Posts Tagged ‘Nelson de Oliveira’

Livro é livro. Nada é tão permanente.

16/03/2011

Recebi há poucos dias alguns exemplares do livro Muitas peles, de Luiz Bras e publicado pela Terracota editora, com o apoio do Governo de São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura.

Trata-se de um livreto com crônicas publicadas na coluna Ruído Branco do jornal Rascunho. Aproveito, alias, para agradecer ao Luiz pelo envio desses exemplares.

São textos que questionam, debatem, provocam e deliram. Chutam o pau da barraca. Muito mais literatura de gênero, muito mais ficção científica que outra coisa qualquer.

Leitura agradável e que faz pensar. Gosto de livros que fazem pensar.

Retirei dele um excerto (com a devida vênia do autor – não solicitada, mas presumida) que, acho, tem tudo a ver conosco enquanto autores, com todos os autores, sejam eles candidatos ou já publicados. Trata do sonho de publicar, de se tornar imortal posto que o livro permanecerá por gerações. Foi escrito por Rodrigo Lacerda, escritor e editor.

“Arrisco dizer que para a maioria dos escritores, bons ou ruins, o livro realiza antes de tudo mais um sonho de imortalidade. Se ele será considerado uma obra-prima, isso é um segundo momento de concretização do sonho, mas a publicação é o primeiro passo crucial. E não me digam que postar seu romance num blog é a mesma coisa. A virtualidade não dá as mesmas garantias da sobrevivência material do texto. E contra a morte, contra o desaparecimento da matéria que sustenta a consciência individual, nada como a tinta preta sobre o papel branco. Livro é livro. Nada é tão permanente. O espetáculo teatral passa, os filmes de menos de 100 anos atrás hoje são verdadeiros trapos velhos, precisando ser remasterizados e fotochapados, para não falar dos registros musicais, que até pouco tempo arranhavam, chiavam e disparavam pipocos para todos os lados. Um livro, para o editor, é mais um; mas para o escritor, é o sumo de sua existência.

Então, quando lhe recusam um livro, o autor ouve a recusa como se o editor estivesse dizendo: “Não vou contribuir para a sua imortalidade, vou barrar a transcendência de sua passagem pela face da Terra; você, se depender de mim, permanecerá mortal e medíocre, com sua memória sendo definitivamente enterrada dentro de duas ou três gerações de seus filhos e netos, e todas elas juntas não serão mais que um espirro do carona no banco de trás do rolo compressor da História”.

Alguém aí tem alguma dúvida da veracidade dolorosa do que foi escrito acima? Aguardo comentários.

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Portal 2001 – Lido e comentado.

14/09/2010

Ter recebido todos os cinco portais tem sido uma honra que devo a Nelson de Oliveira, a quem agradeço pela enorme generosidade.

Recentemente me inquiriram sobre os dois primeiros (Solaris e Neuromancer) e se eu os tinha lido e comentado aqui no blog. Até pensei que tinha e fui procurá-los. Com surpresa descobri que, embora os tenha lido, não os resenhei.

Fica para uma próxima encarnação, então.

Perguntaram-me também porque ainda não tinha publicado nenhum conto nos portais. Respondi que até ia publicar no Neuromancer, mas problemas financeiros súbitos me impediram. Depois acabei desistindo por optar em manter um comportamento único para todas as coletâneas pagas. Ou seja: se tenho que pagar, então não participo.

Isso não tem nada a ver com qualidade editorial ou literária. Nem se se trata de coletânea caça-níquel ou não. Apenas critério.

Quanto ao Portal 2001, recebi e o li quase numa só tacada (tá, uma tacada que demorou uns cinco dias… rs). Gostei bastante desse, talvez mais que dos demais. Ainda assim há contos que não conseguiram dialogar comigo, nada tiveram a me dizer. Assim, ignorarei a esses, não os comentando (Não significam que sejam ruins, embora alguns sejam, sim, eca!). Poupo o meu vernáculo e poupo a integridade intelectual do autor.

Vamos aos meus comentários:

A república do recurso infinito – Braulio Tavares.

Braulio Tavares é hoje uma unanimidade nacional (por mais que toda a unanimidade seja burra, segundo Nelson Rodrigues). Dono de uma verve excelente e admirável criatividade. Nesse conto ele consegue ser bastante desconcertante. A excelência levada à enésima potencia fragmenta a sociedade em compartimentos cada vez menores e burocraticamente controlados. Traz como resultado a opressividade do controle estatal sobre o indivíduo.

Arribação rubra – Roberto de Sousa Causo.

O conto é um prosseguimento de trabalhos anteriores, publicados desde o primeiro Portal. Shiroma é a protagonista, uma agente mortífera e arduamente treinada. Assassina, trata-se de uma ferramenta eficaz nas mãos de tutores inescrupulosos. Dessa vez vi uma personagem mais falível. Não tanto inatingível ou implacável. O autor revelou que por trás da carapaça de eficácia se esconde uma mulher frágil e com anseios bastante humanos. Shiroma mesmo sob um aparente fracasso, completa sua missão de forma bem sucedida. Gostei muito da ambientação e do cenário. Dos contos do Causo com essa protagonista, o melhor até agora.

A paz forçada – Mayrant Gallo.

Nesse conto, o autor explora um futuro próximo onde questões políticas aparentemente insolúveis entre países, são resolvidas com pulverizações continentais. Mostra um avanço científico e tecnológico irreal para daqui a 30 ou 40 anos. Narrativa fluida e até contagiante, porém superficial. Mostra uma nova ordem mundial geopolítica numa abordagem muito periférica.

Além do espelho – Claudio Parreira.

Bebum numa mesa de bar devaneia ou vive uma realidade que só ele é capaz de atingir. Homem desesperado pela perda da mulher a quem amava faz trato com figura misteriosa, fruto do entorpecimento de seus sentidos ou entidade fantástica. Realidade e fantasia se misturam de forma que somos incapazes de dizer qual delas domina o cenário.

Sentinela – Delfin.

Avanço científico e tecnológico permite ao homem criar clones de si mesmo, estéreis, porém. O que não se poderia supor é que essa criação se tornasse independente, reivindicando direitos que antes não possuía. O problema se torna tão emblemático que apenas a guerra poderá resolver. É quando soluções alternativas são elaboradas. Boa narrativa de viagem no tempo, linguagem consistente e boa solução, embora relativamente previsível.

Herdeiro dos ventos – Mustafá Ali Kanso.

Esse conto me surpreendeu. Bela e poética narrativa sobre a necessidade de ser livre nos atos e pensamentos, sem patrulhamento ideológico e sobre a prisão que os incompetentes, os invejosos, os frustrados e os amargos constroem ao redor daqueles que buscam a realização pessoal.

Uma carta para Guinevere – Mustafá Ali Kanso.

Homem em vias de realizar uma viagem espacial e se ausentar da Terra por séculos em voo subluminar redige a derradeira carta aos que ama. Poético como o anterior, mas não tão intenso nem tão deslumbrante.

Planetas invisíveis: Diana – Brontops Baruq.

Em fuga de crises sucessivas, povo encontra na miniaturização a solução para seus problemas até que o verdadeiro problema se torne a miniaturização. Cenário fascinante que mereceria um trabalho mais longo. Uma novela ou um romance. Criativo e admirável.

Rebobinados – Brontops Baruq.

Presidiário enviado em viagem de 1.800 anos junto a um maníaco sexual. Luta diuturna para manter a integridade física. Interessante (embora absurda) concepção de longevidade para que os protagonistas terminem a viagem ainda vivos. Bem conduzido e construído.

Prometeu acorrentado reboot – Sid Castro.

Nave terráquea encontra planeta gigante com fascinante estrutura de vida. Boa condução embora tenha sido bastante previsível. A complexidade científica apresentada escapa ao meu conhecimento.

Novo Início – Marcelo L. Bighetti.

Esse conto mexe com argumentos difíceis de deixar de lado, pelo menos para mim. Nazismo, ufologia e viagem no tempo. Trata-se por isso, de um trabalho com o condão de me prender na poltrona, logo nas primeiras linhas. Por outro lado, o autor comete alguns pecadilhos. Um deles é o de entregar o final do conto logo na quarta página, tirando qualquer surpresa do leitor. Outro se vê na aparente necessidade de enxugar o texto. Coisas ficaram mal explicadas, como, por exemplo, o que a descoberta de um disco voador com tripulantes moribundos tem a ver com uma passagem temporal (ou buraco de minhoca). O autor não explica como os cientistas chegaram às suas conclusões. Também ignora as inúmeras possibilidades de alteração de passado que redundariam em futuros os mais díspares e não apenas naquele que encerra o conto. Assim, embora o argumento seja fascinante, faltou a ele maiores explicações para que tivesse mais consistência. Como uma parede de tijolos sem argamassa. Qualquer esbarrão e vai tudo por terra.

Contato alpha 9 – Rodrigo Novaes de Almeida.

Esse conto me fez lembrar vagamente de O túnel do tempo pelo estilo de narrativa. Observadores externos assistem momentos históricos extraídos dos sonhos de humanos. Buscam por um artefato com o poder de destruir toda a galáxia. O conto traz coordenadas geográficas que tive a pachorra de verificar. Não são aleatórias (Que cada leitor faça a mesma verificação e descubra a que lugares representam). Segue um bom ritmo.

Neve e sanduiches, A gruta de Vênus, Eblon, Mãos de borracha – Maria Helena Bandeira.

Os quatro contos seguem os mesmos parâmetros dos trabalhos anteriores dessa autora. Com um pouco menos de hermetismo, talvez, mas ainda demonstram o desinteresse numa história linear, com começo, meio e fim, perfeitamente delineados. Isso não é ruim. A autora brinca com situações cotidianas em cenários alienígenas ou não, cenários bizarros ou fantásticos, mas cientificamente alterados indicando um tempo (ou realidade) além do nosso. Não são particularmente bons, mas também não são particularmente médios (ruins não são). Me deu aquele gosto de gostei/não gostei tanto. Na necessidade de classificar, opto então por um bom.

Primeiro de abril: Corpus Christi – Luiz Bras.

Cidade autoconsciente sofre ataques que visam penetrá-la, compreendê-la e, se possível, neutralizá-la. A história confusa, alegórica e aparentemente sem sentido me obrigou a erguer a suspensão de credulidade e passar a lê-la como um texto de fantasia.

Futuro do pretérito Ricardo Delfin.

Narrativa muito interessante, inteira no futuro do pretérito. Remete-nos a uma espécie de fast forward antecipando acontecimentos futuros dramáticos. Nada a ver com FC (pra mim), tem os dois pés no fantástico.

Gazeta marciana – Ricardo Delfin.

Notícias de uma Marte futurística onde o homem já a colonizou e nela construiu suas cidades. Ambiente curioso embora nada muito diferente daquilo que vivemos agora. A existência de uma civilização marciana nativa desloca o conto da FC para a fantasia, descaracterizando o cenário.

Amor perfeito – Rogers Silva.

Ode ao amor entre dois antagônicos pós-apocalipse permite inúmeras reflexões. Narrativa de orações extensas e que nos obriga a uma leitura atenta. O risco de se perder entre os dois narradores é grande. Texto muito bem trabalhado, embora eu creia que se prolongue demasiadamente, tornando-a cansativa.

Cartas do fim do mundo. Lido e comentado.

30/07/2010

A coletânea Cartas do fim do mundo, organizada por Nelson de Oliveira e Claudio Brites e publicada pela Terracota Editora parte de uma premissa que considero excelente. Imagine que o mundo vai acabar no dia 31 de julho de 2013 (bem no dia do meu aniversário) e você decide escrever uma carta para alguém, seja familiar, amigo, conhecido, desconhecido ou para ninguém, apenas um relato solitário e histórico dos momentos angustiantes que precedem o fim.

Celeiro de ideias incríveis, o mote nos suscita argumentos variados.

Até preferia que autores reconhecidamente realistas mantivessem o foco no gênero em que se estabeleceram e consagraram. Não sei se a sugestão de adentrarem no terreno da FC foi objetiva ou subjetiva. Se houve uma sugestão direta ou se isso ficou no ar, meio que uma proposição vaga e não obrigatória.

O que aconteceu foi que autores chapinharam no inverossímil ao tentar acrescentar uma especulação científica qualquer às narrativas que, sem elas, evoluiriam muito bem. De qualquer maneira, os textos são bons. Aconselho aos leitores de gênero que ignorem sugestões de naves mães conduzindo um êxodo de humanos para planetas distantes em pleno ano 2013. Ou essas sugestões se ancoram numa realidade alternativa muito mal sugerida, ou são arroubo fantasioso, talvez motivado pela angústia provocada pelo fim do mundo iminente.

Há, claro, narrativas de FC genuína. E essas, escritas por quem entende do assunto, graças aos deuses.

Segue abaixo um por um dos contos, alguns com meus comentários:

1- Raimundo Carrero – Entre fogo e gelo – 31 de julho de 2013

Um desolado relato do que restou do mundo, entremeado das reminiscências do protagonista. Texto condoído que revela muito da insensibilidade humana diante do inevitável.

2- Marcio Souza – Ipanoré Cachoeira – 31 de julho de 2013

Lenda indígena explica o fim do mundo.

3- Braulio Tavares – Campina Grande – Agosto 2014

Presente e futuro (ou passado e futuro) ligados por um comunicador quântico. Fim do mundo anunciado, improrrogável e inevitável.

4- Moacyr Scliar – Porto Alegre – 10 de agosto de 2013

Conto que relata o fim do mundo para um e não para todos. Homem que crê em novo dilúvio universal refugia-se em local que acredita seguro. Mas o fim sempre nos encontra onde quer que nos escondamos.

5- Marcelino Freire – Sertânia – 31 di Julio di 2013

Homem do sertão narra o fim do próprio mundo onde o mundo acaba todos os dias. Marcelino insere uma viagem à lua perfeitamente dispensável. A realidade concreta de um homem habituado à luta diária pela sobrevivência  sequer cogita viagens espaciais.

6- Xico Sá – São Paulo – 31 de julho de 2013

Crônica cotidiana, reclamações e constatações. Fim do mundo aguardado com festividade e desdém num botequim.

7- Menalton Braff – Terra, 30 de junho de 2013

Distopia revela um planeta completamente esgotado. Humanidade regride às suas condições mais primitivas. Especulação inverossímil. Muito pouco tempo para que tal magnitude de degradação nos atingisse.

8- Luis Dill – Londres – 31 de julho de 2013

Droga psicotrópica nova demonstra poder muito acima das expectativas. Viagem no tempo e o fim do mundo explicado de maneira muito convincente.

9- Marne Lucio Guedes – Mundo – 31 de julho de 2013

Conto intenso. Homem liberto da fé a que se entregou avidamente ao tomar conhecimento do fim do mundo mergulha no vício e na degradação. Texto forte e muito bem trabalhado.

10 – Moacyr Godoy Moreira – São Paulo – 31 de julho de 2013

Criminoso em penitenciária se penitencia ao irmão pio. Alusão a êxodo humano em busca de novos planetas põe o conto em xeque. Inverossímil, embora pungente.

11 – Brontops Baruq – Metrópolis – 30 de julho de 2013

Já publicado num dos Portais. Conto cru, pragmático e pungente. Lamento ter sido alterado. Provavelmente uma exigência editorial que não esconde a sombra pútrida da censura, mesmo que razões internas tentem justificar.

12- Claudio Brites – Cidade desconhecida – 3 de agosto de 2013

Conto narrando um final de mundo que me faz lembrar vagamente de Blecaute de Marcelo Rubens Paiva e Escuridão de André Carneiro. Junte alguns gigantes e voilá! Uma narrativa enlouquecida do último homem (zumbi?) sobre a terra.

13 – Luiz Bras – São Paulo – 31 de julho de 2013

Homem do futuro envia carta a homem do passado. Pequeno detalhe: trata-se do mesmo homem. Fim do mundo prenuncia revolta de cupins, baratas e (trecho ilegível). Construa uma (trecho ilegível) ou morra dolorosamente.

14 – Fausto Fawcett – 31 de julho de 2013

Firma promotora de apocalipses mata o leitor desavisado com verborragia intensa e coordenada e deixa o senhor Armageddon em maus lençóis. Os pólos magnéticos continuam numa boa, os ventos solares também, mas acho que precisarei passar uma temporada numa câmara hiperbárica.

Livros recebidos para leitura e comentários.

19/07/2010

Um querido e talentoso autor, a quem muito admiro, deixou-me, pessoalmente, essas preciosidades para leitura. Dois livros da Terracota e dois da Andross. Não vou negar que sempre tive vontade de ler os livros da Andross, as famosas coletâneas caça-níqueis, mas nunca tive coragem de investir um centavo que fosse na empreitada. Recebê-los, agora, foi, para mim, um grande prazer e a realização de um desejo.

Realizar desejos nem sempre é bom (cuidado com o que desejas, podes acabar conseguindo). Espero que eu não me arrependa.

Aguardem para breve meus comentários.

De Bar em Bar entrevista Luiz Bras.

22/04/2010

A rua estava uma confusão. Viaturas espalhadas pelos quatro cantos, multidão espremida contra os cordões de isolamento. Rádios soltando chiados de estática enquanto guardas solícitos respondiam a chamados ou faziam solicitações. Um monte de focas disputavam cada informação possível, espocando os flashes ao menor movimento policial. Observei o prédio diante de mim. Dezesseis andares, fachada envelhecida, pintura rachada. Janelas de madeira pintadas de verde. Uma combinação horrorosa.

Céu fuliginoso, com nuvens carrancudas.

Estava vestindo um sobretudo cinza, longo. Chapéu de abas curtas, sapato preto precisando uma boa engraxada. Sentia-me o próprio Al Capone. Ao meu lado, um sujeito com cabelo cortado rente, óculos grossos de grau, rádio na mão, ansioso, quase pululando ao meu redor.

Observei o cenário tentando me situar dentro dele. Puxei pela memória.

— Está lá dentro faz quarenta minutos, Tenente – disse o escovinha – o zelador deu o alarme. Foi direto para o apartamento.

— Quem? – perguntei confuso.

— Luiz Bras – disse o sujeito, olhando para mim com certa perplexidade.

Então comecei a entender algumas coisas. Estava no Bar do Joe comendo umas rosquinhas e bebendo café quando o rádio da viatura começou a tossir. Alguém ligou para a polícia delatando a presença de um assassino procurado. Pensei em não atender, mas a chefatura chamou por mim diretamente devido ao meu especial talento em negociações. Engoli a rosquinha de qualquer jeito e agora estava ali, diante daquele prédio decadente.

Ultimamente as coisas estavam mesmo tranqüilas na cidade. Pequenos delitos e contravenções. Assassinos eram raros naquelas paragens. Serviam para dar um pouco mais de sabor ao dia a dia.

— Temos alguns homens posicionados no prédio em frente, ali e ali – apontou o sujeito cujo nome era Norton – são franco-atiradores. Acompanhei o olhar dele até lá em cima e vi cabecinhas se movendo além dos parapeitos.

— Alguns homens estão diante do apartamento, apenas aguardando suas ordens.

Apalpei a algibeira. A arma estava lá.

— Não faça nada. Vou lá em cima tentar chamar o homem à razão.

Norton deu um sorrisinho.

— Gosto quando você faz isso. É divertido – ele disse, empurrando os óculos mais para cima no nariz.

— Onde está a diversão em negociar rendições?

— Você é um miserável… Mata todos, sempre.

— Assassinos não merecem viver, rapaz.

Passei por baixo do cordão de isolamento, retirando um lenço do bolso e limpando um pouco do suor do rosto. Olhei para o relógio e levei um susto com o maquinário que tinha no pulso. Não me lembrava de ter um relógio tão estiloso e com tantos botões.

Alguns policiais se afastaram diante da minha chegada. Olharam para mim com respeito. Eu era o matador de foragidos. Uma fama não muito popular com os políticos, mas bastante apreciada pelo populacho. Tirei o revólver do bolso e chequei o tambor. Com sorte não precisaria mais do que duas balas de todas as seis disponíveis.

Enquanto esperava o elevador fui rememorando as informações que tinha do bandido… Luiz Bras, escritor premiado, organizador de antologias, crítico literário. Tinha um livro dele em casa. Babel Hotel. Presente de uma ex-namorada. Esses escritores pensam que são os donos do mundo. Assassino de Nelson de Oliveira. Outro escritor. Que se matem, todos. Assim ficamos livres dessas histórias idiotas que inventam. Foragido há dias, temeu-se que tivesse fugido do país. Voltou para casa, num movimento idiota e inesperado. Mas se não fosse o zelador denunciá-lo, aquele seria o último lugar em que o procurariam.

O elevador chegou ao nono andar e abriu a porta. Dei de cara com três policiais bonachões. Dois deles tão gordos que poderiam pular pela janela. Quicariam no chão sem ferimentos.

— Caiam fora – disse num murmúrio mal humorado. Era hora de começar a vestir o disfarce de policial malvado. Eles deram de ombros, recolheram suas coisas e desceram com o elevador, levando aquela caixa barulhenta para longe dali.

Observei a porta do apartamento noventa e oito. Folha oca de madeira. Não resistiria a um chute com meia força. Encostei-me à parede ao lado dela. Retirei do bolso um maço de cigarros e fiz uma careta enquanto retirava um e o acendia. Dei uma tragada funda e soltei a fumaça devagar, vendo-a esvanecer, rapidamente desfeita por uma corrente de ar que soprava pelo vão livre da escadaria. Pigarreei e dei duas batidinhas na porta, a guisa de boa educação. Não ia derrubá-la sem antes lembrar ao fugitivo de que o negociador havia chegado.

— Luiz Bras! – chamei. Não tive nenhuma resposta.

— Escritor, não é? Deve ser fascinante… – engoli em seco. Estava prestes a afirmar uma coisa que não sentia nem acreditava. Mas era parte do ofício mentir bem –… Construir mundos e dirigi-los como um Deus. Isso deve fazê-lo se sentir bem.

O danado manteve o silêncio. Cocei o bigode que não tinha e mordi o lábio superior. Voltei a aproximar a mão esquerda da porta para mais duas batidinhas rápidas. Ia irritá-lo antes de dar um fim àquela lengalenga. Um disparo me conteve. Empalideci. Um buraco na porta, centímetros da minha mão. Recolhi-a, estremecendo. Tremendo filho da puta, esse Luis Braz.

— Quer complicar as coisas, hein, seu merda? – saquei meu revólver, agachei devagar me colocando de cócoras. Apontei a arma de baixo para cima num ângulo aproximado de sete ou oito graus e puxei o gatilho duas vezes. Puto da vida por gastar mais balas do que havia pretendido inicialmente. Ouvi um estalido, cacos se espalhando e o homem praguejar.

— Era o vaso de vovó – falou o homem, saindo finalmente de seu mutismo – e vovó amava esse vaso!

Bizarro. Trocávamos tiros e o homem lá dentro se preocupava com o vaso da vovó.

— Que tal sair daí com as mãos para cima? – instiguei-o a se entregar. Estava pensando no Bar do Joe e em mais algumas rosquinhas.

— E por quê? O que fiz?

Era normal que assassinos não se achassem criminosos. Que considerassem seus crimes atos de benevolência, realizados em prol da humanidade.

— Matou Nelson de Oliveira – Sempre me senti um idiota em reafirmar aos criminosos os seus crimes. Como crianças que a gente precisa ficar lembrando de suas peraltices.

— Eu não o matei. Não nesse sentido. Pra quê a polícia? Pra que tudo isso? Que porra de loucura é essa toda?

Estava na hora de trocar de disfarce. Tirar o de policial malvado e colocar o de policial psicólogo. O cara não se achava um assassino. O que eu disse sobre eles não se acharem criminosos? Bingo!

— Quem foi Nelson de Oliveira? Quem é Luiz Bras? – perguntei enquanto mastigava carinhosamente a bituca de cigarro e coçava atrás da orelha com o cano do revólver.

— Nelson de Oliveira foi o cara dos contos de humor negro e dos romances nem um pouco realistas, com longos trechos delirantes, em que o estranho e o nonsense dão as cartas. Luiz Bras é o cara que leu apaixonadamente Kafka, Cortázar e García Márquez, mas jamais perdeu o tesão por Ray Bradbury, Asimov e Philip K. Dick, autores que ele leu antes de ler todos os outros, na adolescência, e continua relendo até hoje. O primeiro publicou, de 1997 a 2009, catorze livros de ficção mainstream. O segundo publicou até agora dezenove livros para jovens leitores, a maioria escrita a quatro mãos com Tereza Yamashita, e vai lançar ainda este ano sua primeira coletânea de contos para o público adulto, intitulada Paraíso líquido. Aquele abandonou a prosa de ficção em 2009 pra se dedicar exclusivamente à teoria literária, à organização de antologias temáticas e às oficinas de criação literária. Este abraçou pra valer a ficção científica e a fantasia, gêneros que pretende exercitar fervorosamente até que a morte o separe dos livros.

Fiquei embasbacado com a verborragia. O homem resolveu falar. Ri intimamente com a crença de que o cara ainda acreditava que iria lançar alguma coisa esse ano. Mas acertou em cheio quando vaticinou a própria morte o separando dos livros. Voltei a olhar para o relógio e imaginei quantos minutos ainda faltavam para dar um tiro na cara do sujeito.

— Braulio Tavares diz que opor o realismo à FC é como opor o jazz aos Beatles. Para ele, não faz sentido. Não se excluem, se completam mutuamente. Essa é uma opinião divergente do que se escuta e lê por aí. Você mesmo apregoa a necessidade do realismo se render à riqueza do gênero e buscar nele fontes de inspiração. São pensamentos conflitantes ou você vê convergência de opiniões?

Terminei a pergunta e senti o ar me faltando. Mas que merda de pergunta era essa? De onde eu havia tirado essa questão?

— É o Tibor que está aí fora? – perguntou o Luiz – é você, não é? Que porra é essa? Que está acontecendo? Porque a polícia está atrás de mim? Era pra ser uma entrevista, não uma caçada!

Tibor? Tibor? Quem é esse Tibor?

— Responda logo, carajo! – agarrei-me à parede, tonto. Joguei a bituca pelo vão livre da escadaria. Alguma coisa estava muito errada e eu não sabia o quê.

— Concordo com o Braulio, não faz sentido algum opor Thelonious Monk aos Beatles, ou John Coltrane ao Pink Floyd. Esse tipo de antagonismo é tolo, porque empobrece o indivíduo, que acaba perdendo uma boa oportunidade de conhecer esferas poéticas diferentes. Mas no mundo em que eu vivo, habitado praticamente por autores, professores e leitores de alta literatura, é isso o que acontece: a oposição burra. Nesse meu mundinho, tudo o que não é Clarice Lispector ou Guimarães Rosa não tem valor. A questão é que eu vejo o mesmíssimo valor também no Dick e no Bradbury. E não suporto mais os mesmos velhos temas sendo tratados e retratados infinitamente pelo mainstream: a periferia das grandes cidades, as crises conjugais, a juventude transviada, o artista e seu umbigo, a boçalidade da classe média etc. Digo que esses escritores precisam renovar o estoque de assuntos. E voltar a se preocupar tanto com o enredo, tido como elemento menos importante em um conto ou romance contemporâneos, quanto com a bendita forma literária.

Agachei-me até ficar de cócoras. Sentia um formigamento insistente na ponta dos dedos e um tremor estranho na língua. Um buraco no estômago, também. Estava nervoso e não sabia por quê. Assuntos fervilhavam na minha cabeça, perguntas que eu precisava fazer para aquele cara. Mas eu não entendia de onde as questões surgiam.

— Nelson de Oliveira bebeu em fontes da FC muito antes de surgir o Luiz Bras. A antropofagia que fez eclipsar o Nelson, certamente trabalhou com a absorção dessa cornucópia de conhecimentos anteriores. Luiz Bras é hoje um autor mais preparado territorialmente (dentro das áreas do gênero e do mainstream) que Nelson de Oliveira? Luiz Bras veio definitivamente pra ficar?

Fiz a pergunta e deixei-me cair sentado no corredor. O suor começava o porejar em minha fronte. Olhei o relógio e o estranhei ainda mais.

— É o Tibor, né? – perguntou Luiz Bras, insistente.

Levei as mãos à cabeça, confuso.

— Essa é uma realidade alterada, cara. Lembra? Seu relógio quântico. Esse que deve estar no seu pulso. É ele que cria essas distorções. Você não é um policial. Eu não sou um assassino. Sou só um escritor tentando responder a uma entrevista. Você é um entrevistador, mas também escritor.

Ofeguei, nessa hora. Eu, escritor? O babaca estava tentando me confundir.

— Há dois anos Nelson sentiu que já não tinha mais nada a dizer, pelo menos não na forma de um conto ou de um romance – começou Luiz Bras – Ele percebeu que o ciclo iniciado com seu primeiro livro, Naquela época tínhamos um gato, havia se encerrado com o último, Babel Babilônia. Foi quando eu assumi pra valer o controle de nossa mente, ao menos no campo ficcional. Não posso garantir que hoje eu seja um autor mais preparado territorialmente, mas estou convencido de que sou um autor mais maduro, melhor paramentado para o combate. Já não caio nas mesmas armadilhas em que caía na década de 90. Perdi todas as ilusões românticas relacionadas ao mundo literário, posso até dizer que troquei a visão religiosa pela darwinista. Hoje eu vejo claramente todos os nuances da luta de classes literárias que sacode o mercado editorial. Mas estou falando de um darwinismo não-determinístico, se isso é possível. Em comunhão com os filósofos, os matemáticos e os físicos de hoje, acredito que o sucesso é governado por uma conspiração de fatores pequenos e aleatórios, isto é, pelo acaso, pela sorte. Talento e determinação são e serão sempre necessários, é claro. Mas sem sorte você não atravessa a rua.

Levantei-me não sem pouca dificuldade. Estava apalermado com a ousadia do desgraçado que tentava me perturbar, acusando-me de ser quem não era. Mas não pude evitar olhar para o relógio uma enésima vez. Era estranho e não me lembrava dele. Onde o tinha comprado? Precisava virar o jogo, precisava fazê-lo confessar. Precisava ser hábil.

— O recurso de um heterônomo, além de evidenciar a supressão de uma de suas personalidades, denota uma espécie de “assassinato”. Você está preparado para viver com sentimentos de culpa? Ou isso não o preocupa de jeito nenhum?

Luiz Bras se manteve quieto alguns instantes. Senti que a cabeça dele devia estar fervilhando com a questão. A resposta seria determinante para minha ação seguinte.

— Concordo com a metáfora do assassinato. Quando empurrei o ficcionista Nelson de Oliveira da borda do abismo, a sensação de liberdade foi tão grande que na hora eu não pensei na culpa. Eu precisava de mais espaço e ele estava atrapalhando, um dos dois tinha que desaparecer. Sobrou o outro, o Nelson ensaísta e professor de literatura. Talvez por isso mesmo, pelo fato de ter sido meio assassinato, o sentimento de culpa pelo crime ainda não tenha aparecido.

Bingo! Ele havia confessado.

Não perdi mais tempo. As palavras ainda ressoavam quando me afastei meio passo da porta e acertei nele um violento coice. Arma nãos mãos me atirei para dentro. Cambaleei desnorteado até trombar com uma poltrona. Luiz Bras estava atrás dela, agachado, pernas flexionadas, cabeça baixa, quase entre os joelhos. Uma posição típica de alguém com evidentes sentimentos de culpa. Caí rolando sobre ele, tentei firmar o revólver na mão, mas ela estava escorregadia. Agarramo-nos pelas lapelas, abraçamo-nos furiosamente e começamos a rolar pelo chão. Eu tentava virar o punho de forma a apontar a arma para a cabeça dele. Ele tentava virar o próprio, aparentemente com a mesma intenção. Grunhíamos, resfolegávamos, sibilávamos um contra o outro.

— Escritor de merda. Assassino miserável. Vou te matar!

— Realidade alterada… Realidade alterada… O relógio… O botão.

Minha arma disparou. A bala resvalou no chão, ricocheteou na parede atrás de nós e atravessou o tubo da televisão, provocando um rápido estrondo.

— Um escritor a menos no mundo! Você vai ver…

— O botão, merda! O botão!

Consegui virar a arma do jeito que eu queria. Seria o quarto disparo. Dois a mais que o planificado. Mas esse seria mortal e definitivo. Apertei o gatilho ao mesmo tempo em que ele desvencilhou uma das mãos e agarrou meu relógio, apertando os botões de maneira desencontrada.

Escutei a explosão do disparo enquanto me sentia sugado como que por um aspirador de pó gigante. Girei e rodopiei até perder os sentidos.

Fui despertar tempos depois, em casa. Estava perturbado, com as idéias atrapalhadas. Mas me lembrei pouco a pouco do acontecido. Fiquei aterrorizado quando me dei conta de que a alteração de realidade havia reprogramado minha própria identidade. Soube que o Luiz Bras estava bem. Sem ferimentos, fora o evidente trauma. As entrevistas estão cada vez mais perigosas. Considero a possibilidade de cancelar as próximas.

Portal Fundação – Comentários 2ª parte.

12/01/2010

Animmalia – Giulia Moon e Roberto Melfra

Esse conto traz um cenário exótico, pra dizer o mínimo. Inusitado também. Animais objetos de estudo de uma empresa de entretenimento desenvolvem mais que simples respostas a alguns comandos pré-estabelecidos. Matam em defesa própria. Uma narrativa bem fluente e trama detetivesca divertida e bem conduzida.

Habeas mentem – Ricardo Delfin

Esse é, ao meu entender, o conto mais fraco desse Portal. Narrativa apressada, confusa e equivocada em alguns momentos.
O autor desse conto foi fagocitado pela idéia (parafraseando o Braulio Tavares) e esqueceu de que estava fazendo literatura. Apresentou-nos a ideia e esqueceu-se de contar a história.

Sob as sete luas de sirena – Luiz Roberto Guedes

Ótimo conto. Ficção científica e horror numa trama muito bem ambientada.

O guarda-mor, a urutu dourada e o disco voador – Martha Argel

Conto em ritmo de “causo”, dando uma explicação bastante criativa para a existência de OVNI’s em regiões rurais, praticando abduções. Narrativa bastante divertida. Um bom conto.

A pescaria – Maria Helena Bandeira

Cenário exuberante, mas um conto incompreensível.

Até acabar este cigarro – Maria Helena Bandeira

Vixe…

Parállaxis – Maria Helena Bandeira

Qual é…

Opções imperfeitas – Maria Helena Bandeira

Cartoon Network rules.

Sol velho – Maria Helena Bandeira

Um conto perturbador. Cenário inquietante, perspectiva assustadora. Gostei muito.

Deslocalidade – Marco Antonio de Araújo Bueno

Já tinha lido esse conto antes, creio que no blog do autor. Muito bom. Cenário distópico perturbador. Narrativa muito bem conduzida. O Marco é um artesão da palavra, só fico puto quanto ele resolve liberar seu lado lisérgico e extrapola na punhetação.

Eu? – Marco Antonio de Araújo Bueno

Cadê a FC? Todo o traço de ficção científica devia estar dentro do lápis vermelho. Como não achou o lápis, não achou o traço. Ficou só o blá-blá-blá.

O prelo – Marco Antonio de Araújo Bueno

Olha a punhetação, aí.

Índex – Rodrigo Novaes de Almeida

Muito chato. Parei de ler duas páginas antes do fim.

Corpo seco – Leandro Leite Leocádio

Cadê a FC? Ainda no traço do lápis vermelho que desapareceu. Corre que o Seco pega!

O cérebro – Leandro Leite Leocádio

Conto bastante interessante e com abordagem original. Passa pela FC de raspão. Gostei.

O homem que parava o tempo – Leandro Leite Leocádio

Poesia transformada em prosa (proposital). Pra mim, não funciona. Fica parecendo um texto cheio de rimas e ecos; falhas de estilo.

Sésamo, bananas e kung-fu – Brontops Baruq

Bem escrito, mas passei batido pela leitura. Não me fisgou.

(hipocampo) – Brontops Baruq

Bom exemplo de que rigor narrativo, precisão de estilo e atenção à forma não impedem o desenvolvimento de uma boa história.

(história com desenho e diálogos) – Brontops Baruq

O autor mostra que tem talento para causar perturbação. Drama familiar durante ataque alienígena em guerra contra a humanidade. Um ótimo conto em ritmo de diário ou de literatura apócrifa.

Portal Fundação – Comentários 1ª parte

09/01/2010

Antes de qualquer coisa, acho melhor voltar a abordar um assunto já tratado anteriormente.

Não tenho nem nunca tive a pretensão de me passar por um crítico literário, posto que certamente exige uma carga de conhecimento na área que não possuo. Isso não significa que não possa ter opinião, fundamentada nas impressões que cada narrativa me provoca. No caso específico dos Portais, passarei a me ater única e especificamente a cada trabalho, sem analisá-los em função do conjunto.

O que quero dizer com conjunto, neste caso?

Tenho pra mim (posso estar errado desde o início) que os Portais tinham a intenção primeira de mostrar tanto para os leitores de literatura realista, como para os de gênero, que existe vida inteligente em todas as vertentes literárias. Que as ferramentas de um podem ser úteis para o outro e vice-versa.

Na literatura de gênero valorizam mais o enredo. Na realista, valorizam mais a forma. Os Portais teriam a missão de conciliar ambas as ferramentas e mostrar ao leitor de ambos os gêneros que a união faz a força.

Por isso fui contra os experimentalismos estilísticos, os hermetismos. Para o leitor realista, um experimentalismo com linguagem de FC deve ser assustador. Para o leitor de gênero, idem. Uma boa história precisa ter… História. Precisa ser inteligível. Precisa ter uma boa trama. Precisa falar com todos os leitores e não com meia dúzia de eleitos.

De agora em diante, pelo menos em relação aos Portais, deixarei de analisar cada texto em razão de um objetivo que nem sei se existe. Vou ler cada conto como obra independente e não conciliada num coletivo literário com metas determinadas.

Assim sendo, vamos aos meus comentários:

Veja seu futuro – Ataíde Tartari

Já tinha lido esse conto antes. Gosto da prosa do Ataíde. Esse traz uma máquina especial numa loja de fotografia com o poder de mostrar o futuro às pessoas. Antecipar problemas e tentar resolvê-los na volta pode ser uma boa, mas nem sempre as coisas dão certo.

Cheiro de predador – Roberto de Sousa Causo

Continuação das aventuras de Shiroma/Bella Nunes, uma assassina implacável. Acho a narrativa do Causo cirurgicamente precisa. Mas não gosto da absoluta perfeição da protagonista. Pequenos erros de julgamento e imprecisões nos momentos de luta a tornariam mais crível. Torná-la humana nas últimas linhas não bastou. Há um trecho onde o Causo cita um spray capaz de endurecer tecidos moles. Acho pouco verossímil que isso fizesse uma camisa se transformar numa pá, já que ela não tem espessura e densidade suficientes para isso.

Estranho progresso – Richard Diegues

Bizarro, pra dizer o mínimo. Relato de um futuro distante ou de uma viagem alucinógena profunda. Cenário extravagante. Há trechos onde a compreensão fica dificultada e Isso prejudica o conjunto. Difícil abandonar a leitura. Apesar dos problemas a narrativa tem seus encantos.

A cor da tempestade – Mustafá Ali Kanso

Uma narrativa vigorosa. Lei Áurea liberta escravos, mas preconceito e racismo impedem que sejam imediatamente aceitos. É uma analogia, mas bastante adequada. Humanos e Sangarianos vivendo conflitos étnicos. Guerra com Najaris ocupa 2º plano na trama. Abordagem ética que conduz a uma espécie de lição moral. Cenário bem construído e muito boa ambientação.

Nuvem de cães-cavalos – Luiz Bras

Um conto bem escrito, mas o argumento, o cenário e a abordagem tornam, para mim, difícil aceitá-lo como ficção científica. Tirem as naves espaciais e coloquem em seus lugares carruagens, e a história terá a mesma força, sem perda de conteúdo.

O desenvolvimento insustentável do ser – Laura Fuentes

Outro conto que, para mim, não é ficção científica. Preocupações bastante contemporâneas com o progresso e suas conseqüências imediatas e futuras. Uma pequena extrapolação, inócua e poética, não justifica o gênero.
Existe um trecho que não bateu bem (sem trocadilhos): “…O sol daquela manhã mais parecia bigorna batendo no corpo sem dó…”. Bigornas não batem. Elas são o anteparo para o malho do ferro. Nem como licença poética isso me entra pela goela.

A segunda parte reunirá todos os demais contos e será postada na semana que vem.

Até lá.

E as coisas retornam aos seus lugares.

04/01/2010

As festas de fim de ano passaram, e as coisas voltam à normalidade. O É só outro blogue ficou algum tempo sem nenhuma atualização, respeitando meu recesso, embora, acreditem, eu tenha me sentido muitas vezes atraído em postar algumas coisas.

Me contive, em nome de um descanso necessário.

Agora vou retornando aos poucos, já que ainda estou de férias e isso me afasta bastante do contato virtual, limitando meus acessos a poucos minutos por dia (juro). Até dia 18 postarei esporadicamente. Depois disso, diariamente, ou quase.

Trago dois links. Num deles uma crítica bastante ácida de Rodrigo Novaes de Almeida ao meu conto Cibermetarealidade, da coletânea Contos imediatos, da Terracota Editora e organizado por Roberto de Sousa Causo. Publicado em seu Blog no dia 14 de dezembro, só fui tomar conhecimento dele no dia 02 de janeiro. Fiquei feliz em saber que ele dedicou ao meu conto quase o dobro de atenção que destinou a cada um dos demais. Sinal claro de que chamo a sua atenção, de uma forma ou outra. Muito obrigado, Rodrigo. Sua opinião – como a de todos – é importantíssima.

http://rodrigonovaesdealmeida.blogspot.com/2009/12/contos-imediatos-comentarios.html

Noutro, um site polonês dedicado à literatura de gênero, mais especificamente o Steampunk, relaciona meu livro O peregrino como lançamento futuro, para 2010. Bom ser citado internacionalmente. Faz-nos ver que temos alguma visibilidade, mesmo que quase insipiente.

http://steampunk.republika.pl/chrono03pl.html

Fora isso, vou anunciando para breve meus comentários sobre o Portal Fundação editado por Nelson de Oliveira e para o livro de Rodrigo Rosp, Fora de lugar, publicado pela Não editora.

Que todos tenham um excelente 2010. Que seja repleto de novos lançamentos, de relançamentos e de projetos vários que eclodam nos anos vindouros.

Viva!

Portal Fundação em mãos.

18/12/2009

Recebi ontem, quinta-feira, o quarto volume do projeto Portal, organizado por Nelson de Oliveira. Ainda não comecei a lê-lo, mas considerando que acabo de entrar em férias compulsórias, terei razoável tempo para isso.

O tratamento editorial está muito bom, a capa bonita. O projeto vem evoluindo paulatinamente. Chegará ao ponto de perfeição quando, por fim, se encerrará.

Os autores dessa edição, são: Ataíde Tartari, Brontops Baruq, Giulia Moon, Laura Fuentes, Leandro Leite Leocadio, Luis Bras, Luis Roberto Guedes, Marco Antonio de Araújo Bueno, Maria Helena Bandeira, Martha Argel, Mustafá Ali Kanso, Nelson de Oliveira, Ricardo Delfin, Richard Diegues, Roberto de Sousa Causo, Roberto Melfra, Rodrigo Novaes de Almeida.

Claro que deixarei neste blog os meus comentários. Sem eles não terá a menor graça (nem para mim, nem para os que me apedrejam).

Cartas do Fim do Mundo. É amanhã!

11/12/2009

Não deixem de comparecer ao lançamento que será amanhã, 12 de dezembro, as 15h, na livraria Martins Fontes da Av. Paulista, 509 – pertinho do metrô brigadeiro.

Organizado por Claudio Brites e Nelson de Oliveira, o livro publicado pela Terracota Editora reúne treze cartas de autores novos e consagrados, escrita lá do fim dos tempos. Mais precisamente do dia 31 de julho de 2013, quando o mundo realmente terá seu fim.

Há ainda uma carta apócrifa e um artigo científico da Dra. Nicole Hudson, traduzido pelos organizadores, que trata dos documentos antigos de várias civilizações e de seus indícios sobre o fim dos tempos e sobre a data supracitada.

Os autores são: Moacyr Scliar, Raimundo Carrero, Marcelino Freire, Márcio Souza, Fausto Fawcett, Braulio Tavares, Xico Sá, Menalton Braff, Luis Dill, Luiz Bras, Marne Lucio Guedes, Brontops Baruq, Moacyr Godoy Moreira e Claudio Brites.

Nada melhor que um excelente livro para fechar um ano que foi pra lá de bom na literatura de gênero nacional.