que vem.

Até lá.

Contos Imediatos – Editora Terracota

14/08/2009

Foi marcado o lançamento da antologia de ficção científica organizada por Roberto de Sousa Causo, chamada Contos Imediatos. Será em 28 de novembro de 2009, das 15 às 18h30, na Livraria Martins Fontes (Alameda Jaú, 1742) em São Paulo. Os autores – todos convidados – são: Luiz Brás, Ataíde Tartari, Sidemar V. de Castro, Ademir Pascale, Miguel Carqueija, Tatiana Alves, João Batista Melo, Chico Pascoal, André Carneiro, Jorge Luiz Calife, Mustafá Ali Kanso e este que vos escreve. Além destes autores, a antologia terá um ensaio sobre FC e FC brasileira assinado por Ramiro Giroldo, doutorando na Universidade de São Paulo.

Antes que me perguntem ou se questionem, os autores não estão concorrendo com nenhuma ajuda financeira compulsória a título de cooperação com esta antologia. Todos foram convidados e estão recebendo compensação pela participação, sinal mais do que claro de que ainda é possível enxergar alguma luz no fim do túnel.