Posts Tagged ‘O Peregrino’

E as boas resenhas não param!

29/04/2011

Meu romance O Peregrino tem recebido avaliações muito boas dos leitores brasileiros. O bastante para me fazer acreditar que acertei a mão ao escrevê-lo. Foram, afinal, cerca de seis meses de trabalho, numa imersão total, que inclui desde os primeiros esboços do livro com o acompanhamento dos leitores beta até o período de finalização onde todos os apontamentos foram observados e corrigidos.

Alguns capítulos desapareceram inteiros, dando lugar a outros ou simplesmente jogados fora. Mexi e remexi muitas vezes e ainda fiz passar por mais duas leituras beta depois das duas primeiras e das correções necessárias que essas leituras apontaram.

Ou seja, O Peregrino deu bastante trabalho mas foi altamente recompensador. Além das resenhas positivas feitas por Cesar Silva, Daniel Borba e Álvaro Domingos, soma-se a elas, agora, a resenha feita por Larry Nolen, editor e crítico Norte-Americano.

Ele destaca, principalmente, a qualidade da minha prosa, comparando-a, em alguns aspectos, com a de Cormac McCarthy, coisa que obviamente me deixou bastante satisfeito.

Você pode lê-la no original, aqui. Ou pode ler o texto colado abaixo, em bom português:

OfBlog – Tibor Moricz, O Peregrino (The Pilgrim)

Uma escuridão imensa.  Silêncio.  Um nada absoluto.  Foi assim por um tempo desconhecido.  Até que se iniciou um rumorejar.  Como água correndo pelo leito de um rio.  De começo uma correnteza leve.  Depois uma enxurrada que sai arrastando tudo o que encontra pelo caminho.  Estava mergulhado nela, sendo arrastado.  Ora submergindo, indo até as profundezas mais densas, ora explodindo na superficie, procurando por ar.  A água corria por leitos impenetráveis.  Embora estivesse sendo conduzido violentamente para algum lugar, era-lhe impossível determinar o seu destino.  Era-lhe impossível determinar qualquer coisa, porquanto a escuridão ainda imperasse. (p. 9)

A passagem de abertura do romance do escritor brasileiro Tibor Moricz, O Peregrino: Em Busca das Crianças Perdidas (2011) chama a atenção pela rigidez. Ao longo do primeiro terço desse romance curto (196 páginas), a narrativa de Moricz está repleta de frases curtas e afiadas que ilustram a dureza da terra pela qual perambula o peregrino do título. Esta terra é uma visão do Velho Oeste americano no século 19, através dos olhos de um estrangeiro. A leitura foi interessante pelo tanto de estranheza que causou em alguns momentos.

A história que Moricz escreveu sobre o peregrino (seu nome, embora revelado na narrativa, vai permanecer em segredo para os poucos que desejem ler o livro em português) captura essa sensação de brutalidade e estranheza no mundo que tantas vezes inspira outros a vaguearem em direção a seu abraço implacável. Não é uma história simples; há alguns apartes e passos em falso que encontrei enquanto lia. Mas foi uma história que prendeu minha atenção ao longo da narrativa.

O que mais gostei em O Peregrino foi a prosa de Moricz. Ele usa passagens curtas e descritivas para expor a sua versão do oeste americano de uma maneira que, às vezes, me fez lembrar de Cormac McCarthy. Isso não quer dizer que suas histórias sejam parecidas, mas sim que suas narrativas compartilham uma brutalidade que chega a ser semelhante. A escuridão está presente o tempo todo neste romance, desde as primeiras linhas até o final. Em alguns pontos, há um pouco de luz, mas são momentos que servem apenas para enfatizar a desolação que encontrei em várias cenas.

Um problema que tive foi com os nomes. Talvez devido a ser um escritor estrangeiro (ao menos para mim), os nomes utilizados por Moricz para várias pessoas soaram um pouco fora — às vezes inadequados — de lugar. Mas, novamente, essa sensação de “fora de lugar” não prejudicou a narrativa, mas deu-lhe uma espécie de sensação estranha ou transposta, como se o Oeste americano não fosse aquele lugar onde mitos são criados, com o qual já estou acostumado, mas tivesse sido transformado em algo menos familiar e ligeiramente mais ameaçador. Esta qualidade fez de O Peregrino um trabalho imaginativo agradável, apesar de pequenas falhas, que chamará a atenção de quem quiser ler uma história ambientada no Oeste americano, com alguns elementos de steampunk acrescentados em boa dose.
Larry Nolen

Tinham fios soltos e partes metálicas.

18/04/2011

Sorria quando chegou ao meio da escadaria. Ao fim dela estava o proprietário do Posto de Trocas. Finnegan era o seu nome. Nas mãos um rifle apontado para seu peito. Os outros homens continuavam diante dos copos, mas as armas estavam sacadas. Repousavam sobre o balcão. Os copos de bourbon estavam pela metade.

— Você não é o Harvey! – cuspiu Finnegan.

— Harvey? – perguntou sem esconder a curiosidade. Não sabia mesmo quem era o sujeito.

— O dono do cavalo lá fora.

Aí tudo começou a fazer sentido. O tal caçador de búfalos que matara era o tal Harvey. Devia ter calculado que o cavalo o levaria para um lugar conhecido. E para próximo de caras conhecidos do dito cujo.

— Era amigo, é? – perguntou, desfazendo o sorriso, antecipando problemas e se regozijando com isso.

— E dos bons – retrucou Finnegan.

— Ele está na correnteza.

— Ele está o quê? – Finnegan pareceu confuso – Você é uma espécie de maluco, é?

Não estava certo do que havia dito. Nem podia explicar o que a correnteza, qualquer uma, tinha a ver com mortes e mortos. Mas as palavras saíram-lhe da boca com naturalidade. A mesma naturalidade com que sacara e atirara em Harvey.

— Não quero confusão – disse, contradizendo sua vontade mais profunda. O olhar varreu o ambiente numa fração de segundos. Três homens armados com a atenção nele. Um deles pronto para puxar o gatilho. O que seria feito a qualquer instante.

— Só quero beber alguma coisa e ir embora – Intimamente imaginava que faria exatamente isso. Mas sem testemunhas para vê-lo partir.

Então sacou o Colt.

O rifle nas mãos de Finnegan nem chegou a disparar. O Colt foi derramando balas em sucessão espantosa. A mão apontava para todos os lados e o gatilho ia sendo puxado. A fumaça e o cheiro de pólvora encheram o Posto. Foram três balaços no Finnegan. Primeiro um, depois outro no segundo homem e outro no terceiro. Completou com mais dois quando reparou que ele não havia caído. Continuava de pé, embora meio fora de si, tremendo todo, ainda com o rifle nas mãos.

Das três balas, duas foram na cabeça. A segunda e a terceira. A primeira encheu-lhe o peito. Os homens no balcão ainda sorriam. Os olhos esgazeados. As cabeças furadas, ambas na mesma altura, entre os olhos, assim como com o tal Harvey. Derramaram-se no chão, desaparecendo atrás do balcão.

Finnegan zunia. Seus olhos reviravam. O rifle caíra. Ele cambaleava para um lado, depois para outro. Estranho e incompreensível. Apontou mais uma vez. Num dos olhos. Era para ser o derradeiro. O que põe fim à conversa. Mas foi interrompido antes do disparo. Maryanne apareceu de algum lugar e, num grito, se atirou sobre suas costas.

Foi como ser atingido por uma rocha. A mulher pesava bem mais do que fazia supor a bela figura. Desceu o que restava da escadaria, carregando-a sobre si, seus braços apertando-o num abraço sufocante. Chocaram-se contra Finnegan.

Caíram todos. Tentou se livrar, mas era como estar sendo esmagado pelo abraço de um urso. Nem titubeou. Apontou o Colt para trás, bem junto ao pescoço e disparou duas vezes. Ignorava que não deveria ter mais que uma bala disponível na câmara. Mas saíram duas. E ambas fizeram a cabeça chacoalhar o suficiente para livrá-lo do aperto. Rastejou para longe dela, se levantou e ficou observando Finnegan e a mulher soltando parafusos no chão. Era desconcertante.

Aproximou-se de ambos. O Colt bem apontado. Chutou Finnegan uma vez. Era pesadão. Cutucou a mulher. Ela idem. Não sabia o que eram os dois. Tinham fios soltos. Partes metálicas. Balbuciavam coisas sem sentido. Não sabia se coisas como essas podiam ser mortas. Não eram humanos. Não eram mesmo.

Voltou a atenção aos dois homens caídos. Eram aparentemente normais. Sangraram, deixando uma poça grande no chão. Os copos de bourbon sobre o balcão. Seus olhos lacrimejaram, mas bebeu o que havia neles e ainda o que sobrava numa das garrafas. Arrotou, enfiando o Colt no coldre, não sem antes abrir o tambor e verificar que estava carregado. Como se não tivesse disparado nenhuma bala.

Saiu do Posto e deu de cara com um garoto. Olhos esbugalhados. Olhando-o como se estivesse diante de uma aparição. Não sabia há quanto tempo estava lá, vendo tudo, assistindo a tudo. Ponderou se devia matá-lo também. Não fez isso.

— Que gente é aquela? – Perguntou indicando o Posto com o queixo.

O menino permaneceu mudo.

— Quem é você?

O menino piscou os olhos, rápido.

— Ajudante. Fico nas máquinas.

— Maquinas?

Parou de piscar e olhou para o Colt. Absorto pelo brilho do metal.

— Pra que lado encontro a cidade?

— Siga para Leste na direção das colinas. Downtown fica depois da Garganta do Enlouquecido.

Montou, esporeando o cavalo, que saltou para frente seguindo na direção das colinas que nem estavam tão longe. O bourbon ainda lhe queimava a garganta.

Já saíram as primeiras provas de O Peregrino.

04/03/2011

Saíram ontem a noite as primeiras imagens das provas de O Peregrino. Fico muito satisfeito em ver o meu bebê prestes a vir ao mundo. É uma emoção sempre intensa, mesmo quando já publicamos outros livros.

O Peregrino é, com certeza, o livro mais bem trabalhado até agora, sem os problemas de revisão do primeiro (Síndrome de Cérbero – 2007), sem os problemas (depois corrigidos, mas aí a imagem já tinha ido pro beleléu) de desmantelamento (sou conhecido como o autor de Fome, o livro que veio em fascículos) do segundo (Fome – 2008).

Trata-se de uma obra feita com capricho nos mínimos detalhes, da trama ao acabamento e editoração.

Já se encontra em pré-venda e pode ser encomendado nas livrarias virtuais. E logo, poderá ser encontrado numa livraria perto da sua casa.

Visitem o link abaixo e vejam outras imagens de O Peregrino além de provas e impressões de outros livros da Editora Draco, como O Baronato de Shoah de José Roberto Vieira, O castelo das águias de Ana Lúcia Merege e Crônicas de Atlântida, o tabuleiro dos deuses de Antonio Luiz M. C. Costa.

https://picasaweb.google.com/ericksama/MesaDoEditor03032911#

E o Peregrino vem aí…

06/01/2011

Clique na imagem para vê-la maior

Eu já vinha aguardando de longa data por esse livro. De início, pensei que seria publicado ainda em 2010, mas problemas de agenda de um lado e demoras na revisão e necessidade de reescrever algumas partes de outro, acabaram jogando o lançamento para 2011.

Deposito muita confiança nele, que é, eu diria, um divisor de águas dentro de minha própria experiência prática literária. Podem achar uma enorme presunção de minha parte afirmar antecipadamente que se trata de muito boa leitura e de que os que o pegarem em mãos para lê-lo ficarão bastante satisfeitos.

Mas afirmo isso sem medo de errar e sem me importar se me acharão presunçoso, ou não.

Nunca fui muito dado a grandes modéstias, mesmo… 🙂

Não se trata de uma joia da literatura moderna, perfeitamente integrada dentro dos cânones. Mesmo porque NÃO É literatura realista. Todavia, me preocupei bastante com a linguagem e dei a ela uma atenção redobrada, garantindo ao leitor exigente um texto mais burilado.

Jamais poderia deixar de lembrar-me dos leitores beta que acompanharam a história do começo ao fim, comentando, indicando problemas, apontando inconsistências, me ajudando a melhorar o cenário e a ambientação e corrigindo o texto.

Antonio Luiz Costa, Eric Novelo, Erick Santos (editor sempre mete o dedo), Romeu Martins e Saint-Clair Stockler.

As opiniões finais de todos esses leitores foram muito animadoras e me fizeram acreditar na qualidade da obra.

Meu muito obrigado a todos eles.

Assim, convido-os a ombrear O Peregrino e seu fantástico Colt45. Acompanhem-no por três cidades, enfrentem com ele inimigos terríveis, assistam o desenrolar da trama até o último disparo.

Tenho certeza de que vão gostar muito.

Para lá do Posto de trocas do Finnegan, para lá da Garganta do enlouquecido (muito cuidado aos que forem atravessá-la), existem três cidades. Em duas, Downtown e Middletown, os cidadãos vivem massacrados pelo jugo totalitário imposto por Uptown, a terceira delas.

De Uptown vêm abutres terríveis, delegados simbiontes mortíferos e fantásticos mecanismos cujas funções extrapolam a mais fértil imaginação.

Só uma coisa une todas as cidades: a crença na vinda de um homem, na vinda de um salvador. A crença na vinda do Peregrino.

O romance O Peregrino fala de duelos heroicos, amizade e coragem. Fala também de cobiça, ódio e perseguição. Narra a jornada de um homem em busca de crianças perdidas, de pistas para esclarecer seu passado misterioso e de suas próprias e assustadoras verdades.

Ambientado no meio oeste norte americano nos idos de 1870, este romance promete tudo, menos tédio. Com ritmo narrativo intenso e final surpreendente, O Peregrino tem tudo para ser um dos principais lançamentos do ano dentro da literatura de gênero nacional.

Sobre o autor:

Tibor Moricz: filho de húngaros, é um paulistano nascido em 1959. Publicitário e escritor, publicou Síndrome de Cérbero (2007) e Fome (2008). É um dos organizadores dos dois primeiros volumes da coleção Imaginários e capitão do bem sucedido blog internacional de entrevistas ficcionais From Bar to Bar. Premiado em concursos literários, tem contos publicados em revistas virtuais e em papel.

 

Clique na imagem para vê-la ainda maior

ISBN: 978-85-62942-15-0
Capa: Erick Santos

Gênero: Literatura Fantástica – Faroeste
Formato: 14cm x 21cm
Páginas: 196 em preto e branco, papel pólen bold 90g
Capa: Cartão 250g, laminação fosca, com orelhas de 6 cm
Preço de capa: R$ 35,90

Disponível em: 15/03/2011


Draco. Do latim, dragão.


O Peregrino: primeira entrevista.

12/03/2010

Fui procurado pelo Conselho Steampunk paulista para uma entrevista. Me senti honrado, claro. O assunto não poderia ser outro que não o lançamento breve de O Peregrino, romance que mistura habilmente ficção científica e fantasia.

Sigam o link abaixo e conheçam mais alguns detalhes da trama que ainda não foram revelados.

http://nocturlabio.steambook.com.br/2010/03/12/vapor-engenho-e-arte/

http://sp.steampunk.com.br/2010/03/12/o-peregrino/

Romance O Peregrino anuncia editora.

22/01/2010

Aguardei até que algumas negociações se resolvessem para anunciar a editora que publicará meu novo romance O Peregrino. Não acabou muito diferente do que eu já esperava, dentro de um exercício de adivinhação baseado em dados mais ou menos consistentes. A Editora Draco abraça mais um projeto para este ano e publicarei meu terceiro livro em 4 anos, com mais dois já engatilhados para breve.

O Peregrino nasceu de uma brincadeira que costumo fazer com bastante frequência. Começar a escrever sem uma ideia na cabeça. Digitando palavras seguidas, deixando-as completarem parágrafos. Um parágrafo após o outro até eu me dar conta de que algo bom está nascendo (ou me dar conta do contrário e jogar tudo fora).

Era pra ser um conto mas se transformou num romance ambientado no meio oeste americano, ano aproximado de 1870.

Começa com um homem despertando numa caverna. Seminu, cabeludo, barbudo, com unhas longas e retorcidas. Sem memória nenhuma do passado. Ao seu lado, um Colt45 reluzente como novo.

Ele sai em busca de respostas para a sua vida e acaba realizando uma longa peregrinação por três cidades – Downtown, Middletown e Uptown – numa procura contrafeita por crianças perdidas. Além delas, ele está atrás de si mesmo e de seu passado nebuloso.

O romance não consegue se definir como gênero, sendo apontado por alguns leitores críticos como Steampunk, por outros como Fantasia.

Para mim, é a minha grande obra de 2010, independente do gênero a que pertença.

E tenho certeza de que será uma boa leitura para todos vocês.

Obrigado, Editora Draco.

E as coisas retornam aos seus lugares.

04/01/2010

As festas de fim de ano passaram, e as coisas voltam à normalidade. O É só outro blogue ficou algum tempo sem nenhuma atualização, respeitando meu recesso, embora, acreditem, eu tenha me sentido muitas vezes atraído em postar algumas coisas.

Me contive, em nome de um descanso necessário.

Agora vou retornando aos poucos, já que ainda estou de férias e isso me afasta bastante do contato virtual, limitando meus acessos a poucos minutos por dia (juro). Até dia 18 postarei esporadicamente. Depois disso, diariamente, ou quase.

Trago dois links. Num deles uma crítica bastante ácida de Rodrigo Novaes de Almeida ao meu conto Cibermetarealidade, da coletânea Contos imediatos, da Terracota Editora e organizado por Roberto de Sousa Causo. Publicado em seu Blog no dia 14 de dezembro, só fui tomar conhecimento dele no dia 02 de janeiro. Fiquei feliz em saber que ele dedicou ao meu conto quase o dobro de atenção que destinou a cada um dos demais. Sinal claro de que chamo a sua atenção, de uma forma ou outra. Muito obrigado, Rodrigo. Sua opinião – como a de todos – é importantíssima.

http://rodrigonovaesdealmeida.blogspot.com/2009/12/contos-imediatos-comentarios.html

Noutro, um site polonês dedicado à literatura de gênero, mais especificamente o Steampunk, relaciona meu livro O peregrino como lançamento futuro, para 2010. Bom ser citado internacionalmente. Faz-nos ver que temos alguma visibilidade, mesmo que quase insipiente.

http://steampunk.republika.pl/chrono03pl.html

Fora isso, vou anunciando para breve meus comentários sobre o Portal Fundação editado por Nelson de Oliveira e para o livro de Rodrigo Rosp, Fora de lugar, publicado pela Não editora.

Que todos tenham um excelente 2010. Que seja repleto de novos lançamentos, de relançamentos e de projetos vários que eclodam nos anos vindouros.

Viva!

De Bar em Bar ENTREVISTA Antonio Xerxenesky

26/11/2009

Essa entrevista contém SPOILERS.

O Saloon estava quase vazio. Assim como toda Downtown. Os poucos que lá ficaram exibiam feições radiantes, como se seus sonhos mais importantes estivessem em vias de se realizar.

Muito mais mulheres que homens. Aquelas cujos maridos ainda capazes de montar e cavalgar seguiram o sujeito a quem chamavam de O Peregrino.

O homem que, acreditavam, resgataria todas as crianças, filhos de Downtown, sequestradas fazia anos. O homem que traria a alegria de volta para a cidade.

Sorriso de poucos dentes. Olhos cansados, mas com um brilho indisfarçável. Atrás do balcão, guardando garrafas de destilados e tonéis de cerveja quente. Olhar perdido para além das portas de vai-e-vem. Delaney se aboletara no Saloon, cuidava dele para o barman que partira junto com o grupo em direção de Middletown. Afogava-se no álcool, antevendo o gozo que a visão de sua filha, raptada em tenra idade, lhe daria quando voltasse à cidade.

Eu estava numa mesa distante poucos metros da entrada do Saloon. Respirava o ar quente e parado, batucando a madeira com os dedos da mão esquerda. Uma garrafa de uísque vagabundo na frente. Vez ou outra olhava para a janela empoeirada, buscando na rua sem movimento um galopar aguardado.

Olhei para o relógio. Xerxenesky estava atrasado. Imaginei a cara dele tentando atravessar a Garganta do Enlouquecido, aparvalhado. Ri baixinho e bebi um gole do uísque. Senti arder a garganta e lacrimejar os olhos. Estava sendo maldoso. Ele não conseguiria atravessá-la e jamais chegaria ao encontro. Decidi apertar um dos botões do relógio e abreviar a sua vinda, mas um resfolegar me chamou a atenção. Olhei para fora, através do vidro, e o vi desmontando com alguma dificuldade. O chapéu de abas largas cobria seu rosto, ensombrando-o quase a ponto de não poder reconhecê-lo. Mas era ele, sem nenhuma dúvida.

Entrou no Saloon batendo as botas no chão com força demais. Se queria chamar a atenção, conseguiu. Delaney olhou para ele com desconfiança, fez um esgar contido, relanceou o olhar para mim, outro estranho no Saloon, e colocou lentamente uma das mãos para baixo do balcão. Imagino que tenha ficado acariciando a coronha da sua Winchester.

Xerxenesky me viu, ergueu um pouco o chapéu, livrando o rosto daquele telhado imenso, e sorriu. Era um sorriso cansado.

— Pensei que jamais passaria pela Garganta do Enlouquecido – comentei enquanto ele se sentava e jogava o chapéu de lado. Seus cabelos estavam molhados pelo suor.

— Além de perder um tempão tentando montar, parei no que parecia um posto de trocas. Finnegan’s era o nome, se não me engano. Cena horrível… Um homem e uma mulher, ou coisas parecidas, baleados.

— Simbiontes. Meio humanos, meio máquinas. – expliquei.

— Vi engrenagens, fios e óleo derramado. Que cenário louco é esse para o qual você me trouxe?

— O Peregrino. Meu romance que será publicado ano que vem. Achei a escolha conveniente.

— Pensei que cavalgaria até Mavrak. Se bem que todas as cidades do meio oeste americano se parecem. Em que ano estamos?

— Mil oitocentos e setenta. Ou coisa parecida.

— Se eu pedir uma tequila añeja ao velhote lá no balcão, tenho chances?

Apontei a garrafa de uísque e balancei a cabeça negativamente. Xerxenesky fez uma careta. Delaney trouxe mais um copo após um sinal meu. Deu uma boa olhada na gente e voltou para trás do balcão, para o abraço de seu bourbon, para a segurança da sua Winchester e para o conforto de suas memórias.

— São todos velhos assim nesta cidade? – perguntou Xerxenesky com discrição.

— Todos – respondi enquanto via seu rosto avermelhar depois de um gole tímido de uísque. Ia tossir, mas aguentou firme.

— Beatriz Rezende disse, na leitura que fez para a Copa de Literatura, que seus zumbis em Areia nos dentes são uma besteirada que você mesmo desqualifica na narrativa. Você concorda com ela?

Xerxenesky aguardou alguns instantes, tentando possivelmente uma sobrevida depois de experimentar o uísque. Engoliu em seco duas vezes e respondeu com a voz em curioso falsete.

— Acho a Beatriz Resende uma das melhores críticas brasileiras, mas discordo bastante dela nesse quesito. Meus zumbis são sérios, seríssimos. Uso eles para um punhado de metáforas, gosto de tudo que zumbis podem representar, estando nesse lugar nenhum entre a vida e a morte, cavando seu próprio espaço, saindo esfomeados do túmulo. Podemos jogar muitas coisas que nos incomodam pra baixo da terra, mas elas retornam, ah se retornam! Não desqualifico meus zumbis, não os considero besteira. Ao mesmo tempo, rio deles. Como todos os bons comediantes, é uma piada séria, contada com o rosto impassível.
E não só os meus zumbis, os dos outros. O uso “sério” dos zumbis é uma constante, até quando o filme parece uma piada. Muitos elogiaram o drama edípico do Areia nos dentes. Oras, não tem algo similar na mãe dominadora de Fome animal do Peter Jackson? E zumbis políticos, então, nossa, não tem toda a carreira do Romero? Zumbis não são besteirada, não para pessoas que respeitam eles por tudo que podem significar.

— Daniel Galera deve ter ficado surpreso com o resultado do jogo na Copa. – comentei.

— Sou terrivelmente fã dele, por isso pedi para que ele escrevesse a orelha do Areia nos dentes. Considero Mãos de cavalo o melhor romance brasileiro dos últimos vários anos. Tenho certas restrições quanto ao Cordilheira, os conflitos da protagonista são expostos muito claramente, não há dramas subjacentes. Além disso, há alguns personagens inverossímeis. Não obstante, não sei se concordo com o resultado. Daniel Galera é um escritor mais experiente, e, na minha opinião, um tanto mais talentoso, não cai em erros de amadorismo como o Areia. Se tratando do Cordilheira, diria que um empate seria o melhor resultado. Fosse uma briga entre Areia nos dentes e Mãos de cavalo, uh, não gostaria de estar perto. Meu livro voltaria da luta com 34 tiros no peito.

— Zumbis e faroeste. George Romero e John Wayne. Uma mistura interessante. A ideia veio de estalo ou você a procurou antes de escrevê-la?

— Eu diria George Romero e Clint Eastwood. Eastwood é mais atormentado que o corajoso caubói americano John Wayne. A ideia não é muito original, veio de um jogo que adorava na infância, Alone in the Dark 3, um faroeste com zumbis. A dificuldade foi: como escrever um faroeste nos dias de hoje, no Brasil, e como dizer coisas significativas através dele, não ficar só na brincadeirinha.

Tomei um gole do meu uísque – sem engasgar, já que me acostumara com ele – e ponderei outra questão quando entrou no Saloon uma jovem faceira e muito distante do perfil de moradores da cidade. Xerxenesky olhou para ela, embaraçado. Enrubesceu um bocado, abriu a boca e permaneceu assim, enquanto ela foi até o balcão e disse qualquer coisa para Delaney.

— Você a reconhece? – perguntei.

— Vienna – sussurrou, como se temesse que ela pudesse ouvi-lo. Depois bebeu o resto do uísque que tinha no copo de uma só talagada, como se fosse água – você não disse que estamos num cenário de O Peregrino? Ela é de Areia nos dentes. O que ela está fazendo aqui?

Olhei para o relógio, dei umas batidinhas no vidro e franzi o cenho.

— Deve estar com defeito – disse.

— E olhe lá! – exclamou Xerxenesky logo depois.

Olhei. A porta vai-e-vem do Saloon abriu e entrou por ela um xerife. Mas não era Bogus, o velho delegado de Downtown, e sim um sujeito alto, pele clara e cabelos pretos, um bigode espesso e bem aparado, dois chumaços de pelos como sobrancelhas. Estava pálido, mãos trêmulas. Numa delas um Colt. Suava frio.

— É o delegado Thornton – disse Xerxenesky, perplexo.

— Delegado, quem? – eu estava ainda mais perplexo.

O homem virou-se em nossa direção, avançou resoluto até diante de nossa mesa e olhou acusadoramente para Xerxenesky.

— É tudo culpa sua! – afirmou entredentes. – A cidade está sendo invadida por coisas que se arrastam em andrajos, putrefatos, mortos-vivos. Trate de fazer alguma coisa!

— Isso é um truque desse relógio estranho, não é?  – perguntou Xerxenesky olhando para mim. Enquanto isso, o xerife Thornton foi até a entrada do Saloon e virou uma mesa diante da porta, bloqueando-a.

— Sei tanto quanto você – respondi.

Olhei para fora, pelo vidro, e nada vi. A rua crestada pelo Sol. O ar poeirento. Nenhuma viva alma que pudesse justificar o medo aparente do xerife nem a acusação feita contra Xerxenesky. Considerei o evento como uma discrepância quântica. Algo que deveria estudar em outra ocasião. No momento tinha coisas mais importantes para cuidar.

— Quando você escreve se preocupa de fato com a mensagem, com o que dizer, ou vai escrevendo e a mensagem surge, se surge, durante a construção da narrativa?

Xerxenesky olhou para mim, depois para o xerife, que tentava obstruir a entrada com uma segunda mesa. Vienna olhava tudo, assustada, e Delaney permanecia sorumbático atrás do balcão, ignorando a bagunça. Respirou fundo, deu uma espiada para fora e respondeu pausadamente, tentando manter a calma.

— Por mais brega e retrógrado que isso possa parecer, me preocupo muito com a mensagem. A forma é essencial, sem dúvida, mas estou cansado de livros que são só virtuosismo e demonstração de experimentalismo. Antigamente eu dizia que o importante era “como dizer”, já que só existem 5 ou 6 temas no mundo, e estamos condenados a nos repetir. Hoje penso diferente: as questões éticas, morais, políticas são inescapáveis. Pensemos nelas, portanto. Talvez não seja tão importante afirmar, talvez o ideal seja procurar fazer as perguntas certas.

— Você está armado? – perguntei de supetão.

— Armado? – ele balbuciou. Depois tateou no cinturão e trouxe de lá um Colt 45. Segurava-o entre o indicador e o polegar, como se tivesse algo nojento nas mãos.

— Bom. – comentei. Peguei também o meu e verifiquei o tambor. Estava carregado. Um gorgolejo estranho ia lentamente sobrepujando os arquejos assustados de Vienna, os suspiros saudosistas de Delaney e o arrastar de pés que o xerife Thornton provocava no empurra-empurra que ia promovendo. Xerxenesky manteve a arma suspensa entre os dedos, mas o olhar ergueu-se, arregalado, para a janela.

— Os Marlowes em peso estão aí para uma visita – balbuciou, assustado.

Virei-me e congelei. Corpos com as carnes se despregando, olhos pendurados nas órbitas, orelhas carcomidas, bocas se movimentando incessantes como se buscassem algo para comer. Uma comida qualquer que estivesse dentro do Saloon. Preferencialmente viva.

Foi um pega pra capar.

Nós nos erguemos num salto. O Colt do Xerxenesky caiu no chão e escorregou alguns metros. Ele foi buscá-lo, menos aterrorizado com a arma do que com as mandíbulas mastigantes que forçavam entrada no Saloon. O xerife Thornton gritava para Delaney ajudá-lo, mas esse, já embotado pelo álcool, nada mais fazia que cantarolar uma antiga canção de ninar. Estava entregue. Vienna alternava-se, ora olhando para as mesas viradas ora para o andar de cima, onde encontraria um último refúgio numa fuga desesperada.

Resolveu que ajudaria a si mesma e correu, subindo as escadas em busca de proteção num dos quartos.

Eu não tinha nenhuma intenção de me entregar numa refrega com zumbis e ficava socando o botão do relógio – que estava travado – sem parar. Xerxenesky apontava para o Xerife e para as mesas, pronto para disparar em qualquer coisa e a qualquer momento. Estávamos tensos e numa espécie de credulidade e incredulidade alternantes. Estávamos numa realidade alterada, mas não a que eu havia programado.

Por fim as mesas sucumbiram à pressão externa. Ao mesmo tempo em que o xerife Thornton caía no chão, soterrado por elas e por corpos rastejantes e em farrapos, Xerxenesky puxava o gatilho. Vários pingentes do lustre foram arrancados com o disparo, evidentemente sem nenhuma direção.

Dei dois tiros. Ambos em alvos certos, embora nenhum deles tenha surtido efeito. Só depois dos disparos que me lembrei de que deveria atirar na cabeça. Vimos Delaney ser subjugado. Caíram em cima, arranhando, mordendo, arrancando pedaços.

Agarrei Xerxenesky pelo braço e comecei a arrastá-lo para cima. Um dos mortos-vivos sorria para ele, que parecia aturdido, ou pelo medo, ou pela perplexidade.

— Samuel – articulou o nome com extrema dificuldade. E então apontou, ergueu o cão e puxou o gatilho. A cabeça do zumbi explodiu e o corpo desabou pesadamente, sem mais nenhuma motilidade.

— Viva! – exclamei, surpreso – Não foram os pingentes do lustre, desta vez.

Saímos em disparada enquanto a turba malevolente ia subindo a escadaria, deixando cair pedaços de si mesmos pelo caminho. Tentamos uma porta, mas estava trancada. Tentamos outra, também estava. Ia atirar na fechadura quando ela foi aberta. Vienna deixou que entrássemos. Passamos a chave e fomos até a janela. Talvez pulássemos para a rua, talvez fugíssemos por ali. Mas desistimos assim que vimos a cidade tomada por mortos-vivos. Formavam uma maré cuja ondulação parecia se perder no horizonte.

— Estamos fodidos – disse Xerxenesky.

— Aqui… – mostrou Vienna. – Papel e caneta. – E os entregou para Xerxenesky. Ele os tomou nas mãos e olhou para mim, confuso.

— Reescreva a história – continuou ela – Refaça-a. Detestei morrer daquele jeito. Foi muito i-di-o-ta! Jamais que Juan atiraria em mim. Nós nos amávamos. E o pai dele já era um pedaço de carne morta. Vamos! Reescreva e tudo isso acaba.

Dei as costas para eles e fui me refugiar num canto do quarto, sentado numa poltrona puída. Movi a coroa do relógio, reposicionei seus ponteiros, apertei os botões, todos eles. Estavam bloqueados, presos. Não funcionavam. A porta do quarto estava sendo socada. Batiam nela. Chutavam, arranhavam, mordiam a madeira. Pensei no que poderia estar errado, mas nada me vinha à mente.

“Reescreva e tudo isso acaba”. A frase retumbou pela minha cabeça.

— Você atiraria em seu pai? – perguntei pro Xerxenesky.

— O quê? – ele retornou, ainda com o papel e a caneta nas mãos.

— Na mesma situação, você atiraria no seu pai? Pense que ele não está mais vivo, é só um pedaço de carne ambulante, movido por uma estranha e antiga magia. Atiraria?

— Que interesse tem isso? Que pergunta mais idiota!

— A ficção está interferindo nesta realidade. Responda a questão, ou…

A porta veio abaixo. Entraram, gorgolejantes, ansiosos e famintos. Avançavam resolutos. Thornton e Delaney à frente. Levantei-me e gastei as balas do meu Colt nos primeiros. Todos derrubados. Na pouca distância, não havia como errar. Xerxenesky fez o mesmo. Os corpos caídos faziam obstáculo, mesmo assim facilmente transponível. Eu apertava o botão travado do relógio quântico, o Xerxenesky jogava neles o revólver descarregado. Vienna era agarrada e arrastada pra dentro da matilha, aos gritos.

— Atirava, merda! A-TI-RA-VA!

Tudo parou. Vienna de gritar – aliás, nos aparentou estar sorrindo nesse momento – e os zumbis de avançarem. Só eu e ele, olhando um para o outro, trêmulos e pálidos. Ergui o pulso e toquei no botão. Estava solto. Finalmente funcionando.

— Vienna filha da puta – reclamou Xerxenesky – Aperta isso, vai… – suplicou por fim.

Apertei.

Leitores-Beta, agradeça aos deuses por existirem.

22/10/2009

Pelo no Ovo

Não há nada mais angustiante que, ao terminar um novo trabalho, enviá-lo para leitores-beta e aguardar as porradas que virão. E elas sempre vêm. Mande para cinquenta bem aventurados leitores e os cinquenta apontarão problemas em trechos onde você jurava não existir nenhum.

Mande para mais cem depois disso. Novos problemas serão detectados.

Claro que você não precisa concordar com todos eles. Mas quando mais de um leitor aponta o mesmo trecho, esqueça todo seu pré-conceito com relação àquele fragmento da história e trate de reescrevê-lo.

E nunca mande para amigos ou familiares. Por mais bem intencionados que estejam, sempre quererão agradá-lo.

Entreguei O Peregrino, meu novo romance, para quatro homens corajosos. Dois deles mais próximos, escritores como eu, tarimbados, cultos e, embora atarefadíssimos, dispostos a me ajudar. Os outros dois, embora nem tão próximos também conhecidos – e igualmente atarefados; escritores, formadores de opinião, críticos, resenhistas.

O romance (240 páginas) recebeu 198 indicações de problemas. Muitos deles eu nem imaginava que existissem. O resultado final, depois de exaustiva releitura e intermináveis correções, ficou muito bom.

Acabou aí a tormentosa Via Crucis? Não. Agora existem dois editores canetando o original, prontos para me esfregar na cara outra penca de possíveis problemas.

Como o Delfin disse, não existe o leitor ideal. Sempre vão achar um pelo no ovo.

Mesmo que você faça depilação a laser.